Matthew Henry

Gênesis 6

Argumento

O fato mais notável que temos registrado a respeito do mundo antigo é a destruição dele pelo dilúvio universal, cujo relato começa neste capítulo. Nele temos:

I. A iniquidade transbordante daquele mundo perverso, vv. 1-5 e 11-12.

II. A justa indignação do Deus justo diante daquela iniquidade transbordante, e a sua santa resolução de puni-la, vv. 6-7.

III. O favor especial de Deus ao seu servo Noé:

  1. No caráter que dele é dado, vv. 8-10.

  2. Na comunicação que lhe é feita do propósito de Deus, v. 13 e v. 17.

  3. Nas instruções que lhe deu para fazer uma arca para a sua própria segurança, vv. 14-16.

  4. No emprego dele para a preservação das demais criaturas, vv. 18-21.

Por último, a obediência de Noé às instruções que lhe foram dadas, v. 22.

Esse relato a respeito do mundo antigo está escrito para a nossa advertência, pois sobre nós chegaram os fins do novo mundo.

Versículos 1 a 2

A Depravação do Mundo. (a.C. 2469.)

Para glória da justiça de Deus, e para advertência a um mundo perverso, antes da história da ruína do velho mundo temos um relato completo da degeneração dele, da sua apostasia de Deus e da sua rebelião contra ele.

A destruição desse mundo foi um ato não de soberania absoluta, mas de justiça necessária, para manter a honra do governo de Deus.

Temos aqui um relato de duas coisas que deram ocasião à maldade do velho mundo:

  1. O aumento do gênero humano: “Os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra.” Foi o efeito da bênção (Gênesis 1:28), e no entanto a corrupção do homem de tal modo abusou dessa bênção e a perverteu que ela se transformou em maldição.

Assim o pecado toma ocasião pelas misericórdias de Deus para se tornar ainda mais excessivamente pecaminoso. Provérbios 29:16: “Quando os ímpios se multiplicam, aumenta a transgressão.”

Quanto mais pecadores, mais pecado; e a multidão dos ofensores encoraja os homens. As doenças infecciosas são mais destruidoras nas cidades populosas; e o pecado é uma lepra que se alastra.

Assim também na igreja do Novo Testamento: quando o número dos discípulos se multiplicou, levantou-se uma murmuração (Atos 6:1); e lemos de uma nação que foi multiplicada, sem que se aumentasse a alegria dela, Isaías 9:3.

Famílias numerosas precisam ser bem governadas, para que não se tornem famílias perversas.

  1. Os casamentos mistos (v. 2): “os filhos de Deus” (isto é, os que professavam a religião, que eram chamados pelo nome do Senhor e invocavam esse nome) casaram-se com “as filhas dos homens”, isto é, com as que eram profanas e estranhas a Deus e à piedade.

A descendência de Sete não se manteve à parte, como devia ter feito, tanto para preservar a própria pureza quanto em repúdio à apostasia.

Eles se misturaram com a raça excomungada de Caim: “Tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.”

Mas o que havia de errado nesses casamentos?

(1.) Escolheram apenas pelos olhos: “Viram que eram formosas”, e era só nisso que olhavam.

(2.) Seguiram a escolha que os seus próprios afetos corrompidos faziam: tomaram todas as que escolheram, sem conselho e sem consideração.

Mas, (3.) o que trouxe consequências tão más para eles foi que se casaram com mulheres estranhas, ficaram em jugo desigual com os incrédulos, 2 Coríntios 6:14.

Isso foi proibido a Israel, Deuteronômio 7:3, 4. Foi a ocasião infeliz da apostasia de Salomão (1 Reis 11:1-4), e teve más consequências para os judeus depois do retorno da Babilônia, Esdras 9:1, 2.

Repare: os que professam a religião, ao casar tanto a si mesmos quanto os seus filhos, devem fazer consciência de se manterem dentro dos limites da profissão que fazem.

Os maus depravarão os bons mais depressa do que os bons reformarão os maus.

Os que professam ser filhos de Deus não devem casar sem o consentimento dele, o qual não têm se se aliam por afinidade com os inimigos dele.

Versículo 3

Isto entra aqui como sinal do desagrado de Deus contra os que se casaram com mulheres estranhas; ele ameaça retirar deles o seu Espírito, a quem tinham entristecido com tais casamentos, contra as próprias convicções: os desejos da carne muitas vezes são punidos com juízos espirituais, os mais duros de todos os juízos.

Ou então isto entra como outra ocasião da grande maldade do velho mundo: o Espírito do Senhor, provocado pela resistência que faziam aos seus impulsos, deixou de contender com eles, e logo toda religião se perdeu entre eles.

