Matthew Henry

Gênesis 7

Argumento

Neste capítulo temos o cumprimento do que foi predito no capítulo anterior, tanto no que diz respeito à destruição do velho mundo quanto à salvação de Noé; porque podemos ter certeza de que nenhuma palavra de Deus cairá por terra.

Ali deixamos Noé ocupado com a sua arca, cheio de cuidado para terminá-la a tempo, enquanto o resto dos seus vizinhos ria dele pelo trabalho que tinha. Agora aqui vemos qual foi o fim disso: o fim do cuidado dele e do descuido deles.

E este fim famoso do velho mundo nos dá alguma ideia do estado das coisas quando o mundo que agora existe for destruído pelo fogo, como aquele foi pela água. Veja 2 Pedro 3:6, 7. Temos, neste capítulo:

I. O chamado gracioso de Deus a Noé para entrar na arca (v. 1), e para levar consigo as criaturas que deviam ser preservadas vivas (v. 2, 3), em vista do dilúvio que estava às portas, v. 4.

II. A obediência de Noé a esta visão celestial, v. 5. Quando tinha seiscentos anos, entrou com a sua família na arca (v. 6, 7), e levou consigo as criaturas (v. 8, 9), relato que é repetido (vv. 13-16), ao qual se acrescenta o zelo terno de Deus em fechá-lo lá dentro.

III. A vinda do dilúvio ameaçado (v. 10); as causas dele (v. 11, 12): o predomínio dele, vv. 17-20.

IV. As desolações terríveis que ele produziu na morte de toda criatura vivente sobre a terra, exceto as que estavam na arca, vv. 21-23.

V. A sua permanência em maré cheia, antes de começar a baixar, cento e cinquenta dias, v. 24.

Versículos 1 a 4

Noé Convidado a Entrar na Arca. (a.C. 2349.)

Aqui está: I. Um convite gracioso a Noé e à sua família para um lugar de segurança, agora que o dilúvio de águas estava chegando, v. 1.

  1. O chamado em si é muito bondoso, como o de um pai carinhoso aos filhos, para que entrem em casa quando ele vê a noite ou uma tempestade chegando: “Vem tu, e toda a tua casa, essa pequena família que tens, para a arca.” Observe:

(1.) Noé não entrou na arca enquanto Deus não o mandou. Ainda que soubesse que ela fora destinada a ser o seu lugar de refúgio, ainda assim esperou por uma ordem renovada, e a recebeu.

É muito consolador seguir os chamados da Providência e ver Deus indo à nossa frente em cada passo que damos.

(2.) Deus não lhe manda ir para dentro da arca, mas vir para dentro dela, o que dá a entender que Deus iria com ele, o levaria para dentro, o acompanharia nela e, no tempo devido, o traria de lá em segurança.

Repare: onde quer que estejamos, é muito desejável ter a presença de Deus conosco, porque isso é tudo para o consolo de qualquer condição. Foi isso que fez da arca de Noé, que era uma prisão, não só um refúgio para ele, mas também um palácio.

(3.) Noé teve muito trabalho para construir a arca, e agora ele mesmo era preservado vivo dentro dela.

Repare: aquilo que fazemos em obediência à ordem de Deus, e por fé, nós mesmos certamente teremos o consolo disso, cedo ou tarde.

(4.) Não só ele, mas também a sua casa, a sua mulher e os seus filhos, são chamados com ele para dentro da arca.

Repare: é bom pertencer à família de um homem piedoso; é seguro e consolador morar debaixo de uma sombra dessas.

Um dos filhos de Noé era Cam, que depois se mostrou um homem mau, e ainda assim foi salvo na arca, o que dá a entender:

[1.] Que os filhos ímpios muitas vezes se dão melhor por causa dos seus pais piedosos.

[2.] Que há mistura de maus com bons nos melhores convívios da terra, e não devemos achar isso estranho.

Na família de Noé havia um Cam, e na família de Cristo havia um Judas. Não há pureza perfeita deste lado do céu.

(5.) Este chamado a Noé era figura do chamado que o evangelho dirige aos pobres pecadores. Cristo é uma arca já preparada, o único em quem podemos estar seguros quando chegarem a morte e o juízo.

