Gênesis 47
Argumento
Neste capítulo temos exemplos:
I. Da bondade e do afeto de José para com os seus parentes, apresentando a Faraó primeiro os seus irmãos e depois o seu pai (vv. 1-10), estabelecendo-os em Gósen e provendo para eles ali (v. 11, 12), e prestando os seus respeitos ao pai quando este mandou chamá-lo, vv. 27-31.
II. Da justiça de José entre o príncipe e o povo num caso muito crítico, vendendo o trigo de Faraó aos súditos dele com lucros razoáveis para Faraó, e ainda assim sem nenhum agravo a eles, v. 13, etc.
Assim ele se mostrou sábio e bom, tanto na sua condição privada quanto na pública.
Versículos 1 a 12
A Generosidade de Faraó; Jacó Apresentado a Faraó. (a.C. 1706.)
Aqui está:
I. O respeito que José, como súdito, mostrou ao seu príncipe. Embora fosse o favorito dele, e primeiro-ministro de Estado, e tivesse recebido dele ordens expressas de mandar buscar o seu pai para descer ao Egito, ainda assim não permitiu que ele se estabelecesse antes de dar notícia disso a Faraó, v. 1.
Cristo, o nosso José, dispõe dos seus seguidores no seu reino conforme está preparado por seu Pai, dizendo: “Não é meu dar”, Mateus 20:23.
II. O respeito que José, como irmão, mostrou aos seus irmãos, apesar de toda a falta de bondade que antes recebera deles:
- Embora ele fosse um grande homem, e eles fossem comparativamente humildes e desprezíveis, sobretudo no Egito, ainda assim ele os reconheceu.
Que aqueles que são ricos e grandes no mundo aprendam daqui a não passar por cima dos seus parentes pobres, nem a desprezá-los.
Nem todo ramo da árvore é ramo do topo; mas, por ser um ramo mais baixo, deixa por isso de ser da árvore? O nosso Senhor Jesus, como José aqui, não se envergonha de nos chamar irmãos.
- Sendo eles estrangeiros e não cortesãos, ele apresentou alguns deles a Faraó, para lhe beijarem a mão, como dizemos, tencionando com isso pôr sobre eles uma honra entre os egípcios.
Assim Cristo apresenta os seus irmãos na corte do céu, e aproveita o seu valimento em favor deles, ainda que em si mesmos sejam indignos e abominação para os egípcios.
Apresentados a Faraó, segundo as instruções que José lhes tinha dado, eles lhe dizem:
(1.) Qual era o negócio deles — que eram pastores, v. 3. Faraó lhes perguntou (e José sabia que essa seria uma das suas primeiras perguntas, Gênesis 46:33): “Qual é a vossa ocupação?”
Ele toma por certo que eles tinham algo que fazer, do contrário o Egito não seria lugar para eles, nem abrigo para vadios ociosos. Se não quisessem trabalhar, não deviam comer do pão dele neste tempo de escassez.
Repare: todos os que têm um lugar no mundo devem ter nele um emprego conforme a sua capacidade, alguma ocupação ou outra, mental ou manual.
Os que não precisam trabalhar pelo seu pão devem, ainda assim, ter algo que fazer, para se guardarem da ociosidade.
Ainda: os magistrados devem inquirir da ocupação dos seus súditos, como quem tem o cuidado do bem-estar público; porque as pessoas ociosas são como zangãos na colmeia, fardos inúteis da comunidade.
(2.) Qual era o negócio deles no Egito — “para peregrinar na terra” (v. 4), não para se estabelecerem ali para sempre, apenas para peregrinar ali por um tempo.
Isso enquanto a fome de tal modo grassava em Canaã, que ficava em terreno alto, a ponto de não ser habitável para pastores, estando a relva queimada muito mais do que no Egito, que ficava em terreno baixo, e onde faltava principalmente o trigo, ao passo que havia pasto razoavelmente bom.
- Ele obteve para eles a concessão de se estabelecerem na terra de Gósen, v. 5, 6. Isso foi um exemplo da gratidão de Faraó para com José.
Porque ele tinha sido tamanha bênção para Faraó e para o seu reino, este quis ser bondoso com os parentes dele, puramente por causa dele.
Ofereceu-lhes um cargo de pastores sobre o seu gado, contanto que fossem homens ativos; porque é o homem diligente no seu negócio que estará diante de reis.
