Isaías 47
Argumento
A Sabedoria Infinita poderia ter disposto as coisas de tal modo que Israel fosse solto sem que a Babilônia sofresse dano. Mas, se os babilônios endurecem o coração e não deixam o povo partir, só podem culpar a si mesmos por sua ruína se tornar o caminho para a soltura de Israel.
Essa ruína é amplamente predita neste capítulo, não para alimentar o espírito de vingança no povo de Deus, tratado com barbárie pelos babilônios, mas para animar sua fé e esperança no próprio livramento. Ela também serve de figura da queda daquele grande inimigo da igreja do Novo Testamento que, em Apocalipse, recebe o nome de “Babilônia”. Neste capítulo temos:
I. A dimensão da ruína anunciada: a Babilônia seria lançada ao pó e reduzida à completa miséria, caindo das alturas da prosperidade nas profundezas da adversidade (vv. 1-5).
II. Os pecados que provocaram Deus a trazer essa ruína sobre eles:
A crueldade com que trataram o povo de Deus (v. 6).
Seu orgulho e sua segurança carnal (vv. 7-9).
Sua confiança em si mesmos e seu desprezo por Deus (v. 10).
O uso de artes mágicas e sua dependência de encantamentos e feitiçarias, que, longe de ajudá-los, apenas apressariam sua ruína (vv. 11-15).
Versículos 1 a 6
A Babilônia Ameaçada. (a.C. 708.)
Nestes versículos Deus, por meio do profeta, envia um mensageiro até à Babilônia, como ocorreu com Jonas em Nínive: “Aproxima-se o tempo em que a Babilônia será destruída.” Ela recebe, assim, um aviso justo, para que pelo arrependimento possa evitar a ruína e prolongar sua tranquilidade. Observemos aqui:
I. A contenda de Deus com a Babilônia. Comecemos por ela, pois é daí que surge toda a calamidade. A Babilônia fez de Deus seu inimigo; quem, então, poderá ajudá-la? Saiba ela que o justo Juiz, a quem pertence a vingança, disse (v. 3): “Eu me vingarei.”
Ela provocou Deus e, quando se completar a medida de suas iniquidades, terá de prestar contas. Ai daqueles contra quem Deus vem para se vingar! Pois quem conhece o poder de sua ira e quão terrível é cair em suas mãos?
Se fosse um homem como nós que quisesse vingar-se de nós, poderíamos esperar enfrentá-lo à altura, escapando dele ou nos defendendo bem. Mas Deus diz: “Não te encontrarei como homem”; não com as compaixões de um homem, mas será para ela como um leão e um leão novo (Oseias 5:14).
Ou melhor, não virá com a força de um homem, à qual se pode facilmente resistir, mas com o poder irresistível de Deus. Não virá com a justiça de um homem, que se pode subornar, desviar ou abrandar por piedade insensata, mas com a justiça de Deus, rigorosa e severa, da qual ninguém escapa. Tanto ao perdoar o arrependido como ao punir o impenitente, “ele é Deus, não homem” (Oseias 11:9).
II. O motivo específico dessa contenda. Certamente há um motivo, e ele é justo: é “a vingança do seu templo” (Jeremias 50:28), pela violência cometida contra Sião (Jeremias 51:35). Deus defenderá a causa de seu povo contra eles.
Reconhece-se (v. 6) que Deus, em cólera, entregou seu povo às mãos dos babilônios, usando-os para corrigir seus filhos. Por meio deles, tornou impura sua herança: deixou seu povo exclusivo exposto a sofrer junto com as outras nações e permitiu que os pagãos, que deveriam ter permanecido distantes, entrassem em seu santuário e profanassem seu templo (Salmos 79:1).
Nisso Deus agiu com justiça. Os babilônios, porém, foram longe demais. Tendo o povo em suas mãos e triunfando ao ver tão rebaixada uma nação tão estimada por sua sabedoria, santidade e honra, pisaram nela com espírito vil e servil.
Não lhe demonstraram misericórdia alguma, não, nem mesmo os gestos comuns de humanidade a que os infelizes têm direito precisamente por sua miséria. Trataram os cativos com barbárie e desprezo, ou melhor, com satisfação diante de suas calamidades.
Os judeus foram submetidos ao jugo; como se isso não bastasse, os babilônios o tornaram pesadíssimo, acrescentando aflição aos aflitos. Ou melhor, impuseram-no aos idosos, tanto os mais velhos em idade, que já não podiam trabalhar e sucumbiriam a um peso facilmente suportado pelos jovens fortes, quanto os anciãos por seu ofício, antigos juízes, magistrados e pessoas de posição elevada.
