Isaías 27
Argumento
Neste capítulo o profeta continua a mostrar:
I. As grandes coisas que Deus faria por sua igreja e por seu povo. Elas se cumpririam em breve na libertação de Jerusalém das mãos de Senaqueribe e na destruição do exército assírio; mas são expressas em termos gerais, para animar a igreja nas épocas posteriores diante do poder e do predomínio de seus inimigos:
A prestação de contas exigida dos opressores orgulhosos (v. 1).
O cuidado que seria dispensado à igreja como vinha de Deus (v. 2, 3).
O fim da contenda de Deus com o povo quando este voltasse para ele (v. 4, 5).
A grande multiplicação e o crescimento do povo por Deus (v. 6).
Quanto às aflições do povo, sua natureza seria alterada (v. 7), elas seriam atenuadas e moderadas (v. 8), e santificadas (v. 9).
Embora a igreja pudesse ser devastada e ficar desolada por algum tempo (v. 10, 11), ainda assim seria restaurada, e seus membros dispersos voltariam a ser reunidos (v. 12, 13).
Tudo isso se aplica à graça do evangelho e às promessas e providências de Deus relativas à igreja cristã e aos que pertencem a ela.
Versículos 1 a 6
A Condenação dos Perseguidores; O Privilégio dos Santos. (a.C. 718.)
O profeta canta aqui o juízo e a misericórdia:
I. O juízo sobre os inimigos da igreja de Deus (v. 1): tribulação para os que a atribulam (2 Tessalonicenses 1:6). Quando o Senhor sair de seu lugar para castigar os habitantes da terra (Isaías 26:21), certamente castigará o leviatã, o dragão que está no mar.
É todo tirano opressor e orgulhoso, terror dos poderosos, que, como o leviatã, é tão feroz que ninguém ousa provocá-lo. Seu coração é duro como pedra, e, quando ele se levanta, os poderosos têm medo (Jó 41:10, 24, 25).
A igreja tem muitos inimigos, mas geralmente há um mais temível que os demais. Assim foi Senaqueribe em seus dias, Nabucodonosor nos seus e Antíoco nos seus. Assim também havia sido antes o faraó, chamado de leviatã e dragão (Isaías 51:9; Salmos 74:13, 14; Ezequiel 29:3).
A igreja do Novo Testamento teve seus leviatãs; lemos sobre um grande dragão vermelho pronto para devorá-la (Apocalipse 12:3).
Esses poderes malignos e perseguidores são comparados ao leviatã por seu tamanho, sua força e o grande alvoroço que causam no mundo; aos dragões, por sua ira e fúria; e às serpentes penetrantes, pela perspicácia de seus planos e rapidez de seus movimentos.
Quando conseguem enfiar a cabeça, logo introduzem todo o corpo. Atravessam-se como uma barra (assim diz a margem), pondo-se no caminho de todos os vizinhos e obstruindo-os. São também serpentes tortuosas, astutas e insinuantes, porém perversas e nocivas.
Os príncipes grandes e poderosos, se se opõem ao povo de Deus, são aos olhos dele como dragões e serpentes, pragas da humanidade; e o Senhor os castigará no tempo devido.
São grandes demais para que os homens os enfrentem e lhes exijam contas; por isso o grande Deus tomará o assunto nas próprias mãos. Ele tem uma espada severa, grande e forte, com a qual executará a sentença contra eles quando a medida de sua iniquidade estiver cheia e chegar seu dia de cair.
O original expressa isso com ênfase: o Senhor, com sua espada, aquela espada cruel, aquela grande e aquela forte, castigará esse criminoso desajeitado e indisciplinado. Será um castigo capital: “Ele abaterá o dragão que está no mar”, pois o salário de seu pecado é a morte.
Isso servirá não só para impedir que ele cause mais dano, como quando se mata um animal selvagem, mas também como castigo justo pelo dano que já causou, como quando se executa um traidor ou rebelde.
Deus tem uma espada forte para isso: diversos juízos suficientes para humilhar o mais orgulhoso e quebrar o mais poderoso de seus inimigos. Ele o fará quando chegar o dia da execução: naquele dia ele castigará, o seu dia, que se aproxima (Salmos 37:13).
Isso se aplica às vitórias espirituais obtidas por nosso Senhor Jesus sobre os poderes das trevas. Ele não apenas desarmou, despojou e expulsou o príncipe deste mundo, mas com sua espada forte, a virtude de sua morte e a pregação de seu evangelho, destrói e destruirá aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, o grande leviatã, a antiga serpente, o dragão.