Disso ele os avisa de antemão, para que não afligissem ainda mais o seu Espírito Santo, mas, pelas suas orações, o retivessem consigo. Repare neste versículo:

I. A resolução de Deus de não contender sempre com o homem pelo seu Espírito. O Espírito contendia então pela pregação de Noé (1 Pedro 3:19, 20) e por freios interiores, mas era em vão com a maior parte dos homens; por isso Deus diz que ele não contenderá sempre. Note:

  1. O bendito Espírito contende com os pecadores, pelas convicções e advertências da consciência, para convertê-los do pecado a Deus.

  2. Se o Espírito for resistido, apagado e combatido, ainda que contenda por muito tempo, não contenderá sempre, Oseias 4:17.

  3. Estão amadurecendo depressa para a ruína aqueles com quem o Espírito da graça deixou de contender.

II. A razão desta resolução: “porquanto ele também é carne”, isto é, corrompido sem cura, carnal e sensual, de modo que é trabalho perdido contender com ele. “Pode o etíope mudar a sua pele?” “Ele também”, isto é, todos, tanto um quanto outro: todos afundaram no lodo da carne. Note:

  1. É a natureza corrompida, e a inclinação da alma para a carne, que se opõem às contendas do Espírito e as tornam ineficazes.

  2. Quando o pecador aderiu por muito tempo a esse interesse e tomou o partido da carne contra o Espírito, o Espírito justamente retira a sua ação e não contende mais. Ninguém perde as contendas do Espírito senão os que primeiro perderam o direito a elas.

III. Um adiamento concedido, apesar de tudo: “Todavia os seus dias serão cento e vinte anos”; por todo esse tempo adiarei o juízo que merecem, e lhes darei tempo para evitá-lo pelo arrependimento e pela reforma de vida.

A justiça dizia: “Corta-os”; mas a misericórdia intercedeu: “Senhor, deixa-os ainda este ano”; e a misericórdia prevaleceu a ponto de se obter um adiamento de cento e vinte anos.

Note que o tempo da paciência e da longanimidade de Deus para com os pecadores que o provocam às vezes é longo, mas é sempre limitado: adiamentos não são perdões; ainda que Deus suporte por muito tempo, não suportará sempre.

Versículos 4 a 5

Temos aqui mais um relato da corrupção do mundo antigo.

Quando os filhos de Deus se casaram com as filhas dos homens, ainda que isso desagradasse muito a Deus, ele não os eliminou de imediato, mas esperou para ver qual seria o resultado desses casamentos e a qual lado os filhos puxariam.

E aconteceu, como em geral acontece, que puxaram ao pior lado. Aqui está:

I. A tentação sob a qual estavam, de oprimir e praticar violência. Eram gigantes, e eram homens de renome; tornaram-se fortes demais para todos ao seu redor e levaram tudo de vencida:

  1. Com a sua grande estatura, como os filhos de Anaque, Números 13:33.

  2. Com o seu grande nome, como o rei da Assíria, Isaías 37:11.

Isso os tornou “o terror dos poderosos na terra dos viventes”; e, assim armados, insultavam com ousadia os direitos de todos os seus vizinhos e pisavam tudo o que é justo e sagrado.

Note: os que têm sobre os outros tanto poder a ponto de conseguir oprimi-los raramente têm sobre si mesmos poder bastante para não oprimir; grande força é um laço muito grande para muitos.

Esta raça degenerada desprezou a honra que os seus antepassados haviam alcançado pela virtude e pela religião, e fez para si um grande nome por meio daquilo que foi a ruína perpétua do seu bom nome.

II. A acusação apresentada e provada contra eles, v. 5.

A prova produzida era incontestável. Deus a viu, e isso valia por mil testemunhas.

Deus vê toda a maldade que há entre os filhos dos homens; ela não pode ser escondida dele agora e, se não houver arrependimento, ele não a manterá oculta por muito tempo.

Ora, do que Deus tomou nota?

  1. Ele observou as correntes de pecado que corriam pela vida dos homens, e a largura e a profundidade dessas correntes: ele viu “que a maldade do homem era grande na terra”.

Repare na ligação disto com o que vem antes: os opressores eram homens poderosos e homens de renome; e, então, Deus viu “que a maldade do homem era grande”.

Note: a maldade de um povo é grande de fato quando os pecadores mais notórios são homens de renome entre eles.

As coisas vão mal quando os homens maus não só são honrados apesar da sua maldade, mas honrados por causa da sua maldade, e os mais vis dos homens são exaltados.

A maldade é então grande quando os grandes homens são maus.

A maldade deles era grande, isto é: abundância de pecado era cometida em todos os lugares, por todo tipo de gente; e pecado que, por sua própria natureza, era o mais grosseiro, o mais hediondo e o mais provocador.