Orgulhavam-se de sujeitá-los aos trabalhos mais baixos e penosos. Jeremias lamenta que não respeitaram a face dos anciãos (Lamentações 5:12). Nada traz ruína mais certa ou mais dolorosa a um povo do que a crueldade, sobretudo contra o Israel de Deus.
III. O terror dessa contenda. A Babilônia tem motivo para tremer ao saber quem está em desavença com ela (v. 4): “Quanto ao nosso Redentor, nosso Goël, que assume nossa causa como vingador de nosso sangue, ele tem dois nomes que não só nos trazem conforto, mas também aterrorizam nossos adversários.”
“Ele é o Senhor dos exércitos, que comanda todas as criaturas e, portanto, tem todo o poder tanto no céu quanto na terra.” Ai daqueles contra quem o Senhor luta, pois toda a criação está em guerra com eles.
“Ele é o Santo de Israel, o Deus que fez aliança conosco, habita em nosso meio e cumprirá fielmente todas as promessas que nos fez.” O poder e a santidade de Deus estão contra a Babilônia e a favor de Sião. Isso pode ser aplicado apropriadamente a Cristo, nosso grande Redentor: ele é tanto o Senhor dos exércitos quanto o Santo de Israel.
IV. As consequências dessa contenda para a Babilônia. Ela é chamada virgem porque assim se considerava, embora fosse mãe de prostitutas. Era bela como uma virgem e cortejada por todos ao redor. Fora chamada delicada e mimada (v. 1) e senhora dos reinos (v. 5), mas agora sua situação mudou:
- Sua honra se foi, e ela terá de despedir-se de toda a dignidade. A que se sentava no lugar mais alto do mundo, com pompa e sossego, terá agora de descer e sentar-se no pó, numa condição humilhante e de profundo luto.
Terá de sentar-se no chão, pois ficará tão vazia e empobrecida que nem assento lhe restará.
Seu poder se foi, e ela terá de despedir-se de todo o domínio. Não governará como antes nem imporá leis aos vizinhos: “Não há trono, nenhum para você, ó filha dos caldeus!” Repare: os que abusam da honra ou do poder provocam Deus a privá-los dessas coisas e a fazê-los descer para sentar-se no pó.
Seu sossego e prazer se foram: “Não será mais chamada delicada e mimada.” Não apenas perderá tudo aquilo com que se regalava, mas será submetida ao trabalho pesado e sentirá tanto carência quanto dor. Isso será mais do que duplamente penoso para quem antes, por delicadeza e mimo, nem se arriscava a pôr a planta do pé no chão (Deuteronômio 28:56).
É sábio não nos habituarmos ao mimo e à delicadeza, pois não sabemos quão duramente outros podem nos tratar antes de morrermos nem a que dificuldades poderemos ser reduzidos.
- Sua liberdade se foi, e ela foi levada à servidão, a um cativeiro tão duro quanto aquele a que submetera outros em sua prosperidade. Até os grandes da Babilônia terão de receber dos conquistadores a mesma lei que costumavam dar aos conquistados: “Toma as mós e mói a farinha” (v. 2). Ponham-se a trabalhar, a fazer trabalho árduo, como o de bater cânhamo na prisão de Bridewell.
O trabalho os fará suar tanto que terão de tirar os adornos da cabeça e deixar os cabelos descobertos. Quando forem levados de um lugar para outro ao capricho dos senhores, terão de atravessar a água até a cintura, descobrindo a perna e a coxa para cruzar os rios. Isso será grande humilhação para quem estava acostumado a andar montado com pompa.
Não reclamem, porém: foi assim que trataram seus cativos. A medida com que mediram agora lhes é aplicada. Os que têm poder devem exercê-lo com temperança e moderação, lembrando que o raio da roda que está em cima ficará embaixo.
- Toda a sua glória e toda a sua vanglória se foram. Em lugar da glória, veio a ignomínia (v. 3): “A tua nudez será descoberta, e a tua vergonha será vista.” Era o tratamento vil e bárbaro que costumavam dar aos cativos: por cobiça das roupas, não lhes deixavam sequer trapos suficientes para cobrir a nudez, tão destituídos estavam tanto da modéstia quanto da compaixão devidas à natureza humana.