Ele será amarrado para que não engane as nações, e isso é castigo para ele (Apocalipse 20:2, 3). Finalmente, por ter enganado as nações, será lançado no lago de fogo (Apocalipse 20:10).
II. A misericórdia para com a igreja. Naquele mesmo dia, quando Deus castigar o leviatã, a igreja e todos os seus amigos podem ficar tranquilos e alegres. Os que cuidam dela devem cantar-lhe para consolá-la, fazê-la adormecer com estas garantias. Que se cante em suas assembleias:
- Que ela é a vinha de Deus e está sob seu cuidado especial (v. 2, 3). Aos olhos de Deus, ela é uma vinha de vinho tinto. O mundo é como um deserto infrutífero e sem valor; a igreja, porém, é cercada como uma vinha, lugar especial e valioso, tratado com grande cuidado e trabalho.
Dela se colhem frutos preciosos, com os quais se honram a Deus e aos homens. É uma vinha de vinho tinto, que produz as uvas melhores e mais escolhidas. Isso indica a reforma da igreja, que agora produz bom fruto para Deus, ao passo que antes produzia fruto para si mesma ou uvas bravas (Isaías 5:4). Agora Deus cuida:
(1.) Da segurança dessa vinha: “Eu, o Senhor, a guardo.” Ele se gloria de ser o guardião de Israel e de ter assumido esse encargo. Os que produzem fruto para Deus estão e sempre estarão sob sua proteção.
Diz isso para nos assegurar de que assim será: “Eu, o Senhor, que tudo posso, mas não posso mentir nem enganar, eu a guardo; para que ninguém a fira, eu a guardarei de noite e de dia.”
A vinha de Deus neste mundo está muito exposta a injúrias. Há muitos que a feririam, a pisoteariam e devastariam (Salmos 80:13), mas Deus não permitirá que lhe causem dano ou prejuízo real sem que ele tire algum bem disso.
Ele a guardará continuamente, de noite e de dia, e há necessidade disso, pois os inimigos não descansam em seus planos e ataques contra ela; procuram, de noite e de dia, uma oportunidade para lhe causar dano.
Deus a guardará na noite da aflição e perseguição e no dia da paz e prosperidade, cujas tentações não são menos perigosas. O povo de Deus será preservado não apenas “da peste que anda na escuridão”, mas “da destruição que assola ao meio-dia” (Salmos 91:6). Essa vinha será bem cercada.
(2.) Da fertilidade dessa vinha: “Eu a regarei a cada momento”, e mesmo assim ela não receberá água em excesso. O orvalho suave e silencioso da graça e bênção de Deus descerá continuamente sobre ela, para que produza muito fruto.
Precisamos da irrigação constante e contínua da graça divina, pois, se ela for retirada em algum momento, murcharemos e seremos reduzidos a nada.
Deus rega sua vinha pelo ministério da palavra de seus servos, os profetas, cuja doutrina cairá como orvalho. Paulo planta e Apolo rega, mas Deus dá o crescimento; pois sem ele o vigia fica acordado e o lavrador rega em vão.
- Que, embora ele às vezes contenda com seu povo, ainda assim se reconciliará com eles quando se submeterem (v. 4, 5). “Não há fúria nele” para com sua vinha. Embora encontre nela muitas coisas que o ofendem, ele não procura ocasião para agir contra ela nem é rigoroso em assinalar o que há de errado nela.
É verdade que, se encontrar nela sarças e espinhos em vez de videiras, e eles se dispuserem em batalha contra ele (pois o que há na vinha que não é a favor dele é contra ele), ele os pisoteará e queimará. Mas, fora disso, diz:
“Se estou irado com meu povo, eles sabem que caminho tomar: humilhem-se, orem e busquem a minha face. Assim, apeguem-se à minha força com o desejo sincero de fazer as pazes comigo, e logo me reconciliarei com eles, e tudo ficará bem.”
Deus vê os pecados de seu povo e se desagrada deles; mas, quando se arrependem, ele desvia sua cólera. Isso pode muito bem ser entendido como resumo da doutrina do evangelho, com a qual a igreja deve ser regada a cada momento:
(1.) Aqui se supõe uma desavença entre Deus e o homem, pois há uma batalha travada e uma paz a fazer. É uma desavença antiga, desde que o pecado entrou. Do lado de Deus, é justa; do lado do homem, é extremamente injusta.
