Matthew Henry

Isaías 11

Argumento

É uma transição muito boa na profecia, seja ou não assim na retórica, e muito comum passar da predição das libertações temporais da igreja para a da grande salvação que, na plenitude dos tempos, seria realizada por Jesus Cristo. As primeiras eram tipos e figuras dessa salvação, da qual todos os profetas deram testemunho; assim também as entendiam os antigos judeus.

Pois que outra coisa suscitou tão grande expectativa do Messias na época em que ele veio? Por ocasião da profecia da libertação de Jerusalém de Senaqueribe, aparece aqui uma profecia acerca do Messias, o Príncipe:

I. Seu surgimento da casa de Davi (v. 1). II. Suas qualificações para seu grande empreendimento (v. 2, 3). III. A justiça e a equidade de seu governo (vv. 3-5). IV. O caráter pacífico de seu reino (vv. 6-9).

V. A entrada dos gentios nesse reino (v. 10) e, com eles, a do remanescente dos judeus, que se uniriam aos gentios no reino do Messias (vv. 11-16).

De tudo isso Deus agora logo lhes daria um tipo e alguma representação obscura no excelente governo de Ezequias, na grande paz que a nação desfrutaria sob ele após o fracasso do desígnio de Senaqueribe e no retorno de muitos das dez tribos, de sua dispersão para junto de seus irmãos na terra de Judá, quando desfrutaram daquela grande tranquilidade.

Versículos 1 a 9

Profecia do Messias; O Governo do Messias. (a.C. 740.)

O profeta já havia falado neste sermão de um menino que nasceria, um filho que seria dado, sobre cujos ombros estaria o governo. Com isso pretendia consolar o povo de Deus em tempos de tribulação, assim como Jacó, ao morrer muitos séculos antes, pretendera consolar seus descendentes durante a aflição no Egito com a perspectiva de Siló.

Ele havia dito (Isaías 10:27) que o jugo seria destruído por causa da unção; agora nos diz sobre quem essa unção repousaria. Ele prediz:

I. Que o Messias, no devido tempo, surgiria da casa de Davi como aquele renovo do Senhor que, segundo ele dissera (Isaías 4:2), seria excelente e glorioso. A palavra é Netzer, à qual alguns pensam que se faz referência em Mateus 2:23, onde se diz que os profetas haviam anunciado que o Messias seria chamado nazareno. Observe aqui:

  1. De onde surgiria esse renovo: de Jessé. Ele seria filho de Davi, com quem foi feita a aliança da realeza e a quem Deus prometeu sob juramento que do fruto de seus lombos levantaria Cristo (Atos 2:30). Davi é muitas vezes chamado filho de Jessé; Cristo também o é, porque não seria apenas o Filho de Davi, mas o próprio Davi (Oseias 3:5).

  2. A insignificância de sua aparência:

(1.) Ele é chamado vara e renovo. As duas palavras usadas aqui significam algo frágil, pequeno e tenro, um graveto e um broto, como alguns as traduzem, que podem ser facilmente quebrados.

Pouco antes, os inimigos da igreja de Deus foram comparados a galhos fortes e imponentes (Isaías 10:33), que não serão derrubados sem grande trabalho; Cristo, porém, é comparado a um renovo tenro (Isaías 53:2). Ainda assim, ele os vencerá.

(2.) Diz-se que ele virá de Jessé, e não de Davi, porque Jessé viveu e morreu na insignificância e na obscuridade. Sua família tinha pouca importância (1 Samuel 18:18), e às vezes Davi era chamado filho de Jessé com desprezo e como descrédito (1 Samuel 22:7).

(3.) Ele surge do tronco, ou toco, de Jessé. Quando a família real, antes semelhante a um cedro, foi cortada e dela restou apenas o toco, quase nivelado ao chão e perdido na relva do campo (Daniel 4:15), ainda assim brotaria novamente (Jó 14:7).

Ou melhor: surgiria das raízes de Jessé, inteiramente enterradas, como as raízes das flores no inverno, sem tronco visível acima da terra. A casa de Davi estava reduzida e levada a uma condição muito baixa quando Cristo nasceu, como atestam a obscuridade e a pobreza de José e Maria.

