Matthew Henry

Isaías 29

Argumento

Este ai contra Ariel, que temos neste capítulo, é o mesmo que o “peso do vale da visão” (Isaías 22:1) e, muito provavelmente, aponta para o mesmo acontecimento: o cerco de Jerusalém pelo exército assírio, que ali foi exterminado por um anjo. Contudo, é aplicável à destruição de Jerusalém pelos caldeus e às suas últimas desolações pelos romanos. Aqui está:

I. O próprio acontecimento predito: Jerusalém ficaria em grande angústia (vv. 1-4, 6), mas os inimigos que a afligiam seriam frustrados e derrotados (v. 5, 7, 8).

II. Uma repreensão a três espécies de pecadores:

  1. Aqueles que eram insensíveis e indiferentes aos avisos que o profeta lhes dava (vv. 9-12).

  2. Aqueles que eram formais e hipócritas em seus atos religiosos (v. 13, 14).

  3. Aqueles estadistas que, de modo ateu e profano, desprezavam a providência de Deus e estabeleciam seus próprios projetos em rivalidade com ela (v. 15, 16).

III. Preciosas promessas de graça e misericórdia a um remanescente separado, que Deus santificaria e em quem seria santificado, quando seus inimigos e perseguidores fossem exterminados (vv. 17-24).

Versículos 1 a 8

O Castigo de Ariel. (a.C. 725.)

Há acordo em que Jerusalém é aqui chamada Ariel, pois era a cidade onde Davi habitava. A parte dela chamada Sião era, de modo particular, a cidade de Davi, na qual estavam tanto o templo quanto o palácio. Mas o motivo desse nome é muito incerto: provavelmente o nome e seu motivo eram bem conhecidos naquele tempo.

As cidades, assim como as pessoas, recebem sobrenomes e apelidos. Ariel significa o leão de Deus, ou o leão forte. Assim como o leão é rei entre os animais, assim Jerusalém o era entre as cidades, dando lei a todas ao seu redor. Era “a cidade do grande Rei” (Salmos 48:1, 2).

Era a cidade principal de Judá, chamado “filhote de leão” (Gênesis 49:9), cuja insígnia era um leão; e aquele que é o leão da tribo de Judá era sua glória. Jerusalém às vezes era um terror para as nações vizinhas e, enquanto era uma cidade justa, era ousada como um leão.

Alguns entendem que Ariel significa o altar dos holocaustos, que devorava os animais oferecidos em sacrifício como o leão devora sua presa. Ai desse altar na cidade onde Davi habitava; ele foi destruído com o templo pelos caldeus.

Entendo antes como um ai contra Jerusalém, Jerusalém; a repetição ocorre aqui, como em Mateus 23:37, para que despertasse tanto mais. Aqui está:

I. A angústia de Jerusalém predita. Embora Jerusalém seja uma cidade forte, como um leão, embora seja uma cidade santa, como um leão de Deus, ainda assim, se nela se encontrar iniquidade, ai dela!

Era a cidade onde Davi habitava. Foi ele quem lhe trouxe aquilo que era sua glória e que a tornou um tipo da igreja do evangelho; e sua habitação nela tipificava a residência de Cristo em sua igreja. Isso é mencionado como agravante do pecado de Jerusalém: nela foram estabelecidos tanto o testemunho de Israel quanto os tronos da casa de Davi.

  1. Que Jerusalém saiba que sua realização externa de serviços religiosos não servirá como isenção dos juízos de Deus (v. 1). “Acrescentem ano a ano; prossigam no caminho de suas festas anuais, que todos os seus homens compareçam ali três vezes por ano diante do Senhor, e nenhum vazio, segundo a lei e o costume, e nunca faltem a nenhuma dessas solenidades.”

“Que matem os sacrifícios, como costumavam fazer; mas, enquanto suas vidas não forem reformadas e seus corações não forem humilhados, não pensem assim apaziguar um Deus ofendido e afastar sua cólera.”

Repare: hipócritas podem ser encontrados numa trilha constante de exercícios devotos, andando em círculos neles, e com estes podem lisonjear a si mesmos, mas nunca podem agradar a Deus nem fazer as pazes com ele.

  1. Que ela saiba que Deus sai contra ela em desagrado, que será visitada pelo Senhor dos Exércitos (v. 6); seus pecados serão investigados e castigados. Deus lhes pedirá contas com terríveis juízos, com os alarmes assustadores e as desolações lastimáveis da guerra, que serão como trovões e terremotos, tormentas e tempestades e fogo devorador, sobretudo por causa do grande ruído.

Quando um inimigo estrangeiro não estava nas fronteiras, mas nas entranhas de seu país, rugindo, devastando e assolando tudo, especialmente um exército como o dos assírios, podiam ver o Senhor daqueles exércitos visitando-os com trovões e tormenta.