Era cometido com ousadia e em desafio ao céu, nem se tomava nenhum cuidado, por parte dos que tinham o poder nas mãos, para refreá-lo e puni-lo.

Isso Deus viu. Note: todos os pecados dos pecadores são conhecidos de Deus, o Juiz.

Os que mais convivem com o mundo, ainda que vejam nele muita maldade, veem apenas um pouco daquela que existe; mas Deus vê tudo, e julga com acerto a respeito dela, quão grande ela é, nem pode ser enganado no seu juízo.

  1. Ele observou a fonte do pecado que estava no coração dos homens.

Qualquer um podia ver que a maldade do homem era grande, porque “declararam o seu pecado como Sodoma”; mas o olho de Deus foi mais longe: ele viu “que toda imaginação dos pensamentos do seu coração era só má continuamente”.

Visão triste, e muito ofensiva ao olho santo de Deus!

Esta era a raiz amarga, a fonte corrompida: toda a violência e opressão, todo o luxo e a devassidão que havia no mundo procediam da corrupção da natureza; a concupiscência os concebeu, Tiago 1:15. Veja Mateus 15:19.

(1.) O coração não prestava; era “enganoso e desesperadamente corrupto”. Os princípios estavam corrompidos, e os hábitos e as disposições eram maus.

(2.) Os pensamentos do coração o eram. Pensamento às vezes é tomado pelo juízo ou pela opinião já assentada, e essa estava subornada, tendenciosa e desencaminhada.

Às vezes significa o trabalho da fantasia, e esse era sempre ou vão ou vil, ou tecendo a teia da aranha ou chocando o ovo do basilisco.

(3.) A imaginação dos pensamentos do coração o era, isto é: os planos e as invenções deles eram maus.

Eles não faziam o mal por mero descuido, como os que andam ao acaso, sem atentar para o que fazem; faziam o mal deliberadamente e de propósito, maquinando como causar dano.

Era mau de fato, porque era só mau, continuamente mau, e toda imaginação era assim.

Não havia bem nenhum a se achar entre eles, não, em tempo algum: a corrente do pecado era cheia, forte e constante; e Deus a viu. Veja Salmos 14:1-3.

Versículos 6 a 7

A Humanidade Ameaçada de Destruição. (a.C. 2469.)

I. Aqui está o ressentimento de Deus diante da maldade do homem. Ele não a viu como espectador desinteressado, mas como alguém ferido e afrontado por ela.

Ele a viu como um pai terno vê a loucura e a teimosia de um filho rebelde e desobediente, que não só o irrita, mas o entristece, e o faz desejar que fosse registrado como homem sem filhos.

As expressões usadas aqui são muito estranhas: “Arrependeu-se o Senhor de ter feito o homem sobre a terra” — de ter criado uma criatura com poderes e faculdades tão nobres e de tê-la posto nesta terra, que construiu e preparou para lhe servir de habitação cômoda e confortável; “e isso o entristeceu no seu coração”.

Estas são expressões à maneira dos homens, e devem ser entendidas de modo que não atinjam a honra da imutabilidade ou da felicidade de Deus.

  1. Esta linguagem não implica nenhuma paixão nem inquietação em Deus (nada pode criar perturbação na Mente Eterna), mas exprime o seu justo e santo desagrado contra o pecado e contra os pecadores: contra o pecado como odioso à sua santidade, e contra os pecadores como expostos à sua justiça.

Ele é oprimido pelos pecados das suas criaturas (Amós 2:13), cansado (Isaías 43:24), quebrantado (Ezequiel 6:9), entristecido (Salmos 95:10), e aqui entristecido no coração.

É como ficam os homens quando são injustiçados e maltratados por aqueles a quem trataram com muita bondade, e por isso se arrependem da sua bondade e desejam nunca ter alimentado no peito aquela cobra que agora sibia no rosto deles e os fere no coração.

Deus odeia assim o pecado? E nós não o odiaremos? O nosso pecado o entristeceu no coração? E nós não ficaremos entristecidos e feridos no coração por causa dele?

Que esta consideração nos humilhe e nos envergonhe, e que olhemos para aquele a quem assim entristecemos, e choremos! Zacarias 12:10.

  1. Isso não implica nenhuma mudança na mente de Deus; porque ele está numa só mente, e quem pode fazê-lo mudar? Nele não há variação. Mas exprimia uma mudança do seu proceder.

Quando Deus fez o homem reto, ele descansou e foi revigorado (Êxodo 31:17), e o seu modo de tratá-lo mostrava que se agradava da obra das suas próprias mãos.

Mas, agora que o homem havia apostatado, ele não podia deixar de se mostrar desagradado; de modo que a mudança estava no homem, não em Deus.