E, qualquer que seja a nossa profissão ou o nosso emprego, devemos ter por alvo ser excelentes nele, e mostrar-nos engenhosos e industriosos.
III. O respeito que José, como filho, mostrou ao seu pai:
- Ele o apresentou a Faraó, v. 7. E aqui:
(1.) Faraó faz a Jacó uma pergunta comum: “Quantos anos tens?” v. 8. Pergunta que se costuma fazer aos velhos, porque é natural para nós admirar a velhice e reverenciá-la (Levítico 19:32), assim como é muito contra a natureza e indecoroso desprezá-la, Isaías 3:5.
O semblante de Jacó, sem dúvida, mostrava que ele era muito velho, porque tinha sido um homem de trabalho e de tristeza; no Egito as pessoas não viviam tanto tempo quanto em Canaã, e por isso Faraó olha para Jacó com espanto; ele era como um espetáculo na corte dele. Quando refletimos sobre nós mesmos, isto deve entrar na conta: “Quantos anos temos?”
(2.) Jacó dá a Faraó uma resposta incomum, v. 9. Ele fala como convém a um patriarca, com ar de seriedade, para a instrução de Faraó. Ainda que o tema da nossa fala nem sempre seja a graça, ainda assim devemos falar sempre com graça. Observe aqui:
[1.] Ele chama a sua vida de peregrinação, olhando para si mesmo como estrangeiro neste mundo e viajante rumo a outro mundo: esta terra é a sua estalagem, não o seu lar.
A isto se refere o apóstolo (Hebreus 11:13): “Confessaram que eram estrangeiros e peregrinos.”
Ele não só se considerava peregrino agora que estava no Egito, país estranho em que nunca estivera antes; mas a sua vida, mesmo na terra do seu nascimento, era uma peregrinação.
E os que assim a consideram podem suportar melhor o incômodo do desterro do solo natal; eles continuam a ser apenas peregrinos, como sempre foram.
[2.] Ele conta a sua vida por dias; porque, mesmo assim, ela logo se conta, e não temos certeza da sua continuação por um dia inteiro, mas podemos ser tirados deste tabernáculo com menos de uma hora de aviso. Portanto, contemos os nossos dias (Salmos 90:12) e meçamo-los, Salmos 39:4.
[3.] O caráter que ele lhes dá é, Primeiro, que eram poucos. Embora tivesse agora vivido 130 anos, eles lhe pareciam apenas poucos dias, em comparação com os dias da eternidade, com o Deus eterno e com o estado eterno, no qual mil anos (mais do que jamais viveu qualquer homem) são apenas como um dia.
Segundo, que eram maus. Isto é verdade a respeito do homem em geral: ele é de poucos dias e cheio de inquietação (Jó 14:1); e, já que os seus dias são maus, é bom que sejam poucos.
A vida de Jacó, em particular, tinha sido feita de dias maus; e os dias mais agradáveis da sua vida ainda estavam à frente dele.
Terceiro, que ficavam aquém dos dias de seus pais, não tão numerosos, não tão agradáveis quanto os dias deles. A velhice veio mais cedo sobre ele do que viera sobre alguns dos seus antepassados.
Assim como o jovem não deve orgulhar-se da sua força ou da sua beleza, também o velho não deve orgulhar-se da sua idade e da coroa das suas cãs, ainda que outros com justiça a reverenciem; porque os que são tidos por muito velhos não alcançam os anos dos patriarcas. A cabeça encanecida é coroa de glória somente quando é achada no caminho da justiça.
(3.) Jacó tanto se dirige a Faraó quanto se despede dele com uma bênção (v. 7): “Jacó abençoou Faraó”, e de novo, v. 10.
Isso não foi apenas um ato de cortesia (ele lhe prestou respeito e lhe devolveu agradecimentos pela sua bondade), mas um ato de piedade — ele orou por ele, como quem tem a autoridade de profeta e de patriarca.
Embora em riqueza mundana Faraó fosse o maior, contudo, em valimento junto a Deus, Jacó era o maior; ele era o ungido de Deus, Salmos 105:15.
E a bênção de um patriarca não era coisa para se desprezar, não, nem mesmo por um príncipe poderoso. Dario dava valor às orações da igreja por si mesmo e por seus filhos, Esdras 6:10.