Os comandantes desse exército eram tão insolentes, como se vê pela conduta de Rabsaqué, que os soldados comuns, sem dúvida, eram muito mais rudes. Contudo, como aqui se diz que isso é um grande ruído, talvez se dê a entender que serão mais assustados do que feridos. Particularmente:

(1.) Jerusalém será sitiada, estreitamente sitiada. Ele não diz: Destruirei Ariel, mas: “Angustiarei Ariel”; e por isso ela é levada à angústia, para que, sendo assim despertada a arrepender-se e reformar-se, não seja levada à destruição. Acamparei contra você ao redor (v. 3).

Era o exército inimigo que acampava contra ela; mas Deus diz que ele o fará, pois eles são sua mão: ele o faz por meio deles. Muitas vezes e por longo tempo Deus, com um exército de anjos, acampara em favor deles ao redor deles, para sua proteção e livramento; mas agora se tornara seu inimigo e lutava contra eles.

O cerco colocado contra eles foi colocado por ele, e os fortes levantados contra eles foram levantados por ele. Repare: quando os homens lutam contra nós, devemos, neles, ver Deus contendendo conosco.

(2.) Ela estará em dor ao ver o país assolado e todas as cidades fortificadas de Judá nas mãos dos inimigos: Haverá tristeza e pesar (v. 2), luto e lamentação, como às vezes se traduzem essas duas palavras.

Os mais alegres e joviais geralmente são, quando chegam a estar em angústia, os mais esmagados pela tristeza e pelo pesar; seu riso então se transforma em luto. “Toda Jerusalém então será para mim como Ariel, como o altar, com fogo sobre ele e vítimas abatidas ao seu redor:”

Assim foi quando Jerusalém foi destruída pelos caldeus; e muitos, sem dúvida, foram abatidos quando ela foi sitiada pelos assírios. “A cidade inteira será um altar, no qual os pecadores, caindo pelos juízos que andam pela terra, serão como vítimas da justiça divina.”

Ou assim: “Haverá tristeza e pesar; eles se arrependerão, se reformarão e voltarão a Deus, e então ela será para mim como Ariel. Jerusalém será como ela mesma, voltará a ser para mim uma Jerusalém, uma cidade santa” (Isaías 1:26).

(3.) Ela será humilhada, mortificada e tornada submissa (v. 4). Você será rebaixada da altura de arrogância e insolência a que chegou; os olhares orgulhosos e a linguagem orgulhosa serão rebaixados por uma providência humilhante após outra.

Os que desprezam os juízos de Deus serão humilhados por eles, pois os pecadores mais orgulhosos ou se dobrarão ou se quebrarão diante dele. Haviam falado grandiosamente, erguido o chifre bem alto e falado com dureza de pescoço (Salmos 75:5). Mas agora falarás da terra, do pó, como alguém que tem um espírito familiar, sussurrando do pó. Isso dá a entender:

[1.] Que ficariam fracos e débeis, incapazes de falar alto ou dizer tudo que diriam; mas, como os que estão doentes ou cujo espírito está prestes a faltar, sua fala será baixa e interrompida.

[2.] Que ficariam temerosos e consternados, forçados a falar baixo por receio de que seus inimigos os ouvissem e obtivessem vantagem contra eles.

[3.] Que ficariam dóceis e seriam obrigados a submeter-se aos conquistadores. Quando Ezequias se submeteu ao rei da Assíria, dizendo: “Ofendi; o que me impuseres suportarei” (2 Reis 18:14), então sua fala foi baixa, vinda do pó. Deus pode fazer agachar-se os que foram mais audaciosos e desalentá-los inteiramente.

II. A destruição dos inimigos de Jerusalém é predita, para conforto de todos os que eram seus amigos e desejavam seu bem nessa angústia (v. 5, 7). “Você será rebaixada (v. 4), para falar do pó; a tamanho abatimento será reduzida.”

Mas “a multidão de seus estrangeiros e daqueles que a aterrorizam”, como se pode traduzir, os numerosos exércitos inimigos, será ela mesma como pó miúdo, incapaz de falar ou sequer sussurrar, mas como palha que passa. “Você será humilhada, mas eles serão inteiramente dispersos, feridos e abatidos de outra maneira” (Isaías 27:7).

“Passarão; sim, e ainda: será num instante, de repente. O inimigo será surpreendido com a destruição, e vocês com a salvação.” O exército dos assírios foi deixado morto no próprio lugar por um anjo, num instante, de repente. Assim será a destruição dos inimigos da Jerusalém do evangelho.