Assim o Messias iniciaria seu estado de humilhação, ao qual se submeteria para depois ser grandemente exaltado. Desse modo, desde cedo daria aviso de que seu reino não era deste mundo. A paráfrase caldeia diz: “Surgirá um Rei dos filhos de Jessé, e o Messias, ou Cristo, será ungido dentre os filhos de seus filhos”.

II. Que ele estaria qualificado em todos os aspectos para a grande obra a que fora destinado. Esse renovo tenro seria regado pelos orvalhos do céu até se tornar uma vara forte para servir de cetro para governar (v. 2).

  1. Em geral, o Espírito do Senhor repousaria sobre ele. O Espírito Santo, com todos os seus dons e graças, não apenas viria sobre ele, mas repousaria e permaneceria sobre ele. Ele teria o Espírito não por medida, mas sem medida, a plenitude da Divindade habitando nele (Colossenses 1:19; 2:9). Ele começou sua pregação com estas palavras (Lucas 4:18): “O Espírito do Senhor está sobre mim”.

  2. Em particular, o espírito de governo, pelo qual estaria plenamente preparado para o juízo que o Pai lhe confiou e lhe deu autoridade para exercer (João 5:22, 27). Não somente isso, mas seria feito fonte e tesouro de toda a graça para os que creem, a fim de que todos recebessem de sua plenitude o Espírito da graça, assim como todos os membros do corpo recebem da cabeça os espíritos animais:

(1.) Ele teria o espírito de sabedoria e entendimento, de conselho e conhecimento; compreenderia plenamente a obra de que seria incumbido. Nenhum homem conhece o Pai senão o Filho (Mateus 11:27). Ele próprio estaria familiarizado com tudo o que deveria revelar aos filhos dos homens a respeito de Deus, de sua mente e de sua vontade e estaria informado disso (João 1:18).

Saberia administrar todos os aspectos de seu reino espiritual para alcançar eficazmente seus dois grandes objetivos: a glória de Deus e o bem dos filhos dos homens. Os termos da aliança seriam estabelecidos por ele, e as ordenanças seriam instituídas, com sabedoria. Nele estariam ocultos tesouros de sabedoria; seria nosso conselheiro e ele seria feito por Deus sabedoria para nós.

(2.) O espírito de coragem, ou poder, ou fortaleza. O empreendimento era muito grande, e seria necessário vencer muitas dificuldades; por isso precisava ser dotado de modo que não falhasse nem desanimasse (Isaías 42:4). Era conhecido por sua coragem ao ensinar o caminho de Deus segundo a verdade, sem fazer caso de ninguém (Mateus 22:16).

(3.) O espírito de religião, ou do temor do Senhor. Não apenas ele próprio teria, como servo de seu Pai, afeição reverente por ele (Isaías 42:1), e foi ouvido por causa de seu temor (Hebreus 5:7), mas teria zelo pela religião e teria o desígnio de promovê-la em todo o seu empreendimento.

Nossa fé em Cristo nunca teve por desígnio substituir e expulsar nosso temor do Senhor, mas aumentá-lo e sustentá-lo.

III. Que ele seria preciso, criterioso e muito exato na administração de seu governo e no exercício do poder que lhe foi confiado (v. 3). O Espírito de que seria revestido lhe daria entendimento rápido no temor do Senhor, um olfato ou faro aguçado, como diz a palavra, pois muitas vezes se expressam as percepções da mente pelos sentidos do corpo. Repare:

  1. Os que têm a inteligência mais verdadeira e valiosa a exercem no temor do Senhor, nas coisas da religião, pois esse temor é tanto o fundamento quanto a pedra de remate da sabedoria.

  2. Ficará evidente que temos o Espírito de Deus se nossos sentidos espirituais estiverem exercitados e tivermos entendimento rápido no temor do Senhor. Têm iluminação divina os que conhecem seu dever e sabem como cumpri-lo.

  3. Jesus Cristo tinha, portanto, o espírito sem medida, para compreender perfeitamente seu empreendimento. Ele o compreendeu, como se vê não apenas nas respostas admiráveis que deu a todos os que o interrogavam, que provavam seu rápido entendimento no temor do Senhor, mas na condução de todo o seu empreendimento.

Ele estabeleceu a grande questão da religião de modo tão inesperadamente bom, assegurando eficazmente tanto a honra de Deus quanto a felicidade do homem, que é preciso reconhecer: compreendeu-a plenamente.