Faraó recebeu Jacó com bondade e, fosse ou não em nome de profeta, assim ele teve recompensa de profeta, que suficientemente o recompensou, não só pelo seu trato cortês com ele, mas por todas as outras bondades que mostrou a ele e aos seus.
- Ele proveu bem para ele e para os seus: colocou-o em Gósen (v. 11), sustentou-o e a todos os seus com alimento conveniente para eles, v. 12.
Isto declara não só que José era homem bom, que tomou este cuidado terno dos seus parentes pobres, mas que Deus é Deus bom, que o levantou para este propósito e o pôs em condição de fazê-lo, assim como Ester chegou ao reino para um tempo como este.
O que Deus fez aqui por Jacó ele, na prática, prometeu fazer por todos os seus, que o servem e nele confiam. Salmos 37:19: “nos dias de fome serão saciados.”
Versículos 13 a 26
A Aflição Ocasionada pela Fome. (a.C. 1706.)
Tomado o cuidado de Jacó e da sua família, cuja preservação era desígnio especial da Providência na ascensão de José, é dado agora o relato de que também o reino do Egito foi salvo da ruína; pois Deus é Rei das nações tanto quanto Rei dos santos, e provê alimento a toda carne.
José volta agora à administração daquele grande encargo de confiança que Faraó lhe havia posto nas mãos. Teria sido bastante agradável para ele ter ido viver com o seu pai e os seus irmãos em Gósen; mas o seu emprego não o permitia.
Depois de ver o seu pai e de vê-lo bem estabelecido, aplicou-se à execução do seu cargo com a mesma dedicação de sempre. Repare: até o afeto natural tem de ceder aos afazeres necessários.
Pais e filhos têm de contentar-se em estar ausentes um do outro, quando é necessário, de um lado ou do outro, para o serviço de Deus ou da sua geração.
Nas transações de José com os egípcios, observe:
I. A situação extrema a que o Egito, e as partes adjacentes, foram reduzidos pela fome. Não havia pão, e eles desfaleciam (v. 13); estavam prestes a morrer, v. 15, 19.
- Veja aqui que dependência temos da providência de Deus. Se os seus favores costumeiros são suspensos só por um tempo, morremos, perecemos, todos perecemos.
Toda a nossa riqueza não nos livraria de morrer de fome se a chuva do céu fosse retida só por dois ou três anos. Veja quanto estamos à mercê de Deus, e conservemo-nos sempre no amor dele.
- Veja quanto sofremos pela nossa própria imprevidência. Se todos os egípcios tivessem feito por si mesmos, nos sete anos de fartura, o que José fez por Faraó, não estariam agora nestes apertos; mas não deram atenção ao aviso que tiveram dos anos de fome, concluindo que amanhã será como hoje, o ano que vem como este, e muito mais abundante.
Repare: porque o homem não conhece o seu tempo (o seu tempo de ajuntar, quando o tem), por isso a sua miséria é grande sobre ele quando chega o tempo de gastar, Eclesiastes 8:6, 7.
- Veja quão cedo Deus pôs diferença entre os egípcios e os israelitas, como depois nas pragas, Êxodo 8:22; 9:4, 26; 10:23.
Jacó e a sua família, embora estrangeiros, eram fartamente alimentados sem custo algum, enquanto os egípcios morriam de falta. Veja Isaías 65:13: “Os meus servos comerão, mas vós tereis fome.”
“Feliz és tu, ó Israel.” Quem quer que passe falta, os filhos de Deus não passarão, Salmos 34:10.
II. O preço a que chegaram, pelo seu suprimento, nesta premência:
Desfizeram-se de todo o dinheiro que haviam entesourado, v. 14. A prata e o ouro não os alimentariam; tinham de ter trigo. Todo o dinheiro do reino foi por este meio levado ao erário.
Quando o dinheiro faltou, desfizeram-se de todo o seu gado, o de trabalho, como os cavalos e os jumentos, e o de alimento, como os rebanhos e as manadas, v. 17. Por isto parece que podemos viver melhor de pão sem carne do que de carne sem pão.
Podemos supor que se desfizeram do seu gado com tanto mais facilidade porque tinham pouca ou nenhuma erva para ele; e agora Faraó via na realidade o que antes vira em visão: nada senão vacas magras.
