Isaías 9
Argumento
Neste capítulo, o profeta, conforme as instruções que recebeu em Isaías 3:10, 11, diz ao justo: Tudo irá bem com você; mas “Ai do perverso, lhe irá mal”. Aqui estão:
I. Promessas graciosas aos que se apegam à lei e ao testemunho. Enquanto os que procuram espíritos familiares serão lançados na escuridão e nas trevas, eles verão uma grande luz, alívio em meio às suas angústias, figura da graça do evangelho:
- Na doutrina do Messias (vv. 1-3). 2. Em suas vitórias (v. 4, 5). 3. Em seu governo e domínio como Emanuel (v. 6, 7).
II. Ameaças terríveis contra o povo de Israel, que se revoltaram contra a casa de Davi e eram seus inimigos, e que seriam levados à ruína completa: que seu orgulho os abateria (vv. 8-10); que seus vizinhos fariam deles presa (v. 11, 12); que, por causa de sua impenitência e hipocrisia, todos os seus ornamentos e apoios seriam cortados (vv. 13-17).
E que pela cólera de Deus contra eles e pela cólera deles uns contra os outros, seriam levados à ruína completa (vv. 18-21). E isso é figura da destruição final de todos os inimigos do Filho de Davi e de seu reino.
Juízo e Misericórdia; A Promessa da Graça do Evangelho; A Promessa do Messias; Os Títulos do Messias. (a.C. 740.)
Versículos 1 a 7
As primeiras palavras deste capítulo claramente remetem ao fim do anterior, onde tudo parecia sombrio e triste: “Eis tribulação, escuridão e trevas”; muito ruim, contudo não tão ruim a ponto de impedir que surja luz nas trevas para os retos (Salmos 112:4) e “No tempo da tarde haverá luz” (Zacarias 14:7).
Contudo, não haverá trevas como as que houve em outras ocasiões, seja da mesma espécie, seja do mesmo grau. Repare: nos piores tempos, o povo de Deus tem um “contudo” com que se consolar, algo que atenua e contrabalança suas tribulações: “perseguidos, mas não desamparados” (2 Coríntios 4:9); “entristecidos, contudo sempre alegres”, 2 Coríntios 6:10.
É consolo para nós, quando tudo está mais sombrio, saber que aquele que forma a luz e cria as trevas (Isaías 45:7) estabeleceu os limites de ambas e pôs uma em contraste com a outra (Gênesis 1:4). Ele pode dizer: “Até aqui irão as trevas, até aqui durarão, e não mais longe nem por mais tempo”.
I. Três coisas são prometidas aqui, e todas apontam, em última análise, para a graça do evangelho.
Naquele tempo, os santos deveriam se consolar com as esperanças dessa graça em todo dia nublado e escuro, assim como agora devemos nos consolar no tempo de tribulação com as esperanças da segunda vinda de Cristo, embora ela esteja distante de nós, como a primeira estava distante deles.
A misericórdia que Deus reserva para sua igreja nos últimos dias também pode sustentar os que choram com ela por suas calamidades atuais. Temos aqui a promessa:
- De uma luz gloriosa, que abrandará e dissipará aos poucos as trevas, de modo que elas não serão como antes: não serão como no tempo de sua aflição. Não haverá tempos tão escuros como os de antes, quando ele primeiro afligiu levemente a terra de Zebulom e Naftali, distante e mais exposta às incursões dos inimigos vizinhos.
Depois ele afligiu mais gravemente a terra no caminho do mar e além do Jordão (v. 1), provavelmente em referência aos dias em que Deus começou a reduzir Israel e a feri-lo em todas as suas regiões (2 Reis 10:32).
Repare: Deus prova o efeito de juízos menores sobre um povo antes de trazer outros maiores. Mas, se uma aflição leve não cumprir em nós sua obra de nos humilhar e reformar, devemos esperar ser afligidos mais gravemente, pois, quando Deus julga, ele prevalece.
Aqueles foram tempos sombrios para a terra de Zebulom e Naftali; havia trevas de angústia na Galileia dos gentios, tanto por causa da ignorância quanto por causa das aflições.