(2.) Aqui nos é feito um convite gracioso a resolver essa desavença e a acertar essas questões em disputa: “Aquele que deseja estar em paz com Deus apegue-se à sua força, ao seu braço forte, levantado contra o pecador para abatê-lo. Pela súplica, detenha o golpe.”
“Lute comigo, como Jacó lutou, resolvido a não me deixar ir sem uma bênção, e ele será Israel, príncipe com Deus.” A misericórdia que perdoa é chamada de poder de nosso Senhor; apegue-se ele a esse poder. Cristo é o braço do Senhor (Isaías 53:1).
Cristo crucificado é o poder de Deus (1 Coríntios 1:24). Apegue-se a ele pela fé viva, como alguém que se afoga agarra um galho, uma corda ou uma tábua ao seu alcance, ou como o malfeitor se agarrou aos chifres do altar. Creia que não há outro nome pelo qual possa ser salvo e reconciliado.
(3.) Aqui há um cordão tríplice de razões para nos persuadir a fazer isso:
[1.] Temos tempo e prazo para fazê-lo, pois não há fúria em Deus. Ele não nos trata como os grandes homens tratam os inferiores quando um comete uma falta e o outro se enfurece.
Homens furiosos não reservam tempo para refletir; com eles basta uma palavra e um golpe. Iram-se depressa e são implacáveis quando irados: algo pequeno os provoca, e nada pequeno os apazigua.
Mas Deus não é assim. Ele considera nossa constituição, é tardio em irar-se, não desperta toda a sua cólera nem alterca continuamente.
[2.] É inútil pensar em contender com ele. Se persistirmos em nossa desavença com ele e pensarmos sustentar nossa posição, será como colocar sarças e espinhos diante de um fogo consumidor. Longe de impedir seu avanço, apenas o farão arder com mais violência.
Não somos adversários à altura da Onipotência. Ai, portanto, daquele que contende com seu Criador! Ele não conhece o poder de sua cólera.
[3.] Este é o único caminho, e é um caminho seguro, para a reconciliação: “Siga ele esse caminho para fazer as pazes comigo, e fará as pazes; e por isso lhe virá o bem, todo o bem.” Deus está disposto a reconciliar-se conosco se nós estivermos dispostos a reconciliar-nos com ele.
- Que a igreja de Deus no mundo será um corpo em crescimento e acabará se tornando um grande corpo (v. 6): “Nos tempos futuros” (assim leem alguns), em épocas posteriores, quando essas calamidades tiverem passado, ou nos dias do evangelho, os últimos dias, ele fará Jacó criar raízes, raízes mais profundas do que nunca.
Pois a igreja do evangelho será firmada com mais solidez e se espalhará mais longe do que a igreja judaica jamais foi ou se espalhou.
Ou fará criar raízes aos descendentes de Jacó que voltarem do cativeiro, ou (como lemos) aos que vierem de Jacó: lançarão raízes para baixo e produzirão fruto para cima (Isaías 37:31).
Serão estabelecidos em situação próspera; então florescerão e brotarão, oferecendo perspectivas animadoras de grande crescimento. Assim acontecerá, pois encherão de fruto a face do mundo.
Muitos serão trazidos à igreja, e os prosélitos serão numerosos, alguns de todas as nações ao redor, que serão para o Deus de Israel por nome e por louvor. Os convertidos serão fecundos nos frutos de justiça.
A pregação do evangelho deu fruto em todo o mundo (Colossenses 1:6), fruto que permanece (João 15:16).
Versículos 7 a 12
Correção e Compaixão. (a.C. 718.)
Aqui o profeta canta novamente a misericórdia e o juízo, mas não, como antes, o juízo para os inimigos e a misericórdia para a igreja, e sim o juízo para a igreja e a misericórdia mesclada a esse juízo.
I. Aqui o juízo é anunciado até mesmo a Jacó e Israel. Eles florescerão e brotarão (v. 6), mas:
Serão feridos e abatidos (v. 7), ao menos alguns deles. Se Deus encontrar algo errado entre eles, os sujeitará aos sinais de seu desagrado por isso. O juízo começará pela casa de Deus, e aqueles que ele conheceu dentre todas as famílias da terra serão os primeiros a quem castigará.
