Matthew Henry

Gênesis 41

Argumento

Duas coisas a Providência está aqui realizando:

I. A elevação de José.

II. O sustento de Jacó e da sua família num tempo de fome; pois os olhos do Senhor correm de um lado para outro por toda a terra e dirigem os assuntos dos filhos dos homens em benefício daqueles poucos cujo coração é reto com ele.

Com vistas a isso, temos aqui:

  1. Os sonhos de Faraó, vv. 1-8.

  2. A recomendação de José a ele como intérprete, vv. 9-13.

  3. A interpretação dos sonhos e a predição de sete anos de fartura e de sete anos de fome no Egito, com o conselho prudente dado a Faraó em consequência disso, vv. 14-36.

  4. A ascensão de José a um cargo do mais alto poder e da mais alta confiança no Egito, vv. 37-45.

  5. O cumprimento da predição de José e a sua fidelidade à confiança nele depositada, v. 46, etc.

Versículos 1 a 8

O Sonho Portentoso de Faraó. (a.C. 1715.)

Observe:

  1. O adiamento da soltura de José. Só veio ao fim de dois anos completos (v. 1); tanto tempo ele esperou depois de ter confiado o seu caso ao chefe dos copeiros e de começar a ter alguma perspectiva de alívio.

Repare: precisamos de paciência, não só a de suportar, mas a de esperar. José ficou na prisão “até o tempo em que veio a sua palavra”, Salmos 105:19.

Há um tempo marcado para a libertação do povo de Deus; esse tempo virá, ainda que pareça tardar; e, quando vier, parecerá ter sido o melhor tempo, e por isso devemos esperar por ele (Habacuque 2:3), e não achar que dois anos completos são demais para continuar esperando.

  1. Os meios da soltura de José, que foram os sonhos de Faraó, aqui relatados.

Se fôssemos olhá-los como sonhos comuns, poderíamos observar neles as tolices e os absurdos de uma imaginação errante e ativa: como ela representa a si mesma vacas mansas como feras (ou melhor, mais vorazes que quaisquer outras, comendo as da própria espécie), e espigas de cereal devorando umas às outras.

Certamente “na multidão de sonhos” — ou melhor, mesmo num sonho só — “há diversas vaidades”, Eclesiastes 5:7.

Agora que Deus já não nos fala desse modo, penso que não importa quão pouco lhes demos atenção ou os contemos. Sonhos tolos, relatados, não podem dar nada melhor que conversa tola.

Mas estes sonhos que Faraó sonhou traziam em si a própria evidência de que eram enviados de Deus; e por isso, quando despertou, “o seu espírito estava perturbado”, v. 8.

Não pode deixar de nos pôr em apreensão receber alguma mensagem extraordinária do céu, porque temos consciência em nós mesmos de que não temos razão para esperar dali boas-novas.

Os seus magos ficaram perplexos, as regras da arte deles lhes falharam: estes sonhos de Faraó, ao que parece, não caíam no alcance delas, de modo que não podiam arriscar a interpretação deles.

Isso era para tornar tanto mais admirável o desempenho de José pelo Espírito de Deus. A razão, a prudência e a previsão humanas têm de ficar sem saída, para que a revelação divina apareça tanto mais gloriosa na concepção da nossa redenção, 1 Coríntios 2:13, 14. Compare com esta história Daniel 2:27; 4:7; 5:8.

Os próprios sonhos de José foram a ocasião dos seus males, e agora os sonhos de Faraó foram a ocasião da sua soltura.

Versículos 9 a 16

José Levado à Presença de Faraó. (a.C. 1715.)

Aqui está:

  1. A recomendação de José a Faraó como intérprete:

O chefe dos copeiros o fez mais por formalidade para com Faraó, para agradar-lhe, do que por gratidão a José ou por compaixão do caso dele.

Ele faz uma bela confissão (v. 9): “Lembro-me hoje das minhas faltas”, no que toca a ter-se esquecido de José.