Em uma hora virá o seu juízo (Apocalipse 18:10). Outra vez (v. 6): “Você será visitada”, ou, como se costumava traduzir, “ela será visitada com trovões e grande ruído. Você será posta num susto do qual logo se recuperará.”

Mas (v. 7) a multidão das nações que lutam contra ela será como um sonho de uma visão noturna; eles e sua prosperidade e sucesso logo desaparecerão sem possibilidade de retorno.

A multidão das nações que lutam contra Sião será como um homem faminto que sonha que come, mas continua faminto; isto é:

  1. Ao passo que esperavam fazer de Jerusalém uma presa e enriquecer com o saque daquela cidade opulenta, suas esperanças se mostrarão sonhos vãos, com os quais suas fantasias podem agradar-se e divertir-se por algum tempo, mas serão decepcionados. Imaginaram-se senhores de Jerusalém, mas nunca o serão.

  2. Eles mesmos e toda a sua pompa, poder e prosperidade desaparecerão como um sonho quando alguém desperta; terão tão pouco valor e tão curta duração (Salmos 73:20). “Voará como um sonho” (Jó 20:8).

O exército de Senaqueribe desapareceu e se foi depressa, embora tivesse enchido o país como um sonho enche a cabeça de um homem, especialmente como um sonho de alimento enche a cabeça daquele que foi deitar-se faminto.

Muitos entendem esses versículos como parte da ameaça de cólera, quando Deus vem angustiar Jerusalém e sitiá-la.

(1.) A multidão de seus amigos, em quem ela confia para obter ajuda, não lhe fará bem algum; pois, embora sejam terríveis, serão como pó miúdo e passarão.

(2.) A multidão de seus inimigos nunca pensará que lhe pode fazer dano suficiente; mas, quando muito a tiverem devorado, continuarão apenas como um homem faminto que sonha estar comendo e permanece ávido por devorá-la ainda mais.

Versículos 9 a 16

Ameaças contra Judá. (a.C. 725.)

Aqui está:

I. O profeta fica espantado com a insensatez da maior parte da nação judaica. Tinham levitas, que ensinavam o bom conhecimento do Senhor e recebiam ânimo de Ezequias para fazê-lo (2 Crônicas 30:22).

Tinham profetas, que lhes traziam mensagens de Deus sem mediação e lhes indicavam quais eram as causas e quais seriam os efeitos do desagrado de Deus contra eles. Ora, seria de pensar: certamente esta grande nação, que tem todas as vantagens da revelação divina, é “um povo sábio e entendido” (Deuteronômio 4:6).

Mas, ai! Era inteiramente o contrário (v. 9). O profeta se dirige à parte sóbria e ponderada deles, convocando-os a serem tocados pelo descuido geral de seus vizinhos. Pode-se ler assim: “Eles adiam, protelam seu arrependimento, mas espantem-se vocês de que sejam tão embrutecidos.”

“Divertem-se com seus próprios enganos; entregam-se a excessos e à folia; mas clamem vocês, lamentem sua insensatez, clamem a Deus em oração em favor deles.” “Quanto menos percebem a mão de Deus que saiu contra eles, tanto mais vocês devem levar a sério essas coisas.”

Repare: a segurança dos pecadores em seu caminho pecaminoso é motivo justo de lamentação e espanto para todas as pessoas sérias, que devem considerar que lhes cabe orar por aqueles que não oram por si mesmos. Mas qual é o problema? Com que devemos espantar-nos assim?

  1. Bem podemos espantar-nos de que a generalidade do povo seja tão embrutecida e grosseira, e tão obcecada, como se estivesse embriagada: “Estão bêbados, mas não de vinho”, não só de vinho, embora frequentemente se embriagassem com ele; e “erraram por causa do vinho” (Isaías 28:7).

Estavam embriagados de amor aos prazeres, de preconceitos contra a religião e dos princípios corruptos que haviam absorvido. Como homens bêbados, não sabem o que fazem ou dizem, nem para onde vão. Não percebem as repreensões divinas sob as quais estão.

“Bateram-me, e não o senti”, diz o bêbado (Provérbios 23:35). Deus lhes fala uma vez, e até duas; mas, como homens bêbados, não percebem, não entendem, mas se esquecem da lei. Cambaleiam em seus conselhos, são instáveis e inconstantes e tropeçam em tudo que está no seu caminho. Existe uma embriaguez espiritual.

  1. É ainda mais estranho que o próprio Deus tenha derramado sobre eles um espírito de profundo sono e fechado seus olhos (v. 10); que aquele que lhes manda despertar e abrir os olhos, ainda assim, os faça dormir e lhes feche os olhos. Mas é por meio de justo juízo, para castigá-los por amarem mais as trevas que a luz, por amarem o sono.

