Isaías 6
Argumento
Até aqui, ao que parece, Isaías profetizara como candidato, tendo apenas uma comissão implícita e tácita. Aqui, porém, nós o vemos, se assim posso dizer, solenemente ordenado e separado para o ofício profético por uma comissão mais expressa ou explícita, à medida que seu trabalho aumentava em suas mãos.
Ou talvez, vendo pouco resultado de seu ministério, ele começasse a pensar em abandoná-lo. Por isso, Deus julgou adequado renovar sua comissão aqui neste capítulo, de modo a estimular e animar seu zelo e sua diligência no cumprimento dela, embora parecesse trabalhar em vão.
Neste capítulo temos: I. Uma visão muito assombrosa que Isaías teve da glória de Deus (vv. 1-4), o terror que ela lhe causou (v. 5) e o alívio que recebeu desse terror mediante a certeza do perdão de seus pecados (v. 6, 7).
II. Uma comissão muito assombrosa que Isaías recebeu para ir como profeta, em nome de Deus (v. 8), e, por sua pregação, endurecer os impenitentes no pecado e amadurecê-los para a ruína (vv. 9-12), contudo com uma reserva de misericórdia para um remanescente (v. 13).
E foi como a um profeta evangélico que essas coisas lhe foram mostradas e ditas.
Versículos 1 a 4
A Visão Celestial de Isaías. (a.C. 758.)
A visão que Isaías teve quando, como se diz de Samuel, foi “estabelecido como profeta do Senhor” (1 Samuel 3:20) destinava-se, 1. A confirmar sua fé, para que ele próprio ficasse plenamente convencido da verdade das coisas que depois lhe seriam reveladas.
Assim Deus abriu as comunicações de si mesmo a ele; mas não era necessário repetir tais visões a cada revelação posterior.
Desse modo, Deus apareceu primeiro como Deus da glória a Abraão (Atos 7:2) e a Moisés (Êxodo 3:2). As profecias de Ezequiel e as de São João começam com visões da glória divina.
- A atuar sobre seus afetos, para que fosse tomado de tal reverência por Deus que isso tanto o vivificasse quanto o firmasse em seu serviço. Os que devem ensinar a outros o conhecimento de Deus devem ter eles próprios boa familiaridade com ele.
A visão é datada para lhe dar maior certeza. Ocorreu no ano em que morreu o rei Uzias, que, na maior parte de seu reinado, governou com tanta prosperidade e retidão quanto qualquer dos reis de Judá e reinou por muito tempo, mais de cinquenta anos. Por volta da morte dele, Isaías teve essa visão de Deus num trono.
Pois, quando o fôlego dos príncipes sai e eles voltam à sua terra, nosso conforto é que “o Senhor reinará para sempre” (Salmos 146:3, 4, 10). O rei de Israel morre, mas o Deus de Israel continua vivo. A mortalidade dos homens grandes e bons deve nos levar a erguer os olhos da fé para o Rei eterno e imortal.
O rei Uzias morreu sob uma nuvem, pois ficou isolado como leproso até o dia de sua morte. Assim como as vidas dos príncipes têm seus fins, assim sua glória é frequentemente eclipsada; mas, assim como Deus vive sempre, assim sua glória é eterna. O rei Uzias morre num hospital, mas o Rei dos reis continua assentado em seu trono.
O que o profeta viu aqui nos é revelado para que, misturando a fé com essa revelação, contemplemos nela, como num espelho, a glória do Senhor. Desviemo-nos, por isso, e vejamos essa grande visão com humilde reverência.
I. Veja Deus em seu trono, e esse trono alto e elevado, não apenas acima dos outros tronos, pois os transcende, mas também sobre os outros tronos, pois os governa e lhes dá ordens. Isaías não viu Jeová, a essência de Deus (nenhum homem a viu nem pode vê-la), mas Adonai, seu domínio.
Ele viu o Senhor Jesus; assim se explica essa visão em João 12:41: Isaías viu então a glória de Cristo e falou dele, prova incontestável da divindade de nosso Salvador. Quando, após a ressurreição, ele se assentou à direita de Deus, apenas voltou a se assentar onde estava antes (João 17:5).
Veja o repouso da Mente Eterna: Isaías viu o Senhor assentado (Salmos 29:10).
