Isaías 20
Argumento
Este capítulo é uma predição da condução de multidões tanto de egípcios quanto de etíopes ao cativeiro pelo rei da Assíria. Temos aqui:
I. O sinal pelo qual isso foi predito: o andar do profeta por algum tempo descalço e quase nu, como um pobre cativo (vv. 1-2).
II. A explicação desse sinal e sua aplicação ao Egito e à Etiópia (vv. 3-5).
III. O bom uso que o povo de Deus deve fazer disso: nunca confiar num braço de carne, porque assim ele os enganará (v. 6).
Versículos 1 a 6
Ameaças contra o Egito. (a.C. 713.)
Deus aqui, como Rei das nações, traz uma grave calamidade sobre o Egito e a Etiópia; mas, como Rei dos santos, dela tira o bem para seu povo. Observe:
I. A data desta profecia. Foi no ano em que Asdode, forte cidade dos filisteus (mas que, segundo alguns, Ezequias havia recentemente retomado deles quando feriu os filisteus até mesmo Gaza, 2 Reis 18:8), foi sitiada e tomada por um exército assírio.
Não se sabe em que ano do reinado de Ezequias isso ocorreu, mas o desfecho foi tão notável que os contemporâneos podiam, por esse sinal, determinar o tempo com precisão de um ano. O rei da Assíria daquele tempo é chamado Sargão; alguns o identificam com Senaqueribe; outros pensam que foi seu predecessor direto e sucedeu Salmaneser.
Tartã, general ou comandante supremo dessa expedição, era um dos oficiais de Senaqueribe, enviado por ele, junto com Rabsaqué, para desafiar Ezequias (2 Reis 18:17).
II. A transformação de Isaías em sinal, por sua roupa incomum quando andava fora de casa. Havia sido um sinal para seu próprio povo dos tempos melancólicos que haviam chegado e estavam chegando, pelo pano de saco que usara durante algum tempo. Fizera dele uma túnica, que cingia ao redor de si.
Alguns pensam que vestiu esse traje de pranteador por ocasião do cativeiro das dez tribos. Outros acham que o pano de saco era sua roupa habitual de profeta, para mostrar que estava mortificado para o mundo e para que aprendesse a suportar agruras. Roupas macias ficam melhor nos que servem nos palácios do rei (Mateus 11:8) do que nos que vão cumprir os encargos de Deus.
Elias usava roupa de pelos (2 Reis 1:8), assim como João Batista (Mateus 3:4); e os que alegavam ser profetas sustentavam sua alegação usando vestes ásperas (Zacarias 13:4). Mas a Isaías é dada ordem de soltar o pano de saco de seus lombos, não para trocá-lo por roupa melhor, mas por nenhuma: nenhuma veste exterior, nenhum manto, capa ou casaco.
Mas era apenas o que estava junto ao corpo, podemos supor sua camisa, colete e calções; e deve tirar os sapatos e andar descalço, de modo que, comparado ao modo de vestir dos outros e ao que ele mesmo costumava usar, podia-se dizer que andava nu.
Isso era uma grande agrura para o profeta; era uma mancha em sua reputação e o exporia ao desprezo e ao ridículo. Os meninos nas ruas o vaiariam, e os que buscavam motivo para acusá-lo diriam: O profeta é de fato insensato, e o homem espiritual está louco (Oseias 9:7).
Isso também poderia ser um prejuízo para sua saúde: corria o risco de resfriar-se, o que poderia lançá-lo numa febre e custar-lhe a vida. Mas Deus lhe ordenou que o fizesse para que desse uma prova de sua obediência a Deus num mandamento muito difícil e assim envergonhasse a desobediência de seu povo aos preceitos mais fáceis e razoáveis.
Quando estamos no caminho do nosso dever, podemos confiar a Deus tanto nossa reputação quanto nossa segurança. Os corações daquele povo eram estranhamente estúpidos e não se deixariam tocar pelo que apenas ouviam; mas devia-se ensinar-lhes por sinais. Por isso Isaías devia fazer isso para sua edificação.
Se a roupa era escandalosa, ainda assim o desígnio era glorioso, e um profeta do Senhor não precisava envergonhar-se dele.
III. A exposição deste sinal (v. 3, 4). Destinava-se a significar que os egípcios e os etíopes seriam levados cativos pelo rei da Assíria, despidos desse modo, ou em andrajos e roupas muito pobres, como Isaías.