Quanto à ignorância, não falavam segundo a lei e o testemunho; por isso não havia luz neles (Isaías 8:20). Quanto às aflições, sua situação exterior era desesperadora. Ambas aparecem juntas em 2 Crônicas 15:3, 5: “Israel tem estado sem o verdadeiro Deus e sem sacerdote que o ensinasse”, e “naqueles tempos não havia paz”.
As trevas anunciadas em Isaías 8:22, porém, não prevalecerão nesse grau, pois (v. 2) “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz”.
(1.) No tempo em que o profeta viveu, havia muitos profetas em Judá e Israel. Suas profecias eram uma grande luz tanto para orientação quanto para conforto para o povo de Deus que se apegava à lei e ao testemunho. Além da palavra escrita, eles tinham a profecia.
Havia aqueles que lhes haviam mostrado por quanto tempo (Salmos 74:9), o que era uma grande satisfação para eles quando, por causa de suas tribulações exteriores, se assentavam nas trevas e habitavam na terra da sombra da morte.
(2.) Isso teria pleno cumprimento quando nosso Senhor Jesus começasse a aparecer como profeta e a pregar o evangelho na terra de Zebulom e Naftali e na Galileia dos gentios.
E os profetas do Antigo Testamento, assim como eram testemunhas dele, assim eram seus tipos. Quando ele veio habitar nos territórios de Zebulom e Naftali, diz-se que essa profecia se cumpriu (Mateus 4:13-16). Repare:
[1.] Os que não têm o evangelho andam nas trevas, sem saber o que fazem nem para onde vão. Habitam na terra da sombra da morte, em densas trevas e no maior perigo.
[2.] Quando o evangelho chega a algum lugar, a alguma alma, chega a luz, uma grande luz, uma luz resplandecente que brilhará cada vez mais. Ela deve ser bem-vinda para nós como a luz é para aqueles que se assentam nas trevas, e devemos prontamente acolhê-la, tanto porque tem tão soberana utilidade para nós quanto porque traz consigo sua própria evidência. Na verdade essa luz é doce.
- De um aumento glorioso e de uma alegria geral decorrente dele (v. 3): “Tu, ó Deus, multiplicaste a nação, a nação judaica para a qual reservas misericórdia. Embora tenha sido reduzida por um juízo doloroso após outro, contudo agora começaste a multiplicá-la de novo”.
O número de habitantes de uma nação constitui sua força e riqueza, se a multidão for trabalhadora; e é Deus quem faz crescer as nações (Jó 12:23). Contudo, a passagem prossegue: “Tu não aumentaste a alegria, a alegria e a jovialidade carnais, nem as coisas que geralmente são sua matéria e ocasião.”
“Mas, apesar disso, eles se alegram diante de ti: há entre eles muita alegria espiritual séria, alegria na presença de Deus, com os olhos voltados para ele.” Isso se aplica muito bem aos tempos da luz do evangelho mencionada no v. 2. Então Deus multiplicou a nação, o Israel do evangelho.
“E para ele”, como leem os massoretas, “aumentaste a alegria, para cada um que recebe a luz.” As palavras seguintes favorecem essa leitura: “Eles se alegram diante de ti; apresentam-se perante ti nas santas ordenanças com grande alegria.”
“Sua jovialidade não é como a de Israel debaixo de suas videiras e figueiras (não aumentaste aquela alegria), mas está no favor de Deus e nos sinais de sua graça.” Repare: quando o evangelho chega com sua luz e seu poder, traz alegria consigo, e os que o recebem devidamente se alegram nele, sim, e ainda se alegrarão.
Por isso a conversão das nações é profetizada nestes termos (Salmos 67:4): “Alegrem-se as nações e cantem de alegria”. Veja Salmos 96:11.
(1.) É uma alegria santa: “Eles se alegram diante de ti”. Alegram-se em espírito, como Cristo fez (Lucas 10:21), e isso se dá diante de Deus. Aos olhos do mundo estão sempre como entristecidos, e, contudo, aos olhos de Deus estão sempre alegres (2 Coríntios 6:10).
