Matthew Henry

Isaías 55

Argumento

Assim como o capítulo 53 contém muito de Cristo e o 54, muito da igreja de Cristo, este capítulo contém muito da aliança da graça feita conosco em Cristo. As “firmes misericórdias de Davi”, prometidas aqui (v. 3), são aplicadas pelo apóstolo aos benefícios que nos vêm da ressurreição de Cristo (Atos 13:34), o que pode servir de chave para este capítulo.

Isso não quer dizer que o capítulo não se destinasse ao conforto do povo de Deus que vivia naquela época, em especial dos cativos na Babilônia e de outros israelitas dispersos. Mas esse evangelho foi pregado a nós assim como a eles, e com muito mais clareza e plenitude no Novo Testamento. Aqui está:

I. Um convite livre e gracioso para que todos venham e recebam o benefício da graça do evangelho (v. 1).

II. Argumentos insistentes para reforçar esse convite (vv. 2-4).

III. Uma promessa de que o convite terá êxito entre os gentios (v. 5).

IV. Uma exortação ao arrependimento e à reforma da vida, com grande ânimo para esperar o perdão depois disso (vv. 6-9).

V. A ratificação de tudo isso, com a eficácia certa da palavra de Deus (v. 10, 11), e um exemplo particular de seu cumprimento no retorno dos judeus do cativeiro, destinado a ser um sinal do cumprimento de todas as demais promessas.

Versículos 1 a 5

Convites Evangélicos. (a.C. 706.)

I. Aqui todos nós somos convidados a vir e receber o benefício da provisão que a graça de Deus preparou para as almas pobres na nova aliança, a herança dos servos do Senhor (Isaías 54:17), que não será apenas sua herança futura, mas também seu cálice agora, v. 1. Observe:

  1. Quem é convidado: “Ei, todos!” Não somente os judeus, a quem a palavra da salvação foi enviada primeiro, mas também os gentios, os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos são chamados para a ceia de casamento; qualquer um que possa ser encontrado nas estradas e nas cercas.

Isso indica que em Cristo há o bastante para todos e para cada um; que os ministros devem fazer uma oferta geral de vida e salvação a todos; que, nos tempos do evangelho, o convite seria feito de modo mais amplo que antes e chegaria aos gentios; e que a aliança do evangelho não exclui ninguém que não se exclua.

O convite é anunciado com um “Ouçam! Ei!”. Reparem nisso. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

  1. Qual é a condição exigida dos que serão bem-vindos: devem ter sede. Todos serão bem-vindos à graça do evangelho somente se ela for bem-vinda para eles. Os que se contentam com o mundo e seus prazeres como sua porção e não buscam felicidade no favor de Deus; os que dependem do mérito de suas próprias obras para obter justiça e não veem necessidade de Cristo e de sua justiça, esses não têm sede.

Não sentem sua necessidade, não sofrem nem se inquietam por causa da alma e, por isso, não se rebaixarão a ponto de ficar devendo a Cristo. Mas os que têm sede são convidados às águas, assim como os que trabalham e estão sobrecarregados são convidados a Cristo para encontrar descanso.

Repare: onde Deus concede graça, primeiro desperta sede por ela; e, onde despertou essa sede, a concederá, Salmos 81:10.

  1. Para onde são convidados: “Venham às águas.” Venham à beira d’água, aos portos, cais e ancoradouros dos rios navegáveis, por onde chegam mercadorias importadas; venham comprar, pois ali é o mercado de produtos estrangeiros. Para nós, teriam sido para sempre estrangeiros se Cristo não tivesse trazido uma justiça eterna. Venham a Cristo, pois ele é a fonte aberta e a rocha ferida.

Venham às ordenanças sagradas, aos rios que alegram a cidade de nosso Deus; venham a elas. Embora lhes pareçam coisas simples e comuns, como águas, ainda assim, para os que creem em Cristo as realidades que elas representam serão como vinho e leite, que revigoram abundantemente.

Venham às águas que curam; venham às águas vivas. Quem quiser, venha e participe das águas da vida, Apocalipse 22:17. Nosso Salvador referiu-se a isso: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”, João 7:37.