Deus o chama de seu servo Isaías porque, especialmente nessa questão, ele se mostrou servo de Deus disposto, fiel e obediente. E por essa exata coisa, pela qual talvez outros rissem dele, Deus se gloriava nele. Obedecer é melhor que o sacrifício; a obediência agrada e louva mais a Deus e será mais louvada por ele.
Diz-se que Isaías andou nu e descalço por três anos, sempre que nesse período aparecia como profeta. Mas alguns ligam os três anos não ao sinal, mas à coisa significada: Ele tem andado nu e descalço; há uma pausa no original. Desde que o fizesse uma vez, isso bastava para dar ocasião a todos ao redor dele para perguntarem o que significava seu agir assim.
Ou, como alguns pensam, ele o fez por três dias, um dia para cada ano; e isso como sinal e maravilha de três anos: sinal do que aconteceria três anos depois ou do que levaria três anos para se realizar.
Três campanhas sucessivas o exército assírio fará, despojando egípcios e etíopes e levando-os cativos dessa maneira bárbara, não só os soldados capturados no campo de batalha, mas também os moradores, jovens e velhos.
E era uma cena muito lastimável, que necessariamente despertaria compaixão naqueles em quem restasse o menor grau de ternura: ver pessoas que haviam andado bem vestidas todos os seus dias agora despidas, mal tendo trapos para cobrir sua nudez.
Repara-se especialmente nesse aspecto do cativeiro e ele é predito para comover ainda mais aqueles a quem esta profecia foi exposta.
Diz-se especialmente que isso seria para vergonha do Egito (v. 4), porque os egípcios eram um povo orgulhoso. Por isso, quando caíam em desonra, era tanto mais vergonhoso para eles. E quanto mais alto se haviam exaltado, mais baixa foi sua queda, tanto aos seus próprios olhos quanto aos olhos dos outros.
IV. O uso e a aplicação disso (v. 5, 6):
- Todos os que dependiam de algum modo do Egito e da Etiópia, ou mantinham relações com eles, agora teriam vergonha dessas nações e medo de ter qualquer coisa a ver com elas. Os países ameaçados de invasão assíria esperavam que Tiraca, rei da Etiópia, detivesse com suas numerosas tropas o avanço das armas vitoriosas dos assírios e servisse de barreira para seus vizinhos.
E gloriavam-se com ainda mais confiança de que o Egito, reino tão famoso pela sagacidade e pelo valor militar, resolveria o assunto deles, obrigaria os assírios a levantar o cerco de Asdode e a retirar-se às pressas. Mas, em vez disso, ao tentar opor-se ao rei da Assíria, egípcios e etíopes apenas se expuseram e fizeram de seu país presa dele.
Por isso os povos ao redor se envergonharam de algum dia ter esperado qualquer vantagem de duas nações tão fracas e covardes. E agora temiam mais do que nunca a grandeza crescente do rei da Assíria: diante dele, Egito e Etiópia se mostraram apenas como sarças e espinhos postos para deter um fogo consumidor, que apenas o fazem arder mais intensamente.
Repare: os que fazem de qualquer criatura sua expectativa e glória, colocando-a assim no lugar de Deus, mais cedo ou mais tarde se envergonharão dela; sua decepção com ela só aumentará seu medo (veja Ezequiel 29:6, 7).
- Os judeus, em particular, deveriam ser convencidos de sua insensatez ao se apoiar em caniços quebrados e perder a esperança de receber alívio deles (v. 6). Os habitantes desta ilha, isto é, da terra de Judá, situada junto ao mar, embora não cercada por ele, ou deste país, como diz a nota marginal, cada um agora terá seus olhos abertos e dirá:
“Eis: assim é nossa expectativa, tão vã, tão insensata, e é nisso que ela dará. Fugimos aos egípcios e etíopes em busca de ajuda e esperamos ser por eles libertados do rei da Assíria; mas, agora que eles estão assim quebrados, como escaparemos nós, que não somos capazes de pôr em campo exércitos como eles puseram?” Repare:
(1.) Os que confiam em criaturas se decepcionarão, e serão envergonhados de sua confiança, pois vã é a ajuda do homem e em vão se espera a salvação das colinas ou da altura e multidão dos montes.
(2.) A decepção com as confianças nas criaturas, em vez de nos levar ao desespero, como aqui na pergunta “Como escaparemos?”, deve nos levar a Deus; pois, se fugirmos a ele em busca de ajuda, nossa expectativa não será frustrada.