Gênesis 46
Argumento
Jacó está aqui de mudança para o Egito na sua velhice, forçado para lá por uma fome e convidado para lá por um filho. Aqui está:
I. Deus o envia para lá, vv. 1-4.
II. Toda a sua família vai com ele, vv. 5-27.
III. José lhe dá as boas-vindas, vv. 28-34.
Versículos 1 a 4
Jacó Sacrifica em Berseba. (a.C. 1707.)
O preceito divino é: em todos os seus caminhos reconheça a Deus; e a promessa que lhe vem anexa é: “Ele dirigirá as tuas veredas”.
Jacó tem aqui diante de si uma questão de grande importância: não apenas uma viagem, mas também uma mudança para se estabelecer em outro país — virada que muito o surpreendeu (pois nunca pensara em outra coisa senão viver e morrer em Canaã) e que teria grandes consequências para a sua família por muito tempo ainda. Aqui, então, nos é dito:
I. Como ele reconheceu a Deus nesse caminho. Ele veio a Berseba, vindo de Hebrom, onde então morava; e ali ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaque, v. 1.
Escolheu aquele lugar em lembrança da comunhão que o seu pai e o seu avô tiveram com Deus naquele lugar. Abraão invocou a Deus ali (Gênesis 21:33), e Isaque também (Gênesis 26:25), e por isso Jacó fez dele o lugar da sua devoção, ainda mais porque ficava no seu caminho. Na sua devoção:
- Ele teve os olhos em Deus como o Deus de seu pai Isaque, isto é, um Deus em aliança com ele; pois foi por Isaque que a aliança lhe foi vinculada.
Deus tinha proibido Isaque de descer ao Egito quando havia fome em Canaã (Gênesis 26:2), o que talvez Jacó traga à memória ao consultar a Deus como o Deus de seu pai Isaque, com este pensamento: “Senhor, ainda que eu deseje muito ver José, ainda assim, se tu me proibires de descer ao Egito, como proibiste a meu pai Isaque, eu me submeterei e ficarei muito contente onde estou.”
- Ele ofereceu sacrifícios, sacrifícios extraordinários, além dos que oferecia nos seus tempos marcados; esses sacrifícios foram oferecidos:
(1.) A modo de ação de graças pela recente e abençoada virada na face da sua família, pelas boas novas que recebera a respeito de José e pelas esperanças que tinha de vê-lo.
Repare: devemos dar graças a Deus pelos começos da misericórdia, embora não estejam ainda aperfeiçoados; e esse é um modo decoroso de pedir mais misericórdia.
(2.) A modo de petição pela presença de Deus com ele na viagem que pretendia; ele desejava, por esses sacrifícios, fazer as pazes com Deus e obter o perdão do pecado, para que não levasse consigo culpa alguma nesta viagem, pois essa é má companheira.
Por Cristo, o grande sacrifício, temos de nos reconciliar com Deus e oferecer-lhe os nossos pedidos.
(3.) A modo de consulta. Os pagãos consultavam os seus oráculos por sacrifício. Jacó não quis ir enquanto não pedisse licença a Deus: “Devo descer ao Egito, ou voltar para Hebrom?”
Assim devem ser as nossas indagações nos casos duvidosos; e, embora não possamos esperar respostas diretas do céu, ainda assim, se nos aplicarmos com diligência às direções da palavra, da consciência e da providência, veremos que não é em vão pedir conselho a Deus.
II. Como Deus dirigiu as suas veredas: nas visões da noite (provavelmente na própria noite seguinte àquela em que ofereceu os seus sacrifícios, como em 2 Crônicas 1:7) Deus lhe falou, v. 2.
Repare: os que desejam manter a comunhão com Deus verão que ela nunca falha do lado dele. Se falamos com ele como devemos, ele não deixará de falar conosco.
Deus o chamou pelo nome, pelo seu nome antigo, “Jacó, Jacó”, para lembrá-lo da sua baixa condição; os seus temores presentes mal convinham a um Israel.
Jacó, como quem bem conhece as visões do Todo-Poderoso e está pronto a obedecê-las, responde: “Eis-me aqui, pronto para receber ordens”. E o que Deus tem a dizer a ele?