(2.) É uma grande alegria: como a alegria na colheita, quando os que semearam com lágrimas e aguardaram com longa paciência os preciosos frutos da terra colhem com alegria; e como a alegria dos homens na guerra quando, após uma batalha perigosa, dividem os despojos.
O evangelho traz fartura e vitória. Mas os que desejam sua alegria devem esperar trabalho árduo, como o lavrador antes da alegria da colheita, e conflito árduo, como o soldado antes da alegria de dividir os despojos. Quando ela vier, porém, compensará abundantemente o esforço. Veja Atos 8:8, 39.
- De uma liberdade e uma soltura gloriosas (v. 4, 5): “Eles se alegrarão diante de ti, e com razão, pois quebraste o jugo de sua carga e o aliviaste; ele já não será escravo. Quebraste a vara sobre seu ombro e o bastão de seu opressor, a vara dos perversos que por muito tempo repousou sobre a sorte dos justos”.
Assim o jugo dos midianitas foi quebrado do pescoço de Israel pela ação de Gideão. Se Deus toma libertações passadas como modelo para agir em nosso favor, devemos tomá-las como ânimo para esperar nele e buscá-lo (Salmos 83:9): “Faze-lhes como aos midianitas”.
Não está claro a que libertação temporal isso se refere. Provavelmente, a impedir que Senaqueribe se tornasse senhor de Jerusalém, o que ocorreu, como no dia de Midiã, pela mão de Deus, sem mediação. Enquanto outras batalhas costumavam ser vencidas com muito barulho e ao custo de muito sangue, essa se daria em silêncio, sem ruído.
Sob sua glória Deus acenderá um fogo (Isaías 10:16); “um fogo não soprado o consumirá” (Jó 20:26). Mas, sem dúvida, a passagem olha mais adiante, para os frutos e efeitos benditos da grande luz que visitaria os que estavam assentados nas trevas: ela traria consigo liberdade, “libertação aos cativos” (Lucas 4:18).
(1.) O desígnio do evangelho e de sua graça é quebrar o jugo do pecado e de Satanás, remover a carga da culpa e da corrupção e nos libertar da vara desses opressores, para que sejamos conduzidos à gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Cristo quebrou o jugo da lei cerimonial (Atos 15:10; Gálatas 5:1) e nos livrou das mãos de nossos inimigos para que o sirvamos sem temor (Lucas 1:74, 75).
(2.) Isso é feito pelo Espírito, que age como fogo (Mateus 3:11), e não como se trava a batalha do guerreiro, em meio a ruído confuso. Não: as armas de nossa guerra não são carnais.
Isso é feito pelo Espírito de juízo e pelo Espírito de queima (Isaías 4:4), como no dia de Midiã, mediante uma obra de Deus nos corações dos homens. Cristo é nosso Gideão; é sua espada que realiza maravilhas.
II. Mas quem é, e onde está, aquele que empreenderá e realizará essas grandes coisas em favor da igreja? O profeta nos diz (v. 6, 7) que elas serão realizadas pelo Messias, Emanuel, o filho de uma virgem cujo nascimento ele havia predito (Isaías 7:14).
Agora, no estilo profético, ele fala desse nascimento como algo já ocorrido: o menino nasceu, não apenas porque era tão certo, e ele tinha tanta certeza disso, como se já tivesse acontecido, mas também porque a igreja, antes da encarnação de Cristo, colhia grande benefício e vantagem por seu empreendimento em virtude da primeira promessa a respeito da descendência da mulher (Gênesis 3:15).
Assim como ele era o Cordeiro morto, era também o menino nascido desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8). Todas as grandes coisas que Deus fez pela igreja do Antigo Testamento foram feitas por ele, como Palavra eterna, e por amor dele, como Mediador.
Ele era o Ungido para quem Deus olhava (Salmos 84:9). Foi por amor do Senhor, do Senhor Cristo, que Deus fez resplandecer seu rosto sobre o santuário (Daniel 9:17). A nação judaica, sobretudo a casa de Davi, foi muitas vezes preservada de uma ruína iminente apenas porque aquela bênção estava nela.