Deus se arrependeu de ter feito o homem; mas nunca o encontramos arrependendo-se de ter redimido o homem (obra bem mais custosa), porque a graça especial e eficaz é dada para garantir os grandes fins da redenção; de modo que Deus não volta atrás quanto a esses dons e chamados, Romanos 11:29.

II. A resolução de Deus de destruir o homem por causa da sua maldade, v. 7. Repare:

  1. Quando Deus se arrependeu de ter feito o homem, resolveu destruir o homem. Assim, os que verdadeiramente se arrependem do pecado resolverão, na força da graça de Deus, mortificar o pecado e destruí-lo, e assim desfazer o mal que fizeram.

Nós apenas zombamos de Deus quando dizemos que lamentamos o nosso pecado, e que ele nos entristece no coração, se continuamos a nos entregar a ele. É em vão que alegamos uma mudança de mente se não a comprovamos com uma mudança de caminho.

  1. Ele resolve destruir o homem. A palavra original é muito expressiva: “Eu varrerei o homem da terra” (assim traduzem alguns), como se varre a sujeira, ou imundície, de um lugar que deveria estar limpo, e se lança no monturo, que é o lugar próprio dela. Veja 2 Reis 21:13.

Os que são as manchas dos lugares onde vivem são justamente varridos pelos juízos de Deus.

“Eu riscarei o homem da terra” (assim traduzem outros), como se riscam de um livro as linhas que desagradam ao autor, ou como o nome de um cidadão é riscado dos registros dos homens livres, quando ele morre ou perde os seus direitos.

  1. Ele fala do homem como criatura sua mesmo quando resolve a ruína dele: “o homem que criei”. “Ainda que eu o tenha criado, isso não o desculpará”, Isaías 27:11.

Aquele que o fez não o salvará; aquele que é o nosso Criador, se não for o nosso governante, será o nosso destruidor.

Ou então: “Porque eu o criei, e ele foi tão desobediente e ingrato para com o seu Criador, por isso eu o destruirei.” Perdem a vida os que não correspondem ao fim para o qual vivem.

  1. Até as criaturas irracionais seriam envolvidas nessa destruição: os animais, e os répteis, e as aves do céu. Estes foram feitos para o homem, e por isso tinham de ser destruídos com o homem; pois segue-se: “Arrependo-me de tê-los feito”; porque o fim da criação deles também foi frustrado.

Foram feitos para que o homem servisse e honrasse a Deus com eles; e por isso foram destruídos porque ele serviu às suas concupiscências com eles, e os sujeitou à vaidade.

  1. Deus tomou esta resolução a respeito do homem depois que o seu Espírito havia contendido longamente com ele em vão. Ninguém é arruinado pela justiça de Deus senão os que odeiam ser reformados pela graça de Deus.

Versículos 8 a 10

Aqui temos Noé distinguido do resto do mundo, e uma marca peculiar de honra posta sobre ele.

  1. Quando Deus estava descontente com o resto do mundo, ele favoreceu Noé: “Mas Noé achou graça aos olhos do Senhor”, v. 8.

Isso defende a justiça de Deus no seu desagrado contra o mundo, e mostra que ele havia examinado rigorosamente o caráter de cada pessoa nele antes de declará-lo universalmente corrompido; porque, havendo um homem bom, ele o encontrou e sorriu para ele.

Também engrandece a graça dele para com Noé o fato de ter sido feito vaso da misericórdia de Deus quando todo o resto da humanidade havia se tornado a geração da sua ira: favores que distinguem trazem obrigações peculiarmente fortes.

Provavelmente Noé não achou favor aos olhos dos homens; eles o odiavam e o perseguiam, porque tanto pela sua vida quanto pela sua pregação ele condenava o mundo. Mas ele achou graça aos olhos do Senhor, e isso era honra e consolo suficientes.

Deus fazia mais caso de Noé do que de todo o resto do mundo, e isso o tornava maior e mais verdadeiramente honrado do que todos os gigantes que havia naqueles dias, que se tornaram homens poderosos e homens de renome.

Que este seja o cume da nossa ambição: achar graça aos olhos do Senhor. Nisto trabalhemos, para que, presentes ou ausentes, sejamos aceitos por ele, 2 Coríntios 5:9. São altamente favorecidos aqueles a quem Deus favorece.

  1. Quando o resto do mundo estava corrompido e perverso, Noé guardou a sua integridade: “Estas são as gerações de Noé” (é este o relato que temos a dar dele), “Noé era homem justo”, v. 9.

Este caráter de Noé aparece aqui:

(1.) Ou como a razão do favor de Deus para com ele; a sua piedade singular o qualificava para sinais singulares da bondade amorosa de Deus. Quem quiser achar graça aos olhos do Senhor tem de ser como Noé foi e fazer como Noé fez; Deus ama os que o amam.