Ele renova a aliança com ele: “Eu sou Deus, o Deus de teu pai” (v. 3); isto é: “Eu sou aquilo que reconheces que sou: tu me acharás Deus, com sabedoria e poder divinos empenhados em teu favor; e me acharás o Deus de teu pai, fiel à aliança feita com ele.”
Ele o anima a fazer essa mudança da sua família: “Não temas descer ao Egito”.
Parece que, embora Jacó, à primeira notícia da vida e da glória de José no Egito, tivesse resolvido sem hesitação alguma: “Irei e o verei”; ainda assim, pensando melhor, viu nisso algumas dificuldades que não sabia bem como transpor.
Repare: até aquelas viradas que parecem ter em si as maiores alegrias e esperanças têm, ainda assim, uma liga de preocupações e temores, Nulla est sincera voluptas — não há prazer sem mistura.
Temos de sempre nos alegrar com tremor. Jacó teve muitos pensamentos cheios de preocupação a respeito desta viagem, nos quais Deus reparou.
(1.) Era velho, de 130 anos; e menciona-se como uma das enfermidades dos velhos que eles têm medo do que é alto, e que os temores estão no caminho, Eclesiastes 12:5.
Era uma longa viagem, e Jacó não estava apto para viajar, e talvez se lembrasse de que a sua amada Raquel morreu numa viagem.
(2.) Temia que os seus filhos se contaminassem com a idolatria do Egito e esquecessem o Deus de seus pais, ou se enamorassem dos prazeres do Egito e esquecessem a terra da promessa.
(3.) Provavelmente pensava no que Deus dissera a Abraão a respeito da servidão e da aflição da sua semente (Gênesis 15:13), e receava que a sua mudança para o Egito viesse a dar nisso.
As satisfações presentes não deveriam nos afastar da consideração e da previsão de inconvenientes futuros, que possivelmente podem surgir do que agora parece mais promissor.
(4.) Não conseguia pensar em deixar os seus ossos no Egito. Mas, quaisquer que fossem os seus desânimos, isto bastava para responder a todos eles: “Não temas descer ao Egito”.
- Ele lhe promete consolo na mudança:
(1.) Que ele se multiplicaria no Egito: “Ali, onde tu temes que a tua família afunde e se perca, eu farei dela uma grande nação. Esse é o lugar que a Sabedoria Infinita escolheu para o cumprimento daquela promessa.”
(2.) Que teria consigo a presença de Deus: “Eu descerei contigo ao Egito”.
Repare: os que vão para onde Deus os envia certamente terão a Deus consigo, e isso basta para pô-los a salvo onde quer que estejam e para silenciar os seus temores; podemos nos aventurar com segurança até no Egito, se Deus descer conosco.
(3.) Que nem ele nem os seus se perderiam no Egito: “Eu certamente te farei subir outra vez”.
Ainda que Jacó tivesse morrido no Egito, contudo esta promessa se cumpriu:
[1.] No fazer subir o seu corpo, para ser sepultado em Canaã, a respeito do que, ao que parece, ele estava muito preocupado, Gênesis 49:29, 32.
[2.] No fazer subir a sua semente, para ser estabelecida em Canaã.
Em qualquer vale baixo ou tenebroso a que em algum momento sejamos chamados, podemos estar confiantes de que, se Deus descer conosco a ele, certamente nos fará subir outra vez. Se ele descer conosco até a morte, certamente nos fará subir outra vez para a glória.
(4.) Que, na vida e na morte, o seu amado José lhe seria consolo: “José porá a sua mão sobre os teus olhos”.
É uma promessa de que José viveria enquanto ele vivesse, de que estaria com ele na sua morte e lhe fecharia os olhos com toda a ternura e o respeito possíveis, como costumavam fazer os parentes mais queridos.
Provavelmente Jacó, na multidão dos seus pensamentos dentro de si, vinha desejando que José lhe fizesse este último ofício de amor: Ille meos oculos comprimat — que ele feche os meus olhos; e Deus assim lhe respondeu na letra do seu desejo.
Assim Deus às vezes satisfaz os desejos inocentes do seu povo, e torna não só a morte deles feliz, mas também as próprias circunstâncias dela agradáveis.
Versículos 5 a 27
A Mudança de Jacó para o Egito. (a.C. 1706.)
O velho Jacó está aqui de mudança. Pouco lhe passou pela cabeça deixar Canaã algum dia; esperava, sem dúvida, morrer no seu ninho e deixar a sua semente na posse efetiva da terra prometida. Mas a Providência dispõe de outro modo.