Veja a soberania do Monarca Eterno: ele se assenta num trono, um trono de glória, diante do qual devemos adorar; um trono de governo, ao qual devemos nos sujeitar; e um trono de graça, ao qual podemos chegar com ousadia. Esse trono é alto e elevado acima de toda disputa e contradição.
II. Veja seu templo, sua igreja na terra, cheio das manifestações de sua glória. Seu trono estava posto à entrada do templo, como os príncipes se assentavam para julgar às portas. Sua cauda, as abas de suas vestes, enchia o templo, o mundo inteiro (pois tudo é templo de Deus e, assim como o céu é seu trono, assim a terra é o estrado de seus pés).
Ou, antes, enchia a igreja, que é preenchida, enriquecida e embelezada pelos sinais da presença especial de Deus.
III. Veja os brilhantes e bem-aventurados assistentes de seu trono, nos quais e por meio dos quais sua glória é celebrada e seu governo é servido (v. 2): acima do trono, como se pairassem ao seu redor, ou junto ao trono, inclinados diante dele e atentos a ele, estavam os serafins, os santos anjos.
Eles são chamados serafins, ou ardentes, pois ele faz de “seus ministros um fogo flamejante” (Salmos 104:4). Ardem em amor por Deus e em zelo por sua glória e contra o pecado; e ele os usa como instrumentos de sua cólera quando é fogo consumidor para seus inimigos.
Não se sabe se Isaías viu apenas dois, quatro ou, como me parece mais provável, uma companhia incontável de anjos; veja Daniel 7:10. Repare: a glória dos anjos é serem serafins; seu calor é proporcional à sua luz, e possuem em abundância não só conhecimento divino, mas também amor santo.
Dá-se atenção especial às asas deles, e a nenhuma outra parte de sua aparência, por causa do uso que faziam delas, destinado a nos instruir. Cada um tinha seis asas, não estendidas para cima, como as daqueles que Ezequiel viu (Ezequiel 1:11), mas:
- Quatro serviam para cobrir, como fazem as asas de uma ave pousada. Com as duas asas superiores, próximas da cabeça, cobriam o rosto; com as duas inferiores, cobriam os pés, ou as partes inferiores. Isso revela a grande humildade e reverência com que assistem diante de Deus, pois ele é grandemente temido na assembleia desses santos (Salmos 89:7).
Eles não cobrem apenas os pés, membros menos honrosos do corpo (1 Coríntios 12:23), mas até o rosto. Embora as faces dos anjos, sem dúvida, sejam muito mais formosas que as dos filhos dos homens (Atos 6:15), contudo, na presença de Deus eles as cobrem, pois não podem suportar o brilho ofuscante da glória divina.
E porque estão conscientes da distância infinita que os separa da perfeição divina, envergonham-se de mostrar suas faces diante do Deus santo, que acusa até seus anjos de loucura caso se proponham a rivalizar com ele (Jó 4:18). Se os anjos mostram tal reverência ao assistir diante de Deus, com quanto temor piedoso devemos nós nos aproximar de seu trono!
Caso contrário, não fazemos a vontade de Deus como os anjos a fazem. No entanto, quando Moisés subiu ao monte para estar com Deus, tirou o véu do rosto. Veja 2 Coríntios 3:18.
- Duas serviam para voar. Quando enviados nas incumbências de Deus, voam depressa (Daniel 9:21), mais depressa com as próprias asas do que se voassem nas asas do vento.
Isso nos ensina a fazer a obra de Deus com alegria e rapidez. Os anjos vêm sobre as asas do céu à terra para ministrar em favor de nosso bem, e não alçaremos nós voo sobre as asas da terra ao céu para partilhar com eles de sua glória? Lucas 20:36.
IV. Ouçamos o hino, ou cântico de louvor, que os anjos entoam em honra daquele que se assenta no trono (v. 3). Observe:
Como esse cântico era entoado. Com zelo e fervor: clamavam em alta voz. E com unanimidade: clamavam uns aos outros, ou uns com os outros. Cantavam alternadamente, mas em conjunto, sem a menor voz discordante que perturbasse a harmonia.
Qual era o cântico: o mesmo entoado pelos quatro seres viventes (Apocalipse 4:8). Repare: louvar a Deus sempre foi, e será por toda a eternidade, a obra do céu e a ocupação constante dos espíritos bem-aventurados lá em cima (Salmos 84:4). Repare ainda: a igreja do alto é a mesma em seus louvores; ali não há mudança de tempos nem de notas.