Agora o refrão da canção é: “Vem, vem”; a palavra diz: “Vem”; os ministros dizem: “Vem”; o Espírito diz: “Vem, vem para dentro da arca.”

  1. O motivo deste convite é um testemunho muito honroso da integridade de Noé: “Porque te vi justo diante de mim nesta geração.” Observe:

(1.) São justos de fato os que são justos diante de Deus: os que têm não só a forma da piedade, pela qual parecem justos diante dos homens, que podem facilmente ser iludidos, mas também o poder dela, pelo qual se aprovam diante de Deus, que sonda o coração e não pode ser enganado quanto ao caráter dos homens.

(2.) Deus repara nos que são justos diante dele e se agrada deles: “Te vi.” Num mundo de gente má, Deus podia ver um só Noé justo; aquele único grão de trigo não podia se perder, não, nem mesmo num monte tão grande de palha. O Senhor conhece os que são seus.

(3.) Deus, que é testemunha da integridade do seu povo, em breve será testemunha a favor dela; aquele que a vê a proclamará diante dos anjos e dos homens, para honra imortal deles.

Os que alcançam misericórdia para serem justos alcançarão também o testemunho de que são justos.

(4.) Deus se agrada de modo especial dos que são bons em tempos e lugares maus. Noé foi, portanto, ilustremente justo, porque o foi naquela geração má e adúltera.

(5.) Os que se conservam puros em tempos de iniquidade geral, Deus os guardará seguros em tempos de calamidade geral; os que não tomam parte com os outros nos pecados deles não tomarão parte com eles nas suas pragas; os que são melhores que os outros estão, mesmo nesta vida, mais seguros que os outros, e vai melhor com eles.

II. Aqui são dadas as ordens necessárias a respeito dos animais irracionais que deviam ser preservados vivos com Noé na arca, v. 2, 3.

Eles não eram capazes de receber o aviso e as instruções por si mesmos, como o homem, a quem nisto se ensina mais do que aos animais da terra, e que é feito mais sábio que as aves do céu — isto é, que é dotado do poder de previsão.

Por isso o homem fica encarregado do zelo por eles: estando debaixo do seu domínio, eles tinham de estar debaixo da sua proteção; e, ainda que não pudesse garantir cada indivíduo, ainda assim tinha de preservar com cuidado cada espécie, para que nenhuma tribo, não, nem mesmo a menos considerável, perecesse inteiramente da criação. Observe nisto:

  1. O zelo de Deus pelo homem, pelo seu conforto e pelo seu proveito. Não vemos que Noé estivesse, por si mesmo, preocupado com esse assunto; mas Deus olha pela nossa felicidade mais do que nós mesmos.

Ainda que Deus visse que o velho mundo era muito provocador, e previsse que o novo seria pouco melhor, ainda assim quis preservar os animais irracionais para o uso do homem. “Porventura Deus tem cuidado dos bois?” 1 Coríntios 9:9. Ou não foi antes por causa do homem que se teve esse cuidado?

  1. Até os animais imundos, que eram os menos valiosos e os menos proveitosos, foram preservados vivos na arca; porque as ternas misericórdias de Deus estão sobre todas as suas obras, e não só sobre as de maior destaque e utilidade.

  2. E ainda assim, dos limpos foram preservados mais do que dos imundos:

(1.) Porque os limpos eram os que mais serviam ao homem; e por isso, em favor dele, mais deles foram preservados e ainda hoje se propagam. Graças a Deus, não há manadas de leões como há de bois, nem rebanhos de tigres como há de ovelhas.

(2.) Porque os limpos eram para o sacrifício a Deus; e por isso, em honra a ele, mais deles foram preservados: três casais para reprodução, e o sétimo, avulso, para sacrifício, Gênesis 8:20.

Deus nos dá seis por um nas coisas terrenas, como na distribuição dos dias da semana, para que nas coisas espirituais sejamos inteiramente dele. O que é dedicado à honra de Deus e usado no seu serviço é abençoado e multiplicado de modo particular.

III. Aqui está o aviso de que o dilúvio já estava iminente: “Ainda sete dias, e farei chover”, v. 4.

  1. “Ainda serão sete dias, antes que eu o faça.” Passados os cento e vinte anos, Deus lhes concede uma suspensão de mais sete dias, tanto para mostrar como é lento para a ira e que a obra de punir é a sua obra estranha, quanto para lhes dar algum prazo adicional para arrependimento.

