Hebreus 11
Argumento
Tendo o apóstolo, no fim do capítulo anterior, recomendado a graça da fé e uma vida de fé como a melhor proteção contra a apostasia, agora discorre mais amplamente sobre a natureza e os frutos dessa excelente graça.
I. A natureza da fé e a honra que ela confere a todos os que vivem exercendo-a, vv. 1-3. II. Os grandes exemplos que temos no Antigo Testamento daqueles que viveram pela fé, morreram e sofreram coisas extraordinárias pela força de sua graça, vv. 4-38.
E III. As vantagens que temos no evangelho para exercer essa graça, superiores às que tinham os que viveram nos tempos do Antigo Testamento, v. 39, 40.
Versículos 1 a 3
A Natureza da Fé. (62 d.C.)
Aqui temos: I. Uma definição ou descrição da graça da fé em duas partes.
- Ela é a substância das coisas esperadas. Fé e esperança andam juntas, e as mesmas coisas que são objeto de nossa esperança são objeto de nossa fé. É uma firme persuasão e expectativa de que Deus cumprirá tudo o que nos prometeu em Cristo.
Essa persuasão é tão forte que dá à alma uma espécie de posse e fruição presente dessas coisas, dá-lhes existência na alma por meio de suas primícias e antecipações. Assim, os crentes que exercem a fé são cheios de alegria indizível e plena de glória.
Cristo habita na alma pela fé, e a alma é cheia de toda a plenitude de Deus, até onde a medida presente do crente o permite; ele experimenta uma realidade substancial nos objetos da fé.
- Ela é a evidência das coisas não vistas. A fé demonstra aos olhos da mente a realidade das coisas que não podem ser discernidas pelos olhos do corpo. A fé é o firme assentimento da alma à revelação divina e a cada parte dela e, com seu selo, atesta que Deus é verdadeiro.
É plena aprovação de tudo o que Deus revelou como santo, justo e bom; ajuda a alma a aplicar tudo a si mesma com afeições e esforços apropriados. Assim, destina-se a servir ao crente em lugar da visão e a ser para a alma tudo o que os sentidos são para o corpo.
A fé que não torna reais as coisas invisíveis para a alma nem estimula a alma a agir de acordo com a natureza e a importância delas é apenas opinião ou fantasia.
II. Um relato da honra que a fé confere a todos os que viveram exercendo-a (v. 2): “Por ela os antigos obtiveram um bom testemunho”, os antigos crentes, que viveram nas primeiras eras do mundo. Observe:
A verdadeira fé é uma graça antiga e tem a melhor alegação de antiguidade: não é invenção nova nem fantasia moderna. É uma graça plantada na alma humana desde que a aliança da graça foi anunciada no mundo; e foi praticada desde o começo da revelação. Os homens mais antigos e melhores que já viveram no mundo eram crentes.
A fé deles era sua honra; refletia honra sobre eles. Eram uma honra para sua fé, e sua fé era uma honra para eles. Levou-os a fazer coisas dignas de bom testemunho, e Deus cuidou para que se guardasse registro e se desse testemunho das coisas excelentes que fizeram pela força dessa graça.
Os atos genuínos da fé suportarão ser relatados, merecem ser relatados e, quando o forem, redundarão em honra para os verdadeiros crentes.
III. Temos aqui um dos primeiros atos e artigos da fé, que exerce grande influência sobre todos os outros e é comum a todos os crentes em toda época e parte do mundo: a criação dos mundos pela palavra de Deus, não de matéria preexistente, mas do nada, v. 3.
A graça da fé contempla o passado assim como o futuro; não olha apenas para a frente, para o fim do mundo, mas também para trás, para o começo do mundo. Pela fé entendemos muito mais sobre a formação do mundo do que jamais se poderia entender pelo simples olhar da razão natural.
A fé não é uma imposição ao entendimento, mas sua amiga e ajudadora. Ora, o que a fé nos faz entender acerca dos mundos, isto é, das regiões superior, média e inferior do universo?
Que esses mundos não eram eternos nem produziram a si mesmos, mas foram feitos por outro.
Que o criador dos mundos é Deus; ele é o criador de todas as coisas, e quem quer que assim seja deve ser Deus.
Que ele fez o mundo com grande exatidão; foi uma obra estruturada, em que cada coisa foi devidamente adaptada e disposta para cumprir seu fim e expressar as perfeições do Criador.
Que Deus fez o mundo por sua palavra, isto é, por sua sabedoria essencial e seu Filho eterno e por sua vontade ativa, dizendo: faça-se, e foi feito, Salmos 33:9.
Que o mundo foi assim formado do nada, sem nenhuma matéria preexistente, ao contrário da máxima aceita de que “do nada nada pode ser feito”. Embora verdadeira quanto ao poder criado, essa máxima não se aplica a Deus, que pode chamar as coisas que não são como se fossem e ordenar que passem a existir.
Essas coisas entendemos pela fé. A Bíblia nos dá o relato mais verdadeiro e exato da origem de todas as coisas, e devemos crer nele. Não devemos torcer nem depreciar o relato bíblico da criação só porque não combina com algumas hipóteses fantasiosas nossas.
Isso, em alguns homens instruídos, mas presunçosos, tem sido o primeiro passo notável rumo à incredulidade e os tem levado a muitos outros.
Versículos 4 a 31
Exemplos de Fé. (62 d.C.)
Depois de nos dar um relato mais geral da graça da fé, o apóstolo passa a nos apresentar alguns exemplos ilustres dela nos tempos do Antigo Testamento. Podem ser divididos em duas classes:
Aqueles cujos nomes são mencionados e cujo exercício e ações particulares da fé são especificados.
Aqueles cujos nomes são apenas mencionados, dando-se um relato geral dos feitos de sua fé, que cabe ao leitor adaptar e aplicar às pessoas particulares pelo que recolhe da história sagrada.
Temos aqui aqueles cujos nomes são não só mencionados, mas aos quais se acrescentam as provações e ações particulares de sua fé.
I. O primeiro caso e exemplo de fé aqui registrado é o de Abel. Observe-se que o Espírito de Deus não julgou apropriado dizer aqui nada acerca da fé de nossos primeiros pais.
Ainda assim, a igreja de Deus geralmente, por uma caridade piedosa, teve por certo que Deus lhes deu arrependimento e fé na descendência prometida, que os instruiu no mistério de sacrificar, que instruíram nisso seus filhos e que encontraram misericórdia em Deus depois de arruinarem a si mesmos e toda sua posteridade.
Mas Deus deixou o assunto continuamente sob alguma dúvida, como aviso a todos os que recebem grandes talentos e em quem é depositada grande confiança, para que não se mostrem infiéis, pois Deus não quis inscrever nossos primeiros pais entre os crentes nesse bendito calendário.
Começa com Abel, um dos primeiros santos e o primeiro mártir pela religião dentre todos os filhos de Adão, alguém que viveu pela fé e morreu por ela e, por isso, padrão apropriado para os hebreus imitarem. Observe:
- O que Abel fez pela fé: ofereceu um sacrifício mais aceitável que Caim, um sacrifício mais pleno e perfeito, pleiona thysian. Daqui aprendamos:
(1.) Que, após a queda, Deus abriu um novo caminho para os filhos dos homens voltarem a ele em culto religioso. Este é um dos primeiros casos registrados de homens caídos indo adorar a Deus; foi uma maravilha de misericórdia que toda comunicação entre Deus e o homem não fosse cortada pela queda.
(2.) Após a queda, Deus deve ser adorado por sacrifícios, maneira de culto que traz em si uma confissão de pecado e do castigo merecido pelo pecado, e uma profissão de fé num Redentor, que seria resgate pela alma dos homens.
(3.) Que, desde o princípio, há diferença notável entre os adoradores. Aqui estavam duas pessoas, irmãos, ambos indo adorar a Deus, e ainda assim havia vasta diferença. Caim era o irmão mais velho, mas Abel tem a preferência. Não é a precedência no nascimento, mas a graça que torna as pessoas honrosas na verdade.
A diferença se observa em suas pessoas: Abel era pessoa íntegra, homem justo, verdadeiro crente; Caim era formalista, sem princípio de graça especial. Observa-se em seus princípios: Abel agia sob o poder da fé; Caim, só pela força da educação ou da consciência natural.
Havia também diferença muito observável em suas ofertas. Abel trouxe um sacrifício de expiação, dos primogênitos do rebanho, reconhecendo ser pecador que merecia morrer e esperando misericórdia somente pelo grande sacrifício.
Caim trouxe apenas um sacrifício de reconhecimento, mera oferta de gratidão, o fruto da terra, que poderia, e talvez devesse, ter sido oferecido na inocência. Não havia confissão de pecado nem consideração pelo resgate; isso era defeito essencial na oferta de Caim.
Sempre haverá diferença entre os que adoram o verdadeiro Deus. Alguns o cercarão de mentiras, outros serão fiéis com os santos; alguns, como o fariseu, se apoiarão em sua própria justiça; outros, como o publicano, confessarão seu pecado e se lançarão sobre a misericórdia de Deus em Cristo.
- O que Abel ganhou por sua fé: o registro original está em Gênesis 4:4: Deus teve consideração por Abel e por sua oferta; primeiro por sua pessoa, como alguém que tinha graça, depois por sua oferta, como procedente da graça, especialmente da graça da fé.
Nesta passagem nos é dito que obteve por sua fé algumas vantagens especiais, como:
(1.) Testemunho de que era justo, pessoa justificada, santificada e aceita. Isso muito provavelmente foi atestado por fogo do céu, acendendo e consumindo seu sacrifício.
(2.) Deus deu testemunho da justiça de sua pessoa, atestando sua aceitação dos dons dele. Quando o fogo, emblema da justiça de Deus, consumiu a oferta, foi sinal de que a misericórdia de Deus aceitava o ofertante por causa do grande sacrifício.
(3.) “Por ela, estando morto, ainda fala.” Teve a honra de deixar um caso instrutivo que fala; e o que nos diz? O que devemos aprender dele?