(2.) Ou como o efeito do favor de Deus para com ele. Foi a boa vontade de Deus para com ele que produziu nele esta boa obra. Ele era um homem muito bom, mas não era melhor do que a graça de Deus o fez, 1 Coríntios 15:10.

Agora repare no seu caráter:

[1.] Ele era “homem justo”, isto é, justificado diante de Deus pela fé na semente prometida; porque era “herdeiro da justiça que é pela fé”, Hebreus 11:7.

Ele era santificado, e tinha princípios e disposições retos implantados nele; e era justo na sua conduta, alguém que fazia questão de consciência de dar a cada um o que lhe era devido, a Deus o que é dele e aos homens o que é deles.

Note: só o homem inteiramente honesto pode achar favor com Deus. A conduta que agradará a Deus tem de ser governada pela “simplicidade e sinceridade piedosa”, não pela “sabedoria carnal”, 2 Coríntios 1:12.

Deus às vezes escolheu as coisas loucas do mundo, mas nunca escolheu as coisas velhacas dele.

[2.] Ele era “perfeito”, não com uma perfeição sem pecado, mas com uma perfeição de sinceridade; e é bom para nós que, em virtude da aliança da graça, por conta da justiça de Cristo, a sinceridade seja aceita como a nossa perfeição evangélica.

[3.] Ele “andava com Deus”, como Enoque havia feito antes dele. Ele não era só honesto, mas devoto; ele andava, isto é, agia com Deus, como quem está sempre debaixo do seu olhar.

Ele viveu uma vida de comunhão com Deus; era o seu cuidado constante conformar-se à vontade de Deus, agradá-lo e mostrar-se aprovado diante dele.

Note: Deus olha do alto com olhos de favor para aqueles que sinceramente erguem para ele os olhos da fé.

Mas, [4.] O que coroa o seu caráter é que ele foi assim, e fez assim, “na sua geração”, naquela era corrompida e degenerada em que lhe coube viver.

É fácil ser religioso quando a religião está na moda; mas é prova de fé forte e de firme resolução nadar contra a corrente rumo ao céu, e tomar o partido de Deus quando ninguém mais toma: assim fez Noé, e está registrado para a sua honra imortal.

Versículos 11 a 12

A Depravação do Mundo. (a.C. 2448.)

Fala-se aqui outra vez da maldade daquela geração, ou como contraste com a piedade de Noé — ele era justo e perfeito, quando toda a terra estava corrompida; ou como mais uma justificativa da resolução de Deus de destruir o mundo, que ele agora estava para comunicar ao seu servo Noé.

  1. Todo tipo de pecado se encontrava entre eles, porque se diz (v. 11) que a terra estava:

(1.) Corrompida diante de Deus, isto é, nas coisas do culto de Deus; ou tinham outros deuses diante dele, ou o adoravam por meio de imagens, ou eram corruptos e perversos em afronta e desprezo a Deus, desafiando-o na sua face.

(2.) A terra também estava cheia de violência e de injustiça para com os homens.

Não havia ordem nem governo regular; ninguém estava seguro na posse daquilo a que tinha o direito mais claro e incontestável, nem mesmo da vida mais inocente; não havia senão assassinatos, estupros e rapina.

Repare: a maldade, assim como é a vergonha da natureza humana, é também a ruína da sociedade humana.

Tire a consciência e o temor de Deus, e os homens se tornam feras e demônios uns para os outros, como os peixes do mar, onde o maior devora o menor.

O pecado enche a terra de violência, e assim transforma o mundo num deserto, numa rinha de galos.

  1. A prova e a evidência disso eram inegáveis; porque Deus olhou para a terra, e foi ele mesmo testemunha ocular da corrupção que nela havia, da qual já se falou antes, v. 5.

O Juiz justo, em todos os seus juízos, procede sobre a certeza infalível da sua própria onisciência, Salmos 33:13.

  1. O que mais agravava o caso era a propagação universal do contágio: “toda carne havia corrompido o seu caminho”.

Não eram apenas algumas nações ou cidades que eram assim perversas, mas todo o mundo dos homens era assim; não havia quem fizesse o bem, não, nem um sequer, além de Noé.

Repare: quando a maldade se torna geral e universal, a ruína não está longe. Enquanto há num país um remanescente de gente que ora, para esvaziar a medida à proporção que ela se enche, os juízos podem ser detidos por muito tempo.

Mas quando todas as mãos estão ocupadas em derrubar as cercas pelo pecado, e ninguém se põe na brecha para reparar o rombo, o que se pode esperar senão uma inundação de ira?

Versículos 13 a 21

Predição do Dilúvio. (a.C. 2448.)

Aqui de fato aparece que Noé “achou graça aos olhos do Senhor”. O favor de Deus para com ele já estava claramente insinuado no que Deus disse a respeito dele, vv. 8-10.