  1. O que são convidados a fazer:

(1.) “Venham e comprem”. Nenhum comerciante corteja clientes dos quais espera ganhar como Cristo nos corteja para aquilo em que somente nós sairemos ganhando. “Venham comprar, e garantimos que farão um ótimo negócio, do qual nunca se arrependerão nem sairão perdendo. Venham comprar; tornem sua a graça do evangelho, aplicando-a a vocês mesmos.”

“Tornem-na sua nos termos de Cristo; ou melhor, sob quaisquer termos, sem ficar ponderando se vão concordar com eles.”

(2.) “Venham comer; tornem-na ainda mais sua, pois aquilo que comemos é mais nosso do que aquilo que apenas compramos.” Devemos comprar a verdade não para guardá-la e contemplá-la, mas para nos alimentar e banquetear com ela, nutrindo e fortalecendo a vida espiritual.

Devemos comprar o sustento necessário para a alma, dispostos a abrir mão de tudo, por mais precioso que seja, desde que ao menos tenhamos Cristo, suas graças e seus consolos.

Devemos abandonar o pecado, que se opõe a Cristo; abandonar toda pretensão de justiça própria, que se põe em competição com Cristo; e abrir mão até da própria vida e de seu sustento mais necessário, em vez de renunciar à nossa participação em Cristo. E, depois de comprar o que precisamos, não nos privemos do uso consolador: desfrutemos e comamos o fruto do nosso trabalho. Comprem e comam.

  1. Qual é a provisão oferecida: “Venham comprar vinho e leite”, que não apenas saciarão a sede (água pura já faria isso), mas também nutrirão o corpo e reanimarão o espírito. O mundo fica aquém do que esperamos. Ao menos esperamos encontrar água nele, mas nos decepcionamos, como as caravanas de Tema, Jó 6:19. Mas Cristo supera nossas expectativas.

Vamos às águas, contentes por encontrá-las, mas achamos vinho e leite, produtos principais da tribo de Judá, com os quais o Siló dessa tribo está preparado para receber a reunião dos povos, Gênesis 49:10,12. “Seus olhos serão vermelhos de vinho, e seus dentes, brancos de leite.”

Devemos ir a Cristo para receber leite para as criancinhas, nutrindo e cuidando dos que nasceram de novo há pouco; e, nele, os fortes encontrarão algo que lhes sirva de fortificante: terão vinho para alegrar o coração. Devemos abandonar nossa água empoçada, ou melhor, nosso veneno, para obter esse vinho e leite.

  1. A concessão gratuita dessa provisão: “Comprem sem dinheiro e sem preço.” É uma maneira estranha de comprar, não apenas sem dinheiro à vista, o que é bastante comum, mas sem dinheiro algum e sem promessa de pagamento. Ainda assim, isso não parece tão estranho a quem observou o conselho de Cristo à igreja de Laodiceia, miseravelmente pobre, para que viesse comprar, Apocalipse 3:17,18.

Comprar sem dinheiro indica (1.) que os dons oferecidos são inestimáveis e não têm preço. A sabedoria não pode ser comprada com ouro. (2.) Que quem os oferece não precisa de nós nem de retorno algum que possamos dar. Ele nos faz essas propostas não por precisar vender, mas por ter disposição para dar. (3.) Que as coisas oferecidas já foram compradas e pagas.

Cristo as adquiriu por seu valor pleno, com um preço, não com dinheiro, mas com seu próprio sangue, 1 Pedro 1:19. (4.) Que seremos bem-vindos aos benefícios da promessa, embora sejamos totalmente indignos e não possamos oferecer nada que pareça uma compensação justa. Nós mesmos não temos valor, nem o têm as coisas que possuímos ou podemos fazer.

E devemos reconhecer isso para que, se Cristo e o céu forem nossos, saibamos que ficamos para sempre em dívida com a graça gratuita.

II. Somos instados e persuadidos com grande empenho (e como seria bom se nos deixássemos convencer!) a aceitar este convite e fazer esse bom negócio para nós.

