Hebreus 8
Argumento
Neste capítulo, o apóstolo prossegue com seu assunto anterior, o sacerdócio de Cristo, e:
I. Resume o que já havia dito, v. 1, 2. II. Apresenta-lhes as partes necessárias do ofício sacerdotal, vv. 3-5. E III. Ilustra amplamente a excelência do sacerdócio de Cristo ao considerar a excelência da nova dispensação ou aliança da qual Cristo é o Mediador, v. 6 até o fim.
Versículos 1 a 5
O Sacerdócio de Cristo. (62 d.C.)
Aqui está: I. Uma exposição resumida do que foi dito antes acerca da excelência do sacerdócio de Cristo, mostrando o que temos em Cristo, onde ele agora reside e de que santuário é ministro, v. 1, 2. Observe:
- O que temos em Cristo: temos um sumo sacerdote, e um sumo sacerdote como nenhum outro povo jamais teve e como nenhuma época do mundo ou da igreja jamais produziu. Todos os outros foram apenas tipos e sombras desse sumo sacerdote.
Ele está adequadamente preparado e é absolutamente suficiente para todos os fins e propósitos de um sumo sacerdote, tanto no que diz respeito à honra de Deus quanto à felicidade dos homens. E ele mesmo é a grande honra de todos os que têm parte nele.
- Onde ele agora reside: está sentado à direita do trono da Majestade nas alturas, isto é, do glorioso Deus do céu. Ali o Mediador foi colocado e possui toda autoridade e poder, tanto no céu quanto na terra. Essa é a recompensa de sua humilhação.
Exerce essa autoridade para a glória de seu Pai, para sua própria honra e para a felicidade de todos os que lhe pertencem. Por seu poder onipotente, levará cada um deles, em sua própria ordem, à direita de Deus no céu, como membros de seu corpo místico, para que também estejam onde ele está.
- De que santuário ele é ministro: do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor armou, e não o homem, v. 2.
O tabernáculo que o homem armou, conforme a determinação de Deus, tinha uma parte externa onde ficava o altar em que deviam oferecer seus sacrifícios, o qual tipificava Cristo morrendo.
Havia também uma parte interior, dentro do véu, que tipificava Cristo intercedendo pelo povo no céu. Ora, Cristo nunca entrou nesse tabernáculo. Mas, tendo concluído a obra de satisfação no verdadeiro tabernáculo de seu próprio corpo, agora é ministro do santuário, do santo dos santos, do verdadeiro tabernáculo no céu.
Ali cuida dos assuntos de seu povo e intercede por eles junto a Deus, para que seus pecados sejam perdoados e suas pessoas e seus serviços aceitos, pelo mérito de seu sacrifício.
Não está no céu apenas desfrutando grande domínio e dignidade, mas, como sumo sacerdote de sua igreja, exerce esse ofício em favor de todos eles em geral e de cada membro da igreja em particular.
II. O apóstolo apresenta aos hebreus as partes necessárias do sacerdócio de Cristo, ou aquilo que pertencia a esse ofício, de acordo com aquilo para o qual todo sumo sacerdote é designado, v. 3, 4.
- Todo sumo sacerdote é designado para oferecer dádivas e sacrifícios. Tudo o que o povo trazia para ser apresentado a Deus, fossem sacrifícios expiatórios, ofertas pacíficas ou ofertas de gratidão, devia ser oferecido pelo sacerdote.
Ele devia expiar a culpa deles pelo sangue do sacrifício e perfumar suas dádivas e seus serviços com seu incenso santo, para tornar suas pessoas e suas obras tipicamente aceitáveis.
Portanto, pertence necessariamente ao sacerdócio de Cristo que ele tenha algo a oferecer. E ele, como antítipo, tinha a si mesmo para oferecer: sua natureza humana sobre o altar de sua natureza divina, como o grande sacrifício expiatório que deu fim à transgressão e pôs fim ao pecado de uma vez por todas.
Também tem o incenso de sua própria justiça e de seus méritos para oferecer com tudo o que seu povo oferece a Deus por meio dele, a fim de tornar seu povo aceitável.
Não devemos ousar aproximar-nos de Deus ou apresentar-lhe coisa alguma, a não ser em Cristo e por meio dele, dependendo de seus méritos e de sua mediação. Pois, se somos aceitos, é no Amado.
- Cristo deve agora exercer seu sacerdócio no céu, no santo dos santos, no verdadeiro tabernáculo que o Senhor estabeleceu. Assim o tipo deve ser plenamente cumprido: depois de concluir aqui a obra do sacrifício, ele deve ir ao céu para apresentar sua justiça e fazer intercessão ali. Pois:
(1.) Se Cristo estivesse na terra, não seria sacerdote (v. 4), isto é, não segundo a lei levítica, pois não pertence à linhagem desse sacerdócio. E, enquanto esse sacerdócio continuasse, era preciso observar rigorosamente a instituição divina em tudo.