Quando Deus os chamava por seus profetas, diziam: “Ainda um pouco de sono, um pouco de cochilo”; e por isso ele os entregou a fortes ilusões e disse: “Dormi agora”. Isso se aplica aos judeus incrédulos, que rejeitaram o evangelho de Cristo e foram justamente endurecidos em sua incredulidade, até que a cólera veio sobre eles ao extremo.

Em Romanos 11:8, “Deus lhes deu o espírito de torpor”. E temos motivo para temer que seja a lamentável situação de muitos que vivem em meio à luz do evangelho.

  1. É muito triste que essa fosse a situação dos que eram seus profetas, governantes e videntes; que os que deveriam ter sido seus guias estivessem eles mesmos de olhos vendados. E é fácil dizer quais serão as consequências fatais quando os cegos guiam os cegos.

Isso se cumpriu quando, nos últimos dias da igreja judaica, os principais sacerdotes, os escribas e os anciãos do povo eram os grandes opositores de Cristo e de seu evangelho e se colocaram sob uma obcecação judicial.

  1. O triste efeito disso foi que todos os meios de convencimento, conhecimento e graça de que desfrutavam eram ineficazes e não alcançavam o fim (v. 11, 12). A visão de todos os profetas, verdadeiros e falsos, tornou-se para vocês como as palavras de um livro, ou carta, que está selado; vocês não podem discernir a verdade das visões reais e a falsidade das alegadas.

Ou cada visão, particularmente a que este profeta vira em favor deles e lhes publicara, se tornara ininteligível. Tinham-na entre eles, mas nem por isso se tornavam mais sábios, assim como um homem, embora bom erudito, não se torna mais sábio com um livro que lhe é entregue selado e cujos selos não pode abrir.

Ele vê que é um livro, e isso é tudo; nada sabe do que contém. Assim, sabiam que o que Isaías dizia era uma visão e profecia, mas seu significado lhes estava oculto. Era para eles apenas um som de palavras, que de modo algum os alarmava ou tocava; não correspondia à intenção, pois não lhes causava impressão alguma.

Nem os instruídos nem os não instruídos se beneficiavam de todas as mensagens que Deus lhes enviava por seus servos, os profetas, nem desejavam beneficiar-se. As pessoas comuns se desculpavam de dar atenção ao que os profetas diziam com sua falta de instrução e de formação erudita, como se não lhes coubesse conhecer e fazer a vontade de Deus por não terem sido formadas como eruditas.

“Isso nada tem a ver comigo, não sou instruído.” Os de posição melhor alegavam que o profeta tinha um modo peculiar de falar, que lhes era obscuro e ao qual, embora fossem homens de letras, não estavam acostumados; e Si non vis intelligi, debes negligi: se você não deseja ser entendido, merece ser negligenciado.

Ambas são alegações sem fundamento, pois os profetas de Deus não foram devedores infiéis nem aos sábios nem aos não sábios (Romanos 1:14). Ou podemos entender assim: o livro da profecia lhes foi dado selado, de modo que não podiam lê-lo, como justo juízo contra eles, pois muitas vezes lhes fora entregue sem selo.

Não quiseram dar-se ao trabalho de aprender sua linguagem e, depois, se desculpavam de não o lerem porque não eram instruídos. Mas observe: “A visão tornou-se assim para vocês, cujas mentes o deus deste mundo cegou; mas não é assim em si mesma, não é assim para todos.”

“A mesma visão que para vocês é cheiro de morte para morte, para outros é e será cheiro de vida para vida.” O conhecimento é fácil para quem entende.

II. O profeta, em nome de Deus, ameaça aqueles que eram formais e hipócritas em seus exercícios de devoção (v. 13, 14). Observe aqui:

  1. O pecado de que aqui são acusados: dissimular com Deus em seus atos religiosos (v. 13). Aquele que conhece o coração e não pode ser iludido com aparências e alegações os acusa disso, quer seus corações os condenem por isso, quer não.

Aquele que é maior que o coração e conhece todas as coisas sabe que, embora se aproximem dele com sua boca e o honrem com seus lábios, ainda assim não são adoradores sinceros. Adorar a Deus é aproximar-nos dele e apresentar-lhe nossas adorações; é aproximar-nos dele como quem tem assuntos a tratar com ele, com a intenção de nisso honrá-lo.

Devemos fazer isso com nossa boca e nossos lábios, falando dele e falando com ele; devemos render-lhe “os bezerros de nossos lábios” (Oseias 14:2). E, se o coração estiver cheio de seu amor e temor, dessa abundância a boca falará.