Que garantia maior, por isso, poderia ser dada à igreja de Deus de que seria preservada e seria objeto do zelo especial da Providência divina, do que esta: que Deus tinha tão grande misericórdia reservada para ela? O parafrasta caldeu entende a passagem como referência ao homem que permanecerá para sempre, o próprio Cristo.
É uma profecia ilustre a respeito dele e de seu reino, na qual, sem dúvida, os que esperavam a consolação de Israel se apoiavam muito, à qual recorriam frequentemente e que liam com prazer.
- Veja-o em sua humilhação. Aquele que é o Deus poderoso é um menino que nasceu; o Ancião de dias torna-se uma criança de um palmo de comprimento; o Pai eterno é um Filho que foi dado. Tal foi sua condescendência ao assumir nossa natureza; assim se humilhou e se esvaziou para nos exaltar e encher.
Ele nasceu em nosso mundo. A Palavra se fez carne e habitou entre nós. Ele é dado, livremente dado, para ser para nós tudo aquilo que nossa situação, em nosso estado decaído, exige. Deus amou o mundo de tal maneira que o deu. Ele nasceu para nós, é dado a nós, seres humanos, e não aos anjos que pecaram.
Isso é dito em tom de triunfo, e o anjo parece aludir a essas palavras ao anunciar aos pastores a chegada do Messias (Lucas 2:11): “Para vós nasceu, neste dia, um Salvador”. Repare: o nascimento de Cristo e sua dádiva a nós são o grande fundamento de nossas esperanças e a fonte de nossas alegrias nos momentos de maior dor e temor.
- Veja-o em sua exaltação. Esse menino, esse filho, esse Filho de Deus, esse Filho do homem que nos foi dado é capaz de nos fazer muito bem. Pois está investido da mais alta honra e do mais alto poder, de modo que não podemos deixar de ser felizes se ele for nosso amigo.
(1.) Veja a dignidade à qual foi elevado e o nome que tem acima de todo nome. Ele será chamado, e por isso temos certeza de que é e será, “Maravilhoso, Conselheiro” etc. Seu povo o conhecerá e adorará por esses nomes e, por ele corresponder plenamente a eles, se sujeitará a ele e nele confiará.
[1.] Ele é maravilhoso, conselheiro. É justo que seja chamado maravilhoso, pois é tanto Deus quanto homem. Seu amor maravilha os anjos e os santos glorificados; foi maravilhoso em seu nascimento, vida, morte, ressurreição e ascensão. Uma série constante de maravilhas o acompanhou e, sem dúvida, grande foi o mistério da piedade a seu respeito.
Ele é o conselheiro, pois tinha íntima familiaridade com os conselhos de Deus desde a eternidade e aconselha os filhos dos homens, olhando por nosso bem-estar. É por meio dele que Deus nos deu conselho (Salmos 16:7; Apocalipse 3:18). Ele é a sabedoria do Pai e foi feito por Deus sabedoria para nós.
Alguns unem esses dois nomes: ele é o maravilhoso conselheiro, uma maravilha ou um milagre de conselheiro. Nisso, como nas outras coisas, tem a preeminência; ninguém ensina como ele.
[2.] Ele é o Deus poderoso, Deus, o Poderoso. Assim como tem sabedoria, assim tem força para levar a cabo seu empreendimento. É capaz de salvar plenamente, e a obra do Mediador é tal que nenhum poder menor que o do Deus poderoso poderia realizá-la.
[3.] Ele é o Pai eterno, ou o Pai da eternidade. É Deus, um com o Pai, que é de eternidade a eternidade. É o autor da vida e da felicidade eternas para os seus e, assim, o Pai de uma eternidade bem-aventurada para eles.
É o Pai do mundo vindouro, como diz a Septuaginta, o pai da era do evangelho, que é sujeita a ele, não aos anjos (Hebreus 2:5). Desde a eternidade ele foi o Pai da grande obra da redenção: seu coração estava nela. Ela foi produto de sua sabedoria como conselheiro e de seu amor como Pai eterno.