Em vez de se vangloriar, ela se senta em silêncio e entra na escuridão (v. 5), envergonhada de mostrar o rosto, pois perdeu toda a reputação e não será mais chamada senhora dos reinos.
Repare: Deus pode fazer sentar em silêncio os que antes faziam o maior alarde no mundo e lançar na escuridão os que antes tinham o maior destaque. Portanto, quem se gloria, glorie-se no Deus que não muda, e não em riquezas, prazeres ou honras deste mundo, sujeitos à mudança.
Versículos 7 a 15
Babilônia Ameaçada. (a.C. 708.)
A Babilônia, agora condenada à ruína, é aqui censurada com justiça pelo orgulho, luxo e segurança que ostentava em seus dias de prosperidade, pela confiança na própria sabedoria e capacidade de previsão e, em especial, nos prognósticos e conselhos dos astrólogos.
Essas coisas são mencionadas tanto para mostrar a justiça de Deus ao trazer tais juízos sobre ela quanto para humilhá-la e submetê-la a uma vergonha ainda maior sob esses juízos. Pois, quando Deus sai para tomar vingança, a glória pertence a ele, mas a confusão, ao pecador.
I. Os babilônios são censurados pelo orgulho e altivez e pela opinião grandiosa que tinham de si, por causa de sua riqueza e poder e da vasta extensão de seu domínio.
Era a linguagem tanto do governo quanto do povo em geral: “Dizes em teu coração” — e Deus, que sonda todos os corações, pode dizer aos homens o que falam ali, embora nunca o expressem —: “Eu sou, e não há ninguém além de mim” (v. 8, 10).
A repetição dessa parte da acusação indica que a diziam com frequência e que ela ofendia muito a Deus. São as mesmas palavras que Deus muitas vezes disse a respeito de si: “Eu sou, e não há ninguém além de mim”, indicando sua existência por si mesmo, suas perfeições infinitas e incomparáveis e sua supremacia exclusiva.
A Babilônia alega possuir tudo isso. Não admira que ela, que assumia o poder de criar os deuses e deusas que quisesse para o povo adorar, tenha feito de si mesma mais uma divindade.
Já é presunção dizer de qualquer criatura: “Ela existe, não há outra igual a ela nem ninguém além dela”, pois as criaturas estão quase no mesmo nível umas das outras. Mas é arrogância intolerável alguém dizer isso de si mesmo, além de prova de que não conhece a si próprio.
II. São censurados pelo luxo e amor à comodidade (v. 8): “Tu que te entregas aos prazeres és escrava deles; vives neles como em teu elemento e, para desfrutá-los sem perturbação nem interrupção, moras despreocupadamente e não levas nada a sério.”
Grande riqueza e abundância são grandes atrações para a sensualidade e, onde há fartura de pão, geralmente também há abundância de ociosidade. Mas, se os que se entregam aos prazeres e vivem despreocupados ao menos ouvissem que Deus os levará a juízo por todas essas coisas, isso esfriaria sua alegria, moderaria seu prazer e lhes daria algo com que se preocupar.
III. São censurados por sua segurança carnal e pela confiança vã de que sua pompa e seus prazeres durariam para sempre. O texto insiste muito nesse ponto. Observe:
- A causa de sua segurança. Julgavam-se seguros e livres do perigo, não porque ignorassem a incerteza de todas as satisfações terrenas e o destino inevitável que aguarda tanto Estados e reinos quanto indivíduos, mas porque não levavam isso a sério, não aplicavam a verdade a si mesmos nem lhe davam a devida consideração.
Embalavam-se no sono da comodidade e do prazer, sonhando apenas que o dia seguinte seria como o presente, e muito mais abundante.
Não se lembravam do fim de sua prosperidade: ela é uma flor que murcha e secará. Tampouco se lembravam do fim de sua iniquidade: ela se tornará amargura, e virá o dia em que terão de prestar contas por sua injustiça e opressão e receber a punição correspondente.
“Ela não se lembrou do próprio fim” — é como alguns leem a passagem. Esqueceu que chegaria o dia de sua queda e qual seria o desfecho de tudo isso. Jerusalém foi arruinada porque não se lembrou do seu fim e, por isso, caiu de modo espantoso (Lamentações 1:9); o mesmo aconteceu com a Babilônia.
Os filhos dos homens ficam tranquilos e se julgam seguros em seus caminhos pecaminosos somente porque nunca pensam na morte, no juízo e em sua condição futura.