[1.] Que o homem caído tem permissão para ir adorar a Deus com esperança de aceitação.
[2.] Que, se nossas pessoas e ofertas são aceitas, deve ser pela fé no Messias.
[3.] Que a aceitação diante de Deus é favor peculiar e distintivo.
[4.] Que os que obtêm esse favor de Deus devem esperar a inveja e a malícia do mundo.
[5.] Que Deus não permitirá que as injúrias feitas a seu povo fiquem impunes, nem que seus sofrimentos fiquem sem recompensa. São instruções muito boas e úteis, e ainda assim o sangue da aspersão fala coisas melhores que o de Abel.
[6.] Que Deus não quis permitir que a fé de Abel morresse com ele, mas levantaria outros que obteriam fé igualmente preciosa. Assim fez em pouco tempo, pois no versículo seguinte lemos:
II. Da fé de Enoque, v. 5. É o segundo daqueles antigos que, pela fé, têm bom testemunho. Observe:
- O que aqui se relata dele. Nesta passagem e em Gênesis 5:22, etc., lemos:
(1.) Que andou com Deus, isto é, era realmente, notavelmente, ativamente, progressivamente e perseverantemente religioso em sua conformidade com Deus, comunhão com Deus e satisfação em Deus.
(2.) Que foi trasladado para não ver a morte, nem ser encontrada na terra parte alguma dele; pois Deus o levou, alma e corpo, para o céu, como fará com os santos encontrados vivos em sua segunda vinda.
(3.) Que, antes de sua trasladação, tinha o testemunho de que agradara a Deus. Tinha a evidência disso em sua própria consciência, e o Espírito de Deus testemunhava com seu espírito.
Os que pela fé andam com Deus num mundo pecaminoso lhe são agradáveis; ele lhes dará sinais de seu favor e lhes conferirá honra.
- O que aqui se diz de sua fé, v. 6. Diz-se que, sem essa fé, é impossível agradar a Deus, sem fé que nos ajude a andar com Deus, fé ativa; e que não podemos ir a Deus sem crer que ele existe e recompensa os que o buscam diligentemente.
(1.) Deve crer que Deus existe e que é o que é, o que revelou ser na Escritura, Ser de perfeições infinitas, subsistindo em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. Observe:
A crença prática na existência de Deus, conforme revelado na palavra, seria poderoso vínculo de temor reverente sobre nossa alma, freio de contenção para nos guardar do pecado e espora de impulso para nos levar a toda espécie de obediência ao evangelho.
(2.) Que recompensa os que o buscam diligentemente. Observe aqui:
[1.] Pela queda perdemos Deus; perdemos a luz, a vida, o amor, a semelhança e a comunhão divinos.
[2.] Deus pode ser novamente encontrado por nós mediante Cristo, o segundo Adão.
[3.] Deus prescreveu meios e caminhos em que pode ser encontrado: atenção rigorosa a seus oráculos, aplicação a suas ordenanças e aos ministros que cumprem devidamente seu ofício, associação com seu povo, observância de sua orientação providencial e, em tudo, espera humilde por sua presença graciosa.
[4.] Os que querem encontrar Deus nesses seus caminhos devem buscá-lo diligentemente; devem buscar cedo, com zelo e perseverança. Então o buscarão e encontrarão, se o buscarem de todo o coração; uma vez encontrado como seu Deus reconciliado, nunca se arrependerão dos esforços gastos em buscá-lo.
III. A fé de Noé, v. 7. Observe:
- O fundamento da fé de Noé: um aviso que recebera de Deus sobre coisas ainda não vistas. Teve revelação divina, se por voz ou visão não se mostra; mas era tal que trazia em si sua própria evidência.
Foi avisado de antemão de coisas ainda não vistas, isto é, de um grande e severo julgamento, como o mundo nunca havia visto e do qual, no curso das causas secundárias, ainda não havia o menor sinal.
Devia comunicar ao mundo esse aviso secreto; o mundo certamente desprezaria tanto ele quanto sua mensagem. Deus geralmente avisa os pecadores antes de ferir; onde seus avisos são desprezados, o golpe cairá mais pesado.
- As ações da fé de Noé e sua influência tanto sobre sua mente quanto sobre sua prática:
(1.) Sobre sua mente: imprimiu em sua alma temor do julgamento de Deus; foi movido pelo temor. A fé influencia primeiro nossos afetos, depois nossas ações; age sobre os afetos apropriados à matéria revelada. Se é coisa boa, desperta amor e desejo; se coisa má, desperta temor.
(2.) Sua fé influenciou sua prática. Seu temor, assim despertado por crer na ameaça de Deus, levou-o a preparar uma arca, no que sem dúvida encontrou o escárnio e o descrédito de uma geração perversa.
Não discutiu com Deus por que deveria fazer uma arca, nem como ela seria capaz de conter o que nela seria alojado, nem como tal embarcação poderia atravessar tamanha tempestade. Sua fé silenciou todas as objeções e o pôs a trabalhar com zelo.
- Os benditos frutos e recompensas da fé de Noé:
(1.) Por ela, ele próprio e sua casa foram salvos enquanto todo um mundo de pecadores perecia ao redor deles. Deus salvou sua família por causa dele; foi bom para eles serem filhos e filhas de Noé; foi bom para aquelas mulheres terem se casado com a família de Noé.
Talvez pudessem ter se casado com grandes patrimônios em outras famílias, mas então teriam sido afogadas. Muitas vezes dizemos: “É bom ser parente de um patrimônio”; mas certamente é bom ser parente da aliança.
(2.) Por ela julgou e condenou o mundo. Seu santo temor condenava a segurança e a confiança vã deles; sua fé condenava a incredulidade deles; sua obediência condenava seu desprezo e rebelião. Os bons exemplos ou converterão os pecadores ou os condenarão.
Há algo muito convincente numa vida de santidade rigorosa e consideração por Deus; recomenda-se à consciência de cada pessoa à vista de Deus, e por ela são julgados.
É a melhor maneira que o povo de Deus pode adotar para condenar os perversos: não por linguagem áspera e censuradora, mas por conduta santa e exemplar.
(3.) Por ela tornou-se herdeiro da justiça que vem pela fé:
[1.] Possuía verdadeira justiça justificadora; era herdeiro dela. E:
[2.] Esse seu direito de herança era pela fé em Cristo, como membro de Cristo, filho de Deus e, se filho, então herdeiro. Sua justiça era relativa, resultando de sua adoção pela fé na descendência prometida.
Se esperamos ser justificados e salvos no grande e terrível dia do Senhor, preparemos agora uma arca, asseguremos participação em Cristo e na arca da aliança, e façamos isso depressa, antes de a porta ser fechada, pois não há salvação em nenhum outro.
IV. A fé de Abraão, amigo de Deus e pai dos fiéis, em quem os hebreus se gloriavam e de quem derivavam sua linhagem e privilégios. Por isso, o apóstolo, para tanto lhes agradar quanto lhes aproveitar, se demora mais nos feitos heroicos da fé de Abraão que nos de qualquer outro patriarca.
No meio de seu relato da fé de Abraão, insere a história da fé de Sara, de quem são filhas as mulheres que continuam a fazer o bem. Observe:
- O fundamento da fé de Abraão, o chamado e a promessa de Deus, v. 8:
(1.) Esse chamado, embora provasse muito, era o chamado de Deus e, por isso, fundamento suficiente para a fé e regra de obediência.
Estêvão relata o modo como foi chamado em Atos 7:2, 3: “O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão quando estava na Mesopotâmia” e lhe disse: “Sai de tua terra e de tua parentela e vem para a terra que te mostrarei.”
Era um chamado eficaz, pelo qual foi convertido da idolatria da casa de seu pai, Gênesis 12:1. Esse chamado foi renovado após a morte de seu pai em Charrã. Observe:
[1.] A graça de Deus é absolutamente livre ao tomar alguns dos piores homens e fazê-los os melhores.
[2.] Deus deve vir a nós antes de irmos a ele.
[3.] Ao chamar e converter pecadores, Deus aparece como Deus da glória e opera uma obra gloriosa na alma.
[4.] Isso nos chama a deixar não só o pecado, mas a companhia pecaminosa e tudo o que é incompatível com nossa devoção a ele.
[5.] Precisamos ser chamados não só para começar bem, mas para prosseguir bem.
[6.] Ele não quer que seu povo encontre repouso em nenhum lugar aquém da Canaã celestial.
(2.) A promessa de Deus. Deus prometeu a Abraão que receberia depois como herança o lugar para onde era chamado; após algum tempo, teria a Canaã celestial como herança e, no curso do tempo, sua posteridade herdaria a Canaã terrena. Observe aqui:
[1.] Deus chama seu povo a uma herança; por seu chamado eficaz, faz deles filhos e, assim, herdeiros.
[2.] Essa herança não é possuída imediatamente por eles; devem esperar algum tempo por ela. Mas a promessa é segura e terá seu cumprimento no tempo apropriado.
[3.] A fé dos pais frequentemente obtém bênçãos para sua posteridade.
- O exercício da fé de Abraão: deu consideração irrestrita ao chamado de Deus:
(1.) Saiu sem saber para onde ia. Colocou-se na mão de Deus para enviá-lo aonde lhe agradasse. Aderiu à sabedoria de Deus como a mais apropriada para dirigir; submeteu-se à sua vontade como a mais apropriada para determinar tudo o que lhe dizia respeito.
Fé e obediência irrestritas são devidas a Deus e só a ele. Todos os eficazmente chamados entregam sua própria vontade e sabedoria à vontade e sabedoria de Deus, e é sabedoria deles fazê-lo; embora nem sempre conheçam seu caminho, ainda assim conhecem seu guia, e isso os satisfaz.
(2.) Peregrinou na terra da promessa como em terra estranha. Era um exercício de sua fé. Observe:
[1.] Como Canaã é chamada terra da promessa, porque ainda era apenas prometida, não possuída.