(2.) Todos os serviços do sacerdote sob a lei, bem como tudo o que havia naquele tabernáculo, construído segundo o modelo mostrado no monte, eram apenas modelos e sombras das coisas celestiais, v. 5. Cristo é a substância e o fim da lei para a justiça.
Portanto, deve haver no sacerdócio de Cristo algo que corresponda à entrada do sumo sacerdote para dentro do véu a fim de fazer intercessão. Sem isso, ele não poderia ter sido um sacerdote perfeito. E o que é isso senão a ascensão de Cristo ao céu e sua apresentação ali diante de Deus em favor de seu povo, para apresentar suas orações e defender sua causa?
Assim, se tivesse permanecido na terra, não poderia ter sido um sacerdote perfeito; e um sacerdote imperfeito ele não poderia ser.
Versículos 6 a 13
A Antiga e a Nova Aliança. (62 d.C.)
Nesta parte do capítulo, o apóstolo ilustra e confirma a excelência superior do sacerdócio de Cristo sobre o de Arão pela excelência da aliança, ou da dispensação da aliança da graça, da qual Cristo era o Mediador (v. 6): seu ministério é tanto mais excelente quanto ele é Mediador de uma aliança melhor.
O corpo e também a alma de toda a teologia, como alguns observam, consistem em grande medida em distinguir corretamente entre as duas alianças, a aliança das obras e a aliança da graça, e entre as duas dispensações da aliança da graça, a do Antigo Testamento e a do Novo. Agora observe:
I. O que se diz aqui da antiga aliança, ou melhor, da antiga dispensação da aliança da graça. A respeito dela se diz:
Que foi feita com os pais da nação judaica no monte Sinai (v. 9), e Moisés foi o Mediador dessa aliança quando Deus os tomou pela mão para conduzi-los para fora da terra do Egito. Isso mostra o grande afeto, a condescendência e o terno cuidado de Deus para com eles.
Que essa aliança não era irrepreensível (v. 7, 8). Era uma dispensação de trevas e pavor, que tendia à servidão, e apenas um aio para conduzir-nos a Cristo. Era perfeita em sua espécie e adequada para cumprir seu fim, mas muito imperfeita em comparação com o evangelho.
Que não era segura nem firme, pois os judeus não permaneceram nessa aliança e o Senhor não atentou para eles, v. 9. Agiram com ingratidão para com seu Deus e com crueldade para consigo mesmos, e caíram sob o desagrado de Deus. Deus atentará para os que permanecerem em sua aliança, mas rejeitará os que lançarem de si seu jugo.
Que ela se deteriorou, envelheceu e está desaparecendo, v. 13. Está antiquada, cancelada, fora de uso, tão inútil nos tempos do evangelho quanto velas quando o sol já nasceu.
Alguns pensam que a aliança que distinguia Israel não se deteriorou completamente até a destruição de Jerusalém, embora tivesse sido perdida na morte de Cristo, tivesse envelhecido e então estivesse para desaparecer e perecer. O sacerdócio levítico desapareceu com ela.
II. O que se diz aqui da dispensação do Novo Testamento para provar a excelência superior do ministério de Cristo. Diz-se:
- Que é uma aliança melhor (v. 6), uma dispensação e revelação mais claras e consoladoras da graça de Deus aos pecadores, trazendo luz santa e liberdade à alma. É sem defeito e bem ordenada em todas as coisas.
Não exige nada senão aquilo para cuja realização promete graça. Aceita a sinceridade piedosa, considerando-a perfeição evangélica. Nem toda transgressão nos põe fora da aliança; tudo é posto em mão boa e segura.
- Que está estabelecida sobre promessas melhores, mais claras e expressas, mais espirituais e mais absolutas. As promessas de bênçãos espirituais e eternas são positivas e absolutas nessa aliança; as promessas de bênçãos temporais trazem uma ressalva sábia e bondosa, na medida em que forem para a glória de Deus e o bem de seu povo.
Essa aliança contém promessas de auxílio e aceitação no dever, promessas de progresso e perseverança na graça e na santidade, de bem-aventurança e glória no céu. Essas coisas eram prefiguradas de modo mais obscuro pelas promessas da terra de Canaã, um tipo do céu.
- É uma nova aliança, a mesma que Deus declarou há muito tempo que faria com a casa de Israel, isto é, todo o Israel de Deus. Isso foi prometido em Jeremias 31:31, 32 e cumprido em Cristo.
Ela sempre será uma nova aliança, na qual todos os que verdadeiramente se apegarem a ela serão sempre preservados pelo poder de Deus. É a aliança de Deus: sua misericórdia, seu amor e sua graça o moveram a fazê-la; sua sabedoria a planejou; seu Filho a adquiriu; seu Espírito conduz as almas para dentro dela e as edifica nela.