  1. O que nos persuadem a fazer é dar ouvidos a Deus e às suas propostas: “Escutem-me atentamente”, v. 2. “Não apenas me ouçam, mas aprovem o que digo e apliquem a vocês mesmos” (v. 3): “Inclinem o ouvido, como fazem diante do que lhes interessa e agrada. Curvem o ouvido e deixem o coração orgulhoso se submeter aos métodos humilhantes do evangelho.”

“Voltem o ouvido para cá, para escutar com atenção e observação; ouçam e venham a mim; não apenas venham negociar comigo, mas aceitem o que proponho e concordem com meus termos.” Aceitem as ofertas de Deus como muito vantajosas e respondam às suas exigências como muito justas e razoáveis.

  1. Os argumentos usados para nos persuadir vêm de:

(1.) A injustiça indescritível que causamos a nós mesmos se negligenciarmos e recusarmos esse convite: “Por que gastam dinheiro naquilo que não é pão, que nem sequer lhes dará comida de mendigo, pão seco, quando comigo podem ter vinho e leite de graça? Por que gastam seu trabalho e esforço naquilo que não lhes dará nem pão seco, pois não satisfaz?” Veja aqui: [1.] A vaidade das coisas deste mundo.

Elas não são pão nem alimento apropriado para a alma; não lhe dão sustento ou refrigério adequado. O pão é o sustentáculo da vida natural, mas não sustenta em nada a vida espiritual. Toda a riqueza e o prazer do mundo não dão uma refeição sequer à alma.

A verdade eterna e o bem eterno são o único alimento de uma alma racional e imortal, cuja vida consiste em reconciliação e conformidade com Deus, e em união e comunhão com ele. As coisas do mundo não ajudam nisso. Não satisfazem nem oferecem consolo sólido e contentamento à alma, nem lhe permitem dizer: “Agora tenho o que queria.”

Ou melhor, nem sequer satisfazem os apetites do corpo. Quanto mais as pessoas têm, mais querem, Eclesiastes 1:8. Hamã não se satisfazia em meio à abundância. Essas coisas lisonjeiam, mas não saciam; agradam por algum tempo, como o sonho de alguém faminto, que desperta com a alma vazia. Logo enjoam, mas nunca satisfazem: cansam a pessoa, mas não a contentam nem a deixam na verdade em paz.

Tudo é vaidade e aflição de espírito. [2.] A insensatez dos que pertencem a este mundo. Gastam dinheiro e trabalho nessas coisas incertas e insatisfatórias. Os ricos vivem do dinheiro; os pobres, do trabalho.

Mas ambos se enganam quanto ao seu interesse mais verdadeiro, enquanto uns negociam e outros labutam pelo mundo, ambos prometendo a si mesmos satisfação e felicidade nele, mas ambos miseravelmente decepcionados.

Deus, com compaixão, argumenta com eles: “Por que vocês agem contra o próprio interesse? Por que permitem ser assim iludidos?” Raciocinemos conosco e cheguemos à santa resolução de não trabalhar pelo alimento que perece, mas por aquele que dura para a vida eterna, João 6:27. Que todas as decepções que encontramos no mundo nos levem a Cristo e nos conduzam a buscar satisfação somente nele.

Esse é o caminho para assegurar aquilo que será garantido.

(2.) A bondade indescritível que fazemos a nós mesmos se aceitarmos este convite e nos conformarmos a ele.

[1.] Assim garantimos prazer e satisfação presentes: “Se derem ouvidos a Cristo, comerão o que é bom, saudável e agradável, bom em si mesmo e bom para vocês.” A boa palavra e promessa de Deus, a boa consciência e os consolos do bom Espírito de Deus são um banquete contínuo para os que escutam a Cristo com atenção e obediência.

As almas deles se deleitarão na fartura, isto é, nas riquezas e nos prazeres mais agradáveis. Aqui o convite não é “Venham comprar”, para que isso não desanime, mas “Venham comer; venham desfrutar do que lhes será muito agradável. Comam, amigos!”. É triste pensar que as pessoas precisem ser cortejadas assim para aceitar a própria felicidade.