Os serafins aqui louvam a Deus por duas coisas:
(1.) Suas perfeições infinitas em si mesmo. Aqui é exaltado um de seus títulos mais gloriosos: ele é o Senhor dos exércitos, dos exércitos deles e de todos os exércitos. Também é exaltado um de seus atributos mais gloriosos, sua santidade.
Sem ela, o fato de ele ser o Senhor dos exércitos (ou, como diz a passagem paralela, Apocalipse 4:8, o Senhor Deus Todo-Poderoso) não seria tanto motivo de alegria e louvor para nós.
Pois o poder sem a pureza que o dirige seria um terror para a humanidade. Nenhum atributo divino é tão celebrado nas Escrituras quanto este. Falou-se duas vezes do poder de Deus (Salmos 62:11), mas três vezes de sua santidade: “Santo, santo, santo”. Isso expressa:
[1.] O zelo e o fervor dos anjos ao louvar a Deus: faltam-lhes até palavras para se expressar, e por isso repetem as mesmas.
[2.] O prazer especial que sentem ao contemplar a santidade de Deus: gostam de se deter e insistir nesse tema e relutam em deixá-lo.
[3.] A excelência suprema da santidade de Deus, acima da santidade das criaturas mais puras. Ele é santo, três vezes santo, infinitamente santo, originalmente, perfeitamente e eternamente santo.
[4.] Isso pode se referir às três pessoas da Divindade: Santo Pai, Santo Filho e Santo Espírito (pois a seguir se diz, v. 8, “Quem irá por nós?”); ou talvez àquele “que era, que é e que virá”, pois esse título de honra de Deus é acrescentado ao cântico em Apocalipse 4:8.
Alguns entendem que aqui os anjos aplaudem a equidade daquela sentença que Deus estava prestes a pronunciar sobre a nação judaica. Nisso ele era, é e será santo; seus caminhos são equitativos.
(2.) A manifestação dessas perfeições aos filhos dos homens: “A terra está cheia de sua glória”, a glória de seu poder e de sua pureza, pois ele é “santo em todas as suas obras” (Salmos 145:17). Os judeus pensavam que a glória de Deus devia ficar restrita à terra deles.
Aqui, porém, indica-se que, nos tempos do evangelho, para os quais este capítulo aponta, a glória de Deus encheria toda a terra. É a glória de sua santidade, que de fato é a glória de todos os seus outros atributos. Naquele momento ela enchia o templo (v. 1), mas, nos últimos dias, a terra estará cheia dela.
V. Observe os sinais e as manifestações de terror que encheram o templo nessa visão da glória divina (v. 4).
- A casa foi abalada. Não apenas a porta, mas até os batentes da porta, firmemente fixados, moveram-se à voz daquele que clamava, à voz de Deus, que chamava a juízo (Salmos 50:4), e à voz do anjo, que o louvava. Há vozes no céu capazes de abafar todo o ruído das muitas águas deste mundo inferior (Salmos 93:3, 4).
Esse violento abalo do templo indicava a cólera e o desagrado de Deus contra o povo por causa de seus pecados. Era um penhor da destruição do templo e da cidade, primeiro pelos babilônios e depois pelos romanos, e destinava-se a infundir temor em nós. As paredes e os batentes tremem diante de Deus; não tremeremos nós?
- A casa escureceu. Ficou cheia de fumaça, como uma nuvem estendida sobre a face de seu trono (Jó 26:9). Não podemos contemplá-lo plenamente nem ordenar nossas palavras a respeito dele por causa da escuridão. No templo do alto não haverá fumaça; ali tudo será visto claramente. Lá Deus habita na luz; aqui faz das trevas seu pavilhão (2 Crônicas 6:1).
Versículos 5 a 8
A Visão Celestial de Isaías. (a.C. 758.)
Nossa curiosidade nos levaria a indagar ulteriormente a respeito dos serafins, de seus cânticos e de seus serviços. Aqui, porém, nós os deixamos e precisamos acompanhar o que se passou entre Deus e seu profeta.