Jerusalém, sua cidade fortificada, ficará desolada (v. 10, 11). “Deus tentou diversos meios de reformá-los, que, para muitos, se mostraram ineficazes; por algum tempo, portanto, devastará sua terra.” Isso se cumpriu quando Jerusalém foi destruída pelos caldeus; então aquela habitação ficou abandonada por muito tempo.
Se juízos menores não realizarem a obra, Deus enviará maiores, pois, quando julga, ele vence. Jerusalém havia sido fortificada não tanto pela arte ou pela natureza quanto pela graça e proteção divina. Mas, quando Deus foi provocado a retirar-se, a defesa dela desapareceu, e ela ficou como um deserto.
“Nos agradáveis jardins de Jerusalém o gado pastará e se deitará, sem ninguém que o perturbe ou expulse; ali ficará ora em pé, ora deitado, e comerá os ramos tenros das árvores frutíferas.” Isso talvez indique também que o povo se tornaria presa fácil de seus inimigos.
“Quando os galhos murcharem ainda na árvore, castigados pelos ventos e geadas e sem receber poda, serão quebrados para lenha, e as mulheres e crianças virão atear-lhes fogo. Haverá destruição total, pois até as próprias árvores serão destruídas.”
Essa é uma figura do estado deplorável da vinha (v. 2) quando ela produziu uvas bravas (Isaías 5:2). Nosso Salvador parece referir-se a isso ao dizer que os ramos da videira que não permanecem nele são lançados fora, secam, e os homens os recolhem e lançam ao fogo, onde são queimados (João 15:6).
Isso se cumpriu de modo particular nos judeus incrédulos. A comparação é explicada nas palavras seguintes: é um povo sem entendimento, grosseiro e tolo, desprovido do conhecimento de Deus e sem gosto nem apreço pelas coisas divinas, como ramo seco que não tem seiva.
Essa é a raiz de todos os pecados pelos quais Deus os deixou desolados: primeiro a idolatria e, depois, a incredulidade. As pessoas ímpias, ainda que em outras questões sejam argutas e hábeis na política, não têm entendimento nas questões que mais lhes importam.
Sua ignorância, por ser voluntária, não apenas deixará de ser desculpa, mas será o motivo de sua condenação. Por isso, aquele que as fez e lhes deu o ser não terá misericórdia delas nem as salvará da ruína que atraem sobre si.
Ele as formou como povo, formou-as para si, a fim de que proclamassem seu louvor. Como não correspondem ao fim para o qual foram formadas, mas detestam ser reformadas e formadas de novo, ele as rejeitará e não lhes mostrará favor; então estarão perdidas.
Pois, se aquele que nos fez por seu poder não nos tornar felizes por seu favor, melhor teria sido nunca termos sido feitos.
Os pecadores se iludem com esperanças de impunidade, ou ao menos de não serem tratados com tanto rigor quanto lhes dizem seus ministros, porque Deus é misericordioso e porque é seu Criador.
Mas aqui vemos como essas alegações são fracas e insuficientes. Se não têm entendimento, aquele que os fez, embora os tenha feito e nada odeie do que fez, e embora tenha misericórdia reservada para os que entendem seus interesses o bastante para recorrer a ele, não terá misericórdia deles nem lhes mostrará favor.
II. Há aqui muita misericórdia mesclada a esse juízo. Pois entre os corruptos e degenerados há pessoas boas, um remanescente segundo a eleição da graça, de quem Deus terá misericórdia e a quem mostrará favor. Essas promessas parecem referir-se a todas as calamidades da igreja, para as quais Deus, em sua graça, providenciaria estes alívios:
- Embora sejam feridos e abatidos, não o serão no mesmo grau nem do mesmo modo que seus inimigos (v. 7). Deus feriu Jacó, e ele foi abatido. Muitos dos que têm entendimento entre o povo cairão pela espada e pelo fogo por muitos dias (Daniel 11:33). Mas eles não serão feridos e abatidos como aqueles:
(1.) Que antes o feriram, que foram a vara da cólera de Deus e o cajado em sua mão, dos quais ele se serviu para corrigir seu povo. Também chegará a vez deles de prestar contas até por isso: poupa-se a criança, mas queima-se a vara.
