Gênesis 48
Argumento
Aproximando-se o tempo em que Israel devia morrer, e tendo ele, no capítulo anterior, dado ordem a respeito do seu sepultamento, neste ele se despede dos seus netos por parte de José, e no seguinte, de todos os seus filhos.
Assim as palavras de Jacó ao morrer estão registradas, porque ele então falou por um espírito de profecia; as de Abraão e as de Isaque, não.
Os dons e as graças de Deus resplandecem muito mais em alguns santos do que em outros nos seus leitos de morte. O Espírito, como o vento, sopra onde quer. Neste capítulo:
I. José, ao ouvir da doença do seu pai, vai visitá-lo e leva consigo os seus dois filhos, v. 1, 2.
II. Jacó adota solenemente os dois filhos de José e os toma como seus próprios filhos, vv. 3-7.
III. Ele os abençoa, vv. 8-16.
IV. Ele explica e justifica o cruzamento das suas mãos ao abençoá-los, vv. 17-20.
V. Ele deixa um legado particular a José, v. 21, 22.
Versículos 1 a 7
A Última Doença de Jacó. (a.C. 1689.)
Aqui:
I. José, ao saber da doença do seu pai, vai vê-lo; embora fosse homem de honra e de negócios, ainda assim não deixa de prestar esse devido respeito ao seu pai idoso, v. 1.
Visitar os doentes para com quem temos obrigações, ou a quem podemos ter oportunidade de fazer bem, seja ao corpo, seja à alma, é nosso dever.
O leito do doente é lugar próprio tanto para oferecer consolo e conselho aos outros quanto para nós mesmos recebermos instrução.
José levou consigo os seus dois filhos, para que recebessem a bênção do seu avô moribundo, e para que o que vissem nele e ouvissem dele lhes fizesse uma impressão duradoura. Repare:
- É bom familiarizar os jovens que entram no mundo com os servos idosos de Deus que estão saindo dele, cujo testemunho ao morrer sobre a bondade de Deus e sobre a suavidade dos caminhos da sabedoria pode ser grande ânimo para a geração que se levanta.
Manassés e Efraim, atrevo-me a dizer, nunca esqueceriam o que se passou nesta ocasião.
- Os pais piedosos desejam uma bênção, não só para si, mas também para os seus filhos. “Oh, que eles vivam diante de Deus!”
José tinha sido, acima de todos os seus irmãos, bondoso com o seu pai, e por isso tinha motivo para esperar dele um favor particular.
II. Jacó, ao saber da visita do seu filho, preparou-se o melhor que pôde para recebê-lo, v. 2.
Fez o que pôde para erguer o ânimo e reavivar o dom que havia nele; empregou ao máximo o pouco que lhe restava de força física e sentou-se na cama.
Repare: é muito bom que os doentes e os idosos estejam tão animados e alegres quanto podem, para que não desfaleçam no dia da adversidade.
Fortaleça-se, como Jacó aqui, e Deus o fortalecerá; anime-se e ajude-se, e Deus o ajudará e o animará. Que o espírito sustente a enfermidade.
III. Em recompensa a José por todas as suas atenções para com ele, adotou os seus dois filhos. Nesta carta de adoção há:
- Uma exposição particular da promessa que Deus lhe fizera, à qual esta adoção se referia: “Deus me abençoou (v. 3), e que essa bênção lhes seja transmitida por herança.”
Deus lhe prometera duas coisas: descendência numerosa e Canaã por herança (v. 4); e os filhos de José, em conformidade com isso, cada um deles se multiplicaria numa tribo, e cada um deles teria um quinhão distinto em Canaã, igual aos próprios filhos de Jacó.
Veja como ele os abençoou pela fé naquilo que Deus lhe tinha dito, Hebreus 11:21.
Repare: em todas as nossas orações, tanto por nós mesmos quanto pelos nossos filhos, devemos ter um olhar particular para as promessas de Deus a nós, e lembrança delas.
- Uma recepção expressa dos filhos de José na sua família: “Os teus filhos são meus (v. 5), não só meus netos, mas também como meus próprios filhos.”