[2.] Assim garantimos felicidade duradoura: “Ouçam, e sua alma viverá; vocês não apenas serão salvos da perdição eterna, mas serão eternamente felizes”, pois nada menos que isso pode ser a vida de uma alma imortal.

As palavras de Cristo são espírito e vida, vida para os espíritos (João 6:33,63), “as palavras desta vida”, Atos 5:20. Em que termos fáceis a felicidade nos é oferecida! É apenas “Ouçam, e viverão”.

[3.] O grande Deus nos garante graciosamente tudo isso: “Venham a mim, e farei com vocês uma aliança eterna; entrarei em relação e compromisso de aliança com vocês e lhes concederei as firmes misericórdias de Davi.” Repare: Primeiro, se viermos a Deus para servi-lo, ele fará aliança conosco para nos fazer bem e felizes; tamanha é sua condescendência e preocupação por nós.

Segundo, a aliança de Deus conosco é eterna: concebida desde a eternidade e continuada até a eternidade. Terceiro, os benefícios dessa aliança são misericórdias adequadas à nossa condição, pois somos miseráveis e, portanto, objetos próprios da misericórdia. Vêm da misericórdia de Deus e são dispostos de todas as maneiras para o nosso bem.

Quarto, são as misericórdias de Davi, aquelas que Deus prometeu a Davi (Salmos 89:28,29, etc.), chamadas misericórdias para com Davi, seu servo, e invocadas por Salomão, 2 Crônicas 6:42. Será uma aliança tão firme quanto a feita com Davi, Jeremias 33:25,26. A aliança da realeza era figura da aliança da graça, 2 Samuel 23:5. Ou, antes, devemos entender aqui por Davi o Messias.

As misericórdias da aliança são todas misericórdias dele: ele as comprou, são prometidas nele, estão entesouradas em suas mãos e delas são distribuídas a nós. Ele é o Mediador e depositário da aliança; essa passagem é aplicada a ele em Atos 13:34.

São ta hosia (a palavra usada ali e aqui pela Septuaginta), as coisas santas de Davi, pois são confirmadas pela santidade de Deus (Salmos 89:35) e visam promover a santidade entre as pessoas.

Quinto, são misericórdias firmes. A aliança, bem ordenada em tudo, é firme. É firme em sua oferta geral: Deus é verdadeiro e sincero, sério e empenhado ao oferecer essas misericórdias. É firme em sua aplicação particular aos crentes: os dons e chamados de Deus não estão sujeitos a arrependimento. São misericórdias de Davi e, portanto, firmes; em Cristo, as promessas são todas “sim” e “amém”.

III. Jesus Cristo é prometido para cumprir todas as demais promessas que somos convidados a aceitar aqui, v. 4. Ele é o Davi cujas firmes misericórdias abrangem todas as bênçãos e benefícios da aliança.

Deus o deu em seu propósito e promessa, o constituiu e designou, e, na plenitude do tempo, certamente o enviará como se já tivesse vindo, para ser tudo de que precisamos a fim de receber os benefícios dessas provisões. Deu-o gratuitamente; que pode ser mais gratuito que um dom? Nada havia em nós que merecesse tal favor, mas Cristo é dom de Deus.

Precisamos de alguém: 1. Para confirmar a verdade das promessas cujo benefício somos convidados a receber. Cristo é dado como testemunha de que Deus está disposto a nos receber em seu favor nos termos do evangelho e a confirmar as promessas feitas aos patriarcas, para que confiemos nossas almas a essas promessas com inteira satisfação.

Cristo é testemunha fiel, cuja palavra podemos aceitar; é testemunha qualificada, pois estava no seio do Pai desde a eternidade e conhecia perfeitamente todo o assunto. Como profeta, Cristo testemunha ao mundo a vontade de Deus; crer é receber seu testemunho. 2. Para nos ajudar a aceitar o convite e cumprir seus termos.