(2.) Que depois serão abatidos por ele, quando dominar e lhes pagar na mesma moeda, ou abatidos por amor a ele, quando sua causa for defendida. O povo de Deus e os inimigos de Deus são representados aqui:
[1.] Lutando uns contra os outros, como a descendência da mulher e a descendência da serpente lutaram, lutam e lutarão. Nessa contenda há mortos dos dois lados. Deus usa homens ímpios não apenas para ferir, mas para abater seu povo, pois eles são sua espada (Salmos 17:13).
Mas, quando o cálice de tremor chegar às mãos deles, sua situação será muito pior do que jamais foi a do povo de Deus nas maiores angústias. A descendência da mulher tem apenas o calcanhar ferido; a serpente, porém, tem a cabeça esmagada e quebrada.
Repare: embora o povo perseguido de Deus possa sofrer grandes perdas e padecer muito por algum tempo, os que o oprimem acabarão perdendo e sofrendo ainda mais, aqui ou no futuro, pois Deus lhes retribuirá em dobro (Apocalipse 18:6).
[2.] Partilhando as calamidades deste tempo presente. Ambos são feridos, ambos abatidos, e ambos pela mão de Deus, pois um mesmo desfecho sobrevém ao justo e ao ímpio. Mas Jacó é ferido como seus inimigos? Não, de modo algum: para ele a natureza da aflição é alterada, e ela se torna algo inteiramente diferente.
Repare: por mais que nos pareça o contrário, há de fato uma enorme diferença entre as aflições e mortes das pessoas boas e as aflições e mortes das pessoas ímpias.
- Embora Deus contenda com eles, o fará com medida, e a aflição será atenuada, moderada e proporcionada à força deles, não ao que merecem (v. 8).
Ele lhes distribui as aflições como o médico sábio prescreve remédios aos pacientes: determina a quantidade exata de cada ingrediente ou ordena quanto sangue tirar quando uma veia é aberta. Assim Deus ordena as tribulações de seu povo, sem permitir que sejam tentados acima do que podem suportar (1 Coríntios 10:13).
Mede-lhes as aflições pouco a pouco para que não sejam oprimidos além da medida; pois conhece sua constituição, corrige com juízo e não desperta toda a sua cólera.
Quando a aflição está brotando, quando ele a envia e lhe dá sua missão, ele então contende com medida, não ao extremo. Considera o que podemos suportar ao começar a corrigir-nos.
Quando prossegue em sua contenda, de modo que chega o dia de seu vento oriental, que não é apenas impetuoso e ruidoso, mas devastador e nocivo, ainda assim ele detém seu vento áspero, freia-o e lhe põe limites. Não permite que sopre tão forte quanto se temia.
Ao joeirar seu trigo, ele usa uma brisa suave que leva embora apenas a palha, não o grão bom. Deus tem os ventos sob seu comando e toda aflição sob seu controle. Até aqui ela irá, mas não passará.
Não nos desesperemos quando as coisas estiverem no pior estado. Por mais ásperos e fortes que sejam os ventos, Deus pode dizer-lhes: “Paz, aquietai-vos.”
- Embora Deus os aflija, fará as aflições operarem para o bem da alma deles e os corrigirá como um pai corrige o filho, para expulsar a insensatez presa em seu coração (v. 9): “Por isso, assim será purgada a iniquidade de Jacó.”
Esse é o desígnio da aflição. Ela é apropriada a esse fim e, pela graça de Deus que atua com ela, terá esse efeito abençoado. Mortificará os hábitos de pecado; por meio dela essas impurezas da alma serão purgadas.
Ela os fará abandonar a prática do pecado. Este é todo o fruto, é o que Deus pretende, é todo o dano que a aflição lhes causará: tirar-lhes o pecado. Não poderiam receber bondade maior, ainda que ao preço de uma aflição.
Portanto, porque a aflição é atenuada e moderada, e o vento áspero é detido, podemos concluir que seu desígnio é reformá-los, não destruí-los. E, porque nos trata com tanta brandura, devemos procurar corresponder a seus propósitos ao nos afligir.
O pecado específico do qual a aflição visava curá-los era a idolatria, o pecado que mais facilmente enredava aquele povo e ao qual era estranhamente apegado. Efraim está unido aos ídolos. Mas, pelo cativeiro na Babilônia, eles não apenas se desligaram desse pecado, como passaram a opor-se a ele.
Efraim dirá: “Que tenho eu ainda a ver com ídolos?” Jacó tem seu pecado retirado, seu pecado querido, quando reduz todas as pedras de seu altar idólatra, que lhe eram preciosas e sagradas, a pedras calcárias quebradas em pedaços.