[2.] Como Abraão vivia em Canaã, não como herdeiro e proprietário, mas apenas como peregrino. Não moveu ação de despejo nem levantou guerra contra os antigos habitantes para desapossá-los.
Contentou-se em viver como estrangeiro, suportar pacientemente a falta de bondade deles, receber com gratidão quaisquer favores deles e manter seu coração fixo em seu lar, a Canaã celestial.
[3.] Habitava em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Vivia ali em condição itinerante e móvel, diariamente pronto para sua partida; assim todos devemos viver neste mundo.
Tinha boa companhia consigo, e eram grande consolo para ele em seu estado peregrino. Abraão viveu até Isaque ter setenta e cinco anos e Jacó quinze. Isaque e Jacó eram herdeiros da mesma promessa, pois ela foi renovada a Isaque (Gênesis 26:3) e a Jacó, Gênesis 28:13.
Todos os santos são herdeiros da mesma promessa. A promessa é feita aos crentes e seus filhos e a tantos quantos o Senhor nosso Deus chamar. É agradável ver pais e filhos peregrinando juntos neste mundo como herdeiros da herança celestial.
- Os amparos da fé de Abraão (v. 10): procurava uma cidade que tem fundamentos, cujo construtor e criador é Deus. Observe aqui:
(1.) A descrição dada do céu: é cidade, convívio ordenado, bem estabelecido, bem defendido e bem abastecido. É cidade que tem fundamentos: os propósitos imutáveis e o poder onipotente de Deus, os méritos e mediação infinitos do Senhor Jesus Cristo, as promessas de uma aliança eterna, sua própria pureza e a perfeição de seus habitantes.
É cidade cujo construtor e criador é Deus. Concebeu o modelo, fez a cidade de acordo com ele, abriu um caminho novo e vivo para ela e a preparou para seu povo; põe seu povo em sua posse, concede-lhe posição nela e é ele próprio sua substância e felicidade.
(2.) Observe a devida consideração que Abraão tinha por essa cidade celestial: procurava-a; cria que havia tal estado; esperava-o e, nesse meio-tempo, vivia nele pela fé. Tinha esperanças elevadas e alegres de ser levado em segurança para lá no tempo e modo de Deus.
(3.) A influência disso sobre sua conduta presente: amparava-o sob todas as provações de seu estado peregrino, ajudava-o a suportar pacientemente todos os seus inconvenientes e a cumprir ativamente todos os seus deveres, perseverando neles até o fim.
V. No meio da história de Abraão, o apóstolo insere um relato da fé de Sara. Observe aqui:
- As dificuldades da fé de Sara, que eram muito grandes, como:
(1.) A força da incredulidade por algum tempo: riu da promessa como impossível de cumprir.
(2.) Pela incredulidade, afastara-se do caminho de seu dever ao levar Abraão a tomar Agar para sua cama, para ter posteridade. Esse seu pecado tornaria mais difícil depois agir pela fé.
(3.) A grande improbabilidade do que foi prometido: que seria mãe de uma criança quando era naturalmente de constituição estéril e agora já passara da idade fértil.
- As ações de sua fé. Sua incredulidade é perdoada e esquecida, mas sua fé venceu e está registrada: “Julgou fiel aquele que havia prometido”, v. 11.
Recebeu a promessa como promessa de Deus e, convencida disso, julgou na verdade que ele tanto podia quanto a cumpriria, por mais impossível que parecesse à razão; pois a fidelidade de Deus não permitirá que engane seu povo.
- Os frutos e recompensas de sua fé:
(1.) Recebeu força para conceber descendência. A força da natureza, assim como a graça, vem de Deus; ele pode tornar frutífera a alma estéril, assim como o ventre estéril.
(2.) Deu à luz uma criança, criança do sexo masculino, filho da promessa, consolo dos anos avançados de seus pais e esperança das eras futuras.
(3.) Deles, por esse filho, surgiu numerosa descendência de pessoas ilustres, como as estrelas do céu (v. 12): nação grande, poderosa e renomada, acima de todo o restante do mundo, e nação de santos, a igreja e o povo peculiar de Deus.
E, maior honra e recompensa de todas, deles, segundo a carne, veio o Messias, que é sobre todos, Deus bendito para sempre.
VI. O apóstolo passa a mencionar a fé dos outros patriarcas, Isaque e Jacó, e do restante dessa família feliz, v. 13. Observe aqui:
- A provação de sua fé na imperfeição de seu estado presente. Não haviam recebido as promessas, isto é, não haviam recebido as coisas prometidas: ainda não tinham sido postos na posse de Canaã, ainda não tinham visto sua numerosa descendência, não tinham visto Cristo em carne. Observe:
(1.) Muitos que têm participação nas promessas não recebem imediatamente as coisas prometidas.
(2.) Uma imperfeição do estado presente dos santos na terra é que sua felicidade está mais na promessa e no direito futuro que no desfrute e posse efetivos.
O estado do evangelho é mais perfeito que o patriarcal, porque mais promessas agora são cumpridas. O estado celestial será o mais perfeito de todos, pois ali todas as promessas terão seu pleno cumprimento.
- As ações de sua fé durante esse estado imperfeito das coisas. Embora não tivessem recebido as promessas, ainda assim:
(1.) Viram-nas de longe. A fé tem olho claro e forte e pode ver misericórdias prometidas a grande distância. Abraão viu o dia de Cristo quando estava longe e se alegrou, João 8:56.
(2.) Estavam persuadidos delas, de que eram verdadeiras e seriam cumpridas. A fé põe seu selo de que Deus é verdadeiro e, assim, firma e satisfaz a alma.
(3.) Abraçaram-nas. Sua fé era fé de anuência. A fé tem braço comprido e pode segurar bênçãos a grande distância, torná-las presentes, amá-las e se alegrar nelas; assim antecipa seu desfrute.
(4.) Confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Observe:
[1.] Sua condição: estrangeiros e peregrinos. São estrangeiros como santos, cujo lar é o céu; são peregrinos por viajarem para seu lar, embora muitas vezes de maneira humilde e lenta.
[2.] Seu reconhecimento dessa sua condição: não se envergonhavam de admiti-la; tanto seus lábios quanto sua vida confessavam sua condição presente. Esperavam pouco do mundo; não se importavam em se envolver muito nele.
Procuravam pôr de lado todo peso, cingir os lombos de sua mente para cuidar de seu caminho, acompanhar seus companheiros de viagem e seu passo, esperar dificuldades e suportá-las, e ansiar por chegar ao lar.
(5.) Por isso declaravam claramente que buscavam outra pátria (v. 14), o céu, sua própria pátria. Pois seu nascimento espiritual vem de lá, lá estão suas melhores relações e sua herança.
Buscam essa pátria; seus desígnios são para ela, seus desejos a almejam, seu discurso é sobre ela. Esforçam-se diligentemente para esclarecer seu título a ela, ter seu temperamento apropriado a ela, sua conduta nela e chegar a desfrutá-la.
(6.) Deram plena prova de sua sinceridade ao fazer tal confissão. Pois:
[1.] Não se lembravam da pátria de onde vieram, v. 15. Não ansiavam por sua abundância e prazeres, nem lamentavam e se arrependiam de tê-la deixado; não desejavam voltar a ela.
Repare: os que uma vez são chamados eficazmente e para salvação para fora de um estado pecaminoso não têm vontade de voltar a ele; agora conhecem coisas melhores.
[2.] Não aproveitaram a oportunidade que se oferecia para sua volta. Poderiam ter tido essa oportunidade. Tinham tempo suficiente para voltar; força natural para voltar; conheciam o caminho.
Aqueles entre os quais peregrinavam estariam bastante dispostos a se separar deles. Seus antigos amigos ficariam contentes em recebê-los. Tinham o suficiente para arcar com as despesas da viagem; a carne e o sangue, conselheiro corrupto, às vezes lhes sugeriria voltar.
Mas aderiam firmemente a Deus e ao dever sob todos os desânimos e contra todas as tentações de se revoltar contra ele. Assim todos devemos fazer. Não nos faltarão oportunidades de nos revoltar contra Deus; mas devemos mostrar a verdade de nossa fé e profissão por adesão firme a ele até o fim de nossos dias.
Sua sinceridade apareceu não só em não voltar à sua antiga pátria, mas em desejar uma melhor, isto é, celestial. Observe:
Primeiro, a pátria celestial é melhor que qualquer uma na terra: melhor situada, melhor abastecida de tudo o que é bom, melhor protegida de tudo o que é mau. As ocupações, os desfrutes, o convívio e tudo nela são melhores que o melhor deste mundo.
Segundo, todos os verdadeiros crentes desejam essa pátria melhor. A fé verdadeira suscita desejos sinceros e fervorosos; quanto mais forte a fé, mais fervorosos serão esses desejos.
(7.) Morreram na fé dessas promessas; não só viveram pela fé nelas, mas morreram na plena persuasão de que todas seriam cumpridas para eles e os seus, v. 13. Essa fé resistiu até o fim.
Pela fé, ao morrer, receberam a expiação, aquiesceram à vontade de Deus, apagaram todos os dardos inflamados do diabo, venceram os terrores da morte, desarmaram-na de seu aguilhão e se despediram alegremente deste mundo e de todos os seus consolos e cruzes. Essas foram as ações de sua fé. Observe agora:
- A graciosa e grande recompensa de sua fé: Deus não se envergonha de ser seu Deus, pois lhes preparou uma cidade, v. 16. Repare:
(1.) Deus é o Deus de todos os verdadeiros crentes; a fé lhes dá participação em Deus e em toda a sua plenitude.
(2.) É chamado seu Deus. Chama a si mesmo assim: “Sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó.” Permite que o chamem assim e lhes dá o espírito de adoção para capacitá-los a clamar: “Aba, Pai.”
(3.) Apesar de sua baixeza por natureza, sua vileza pelo pecado e a pobreza de sua condição exterior, Deus não se envergonha de ser chamado seu Deus. Tamanha é sua condescendência, tamanho seu amor por eles.