- O fundamento de sua segurança. Confiavam na própria maldade e sabedoria (v. 10):
(1.) Seu poder e sua riqueza, obtidos por fraude e opressão, eram a base de sua confiança: “Confiaste na tua maldade”, como Doeg (Salmos 52:7). Muitos corromperam tanto a própria consciência e chegaram a tal ponto de ousadia na maldade que não hesitam diante de nada.
Confiam que isso os fará superar as dificuldades que embaraçam os homens que agem segundo a consciência no que dizem e fazem. Não duvidam de que vencerão todos os inimigos, pois ousam mentir, matar, perjurar e fazer qualquer coisa por interesse próprio. Assim, confiam na maldade para se proteger, quando essa é a única coisa que os arruinará.
(2.) Sua política e astúcia, que chamavam de sabedoria, eram a base de sua confiança. Julgavam poder ser mais espertos que toda a humanidade e, por isso, desafiar todos os inimigos. Mas sua sabedoria e seu conhecimento os perverteram e os desviaram do caminho, fazendo-os esquecer de si mesmos e da preparação necessária para o porvir.
- As declarações de sua segurança. Essa monarquia orgulhosa e altiva, em sua segurança, dizia três coisas:
(1.) “Serei senhora para sempre” (v. 7). Ela considerava que o título de sua honra não dependia apenas do agrado do Senhor soberano, fonte de toda honra, nem de seu bom comportamento, mas era perpétuo para a geração presente e seus herdeiros e sucessores para sempre.
Não se orgulhava apenas de ser senhora, mas estava confiante de que o seria para sempre. Assim diz a Babilônia do Novo Testamento: “Estou sentada como rainha e não verei tristeza” (Apocalipse 18:7).
Enganam-se e não consideram seu fim as senhoras que pensam sê-lo para sempre, pois logo a morte porá sua honra no pó com elas. Os santos serão santos para sempre; senhores e senhoras, não.
(2.) “Não me sentarei como viúva, em solidão e tristeza; jamais perderei o poder e a riqueza com os quais estou casada. À monarquia nunca faltará um monarca que a despose, proteja e seja esposo do Estado; tampouco conhecerei a perda de filhos” (v. 8).
Ela estava tão confiante na continuidade da população quanto na dignidade de seu governante e não temia ser deposta nem despovoada. Os que estão no auge da prosperidade tendem a imaginar-se fora do alcance do infortúnio.
(3.) “Ninguém me vê quando faço o mal; portanto, não haverá quem me peça contas” (v. 10). É comum os pecadores se prometerem impunidade, porque se prometem segredo em seus caminhos perversos.
Confiam que suas artes e planos perversos lhes serão úteis, pois pensam tê-los executado de modo tão convincente que ninguém conseguirá perceber a maldade e o engano neles.
- A punição por sua segurança. Ela será sua ruína, e será:
(1.) Uma ruína completa, que destruirá todos os seus consolos e fundamentos de confiança: “Estas duas coisas virão sobre ti — precisamente as duas que desafiaste —: a perda de filhos e a viuvez” (v. 9).
“Tanto os teus governantes quanto o teu povo serão eliminados, de modo que deixarás de ser governo e nação.”
Repare: Deus muitas vezes traz sobre os pecadores que se julgam seguros exatamente os danos que eles menos temiam e dos quais menos se julgavam ameaçados. “Essas coisas virão sobre ti em toda a sua plenitude, com todas as circunstâncias agravantes e sem nada que as amenize ou mitigue.”
As aflições dos filhos de Deus não são aflições em toda a sua plenitude. Para eles, a viuvez não é uma calamidade completa, pois encontram consolo em saber que seu Criador é seu marido. A perda dos filhos também não é, pois Deus lhes é melhor do que dez filhos. Sobre seus inimigos, porém, essas aflições vêm em toda a sua plenitude.
A viuvez e a perda de filhos são, cada uma, grande motivo de dor; juntas, são ainda maiores. Noemi pensa que, ao perder tanto os filhos quanto o marido, pode com razão ser chamada de Mara (Rute 1:5).
Mesmo assim, esses males não vieram sobre ela em toda a sua plenitude, pois lhe restaram duas noras que a consolavam. Sobre a Babilônia, porém, vêm em toda a sua plenitude: não lhe resta consolo algum.
(2.) Uma ruína repentina e surpreendente. O mal virá num só dia, ou melhor, num instante, o que o tornará muito mais terrível, sobretudo para os que se sentiam tão seguros. “O mal virá sobre ti” (v. 11), “e não terás tempo nem meios para te proteger dele ou preparar-te para enfrentá-lo, pois não saberás de onde surge e, portanto, não saberás onde montar guarda.”