Embora tivessem nascido no Egito, e o pai deles estivesse então separado dos seus irmãos, o que poderia parecer tê-los cortado da herança do Senhor, ainda assim Jacó os acolhe e os reconhece como membros da igreja visível.
Ele explica isto no v. 16: “Seja o meu nome nomeado sobre eles, e o nome dos meus pais”; como se dissesse: “Que não sucedam ao seu pai no seu poder e na sua grandeza aqui no Egito, mas que me sucedam na herança da promessa feita a Abraão”, que Jacó considerava muito mais valiosa e honrosa, e queria que eles a estimassem e cobiçassem conforme isso.
Assim o velho patriarca moribundo ensina estes jovens, agora que eram adultos (tendo uns vinte e um anos), a não olhar para o Egito como sua casa, nem a incorporar-se aos egípcios, mas a lançar a sua sorte com o povo de Deus, como Moisés depois, em tentação semelhante, Hebreus 11:24-26.
Como seria um ato de abnegação para eles, que tinham perspectivas tão boas de alcançar cargos no Egito, unir-se aos hebreus desprezados, Jacó faz de cada um o chefe de uma tribo para animá-los.
Repare: são dignos de dobrada honra aqueles que, pela graça de Deus, vencem as tentações da riqueza e dos cargos deste mundo para abraçar a religião em meio ao descrédito e à pobreza.
Jacó quer que Efraim e Manassés creiam que é melhor estar embaixo e dentro da igreja do que no alto e fora dela, ser chamado pelo nome do pobre Jacó do que ser chamado pelo nome do rico José.
- Uma cláusula inserida a respeito dos filhos que José pudesse ter depois: não seriam contados como cabeças de tribos, como Efraim e Manassés foram, mas se agregariam ou a um ou a outro dos seus irmãos, v. 6.
Não parece que José tivesse mais filhos; contudo, foi prudência de Jacó dar esta instrução, para evitar litígio e má administração.
Repare: ao fazer disposições de bens, é bom buscar conselho e prover para o que possa acontecer, embora não possamos prever o que acontecerá. A nossa prudência deve acompanhar a providência de Deus.
- É feita menção da morte e do sepultamento de Raquel, mãe de José e a esposa mais amada de Jacó (v. 7), remetendo àquela história, Gênesis 35:19. Repare:
(1.) Quando chegamos a morrer nós mesmos, é bom trazer à lembrança a morte dos nossos parentes e amigos queridos, que se foram antes de nós, para nos tornar a morte e a sepultura tanto mais familiares. Veja Números 27:13.
Aqueles que eram para nós como a nossa própria alma estão mortos e sepultados; e acharemos que é demais segui-los pelo mesmo caminho?
(2.) A remoção dos parentes queridos de junto de nós é uma aflição cuja lembrança não pode senão permanecer conosco por muito tempo. Afeições fortes no gozo causam longas aflições na perda.
Versículos 8 a 22
Jacó Abençoa os Filhos de José; A Profecia de Jacó ao Morrer. (a.C. 1689.)
Aqui está:
I. A bênção com que Jacó abençoou os dois filhos de José, que é tanto mais notável porque o apóstolo faz menção tão particular dela (Hebreus 11:21), enquanto nada diz da bênção que Jacó pronunciou sobre os seus demais filhos, ainda que também aquela tivesse sido feita pela fé. Observe aqui:
- Jacó estava cego pela idade, v. 10. É uma das enfermidades comuns da velhice. “Os que olham pelas janelas se escurecem”, Eclesiastes 12:3.
É loucura andar na vista dos nossos olhos e permitir que o nosso coração vá atrás deles, quando sabemos que a morte em breve os fechará, e não sabemos se algum acidente entre nós e a morte não os escurecerá. Jacó, como o seu pai antes dele, quando envelheceu, tinha a vista fraca. Repare:
(1.) Quem tem a honra da idade tem de contentar-se em tomar junto com ela o peso dela.
(2.) O olho da fé pode estar muito claro mesmo quando o olho do corpo está muito toldado.
- Jacó tinha grande afeição pelos filhos de José: “ele os beijou e os abraçou”, v. 10. É comum as pessoas idosas terem uma afeição muito particular pelos seus netos, talvez mais do que tiveram pelos seus próprios filhos quando pequenos, para o que Salomão dá um motivo (Provérbios 17:6): “Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos”.
