Gênesis 42
Argumento
No capítulo anterior tivemos o cumprimento dos sonhos que José havia interpretado; neste e nos capítulos seguintes temos o cumprimento dos sonhos que o próprio José havia sonhado: que a família de seu pai lhe prestaria homenagem.
A história do que se passou entre José e os seus irmãos é contada com muitos detalhes. Além de atraente e provavelmente muito comentada entre israelitas e egípcios, ela é instrutiva e deu ocasião à mudança da família de Jacó para o Egito, da qual dependeram depois tantos grandes acontecimentos. Temos, neste capítulo:
I. O pedido humilde dos filhos de Jacó a José para comprar trigo, vv. 1-6.
II. O susto em que José os pôs, para prová-los, vv. 7-20.
III. A consciência da culpa pelo pecado cometido contra José muito tempo antes, vv. 21-24.
IV. O retorno deles a Canaã com trigo e a grande angústia do seu bom pai ao ouvir o relato da viagem, v. 25, etc.
Versículos 1 a 5
Jacó Manda ao Egito Comprar Trigo. (a.C. 1706.)
Embora os filhos de Jacó fossem todos casados e tivessem famílias próprias, ao que parece continuavam unidos numa só comunidade sob a direção do pai. Temos aqui:
I. As ordens que ele lhes deu para irem comprar trigo no Egito, v. 1, 2. Observe:
- A fome era severa na terra de Canaã. É digno de nota que todos os três patriarcas, para quem Canaã era a terra da promessa, encontraram fome nessa terra, o que não era só para provar a fé deles, se podiam confiar em Deus ainda que ele os matasse, ainda que os fizesse passar fome, mas para ensiná-los a buscar “a pátria melhor, isto é, a celestial”, Hebreus 11:14-16.
Precisamos de algo que nos desmame deste mundo e nos faça ansiar por um melhor.
- Ainda assim, quando havia fome em Canaã, havia trigo no Egito. Assim a Providência ordena as coisas, para que um lugar seja socorro e suprimento para outro; porque somos todos irmãos.
Os egípcios, a semente do maldito Cam, têm fartura, quando o Israel abençoado de Deus tem falta: assim Deus, ao dispensar os favores comuns, muitas vezes cruza as mãos. Contudo, observe: a fartura que o Egito agora tinha se devia, sob a providência de Deus, à prudência e ao cuidado de José.
Se os seus irmãos não o tivessem vendido para o Egito, mas o tivessem respeitado segundo os seus méritos, quem sabe se ele não poderia ter feito pela família de Jacó a mesma coisa que agora fizera por Faraó, e os egípcios poderiam então ter vindo a eles comprar trigo? Mas os que expulsam do meio deles os homens sábios e bons não sabem o que fazem.
Jacó viu que havia trigo no Egito; viu o trigo que os seus vizinhos tinham comprado lá e trazido para casa. É um estímulo ao esforço ver onde há suprimentos e ver outros supridos. Outros conseguirão alimento para as suas almas, e nós morreremos de fome enquanto ele está à disposição?
Ele repreendeu os seus filhos por demorarem a prover trigo para as suas famílias: “Por que estais olhando uns para os outros?”
Repare: quando estamos em dificuldade e em falta, é loucura ficarmos olhando uns para os outros, isto é, ficarmos desanimados e desesperados, como se não houvesse esperança nem socorro.
É loucura ficarmos disputando ou quem terá a honra de ir primeiro ou quem terá a segurança de vir por último; ficarmos deliberando e debatendo o que faremos, e não fazendo nada; ficarmos sonhando sob um espírito de sono, como se não tivéssemos nada que fazer, e ficarmos demorando, como se tivéssemos o tempo à nossa disposição.
Que nunca se diga: “Deixamos para amanhã aquilo que poderíamos igualmente ter feito hoje.”
- Ele os incentivou a ir ao Egito: “Descei para lá.” Os chefes de família não devem só orar pelo pão de cada dia e pelo alimento adequado, mas empenhar-se com cuidado e diligência para provê-lo às suas famílias.
II. A obediência deles a essas ordens, v. 3. Desceram para comprar trigo; não mandaram os seus servos, mas foram eles mesmos, com muita prudência, gastar o próprio dinheiro.
Que ninguém se julgue grande demais nem bom demais para dar-se ao trabalho. Os chefes de família devem ver com os próprios olhos e guardar-se de deixar coisas demais para os servos. Só Benjamim não foi com eles, porque era o querido do pai.
Eles chegaram ao Egito junto com outras pessoas e, como pretendiam comprar uma quantidade considerável de trigo, foram levados diante do próprio José, que provavelmente esperava que viessem. Conforme as regras da cortesia, inclinaram-se diante dele, v. 6.