As coisas secretas não nos pertencem, nem os segredos do mundo dos anjos, mas sim as coisas reveladas aos profetas e por meio deles, relativas à administração do reino de Deus entre os homens. Aqui está:
I. A consternação que a visão da glória de Deus causou ao profeta (v. 5): “Então eu disse: Ai de mim!”
Eu deveria ter dito: “Bem-aventurado és tu, assim altamente favorecido, altamente honrado e dignificado por um tempo com o privilégio daqueles seres gloriosos que sempre contemplam o rosto de nosso Pai. Bem-aventurados os olhos que viram o Senhor assentado em seu trono e os ouvidos que ouviram os louvores dos anjos”.
E seria de pensar que ele deveria ter dito: “Feliz sou eu, feliz para sempre; agora nada me perturbará, nada me fará corar ou tremer”. Ao contrário, porém, exclama: “Ai de mim! Pois estou perdido. Pobre de mim! Sou um homem acabado; certamente morrerei” (Juízes 13:22; 6:22). “Estou calado; fui emudecido, ferido de morte.”
Assim Daniel, ao ouvir as palavras do anjo, ficou mudo, sem força nem fôlego (Daniel 10:15, 17). Observe:
- O que o profeta refletiu em si mesmo e o aterrorizou: “Estou perdido se Deus me tratar com rigorosa justiça, pois me expus ao seu desagrado, porque sou homem de lábios impuros.”
Alguns pensam que ele se refere especialmente a alguma palavra precipitada que dissera, ou ao silêncio pecaminoso com que deixou de censurar o pecado com a ousadia e a liberdade necessárias.
Esse é um pecado do qual os ministros de Deus têm motivos demais para se acusar e do qual se envergonham ao recordá-lo. Mas suas palavras podem ser entendidas em sentido mais geral: sou pecador; em particular, pequei com palavras. E quem não pecou? Tiago 3:2. Todos temos motivos para lamentar diante do Senhor:
(1.) Que nós mesmos temos lábios impuros. Nossos lábios não são consagrados a Deus; ele não recebeu as primícias de nossos lábios (Hebreus 13:15), e por isso são considerados comuns e impuros, “lábios incircuncisos” (Êxodo 6:30). Ou melhor: foram contaminados pelo pecado.
Falamos a linguagem de um coração impuro, aquela má comunicação que corrompe os bons costumes e pela qual muitos foram maculados. Somos indignos e incapazes de tomar o nome de Deus em nossos lábios. Com que lábio puro os anjos louvaram a Deus! “Mas”, diz o profeta, “não posso louvá-lo assim, pois sou homem de lábios impuros”.
Os melhores homens do mundo têm motivos para se envergonhar de si mesmos e do melhor de seus serviços quando se comparam aos santos anjos.
Os anjos celebraram a pureza e a santidade de Deus; por isso o profeta, ao pensar no pecado, chama-o impureza. A pecaminosidade do pecado está em sua oposição à natureza santa de Deus, e por essa causa especialmente ele deve nos parecer tanto odioso quanto assustador.
A impureza de nossos lábios deve ser a dor de nossas almas, pois por nossas palavras seremos justificados ou condenados.
(2.) Que habitamos entre pessoas que também têm lábios impuros. Temos motivos para lamentar não só nossa própria contaminação, mas também a da natureza e da raça humanas. A doença é hereditária e epidêmica; longe de diminuir nossa culpa, isso deveria antes aumentar nossa dor.
Ainda mais porque não fizemos o que poderíamos ter feito para limpar a impureza dos lábios alheios; ou melhor, antes aprendemos o caminho dessas pessoas e falamos sua linguagem, como José, no Egito, aprendeu o juramento dos cortesãos (Gênesis 42:16).
“Habito no meio de um povo que, com seus pecados descarados, atrai juízos devastadores sobre a terra; eu, que também sou pecador, posso com justiça esperar ser envolvido neles.”
- O que deu ocasião a essas tristes reflexões naquele momento: “Meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos”. Ele viu que a soberania de Deus é incontestável, pois ele é o Rei; e que seu poder é irresistível, pois ele é o Senhor dos Exércitos. Essas verdades consolam o povo de Deus e, ainda assim, devem nos infundir reverência.
Repare: a visão da majestade gloriosa de Deus, recebida pela fé, deve causar em todos nós reverência e temor piedoso.
Temos motivos para ser humilhados ao reconhecer a distância infinita entre nós e Deus, nossa própria pecaminosidade e vileza diante dele, e para temer seu desagrado. Estaremos perdidos se não houver Mediador entre nós e esse Deus santo (1 Samuel 6:20).