- Os artigos dessa aliança são muito extraordinários e são selados entre Deus e seu povo pelo batismo e pela ceia do Senhor. Por esses meios, eles se obrigam a cumprir sua parte, e Deus lhes assegura que cumprirá a sua.
A parte dele é a maior e principal, da qual seu povo depende para receber graça e força para cumprir a sua. Aqui:
(1.) Deus estipula com seu povo que porá suas leis em suas mentes e as escreverá em seus corações, v. 10. Antes, escreveu suas leis para eles; agora as escreverá neles. Isto é, dará a eles entendimento para conhecer e crer em sua lei; lhes dará memória para retê-las, corações para amá-las e consciências para reconhecê-las.
Dará coragem para professá-las e poder para colocá-las em prática. Toda a disposição habitual e a estrutura de suas almas serão uma tábua e uma transcrição da lei de Deus. Esse é o fundamento da aliança; quando estiver posto, o dever será cumprido com sabedoria, sinceridade, prontidão, facilidade, resolução, constância e consolo.
(2.) Ele estipula com eles que os receberá numa relação íntima e muito honrosa consigo mesmo.
[1.] Será para eles um Deus; isto é, será tudo para eles e fará por eles tudo o que Deus pode ser e fazer. Nada mais pode ser dito em mil volumes do que está contido nestas poucas palavras: serei um Deus para eles.
[2.] Eles serão para ele um povo, para amá-lo, honrá-lo, observá-lo e obedecer-lhe em todas as coisas; acolhendo suas advertências, conformando-se a seus mandamentos, harmonizando-se com suas providências, copiando seu exemplo e tendo prazer em seu favor.
Isso devem fazer e farão os que têm Deus por seu Deus. Estão obrigados a fazê-lo como sua parte do contrato; e o farão, pois Deus os capacitará para isso, como prova de que ele é seu Deus e eles são seu povo.
É o próprio Deus quem primeiro estabelece essa relação e depois a preenche com graça adequada e suficiente, ajudando-os, na medida que lhes cabe, a preenchê-la com amor e dever. Assim, Deus se compromete tanto por si quanto por eles.
(3.) Ele estipula com eles que conhecerão seu Deus cada vez mais (v. 11): “Todos me conhecerão, desde o menor até o maior.” Assim, não haverá tanta necessidade de um vizinho ensinar a outro o conhecimento de Deus. Aqui observe:
[1.] Na falta de instrução melhor, um vizinho deve ensinar a outro a conhecer o Senhor, conforme tenha capacidade e oportunidade para isso.
[2.] Essa instrução particular não será tão necessária sob o Novo Testamento quanto era sob o Antigo. A antiga dispensação era sombria, obscura, ritual e menos compreendida; seus sacerdotes pregavam raramente e para poucos por vez, e o Espírito de Deus era concedido com mais parcimônia.
Mas, sob a nova dispensação, haverá tal abundância de pregadores públicos e qualificados do evangelho e de ministros que administram regularmente as ordenanças nas assembleias solenes.
Haverá tamanha afluência a eles, como pombas às suas janelas, e tão abundante derramamento do Espírito de Deus para tornar eficaz o ministério do evangelho que haverá grande crescimento e difusão do conhecimento cristão entre pessoas de todas as classes, de ambos os sexos e de todas as idades.
Ah, que essa promessa se cumpra em nossos dias, que a mão de Deus esteja com seus ministros e que muitos creiam e se convertam ao Senhor!
(4.) Deus estipula com eles a respeito do perdão de seus pecados, como algo que sempre acompanha o verdadeiro conhecimento de Deus (v. 12): “Pois serei misericordioso para com sua injustiça”, etc. Observe:
[1.] A gratuidade desse perdão. Não resulta do mérito humano, mas da misericórdia de Deus; ele perdoa por causa de seu próprio nome.
[2.] A plenitude desse perdão. Estende-se à sua injustiça, a seus pecados e a suas iniquidades, a todas as espécies de pecado, até os pecados muito agravados.
[3.] A firmeza desse perdão. É tão definitivo e firme que Deus não se lembrará mais de seus pecados. Não revogará seu perdão; não apenas perdoará seus pecados, mas os esquecerá e os tratará como se os tivesse esquecido.
Essa misericórdia perdoadora está ligada a todas as outras misericórdias espirituais. O pecado não perdoado impede a misericórdia e faz cair juízos; mas o perdão do pecado evita o juízo e abre uma larga porta para todas as bênçãos espirituais.
É o efeito da misericórdia que existe desde a eternidade e o penhor da misericórdia que durará para sempre. Esta é a excelência da nova dispensação, e estes são seus artigos. Portanto, não temos motivo algum para lamentar, mas grande motivo para nos alegrar de que a antiga dispensação esteja antiquada e tenha desaparecido.