Por isso, nunca se envergonhem de ser chamados seu povo nem de nenhum dos que na verdade o são, por mais desprezados no mundo. Acima de tudo, zelem para não ser vergonha e descrédito para seu Deus, provocando-o a se envergonhar deles; mas ajam de modo a ser para ele nome, louvor e glória.
(4.) Como prova disso, Deus lhes preparou uma cidade, felicidade apropriada à relação a que os trouxe. Pois nada neste mundo é proporcional ao amor de Deus ao ser o Deus de seu povo; se Deus nem pudesse nem quisesse dar a seu povo coisa melhor que este mundo oferece, se envergonharia de ser chamado seu Deus.
Se os leva a tal relação consigo, proverá para eles de acordo com ela. Se toma para si o título de seu Deus, corresponderá plenamente a ele e agirá à sua altura.
Preparou-lhes no céu o que corresponderá plenamente a esse caráter e relação, de modo que nunca se diga, para descrédito e desonra de Deus, que adotou um povo para ser seus próprios filhos e então não zelou por fazer provisão apropriada para eles.
Considerar isso deve inflamar os afetos, ampliar os desejos e estimular os esforços diligentes do povo de Deus em busca dessa cidade que lhes preparou.
VII. Depois de dar esse relato da fé de outros com Abraão, o apóstolo volta a ele e nos dá um caso da maior provação e ato de fé registrados, quer na história do pai dos fiéis, quer na de qualquer um de seus descendentes espirituais: oferecer Isaque.
“Pela fé, Abraão, quando foi provado, ofereceu Isaque; e aquele que recebera as promessas ofereceu seu filho unigênito”, v. 17. Nesse grande exemplo, observe:
- A provação e exercício da fé de Abraão; de fato, foi provado. Diz-se em Gênesis 22:1 que Deus nisso tentou Abraão, não ao pecado, pois Deus assim não tenta ninguém, mas somente provou sua fé e obediência de modo cabal.
Deus já havia tentado ou provado a fé de Abraão antes disso: ao chamá-lo de sua terra e casa paterna; quando, por uma fome, foi forçado a sair de Canaã para o Egito; quando foi obrigado a lutar com cinco reis para resgatar Ló; quando Sara lhe foi tomada por Abimeleque, e em muitos outros casos.
Mas essa provação foi maior que todas; foi ordenado a oferecer seu filho Isaque. Leia o relato em Gênesis 22:2. Ali verá que cada palavra era provação:
“Toma agora teu filho, teu único filho Isaque, a quem amas, e vai à terra de Moriá; e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas de que te direi.”
Tome seu filho, não um de seus animais ou escravos, seu único filho de Sara, Isaque, seu riso, filho de sua alegria e deleite, que você ama como sua própria alma; leve-o a um lugar distante, viagem de três dias, a terra de Moriá. Não o deixe apenas ali, mas o ofereça em holocausto.
Nunca foi imposta maior provação a criatura alguma. O apóstolo menciona aqui algumas coisas que acrescentavam muito à grandeza dessa provação:
(1.) Foi levado a fazê-lo depois de receber as promessas de que esse Isaque edificaria sua família, de que nele seria chamada sua descendência (v. 18), de que seria um dos progenitores do Messias e de que todas as nações seriam benditas nele.
Assim, ao ser chamado a oferecer seu Isaque, parecia ser chamado a destruir e cortar sua própria família, cancelar as promessas de Deus, impedir a vinda de Cristo, destruir o mundo inteiro, sacrificar sua própria alma e suas esperanças de salvação, e cortar a igreja de Deus de um só golpe. Provação terribilíssima!
(2.) Que esse Isaque era seu filho unigênito de sua mulher Sara, o único que teria dela e o único que seria filho e herdeiro da promessa. Ismael devia ser dispensado com grandeza terrena.
A promessa de posteridade e do Messias devia ou ser cumprida por esse filho ou não ser cumprida de modo algum; assim, além de sua mais terna afeição por esse seu filho, todas suas expectativas estavam ligadas a ele e, se ele perecesse, pereceriam com ele.
Mesmo que Abraão tivesse muitos filhos, esse era o único que poderia transmitir a todas as nações a bênção prometida.
Um filho pelo qual esperou tanto, que recebeu de modo tão extraordinário, em quem seu coração estava fixo: ter esse filho oferecido em sacrifício, e por sua própria mão, era provação que teria transtornado a mente mais firme e forte que já animou um corpo humano.
- As ações da fé de Abraão em tão grande provação: obedeceu, ofereceu Isaque, entregou-o intencionalmente a Deus por sua alma submissa e estava pronto a fazê-lo efetivamente, segundo a ordem de Deus. Foi nisso até o momento crítico e teria ido até o fim se Deus não o tivesse impedido.
Nada poderia ser mais terno e comovente que aquelas palavras de Isaque: “Meu pai, aqui está a lenha, aqui está o fogo; mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Mal pensava que ele seria o cordeiro; mas Abraão sabia, e ainda assim prosseguia no grande desígnio.
- Os amparos de sua fé. Deviam ser muito grandes, apropriados à grandeza da provação: considerou que Deus podia ressuscitá-lo dos mortos, v. 19.
Sua fé era amparada pelo sentimento que tinha do grande poder de Deus, capaz de ressuscitar os mortos; assim raciocinava consigo e resolvia todas suas dúvidas.
Não se mostra que esperasse uma contraordem que o impedisse de oferecer seu filho; tal expectativa teria arruinado a provação e, consequentemente, o triunfo de sua fé.
Mas sabia que Deus podia ressuscitá-lo dos mortos e cria que o faria, pois coisas tão grandes dependiam de seu filho, que teriam falhado se Isaque não tivesse vida ulterior. Observe:
(1.) Deus pode ressuscitar os mortos, ressuscitar corpos mortos e ressuscitar almas mortas.
(2.) Crer nisso nos levará através das maiores dificuldades e provações que pudermos encontrar.
(3.) É nosso dever vencer pelo raciocínio nossas dúvidas e temores, considerando o poder onipotente de Deus.
- A recompensa de sua fé nessa grande provação (v. 19): recebeu seu filho dentre os mortos em figura, numa parábola:
(1.) Recebeu seu filho. Entregara-o a Deus, e Deus o devolveu. A melhor maneira de desfrutar nossos consolos com consolo é entregá-los a Deus; então os devolverá, se não em espécie, ainda assim em bondade.
(2.) Recebeu-o dentre os mortos, pois o dera por morto; era para ele como filho morto, e sua volta não foi para ele menos que uma ressurreição.
(3.) Era figura ou parábola de algo ulterior. Era figura do sacrifício e da ressurreição de Cristo, de quem Isaque era tipo. Era figura e penhor da ressurreição gloriosa de todos os verdadeiros crentes, cuja vida não está perdida, mas escondida com Cristo em Deus.
Chegamos agora à fé de outros santos do Antigo Testamento, mencionados por nome e pelas provações e ações particulares de sua fé.
VIII. Da fé de Isaque, v. 20. Já tivemos algo dele entretecido na história de Abraão; aqui temos algo de natureza distinta: pela fé abençoou seus dois filhos, Jacó e Esaú, acerca de coisas vindouras. Observe aqui:
- As ações de sua fé: abençoou Jacó e Esaú acerca de coisas vindouras. Abençoou-os, isto é, entregou-os a Deus em aliança, recomendou-lhes Deus e a religião, orou por eles e profetizou a respeito deles, qual seria sua condição e a de seus descendentes. Temos o relato em Gênesis 27. Observe:
(1.) Tanto Jacó quanto Esaú foram abençoados como filhos de Isaque, pelo menos quanto às boas coisas temporais. É grande privilégio ser descendente de bons pais; frequentemente os filhos perversos de bons pais passam melhor neste mundo por causa de seus pais.
Pois as coisas presentes estão na aliança; mas não são as melhores coisas, e ninguém conhece amor ou ódio por ter ou carecer delas.
(2.) Jacó teve a precedência e a bênção principal. Isso mostra que a graça e o novo nascimento exaltam as pessoas acima de seus semelhantes e as qualificam para as melhores bênçãos.
É devido à graça soberana e livre de Deus que, na mesma família, um seja tomado e outro deixado, um amado e o outro odiado, pois toda a raça de Adão é por natureza odiosa a Deus.
Se um tem sua porção neste mundo e o outro no mundo melhor, Deus faz a diferença; pois até os consolos desta vida são mais e melhores que qualquer dos filhos dos homens merece.
- As dificuldades com que a fé de Isaque lutou:
(1.) Parecia ter esquecido como Deus determinara o assunto no nascimento desses seus filhos, Gênesis 25:23. Isso deveria ter sido regra para ele o tempo todo, mas era antes influenciado pela afeição natural e pelo costume geral, que dá ao primogênito porção dobrada de honra, afeição e vantagem.
(2.) Agiu nessa questão com alguma relutância. Quando veio pronunciar a bênção, tremeu muitíssimo (Gênesis 27:33); acusou Jacó de ter tomado com sutileza a bênção de Esaú, Gênesis 27:33, 35.
Mas, apesar de tudo isso, a fé de Isaque se recuperou, e ele ratificou a bênção: “Abençoei-o; sim, e será abençoado.” Rebeca e Jacó não devem ser justificados pelos meios indiretos que usaram para obter essa bênção.
Mas Deus será justificado ao se sobrepor até aos pecados dos homens para servir aos propósitos de sua glória. Tendo assim a fé de Isaque vencido sua incredulidade, o Deus de Isaque teve por bem deixar de lado sua fraqueza de fé, recomendar sua sinceridade e registrá-lo entre os antigos que, pela fé, obtiveram bom testemunho. Prosseguimos agora para:
IX. A fé de Jacó (v. 21), que, ao morrer, abençoou ambos os filhos de José e adorou apoiado na parte superior de seu cajado. Houve muitos casos da fé de Jacó; sua vida foi vida de fé, e sua fé encontrou grande exercício.