Agora os feixes vazios deles prestavam homenagem ao feixe cheio dele. Compare isto com Isaías 60:14 e Apocalipse 3:9.
Versículos 7 a 20
José Fala com Aspereza aos Seus Irmãos. (a.C. 1706.)
Podemos muito bem estranhar que José, durante os vinte anos em que já estava no Egito, e especialmente durante os últimos sete anos em que esteve no poder ali, nunca tenha mandado notícia ao pai para informá-lo da sua situação.
Mais que isso: é estranho que aquele que tantas vezes percorreu toda a terra do Egito (Gênesis 41:45, 46) nunca tenha feito uma excursão a Canaã para visitar o pai idoso, quando estava nas fronteiras do Egito, que ficavam junto a Canaã.
Talvez não tivesse sido mais de três ou quatro dias de viagem para ele no seu carro. É conjectura provável que toda a sua conduta neste caso tenha sido por direção especial do Céu, para que o propósito de Deus a respeito de Jacó e da sua família se cumprisse.
Quando os irmãos de José chegaram, ele os reconheceu por muitos sinais satisfatórios, mas eles não o reconheceram, longe de pensar que o encontrariam ali, v. 8. Ele se lembrou dos sonhos (v. 9), mas eles os tinham esquecido.
Guardar os oráculos de Deus no nosso coração nos será de excelente utilidade em toda a nossa conduta.
José tinha os olhos nos seus sonhos, que sabia serem divinos, no seu trato com os irmãos, e visava ao cumprimento deles e a levar os irmãos ao arrependimento dos seus pecados de antes; e os dois pontos foram alcançados.
I. Ele se mostrou muito rigoroso e duro com eles. O próprio modo de falar dele, considerando o posto que ocupava, bastava para assustá-los; pois ele lhes falou com aspereza, v. 7.
Acusou-os de maus desígnios contra o governo (v. 9), tratou-os como pessoas perigosas, dizendo: “Vós sois espias”, e protestando pela vida de Faraó que eles o eram, v. 16.
Alguns fazem disso um juramento, outros não fazem disso mais que uma asseveração veemente, como aquela: “assim como vive a tua alma”; de todo modo era mais que “sim, sim” e “não, não”, e por isso vinha do mal.
Repare: as más palavras se aprendem depressa pelo convívio com quem as usa, mas não se desaprendem tão depressa.
José, por estar muito na corte, pegou o juramento do cortesão, “Pela vida de Faraó”, talvez tencionando com isso confirmar os irmãos na crença de que ele era egípcio, e não israelita.
Eles sabiam que essa não era a linguagem de um filho de Abraão. Quando Pedro quis provar que não era discípulo de Cristo, praguejou e jurou.
Ora, por que José foi assim duro com os irmãos? Podemos ter certeza de que não foi por espírito de vingança, para agora pisar aqueles que antes o tinham pisado; ele não era homem desse temperamento. Mas:
Era para enriquecer os seus próprios sonhos e completar o cumprimento deles.
Era para levá-los ao arrependimento.
Era para arrancar deles um relato do estado da sua família, que ele ansiava por saber: eles o teriam descoberto se ele tivesse perguntado como amigo, por isso pergunta como juiz.
Não vendo o irmão Benjamim com eles, talvez tenha começado a suspeitar que também o tivessem eliminado, e por isso lhes dá ocasião de falar do pai e do irmão.
Repare: Deus, na sua providência, às vezes parece duro com aqueles a quem ama, e fala com aspereza àqueles para quem, contudo, tem grande misericórdia reservada.
II. Eles, diante disso, foram muito submissos. Falaram-lhe com todo o respeito imaginável: “Não, senhor meu” (v. 10) — grande mudança desde que disseram: “Eis que vem este sonhador”.
Negam a acusação com toda a modéstia: “Não somos espias”. Contam-lhe o motivo da viagem: vieram comprar alimento, uma razão legítima e a mesma que levava muitos estrangeiros ao Egito naquele tempo.
Comprometem-se a dar o relato pormenorizado de si mesmos e da sua família (v. 13), e era isto que ele queria.
III. Ele os meteu todos na prisão por três dias, v. 17. É assim que Deus trata as almas que destina a consolo e honra especiais: primeiro as humilha, e as aterroriza, e as põe debaixo de um espírito de escravidão, e depois lhes ata as feridas pelo Espírito de adoção.
IV. Ele concluiu com eles, por fim, que um deles ficaria como refém e os demais iriam para casa buscar Benjamim.
Foi palavra muito animadora a que ele lhes disse (v. 18): “Eu temo a Deus”; como se dissesse: “Podem ter certeza de que não lhes farei nenhuma injustiça; não me atrevo, pois sei que, por mais alto que eu esteja, há um mais alto do que eu.”