Mas tudo em vão; esses sete dias foram desperdiçados, depois de todo o resto; eles continuaram despreocupados e sensuais até o dia em que veio o dilúvio.

  1. “Serão apenas sete dias.” Enquanto Noé lhes falava do juízo como coisa distante, eles ficavam tentados a adiar o arrependimento, porque a visão era para muito tempo depois.

Mas agora ele recebe ordem de dizer-lhes que está à porta, que só têm mais uma semana para se converterem, só mais um sábado para aproveitar, a ver se isso agora, enfim, os desperta para considerar as coisas que pertencem à sua paz, que de outro modo em breve serão escondidas dos seus olhos.

Mas é comum que os que foram descuidados com a alma durante os anos de saúde, quando olhavam para a morte de longe, sejam igualmente descuidados durante os dias, os sete dias, da sua doença, quando a veem chegando, porque o coração deles foi endurecido pelo engano do pecado.

Versículos 5 a 10

O Dilúvio. (a.C. 2349.)

Aqui está a pronta obediência de Noé às ordens que Deus lhe deu. Observe:

  1. Ele entrou na arca ao ser avisado de que o dilúvio viria depois de sete dias, embora provavelmente ainda não aparecesse nenhum sinal visível da sua chegada, nenhuma nuvem se levantando que o ameaçasse, nada feito nesse sentido, mas tudo continuasse sereno e claro.

Porque, assim como preparou a arca pela fé no aviso dado de que o dilúvio viria, também entrou nela pela fé neste aviso de que viria depressa, ainda que não visse que as causas segundas já tivessem começado a operar.

Em cada passo que deu, andou pela fé, e não pelos sentidos. Durante estes sete dias, é provável que estivesse acomodando a si mesmo e à sua família na arca, e distribuindo as criaturas pelos seus diversos compartimentos.

Esta foi a conclusão daquele sermão visível que ele vinha pregando havia muito tempo aos seus vizinhos descuidados, e que, seria de pensar, poderia tê-los despertado; mas, não alcançando esse fim desejado, deixou o sangue deles sobre as suas próprias cabeças.

  1. Levou consigo toda a sua família: a sua mulher, para ser sua companheira e consolo (embora pareça que, depois disso, não tenha tido filhos dela), os seus filhos e as mulheres dos seus filhos, para que por eles não só a sua família, mas também o mundo do gênero humano, fosse edificado.

Observe que, embora os homens estivessem para ser reduzidos a um número tão pequeno, e fosse muito desejável que o mundo se repovoasse depressa, ainda assim cada um dos filhos de Noé teria apenas uma mulher, o que reforça a razão contra ter muitas mulheres.

Porque desde o princípio deste novo mundo não foi assim: como de início Deus fez, assim agora ele conservou viva, apenas uma mulher para um homem. Veja Mateus 19:4, 8.

  1. Os animais irracionais entraram prontamente com ele. A mesma mão que no princípio os trouxe a Adão para serem nomeados agora os trouxe a Noé para serem preservados.

O boi agora conhecia o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu protetor; ou melhor, até as criaturas mais selvagens acorreram a ela; mas o homem tinha se tornado mais grosseiro que os próprios brutos, e não conhecia, não considerava, Isaías 1:3.

Versículos 11 a 12

Aqui está: I. A data deste grande desfecho; ela é registrada com cuidado, para maior certeza da história.

  1. Foi no ano seiscentos da vida de Noé, que, pelo cálculo, parece corresponder a 1656 anos desde a criação.

Os anos do mundo antigo são contados não pelos reinados dos gigantes, mas pelas vidas dos patriarcas; os santos contam mais para Deus do que os príncipes. O justo será tido em memória eterna.

Noé era agora um homem muito velho, mesmo pela conta de anos que os homens tinham então. Repare:

(1.) Quanto mais tempo vivemos neste mundo, mais vemos das misérias e calamidades dele; por isso se fala como privilégio dos que morrem jovens que os seus olhos não verão o mal que está para vir, 2 Reis 22:20.

(2.) Às vezes Deus exercita os seus servos antigos com provas extraordinárias de paciência obediente.