Repare: o melhor é lembrar do nosso dever e cumpri-lo no seu tempo; mas, se descuidamos disso, o segundo melhor é lembrar das nossas faltas, arrepender-nos delas e cumprir enfim o nosso dever. Antes tarde do que nunca.

Alguns pensam que ele se refere às suas faltas contra Faraó, pelas quais fora preso; e então estaria insinuando que, embora Faraó o tivesse perdoado, ele não tinha perdoado a si mesmo.

A história que ele tinha para contar era, em suma, esta: Que havia na prisão do rei um jovem obscuro que interpretara com toda a propriedade o sonho dele e o do chefe dos padeiros — o desfecho correspondendo em cada caso à interpretação —, e que ele o recomendaria ao rei, seu senhor, como intérprete.

Repare: o tempo de Deus para a soltura do seu povo parecerá afinal ser o tempo mais adequado.

Se o chefe dos copeiros tivesse desde o início empregado a sua influência para a soltura de José, e a tivesse obtido, é provável que, uma vez solto, ele tivesse voltado outra vez para a terra dos hebreus, de que falou com tanto sentimento (Gênesis 40:15), e então nem teria sido ele mesmo tão abençoado, nem tamanha bênção para a sua família, como depois se mostrou.

Mas, ficando dois anos a mais e saindo agora nesta ocasião, enfim, para interpretar os sonhos do rei, abriu-se caminho para que ocupasse um cargo muito elevado.

Aqueles que esperam pacientemente por Deus serão pagos pela sua espera, não só o principal, mas os juros, Lamentações 3:26.

  1. A apresentação de José a Faraó:

O negócio do rei exige pressa. José é mandado buscar no calabouço com toda a velocidade; a ordem de Faraó o livrou tanto da sua prisão quanto da sua servidão, e fez dele candidato a alguns dos mais altos cargos de confiança na corte.

O rei mal lhe pode conceder tempo — não fosse a decência exigi-lo — para se barbear e trocar de roupa, v. 14.

Tudo se faz com toda a presteza possível, e José é trazido, talvez quase tão surpreso quanto Pedro esteve, Atos 12:9.

Tão repentinamente teve fim o seu cativeiro que ele é como alguém que sonha, Salmos 126:1.

Faraó, diretamente, sem indagar quem ele era nem de onde vinha, diz-lhe o seu negócio: que esperava que ele interpretasse o seu sonho, v. 15.

A isso José lhe dá uma resposta muito modesta e decorosa (v. 16), na qual:

(1.) Ele dá honra a Deus: “Não está em mim”; Deus deve dar a interpretação.

Repare: os grandes dons parecem mais graciosos e ilustres quando aqueles que os têm os usam com humildade e não tomam para si o louvor deles, mas o dão a Deus. A tais Deus dá mais graça.

(2.) Ele mostra respeito a Faraó e cordial boa vontade para com ele e para com o seu governo, ao supor que a interpretação seria uma resposta de paz.

Repare: aqueles que consultam os oráculos de Deus podem esperar uma resposta de paz. Se José for feito o intérprete, espere o melhor.

Versículos 17 a 32

José Interpreta o Sonho de Faraó. (a.C. 1715.)

Aqui, I. Faraó relata o seu sonho. Ele sonhou que estava de pé na margem do rio Nilo e viu as vacas, tanto as gordas quanto as magras, saírem do rio.

Pois o reino do Egito não tinha chuva, como parece, Zacarias 14:18, mas a fartura do ano dependia da cheia do rio, e era por volta de uma certa época do ano que ele transbordava.

Se ele subia a quinze ou dezesseis côvados, havia fartura; se apenas a doze ou treze, ou abaixo disso, havia escassez.

Veja quantos modos a Providência tem de dispensar os seus dons; contudo, quaisquer que sejam as causas segundas, continuamos igualmente dependentes da Causa Primeira, que faz de cada criatura, para nós, aquilo que ela é, seja chuva ou rio.