Não sabemos encontrar o caminho para as águas que nos suprirão, mas Cristo nos foi dado como guia. Não sabemos o que fazer para estarmos qualificados e participarmos delas, mas ele foi dado como comandante, para nos mostrar o que fazer e nos capacitar a fazê-lo.

Há muita dificuldade e oposição no caminho até Cristo; temos inimigos espirituais com quem lutar. Para nos animar para o conflito, porém, temos um bom capitão, como Josué, um guia e comandante que colocará nossos inimigos sob nossos pés e nos dará posse da terra prometida. Cristo é comandante por seu preceito e guia por seu exemplo; nosso dever é obedecer-lhe e segui-lo.

IV. Definido o Senhor da festa, é preciso agora prover a festa de convidados, pois a provisão não será desperdiçada nem preparada em vão (v. 5):

  1. Os gentios serão chamados para essa festa, convidados a sair das estradas e das cercas: “Você chamará uma nação que não conhece”, isto é, que antes não era chamada nem reconhecida como sua nação e para a qual você não enviava profetas como enviava a Israel, povo que Deus conheceu acima de todas as famílias da terra.

Agora os gentios serão favorecidos como nunca antes; diz-se que conhecer a Deus é, na verdade, ser conhecido por Deus, Gálatas 4:9.

  1. Eles virão ao chamado: “Nações que não te conheciam correrão a ti.” Os que estavam longe de Cristo serão aproximados; os que fugiam dele correrão para ele com a maior rapidez e entusiasmo imagináveis. Multidões de gentios crentes virão a Cristo, que, erguido da terra, atrairá todos a si.

Agora veja o motivo: (1.) por que os gentios correrão assim para Cristo: por causa do Senhor, seu Deus; porque ele é o Filho de Deus e é declarado como tal com poder; porque agora veem que terão de tratar com o Deus dele e que não poderão recebê-lo como seu Deus sem se unirem a seu Filho.

Os que passam a conhecer Deus e entendem a relação que têm com ele não podem deixar de correr para Jesus Cristo, o único Mediador entre Deus e o Homem; só se chega a Deus por meio dele.

(2.) Por que Deus os conduzirá até Cristo: porque Deus é o Santo de Israel, fiel às suas promessas, e prometeu glorificar Cristo, dando-lhe os gentios por herança.

Quando os gregos começaram a perguntar por Cristo, ele disse: “Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado”, João 12:22,23. E sua glorificação na ressurreição e ascensão foi o grande argumento que levou multidões a correr para ele.

Versículos 6 a 13

Convites Evangélicos. (a.C. 706.)

Temos aqui um relato mais amplo daquela aliança da graça feita conosco em Jesus Cristo: tanto o que ela exige quanto o que promete, e as considerações que bastam para confirmar amplamente nossa adesão confiante a essa aliança e nossa dependência dela.

Esta graciosa revelação da boa vontade de Deus para com os seres humanos não deve ficar restrita ao judeu ou ao gentio, ao Antigo ou ao Novo Testamento, muito menos aos cativos na Babilônia. Não: tanto os preceitos quanto as promessas são dados aqui a todos, a cada pessoa que tem sede de felicidade, v. 1. E quem não tem? Ouça isto e viva.

I. Aqui se oferece graciosamente perdão, paz e toda felicidade aos pobres pecadores, nos termos do evangelho, v. 6, 7.

  1. Que orem, e suas orações serão ouvidas e atendidas (v. 6): “Busquem o Senhor enquanto pode ser achado. Busquem aquele que vocês abandonaram ao se rebelarem contra a lealdade a ele, e que perderam ao provocá-lo a retirar de vocês o seu favor. Invoquem-no agora, enquanto está perto e ao alcance do chamado.” Observe aqui:

(1.) Os deveres exigidos. [1.] “Busquem o Senhor. Dirijam-se a ele e consultem-no como seu oráculo. Peçam a lei da sua boca. Que queres que eu faça? Busquem-no e perguntem por ele como sua porção e felicidade; busquem reconciliar-se com ele, conhecê-lo e ser felizes em seu favor.