Mas há muitos cuja religião é apenas trabalho de lábios. Dizem o que expressa uma aproximação de Deus e uma adoração dele, mas é só dos dentes para fora. Pois:

(1.) Não aplicam sua mente ao serviço. Quando alegam estar falando com Deus, pensam em mil coisas sem importância: “Afastaram seus corações para longe de mim”, para que não se ocupassem em oração nem ficassem ao alcance da palavra.

Quando havia trabalho a fazer para Deus que exigia o coração, este era enviado para fora do caminho de propósito, com os olhos do insensato, para os confins da terra.

(2.) Não fazem da palavra de Deus a regra de sua adoração nem de sua vontade o motivo dela: “Seu temor para comigo é ensinado pelo preceito dos homens”. Adoravam o Deus de Israel não segundo sua designação, mas suas próprias invenções, as orientações de seus falsos profetas ou seus reis idólatras, ou os usos das nações ao redor deles.

A tradição dos anciãos tinha para eles mais valor e validade que as leis que Deus ordenara a Moisés. Ou, se adoravam a Deus de modo conforme à sua instituição nos dias de Ezequias, grande reformador, tinham mais em vista o preceito do rei que o mandamento de Deus.

Nosso Salvador aplica isso aos judeus de seu tempo, que eram formais em suas devoções e apegados às suas próprias invenções, e declara a respeito deles que em vão adoravam a Deus (Mateus 15:8, 9).

  1. É com um juízo espiritual que Deus ameaça castigá-los por sua maldade espiritual (v. 14): “Prosseguirei em fazer uma obra maravilhosa”. Fizeram uma coisa estranha: retiraram toda a sinceridade de seus corações. Agora Deus prosseguirá e fará outra: retirará toda a sagacidade de suas cabeças. “A sabedoria de seus sábios perecerá.”

Fizeram-se de hipócritas e pensaram aplicar um embuste a Deus, e agora são deixados entregues a si mesmos para fazerem-se de insensatos, não só aplicando um embuste a si mesmos, mas sendo facilmente vítimas de embuste por todos ao seu redor.

Os que fazem da religião apenas uma alegação, para servir a um fim ocasional, erram em seus cálculos políticos; e é justo que Deus prive de entendimento os que abrem mão de sua retidão.

Isso se cumpriu na miserável obcecação sob a qual a nação judaica manifestamente estava depois de rejeitar o evangelho de Cristo. Afastaram seus corações para longe de Deus, e por isso Deus justamente afastou deles a sabedoria e ocultou de seus olhos as coisas que diziam respeito até à sua paz temporal.

É uma obra maravilhosa; é surpreendente, é espantoso que sábios de repente percam sua sabedoria e sejam entregues a fortes ilusões. Os juízos sobre a mente, embora sejam aqueles em que menos se repara, devem causar o maior espanto.

III. Ele mostra a insensatez dos que pensavam agir separadamente e em segredo de Deus, levando adiante desígnios independentes de Deus, que projetavam esconder de seu olho que tudo vê. Aqui temos:

  1. Seus cálculos políticos descritos (v. 15): “Buscam profundamente esconder seu conselho do Senhor”, para que ele não saiba ou o que fazem ou o que intentam. Dizem: “Quem nos vê? Nenhum homem, e por isso nem o próprio Deus.”

As consultas que tinham acerca de sua própria segurança guardavam para si, e nunca pediam o conselho de Deus a respeito delas. Ou melhor: sabiam que lhe desagradavam, mas pensavam poder escondê-las dele; e, se ele não as conhecesse, não poderia frustrá-las e derrotá-las.

Veja que esforços insensatos e infrutíferos os pecadores fazem em seus caminhos pecaminosos. Buscam profundamente, afundam profundamente, para esconder seu conselho do Senhor, que está sentado no céu e ri deles.

Repare: uma incredulidade prática na onisciência de Deus está na base tanto das adorações carnais quanto das confianças carnais dos hipócritas (Salmos 94:7; Ezequiel 8:12; 9:9).

  1. O absurdo de seus cálculos políticos demonstrado (v. 16). Certamente essa sua inversão das coisas, seus diversos projetos, virando seus assuntos para um e outro lado, para dar-lhes a forma que desejam, ou antes sua inversão da ordem das coisas, será considerada como o barro do oleiro.

Pensam fazer a providência de Deus atender aos seus projetos, e que Deus não deve saber mais do que vocês acham conveniente; isso é virar perfeitamente as coisas de cabeça para baixo e começar pelo lado errado. Deus virará e administrará vocês e todos os seus conselhos com tanta facilidade e tão absoluto poder quanto o oleiro forma e modela seu barro.

Veja como Deus despreza, e por isso que pouco motivo temos para temer, aquelas maquinações dos homens que são levadas adiante sem Deus, particularmente as que são contra ele.