Com que satisfação Jacó diz aqui (v. 11): “Eu não pensava ver o teu rosto” (tendo-o por muitos anos dado por perdido), “e eis que Deus me mostrou também a tua semente”! Veja aqui:
(1.) Como estes dois homens bons reconhecem a Deus nos seus consolos. José diz (v. 9): “São os meus filhos que Deus me deu”; e, para engrandecer o favor, acrescenta: “neste lugar do meu desterro, da minha escravidão e da minha prisão”.
Jacó diz aqui: “Deus me mostrou a tua semente”. Os nossos consolos são então duplamente doces para nós quando os vemos vindo da mão de Deus.
(2.) Quantas vezes Deus, nas suas providências misericordiosas, supera as nossas expectativas, e assim engrandece muito os seus favores. Ele não só afasta os nossos temores, mas também excede as nossas esperanças.
Podemos aplicar isto à promessa que é feita a nós e aos nossos filhos. Não poderíamos ter pensado que nós mesmos teríamos sido tomados em aliança com Deus, considerando quão culpados e corrompidos somos; e, contudo, eis que ele nos mostrou também a nossa semente em aliança com ele.
- Antes de vincular a sua bênção, ele relata as suas experiências da bondade de Deus para com ele. Ele havia falado (v. 3) da aparição de Deus a ele.
As visitas particulares da sua graça, e a comunhão especial que às vezes tivemos com ele, nunca deveriam ser esquecidas. Mas (v. 15, 16) ele menciona o cuidado constante que a divina Providência tivera com ele todos os seus dias.
(1.) Ele o havia alimentado por toda a sua vida até este dia, v. 15. Repare: por todo o tempo que vivemos neste mundo tivemos experiência contínua da bondade de Deus para conosco, em prover o sustento da nossa vida natural.
Os nossos corpos pediram alimento diário, e não foi pouco o que se gastou para nos alimentar, e contudo nunca nos faltou alimento conveniente. Aquele que nos alimentou por toda a nossa vida certamente não nos faltará no fim.
(2.) Ele o havia, pelo seu anjo, redimido de todo mal, v. 16. Muitas agruras ele conhecera no seu tempo, mas Deus graciosamente o guardou do mal das suas tribulações.
Agora que estava morrendo, ele se via como redimido de todo mal, e dando um adeus eterno ao pecado e à tristeza. Cristo, o Anjo da aliança, é aquele que nos redime de todo mal, 2 Timóteo 4:18. Repare:
[1.] Convém aos servos de Deus, quando estão velhos e morrendo, testemunhar em favor do nosso Deus que o acharam gracioso.
[2.] As nossas experiências da bondade de Deus para conosco podem ser aproveitadas, tanto para o ânimo de outros a servir a Deus quanto para o nosso ânimo ao abençoá-los e orar em favor deles.
- Ao conferir-lhes a bênção e o nome de Abraão e Isaque, ele lhes recomenda o modelo e o exemplo de Abraão e Isaque, v. 15.
Ele chama Deus de o Deus diante de quem os seus pais Abraão e Isaque andaram, isto é, em quem creram, a quem observaram e obedeceram, e com quem mantiveram comunhão nas ordenanças instituídas, conforme os termos da aliança. “Anda diante de mim”, Gênesis 17:1. Repare:
(1.) Quem quer herdar a bênção dos seus antepassados piedosos, e ter o benefício da aliança de Deus com eles, tem de pisar nos passos da piedade deles.
(2.) Deveria recomendar-nos a religião e o serviço de Deus o fato de que Deus foi o Deus dos nossos pais, e de que eles tiveram satisfação em andar diante dele.
- Ao abençoá-los, ele cruzou as mãos. José os pôs de modo que a mão direita de Jacó fosse posta sobre a cabeça de Manassés, o mais velho, v. 12, 13. Mas Jacó quis pô-la sobre a cabeça de Efraim, o mais novo, v. 14.
Isso desagradou a José, que queria sustentar a reputação do seu primogênito, e por isso teria retirado as mãos do seu pai, v. 17, 18.