Mas Deus teve por bem destacar dois casos dentre muitos da fé desse patriarca, além do já mencionado no relato de Abraão. Observe aqui:
- As ações de sua fé aqui mencionadas, que são duas:
(1.) Abençoou ambos os filhos de José, Efraim e Manassés; adotou-os entre seus próprios filhos e, assim, na congregação de Israel, embora nascidos no Egito.
É sem dúvida grande bênção ser unido à igreja visível de Deus em profissão e privilégio, mas maior ser assim em espírito e verdade.
[1.] Fez de ambos cabeças de tribos diferentes, como se fossem seus próprios filhos diretos.
[2.] Orou por eles, para que ambos fossem abençoados por Deus.
[3.] Profetizou que seriam abençoados; mas, como Isaque antes, agora Jacó dá preferência ao mais novo, Efraim. Embora José os tivesse colocado de modo que a mão direita de seu pai fosse posta em Manassés, o mais velho, Jacó conscientemente a colocou em Efraim.
Fez isso por orientação divina, pois não podia ver, para mostrar que a igreja gentílica, a mais nova, teria bênção mais abundante que a igreja judaica, a mais velha.
(2.) Adorou apoiado em seu cajado, isto é, louvou Deus pelo que fizera em seu favor e pela perspectiva que tinha da bem-aventurança próxima; orou pelos que deixava, para que a religião vivesse em sua família quando partisse.
Fez isso apoiado na parte superior de seu cajado, não como os papistas imaginam, que adorasse alguma imagem de Deus gravada na cabeça do cajado, mas indicando-nos sua grande fraqueza natural.
Não podia se sustentar a ponto de sentar em sua cama sem cajado e, ainda assim, não quis usar isso como desculpa para negligenciar o culto a Deus. Faria o melhor que pudesse tanto com o corpo quanto com seu espírito, embora não pudesse fazê-lo tão bem quanto queria.
Assim mostrou sua dependência de Deus e atestou sua condição aqui como peregrino com seu cajado, seu cansaço do mundo e sua disposição de repousar.
- O tempo e ocasião em que Jacó assim exercia sua fé: quando morria. Viveu pela fé e morreu pela fé e na fé. Observe: embora a graça da fé seja de uso universal por toda nossa vida, ainda assim o é especialmente quando chegamos a morrer.
A fé tem sua maior obra a fazer no fim: ajudar os crentes a terminar bem, morrer para o Senhor de modo a honrá-lo por paciência, esperança e alegria, deixando testemunho da verdade da palavra de Deus e da excelência de seus caminhos.
Isso é para o convencimento e estabelecimento de todos os que os acompanham em seus momentos finais. A melhor maneira de os pais terminarem sua carreira é abençoando suas famílias e adorando seu Deus. Chegamos agora à:
X. Fé de José, v. 22. Aqui também consideramos:
- O que fez por sua fé: mencionou a partida dos filhos de Israel e deu ordem acerca de seus ossos. A passagem vem de Gênesis 50:24, 25. José se destacou pela fé, embora não tivesse desfrutado os auxílios para ela que o restante de seus irmãos teve.
Foi vendido ao Egito. Foi provado por tentações, pelo pecado, pela perseguição por reter sua integridade. Foi provado por cargo e poder na corte de Faraó; ainda assim, sua fé resistiu e o levou até o fim:
(1.) Pela fé, mencionou a partida dos filhos de Israel, que chegaria o tempo de serem livrados do Egito. Fez isso tanto para adverti-los contra a ideia de se estabelecer no Egito, então lugar de abundância e comodidade para eles, quanto para guardá-los de sucumbir sob as calamidades e angústias que previa chegarem ali sobre eles.
Faz isso para consolar a si mesmo: embora não vivesse para ver seu livramento, ainda assim poderia morrer na fé nele.
(2.) Deu ordem acerca de seus ossos: que os preservassem sem sepultura no Egito até Deus os livrar daquela casa de escravidão; então levariam seus ossos consigo a Canaã e os depositariam ali.
Embora os crentes se ocupem principalmente de suas almas, ainda assim não podem negligenciar inteiramente seus corpos, como membros de Cristo e partes deles mesmos, que por fim serão ressuscitados e companheiros felizes de suas almas glorificadas por toda a eternidade.
José deu essa ordem não por pensar que ser sepultado no Egito prejudicaria sua alma ou impediria a ressurreição de seu corpo.
Alguns rabinos imaginavam que todos os judeus sepultados fora de Canaã deveriam ser transportados por baixo da terra a Canaã antes de poderem ressuscitar. Mas José a deu para atestar:
[1.] Que, embora tivesse vivido e morrido no Egito, ainda assim não vivera e morrera como egípcio, mas como israelita.
[2.] Que preferia sepultura significativa em Canaã a magnífica no Egito.
[3.] Que iria com seu povo tão longe quanto pudesse, embora não pudesse ir tão longe quanto queria.
[4.] Que cria na ressurreição do corpo e na comunhão que sua alma teria imediatamente com os santos falecidos, como seu corpo tinha com seus corpos mortos.
[5.] Para lhes assegurar que Deus estaria com eles no Egito e os livraria dali em seu próprio tempo e modo.
- Quando a fé de José agiu dessa maneira: como no caso de Jacó, quando morria. Deus frequentemente dá a seu povo consolos vivos nos momentos finais; quando o faz, é seu dever, conforme puderem, comunicá-los aos que estão ao redor, para a glória de Deus, a honra da religião e o bem de seus irmãos e amigos. Passamos agora à:
XI. Fé dos pais de Moisés, citada de Êxodo 2:3, etc. Observe aqui:
- A ação de sua fé: esconderam esse seu filho por três meses. Embora só a mãe de Moisés seja mencionada na história, ainda assim, pelo que aqui se diz, parece que seu pai não só anuiu a isso, mas deliberou sobre isso.
É coisa feliz quando companheiros de jugo puxam juntos no jugo da fé, como herdeiros da graça de Deus; quando o fazem em preocupação religiosa pelo bem de seus filhos, para preservá-los não só dos que destruiriam suas vidas, mas dos que corromperiam suas mentes.
Observe: Moisés foi perseguido cedo e forçado a ser escondido. Nisso era tipo de Cristo, perseguido quase tão logo nasceu, cujos pais foram obrigados a fugir com ele para o Egito para sua preservação.
É grande misericórdia estar livre de leis e editos perversos; mas, quando não estamos, devemos usar todos os meios legítimos para nossa segurança. Nessa fé dos pais de Moisés havia mistura de incredulidade, mas Deus teve por bem não a considerar.
- Os motivos de agirem assim. Sem dúvida, a afeição natural só podia movê-los; mas havia algo ulterior. Viram que era criança bonita, “criança formosa” (Êxodo 2:2), extraordinariamente bela, como em Atos 7:20, asteios to Theo, venustus Deo, bela para Deus.
Nele aparecia algo incomum; a beleza do Senhor estava sobre ele como presságio de que nascera para grandes coisas, de que, por ter comunhão com Deus, seu rosto brilharia (Êxodo 34:29), das ações brilhantes e ilustres que faria para o livramento de Israel e de como seu nome brilharia nos registros sagrados. Às vezes, nem sempre, o semblante é índice da mente.
- A vitória de sua fé sobre o temor. Não temiam a ordem do rei, Êxodo 1:22. Era edito perverso e cruel, que todos os meninos israelitas fossem destruídos na infância, de modo que o nome de Israel seria destruído da terra.
Mas não temeram a ponto de imediatamente entregar seu filho. Consideraram que, se nenhum menino fosse preservado, haveria fim e ruína completa da igreja de Deus e da religião verdadeira.
Embora em seu estado presente de servidão e opressão se louvassem os mortos antes que os vivos, ainda assim criam que Deus preservaria seu povo e que viria o tempo em que valeria a pena um israelita viver.
Alguns precisavam arriscar suas próprias vidas para preservar seus filhos, e estavam resolvidos a fazê-lo. Sabiam que a ordem do rei era má em si, contrária às leis de Deus e da natureza e, por isso, sem autoridade nem obrigação.
A fé é grande proteção contra o temor pecaminoso e servil dos homens, pois põe Deus diante da alma e mostra a vaidade da criatura e sua subordinação à vontade e poder de Deus. O apóstolo passa em seguida à:
XII. A fé do próprio Moisés (v. 24, 25, etc.). Observe aqui:
- Um caso de sua fé ao vencer o mundo:
(1.) Recusou ser chamado filho da filha de Faraó, de quem era criança encontrada e também predileta; ela o adotara como seu filho, e ele recusou. Observe:
[1.] A grande tentação sob a qual Moisés estava. Diz-se que a filha de Faraó era a filha única dele e não tinha filhos; depois de encontrar e salvar Moisés, resolveu tomá-lo e criá-lo como seu filho.
Assim tinha boa perspectiva de, com o tempo, ser rei do Egito e, desse modo, poderia ter sido útil a Israel. Devia sua vida a essa princesa; recusar tamanha bondade dela pareceria não só ingratidão para com ela, mas negligência da Providência, que parecia pretender sua promoção e a vantagem de seus irmãos.
[2.] Quão glorioso foi o triunfo de sua fé em tão grande provação. Recusou ser chamado filho da filha de Faraó para não diminuir a honra mais verdadeira de ser filho de Abraão, pai dos fiéis.
Recusou ser chamado filho da filha de Faraó para não parecer renunciar à sua religião, assim como à sua relação com Israel; sem dúvida, teria de fazer ambas as coisas se aceitasse essa honra. Por isso, nobremente a recusou.
(2.) Escolheu antes sofrer aflição com o povo de Deus que desfrutar os prazeres do pecado por algum tempo, v. 25. Estava disposto a tomar sua sorte com o povo de Deus aqui, embora fosse sorte de sofrimento, para ter sua porção com eles depois.
Preferiu isso a desfrutar todos os prazeres sensuais pecaminosos da corte de Faraó, que seriam apenas por algum tempo, depois punidos com miséria eterna. Nisso agiu racionalmente, assim como religiosamente, e venceu a tentação ao prazer mundano, como antes fizera com a do cargo mundano. Observe aqui:
[1.] Os prazeres do pecado são e serão apenas breves; devem terminar em arrependimento rápido ou ruína rápida.