“Não conhecerás a manhã dele”: assim se lê a expressão hebraica. Sabemos exatamente quando e onde o dia romperá e o sol nascerá, mas não sabemos o que o dia trará quando chegar, nem quando ou onde surgirá a aflição. Talvez a tempestade venha de um ponto do horizonte em que mal pensávamos.
A Babilônia alegava grande sabedoria e conhecimento (v. 10), mas, com todo o seu conhecimento, não consegue prever a ruína ameaçadora nem, com toda a sua sabedoria, evitá-la: “A desolação virá sobre ti de repente, como ladrão de noite, sem que a conheças”, isto é, na qual ela mal havia pensado.
Isaías e outros profetas do Senhor de fato lhes deram justo aviso dessa desolação. Eles, porém, desprezaram o aviso e não lhe deram crédito; por isso, com justiça, foi ordenado que não recebessem nenhum outro aviso.
Assim, em parte por causa de sua própria segurança e em parte pela rapidez e astúcia do inimigo, quando a desolação chegasse seria uma surpresa completa para eles. Os que desprezam os avisos da palavra escrita não devem esperar outras advertências antecipadas.
(3.) Uma ruína irresistível, contra a qual não terão defesa: “O dano virá sobre ti tão de repente que não terás tempo de te abrigar, e com tanta força que não conseguirás resistir a ele, repeli-lo e salvar-te.” Não há como resistir aos juízos de Deus quando vêm com sua ordem.
A própria Babilônia, apesar de toda a sua riqueza, poder e numerosa população, não é capaz de repelir o dano que se aproxima.
IV. São censurados por suas adivinhações e por suas artes e ciências mágicas e astrológicas. Os caldeus eram mais conhecidos por elas que qualquer outra nação, e deles as demais nações tomaram emprestado todo esse tipo de conhecimento.
- Isso é mencionado como um dos pecados com que provocavam a Deus e que atrairiam sobre eles seus juízos (v. 9): “Esses males virão sobre ti como punição pela multidão de tuas feitiçarias e pela grande abundância de teus encantamentos.”
A feitiçaria é, por sua própria natureza, um pecado extremamente hediondo: atribui ao diabo a honra que pertence somente a Deus, faz do inimigo de Deus nosso guia e do pai da mentira nosso oráculo. Na Babilônia era um pecado nacional, protegido e apoiado pelo governo. Ao que parece, os feiticeiros eram seus conselheiros particulares e principais ministros de Estado.
E Deus não castigará essas coisas? Observe quão numerosas e abundantes eram as feitiçarias e os encantamentos entre eles. Era um pecado tão enfeitiçador que, uma vez admitido, espalhou-se como fogo, e eles nunca viram seu fim. Enganados e enganadores aumentaram de modo espantoso.
- Isso também é mencionado como um de seus vãos fundamentos de confiança. Dependiam muito dessas artes, mas elas os decepcionariam: não serviriam sequer para avisá-los dos juízos que se aproximavam, quanto menos para protegê-los deles.
(1.) São censurados pelo imenso esforço que dedicaram às feitiçarias e aos encantamentos: “Trabalhaste neles desde a mocidade” (v. 12). Formavam seus jovens nesses estudos, e os que se aplicavam a eles trabalhavam incansavelmente: liam livros, faziam observações e realizavam experimentos.
Pois bem, que se apresentem agora com seus encantamentos e ponham sua habilidade à prova no momento decisivo. Que resistam, se puderem, ao inimigo invasor; que se apresentem para oferecer seus serviços à pátria. Mas com que resultado?
“Estás cansada da multidão de teus conselhos dessa espécie” (v. 13). “Consultaste todos eles sem obter resposta satisfatória. Os diferentes esquemas que traçaram e os diferentes julgamentos que emitiram só aumentaram tua perplexidade e te deixaram exausta.” Na multidão de tais conselheiros não há segurança.
(2.) São censurados pela variedade de pessoas desse tipo que havia entre eles (v. 13). Tinham seus astrólogos, ou observadores dos céus, que não os contemplavam, como Davi, para enxergar neles a sabedoria e o poder de Deus. Antes, sob o pretexto de prever acontecimentos futuros por meio deles, observavam os céus e esqueciam aquele que os fez.