Lamentem tê-lo perdido; empenhem-se em encontrá-lo; sigam o método indicado para isso, usando Cristo como seu caminho, o Espírito como seu guia e a palavra como sua regra.” [2.] “Invoquem-no. Orem a ele para serem reconciliados e, uma vez reconciliados, orem por tudo o mais de que precisarem.”

(2.) Os motivos usados para nos incentivar a esses deveres: enquanto pode ser achado, enquanto está perto. [1.] Fica implícito que agora Deus está perto e será achado; portanto, buscá-lo e invocá-lo não será em vão. Agora sua paciência espera por nós, sua palavra nos chama e seu Espírito contende conosco. Aproveitemos nossas vantagens e oportunidades, pois agora é o tempo aceitável.

Mas, [2.] Vem um dia em que ele estará distante e não será achado, quando terminar o dia de sua paciência e seu Espírito não contenderá mais. Pode chegar nesta vida um tempo em que o coração fique endurecido sem remédio; certamente, na morte e no juízo, a porta se fechará, Lucas 16:26; 13:25,26. Agora se oferece misericórdia, mas então haverá juízo sem misericórdia.

  1. Que se arrependam e mudem de vida, e seus pecados serão perdoados, v. 7. Aqui há um chamado aos não convertidos, aos maus e aos injustos: aos maus, que vivem em pecados graves e conhecidos; aos injustos, que negligenciam deveres evidentes. A eles é enviada a palavra desta salvação, com toda a garantia possível de que os pecadores arrependidos encontrarão em Deus quem perdoa. Observe aqui:

(1.) O que é arrepender-se. O arrependimento envolve duas coisas: [1.] Afastar-se do pecado, abandoná-lo. É deixá-lo com repulsa e aversão, sem jamais voltar a ele. O mau deve abandonar seu caminho, seu caminho perverso, como abandonaríamos uma rota falsa, que jamais nos levaria à felicidade que buscamos, e perigosa, que conduz à destruição. Não dê mais um passo nesse caminho.

Ou melhor, é preciso mudar não só de caminho, mas também de mente; o injusto deve abandonar seus pensamentos. Se for verdadeiro, o arrependimento atinge a raiz e lava de maldade o coração. Devemos mudar nossos juízos sobre pessoas e coisas, expulsar imaginações corruptas e abandonar os pretextos vãos sob os quais um coração não santificado se abriga.

Repare: não basta deixar as práticas más; devemos nos precaver contra os pensamentos maus. Contudo, isso não é tudo: [2.] Arrepender-se é voltar ao Senhor, voltar para ele como nosso Deus e Senhor soberano, contra quem nos rebelamos e com quem precisamos nos reconciliar. É voltar ao Senhor como fonte da vida e das águas vivas, que abandonamos por cisternas rachadas.

(2.) O ânimo que temos para nos arrepender assim. Se o fizermos, [1.] Deus terá misericórdia. Não nos tratará como nossos pecados mereceram, mas se compadecerá de nós. A miséria é objeto de misericórdia.

Tanto as consequências do pecado, que nos tornaram na verdade miseráveis (Ezequiel 16:5,6), quanto a natureza do arrependimento, que nos torna conscientes da miséria e nos leva a lamentar nossa própria condição (Jeremias 31:18), fazem de nós objetos de compaixão; e em Deus há ternas misericórdias.

[2.] Ele perdoará abundantemente. O sentido da palavra é multiplicar o perdão, assim como multiplicamos as ofensas.

Embora nossos pecados tenham sido muito graves e numerosos, embora muitas vezes tenhamos retrocedido e ainda estejamos propensos a ofender, ainda assim Deus repetirá seu perdão e acolherá até os filhos que se desviaram, se voltarem a ele com sinceridade.

II. Recebemos ânimo para aceitar esta oferta e confiar nela nossas almas. Pois, para qualquer direção para a qual olhemos, encontramos o bastante para confirmar nossa confiança na validade e no valor dela.