[4.] Ele é o Príncipe da paz. Como Rei, preserva a paz, ordena a paz; ou melhor, cria a paz em seu reino. Ele é nossa paz; é sua paz que tanto guarda os corações de seu povo quanto reina neles. Não é apenas um príncipe pacífico, cujo reinado é pacífico, mas o autor e doador de todo bem, de toda a paz que constitui a felicidade presente e futura de seus súditos.
(2.) Veja o domínio ao qual foi elevado e o trono que possui acima de todo trono (v. 6): “O governo estará sobre seu ombro”, somente o seu. Ele não só trará no ombro a insígnia do governo, a chave da casa de Davi (Isaías 22:22), mas também carregará seu peso.
O Pai lhe entregará esse governo, de modo que seu direito de governar será incontestável; ele o assumirá, de modo que não haverá dúvida de que governará bem. Pois porá seu ombro à tarefa e nunca se queixará, como Moisés, de estar sobrecarregado: “Eu não sou capaz de carregar todo este povo” (Números 11:11, 14).
Coisas gloriosas são ditas aqui sobre o governo de Cristo (v. 7):
[1.] Será um governo crescente. Será multiplicado; os limites de seu reino se alargarão cada vez mais, e muitos serão acrescentados a ele todos os dias. Seu esplendor crescerá, e ele brilhará cada vez mais no mundo.
As monarquias da terra foram cada uma menos ilustre que a anterior, de modo que aquilo que começou em ouro terminou em ferro e barro; cada monarquia diminuiu gradualmente. O reino de Cristo, porém, é um reino que cresce e por fim chegará à perfeição.
[2.] Será um governo pacífico, de acordo com o caráter de Cristo como Príncipe da paz. Governará pelo amor, governará nos corações dos homens; assim, onde estiver seu governo haverá paz, e à medida que o governo aumentar, a paz aumentará. Quanto mais sujeitos formos a Cristo, mais tranquilos e seguros estaremos.
[3.] Será um governo legítimo. Aquele que é o Filho de Davi reinará no trono de Davi e sobre seu reino, ao qual tem direito. Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai (Lucas 1:32, 33). A igreja do evangelho, que reúne judeus e gentios, é o santo monte Sião, onde Cristo reina (Salmos 2:6).
[4.] Será administrado com prudência e equidade, de modo a cumprir o grande objetivo do governo, que é a consolidação do reino: ele o ordenará e firmará com justiça e juízo. Tudo é, e será, bem administrado no reino de Cristo, e nenhum de seus súditos terá jamais motivo para se queixar.
[5.] Será um reino eterno. Não haverá fim para o aumento de seu governo, que continuará crescendo, nem para o aumento de sua paz. Pois a felicidade dos súditos desse reino durará pela eternidade e talvez seja progressiva in infinitum, para sempre.
Ele reinará de agora em diante, para sempre: não apenas ao longo de todas as gerações do tempo, mas, até quando o reino for entregue a Deus, precisamente ao Pai, a glória tanto do Redentor quanto dos redimidos continuará eternamente.
[6.] O próprio Deus se comprometeu a realizar tudo isso: “O Senhor dos exércitos, que tem todo o poder em sua mão e todas as criaturas a seu aceno, realizará isso; preservará o trono de Davi até que este príncipe da paz nele seja estabelecido; seu zelo o fará, seu zelo por sua própria honra, pela verdade de sua promessa e pelo bem de sua igreja.”
Repare: Deus tem grande interesse na expansão do reino de Cristo entre os homens. Isso consola muito todos os que desejam o bem desse reino; o zelo do Senhor dos exércitos vencerá toda oposição.
Versículos 8 a 21
Ameaças contra Judá; Ameaças contra Israel. (a.C. 740.)
Há aqui ameaças terríveis, dirigidas principalmente contra Israel, o reino das dez tribos, Efraim e Samaria.