[2.] Os prazeres deste mundo, especialmente os de uma corte, são com muita frequência prazeres do pecado; sempre o são quando não podemos desfrutá-los sem abandonar Deus e seu povo. O verdadeiro crente os desprezará quando oferecidos nesses termos.
[3.] O sofrimento deve ser escolhido em lugar do pecado, havendo mais mal no menor pecado que pode haver no maior sofrimento.
[4.] Alivia muito o mal do sofrimento sofrer com o povo de Deus, embarcados no mesmo interesse e animados pelo mesmo Espírito.
(3.) Considerou o descrédito de Cristo riquezas maiores que os tesouros do Egito, v. 26. Veja como Moisés pesou os assuntos: num prato pôs o pior da religião, o descrédito de Cristo; no outro, o melhor do mundo, os tesouros do Egito.
Em seu julgamento, dirigido pela fé, o pior da religião pesou mais que o melhor do mundo. O descrédito da igreja de Deus é o descrédito de Cristo, que é e sempre foi cabeça da igreja. Moisés venceu aqui as riquezas do mundo, como antes vencera suas honras e prazeres.
O povo de Deus é e sempre foi povo desacreditado. Cristo se considera desacreditado no descrédito deles; ao tomar assim interesse em seu descrédito, esses descréditos se tornam riquezas, riquezas maiores que os tesouros do império mais rico do mundo. Pois Cristo recompensará seu povo com coroa de glória que não desaparece. A fé discerne isso e determina e age de acordo com isso.
- Repara-se na circunstância do tempo em que Moisés, pela fé, ganhou essa vitória sobre o mundo em todas suas honras, prazeres e tesouros: quando chegou à idade adulta (v. 24), não só à idade do discernimento, mas da experiência, aos quarenta anos, quando era grande ou chegara à maturidade.
Alguns considerariam isso diminuição de sua vitória, por ganhá-la tão tarde e não fazer antes essa escolha. Mas é antes aumento da honra de sua abnegação e vitória sobre o mundo que fizesse essa escolha quando amadurecera para o julgamento e o desfrute, capaz de saber o que fazia e por quê.
Não foi ato de criança que prefere fichas ao ouro, mas procedeu de deliberação madura. É coisa excelente ser seriamente religioso em meio aos negócios e desfrutes mundanos, desprezar o mundo quando se é mais capaz de saboreá-lo e desfrutá-lo.
- O que amparou e fortaleceu a fé de Moisés a ponto de lhe permitir tamanha vitória sobre o mundo: tinha consideração pela retribuição da recompensa. Isto é, dizem alguns, o livramento do Egito; mas sem dúvida significa muito mais: a recompensa gloriosa da fé e fidelidade no outro mundo. Observe aqui:
(1.) O Céu é grande recompensa, superando não só todos os nossos merecimentos, mas todas nossas concepções. É recompensa apropriada ao preço pago por ela, o sangue de Cristo; apropriada às perfeições de Deus e correspondendo plenamente a todas suas promessas.
É retribuição da recompensa porque dada por Juiz justo, pela justiça de Cristo, a pessoas justas, segundo a regra justa da aliança da graça.
(2.) Os crentes podem e devem considerar essa retribuição da recompensa; devem conhecê-la, aprová-la e viver em sua expectativa diária e prazerosa.
Assim será marco para dirigir sua rota, ímã para atrair seu coração, espada para vencer seus inimigos, espora para despertá-los ao dever e tônico para refrigerá-los sob todas as dificuldades da obra de agir e sofrer.
- Temos outro caso da fé de Moisés, a saber, deixar o Egito: “Pela fé deixou o Egito, não temendo a cólera do rei”, v. 27. Observe aqui:
(1.) O produto de sua fé: deixou o Egito e todo seu poder e prazeres, e assumiu a condução de Israel para fora dele. Moisés deixou o Egito duas vezes:
[1.] Como suposto criminoso, quando a cólera do rei se inflamou contra ele por matar o egípcio (Êxodo 2:14, 15), onde se diz que temeu, não por temor de desânimo, mas de discernimento, para salvar sua vida.
[2.] Como comandante e governante em Jesurum, depois de Deus empregá-lo para humilhar Faraó e torná-lo disposto a deixar Israel ir.
(2.) A vitória de sua fé. Elevou-o acima do temor da cólera do rei. Embora soubesse que era grande, dirigida contra ele em particular, e que marchava à frente de numerosa hoste para persegui-lo, ainda assim não ficou aterrorizado e disse a Israel: “Não temais”, Êxodo 14:13.
Os que deixaram o Egito devem esperar a cólera dos homens; mas não precisam temê-la, pois estão sob a condução do Deus que pode fazer a cólera do homem louvá-lo e restringir o restante dela.
(3.) O princípio sobre o qual sua fé agia nesses seus movimentos: suportou, como vendo aquele que era invisível. Sustentou-se com coragem invencível sob todo perigo e suportou todo o cansaço de seu encargo, que era muito grande; fez isso vendo o Deus invisível. Observe:
[1.] O Deus com quem temos de tratar é invisível; assim é para nossos sentidos, para o olho do corpo. Isso mostra a insensatez dos que alegam fazer imagens de Deus, a quem ninguém viu nem pode ver.
[2.] Pela fé podemos ver esse Deus invisível. Podemos ter plena certeza de sua existência, sua providência e sua presença graciosa e poderosa conosco.
[3.] Tal visão de Deus capacitará os crentes a suportar até o fim tudo o que encontrarem no caminho.
- Temos ainda outro caso da fé de Moisés, ao guardar a páscoa e a aspersão do sangue, v. 28. Temos o relato em Êxodo 12:13-23.
Embora todo Israel guardasse essa páscoa, ainda assim Deus transmitiu sua instituição por Moisés; embora fosse grande mistério, Moisés pela fé tanto a expôs ao povo quanto a guardou naquela noite na casa em que se hospedava.
A páscoa era uma das instituições mais solenes do Antigo Testamento e tipo muito significativo de Cristo. A ocasião de sua primeira observância foi extraordinária: na mesma noite Deus abateu os primogênitos dos egípcios.
Mas, embora os israelitas vivessem entre eles, o anjo destruidor passou por cima de suas casas e poupou-os e aos seus. Para lhes dar direito a esse favor distintivo e marcá-los para ele, devia ser abatido um cordeiro.
Seu sangue devia ser aspergido com um feixe de hissopo na verga da porta e nos dois umbrais; a carne do cordeiro devia ser assada no fogo. Toda ela devia ser comida naquela noite com ervas amargas, em postura de viagem, com os lombos cingidos, os sapatos nos pés e o cajado na mão.
Foi feito assim, e o anjo destruidor passou por cima deles e abateu os primogênitos dos egípcios. Isso abriu caminho para a volta da posteridade de Abraão à terra da promessa. A adaptação desse tipo não é difícil:
(1.) Cristo é aquele Cordeiro, nossa Páscoa; foi sacrificado em nosso favor.
(2.) Seu sangue deve ser aspergido; deve ser aplicado aos que têm seu benefício salvador.
(3.) É aplicado eficazmente só aos israelitas, o povo escolhido de Deus.
(4.) Não é por nossa justiça inerente ou melhores realizações que somos salvos da cólera de Deus, mas pelo sangue de Cristo e sua justiça imputada.
Se alguma família de Israel negligenciasse a aspersão desse sangue em suas portas, embora tivesse passado toda a noite em oração, o anjo destruidor teria entrado e abatido seus primogênitos.
(5.) Onde esse sangue é aplicado, a alma recebe pela fé um Cristo inteiro e vive dele.
(6.) Essa fé verdadeira torna o pecado amargo à alma, mesmo enquanto recebe o perdão e a expiação.
(7.) Todos nossos privilégios espirituais na terra devem nos estimular a partir cedo e avançar em nosso caminho para o céu.
(8.) Os que foram marcados devem sempre lembrar e reconhecer a graça livre e distintiva.
XIII. O próximo caso de fé é o dos israelitas atravessando o mar Vermelho sob a condução de Moisés, seu líder, v. 29. Temos a história em Êxodo 14. Observe:
- A preservação e travessia segura dos israelitas pelo mar Vermelho, quando não havia outra maneira de escapar de Faraó e sua hoste, que os perseguiam de perto. Aqui podemos observar:
(1.) O perigo de Israel era muito grande: inimigo enfurecido com carros e cavaleiros atrás deles, rochedos e montanhas íngremes de ambos os lados, e o mar Vermelho à sua frente.
(2.) Seu livramento foi muito glorioso. Pela fé atravessaram o mar Vermelho como em terra seca; a graça da fé nos ajudará através de todos os perigos que encontrarmos em nosso caminho para o céu.
- A destruição dos egípcios. Tentaram presunçosamente seguir Israel pelo mar Vermelho e, assim cegados e endurecidos para sua ruína, foram todos afogados. Sua temeridade foi grande e sua ruína, grave. Quando Deus julga, vencerá; é claro que a destruição dos pecadores vem deles próprios.
XIV. O próximo caso de fé é o dos israelitas, sob Josué, seu líder, diante dos muros de Jericó. Temos a história em Josué 6:5, etc. Observe aqui:
- Os meios prescritos por Deus para derrubar os muros de Jericó. Foi ordenado que rodeassem os muros uma vez por dia durante sete dias consecutivos e sete vezes no último dia.
Os sacerdotes deviam levar a arca ao rodear os muros, tocar trombetas de chifres de carneiro e emitir um toque mais longo que antes; então todo o povo devia gritar, e os muros de Jericó cairiam diante deles.
Aqui houve grande provação de sua fé. O método prescrito parecia muito improvável para atingir esse fim e sem dúvida os exporia ao desprezo diário de seus inimigos; a arca de Deus pareceria estar em perigo.