  1. Se olharmos para o céu, veremos ali os conselhos de Deus elevados e sublimes, seus pensamentos e caminhos infinitamente acima dos nossos, v. 8, 9.

Exorta-se o mau a abandonar seus caminhos e pensamentos perversos (v. 7) e a voltar para Deus, isto é, a fazer seus caminhos e pensamentos concordarem com os dele e se conformarem a eles: “Pois”, diz ele, “meus pensamentos e caminhos não são como os seus.”

“Os seus se ocupam apenas das coisas de baixo, são terrenos; mas os meus estão acima, tão altos quanto o céu está acima da terra; e, se vocês querem mostrar que são verdadeiros arrependidos, os pensamentos e afetos de vocês também devem se voltar para as coisas do alto.” Ou, antes, isso deve ser entendido como ânimo para confiarmos na promessa de Deus de perdoar o pecado quando há arrependimento.

Os pecadores podem temer que Deus não se reconcilie com eles, pois não conseguiriam se reconciliar com alguém que os tivesse ofendido tão vil e repetidamente. “Mas”, diz Deus, “meus pensamentos sobre isso não são como os seus; estão tão acima deles quanto o céu está acima da terra.”

O mesmo vale para outras coisas. As opiniões humanas sobre pecado, Cristo e santidade, sobre este mundo e o vindouro, diferem muito das de Deus; mas a diferença é maior ainda quanto à reconciliação. Achamos que Deus se ofende facilmente e reluta em perdoar, que, se perdoar uma vez, não perdoará de novo.

Pedro achou muito perdoar sete vezes (Mateus 18:21), e cem denários nos parecem muito; mas Deus recebe os pecadores arrependidos com misericórdia perdoadora. Ele perdoa de graça, assim como dá: sem repreensão. Nós perdoamos, mas não conseguimos esquecer; Deus, porém, quando perdoa o pecado, não se lembra mais dele.

Assim Deus convida os pecadores a voltar para ele, levando-os a pensar bem a seu respeito, como em Jeremias 31:20.

  1. Se olharmos para a terra, veremos que a palavra de Deus é poderosa e eficaz, e realiza todas as suas grandes intenções, v. 10, 11. Observe aqui: (1.) A eficácia da palavra de Deus no reino da natureza. Ele diz à neve: “Esteja sobre a terra”; determina quando ela virá, em que quantidade e por quanto tempo permanecerá. O mesmo diz à chuva miúda e à chuva torrencial de sua força, Jó 37:6.

Conforme sua ordem, elas descem do céu e fazem tudo o que ele lhes manda sobre a face do mundo, seja para correção, seja para sua terra, seja para misericórdia, Jó 37:12,13. Ela não volta re infectâ, sem ter cumprido seu fim; antes, rega a terra, algo que se diz que ele faz de suas câmaras, Salmos 104:13. A terra é regada para se tornar fértil.

Assim, ele a faz produzir e lançar brotos, pois os produtos da terra dependem dos orvalhos do céu. Assim ela dá não só pão a quem come, sustento presente ao dono e à sua família, mas também semente a quem semeia, para que tenha alimento no ano seguinte. O lavrador precisa semear além de comer; caso contrário, logo verá acabar o que tem.

(2.) A eficácia da palavra de Deus no reino da providência e da graça é tão certa quanto a anterior: “Assim será a minha palavra: tão poderosa na boca dos profetas quanto na mão da providência. Não voltará para mim vazia, incapaz de realizar aquilo para que foi enviada ou diante de oposição insuperável.”

“Não: fará o que me agrada” (pois ela declara a sua vontade, segundo cujo conselho ele opera todas as coisas) “e prosperará naquilo para que a enviei.” Isso nos assegura [1.] que as promessas de Deus se cumprirão por inteiro no tempo devido, sem que falhe um jota ou til sequer, 1 Reis 8:56.

Essas promessas de misericórdia e graça terão na alma dos crentes, para sua santificação e consolo, efeito tão real quanto a chuva na terra, tornando-a fértil. [2.] Conforme as diferentes missões para as quais a palavra é enviada, ela terá efeitos diferentes.