Isaías foi assim humilhado a fim de ser preparado para a honra do chamado que agora receberia como profeta. Repare: os mais aptos a trabalhar para Deus são os que são baixos a seus próprios olhos e têm profunda consciência da própria fraqueza e indignidade.
II. Os temores do profeta foram acalmados pelas palavras boas e consoladoras com que o anjo lhe respondeu (v. 6, 7). Um dos serafins voou imediatamente até ele para purificá-lo e, assim, tranquilizá-lo. Repare: Deus tem poderosas consolações prontas para os que choram santamente.
Os que se humilham com vergonha e temor penitentes logo serão animados e exaltados. Os abatidos pelas visões da glória de Deus logo serão levantados pelas visitas de sua graça; aquele que dilacera curará. Repare ainda: os anjos são espíritos ministradores para o bem dos santos, para seu bem espiritual.
Um dos serafins foi dispensado por algum tempo de assistir ao trono da glória de Deus para ser mensageiro de sua graça a um homem bom; tão satisfeito estava com essa incumbência que veio voando até ele. Ao próprio Senhor Jesus, em sua agonia, “apareceu um anjo do céu, fortalecendo-o” (Lucas 22:43). Aqui está:
- Um sinal consolador dado ao profeta de que seu pecado havia sido purificado.
O serafim trouxe uma brasa viva do altar e tocou-lhe os lábios com ela, não para lhes causar prejuízo, mas para curá-los; não para cauterizá-los, mas para limpá-los. Pois havia purificações pelo fogo, assim como pela água, e a imundície de Jerusalém foi removida pelo espírito de ardor (Isaías 4:4).
O Espírito bendito age como fogo (Mateus 3:11). O serafim, ele próprio aceso pelo fogo divino, infundiu vida no profeta para que também fosse tomado de zelo; pois o meio de purificar os lábios da impureza do pecado é inflamar a alma com o amor de Deus.
Essa brasa viva foi tirada do altar, ou o altar do incenso ou o dos holocaustos, pois ambos tinham fogo ardendo sobre eles continuamente. Nada tem poder para limpar e confortar a alma, exceto o que provém da satisfação de Cristo e da intercessão que ele vive sempre para fazer em virtude dessa satisfação.
Tem de ser uma brasa de seu altar a infundir vida em nós e a ser nossa paz; fogo estranho não o fará.
- A explicação desse sinal: “Eis que isto tocou teus lábios, para te assegurar isto: que tua iniquidade foi tirada e teu pecado purificado. A culpa de teu pecado é removida pela misericórdia perdoadora, a culpa dos pecados de tua língua. Tua disposição corrupta para pecar é removida pela graça renovadora.”
“E por isso nada pode impedir-te de ser aceito por Deus como adorador, em conjunto com os santos anjos, ou de ser empregado para Deus como mensageiro aos filhos dos homens.” Somente os que assim são purificados de uma consciência má estão preparados para servir ao Deus vivo (Hebreus 9:14).
A remoção do pecado é necessária para que falemos com confiança e consolo, seja a Deus em oração, seja da parte de Deus na pregação.
Tampouco alguém é tão apto a mostrar aos outros as riquezas e o poder da graça do evangelho quanto aqueles que provaram sua doçura e sentiram sua influência. Terão o pecado removido os que dele se queixam como de um fardo e se veem em perigo de ser arruinados por ele.
III. A renovação da missão do profeta (v. 8). Aqui se dá uma comunicação entre Deus e Isaías a esse respeito. Os que desejam ajudar outros em sua comunicação com Deus não devem ser estranhos a ela.
Pois como esperar que Deus fale por nosso intermédio se nunca o ouvimos falar a nós? Ou que sejamos aceitos como porta-vozes dos outros diante de Deus se nunca falamos a ele de coração por nós mesmos? Observe aqui:
- O conselho de Deus acerca da missão de Isaías. Deus é aqui apresentado, à maneira dos homens, deliberando e aconselhando-se consigo mesmo: “A quem enviarei? E quem há de ir por nós?” Deus não precisa ser aconselhado por outros nem consultar a si mesmo; ele sabe o que fará.