Sua ruína é predita, junto com todas as dolorosas confusões que a precederam, e tudo isso aconteceu poucos anos depois. Mas as ameaças também alcançam todos os inimigos do trono e do reino de Cristo, o Filho de Davi, e anunciam a condenação de todas as nações que se esquecem de Deus e não aceitam que Cristo reine sobre elas. Observe:
I. O prefácio dessa predição (v. 8): “O Senhor enviou uma palavra a Jacó”, por meio de seus servos, os profetas. Ele avisa antes de ferir.
Avisou-lhes o que faria para que pudessem encontrá-lo no caminho de seus juízos; mas eles não quiseram aceitar a indicação, não tiveram zelo em desviar sua cólera, e por isso a palavra caiu sobre Israel. Pois nenhuma palavra de Deus cairá por terra.
Ela caiu sobre eles como uma tempestade de chuva e granizo vinda do alto, à qual não puderam escapar.
Caiu sobre eles significa que sua chegada era tão certa quanto se já tivesse ocorrido, e todo o povo saberá por experiência aquilo que não quiseram saber ao ouvi-lo. Os que deliberadamente ignoram a cólera de Deus revelada do céu contra o pecado e os pecadores serão obrigados a conhecê-la.
II. Os pecados imputados ao povo de Israel, que provocaram Deus a trazer esses juízos sobre eles:
- Seu desafio insolente à justiça de Deus, julgando-se à altura dele: “Dizem, no orgulho e na obstinação do coração: que o próprio Deus faça o pior que puder! Manteremos nossa posição e sustentaremos nossa causa contra ele. Se ele destruir nossas casas, nós as repararemos e as tornaremos mais fortes e mais esmeradas do que eram antes.”
“Nosso senhorio não nos expulsará de casa, embora não lhe paguemos aluguel; contudo continuaremos na posse dela. Se as casas de tijolos forem destruídas na guerra, nós as reconstruiremos com pedras lavradas, que não poderão ser derrubadas tão facilmente.”
“Se o inimigo cortar os sicômoros, plantaremos cedros no lugar deles. Tiraremos proveito dos juízos de Deus, lucraremos com eles e assim os desafiaremos com insolência.”
Repare: caminham rapidamente para a ruína aqueles cujo coração permanece sem humildade sob providências destinadas a humilhá-los. Pois Deus se oporá aos que assim se opõem a ele e o provocam ao zelo, como se fossem mais fortes que ele.
- Sua incorrigibilidade sob todas as repreensões da Providência até então (v. 13): “O povo não se volta para aquele que o fere”. Não são levados a reformar suas vidas, abandonar seus pecados e retornar ao seu dever. “Nem busca o Senhor dos Exércitos”: ou são ateus, sem religião, ou idólatras, que buscam deuses que são criaturas de sua própria imaginação e obras de suas próprias mãos.
Repare: ao nos ferir, Deus tem o desígnio de nos voltar para si mesmo e nos levar a buscá-lo. Se juízos menores não alcançam esse objetivo, podemos esperar outros maiores. Deus fere para não matar.
- A corrupção geral dos costumes e a abundância da profanação:
(1.) Os que deveriam reformar o povo ajudavam a corrompê-lo (v. 16): Os guias deste povo o desencaminham e fazem-no errar, sendo coniventes com sua perversidade, dando aprovação a pessoas perversas e lhes estabelecendo maus exemplos. E então não admira que os guiados por eles sejam enganados e, assim, destruídos. Mas vai mal a um povo quando seus médicos são sua pior doença.
“Os que abençoam este povo, ou o chamam de bendito, como diz a margem, que o adulam, o afagam em sua maldade e lhe gritam: ‘Paz, paz’, fazem-no errar; e aqueles que eles chamam de benditos são tragados antes de perceber.” Temos motivo para temer dos que falam bem de nós quando agimos mal; veja Provérbios 24:24; 29:5.
(2.) A maldade era universal, e todos estavam infectados por ela (v. 17): “Cada um é hipócrita e malfeitor”. Se há alguns bons, eles não aparecem, nem ousam aparecer, pois toda boca profere loucura e perversidade. Todos são profanos para com Deus, como a palavra significa propriamente, e malfeitores para com os homens.