(1.) Os que pensam esconder seus conselhos de Deus negam, na prática, que ele seja seu Criador. É como se a obra dissesse daquele que a fez: “Ele não me fez; eu me fiz.” Se Deus nos fez, certamente nos conhece, como mostra o salmista (Salmos 139:1, 13-16).

De modo que os que dizem que ele não os vê poderiam igualmente dizer que não os fez. Muito da maldade dos ímpios surge disto: esquecem-se de que Deus os formou (Deuteronômio 32:18).

Ou, (2.) O que dá no mesmo, negam que ele seja um Criador sábio: “A coisa formada diz daquele que a formou: Não tinha entendimento”. Pois, se tinha entendimento para fazer-nos de modo tão primoroso, especialmente para fazer-nos seres inteligentes e pôr “entendimento na parte interior” (Jó 38:36), sem dúvida tem entendimento para conhecer-nos e a tudo que dizemos e fazemos.

Assim como os que têm desavenças com Deus, assim os que pensam esconder-se dele, na prática, o acusam de insensatez; mas “aquele que formou o olho não verá?” (Salmos 94:9).

Versículos 17 a 24

Promessas a Israel; Caráter dos Perseguidores; Promessas de Jacó. (a.C. 725.)

Disse-se que os que pensavam esconder seus conselhos do Senhor viravam as coisas de cabeça para baixo (v. 16), e pretendiam fazê-lo sem que Deus soubesse. Mas Deus aqui lhes diz que virará as coisas de cabeça para baixo à sua maneira; e vejamos de quem a palavra permanecerá, dele ou deles.

Não creem na Providência. Esperem um pouco, diz Deus, e serão convencidos por demonstração ocular de que há um Deus que governa o mundo, e que o governa e ordena todas as mudanças nele para o bem de sua igreja.

A maravilhosa revolução aqui predita pode referir-se principalmente à feliz estabilidade dos assuntos de Judá e Jerusalém depois da derrota da tentativa de Senaqueribe, e ao repouso de que então desfrutavam as pessoas boas, quando foram libertadas dos alarmes da espada tanto da guerra quanto da perseguição.

Mas pode olhar mais adiante, para a rejeição dos judeus no primeiro plantio do evangelho, pois sua hipocrisia e incredulidade foram aqui preditas (v. 13), e para a admissão dos gentios na igreja.

I. Em geral, é uma grande e surpreendente mudança que aqui se prediz (v. 17). O Líbano, que era uma floresta, será transformado num campo fértil; e o Carmelo, que era um campo fértil, se tornará uma floresta. É uma mudança recíproca.

Repare: grandes mudanças, tanto para melhor quanto para pior, frequentemente são feitas num prazo muito curto. Um sinal que lhes foi dado da derrota de Senaqueribe foi que a terra seria mais fértil do que habitualmente (Isaías 37:30): “Comereis este ano o que cresce por si mesmo”. O alimento dos homens será, como é o dos animais, o produto espontâneo do solo.

Então o Líbano se tornou um campo fértil, tão fértil que aquilo que costumava ser considerado campo fértil, em comparação com ele, era visto apenas como floresta.

Quando uma grande colheita de almas foi recolhida a Cristo dentre os gentios, então o deserto foi transformado num campo fértil; e a igreja judaica, que por muito tempo fora um campo fértil, tornou-se uma floresta desolada e deserta (Isaías 54:1).

II. Em particular:

  1. Os que eram ignorantes se tornarão inteligentes (v. 18). Os que não entendiam esta profecia, mas para quem era como um livro selado (v. 11), quando ela se cumprir, a entenderão e reconhecerão não só a mão de Deus no desfecho, mas a voz de Deus em sua predição: Os surdos então ouvirão as palavras do livro. O cumprimento da profecia é sua melhor exposição.

Aos pobres gentios então será trazida a revelação divina; e os que estavam sentados nas trevas verão uma grande luz, os cegos verão da obscuridade, pois o evangelho lhes foi enviado “para abrir seus olhos” (Atos 26:18).

Observe: para tornar os homens frutíferos em boas afeições e ações, o caminho que a graça de Deus segue com eles é abrir seus entendimentos e fazê-los ouvir as palavras do livro de Deus.

  1. Os que estavam no erro se tornarão ortodoxos (v. 24). Os que erravam em espírito, que estavam sob enganos e equívocos acerca das palavras do livro e de seu significado, chegarão ao entendimento, a um entendimento correto das coisas. O Espírito da verdade corrigirá seus enganos e os guiará a toda a verdade.