Mas assim nos mostraria que há um conselho em toda a sua vontade e nos ensinaria a considerar nossos caminhos. Em particular, ensina que o envio de ministros é uma obra que só deve ser feita após madura deliberação. Observe:
(1.) Quem é que consulta. É o Senhor Deus em sua glória, aquele que Isaías viu no trono alto e elevado. O ministério é honrado pelo fato de que, quando Deus quis enviar um profeta para falar em seu nome, apareceu com todas as glórias do mundo celestial.
Os ministros são embaixadores do Rei dos reis; por mais humildes que sejam, aquele que os envia é grande. É Deus em três pessoas (“Quem há de ir por nós?”, como em Gênesis 1:26, “Façamos o homem”): Pai, Filho e Espírito Santo.
Todos se juntam, assim como na criação, assim na redenção e no governo do homem. Os ministros são ordenados no mesmo nome em que todos os cristãos são batizados.
(2.) Qual é a consulta: “A quem enviarei? E quem há de ir?” Alguns entendem que ela se refere à mensagem específica de cólera contra Israel (v. 9, 10): “Quem se disporá a cumprir uma missão tão triste, à qual irá na amargura da alma?” (Ezequiel 3:14).
Prefiro, porém, entendê-la mais amplamente, abrangendo todas as mensagens que o profeta foi incumbido de expor àquele povo em nome de Deus. Nelas, o endurecimento de modo algum era a intenção principal, mas um efeito secundário (2 Coríntios 2:16).
“A quem enviarei?” sugere que a tarefa exigia um mensageiro escolhido e bem preparado (Jeremias 49:19). Deus apareceu então acompanhado de santos anjos e, ainda assim, perguntou: “A quem enviarei?” Pois enviaria ao povo um profeta dentre seus irmãos (Hebreus 2:17). Repare:
[1.] É um favor indizível de Deus para conosco que ele tenha por bem nos enviar sua mente por homens como nós, cujo terror não nos amedrontará e que também estão envolvidos nas mensagens que trazem. Os que cooperam com Deus são pecadores e sofredores juntamente conosco.
[2.] É raro encontrar alguém apto a ir por Deus e levar suas mensagens aos filhos dos homens: “A quem enviarei? Quem é suficiente?” O grau de coragem por Deus e de interesse pelas almas humanas necessário para tornar alguém fiel, e com isso o discernimento dos mistérios do reino dos céus necessário para torná-lo hábil, raramente se encontram.
Tal intérprete da mente de Deus é um entre mil (Jó 33:23).
[3.] Ninguém está autorizado a ir por Deus senão os que ele envia; ele só reconhecerá os que designa (Romanos 10:15). Compete a Cristo colocar homens no ministério (1 Timóteo 1:12).
- A anuência de Isaías: “Então eu disse: Eis-me aqui; envia-me”. Ele iria cumprir uma missão triste. Parecia que ninguém queria assumir o ofício e que todos o recusavam; contudo, Isaías se ofereceu para o serviço. É uma honra ser o único a se apresentar por Deus (Juízes 5:7).
Não devemos dizer: “Eu iria se achasse que teria êxito”, mas: “Irei e deixarei o êxito com Deus. Eis-me aqui; envia-me”. O próprio Isaías estivera num estado melancólico (v. 5), cheio de dúvidas e temores. Agora, porém, tinha a certeza do perdão de seu pecado; as nuvens haviam passado, e ele estava apto e disposto ao serviço. Suas palavras expressam:
(1.) Sua prontidão: “Eis-me aqui, um voluntário, não recrutado à força”. “Eis-me”; esse é o sentido da palavra. Deus nos diz “Eis-me” (Isaías 65:1) e “Aqui estou” (Isaías 58:9), antes mesmo de o chamarmos; digamos-lhe o mesmo quando ele nos chamar.
(2.) Sua resolução: “Aqui estou, pronto para enfrentar as maiores dificuldades. Fiz meu rosto como pederneira”. Compare com Isaías 50:4-7.
(3.) Seu entregar-se a Deus: “Envia-me aonde quiseres; usa-me como te agradar. Envia-me, isto é, Senhor, dá-me a comissão e as instruções completas; envia-me e, sem dúvida, então estarás ao meu lado”.
É grande consolo para os que Deus envia saber que vão por ele e, portanto, podem falar em seu nome com autoridade e ter a certeza de que ele os sustentará.
Versículos 9 a 13
Ameaça de Cegueira Judicial. (a.C. 758.)