Essas duas coisas costumam andar juntas: os que não temem a Deus não respeitam os homens. Então toda boca profere loucura, falsidade e descrédito tanto contra Deus quanto contra o homem, pois a boca fala do que está cheio o coração.
III. Os juízos ameaçados contra eles por essa maldade. Não pensem que ficarão impunes:
- Em geral, por ela se expuseram à cólera de Deus, que tanto devoraria como fogo quanto escureceria como fumaça:
(1.) Ela devoraria como fogo (v. 18): “A maldade queimará como fogo”. O desagrado de Deus, provocado pelo pecado, consumirá os pecadores. Eles se tornaram como sarças e espinhos diante desse fogo e como os matagais da floresta, matéria combustível que a cólera do Senhor dos Exércitos, o Deus poderoso, atravessará e queimará juntamente.
(2.) Ela os escureceria como fumaça. As sarças e os espinhos, consumidos pelo fogo, subirão como o erguer de fumaça, de modo que toda a terra ficará escurecida. Estarão em tribulação e não verão saída (v. 19): “O povo será como combustível do fogo”.
A cólera de Deus só se prende aos que fazem de si mesmos combustível para ela. Então sobem como a fumaça dos sacrifícios, tornando-se vítimas da justiça divina.
- Deus armaria contra eles os poderes vizinhos (v. 11, 12). Nessa época, o reino de Israel estava em pacto com o da Síria contra Judá. Mas os assírios, inimigos dos sírios, depois de conquistá-los invadiriam Israel. Deus os instigaria a fazê-lo e uniria em aliança os inimigos de Israel contra o povo.
Esses inimigos, contudo, tinham fins particulares próprios a servir e não percebiam a mão de Deus em sua aliança. Repare: quando inimigos se levantam e se unem numa confederação contra um povo, deve-se reconhecer nisso a mão de Deus.
Repare ainda: os que são cúmplices no pecado, como Síria e Israel na invasão de Judá, devem esperar partilhar o castigo do pecado. Ou melhor: os próprios sírios, com quem então estavam em pacto, seriam um flagelo para eles, pois não é raro que se desentendam os que se uniram no pecado.
Um os atacaria pela frente, e outro pelo flanco ou pela retaguarda. Assim ficariam cercados de inimigos por todos os lados, que os devorariam de boca aberta (v. 12). Os filisteus não eram então vistos como inimigos temíveis, e os sírios eram vistos como amigos firmes; contudo, seriam esses povos que devorariam Israel.
Quando os caminhos dos homens desagradam ao Senhor, ele faz até seus amigos guerrearem contra eles.
- Deus retiraria do meio deles aqueles em quem confiavam e de quem esperavam ajuda (v. 14, 15). Como o povo não busca a Deus, aqueles a quem busca e de quem depende não lhe servirão de nada. “O Senhor cortará cabeça e cauda, ramo e junco”, como explica o versículo seguinte:
(1.) Seus magistrados. Eram honrados pelo nascimento e pelo cargo, os anciãos do povo. Estes eram a cabeça, estes eram o ramo do qual esperavam espírito e fruto. Mas, como faziam o povo errar, seriam cortados. Sua dignidade e seu poder não os protegeriam, pois o abuso dessa dignidade e desse poder constituía a grande provocação.
Ter seus príncipes cortados era um juízo sobre o povo, embora eles não fossem como deveriam ser.
(2.) Seus profetas, os falsos profetas, eram a cauda e o junco, os mais desprezíveis de todos. Um ministro perverso é o pior de todos. Um ministro perverso é o pior dos homens. Corruptio optimi est pessima: as melhores coisas, quando corrompidas, tornam-se as piores.
Os cegos guiavam os cegos, e assim ambos caíam na cova; os guias cegos caíam primeiro e ficavam por baixo.
- Que a desolação seria tão geral quanto fora a corrupção; ninguém escaparia (v. 17):
(1.) Nem os que eram objeto de satisfação. Ninguém será poupado por amor. O Senhor não se alegrará com seus jovens, que estavam na flor da juventude, nem diria: Tratem os jovens com brandura por minha causa. Não: “Que caiam com os demais, e que com eles pereça a semente da próxima geração”.