Os mais velhos soldados de Cristo não devem prometer a si mesmos baixa da sua guerra antes que a morte os dispense. Continuamente devem cingir a armadura, e não se gabar como se já a tivessem tirado.

Assim como o ano do dilúvio está registrado, assim também:

  1. É-nos dito que foi no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, que se calcula ser por volta do começo de novembro; de modo que Noé tinha tido colheita pouco antes, com que abastecer a sua arca.

II. As causas segundas que se juntaram para este dilúvio. Observe:

  1. No mesmo dia em que Noé foi instalado na arca, começou a inundação. Repare:

(1.) Juízos devastadores não vêm antes que Deus tenha provido a segurança do seu próprio povo; veja Gênesis 19:22: “Nada posso fazer enquanto não tiveres chegado ali”. E encontramos (Apocalipse 7:3) que os ventos são retidos até que os servos de Deus sejam selados.

(2.) Quando os homens bons são removidos, os juízos não estão longe; porque são levados de diante do mal que virá, Isaías 57:1.

Quando eles são chamados para os aposentos, escondidos na sepultura, escondidos no céu, então Deus está saindo do seu lugar para punir, Isaías 26:20, 21.

  1. Veja o que se fez naquele dia, dia fatal para o mundo dos ímpios:

(1.) As fontes do grande abismo se romperam. Talvez não fosse necessária nenhuma criação nova de águas.

O que já fora feito para ser, no curso comum da providência, bênção para a terra, foi agora, por um ato extraordinário do poder divino, feito a ruína dela.

Deus recolheu o abismo em depósitos (Salmos 33:7), e agora rompeu esses depósitos.

Assim como os nossos corpos têm em si aqueles humores que, quando apraz a Deus, se tornam as sementes e as nascentes de doenças mortais, também a terra tinha nas suas entranhas aquelas águas que, à ordem de Deus, brotaram e a inundaram.

Deus havia, na criação, posto ferrolhos e portas às águas do mar, para que não tornassem a cobrir a terra (Salmos 104:9; Jó 38:9-11).

E agora ele apenas removeu aqueles marcos antigos, diques e cercas, e as águas do mar tornaram a cobrir a terra, como haviam feito no princípio, Gênesis 1:9.

Repare: todas as criaturas estão prontas para lutar contra o homem pecador, e qualquer uma delas é capaz de ser o instrumento da ruína dele, bastando que Deus retire os freios com que são contidas durante o dia da paciência de Deus.

(2.) As janelas do céu se abriram, e as águas que estavam acima do firmamento foram derramadas sobre o mundo: aqueles tesouros que Deus reservou para o tempo da angústia, para o dia da batalha e da guerra, Jó 38:22, 23.

A chuva, que ordinariamente desce em gotas, veio então em torrentes, ou trombas, como as chamam nas Índias, onde muitas vezes se sabe que as nuvens arrebentam, como lá se diz, quando a chuva desce em caudal muito mais violento do que jamais vimos no maior aguaceiro.

Lemos (Jó 26:8) que Deus “prende as águas nas suas nuvens espessas, e a nuvem não se rasga debaixo delas”; mas agora o laço foi solto, a nuvem foi rasgada, e desceram chuvas como nunca se conheceram antes nem depois, em tal abundância e de tal duração.

A nuvem espessa não estava, como de ordinário está, cansada de regar (Jó 37:11), isto é, logo gasta e esgotada; mas continuamente as nuvens tornavam depois da chuva, e o poder divino trazia reforços novos.

Choveu, sem intervalo nem abrandamento, quarenta dias e quarenta noites (v. 12), e isso sobre a terra inteira de uma vez, não, como às vezes acontece, sobre uma cidade e não sobre outra.

Deus fez o mundo em seis dias, mas levou quarenta dias para destruí-lo; porque ele é tardio em irar-se. Mas, embora a destruição viesse devagar e por graus, ainda assim veio de modo eficaz.

  1. Aprenda agora daqui:

(1.) Que todas as criaturas estão à disposição de Deus, e que ele faz delas o uso que lhe apraz, “seja para correção, seja para a sua terra, seja para misericórdia”, como Eliú fala da chuva, Jó 37:12, 13.

(2.) Que Deus muitas vezes faz que aquilo que devia ser para o nosso bem se torne um laço, Salmos 69:22. O que normalmente é conforto e benefício para nós torna-se, quando apraz a Deus, açoite e praga para nós.