Deus estabeleceu o domínio dos céus sobre a terra (Jó 38:33) e ele próprio domina sobre eles, pois cavalga os céus. Tinham observadores das estrelas que liam, em seus movimentos, conjunções e oposições, o destino dos Estados e reinos.
Tinham seus prognosticadores mensais, autores de almanaques, que diziam como seria o tempo ou que notícias haveria em cada mês. A grande quantidade deles era motivo de orgulho para os babilônios, mas todos eram embusteiros, e sua arte era uma farsa.
Confesso que não vejo como a astrologia judiciária que alguns hoje alegam praticar, e cujas regras usam para se propor a profetizar acerca das coisas futuras, se distingue da dos caldeus. Tampouco vejo como poderia escapar da censura e do desprezo que este texto lança sobre aquela astrologia.
No entanto, temo que haja quem estude os próprios almanaques e dê mais atenção a eles e a seus prognósticos do que à Bíblia e às profecias nela contidas.
(3.) São censurados pela total incapacidade e insuficiência de todos esses pretendentes para lhes prestar qualquer ajuda no dia da aflição. Que vejam se, com o auxílio de seus encantamentos, conseguem vencer os inimigos ou beneficiar a si mesmos, animar suas próprias tropas ou desalentar as que vêm contra eles (v. 12).
Que vejam que serviço podem prestar os que fazem da adivinhação um negócio: “Que se levantem e, pelo seu poder, te salvem dos males que virão sobre ti; ou, por sua capacidade de previsão, os descubram tão cedo que consigas salvar-te tomando as precauções necessárias.”
Assim Eliseu, ao informar o rei de Israel sobre os movimentos do exército sírio, permitiu que ele se salvasse, e isso mais de uma ou duas vezes (2 Reis 6:10).
O fracasso dos adivinhos se cumpriu literalmente na noite em que a Babilônia foi tomada e Belsazar, morto. Todos os seus astrólogos, adivinhos e sábios ficaram inteiramente perplexos com a escrita na parede que pronunciava a sentença fatal (Daniel 5:8).
(4.) São censurados pela queda dos próprios sábios na ruína comum (v. 14). Dificilmente poderão ajudar os outros os que não conseguem proteger a si mesmos. Na melhor das hipóteses, são como palha, sem valor nem utilidade; e serão como palha diante de um fogo consumidor.
Para abrir espaço aos próprios sábios, os persas eliminarão os da Babilônia. Esse fogo os queimará, e eles não conseguirão livrar-se do poder das chamas. Os que, por seus pecados, fazem de si mesmos combustível para um fogo devorador não podem esperar outra coisa senão ser consumidos por ele.
Quando Deus acender um fogo entre eles, não será uma brasa para aquecer-se nem um fogo diante do qual se sentar, mas uma brasa que os queimará. Ou melhor, isso indica que serão totalmente consumidos pelos juízos de Deus, reduzidos a cinzas, sem que reste uma só brasa acesa para prestar serviço a quem quer que seja. Pois, quando Deus julga, ele vence.
(5.) São censurados por seus mercadores e pelos que negociavam com eles desde a juventude (v. 15), seja:
[1.] Por meio de consultas. Sempre gostaram de lidar com os astrólogos que praticavam as artes ocultas, e estes eram, na prática, seus mercadores. A adivinhação era um dos negócios mais lucrativos da Babilônia, e provavelmente os que o exerciam viviam com tanto esplendor e ganhavam tanto dinheiro quanto os mercadores mais ricos.
Contudo, quando alguns deles foram consumidos, outros fugiram do país, cada qual para o seu lado, e ninguém restou para salvar a Babilônia. Todos eles são consoladores miseráveis.
[2.] Por meio do comércio. Assim como lhes falharam os astrólogos com quem haviam trabalhado, também lhes falharam os mercadores. Estes trataram de proteger os próprios bens e depois não se importaram com o destino da Babilônia.
Cada um se dispersou para o seu canto e cuidou da própria segurança. Ninguém se ofereceu para estender a mão e ajudar, nem mesmo uma cidade à custa da qual haviam ganhado tanto dinheiro. Cada um cuidava de si, mas poucos cuidavam dos amigos.
Os mercadores que enriqueceram graças à Babilônia do Novo Testamento lamentam sua queda, mas prudentemente ficam de longe para chorar por ela (Apocalipse 18:15), sem querer tentar coisa alguma em seu socorro. Felizes os que, pela fé e pela oração, lidam com alguém que é socorro bem presente na aflição!