Ali o nome de Noé é mencionado cinco vezes em cinco linhas, quando uma só bastaria para deixar o sentido claro, como se o Espírito Santo tivesse prazer em perpetuar a memória dele. Mas aparece muito mais no que ele lhe diz nestes versículos: as informações e as instruções aqui dadas a ele.

I. Deus faz aqui de Noé o homem do seu conselho, comunicando-lhe o seu propósito de destruir este mundo perverso pelas águas.

Assim como, mais tarde, contou a Abraão a sua resolução a respeito de Sodoma (Gênesis 18:17: “Ocultarei eu a Abraão?”), também aqui: “Ocultarei eu a Noé o que estou para fazer, visto que ele há de tornar-se uma grande nação?”

Repare: “o segredo do Senhor está com os que o temem” (Salmos 25:14); estava com os seus servos, os profetas (Amós 3:7), por um espírito de revelação que os informava em particular dos seus propósitos.

Está com todos os crentes por um espírito de sabedoria e de fé, que os capacita a entender e aplicar as declarações gerais da palavra escrita e os avisos ali dados. Ora:

  1. Deus disse a Noé, em geral, que destruiria o mundo (v. 13): “O fim de toda carne é chegado perante mim; eu os destruirei”. Isto é, a ruína deste mundo perverso está decretada e determinada; ela chegou, ou seja, virá com certeza e virá depressa.

É provável que Noé, pregando aos seus vizinhos, os tivesse avisado, em geral, da ira de Deus que atrairiam sobre si mesmos pela sua maldade; e agora Deus secunda os esforços dele com uma declaração particular de ira, para que Noé pudesse experimentar se isso surtiria efeito neles. Daí, repare:

(1.) Que Deus confirma as palavras dos seus mensageiros, Isaías 44:26.

(2.) Que a quem tem, e usa o que tem para o bem dos outros, mais será dado: instruções mais completas.

  1. Ele lhe disse, em particular, que destruiria o mundo por um dilúvio de águas: “E eis que eu, eu mesmo, trago um dilúvio de águas sobre a terra”, v. 17.

Deus poderia ter destruído toda a humanidade pela espada de um anjo, uma espada flamejante que se voltava para todo lado, como destruiu todos os primogênitos dos egípcios e o acampamento dos assírios; e então bastaria pôr uma marca sobre Noé e a família dele para a preservação deles.

Mas Deus escolheu fazê-lo por um dilúvio de águas, que afogaria o mundo. As razões, podemos ter certeza, eram sábias e justas, ainda que desconhecidas para nós.

Deus tem muitas flechas na sua aljava, e pode usar a que quiser: assim como escolhe a vara com que corrigirá os seus filhos, também escolhe a espada com que ceifará os seus inimigos.

Repare no modo de expressão: “Eu, eu mesmo, trago um dilúvio; eu, que sou infinito em poder, e portanto posso fazê-lo, infinito em justiça, e portanto o farei.”

(1.) Isso insinua a certeza do juízo: “Eu, eu mesmo, o farei”. Não pode deixar de se cumprir com eficácia aquilo que o próprio Deus se encarrega de fazer. Veja Jó 11:10.

(2.) Isso insinua a tendência disso para a glória de Deus e a honra da justiça dele. Assim ele será engrandecido e exaltado na terra, e todo o mundo será levado a saber que ele é o Deus a quem pertence a vingança.

Parece-me que a expressão aqui é algo semelhante àquela de Isaías 1:24: “Ah, eu me aliviarei dos meus adversários.”

II. Deus faz aqui de Noé o homem da sua aliança, outra perífrase hebraica de amigo (v. 18): “Mas contigo estabelecerei a minha aliança.”

  1. A aliança da providência: que o curso da natureza continuará até o fim do tempo, apesar da interrupção que o dilúvio lhe daria. Essa promessa foi feita diretamente a Noé e aos filhos dele, Gênesis 9:8 e seguintes.

Eles eram como depositários de toda esta parte da criação, e com isso uma grande honra foi posta sobre ele e sobre os seus.

  1. A aliança da graça: que Deus seria para ele um Deus, e que da descendência dele Deus tomaria para si um povo. Repare:

(1.) Quando Deus faz uma aliança, ele a estabelece, torna-a firme, torna-a boa; as alianças dele são eternas.

(2.) A aliança da graça traz em si a recompensa de serviços singulares, e a fonte e o fundamento de todos os favores que distinguem. Não precisamos desejar mais, seja para compensar as nossas perdas por causa de Deus, seja para formar uma felicidade para nós em Deus, do que ter a aliança dele estabelecida conosco.