Nada é mais necessário nem mais útil que a água, tanto as fontes da terra quanto as chuvas do céu; e no entanto agora nada era mais nocivo, nada mais destrutivo: cada criatura é para nós aquilo que Deus faz dela.

(3.) Que é impossível escapar dos justos juízos de Deus quando eles vêm contra os pecadores com mandato; porque Deus pode armar tanto o céu quanto a terra contra eles; veja Jó 20:27.

Deus pode cercar os homens com os mensageiros da sua cólera, de modo que, se olharem para cima, é com horror e espanto; se olharem para a terra, “eis a angústia e a escuridão”, Isaías 8:21, 22.

Quem, então, é capaz de subsistir diante de Deus, quando ele está irado?

(4.) Nesta destruição do mundo antigo pela água, Deus deu uma amostra da destruição final do mundo que agora existe, pelo fogo. Encontramos o apóstolo pondo uma dessas coisas diante da outra, 2 Pedro 3:6, 7.

Assim como há águas debaixo da terra, também o Etna, o Vesúvio e outros vulcões proclamam ao mundo que há igualmente fogos subterrâneos; e muitas vezes cai fogo do céu, e muitas devastações são feitas pelo relâmpago.

De modo que, quando chegar o tempo predeterminado, entre esses dois fogos a terra e todas as obras que nela há serão queimadas, assim como o dilúvio foi trazido sobre o mundo antigo desde as fontes do grande abismo e através das janelas do céu.

Versículos 13 a 16

Repete-se aqui o que já foi relatado antes sobre a entrada de Noé na arca, com a sua família e as criaturas que foram marcadas para a preservação. Agora:

I. Repete-se assim para a honra de Noé, cuja fé e obediência nisto brilharam tão intensamente, e por elas ele obteve bom testemunho; e que nisto se mostrou tão grande favorito do Céu e tão grande bênção para esta terra.

II. Nota-se aqui que os animais entraram cada um segundo a sua espécie, conforme a expressão usada na história da criação (Gênesis 1:21-25).

Isso dá a entender que se salvaram agora tantas espécies quantas foram criadas no princípio, e não mais; e que essa preservação foi como uma nova criação: uma vida protegida de modo notável é, por assim dizer, uma vida nova.

III. Embora todas as inimizades e hostilidades entre as criaturas cessassem por ora, e as vorazes não só ficassem tão mansas e manejáveis que o lobo e o cordeiro se deitavam juntos, mas também tão estranhamente alteradas que o leão comia palha como um boi (Isaías 11:6, 7), ainda assim, passada essa ocasião a restrição foi retirada, e elas continuavam da mesma espécie de sempre.

Pois a arca não lhes alterou a constituição. Hipócritas na igreja, que exteriormente se conformam às leis dessa arca, podem no entanto continuar sem mudança; e então aparecerá, uma hora ou outra, de que espécie eles são.

IV. Acrescenta-se ainda, e a circunstância merece a nossa atenção: “O Senhor o fechou dentro”, v. 16.

Assim como Noé continuou a sua obediência a Deus, também Deus continuou o seu zelo por Noé; e aqui esse zelo mostrou distinguir Noé de modo especial, porque o fechar desta porta levantou um muro de separação entre ele e todo o resto do mundo. Deus fechou a porta:

  1. Para pô-lo em segurança e guardá-lo salvo na arca. A porta tinha de ser fechada bem justa, para que as águas não irrompessem e afundassem a arca, e bem firme, para que ninguém de fora a arrombasse. Assim Deus recolheu Noé, como recolhe as suas joias, Malaquias 3:17.

  2. Para excluir todos os outros e mantê-los para sempre do lado de fora. Até então a porta da arca estava aberta, e se algum, mesmo durante aqueles últimos sete dias, tivesse se arrependido e crido, pelo que eu sei poderia ter sido acolhido na arca. Mas agora a porta estava fechada, e eles ficaram cortados de toda esperança de admissão: porque Deus fecha, e ninguém pode abrir.