Depois de venderem os animais que tinham em suas terras, foi fácil persuadirem-se (em vez de morrer de fome) a vender também a sua terra; pois que proveito ela lhes daria, quando não tinham nem trigo para semeá-la nem gado para comer dela? Por isso venderam-na em seguida, por mais um suprimento de trigo.
Vendida a sua terra, de modo que não tinham de que viver, naturalmente tinham de vender-se a si mesmos, para que vivessem puramente do seu trabalho e conservassem as suas terras sob a condição inferior de servidão, por concessão da coroa.
Repare: pele por pele, e tudo o que o homem tem, até a liberdade e a propriedade (esses gêmeos queridos), dará pela sua vida; pois a vida é doce.
São poucos (embora talvez haja alguns) os que até ousariam morrer em vez de viver em escravidão e na dependência de um poder arbitrário.
E talvez haja os que, nesse caso, poderiam morrer pela espada, num ímpeto, e que contudo não poderiam morrer deliberadamente de fome, o que é muito pior, Lamentações 4:9.
Ora, foi grande misericórdia para com os egípcios que, nesta aflição, pudessem ter trigo a qualquer preço; se todos tivessem morrido de fome, as suas terras talvez tivessem revertido naturalmente à coroa, por falta de herdeiros; resolveram por isso tirar o melhor do mau.
III. O método que José tomou para compor a questão entre o príncipe e o povo, de modo que o príncipe tivesse a sua justa vantagem e, ainda assim, o povo não ficasse de todo arruinado:
- Quanto às suas terras, ele não precisou chegar a nenhum trato com eles enquanto duraram os anos de fome; mas quando estes acabaram (pois Deus não contenderá para sempre, nem estará sempre encolerizado) ele chegou a um acordo, com o qual, ao que parece, ambos os lados ficaram satisfeitos:
Que o povo ocupasse e desfrutasse as terras, conforme ele julgasse conveniente designá-las, e tivesse semente para semeá-las tirada dos celeiros do rei, para o seu próprio uso e proveito, rendendo e pagando apenas a quinta parte dos lucros anuais como foro principal à coroa.
Isto se tornou lei permanente, v. 26. E foi um trato muito bom ter alimento em troca das suas terras, quando de outro modo eles e os seus teriam morrido de fome, e depois ter as suas terras de volta em condições tão fáceis.
Repare: são dignos de dobrada honra, tanto pela sabedoria quanto pela integridade, aqueles ministros de estado que mantêm a balança equilibrada entre o príncipe e o povo, de modo que a liberdade e a propriedade não invadam a prerrogativa, nem a prerrogativa pese duramente sobre a liberdade e a propriedade: na multidão de tais conselheiros há segurança.
Se depois os egípcios acharam duro pagar tributo tão grande ao rei sobre as suas terras, têm de lembrar não só quão justa, mas quão bondosa foi a primeira imposição dele. Podiam pagar com gratidão um quinto onde tudo era devido.
É de observar quão fiel José foi para com aquele que o nomeou. Não meteu o dinheiro no próprio bolso, nem vinculou as terras à sua própria família; mas converteu ambos inteiramente ao uso de Faraó; e por isso não encontramos que a sua posteridade tenha saído do Egito nem um pouco mais rica do que o restante dos seus pobres irmãos.
Os que estão em cargos de confiança pública, se levantam grandes fortunas, têm de cuidar que não seja à custa de uma boa consciência, que é muito mais valiosa.
- Quanto às suas pessoas, ele os removeu para as cidades, v. 21. Transplantou-os para mostrar o poder soberano de Faraó sobre eles, e para que, com o tempo, esquecessem os seus títulos sobre as suas terras e se reconciliassem com tanto mais facilidade com a sua nova condição de servidão.
Os escritores judeus dizem: “Ele os removeu assim das suas antigas habitações porque censuravam os seus irmãos como estrangeiros; para calar essa censura, todos foram feitos, na prática, estrangeiros.”
Veja que mudanças um pouco de tempo pode fazer com um povo, e quão depressa Deus pode esvaziar de vaso em vaso aqueles que estavam assentados sobre as suas borras.
Por mais duro que isto pareça ter sido para eles, eles mesmos, neste momento, davam-se conta disso como de uma bondade muito grande, e ficaram gratos por não terem sido tratados pior: “Tu salvaste as nossas vidas”, v. 25.