Se não for cheiro de vida para vida, será cheiro de morte para morte; se não convencer a consciência e amolecer o coração, cauterizará a consciência e endurecerá o coração; se não amadurecer alguém para o céu, amadurecerá para o inferno. Veja Isaías 6:9. De um modo ou de outro, produzirá efeito. [3.] A vinda de Cristo ao mundo, como o orvalho do céu (Oseias 14:5), não será em vão.

Pois, se Israel não for reunido, Cristo será glorificado na conversão dos gentios. Portanto, quando os judeus recusarem as ofertas da graça, elas deverão ser feitas aos gentios, para que a festa de casamento se encha de convidados e o evangelho não volte vazio.

  1. Se observarmos de modo especial a igreja, veremos as grandes coisas que Deus fez e fará por ela (v. 12, 13): “Com alegria saireis e em paz sereis conduzidos.” Isso se refere (1.) à libertação e ao retorno dos judeus da Babilônia. Eles sairão do cativeiro e serão conduzidos de volta à sua terra.

Deus irá à frente deles com tanta certeza, embora não tão visivelmente, quanto foi à frente de seus pais na coluna de nuvem e fogo. Sairão triunfantes, sem tremor, sem pesar por deixar a Babilônia nem medo de serem levados de volta, mas com alegria e paz. A viagem para casa, pelas montanhas, será agradável, e todos os países por onde passarem terão boa vontade e bons votos para com eles.

As colinas e seus habitantes irromperão em cânticos, como num transporte de alegria; e, se o povo se calasse por completo, até as árvores do campo os acompanhariam com aplausos e aclamações.

E, quando chegarem à sua própria terra, ela estará pronta para recebê-los. Esperavam encontrá-la coberta de espinhos e abrolhos, mas nela haverá ciprestes e murteiras. Embora estivesse desolada, ainda assim ela desfrutara de seus sábados (Levítico 26:34); encerrados eles, a terra estava em melhor estado, como depois do ano sabático. Isso redundará muito em honra de Deus e lhe dará renome.

Mas (2.) sem dúvida o texto aponta para algo além. Isso servirá de sinal eterno. [1.] A redenção dos judeus da Babilônia confirmará as promessas relativas aos tempos do evangelho. O cumprimento das profecias sobre essa grande libertação será garantia e penhor do cumprimento de todas as outras promessas; assim ficará claro que é fiel aquele que prometeu.

[2.] Ela representará as bênçãos prometidas e será tipo e figura delas. Primeiro, a graça do evangelho libertará os que eram escravos do pecado e de Satanás. Sairão e serão conduzidos. Cristo os libertará e, então, serão livres de fato. Segundo, encherá de alegria os que viviam tristes. “Jacó se alegrará, e Israel ficará contente”, Salmos 14:7.

A terra e as partes inferiores da criação participarão da alegria desta salvação, Salmos 96:11,12. Terceiro, produzirá grande mudança no caráter das pessoas. Os que eram como espinhos e abrolhos, bons apenas para o fogo, ou melhor, nocivos e irritantes, se tornarão graciosos e úteis como o cipreste e a murta. Espinhos e abrolhos surgiram com o pecado e foram frutos da maldição, Gênesis 3:18.

Plantar árvores agradáveis em seu lugar significa remover a maldição da lei e introduzir as bênçãos do evangelho. Os inimigos da igreja eram como espinhos e abrolhos; em seu lugar, Deus levantará amigos para protegê-la e adorná-la.

Ou isso pode indicar que o mundo melhorará: em vez de uma geração de espinhos e abrolhos, virá uma geração de ciprestes e murtas; os filhos serão mais sábios e melhores que os pais.

E, quarto, em tudo isso Deus será glorificado. Isso lhe dará renome, pelo qual será conhecido e louvado, e animará o povo de Deus. Será um sinal eterno do favor de Deus para com eles, assegurando-lhes que, embora esse favor possa ficar encoberto por algum tempo, jamais será cortado. A aliança da graça é eterna, pois as bênçãos presentes dela são sinais das eternas.


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