Repare: com os que temem a Deus temos razão de esperar trato justo. O temor de Deus será um freio sobre os que estão no poder, para impedi-los de abusar do seu poder para a opressão e a tirania.
Aqueles que não têm mais ninguém a quem reverenciar devem ter reverência diante da própria consciência. Veja Neemias 5:15: “assim não fiz eu, por causa do temor de Deus”.
Versículos 21 a 28
As Reflexões dos Irmãos de José. (a.C. 1706.)
Aqui está:
I. A reflexão penitente que os irmãos de José fizeram sobre a injustiça que antes lhe tinham feito, v. 21. Eles conversaram sobre o assunto na língua hebraica, sem suspeitar que José, a quem tomavam por natural do Egito, os entendesse, e muito menos que fosse ele a pessoa de quem falavam.
- Eles se lembraram com pesar da crueldade bárbara com que o perseguiram: “Na verdade, somos culpados a respeito do nosso irmão.”
Não lemos que tenham dito isto durante os três dias em que estiveram presos; mas agora, quando o assunto já tinha chegado a algum desfecho e eles se viam ainda em embaraço, agora começaram a abrandar-se.
Talvez a menção que José fez do temor de Deus (v. 18) os tenha levado a refletir e arrancado deles esta reflexão. Veja agora aqui:
(1.) O ofício da consciência: ela é lembradora, que traz à mente coisas ditas e feitas muito tempo atrás, para nos mostrar em que erramos, ainda que tenha sido há muito, como a reflexão aqui mencionada, mais de vinte anos depois de cometido o pecado.
Assim como o tempo não gasta a culpa do pecado, também não apaga os registros da consciência. Quando a culpa deste pecado dos irmãos de José estava fresca, eles fizeram pouco caso dela e sentaram-se para comer pão; mas agora, muito tempo depois, as suas consciências os fizeram lembrar dela.
(2.) O benefício das aflições: elas muitas vezes se mostram meios felizes e eficazes de despertar a consciência e de trazer o pecado à nossa lembrança, Jó 13:26.
(3.) O mal da culpa a respeito dos nossos irmãos: de todos os seus pecados, foi este que a consciência agora lhes censurava. Sempre que pensamos que nos fizeram injustiça, devemos lembrar a injustiça que fizemos a outros, Eclesiastes 7:21, 22.
- Só Rúben se lembrou, com consolo, de que tinha sido advogado do seu irmão e de que tinha feito o que podia para impedir o dano que lhe fizeram (v. 22): “Não vos falei eu, dizendo: Não pequeis contra o menino?” Repare:
(1.) É agravante de qualquer pecado ter sido cometido contra advertências.
(2.) Quando viermos a compartilhar com outros as suas calamidades, será um consolo para nós ter o testemunho da nossa consciência de que não compartilhamos com eles as suas iniquidades, mas que, cada um no seu lugar, testemunhamos contra elas.
Isso será o nosso regozijo no dia mau, e tirará o aguilhão.
II. A ternura de José para com eles nesta ocasião. Ele se retirou deles para chorar, v. 24.
Embora a sua razão mandasse que continuasse a portar-se como estranho diante deles, porque ainda não estavam humilhados o bastante, o afeto natural não podia deixar de agir, porque ele era homem de espírito terno.
Isto representa as ternas misericórdias do nosso Deus para com os pecadores que se arrependem. Veja Jeremias 31:20: “Desde que falei contra ele, ainda me lembro dele com ardor.” Veja Juízes 10:16.
III. A prisão de Simeão, v. 24. Ele o escolheu para refém provavelmente porque se lembrava de que tinha sido o seu inimigo mais amargo, ou porque observava que ele agora era o menos humilhado e o menos tocado.
Amarrou-o diante dos olhos deles para comover a todos eles; ou talvez se dê a entender que, embora o tenha amarrado com alguma severidade diante deles, depois, quando eles se foram, tirou-lhe as amarras.
IV. A liberação dos demais. Eles vieram por trigo, e trigo tiveram; e não só isso, mas cada um teve o seu dinheiro devolvido na boca do seu saco.
Assim Cristo, o nosso José, distribui suprimentos sem dinheiro e sem preço. Por isso os pobres são convidados a comprar, Apocalipse 3:17, 18.
Isso os lançou numa grande consternação (v. 28): “O coração lhes desfaleceu, e temeram, dizendo uns aos outros: Que é isto que Deus nos fez?”