Mas era o caminho que Deus lhes ordenara seguir; ele gosta de fazer grandes coisas por meios pequenos e desprezíveis, para que seu próprio braço seja desnudado.
- O sucesso poderoso dos meios prescritos. Os muros de Jericó caíram diante deles. Era cidade de fronteira na terra de Canaã, a primeira que resistiu aos israelitas.
Deus teve por bem, desse modo extraordinário, demolir e desmantelar a cidade para se engrandecer, aterrorizar os cananeus, fortalecer a fé dos israelitas e excluir toda vanglória.
Deus pode e, em seu próprio tempo e modo, fará cair toda oposição poderosa a seu interesse e glória. A graça da fé é poderosa por Deus para derrubar fortalezas; ele fará Babilônia cair diante da fé de seu povo; quando tem algo grande a fazer em seu favor, levanta neles fé grande e forte.
XV. O próximo caso é a fé de Raabe, v. 31. Entre o nobre exército de crentes de valor, bravamente ordenado pelo apóstolo, Raabe vem na retaguarda para mostrar que Deus não faz acepção de pessoas. Considere aqui:
- Quem era essa Raabe:
(1.) Era cananeia, estrangeira à comunidade de Israel; tinha apenas pouco auxílio para a fé, e ainda assim era crente. O poder da graça divina aparece muito quando age sem os meios habituais da graça.
(2.) Era prostituta e vivia no caminho do pecado; não era só dona de hospedaria, mas mulher pública da cidade. Ainda assim, creu que a grandeza do pecado, se de fato houver arrependimento, não será barreira à misericórdia perdoadora de Deus.
Cristo salvou o principal dos pecadores. Onde o pecado abundou, a graça superabundou.
- O que fez por sua fé: recebeu em paz os espias, os homens que Josué enviara para espiar Jericó, Josué 2:6, 7.
Não só os recebeu bem, mas os escondeu de seus inimigos que buscavam eliminá-los, e fez nobre confissão de sua fé, Josué 2:9-11.
Levou-os a fazer aliança com ela para mostrar favor a ela e aos seus quando Deus lhes mostrasse bondade, e para lhe dar um sinal. Assim fizeram: um cordão escarlate que devia pendurar pela janela. Enviou-os embora com conselho prudente e amigável. Aprenda aqui:
(1.) A fé verdadeira se mostrará em boas obras, especialmente para com o povo de Deus.
(2.) A fé enfrentará todos os riscos na causa de Deus e de seu povo; o verdadeiro crente antes exporá sua própria pessoa que o interesse e povo de Deus.
(3.) O verdadeiro crente deseja não só estar em aliança com Deus, mas em comunhão com seu povo, e está disposto a tomar sua sorte com eles e compartilhar o que lhes acontecer.
Versículos 32 a 39
Exemplos de Fé. (62 d.C.)
Tendo-nos apresentado uma classe de muitos crentes notáveis, cujos nomes são mencionados e cujas provações e ações particulares da fé são registradas, o apóstolo agora conclui sua narrativa com um relato mais resumido de outro grupo de crentes.
Aqui os atos particulares não são atribuídos nominalmente a pessoas determinadas, mas deixados para que os apliquem os que conhecem bem a história sagrada. Como orador divino, ele introduz essa parte da narrativa com uma elegante interpelação: Que mais direi? Faltar-me-ia tempo.
É como se dissesse: “É inútil tentar esgotar esse assunto; se eu não contivesse minha pena, ela logo ultrapassaria os limites de uma epístola. Por isso, mencionarei apenas mais alguns e deixarei a vocês a tarefa de discorrer sobre eles.” Observe:
Depois de todas as nossas pesquisas nas Escrituras, ainda há mais a aprender com elas. 2. Nas questões divinas, devemos considerar bem o que dizer e adequá-lo o melhor possível ao tempo.
Devemos alegrar-nos ao pensar quão grande era o número de crentes sob o Antigo Testamento e quão forte era sua fé, embora os objetos dela não estivessem então revelados tão plenamente. E 4. Devemos lamentar que agora, nos tempos do evangelho, quando a regra da fé é mais clara e perfeita, o número de crentes seja tão pequeno e a fé deles tão fraca.
I. Nesse relato resumido, o apóstolo menciona:
- Gideão, cuja história temos em Juízes 6:11, etc. Foi um instrumento notável levantado por Deus para libertar seu povo da opressão dos midianitas. Era de uma tribo e família humildes, chamado de uma ocupação humilde — debulhar trigo — e saudado por um anjo de Deus desta maneira surpreendente: O Senhor está com você, poderoso homem de guerra.
De início, Gideão não podia aceitar tais honras, mas questionou humildemente o anjo sobre a condição humilde e aflitiva de seu povo. O anjo do Senhor lhe entregou sua comissão e lhe assegurou êxito, confirmando essa garantia por meio do fogo que saiu da rocha.
Gideão recebeu orientação para oferecer sacrifício e, instruído em seu dever, saiu contra os midianitas quando seu exército fora reduzido de trinta e dois mil a trezentos homens. Ainda assim, por meio destes, com suas lâmpadas e seus cântaros, Deus lançou todo o exército dos midianitas na confusão e na ruína.
A mesma fé que deu a Gideão tanta coragem e honra permitiu-lhe agir depois com grande mansidão e modéstia para com seus irmãos. A excelência da graça da fé é que, ao mesmo tempo que ajuda as pessoas a fazer grandes coisas, as impede de ter pensamentos altos e grandiosos sobre si mesmas.
- Baraque, outro instrumento levantado para libertar Israel das mãos de Jabim, rei de Canaã, Juízes 4. Ali lemos:
(1.) Embora fosse soldado, recebeu sua comissão e suas instruções de Débora, profetisa do Senhor; e insistiu em ter consigo esse oráculo divino em sua expedição.
(2.) Por sua fé, obteve uma grande vitória sobre todo o exército de Sísera.
(3.) Sua fé o ensinou a devolver todo o louvor e toda a glória a Deus. Essa é a natureza da fé: recorre a Deus em todos os perigos e dificuldades e depois lhe dá graças por todas as misericórdias e libertações.
- Sansão, outro instrumento que Deus levantou para libertar Israel dos filisteus. Temos sua história em Juízes 13, 14, 15 e 16, e dela aprendemos que a graça da fé é a força da alma para grandes serviços. Se Sansão não tivesse uma fé forte assim como um braço forte, jamais teria realizado tais feitos. Observe:
(1.) Pela fé, os servos de Deus vencerão até o leão que ruge.
(2.) A verdadeira fé é reconhecida e aceita, mesmo quando mesclada com muitas falhas.
(3.) A fé do crente perdura até o fim e, ao morrer, dá-lhe vitória sobre a morte e todos os seus inimigos mortais; ele obtém sua maior conquista morrendo.
- Jefté, cuja história temos em Juízes 11, antes da de Sansão. Foi levantado para libertar Israel dos amonitas. À medida que surgem inimigos diversos e novos contra o povo de Deus, libertadores diversos e novos são levantados em favor dele. Na história de Jefté, observe:
(1.) A graça de Deus muitas vezes encontra e escolhe as pessoas menos merecedoras e as que até merecem o mal, para fazer grandes coisas em favor delas e por meio delas. Jefté era filho de uma prostituta.
(2.) A graça da fé, onde quer que exista, levará as pessoas a reconhecer Deus em todos os seus caminhos (Juízes 11:11): Jefté repetiu todas as suas palavras diante do Senhor em Mispá.
(3.) A graça da fé tornará as pessoas ousadas e dispostas a se arriscar numa boa causa.
(4.) A fé não apenas levará as pessoas a fazer votos a Deus, mas também a cumpri-los depois de recebida a misericórdia; até mesmo quando tiverem feito votos que lhes causem grande dor, prejuízo e perda, como no caso de Jefté e sua filha.
- Davi, aquele grande homem segundo o coração de Deus. Poucos já enfrentaram provações maiores, e poucos já manifestaram fé mais viva. Sua primeira aparição no cenário do mundo foi uma grande prova de sua fé. Tendo matado, ainda jovem, o leão e o urso, sua fé em Deus o animou a enfrentar o grande Golias e o ajudou a triunfar sobre ele.
A mesma fé lhe permitiu suportar pacientemente a malícia ingrata de Saul e de seus favoritos e esperar até que Deus o pusesse na posse do poder e da dignidade prometidos. Essa fé o tornou um príncipe muito bem-sucedido e vitorioso.
Depois de uma longa vida de virtude e honra, embora não sem algumas manchas graves de pecado, morreu na fé, confiando na aliança eterna que Deus havia feito com ele e os seus, ordenada em todas as coisas e segura. Deixou-nos no livro de Salmos excelentes registros das provações e dos atos da fé, que sempre serão muito estimados e úteis entre o povo de Deus.
- Samuel, levantado para ser profeta muito notável do Senhor em Israel, além de governante sobre o povo. Deus se revelou a Samuel quando ele ainda era criança e continuou a fazê-lo até sua morte. Em sua história, observe:
(1.) É provável que cresçam até alcançar alguma eminência na fé os que começam cedo a exercê-la.
(2.) Os que têm por tarefa revelar a outros a mente e a vontade de Deus precisam estar, eles mesmos, bem firmados na crença nelas.
- A Samuel ele acrescenta: e os profetas, que eram ministros extraordinários da igreja do Antigo Testamento, empregados por Deus às vezes para anunciar juízo, às vezes para prometer misericórdia, sempre para censurar o pecado.
Às vezes, deviam predizer acontecimentos notáveis, conhecidos somente por Deus, e principalmente anunciar o Messias, sua vinda, pessoa e ofícios, pois nele se concentram tanto os profetas quanto a lei. Uma fé verdadeira e forte era muito necessária ao cumprimento correto de tal ofício.
II. Depois de terminar de nomear pessoas específicas, ele passa a dizer que coisas foram feitas por sua fé. Menciona algumas que podem ser facilmente atribuídas a uma ou outra das pessoas nomeadas, mas outras não se ajustam tão facilmente a nenhuma delas e devem ser deixadas à conjectura ou aplicação geral.