(2.) Nem os que eram objeto de compaixão. Ninguém será poupado por piedade. Ele não terá misericórdia dos órfãos e das viúvas, embora seja de modo especial seu defensor e protetor. Eles haviam corrompido seu caminho como todos os demais.
Se sua pobreza e seu desamparo não foram uma razão para eles se afastarem do pecado, não poderiam esperar que fossem uma razão para Deus protegê-los dos juízos.
- Que eles se despedaçariam uns aos outros; cada um ajudaria a promover a ruína comum e seriam canibais para si mesmos e uns dos outros. “Ninguém poupará seu irmão” se este se interpuser no caminho de sua ambição ou cobiça, ou se tiver algum pretexto para se vingar dele.
Como poderiam esperar que Deus os poupasse, se não mostravam compaixão uns pelos outros? A paixão e a crueldade recíprocas dos homens provocam a ira de Deus contra todos eles e são prova de que ele está irado.
Guerras civis logo levam um reino à desolação. Assim ocorreu em Israel quando, pela transgressão da terra, seus príncipes eram muitos (Provérbios 28:2).
(1.) Nessas lutas internas, os homens arrebatavam à direita e ainda passavam fome. Comiam a carne dos próprios braços, fazendo presa de si mesmos por fome ou de seus parentes mais próximos, que eram como sua própria carne (v. 20). Isso revela:
[1.] Grande fome e escassez. Depois de se apoderarem de tudo quanto podiam, era tão pouco que continuavam famintos. Ou, ao menos, Deus não abençoava o que tinham, de modo que comiam e não se fartavam (Ageu 1:6).
[2.] Grande roubo e saque. Jusque datum sceleri: a iniquidade é estabelecida por lei. A cerca da propriedade, que é uma cerca de proteção às propriedades dos homens, será derrubada, e cada um considerará seu tudo aquilo em que puder pôr as mãos.
Vivitur ex rapto, non hospes ab hospite tutus: vivem do saque, e todos os deveres da hospitalidade são violados. Ainda assim, quando os homens se apoderam do que não lhes pertence, não ficam satisfeitos. Os desejos cobiçosos são insaciáveis, e o que foi obtido injustamente carrega esta maldição: nunca prosperará.
(2.) Essas lutas internas ocorreriam não apenas entre pessoas e famílias, mas também entre as tribos (v. 21): Manassés devoraria Efraim, e Efraim devoraria Manassés, embora juntos estivessem contra Judá. Os que conseguiram se unir contra Judá não conseguiam se unir entre si.
Mas sua confederação pecaminosa contra seu vizinho que habitava em segurança junto deles foi justamente castigada com essa separação entre si. Ou então Judá, tendo pecado como Manassés e Efraim, não apenas sofreria com eles, mas sofreria por meio deles.
Repare: a inimizade e a hostilidade mútuas entre as tribos do Israel de Deus são pecado que os amadurece para a ruína e triste sinal de que ela se aproxima rapidamente. Se Efraim estiver contra Manassés, Manassés contra Efraim e ambos contra Judá, todos logo se tornarão presa fácil do inimigo comum.
- Que, embora fossem seguidos por todos esses juízos, Deus contudo não encerraria sua contenda com eles. Este é o pesado refrão desse cântico (v. 12, 17, 21): “Por tudo isso sua ira não é desviada, mas sua mão está estendida continuamente”. Isso significa:
(1.) Eles nada fazem para afastar sua ira. Não se arrependem nem se reformam, não se humilham nem oram. Ninguém se põe na brecha, ninguém responde aos chamados de Deus nem atende aos desígnios de suas providências. Mas estão endurecidos e seguros.
(2.) Portanto, sua ira continua a arder contra eles, e sua mão permanece estendida. Os juízos de Deus se prolongam porque seu objetivo não foi alcançado: os pecadores não foram levados ao arrependimento por meio deles.
O povo não se volta para aquele que os fere, e por isso ele continua a feri-los. Pois, quando Deus julga, ele prevalecerá, e o pecador mais orgulhoso e obstinado ou se dobrará ou se quebrará.