V. Há muito do nosso dever e do nosso privilégio evangélico para se ver na preservação de Noé na arca. O apóstolo faz dela um tipo do nosso batismo, isto é, do nosso cristianismo, 1 Pedro 3:20, 21. Observe então:

  1. É o nosso grande dever, em obediência ao chamado do evangelho, por uma fé viva em Cristo, entrar naquele caminho de salvação que Deus proveu para os pobres pecadores.

Quando Noé entrou na arca, deixou a sua própria casa e as suas terras; assim também nós devemos deixar a nossa própria justiça e os nossos bens deste mundo, sempre que entrarem em disputa com Cristo.

Noé teve de se submeter, por um tempo, ao confinamento e aos incômodos da arca, para ser preservado para um mundo novo; assim também os que entram em Cristo para serem salvos por ele têm de negar a si mesmos, tanto nos sofrimentos quanto nos serviços.

  1. Os que entram eles mesmos na arca devem levar consigo, para dentro, tantos quantos puderem: por boas instruções, por persuasão e pelo bom exemplo.

Que sabe você, ó homem, se assim poderá salvar a sua mulher (1 Coríntios 7:16), como Noé salvou a sua? Há lugar bastante em Cristo para todos os que vierem.

  1. Os que pela fé entram em Cristo, a arca, serão, pelo poder de Deus, fechados dentro e guardados como numa fortaleza pelo poder de Deus, 1 Pedro 1:5.

Deus pôs Adão no paraíso, mas não o fechou dentro, e assim ele se lançou fora; mas quando pôs Noé na arca, fechou-o dentro. Assim, quando traz uma alma a Cristo, ele assegura a salvação dela: não está na nossa própria guarda, mas na mão do Mediador.

  1. A porta da misericórdia em breve se fechará contra os que agora fazem pouco caso dela. Agora, “batei, e abrir-se-á”; mas virá o tempo em que não se abrirá, Lucas 13:25.

Versículos 17 a 20

Aqui nos é dito:

I. Por quanto tempo o dilúvio foi crescendo: quarenta dias, v. 17.

O mundo profano, que não cria que ele viesse, provavelmente, quando ele veio, se lisonjeou com a esperança de que logo baixaria e nunca chegaria ao extremo; mas ele continuava a crescer, ele prevalecia.

Repare: 1. Quando Deus julga, ele vencerá. Se ele começa, ele levará ao fim; o seu caminho é perfeito, tanto no juízo quanto na misericórdia.

  1. As aproximações e os avanços graduais dos juízos de Deus, que se destinam a levar os pecadores ao arrependimento, muitas vezes são usados indevidamente para endurecê-los na sua presunção.

II. Até que grau elas cresceram: subiram tão alto que não só as terras baixas e planas foram inundadas, mas também, para garantir a obra e para que ninguém escapasse, os cumes das mais altas montanhas foram cobertos — quinze côvados, isto é, sete jardas e meia; de modo que em vão se esperava salvação dos outeiros, ou montanhas, Jeremias 3:23.

Nenhuma das criaturas de Deus está tão alta que o poder dele não possa passar por cima dela; e ele lhes fará saber que naquilo em que agem com soberba ele está acima delas.

Talvez os cumes das montanhas tenham sido arrastados abaixo pela força das águas, o que muito contribuiu para que as águas prevalecessem sobre eles; pois é dito (Jó 12:15): ele envia as águas, e elas não só inundam, mas também revolvem a terra.

Assim foi varrido “o refúgio da mentira”, e as águas inundaram “o esconderijo” daqueles pecadores (Isaías 28:17), e em vão eles fogem para lá em busca de segurança, Apocalipse 6:16.

Agora as montanhas se retiraram, e os outeiros foram removidos, e nada valia ao homem senão a aliança de paz, Isaías 54:10. Não há lugar na terra tão alto que ponha o homem fora do alcance dos juízos de Deus, Jeremias 49:16; Obadias 1:3, 4.

A mão de Deus encontrará todos os seus inimigos, Salmos 21:8. Observe com que exatidão elas foram sondadas (quinze côvados), não pelo prumo de Noé, mas pelo conhecimento daquele que “pesa as águas por medida”, Jó 28:25.

III. O que aconteceu com a arca de Noé quando as águas assim cresceram: “Ela foi levantada acima da terra” (v. 17), e “andava sobre a face das águas”, v. 18. Quando todas as outras construções foram derrubadas pelas águas e sepultadas debaixo delas, só a arca subsistiu.