Ele não apenas as despreza e lhes dá tão pouco valor quanto a pedras calcárias, mas se indigna com elas e, numa santa vingança, quebra-as em pedaços tão facilmente quanto essas pedras se partem.
Os bosques sagrados e as imagens não permanecerão de pé diante desse penitente; também serão derrubados para nunca mais serem erguidos. Isso estava de acordo com a lei de demolir e destruir todos os monumentos da idolatria (Deuteronômio 7:5).
E, conforme essa promessa, desde o cativeiro na Babilônia nenhum povo do mundo tem aversão tão enraizada aos ídolos e à idolatria quanto o povo judeu.
Repare: o desígnio da aflição é separar-nos do pecado, especialmente daquele que tem sido nossa própria iniquidade. Então fica claro que a aflição nos fez bem quando nos afastamos das ocasiões de pecado e tomamos todas as precauções necessárias para não só evitar recaída, mas até mesmo a tentação (Salmos 119:67).
- Embora Jerusalém fique desolada e abandonada por algum tempo, chegará um dia em que seus amigos dispersos voltarão a ela de todos os países para onde foram espalhados (v. 12, 13).
Embora o corpo da nação seja abandonado como povo sem entendimento, os que são de fato filhos de Israel serão reunidos novamente, como as ovelhas do rebanho quando os pastores que as dispersaram forem chamados a prestar contas (Ezequiel 34:10-19). Observe agora acerca desses israelitas dispersos:
(1.) De onde serão trazidos: o Senhor os sacudirá como frutos da árvore ou os debulhará como grãos da espiga. Ele os encontrará e os separará daqueles entre os quais moravam e com os quais pareciam incorporados.
Ele os trará desde o curso do rio Eufrates, a nordeste, até o Nilo, o ribeiro do Egito, a sudoeste: os que foram expulsos para a terra da Assíria, cativos na terra de seus inimigos, prontos a perecer por falta do necessário e a perder a esperança da libertação.
Trará também os desterrados na terra do Egito, para onde foram muitos dos que ficaram para trás depois do cativeiro na Babilônia, contrariando a ordem expressa de Deus (Jeremias 43:6, 7), e ali viveram como desterrados. Deus lhes reserva misericórdia e mostrará que, embora tenham sido expulsos, não foram rejeitados.
(2.) De que modo serão trazidos de volta: “Sereis ajuntados um a um”, não em multidões nem em tropas que abram caminho à força, mas silenciosamente e como às escondidas, chegando primeiro um, depois outro.
Isso indica que o remanescente que será salvo consiste em poucos, e esses serão salvos com dificuldade, como que pelo fogo, mal escapando. Não virão para acompanhar uns aos outros, mas conforme Deus despertar o espírito de cada um.
(3.) Por que meio serão reunidos: a grande trombeta soará, e então virão. A proclamação de Ciro, que deu liberdade aos cativos, é essa grande trombeta. Despertou os judeus adormecidos em sua servidão para que se movessem; foi como o toque da trombeta do jubileu, que anunciava o ano da libertação.
Isso se aplica tanto à pregação do evangelho, pela qual os pecadores são reunidos à graça de Deus, até os desterrados e os prestes a perecer (os que estavam longe são aproximados; o evangelho anuncia o ano aceitável do Senhor), quanto à trombeta do arcanjo no último dia.
Por essa trombeta os santos serão reunidos à glória de Deus, depois de terem estado como desterrados em seus sepulcros.
(4.) Para que fim serão reunidos: para adorar ao Senhor no monte santo, em Jerusalém. Quando os cativos voltaram a reunir-se e regressaram à própria terra, a principal coisa que tinham em vista, e a primeira a que se dedicaram, foi a adoração a Deus.
O templo santo estava em ruínas, mas eles tinham o monte santo, o lugar do altar (Gênesis 13:4). A liberdade de adorar a Deus é a mais valiosa e desejável das liberdades. Depois de restrições e dispersões, o livre acesso à casa dele deve ser mais bem-vindo para nós que o livre acesso à nossa própria casa.
Os reunidos pelo toque da trombeta do evangelho são trazidos para adorar a Deus e acrescentados à igreja; a grande trombeta final reunirá os santos para servir a Deus de dia e de noite em seu templo.