Repare: aqueles que se julgam bem estabelecidos podem, ainda assim, ver-se desestabilizados em pouco tempo.
Até os velhos, que não pensam em outra mudança senão a da sepultura (o que Jacó muito trazia no seu coração, Gênesis 37:35; 42:38), às vezes vivem para ver grandes viradas na sua família.
É bom estar preparado, não só para a sepultura, mas também para o que quer que possa acontecer entre nós e a sepultura. Observe:
- Como Jacó foi transportado: não numa carruagem, embora carruagens fossem usadas então, mas numa carroça, v. 5.
Jacó tinha o caráter de um homem simples, que não ostentava nada de imponente ou magnífico; o seu filho andava de carruagem (Gênesis 41:43), mas uma carroça lhe servia.
- A mudança do que ele tinha consigo:
(1.) Os seus haveres (v. 6), gado e bens; estes ele levou consigo para não ficar inteiramente devendo a Faraó o seu sustento, e para que não se dissesse depois a respeito deles “que vieram como mendigos ao Egito”.
(2.) A sua família, toda a sua semente, v. 7. É provável que tivessem continuado a viver juntos, em comum com o seu pai; e por isso, quando ele foi, todos foram.
Talvez estivessem tanto mais dispostos a fazê-lo porque, embora tivessem ouvido que a terra de Canaã lhes estava prometida, contudo até este dia não tinham nada dela em posse.
Temos aqui um relato particular dos nomes da família de Jacó, os filhos dos seus filhos, a maior parte dos quais é mencionada depois como cabeças de casas nas diversas tribos. Veja Números 26:5, etc.
O bispo Patrick observa que Issacar chamou o seu filho mais velho de Tola, que significa um verme, provavelmente porque, ao nascer, era uma criança muito pequena e fraca, um verme, e não homem, sem probabilidade de viver; e no entanto brotou dele uma descendência muito numerosa, 1 Crônicas 7:2.
Repare: o viver e o morrer não vão por probabilidade.
O número total dos que desceram ao Egito foi de sessenta e seis (v. 26); a isso acrescente José e os seus dois filhos, que já estavam lá antes, e o próprio Jacó, o cabeça da família, e você tem o número de setenta, v. 27.
A LXX os faz setenta e cinco, e Estêvão os segue (Atos 7:14); o motivo disso deixamos à conjectura dos críticos. Mas observemos:
[1.] Os chefes de família devem zelar por todos os que estão a seu cargo e prover aos da sua própria casa alimento conveniente tanto para o corpo quanto para a alma.
Quando o próprio Jacó se mudou para uma terra de fartura, não quis deixar nenhum dos seus filhos para trás, a morrer de fome numa terra estéril.
[2.] Ainda que o cumprimento das promessas seja sempre certo, contudo muitas vezes é lento.
Havia agora 215 anos desde que Deus prometera a Abraão fazer dele uma grande nação (Gênesis 12:2); e ainda assim aquele ramo da sua semente sobre o qual a promessa estava vinculada tinha crescido apenas até setenta.
Desse número se guarda este relato particular, para que o poder de Deus em multiplicar esses setenta até uma multidão tão vasta, até mesmo no Egito, apareça tanto mais ilustre.
Quando Deus quer, “um pequeno virá a ser mil”, Isaías 60:22.
Versículos 28 a 34
O Encontro entre Jacó e José. (a.C. 1706.)
Temos aqui:
I. O feliz encontro entre Jacó e o seu filho José, no qual observe:
- A prudência de Jacó em enviar Judá adiante dele a José, para lhe dar notícia da sua chegada a Gósen. Isso era uma parte do respeito devido ao governo, sob cuja proteção esses estrangeiros tinham vindo pôr-se, v. 28.
Devemos ter muito cuidado para não ofender ninguém, especialmente não as autoridades superiores.
- O respeito filial de José para com ele. Foi na sua carruagem para se encontrar com ele e, no encontro, mostrou:
(1.) Quanto o honrava: “apresentou-se a ele”. Repare: é dever dos filhos reverenciar os seus pais, sim, ainda que a Providência, quanto à condição exterior, os tenha elevado acima dos seus pais.