III. Deus faz aqui de Noé um monumento da misericórdia que poupa, pondo-o num caminho para se pôr a salvo no dilúvio que se aproximava, para que não perecesse com o resto do mundo: “Eu os destruirei”, diz Deus, “com a terra”, v. 13. “Mas faze para ti uma arca; eu cuidarei de te preservar vivo.”

Repare: a piedade singular será recompensada com salvações que distinguem, e que obrigam de modo especial.

Isto acrescentará muito à honra e à felicidade dos santos glorificados: que sejam salvos quando a maior parte do mundo é deixada para perecer. Ora:

  1. Deus manda Noé fazer uma arca, vv. 14-16.

Esta arca era como o casco de um navio, feita não para navegar sobre as águas (não havia ocasião para isso, quando não haveria margem para onde navegar), mas para flutuar sobre elas, esperando que baixassem.

Deus poderia ter garantido a segurança de Noé pelo ministério dos anjos, sem lhe dar nenhum cuidado, nenhuma canseira, nenhum trabalho.

Mas escolheu empregá-lo em fazer aquilo que seria o meio da sua preservação, tanto para provar a fé e a obediência dele quanto para nos ensinar que ninguém será salvo por Cristo senão aqueles que operam a sua salvação.

Não podemos fazê-lo sem Deus, e ele não o fará sem nós. Tanto a providência de Deus quanto a graça de Deus reconhecem e coroam os esforços dos obedientes e diligentes.

Deus lhe deu instruções muito particulares a respeito desta construção, que não podiam deixar de ser admiravelmente bem ajustadas ao propósito, quando a própria Sabedoria Infinita era o arquiteto:

(1.) Ela devia ser feita de madeira de gofer. Noé, sem dúvida, sabia que tipo de madeira era essa, embora nós agora não saibamos, se cedro, se cipreste, se outra qualquer.

(2.) Ele devia fazê-la com três andares por dentro.

(3.) Ele devia dividi-la em compartimentos, com divisórias, lugares próprios para os diversos tipos de criaturas, de modo a não perder espaço.

(4.) Dimensões exatas lhe foram dadas, para que a fizesse proporcionada e tivesse nela espaço bastante para atender ao propósito, e nada mais.

Repare: os que trabalham para Deus devem tomar dele as suas medidas e observá-las com cuidado. Repare ainda: é justo que aquele que nos designa a habitação fixe também os limites e as fronteiras dela.

(5.) Ele devia calafetá-la por dentro e por fora: por fora, para escorrer a chuva e impedir que a água se infiltrasse; por dentro, para tirar o mau cheiro dos animais quando mantidos fechados.

Observe: Deus não manda que ele a pinte, e sim que a calafete. Se Deus nos dá habitações seguras, quentes e saudáveis, estamos obrigados a ser gratos, ainda que não sejam magníficas nem requintadas.

(6.) Ele devia fazer uma pequena janela perto do topo, para deixar entrar a luz, e (alguns pensam) para que por aquela janela pudesse contemplar as desolações que seriam feitas na terra.

(7.) Ele devia fazer uma porta no lado dela, pela qual entrar e sair.

  1. Deus promete a Noé que ele e os seus serão preservados vivos na arca (v. 18): “Entrarás na arca.”

Repare: aquilo que fazemos em obediência a Deus, nós mesmos provavelmente teremos o consolo e o proveito disso. “Se fores sábio, para ti mesmo serás sábio.”

E não foi só ele que se salvou na arca, mas também a mulher dele, e os filhos dele, e as mulheres dos filhos dele. Observe:

(1.) O cuidado dos bons pais: eles se preocupam não só com a própria salvação, mas com a salvação das suas famílias, e especialmente dos seus filhos.

(2.) A felicidade daqueles filhos que têm pais piedosos. A piedade dos pais muitas vezes lhes garante a salvação temporal, como aqui; e os adianta no caminho da salvação eterna, se aproveitarem o benefício dela.

IV. Deus faz aqui de Noé uma grande bênção para o mundo, e nisto faz dele um tipo eminente do Messias, embora não o próprio Messias, como os pais dele esperavam, Gênesis 5:29.

  1. Deus fez dele um pregador para os homens daquela geração. Como atalaia, recebeu a palavra da boca de Deus para lhes dar o aviso, Ezequiel 3:17.

Assim, enquanto a longanimidade de Deus esperava, pelo seu Espírito em Noé ele pregou ao velho mundo, que, quando Pedro escreveu, eram “espíritos em prisão” (1 Pedro 3:18-20).

E nisto ele foi um tipo de Cristo, que, numa terra e numa era em que toda carne havia corrompido o seu caminho, andou pregando o arrependimento e avisando os homens de um dilúvio de ira que vinha.

  1. Deus fez dele um salvador para as criaturas inferiores, para guardar as diversas espécies delas de perecerem e de se perderem no dilúvio, vv. 19-21.