- Pela fé, subjugaram reinos, v. 33. Assim fizeram Davi, Josué e muitos dos juízes. Aprendamos daqui:
(1.) Os interesses e poderes de reis e reinos muitas vezes se levantam contra Deus e seu povo.
(2.) Deus pode facilmente subjugar todos os reis e reinos que se dispõem a opor-se a ele.
(3.) A fé é uma qualificação apropriada e excelente para os que lutam nos caminhos do Senhor; torna-os justos, ousados e sábios.
- Praticaram a justiça, tanto em sua posição pública quanto na pessoal; desviaram muitos da idolatria para os caminhos da justiça; creram em Deus, e isso lhes foi imputado como justiça; andaram e agiram com justiça para com Deus e para com as pessoas.
É maior honra e felicidade praticar a justiça do que realizar milagres. A fé é um princípio ativo de justiça universal.
Alcançaram promessas, tanto gerais quanto especiais. É a fé que nos dá parte nas promessas; é pela fé que recebemos o consolo das promessas; e é pela fé que somos preparados para esperar por elas e, no tempo devido, recebê-las.
Fecharam a boca de leões; assim fizeram Sansão, Juízes 14:5, 6, Davi, 1 Samuel 17:34, 35, e Daniel (Daniel 6:22). Aprendamos aqui:
(1.) O poder de Deus está acima do poder da criatura.
(2.) A fé mobiliza o poder de Deus em favor de seu povo, sempre que for para sua glória vencer animais brutos e homens grosseiros.
- Apagaram a violência do fogo, v. 34. Assim Moisés, pela oração da fé, apagou o fogo da ira de Deus aceso contra o povo de Israel, Números 11:1, 2. Assim fizeram os três jovens, ou melhor, poderosos campeões, Daniel 3:17-27.
Sua fé em Deus, ao se recusarem a adorar a imagem de ouro, expôs os três à fornalha ardente que Nabucodonosor lhes preparara. Sua fé lhes assegurou o poder e a presença de Deus na fornalha, que apagaram a violência do fogo, de modo que nem mesmo o cheiro dele passou sobre eles.
Nunca a graça da fé foi provada mais severamente, exercida mais nobremente ou recompensada mais gloriosamente do que a deles.
- Escaparam ao fio da espada. Assim Davi escapou da espada de Golias e da de Saul; e Mardoqueu e os judeus escaparam da espada de Hamã. As espadas dos homens estão na mão de Deus, e ele pode embotar o fio da espada e desviá-la de seu povo contra os inimigos dele quando quiser.
A fé se agarra à mão de Deus que segura as espadas dos homens; e Deus muitas vezes permitiu que a fé de seu povo o persuadisse.
- Da fraqueza foram fortalecidos. Da fraqueza nacional, em que os judeus muitas vezes caíam por sua incredulidade: ao reavivarem sua fé, todos os seus interesses e assuntos reviviam e floresciam.
Da fraqueza física: assim Ezequias, crendo na palavra de Deus, recuperou-se de uma doença mortal e atribuiu sua recuperação à promessa e ao poder de Deus (Isaías 38:15, 16): Que direi? Ele o disse e também o fez. Senhor, por essas coisas as pessoas vivem, e nelas está a vida de meu espírito.
É a mesma graça da fé que ajuda as pessoas a recuperar-se da fraqueza espiritual e a renovar suas forças.
- Tornaram-se valentes na batalha. Assim fizeram Josué, os juízes e Davi. A verdadeira fé dá coragem e paciência verdadeiras, pois discerne a força de Deus e, por ela, a fraqueza de todos os seus inimigos. E não foram apenas valentes, mas bem-sucedidos.
Como recompensa e ânimo à fé deles, Deus pôs em fuga os exércitos dos estrangeiros, que eram estranhos à sua comunidade e inimigos de sua religião. Deus os fez fugir e cair diante de seus servos fiéis.
Comandantes que criam e oravam, à frente de exércitos que criam e oravam, foram de tal modo reconhecidos e honrados por Deus que nada pôde resistir diante deles.
- “Mulheres receberam seus mortos ressuscitados”, v. 35. Assim ocorreu com a viúva de Sarepta (1 Reis 17:23) e com a sunamita, 2 Reis 4:36.
(1.) Em Cristo não há homem nem mulher; muitas pessoas do sexo mais fraco foram fortes na fé.
(2.) Embora a aliança da graça inclua os filhos dos crentes, ainda assim os deixa sujeitos à morte natural.
(3.) Pobres mães relutam em renunciar ao vínculo que têm com seus filhos, embora a morte os tenha levado.
(4.) Deus às vezes cedeu tanto aos ternos afetos de mulheres aflitas que restaurou seus filhos mortos à vida. Assim Cristo teve compaixão da viúva de Naim, Lucas 7:12, etc.
(5.) Isso deve confirmar nossa fé na ressurreição geral.
III. O apóstolo nos diz o que esses crentes suportaram pela fé:
- Foram torturados, sem aceitar a libertação, v. 35. Foram postos no cavalete de tortura para obrigá-los a renunciar a seu Deus, seu Salvador e sua religião. Suportaram a tortura e não quiseram aceitar a libertação em termos tão vis. O que os animou a sofrer assim foi a esperança de alcançar uma ressurreição melhor e uma libertação em termos mais honrosos.
Pensa-se que isso se refira àquela história memorável, 2 Macabeus 7, etc.
- Suportaram provas de escárnios cruéis e açoites, além de cadeias e prisão, v. 36. Foram perseguidos em sua reputação por escárnios, cruéis para uma mente franca; em suas pessoas, por açoites, castigo de escravos; e em sua liberdade, por cadeias e prisão.
Observe quão arraigada é a malícia dos ímpios contra os justos, até onde vai e que variedade de crueldades inventa e pratica contra aqueles com quem não têm motivo de desavença, exceto nas questões relativas a seu Deus.
- Foram mortos das maneiras mais cruéis. Alguns foram apedrejados, como Zacarias (2 Crônicas 24:21); serrados ao meio, como Isaías por Manassés. Foram tentados; alguns leem: queimados, 2 Macabeus 7:5. Foram mortos à espada.
Toda espécie de morte foi preparada para eles; seus inimigos vestiram a morte com todo o aparato da crueldade e do terror. Ainda assim, eles a enfrentaram corajosamente e a suportaram.
- Os que escaparam da morte foram tão maltratados que a morte poderia parecer preferível a tal vida. Seus inimigos os pouparam apenas para prolongar sua miséria e esgotar toda a sua paciência.
Foram obrigados a vagar vestidos de peles de ovelhas e de cabras, passando privações, afligidos e atormentados; vagaram por desertos, montanhas, covis e cavernas da terra, v. 37, 38. Foram privados das comodidades da vida e expulsos de casa e abrigo.
Não tinham roupa para vestir, mas eram obrigados a se cobrir com peles de animais mortos. Foram expulsos de toda a sociedade humana e forçados a conviver com os animais do campo, esconder-se em covis e cavernas e apresentar suas queixas às rochas e aos rios, não mais endurecidos que seus inimigos.
Sofrimentos como esses eles suportaram então por sua fé; e os suportaram pelo poder da graça da fé. Que devemos admirar mais: a maldade da natureza humana, capaz de praticar tais crueldades contra semelhantes, ou a excelência da graça divina, capaz de sustentar os fiéis sob tais crueldades e conduzi-los em segurança através de todas elas?
IV. O que obtiveram por sua fé:
- Uma distinção e recomendação das mais honrosas da parte de Deus, o verdadeiro Juiz e fonte da honra: o mundo não era digno de tais pessoas. O mundo não merecia tais bênçãos; não sabia valorizá-las nem aproveitá-las.
Para os ímpios, os justos não são dignos de viver no mundo; Deus, porém, declara que o mundo não é digno deles. Embora divirjam muito em seu julgamento, concordam nisto: não convém que as pessoas boas tenham seu descanso neste mundo.
Por isso, Deus as recebe para fora dele, naquele mundo adequado a elas e, ainda assim, muito além do mérito de todos os seus serviços e sofrimentos.
- Obtiveram bom testemunho (v. 39) de todas as pessoas boas e da própria verdade, e têm a honra de estar inscritos nesse calendário sagrado dos notáveis do Antigo Testamento, as testemunhas de Deus.
Sim, e ainda: tinham em favor deles o testemunho da consciência dos inimigos. Enquanto os maltratavam dessa maneira, a própria consciência os condenava por perseguirem pessoas mais justas que eles.
- Obtiveram parte nas promessas, embora não sua plena posse. Tinham direito às promessas, ainda que não recebessem as grandes coisas prometidas. Isso não se refere à felicidade do estado celestial, pois, ao morrer, receberam-na em parte: na parte de sua pessoa que é muito melhor.
Refere-se, porém, à felicidade do estado do evangelho: tinham tipos, mas não o antítipo; tinham sombras, mas não haviam visto a substância. Mesmo sob essa dispensação imperfeita, manifestaram essa fé preciosa.
O apóstolo insiste nisso para tornar a fé deles mais ilustre e estimular nos cristãos santo zelo e emulação, a fim de que não se deixem superar no exercício da fé por aqueles que tinham muito menos recursos e vantagens para crer do que eles.
Diz aos hebreus que Deus havia providenciado coisas melhores para eles (v. 40); por isso, podiam estar certos de que ele esperava deles coisas pelo menos tão boas. O evangelho é o fim e a perfeição do Antigo Testamento, que não tinha excelência senão por sua relação com Cristo e o evangelho.
Por isso, esperava-se que a fé deles fosse muito mais perfeita do que a fé dos santos do Antigo Testamento, pois seu estado e sua dispensação eram mais perfeitos do que os anteriores. Eram, na verdade, a perfeição e a conclusão dos anteriores: sem a igreja do evangelho, a igreja judaica teria permanecido num estado incompleto e imperfeito.
Esse raciocínio é forte e deve prevalecer eficazmente sobre todos nós.