(2.) Quanto o amava. O tempo não desgastou o sentimento das suas obrigações, mas as lágrimas que derramou abundantemente sobre o pescoço do seu pai, de alegria por vê-lo, eram indicações reais do afeto sincero e forte que tinha por ele.
Veja como a tristeza e a alegria estão perto uma da outra neste mundo, quando as lágrimas servem para exprimir as duas.
No outro mundo o choro ficará restrito só à tristeza; no céu há alegria perfeita, mas não há lágrimas de alegria: todas as lágrimas, até essas, serão ali enxugadas, porque as alegrias de lá são, como nenhuma alegria daqui é, sem nenhuma mistura.
Quando José abraçou Benjamim, chorou sobre o pescoço dele; mas quando abraçou o seu pai, chorou sobre o pescoço dele um bom tempo. O seu irmão Benjamim era caro, mas o seu pai Jacó devia ser mais caro.
- A grande satisfação de Jacó neste encontro: “Agora deixa-me morrer”, v. 30.
Não que não fosse ainda desejável viver com José e ver a honra e a utilidade dele; mas ele teve tanto prazer e satisfação neste primeiro encontro que julgou ser demais desejar ou esperar mais alguma coisa neste mundo, onde os nossos consolos têm de ser sempre imperfeitos.
Jacó desejou morrer logo, e viveu mais dezessete anos, o que, do jeito que correm as nossas vidas agora, é parte considerável da idade de um homem.
Repare: a morte nem sempre vem exatamente quando a chamamos, seja num arrebatamento de tristeza, seja num arrebatamento de alegria.
Os nossos tempos estão na mão de Deus, e não na nossa; temos de morrer exatamente quando a Deus apraz, e não justamente quando estamos saciados dos prazeres da vida, nem justamente quando estamos esmagados pelas suas dores.
II. O zelo prudente de José quanto ao estabelecimento dos seus irmãos. Era justiça para com Faraó fazê-lo saber que tal colônia tinha vindo estabelecer-se nos seus domínios.
Repare: se outros depositam confiança em nós, não devemos ser tão baixos e sem franqueza a ponto de abusar dela iludindo-os.
Se Jacó e a sua família viessem a ser um encargo para os egípcios, ainda assim nunca se poderia dizer que tinham entrado no meio deles clandestinamente e às escondidas.
Assim José zelou por prestar as suas homenagens a Faraó, v. 31. Mas como disporá dos seus irmãos?
Houve tempo em que eles maquinavam livrar-se dele; agora ele maquina estabelecê-los para a satisfação e o proveito deles: isso é pagar bem por mal. Ora:
- Ele queria que vivessem à parte, separados tanto quanto possível dos egípcios, na terra de Gósen, que era a mais próxima de Canaã, e que talvez fosse mais escassamente povoada pelos egípcios, e bem provida de pastagens para o gado.
Ele desejava que vivessem separadamente, para que corressem menos perigo, tanto de serem infectados pelos vícios dos egípcios quanto de serem insultados pela malícia dos egípcios.
Os pastores, ao que parece, eram abominação para os egípcios; isto é, olhavam para eles com desprezo e desdenhavam conviver com eles. E ele não mandaria buscar os seus irmãos para o Egito para serem pisados.
E, contudo, 2. Ele queria que continuassem pastores e que não se envergonhassem de reconhecer isso como a sua ocupação diante de Faraó.
Ele poderia tê-los empregado sob si mesmo no comércio do cereal, ou talvez, pela sua influência com o rei, pudesse ter conseguido lugares para eles na corte ou no exército; e alguns deles, ao menos, mereciam bastante.
Mas tais cargos os teriam exposto à inveja dos egípcios e os teriam tentado a esquecer Canaã e a promessa feita aos seus pais. Por isso ele maquina mantê-los no seu antigo emprego. Repare:
(1.) Uma vocação honesta não é desdouro, nem devemos considerá-la assim, nem em nós mesmos nem nos nossos parentes; devemos antes ter por vergonha estar ocioso, ou não ter nada que fazer.
(2.) De modo geral, é melhor para as pessoas permanecerem nas vocações em que foram criadas e às quais estão acostumadas, 1 Coríntios 7:24.
Qualquer que seja o emprego ou a condição que Deus, na sua providência, nos destinou, acomodemo-nos a ele e contentemo-nos com ele, e não cuidemos das coisas altas.
É melhor ser a honra de um posto humilde do que a vergonha de um posto elevado.