Observe: 1. As águas que derrubaram tudo o mais sustentaram a arca. Aquilo que para os incrédulos é cheiro de morte para morte, para os fiéis é cheiro de vida para vida.

  1. Quanto mais as águas cresciam, mais alto a arca era levantada rumo ao céu. Assim as aflições santificadas são promoções espirituais; e, quanto mais abundam as tribulações, muito mais abundam as consolações.

Versículos 21 a 24

Aqui está: I. A destruição geral de toda carne pelas águas do dilúvio. Venha e veja as desolações que Deus faz na terra (Salmos 46:8), e como ele empilha montões sobre montões.

Nunca a morte triunfou, desde a sua primeira entrada até este dia, como triunfou então. Venha e veja a Morte sobre o seu cavalo amarelo, e o inferno seguindo com ela, Apocalipse 6:7, 8.

  1. Todo o gado, as aves e os répteis morreram, exceto os poucos que estavam na arca.

Observe como isto se repete: “toda a carne morreu”, v. 21. “Tudo o que tinha fôlego de vida nas narinas, de tudo o que havia em terra seca”, v. 22. “Toda substância vivente”, v. 23.

E por que assim? Só o homem tinha agido perversamente, e com justiça a mão de Deus está contra ele; mas estas ovelhas, o que fizeram elas? Respondo:

(1.) Estamos certos de que Deus não lhes fez injustiça. Ele é o Senhor soberano de toda vida, porque é a única fonte e o único autor dela.

Aquele que as fez como lhe agradou podia desfazê-las quando lhe agradasse; e quem lhe dirá: “Que fazes tu?” Não pode ele fazer o que quiser com aquilo que é seu, que foi criado para o seu prazer?

(2.) Deus serviu admiravelmente aos propósitos da sua própria glória pela destruição delas, tanto quanto pela criação delas.

Nisto a sua santidade e a sua justiça foram grandemente engrandecidas. Por isso fica claro que ele odeia o pecado e está altamente descontente com os pecadores, quando até as criaturas inferiores são destruídas junto com o homem, porque são servas dele e parte da posse dele, e porque foram abusadas para servir ao pecado.

Isso torna o juízo mais notável, mais terrível e, por consequência, mais expressivo da cólera e da vingança de Deus.

A destruição das criaturas foi o livramento delas da servidão da corrupção, livramento por que toda a criação agora geme, Romanos 8:21, 22.

Foi igualmente um exemplo da sabedoria de Deus. Assim como as criaturas foram feitas para o homem quando ele foi feito, também foram multiplicadas para ele quando ele se multiplicou.

Portanto, agora que a humanidade estava reduzida a um número tão pequeno, era conveniente que os animais fossem proporcionalmente reduzidos; do contrário eles teriam o domínio, encheriam a terra, e o remanescente da humanidade que ficou seria dominado por eles.

Veja como Deus considerou isto em outro caso, Êxodo 23:29: “Para que a besta do campo não se multiplique contra ti.”

  1. Todos os homens, mulheres e crianças que havia no mundo (exceto os que estavam na arca) morreram.

“Todo homem” (v. 21 e v. 23), e talvez fossem tantos quantos são hoje sobre a face da terra, se não mais. Agora:

(1.) Podemos facilmente imaginar que terror e consternação se apoderaram deles quando se viram cercados.

O nosso Salvador nos diz que, até o próprio dia em que veio o dilúvio, eles estavam comendo e bebendo (Lucas 17:26, 27).

Estavam afogados em segurança e sensualidade antes de serem afogados naquelas águas, gritando “Paz, paz” para si mesmos, surdos e cegos a todos os avisos divinos.

Nessa postura a morte os surpreendeu, como em 1 Samuel 30:16, 17. Mas que espanto tomou conta deles então!

Agora veem e sentem aquilo que não quiseram crer nem temer, e ficam convencidos da sua loucura quando já é tarde demais. Agora não encontram lugar para arrependimento, ainda que o busquem com cuidado e com lágrimas.

(2.) Podemos supor que tentaram todos os caminhos e meios possíveis para se preservarem, mas tudo em vão.