Isso deve animar-nos a orar pelos que erraram e estão enganados: Deus pode, e frequentemente o faz, levá-los ao entendimento. Os que murmuravam das verdades de Deus como palavras duras, e gostavam de provocar desavenças com elas, aprenderão o verdadeiro significado dessas doutrinas e então estarão mais bem reconciliados com elas.

Os que erravam acerca da providência de Deus quanto aos assuntos públicos, e murmuravam do seu dispor, quando virem o resultado das coisas, as entenderão melhor e perceberão o que Deus estava projetando em tudo (Oseias 14:9).

  1. Os que eram melancólicos se tornarão alegres e agradáveis (v. 19): “Os mansos também aumentarão sua alegria no Senhor”. Os que são pobres no mundo e pobres de espírito, que, estando em aflição, se acomodam à sua aflição, são puramente passivos, e não impetuosos, quando virem Deus aparecer em favor deles, acrescentarão ou repetirão alegria no Senhor.

Isso dá a entender que mesmo em sua angústia conservavam sua alegria no Senhor, mas agora a aumentavam. Repare: aos que, quando estão em tribulação, podem na verdade alegrar-se em Deus, logo será dado motivo para alegrar-se grandemente nele.

Quando a alegria no mundo diminui e desvanece, a alegria em Deus aumenta e ganha plenitude. Esta luz brilhante brilhará mais e mais, pois o alvo é que essa alegria seja plena. Até os pobres entre os homens podem alegrar-se no Santo de Israel, e sua pobreza não precisa privá-los dessa alegria (Habacuque 3:17, 18).

E os mansos, os humildes, os pacientes e os que não se deixam dominar pelas paixões crescerão nessa alegria. Repare: a graça da mansidão contribuirá muito para o aumento de nossa santa alegria.

  1. Os inimigos, que eram temíveis, se tornarão desprezíveis. Senaqueribe, aquele terrível, e seu grande exército, que pôs o país em tamanha consternação, serão reduzidos a nada (v. 20), inteiramente incapacitados de fazer qualquer dano ulterior.

O poder de Satanás, aquele de fato terrível, será quebrado pela prevalência do evangelho de Cristo; e os que estavam sujeitos à escravidão pelo temor daquele que tinha o poder da morte serão libertados (Hebreus 2:14, 15).

  1. Os perseguidores, que atormentavam os outros, serão aquietados, e assim os que eles atribulavam estarão tranquilos, livres do medo deles. Para completar o repouso do povo de Deus, não só o terrível de fora será reduzido a nada, mas também os escarnecedores de dentro serão consumidos e exterminados pela reforma de Ezequias.

São um povo feliz, e provavelmente o serão, os que, quando Deus lhes dá vitória e sucesso contra seus terríveis inimigos de fora, têm zelo em reprimir o vício, a irreverência e o espírito de perseguição, esses inimigos mais perigosos de dentro.

Ou serão consumidos e exterminados pelos juízos de Deus, serão escolhidos para servir de exemplo. Ou definharão imperceptivelmente, sendo confundidos pelo cumprimento daquelas predições de que haviam feito zombaria. Observe qual fora a maldade desses escarnecedores, pela qual seriam exterminados.

Haviam sido perseguidores do povo e dos profetas de Deus, provavelmente do profeta Isaías em particular, e por isso ele se queixa deles e de sua sutil malícia de modo tão comovido. Alguns, como delatores e perseguidores, outros, como juízes, fizeram tudo que podiam para tirar-lhe a vida, ou ao menos a liberdade.

E isso é muito aplicável aos principais sacerdotes e fariseus, que perseguiram Cristo e seus apóstolos; e por esse pecado eles e sua nação de escarnecedores foram exterminados e consumidos.

(1.) Ridicularizavam os profetas e os que professavam seriamente a religião; desprezavam-nos e faziam o máximo para torná-los desprezados. Eram escarnecedores e se sentavam no assento dos escarnecedores.

(2.) Ficavam à espreita de uma ocasião contra eles. Por meio de seus espiões, vigiavam à procura de iniquidade, para ver se podiam agarrar qualquer coisa dita ou feita que pudesse ser chamada de iniquidade. Ou eles mesmos vigiavam por uma oportunidade de fazer dano, como Judas para trair nosso Senhor Jesus.

(3.) Tiravam vantagem contra eles do menor deslize da língua; e, se alguma coisa era dita erradamente, por pouco que fosse, servia-lhes para fundamentar uma acusação formal. Faziam de um homem, por mais sábio e bom que fosse, mesmo que fosse um homem de Deus, um culpado por uma palavra mal escolhida ou mal colocada, quando não podiam deixar de saber que fora bem-intencionada (v. 21).