- Foi realmente um acontecimento misericordioso; porque espero que nenhuma injustiça lhes tenha sido feita quando o seu dinheiro lhes foi devolvido, e sim uma bondade; e no entanto ficaram assim aterrorizados com aquilo. Repare:
(1.) As consciências culpadas tendem a tomar as boas providências em mau sentido, e a dar interpretação errada até àquelas coisas que jogam a favor delas. Elas fogem sem que ninguém as persiga.
(2.) A riqueza às vezes traz consigo tanto cuidado quanto a falta traz, e ainda mais. Se tivessem sido roubados do seu dinheiro, não poderiam ter ficado mais assustados do que ficaram agora, ao encontrar o seu dinheiro nos sacos.
Assim aquele cujo campo produziu com abundância disse: “Que farei?” Lucas 12:17.
- Contudo, nas circunstâncias deles, foi coisa muito espantosa. Eles sabiam que os egípcios abominavam os hebreus (Gênesis 43:32), e por isso, não podendo esperar receber deles nenhuma bondade, concluíram que aquilo fora feito com o propósito de arranjar um motivo para acusá-los, e tanto mais porque o homem, o senhor da terra, os havia acusado de espias.
As suas próprias consciências também estavam despertas, e os seus pecados postos em ordem diante deles; e isso os lançou em confusão. Repare:
(1.) Quando o ânimo dos homens está afundando, tudo ajuda a afundá-lo.
(2.) Quando os acontecimentos da Providência a nosso respeito são surpreendentes, é bom indagar o que é que Deus fez e está fazendo conosco, e considerar a operação das suas mãos.
Versículos 29 a 38
O Relato Feito a Jacó. (a.C. 1706.)
Aqui está:
- O relato que os filhos de Jacó fizeram ao pai da grande angústia em que tinham estado no Egito; como tinham sido tidos por suspeitos, e ameaçados, e obrigados a deixar Simeão preso ali, até que levassem Benjamim consigo até lá.
Quem teria pensado nisso quando saíram de casa? Quando viajamos, devemos considerar quantos acontecimentos tristes, nos quais mal pensamos, podem nos suceder antes de voltarmos. Não sabemos o que um dia pode trazer; por isso devemos estar sempre prontos para o pior.
- A impressão profunda que isto fez no bom homem:
Os próprios pacotes de dinheiro que José devolveu, por bondade para com o pai, o assustaram (v. 35); pois concluiu que aquilo fora feito com algum propósito malicioso, ou talvez suspeitou que os próprios filhos tivessem cometido alguma ofensa e assim se sujeitado a uma pena, um præmunire. É o que se insinua no que ele diz (v. 36): “A mim me desfilhastes.”
Ele parece lançar a culpa sobre eles; conhecendo o caráter deles, temia que tivessem provocado os egípcios e, talvez à força, ou por fraude, trazido para casa o seu dinheiro. Jacó está aqui muito perturbado:
(1.) Ele forma ideias muito melancólicas a respeito do estado presente da sua família: “José não existe, e Simeão não existe”, quando na verdade José estava em honra e Simeão a caminho dela.
Repare: muitas vezes nos atormentamos com os nossos próprios enganos, até em matéria de fato. Dores verdadeiras podem nascer de informações e suposições falsas, 2 Samuel 13:31.
Jacó dá José por perdido, e Simeão e Benjamim por estarem em perigo; e conclui: “Todas estas coisas são contra mim.” O contrário se confirmou: todas elas eram a favor dele e cooperavam para o seu bem e para o bem da sua família; contudo, aqui ele as julga todas contra si.
Repare: pela nossa ignorância e engano, e pela fraqueza da nossa fé, muitas vezes formamos a ideia de que está contra nós aquilo que na verdade está a nosso favor. Somos afligidos no corpo, nos bens, no nome e nas relações; e pensamos que todas estas coisas são contra nós, quando na verdade elas operam para nós o peso de glória.
(2.) Por ora ele está resolvido a que Benjamim não desça. Rúben se compromete a trazê-lo de volta em segurança (v. 37), sem sequer inserir: “Se o Senhor quiser”, nem contar com os desastres comuns dos viajantes.
Mas tolamente manda que Jacó mate os dois filhos dele (dos quais, é provável, ele muito se orgulhava) se não o trouxer de volta; como se a morte de dois netos pudesse satisfazer Jacó pela morte de um filho.
Não: os pensamentos presentes de Jacó são: “Meu filho não descerá convosco.” Ele insinua claramente uma desconfiança deles, lembrando que nunca mais viu José desde que ele estivera com eles; por isso: “Benjamim não irá convosco, pelo caminho por que ides, porque fareis descer as minhas cãs com tristeza à sepultura.”
Repare: vai mal a família quando os filhos se conduzem tão mal que os pais não sabem como confiar neles.