Repare: há boa razão para que o Salvador das nossas vidas seja o Senhor das nossas vidas. “Tu nos salvaste; faze de nós o que quiseres.”
IV. A exceção que ele fez em favor dos sacerdotes. Eram mantidos sem custo algum, de modo que não precisavam vender as suas terras, v. 22.
Todos os povos andarão assim em nome do seu Deus; serão bondosos com os que se aplicam ao serviço público do seu Deus e que os servem nas coisas santas; e devemos, do mesmo modo, honrar o nosso Deus, estimando muito os seus ministros, em amor, por causa da obra deles.
Versículos 27 a 31
O Encargo de Jacó a Respeito do Seu Sepultamento. (a.C. 1706.)
Observe:
- O consolo em que Jacó viveu (v. 27, 28); enquanto os egípcios eram empobrecidos na sua própria terra, Jacó era abastecido numa terra estranha.
Ele viveu dezessete anos depois de entrar no Egito, muito além da sua própria expectativa.
Dezessete anos ele havia sustentado a José (pois José tinha essa idade quando foi vendido e tirado do pai, Gênesis 37:2), e agora, em retribuição, dezessete anos José o sustentou.
Observe com que bondade a Providência dispôs os negócios de Jacó: quando estava velho, e o menos capaz de suportar preocupações ou fadiga, teve a menor ocasião para isso, estando bem provido pelo filho sem previdência própria. Assim Deus considera a constituição do seu povo.
- A preocupação com que Jacó morreu: por fim aproximou-se o tempo em que Israel devia morrer, v. 29.
Israel, príncipe com Deus, que teve poder sobre o anjo e conseguiu o intento, contudo tem de ceder à morte.
Não há remédio, ele tem de morrer: está determinado a todos os homens, portanto a ele; e “não há dispensa nessa guerra”.
José o supria de pão, para que não morresse de fome; mas isso não o assegurava contra morrer de velhice ou de doença.
Ele foi morrendo aos poucos; a sua vela não foi apagada de um sopro, mas queimou gradualmente até o castiçal, de modo que ele via, a alguma distância, o tempo se aproximar.
Repare: é vantagem que se pode aproveitar ver a aproximação da morte antes de sentirmos as suas investidas, para que sejamos despertados a fazer com toda a nossa força o que a nossa mão achar para fazer; de todo modo, ela não está longe de nenhum de nós.
Ora, o cuidado de Jacó, ao ver o dia se aproximar, era com o seu sepultamento — não com a pompa dele (não estava de modo algum preocupado com isso), mas com o lugar dele.
(1.) Ele queria ser sepultado em Canaã. Nisso ele se resolveu, não por mero capricho, porque Canaã era a terra do seu nascimento, mas por fé, porque era a terra da promessa — da qual ele desejava assim, por assim dizer, manter a posse, até que chegasse o tempo em que a sua posteridade fosse senhora dela.
E porque era um tipo do céu, aquela melhor pátria que quem disse estas coisas declarou claramente estar esperando, Hebreus 11:14.
Ele visava a uma terra boa, que seria o seu descanso e a sua bem-aventurança do outro lado da morte.
(2.) Ele quis que José jurasse levá-lo para lá para ser sepultado (v. 29, 31), para que José, estando sob obrigação tão solene de fazê-lo, tivesse com que responder às objeções que de outro modo poderiam ter sido feitas contra isso, e para a maior satisfação de Jacó agora nos seus minutos de morte.
Nada ajudará melhor a tornar fácil um leito de morte do que a perspectiva certa de um descanso em Canaã depois da morte.
(3.) Quando isso foi feito, “Israel se inclinou sobre a cabeceira da cama”, entregando-se, por assim dizer, ao golpe da morte (“Venha agora, e será bem-vindo”), ou adorando a Deus, como se explica, Hebreus 11:21, dando graças a Deus por todos os seus favores.
E particularmente por este: que José estava pronto não só a pôr a mão sobre os seus olhos para fechá-los, mas debaixo da sua coxa, para lhe dar a satisfação que ele desejava a respeito do seu sepultamento.
Assim, os que descem ao pó devem, com humilde gratidão, inclinar-se diante de Deus, o Deus das suas misericórdias, Salmos 22:29.