IV. Que ele seria justo e reto em todos os atos de seu governo, no qual haveria tanta equidade quanto sabedoria. Ele julgará como ele próprio o expressa e como ele próprio desejaria ser julgado (João 7:24):

  1. Não segundo a aparência exterior (v. 3): “não julgará segundo a vista de seus olhos”, fazendo distinção entre pessoas (Jó 34:19) ou se guiando pelas demonstrações e aparências exteriores. “Não censurará segundo o ouvir de seus ouvidos”, com base em rumores, relatos e representações de outros, como os homens costumam fazer.

Também não julga os homens pelas belas palavras com que o chamam “Senhor, Senhor”, nem pelas ações plausíveis que praticam diante do mundo para serem vistos pelos homens. Julgará pelo homem oculto do coração e pelos princípios interiores pelos quais as pessoas são governadas, dos quais é testemunha infalível.

Cristo julgará os segredos dos homens (Romanos 2:16). Decidirá a respeito deles não conforme suas próprias alegações e aparências, pois isso seria julgar pelo que os olhos veem, nem conforme a opinião que os outros têm deles, pois isso seria julgar pelo que os ouvidos ouvem. Sabemos, porém, que seu juízo é segundo a verdade.

  1. Ele julgará com justo juízo (v. 5): “A justiça será o cinto de seus lombos”. Será justo na administração de seu governo, e sua justiça será um cinto: sempre o cercará e se apegará a ele, constituindo seu ornamento e sua honra. Ele se cingirá para cada ação e cingirá a espada para guerrear com justiça.

Sua justiça será sua força e o tornará ágil em seus empreendimentos, como um homem com os lombos cingidos. Em conformidade com Cristo, seus seguidores devem ter o cinto da verdade (Efésios 6:14), e isso será a estabilidade dos tempos. Em particular:

(1.) Com justiça ele pleiteará em favor dos pobres e oprimidos; será seu protetor (v. 4): “Com justiça julgará os pobres”. Julgará em favor e defesa dos que têm razão, embora sejam pobres neste mundo, e por serem pobres de espírito.

É dever dos príncipes defender e livrar os pobres (Salmos 82:3, 4), e é honra de Cristo ser o Rei dos pobres (Salmos 72:2, 4). Ele debaterá com equidade em favor dos mansos da terra, ou do país; os que suportam as injúrias com mansidão e paciência têm direito especial ao zelo e à proteção divina.

“Eu, como um homem surdo, não ouvia, pois tu ouvirás” (Salmos 38:13, 15). Alguns leem: ele censurará ou corrigirá com equidade os mansos da terra. Se seu próprio povo, os mansos da terra, proceder mal, ele castigará sua transgressão com a vara.

(2.) Com justiça ele pleiteará contra seus inimigos orgulhosos e opressores (v. 4): “Mas ele ferirá a terra”, o homem da terra que oprime (veja Salmos 10:18), os homens do mundo que só pensam nas coisas terrenas (Salmos 17:14).

Ele os ferirá com a vara de sua boca, com a palavra de sua boca, anunciando-lhes terror e ruína; suas ameaças os alcançarão e serão executadas contra eles. Com o sopro de seus lábios, pela ação de seu Espírito, segundo sua palavra e operando com ela e por meio dela, abaterá o perverso.

Fará isso facilmente, com o proferir de uma palavra, como derrubou os que foram prendê-lo ao dizer “Eu sou ele” (João 18:6). Terrores mortais se apoderarão da consciência deles; juízos mortais arruinarão essas pessoas, seu poder e todos os seus interesses. No outro mundo, tribulação eterna será dada em paga aos que atribulam seu povo pobre.

O apóstolo aplica isso à destruição do homem do pecado, a quem chama o perverso (2 Tessalonicenses 2:8), que o Senhor consumirá com o espírito de sua boca. A paráfrase caldeia diz: “Ele abaterá aquele perverso Rômulo”, ou Roma, segundo a interpretação do sr. Hugh Broughton.

V. Que haveria grande paz e tranquilidade sob seu governo. Isso explica o que se disse em Isaías 9:6: ele seria o Príncipe da paz. Paz significa duas coisas:

  1. Unidade ou concórdia, sugerida por estas promessas figuradas: até o lobo habitará em paz com o cordeiro. Homens das disposições mais ferozes e furiosas, que costumavam morder e devorar todos ao redor, terão seu temperamento tão extraordinariamente transformado pelo poder do evangelho e da graça de Cristo que viverão em amor até com os mais fracos, aqueles que antes teriam sido presas fáceis.