Mas Jacó lhe deu a entender que sabia o que fazia, e que não o fazia por engano, nem por capricho, nem por afeição parcial a um mais que ao outro, mas por um espírito de profecia, e em conformidade com os conselhos divinos.
Manassés seria grande, mas na verdade Efraim seria maior. Quando as tribos foram recenseadas no deserto, Efraim era mais numeroso que Manassés, e tinha o estandarte daquele esquadrão (Números 1:32, 33, 35; 2:18, 20), e é nomeado primeiro, Salmos 80:2.
Josué era daquela tribo, e Jeroboão também. A tribo de Manassés foi dividida, metade de um lado do Jordão, a outra metade do outro lado, o que a tornou tanto menos poderosa e considerável. Prevendo isto, Jacó cruzou as mãos. Repare:
(1.) Deus, ao conceder as suas bênçãos ao seu povo, dá mais a uns que a outros: mais dons, graças e consolos, e mais das coisas boas desta vida.
(2.) Muitas vezes ele dá mais aos que têm menos probabilidade de receber. Ele escolhe as coisas fracas do mundo; levanta o pobre do pó.
A graça não observa a ordem da natureza, nem Deus prefere aqueles que julgamos os mais aptos a serem preferidos, mas como lhe apraz.
É digno de nota quantas vezes Deus, pelos favores distintivos da sua aliança, elevou o mais novo acima do mais velho: Abel acima de Caim, Sem acima de Jafé, Abraão acima de Naor e Harã, Isaque acima de Ismael, Jacó acima de Esaú; Judá e José foram preferidos a Rúben, Moisés a Arão, Davi e Salomão aos seus irmãos mais velhos. Veja 1 Samuel 16:7.
Ele obrigou os judeus a observar o direito de primogenitura (Deuteronômio 21:17), mas nunca se obrigou a observá-lo.
Alguns fazem disto um tipo da preferência dada aos gentios acima dos judeus; os convertidos gentios eram muito mais numerosos que os dos judeus. Veja Gálatas 4:27. Assim a graça gratuita se torna mais ilustre.
II. Os sinais particulares do seu favor a José:
- Ele deixou com ele a promessa do retorno deles do Egito, como um depósito sagrado: “Eu morro, mas Deus será convosco, e vos fará tornar”, v. 21. Assim também José, ao morrer, a deixou com os seus irmãos, Gênesis 50:24.
Esta certeza lhes foi dada, e cuidadosamente preservada entre eles, para que não amassem o Egito em excesso quando ele os favorecia, nem o temessem em excesso quando ele lhes franzia o cenho.
Estas palavras de Jacó nos fornecem consolo com respeito à morte dos nossos amigos: eles morrem, mas Deus será conosco, e a sua graciosa presença basta para compensar a perda; eles nos deixam, mas ele nunca nos faltará.
Mais ainda: ele nos levará à terra dos nossos pais, a Canaã celestial, para onde os nossos pais piedosos foram antes de nós.
Se Deus está conosco enquanto ficamos para trás neste mundo, e nos receberá em breve para estarmos com os que foram antes para um mundo melhor, não devemos nos entristecer como os que não têm esperança.
- Ele lhe concedeu uma porção acima dos seus irmãos, v. 22. As terras legadas são descritas como aquelas que ele tomou da mão do amorreu com a sua espada e com o seu arco.
Ele as comprou primeiro (Josué 24:32) e, ao que parece, foi depois esbulhado delas pelos amorreus, mas as retomou pela espada, repelindo força com força, e recobrando o seu direito pela violência quando não podia recobrá-lo de outro modo.
Estas terras ele consignou a José; menção é feita desta doação, João 4:5. Em conformidade com isso, esta parcela de terra foi dada à tribo de Efraim como direito seu, e a sorte nunca foi lançada sobre ela; e nela foram sepultados os ossos de José, no que talvez Jacó tivesse os olhos tanto quanto em qualquer outra coisa nesta consignação.
Repare: às vezes pode ser tanto justo quanto prudente dar a alguns filhos porções acima dos demais; mas uma sepultura é aquilo com que mais podemos contar como nosso nesta terra.