Criticavam capciosamente cada palavra que os profetas lhes diziam como advertência, por mais inocentemente que fosse dita e sem nenhum desígnio de afrontá-los. Davam a pior interpretação ao que era dito e o tornavam criminoso por insinuações forçadas.

Os que consideram como todos somos propensos a falar sem reflexão e a entender mal o que ouvimos acharão muito injusto e desleal fazer de um homem um culpado por uma palavra.

(4.) Faziam tudo que podiam para levar à tribulação os que tratavam fielmente com eles e lhes diziam suas faltas. Os que repreendiam nas portas, repreensores por ofício, obrigados pelo dever de sua posição, como profetas, juízes e magistrados, a mostrar ao povo suas transgressões, eles os odiavam e armavam-lhes laços.

Como os emissários dos fariseus, enviados para vigiar nosso Salvador, para que “o enredassem em sua fala” (Mateus 22:15), para que tivessem algo de que acusá-lo que pudesse torná-lo odioso ao povo ou exposto ao governo.

Assim perseguiam os profetas; e é quase impossível aos mais cautelosos dispor suas palavras com tanta precaução que escapem de tais laços. Veja como são vis as pessoas perversas, que têm má vontade contra os que, por boa vontade para com elas, procuram salvar suas almas da morte; e veja como os repreensores precisam tanto de coragem para cumprir seu dever quanto de prudência para evitar o laço.

(5.) Pervertem o juízo e nunca deixarão um homem honesto vencer uma causa honesta: “Desviam o justo por coisa nenhuma”; condenam-no ou decidem a causa contra ele, sem prova, sem aparência ou alegação alguma.

Desacreditam um homem e o representam falsamente por todas as pequenas artes e artimanhas que podem conceber, como fizeram com nosso Salvador. Não devemos achar estranho ver os melhores homens tratados assim; o discípulo não é maior que seu Mestre. Mas esperem um pouco, e Deus não só fará aparecer sua justiça, mas exterminará e consumirá esses escarnecedores.

  1. Jacó, que foi levado a corar pelos descréditos e a tremer pelas ameaças de seus inimigos, agora será aliviado tanto de sua vergonha quanto de seu medo, pela remoção daqueles descréditos e pela frustração daquelas ameaças (v. 22).

“Assim diz o Senhor, que redimiu Abraão”, isto é, chamou-o de Ur dos caldeus e assim o resgatou da idolatria de seus pais e o arrancou como um tição do fogo. Aquele que redimiu Abraão de seus laços e tribulações redimirá dos seus todos os que são, pela fé, sua descendência genuína.

Aquele que começou seu zelo por sua igreja na redenção de Abraão, quando ela e seu Redentor estavam nos lombos dele, não abandonará agora o zelo por ela. Porque os inimigos de seu povo são tão diligentes tanto em denegri-los quanto em assustá-los, por isso ele aparecerá em favor da casa de Jacó.

E eles não serão envergonhados como foram, mas terão com que responder aos que os desacreditam, nem seus rostos agora empalidecerão. Mas ganharão coragem e olharão seus inimigos no rosto sem mudança de semblante, como têm motivo para fazer os que têm o Deus de Abraão a seu lado.

  1. Jacó, que pensava que sua família seria extinta e a transmissão hereditária da religião inteiramente interrompida, terá a satisfação de ver uma numerosa descendência consagrada a Deus como uma geração (v. 23).

(1.) Verá seus filhos, multidões de crentes e pessoas que oram, a descendência espiritual do fiel Abraão e do lutador Jacó. Tendo sua aljava cheia dessas flechas, não será envergonhado (v. 22), mas falará com seu inimigo na porta (Salmos 127:5).

Cristo não será envergonhado (Isaías 50:7), pois verá sua descendência (Isaías 53:10). Vê alguns e antevê mais no meio de Jacó, reunindo-se à igreja e residindo ali.

(2.) Seus filhos são a obra das mãos de Deus; sendo formados por ele, são formados para ele, feitura sua, criados para boas obras. É algum conforto para os pais pensar que seus filhos são criaturas de Deus, obra das mãos de sua graça.

(3.) Ele e seus filhos santificarão o nome de Deus como seu Deus, como o Santo de Jacó, e temerão e adorarão o Deus de Israel. Isso se opõe a ser envergonhado e empalidecer; quando for libertado dos desprezos e perigos que sofre, não engrandecerá a si mesmo, mas santificará o Santo de Jacó.

Se Deus tornar fácil nossa condição, devemos procurar tornar glorioso seu nome. Pais e filhos são de fato ornamentos e confortos uns para os outros quando se unem em santificar o nome de Deus.

Quando os pais entregam seus filhos, e os filhos entregam a si mesmos, a Deus, para serem para ele um nome e um louvor, então a floresta logo se tornará um campo fértil.


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