As ovelhas estarão tão longe de ferir umas às outras, como às vezes fizeram (Ezequiel 34:20, 21), que até os lobos se entenderão com elas. Cristo, que é nossa paz, veio abater todas as inimizades e estabelecer amizades duradouras entre seus seguidores, especialmente entre judeus e gentios.

Quando multidões de ambos, convertidas à fé de Cristo, se uniram num só aprisco, então o lobo habitou com o cordeiro: o lobo nem sequer ameaçou o cordeiro, e o cordeiro não teve medo do lobo. O leopardo não apenas deixará de despedaçar a cabritinha, mas se deitará com ela; até os filhotes deles se deitarão juntos e serão criados numa bendita amizade, para perpetuá-la.

O leão deixará de ser voraz e comerá palha como o boi, como alguns pensam que todos os animais de rapina faziam antes da queda. A áspide e o basilisco deixarão de ser venenosos, de modo que os pais permitirão que os filhos brinquem com eles e ponham as mãos entre eles.

Uma geração de víboras se tornará uma descendência de santos, e cessará a antiga queixa, homo homini lupus: o homem é um lobo para o homem. Os que habitam o monte santo viverão tão amigavelmente quanto as criaturas que estavam com Noé na arca. Isso ajudará a preservá-los, pois não se ferirão nem se destruirão uns aos outros como antes fizeram. Agora:

(1.) Isso se cumpre no maravilhoso efeito do evangelho sobre as mentes dos que o acolhem sinceramente. Ele transforma a natureza e torna os que pisavam os mansos da terra não apenas mansos como eles, mas afetuosos para com eles. Quando Paulo, que perseguira os santos, uniu-se a eles, então o lobo passou a habitar com o cordeiro.

(2.) Alguns estão dispostos a esperar que isso ainda tenha um cumprimento ulterior nos últimos dias, quando as espadas serão transformadas em arados.

  1. Salvaguarda ou segurança. Cristo, o grande Pastor, terá tal zelo pelo rebanho que os que quisessem prejudicá-los não o farão. Seus membros não apenas deixarão de se destruir uns aos outros, mas a nenhum inimigo de fora será concedido causar-lhes qualquer incômodo.

A natureza das tribulações e da própria morte será tão transformada que não ferirão de verdade, muito menos destruirão, qualquer um que tenha sua conduta no monte santo (1 Pedro 3:13). Quem, ou o que, pode nos causar prejuízo, se formos seguidores daquele que é bom? O povo de Deus será liberto não apenas do mal, mas também do medo dele.

Até a criança de peito brincará sem terror sobre a toca da áspide. O bem-aventurado Paulo faz isso quando diz: “Quem nos separará do amor de Cristo?” e “Ó morte, onde está teu aguilhão?”

Por fim, observe qual será o efeito e qual será a causa desse maravilhoso abrandamento e dessa suavização do temperamento dos homens pela graça de Deus:

  1. O efeito será a docilidade e a disposição para receber instrução: uma criancinha guiará aqueles que antes desprezavam ser controlados pelo homem mais forte. Calvino entende isso como a submissão voluntária dessas pessoas aos ministros de Cristo, que devem instruir com mansidão e não empregar nenhum poder coercitivo, mas ser como criancinhas (Mateus 18:3). Veja 2 Coríntios 8:5.

  2. A causa será o conhecimento de Deus. Quanto mais houver desse conhecimento, maior será a disposição para a paz. Assim viverão em amor, pois a terra estará cheia do conhecimento do Senhor, que extinguirá os calores e as animosidades dos homens.

Quanto mais familiarizados estivermos com o Deus de amor, mais seremos transformados à mesma imagem e mais afeição teremos por todos os que trazem sua imagem. A terra estará tão cheia desse conhecimento quanto os canais do mar estão cheios de água: ele será tão largo e extenso, espalhando-se para tão longe; será tão profundo e sólido e durará por tanto tempo.

O evangelho de Cristo permite obter muito mais conhecimento de Deus que a lei de Moisés. Antes Deus só era conhecido em Judá, mas agora “todos o conhecerão” (Hebreus 8:11). Contudo, o conhecimento que semeia discórdia entre os homens é falsamente chamado conhecimento; o verdadeiro conhecimento de Deus estabelece a paz.