Deus toma Isaías por sua palavra e o envia aqui a uma missão estranha: predizer a ruína de seu povo e até amadurecê-los para essa ruína; pregar aquilo que, por causa do mau uso que fizessem da pregação, se tornaria para eles cheiro de morte para morte.
Isso serviria de tipo e figura do estado da igreja judaica nos dias do Messias, quando os judeus rejeitariam obstinadamente o evangelho e, por isso, seriam rejeitados por Deus. Esses versículos são citados em parte, ou mencionados, seis vezes no Novo Testamento.
Isso indica que, nos tempos do evangelho, esses juízos espirituais seriam aplicados mais frequentemente. E embora façam o menor ruído e não venham de modo observável, contudo são os mais terríveis de todos os juízos. Aqui Isaías é levado a compreender estas quatro coisas:
- Que a maioria daqueles a quem ele era enviado faria ouvidos surdos à sua pregação e fecharia deliberadamente os olhos a todas as revelações da mente e da vontade de Deus que ele tinha a lhes transmitir (v. 9): “Vai e dize a este povo, este povo insensato e miserável; dize-lhes o que lhes cabe, dize-lhes quão estúpidos e imbecis são.”
Isaías deve pregar-lhes, e de fato o ouvirão, mas será só isso: não lhe darão atenção. Não o entenderão nem se esforçarão ou aplicarão a mente como é necessário para compreendê-lo. Têm preconceito contra o verdadeiro propósito e sentido do que ele diz; por isso não o entenderão, ou alegarão não entender.
De fato veem, pois a visão é escrita claramente em tábuas, para que quem passa correndo possa lê-la; mas não percebem o quanto lhes diz respeito. Para eles é como uma história contada. Repare: muitos ouvem o som da palavra de Deus, mas não sentem seu poder.
- Que, como não queriam ser tornados melhores por meio de seu ministério, tornar-se-iam piores. Os que eram voluntariamente cegos seriam judicialmente cegados (v. 10): “Eles não te entenderão nem te perceberão, e por isso serás instrumento para tornar seu coração gordo, irrefletido e sensual, e assim tornar seus ouvidos ainda mais pesados e fechar seus olhos mais estreitamente.”
“De modo que, por fim, sua recuperação e seu arrependimento se tornarão inteiramente impossíveis; não mais verão com seus olhos o perigo em que estão, a ruína à beira da qual se encontram, nem o caminho de escapar dela. Não mais ouvirão com seus ouvidos os avisos e instruções que lhes são dados.”
“Nem compreenderão com seu coração as coisas que dizem respeito à sua paz, de modo a serem convertidos do erro de seus caminhos e, assim, curados.” Repare:
(1.) A conversão dos pecadores é sua cura. (2.) O entendimento correto é necessário à conversão. (3.) Às vezes Deus, em justo juízo, entrega os homens à cegueira mental e a fortes ilusões porque não quiseram receber a verdade no amor dela (2 Tessalonicenses 2:10-12). Quem é impuro continue a ser impuro.
(4.) Até a palavra de Deus muitas vezes se torna um meio de endurecer os pecadores. O próprio profeta evangélico torna gordo o coração deste povo. Ele o faz não só por predizer esse resultado, pronunciar a sentença em nome de Deus e selá-los sob ela, mas também porque sua pregação tendia a produzi-lo.
Para alguns, aos quais ela soava como canção adorável, sua pregação os embalava num sono de segurança; a outros, para os quais era um descrédito que não conseguiam suportar, deixava-os ainda mais furiosos.
Alguns consideravam a palavra um privilégio, e suas convicções eram sufocadas por ela (Jeremias 7:4). Outros a consideravam provocação, e suas corrupções eram exacerbadas por ela.
- Que a consequência disso seria a ruína completa deles (v. 11, 12). O profeta nada tinha a objetar contra a justiça dessa sentença e não se recusou a cumprir tal missão; perguntou apenas: “Senhor, até quando?” Era uma pergunta abrupta: “Será sempre assim? Eu e os outros profetas trabalharemos sempre em vão entre eles? As coisas nunca melhorarão?”
Ou, como a resposta parece indicar: “Senhor, aonde isso acabará levando? Qual será o fim de tudo isso?” Em resposta, ele soube que o resultado seria a destruição final da igreja e da nação judaicas.