Alguns sobem ao alto das árvores ou dos montes, e ali estendem os seus terrores por algum tempo. Mas a enchente os alcança, afinal, e são forçados a morrer com mais vagar.

Alguns, é provável, se agarram à arca, e agora esperam que seja a sua segurança aquilo que por tanto tempo tinham feito objeto de zombaria.

Talvez alguns cheguem ao topo da arca e esperem se arranjar ali; mas ou perecem por falta de alimento, ou, por um fim mais rápido, uma pancada de chuva os varre daquele convés.

Outros, pode ser, esperavam convencer Noé a admiti-los na arca, e alegavam antiga convivência: “Não comemos e bebemos na tua presença? Não ensinaste tu nas nossas ruas?”

“Sim”, diria Noé, “ensinei, muitas vezes, e de pouco adiantou. Eu chamei, mas vós recusastes; desprezastes todo o meu conselho (Provérbios 1:24, 25), e agora não está no meu poder socorrer-vos: Deus fechou a porta, e eu não posso abri-la.”

Assim será no grande dia. Nem subir alto numa profissão externa, nem alegar parentesco com gente boa levará os homens ao céu, Mateus 7:22; Mateus 25:8, 9.

Os que não são achados em Cristo, a arca, estão certamente perdidos, perdidos para sempre; nem a própria salvação pode salvá-los. Veja Isaías 10:3.

(3.) Podemos supor que alguns dos que pereceram no dilúvio tinham eles mesmos ajudado Noé, ou tinham sido empregados por ele, na construção da arca, e ainda assim não foram sábios o bastante para, pelo arrependimento, garantir a si mesmos um lugar nela.

Assim ministros ímpios, ainda que possam ter sido instrumentos para ajudar outros ao céu, ainda assim eles mesmos serão lançados ao inferno.

Paremos agora um pouco e consideremos este juízo tremendo! Que os nossos corações meditem no terror, no terror desta destruição.

Vejamos e digamos: “É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo”; quem pode estar diante dele quando está irado?

Vejamos e digamos: “É coisa má e amarga apartar-se de Deus.” O pecado dos pecadores será, sem arrependimento, a ruína deles, mais cedo ou mais tarde; se Deus é verdadeiro, será.

Ainda que mão se junte a mão, ainda assim o ímpio não ficará impune. O Deus justo sabe como trazer um dilúvio sobre o mundo dos ímpios, 2 Pedro 2:5.

Elifaz apela a esta história como um aviso permanente a um mundo descuidado (Jó 22:15, 16): “Notaste tu o velho caminho que os homens perversos trilharam, os quais foram ceifados antes do tempo e enviados à eternidade, cujo fundamento foi arrasado por uma inundação?”

II. A preservação especial de Noé e da sua família: “Noé somente ficou vivo, e os que com ele estavam na arca”, v. 23. Observe:

  1. Noé vive. Quando todos ao redor dele eram monumentos de justiça, milhares caindo à sua direita e dezenas de milhares à sua esquerda, ele era um monumento de misericórdia.

Somente com os seus olhos podia contemplar e ver “a recompensa dos ímpios”, Salmos 91:7, 8. “Na inundação de muitas águas”, estas não chegaram perto dele, Salmos 32:6.

Temos razão para pensar que, enquanto a longanimidade de Deus esperava, Noé não só pregou àquele mundo perverso, como também orou por ele, e teria desviado a cólera.

Mas as suas orações voltam ao seu próprio seio, e são respondidas apenas no seu próprio livramento, ao qual se faz clara referência em Ezequiel 14:14: Noé, Daniel e Jó livrarão somente as suas próprias almas. Uma marca de honra será posta sobre os intercessores.

  1. Mas ele apenas vive. Noé permanece vivo, e isso é tudo; está, na prática, enterrado vivo, encerrado num lugar apertado.

Está alarmado com os terrores da chuva que descia, da enchente que crescia e dos gritos e clamores dos seus vizinhos que pereciam, e o seu coração está dominado por pensamentos melancólicos das desolações feitas. Mas ele se consola com isto: está no caminho do dever e no caminho do livramento.

E nos é ensinado (Jeremias 45:4, 5) que, quando juízos assoladores andam soltos, não devemos buscar para nós coisas grandes nem agradáveis, mas ter por favor inexprimível se a nossa vida nos é dada “por despojo”.


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