Versículos 10 a 16

O Avanço do Reino do Messias. (a.C. 740.)

Temos aqui uma profecia ulterior acerca da ampliação e do avanço do reino do Messias, sob o tipo e a figura da prosperidade do reino de Judá no fim do reinado de Ezequias, depois da derrota de Senaqueribe.

I. Essa predição se cumpriu em parte quando as grandes coisas que Deus fez em favor de Ezequias e de seu povo serviram de estandarte, atraindo as nações vizinhas para perguntarem pelas maravilhas feitas naquela terra. Foi com essa missão que vieram os embaixadores do rei da Babilônia.

Os gentios os procuraram; Jerusalém, o repouso ou habitação dos judeus, era então gloriosa (v. 10).

Muitos israelitas pertencentes ao reino das dez tribos foram obrigados, pela destruição desse reino pelo rei da Assíria, a fugir em busca de refúgio em todos os países vizinhos e em alguns muito distantes, até nas ilhas do mar.

Foram então animados a voltar para sua própria terra e a se pôr sob a proteção e o governo do rei de Judá, ainda mais porque fora um exército assírio que arruinara seu país e esse exército agora havia sido derrotado.

Isso é chamado de seu resgate pela segunda vez (v. 11), uma tal manifestação do poder e da bondade de Deus e uma tal renovação da vida para eles, como fora sua primeira libertação do Egito.

Então os desterrados de Israel seriam reunidos e levados de volta para casa, assim como os de Judá que haviam mudado de lugar por sua própria salvaguarda quando o exército assírio se aproximou. Então a antiga rivalidade entre Efraim e Judá seria esquecida, e eles se uniriam contra os filisteus e seus outros inimigos comuns (v. 13, 14).

Repare: os que partilharam aflições e misericórdias, perigos e libertações devem, por isso, unir-se para sua salvaguarda e proteção conjuntas e mútuas. A igreja provavelmente estará bem quando Efraim e Judá se unirem contra os filisteus.

Então, quaisquer que sejam as dificuldades no caminho de volta dos dispersos, o Senhor encontrará algum meio de removê-las. Quando tirou Israel do Egito, secou o mar Vermelho e o Jordão (v. 15) e os conduziu a Canaã por entre os obstáculos invencíveis de um vasto deserto uivante (v. 16).

Fará algo semelhante nessa segunda vez, ou algo equivalente. Quando chega o tempo de Deus para a libertação de seu povo, montanhas de oposição se tornarão planas diante dele. Não desesperemos, portanto, quando os interesses da igreja parecerem em grande declínio; Deus pode rapidamente transformar dias sombrios em dias gloriosos.

II. A profecia tinha uma referência ulterior aos dias do Messias e à entrada dos gentios em seu reino, pois o apóstolo aplica a eles o v. 10, do qual os versículos seguintes são continuação (Romanos 15:12): “Haverá uma raiz de Jessé”; e “aquele que se levantará para reinar sobre os gentios, nele os gentios confiarão”.

Essa é uma chave da profecia, que fala de Cristo como raiz de Jessé, ou renovo de suas raízes (v. 1), raiz que sai de uma terra seca (Isaías 53:2). Ele é a raiz de Davi (Apocalipse 5:5), a raiz e descendência de Davi (Apocalipse 22:16).

  1. Ele ficará de pé, ou será erguido, como estandarte para os povos. Quando foi crucificado, foi levantado da terra para que, como estandarte ou farol, atraísse para si os olhos e os corações de todos os homens (João 12:32).

É erguido como estandarte na pregação do evangelho eterno. Nela os ministros, como porta-estandartes, exibem a bandeira de seu amor para nos atrair a ele (Cantares de Salomão 1:4) e a bandeira de sua verdade, sob a qual podemos nos alistar para travar uma guerra santa contra o pecado e Satanás.

Cristo é o estandarte ao qual são reunidos os filhos de Deus dispersos (João 11:52); nele se encontram como no centro de sua unidade.

  1. Os gentios o buscarão. Lemos sobre gregos que o fizeram (João 12:21: “Desejaríamos ver Jesus”); nessa ocasião, Cristo falou de ser levantado para atrair todos os homens a si. O apóstolo, a partir da Septuaginta, ou talvez a Septuaginta seguindo o apóstolo em suas edições posteriores a Cristo, lê assim (Romanos 15:12): “Nele os gentios confiarão”. Eles o buscarão com dependência dele.