“Quando tiverem abusado assim da palavra de Deus, especialmente da palavra do evangelho, perderão sua condição de igreja e, em consequência, estarão arruinados. Suas cidades ficarão sem habitantes, assim como suas casas no campo. A terra não será cultivada, ficará desolada com desolação, como diz a margem.”
“Todo o povo que deveria encher as casas e cultivar o solo será eliminado pela espada, pela fome ou pela peste. Os que escaparem com vida serão levados para longe, ao cativeiro, de modo que haverá um grande abandono geral no meio da terra. Aquele país populoso se tornará deserto, e aquela glória de todas as terras ficará abandonada.”
Repare: os juízos espirituais frequentemente trazem consigo juízos temporais sobre pessoas e lugares. Isso se cumpriu em parte na destruição de Jerusalém pelos caldeus, quando a terra, deixada desolada, desfrutou seus sábados durante setenta anos.
Mas, como as predições anteriores são aplicadas tão expressamente no Novo Testamento aos judeus do tempo de nosso Salvador, sem dúvida isso aponta para a destruição final daquele povo pelos romanos. Nela houve pleno cumprimento, e aquele povo e aquela terra permanecem até hoje sob seus efeitos.
- Que, contudo, um remanescente seria preservado como monumentos da misericórdia (v. 13). Houve um remanescente preservado na última destruição da nação judaica (Romanos 11:5: “No tempo presente há um remanescente”); pois assim estava escrito aqui: “Mas nela estará uma décima parte”.
Será um número definido, mas muito pequeno em comparação com a multidão que perecerá em sua incredulidade. Sob a lei, essa era a porção de Deus; serão consagrados a ele como o eram os dízimos, para seu serviço e sua honra. Sobre esse dízimo, esse remanescente salvo, somos informados aqui:
(1.) Que retornarão (Isaías 6:13; 10:21): retornarão do pecado a Deus e ao dever e retornarão do cativeiro à sua própria terra. Deus os fará voltar, e eles voltarão.
(2.) Que serão comidos, isto é, serão aceitos por Deus como o dízimo, que era alimento na casa de Deus (Malaquias 3:10). A salvação desse remanescente será alimento para a fé e a esperança dos que desejam o bem do reino de Deus.
(3.) Que serão como uma árvore madeireira no inverno, que tem vida embora sem folhas: como uma tília e como um carvalho, que conservam sua substância mesmo ao perderem as folhas, assim os membros desse remanescente, embora possam ser privados de sua prosperidade exterior e participar com outros das calamidades comuns, contudo se recuperarão como uma árvore na primavera e florescerão novamente.
Ainda que caiam, não ficarão totalmente prostrados. Há esperança para uma árvore, embora seja cortada, de que tornará a brotar, Jó 14:7.
(4.) Que esse remanescente distinto será o sustentáculo e apoio dos interesses públicos. A semente santa na alma é a substância do homem; um princípio de graça que reina no coração preservará ali a vida. Aquele que é nascido de Deus tem sua semente permanecendo nele (1 João 3:9).
Da mesma forma, a semente santa na terra é a substância da terra: impede que ela se desfaça completamente e sustenta suas colunas (Salmos 75:3). Veja Isaías 1:9.
Alguns leem a oração anterior junto com esta, assim: “Como o suporte em Salequete está nos olmos e nos carvalhos, assim a semente santa é sua substância”.
As árvores que crescem dos dois lados do caminho elevado, ou passeio em terraço, que liga o palácio do rei ao templo (1 Reis 10:5), junto à porta de Salequete (1 Crônicas 26:16), sustentam esse caminho ao firmar a terra que, sem elas, se desfaria.
Assim também o pequeno restante de pessoas religiosas, sérias e dedicadas à oração é o apoio do Estado: ajuda a manter tudo unido e a impedir sua decadência. Alguns entendem que a semente santa é Cristo. Por isso a nação judaica foi preservada da ruína completa: dela, segundo a carne, viria Cristo (Romanos 9:5).
Não a destruam, pois essa bênção está nela (Isaías 65:8); e, depois que essa bênção veio, ela logo foi destruída.
Essa consideração destina-se a sustentar o profeta em sua obra. Embora a grande maioria perecesse em sua incredulidade, contudo para alguns sua palavra seria cheiro de vida para vida. Os ministros não perdem inteiramente seu trabalho se ao menos forem instrumentos para salvar uma única pobre alma.