Foi uma grande honra posta sobre ele: não só que nele a raça humana seria mantida, e que dele procederia um mundo novo, a igreja, a alma do mundo, e o Messias, a cabeça daquela igreja, mas que ele seria instrumento para preservar as criaturas inferiores.

Assim a humanidade adquiriria nele um novo título sobre elas e sobre o serviço delas.

(1.) Ele devia providenciar abrigo para elas, para que não se afogassem. Dois de cada espécie, macho e fêmea, ele devia levar consigo para dentro da arca.

E, para que ele não tivesse nenhuma dificuldade em juntá-las e fazê-las entrar, Deus promete (v. 20) que elas virão a ele por vontade própria.

Aquele que faz o boi conhecer o seu dono e a sua manjedoura fez então que ele conhecesse o seu preservador e a sua arca.

(2.) Ele devia providenciar sustento para elas, para que não morressem de fome, v. 21. Devia abastecer o seu navio conforme o número da sua tripulação, aquela grande família de que agora tinha o encargo, e conforme o tempo marcado para o seu confinamento.

Também nisto ele foi um tipo de Cristo, a quem se deve que o mundo subsista, por quem todas as coisas se mantêm, e que preserva a humanidade de ser totalmente cortada e arruinada pelo pecado.

Nele a semente santa é preservada viva, e a criação é resgatada da vaidade sob a qual geme. Noé salvou aqueles a quem devia governar; assim faz Cristo, Hebreus 5:9.

Versículo 22

O cuidado e a diligência de Noé em construir a arca podem ser considerados:

  1. Como efeito da sua fé na palavra de Deus. Deus lhe tinha dito que em breve afogaria o mundo; ele creu, temeu o dilúvio ameaçado e, nesse temor, preparou a arca.

Repare: devemos misturar fé com a revelação que Deus fez da sua ira contra toda impiedade e injustiça dos homens; as ameaças da palavra não são alarmes falsos. Muito se poderia objetar contra a credibilidade deste aviso dado a Noé.

“Quem poderia crer que o Deus sábio, que fez o mundo, tão cedo tornasse a desfazê-lo? Que aquele que tinha escoado as águas para fora da terra seca (Gênesis 1:9, 10) fizesse com que elas a cobrissem outra vez?

Como isso se conciliaria com a misericórdia de Deus, que está sobre todas as suas obras, sobretudo o fato de as criaturas inocentes morrerem pelo pecado do homem?

De onde se tiraria água bastante para inundar o mundo? E, se assim tinha de ser, por que só a Noé se daria aviso disso?” Mas a fé de Noé triunfou sobre todos esses raciocínios corrompidos.

  1. Como ato de obediência ao mandamento de Deus. Se ele tivesse consultado a carne e o sangue, muitas objeções teriam sido levantadas contra isso.

Erguer uma construção como nunca tinha visto, tão grande e de dimensões tão exatas, lhe custaria enorme cuidado, trabalho e despesa.

Seria obra demorada; a visão era para muito tempo adiante. Os vizinhos zombariam da sua credulidade, e ele seria a canção dos bêbados; a sua construção seria chamada de loucura de Noé.

Se o pior viesse a acontecer, como dizemos, cada um teria a mesma sorte dos vizinhos. Mas essas objeções, e outras mil como elas, Noé venceu pela fé.

A sua obediência foi pronta e resoluta: “Assim fez Noé”, de boa vontade e com alegria, sem murmurar e sem discutir. Deus diz: “Faça isto”, e ele o faz.

Foi também pontual e perseverante: fez tudo exatamente segundo as instruções que recebeu e, tendo começado a construir, não parou até terminar; assim fez ele, e assim devemos fazer nós.

  1. Como exemplo de sabedoria para si mesmo, ao prover desse modo a própria segurança. Ele temeu o dilúvio e por isso preparou a arca.

Repare: quando Deus avisa de juízos que se aproximam, é sabedoria e dever nosso providenciar conforme o aviso. Veja Êxodo 9:20, 21; Ezequiel 3:18.

Devemos nos preparar para encontrar o Senhor nos seus juízos sobre a terra, fugir para o seu nome como para uma torre forte (Provérbios 18:10) e entrar nos nossos quartos (Isaías 26:20, 21).

Sobretudo, devemos nos preparar para encontrá-lo na morte e no juízo do grande dia, edificar sobre Cristo, a Rocha (Mateus 7:24), e entrar em Cristo, a Arca.

  1. Como aviso destinado a um mundo descuidado; e foi um aviso claro do dilúvio que vinha.

Cada golpe dos seus machados e martelos era um chamado ao arrependimento, um chamado para que eles também preparassem arcas.

Mas, já que por essa obra não pôde convencer o mundo, por essa obra condenou o mundo, Hebreus 11:7.


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