  2. Seu repouso será glorioso. Alguns entendem isso como referência à morte de Cristo, pois os triunfos da cruz tornaram gloriosa até a morte; outros, à sua ascensão, quando se assentou para repousar à direita de Deus.

Ou, antes, refere-se à igreja do evangelho, aquele monte Sião do qual Cristo disse: “Este é meu repouso”, e no qual reside. Embora desprezada pelo mundo, ela possui a beleza da santidade e é na verdade gloriosa, “um trono elevado e glorioso” (Jeremias 17:12).

  1. Tanto judeus quanto gentios serão reunidos a ele (v. 11): um remanescente de ambos, um pequeno remanescente em comparação, que será resgatado, por assim dizer, com grande dificuldade e perigo.

Assim como Deus antes libertou os de seu povo e os reuniu de todos os países para os quais foram dispersos (Salmos 106:47; Jeremias 16:15, 16), assim ele o fará pela segunda vez, de outro modo, pela ação poderosa do Espírito da graça mediante a palavra.

Ele estenderá sua mão para realizar isso, exercerá seu poder, e o braço do Senhor será revelado para fazê-lo.

(1.) Um remanescente dos judeus será reunido. “Os desterrados de Israel e os dispersos de Judá” (v. 12), muitos dos quais, quando foram conduzidos a Cristo, eram judeus da dispersão, as “doze tribos que foram dispersas” (Tiago 1:1; 1 Pedro 1:1), acorrerão a Cristo.

É provável que, proporcionalmente, mais desses judeus dispersos tenham entrado na igreja do que daqueles que permaneceram em sua própria terra.

(2.) Muitos dentre as nações, os gentios, entrarão quando o estandarte for erguido. Jacó predisse acerca de Siló que a ele se reuniriam os povos. Os que eram estranhos e estrangeiros serão trazidos para perto. Os judeus tinham ciúmes de Cristo ir aos dispersos entre os gentios e ensinar os gentios (João 7:35).

  1. Haverá uma feliz reconciliação entre Judá e Efraim; ambos estarão seguros contra seus adversários e dominarão sobre eles (v. 13, 14). A união entre Judá e Israel naquele tempo era tipo e figura da união, na igreja do evangelho, entre judeus e gentios, que por tanto tempo estiveram em conflito.

“A casa de Judá andará com a casa de Israel” (Jeremias 3:18), e se tornarão uma só nação (Ezequiel 37:22). Assim, judeus e gentios são feitos, dos dois, um só homem novo (Efésios 2:15); estando em paz uns com os outros, os adversários de ambos serão eliminados.

Eles voarão sobre os ombros dos filisteus, como uma águia que ataca sua presa, saquearão os que estão a oeste deles e depois estenderão suas conquistas a leste, sobre edomitas, moabitas e amonitas. O evangelho de Cristo terá êxito em toda parte, e alguns de todas as nações se tornarão obedientes à fé.

  1. Tudo o que pudesse impedir o avanço e o êxito do evangelho será removido. Assim como Deus secou o mar Vermelho e o Jordão diante dos israelitas ao tirá-los do Egito (Isaías 63:11, 12), e depois preparou o caminho dos judeus ao tirá-los da Babilônia (Isaías 62:10), assim todos os obstáculos serão removidos quando judeus e gentios forem reunidos na igreja do evangelho (v. 15, 16).

Dificuldades que pareciam insuperáveis serão vencidas de modo extraordinário; os cegos serão guiados por um caminho que não conheciam. Veja Isaías 42:15, 16; 43:19, 20. Os convertidos serão trazidos em carros e liteiras (Isaías 66:20).

Alguns pensam que a obscura profecia do secamento do rio Eufrates, para preparar o caminho dos reis do Oriente (Apocalipse 16:12), aponta para a entrada ulterior de multidões na igreja. Essa profecia parece fazer referência à presente.

Repare: quando chega o tempo de Deus para trazer para si nações ou pessoas particulares, a graça divina será vitoriosa sobre toda oposição. Na presença do Senhor, o mar fugirá e o Jordão retrocederá. Os que voltarem o rosto para o céu descobrirão que o caminho não tem tantas dificuldades quanto pensavam, pois há uma estrada até lá (Isaías 35:8).


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