II. José interpreta o seu sonho e lhe diz que ele significava sete anos de fartura, que agora se seguiriam imediatamente, aos quais sucederiam outros tantos anos de fome. Observe:

  1. Os dois sonhos significavam a mesma coisa, mas a repetição servia para denotar a certeza, a proximidade e a importância do desfecho, v. 32. Assim Deus muitas vezes mostrou a “imutabilidade do seu conselho” por “duas coisas imutáveis”, Hebreus 6:17, 18.

A aliança é selada com dois sacramentos; e num deles há tanto pão quanto vinho, em que o sonho é um só e, ainda assim, é dobrado, porque a coisa é certa.

  1. Ainda assim, os dois sonhos tinham referência distinta às duas coisas em que mais experimentamos fartura e escassez, a saber, o pasto e o cereal.

A fartura e a escassez de pasto para o gado eram significadas pelas vacas gordas e pelas magras; a fartura e a escassez de erva para o serviço do homem, pelas espigas cheias e pelas mirradas.

  1. Veja a que mudanças estão sujeitos os confortos desta vida. Depois de grande fartura pode vir grande escassez; por mais firme que julguemos estar o nosso monte, se Deus disser a palavra, ele logo será removido.

Não podemos ter certeza de que “amanhã será como este dia”, o ano que vem como este, “e muito mais abundante”, Isaías 56:12. Temos de aprender a passar falta, assim como a ter abundância.

  1. Veja a bondade de Deus em enviar os sete anos de fartura antes dos de fome, para que a provisão pudesse ser feita em conformidade. Assim ele põe uma coisa em oposição à outra, Eclesiastes 7:14.

Com que sabedoria admirável a Providência, essa grande administradora da casa, ordenou os assuntos desta família numerosa desde o princípio até aqui!

Grande variedade de estações tem havido, e o produto da terra é às vezes mais e às vezes menos; contudo, tomando um tempo com outro, o que era miraculoso a respeito do maná se verifica de ordinário no curso comum da Providência: aquele que ajunta muito nada tem de sobra, e aquele que ajunta pouco não tem falta, Êxodo 16:18.

  1. Veja a natureza perecível dos nossos gozos deste mundo. O grande aumento dos anos de fartura foi inteiramente perdido e engolido nos anos de fome; e o excedente dele, que parecia muitíssimo, contudo mal serviu para manter os homens vivos, vv. 29-31.

“Os alimentos são para o ventre, e o ventre para os alimentos; mas Deus destruirá tanto este quanto aqueles”, 1 Coríntios 6:13. Há um pão que dura para a vida eterna, que não será esquecido e pelo qual vale a pena trabalhar, João 6:27.

Aqueles que fazem das coisas deste mundo os seus bens acharão só pouco prazer em lembrar que os receberam, Lucas 16:25.

  1. Observe: Deus revelou isto de antemão a Faraó, que, como rei do Egito, devia ser o pai do seu país e fazer provisão prudente para eles. Os magistrados são chamados de pastores, e o cuidado deles deve ser não só governar, mas alimentar.

Versículos 33 a 45

A Exaltação de José. (a.C. 1715.)

Aqui está:

I. O bom conselho que José deu a Faraó, que foi:

  1. Que nos anos de fartura ele armazenasse para os anos de fome, comprando cereal enquanto estava barato, para que pudesse tanto enriquecer a si mesmo quanto abastecer o país quando ele estivesse caro e escasso.

Repare: o aviso claro deve sempre ser seguido de bom conselho. Por isso o homem prudente prevê o mal, para que possa esconder-se.

Deus nos disse na sua palavra que há diante de nós um dia de provação e de aperto, quando precisaremos de toda a graça que pudermos obter, e ainda será pouca: “Agora, portanto, providencie de acordo.”

Repare ainda: os tempos de ajuntar devem ser diligentemente aproveitados, porque virá um tempo de gastar. Vamos à formiga e aprendamos dela esta sabedoria, Provérbios 6:6-8.

  1. Porque aquilo que é trabalho de todos comumente se mostra trabalho de ninguém, ele aconselha Faraó a designar oficiais que façam disso o seu negócio, e a escolher uma pessoa só para presidir ao assunto, v. 33.

Provavelmente, se José não tivesse aconselhado isto, não teria sido feito; os conselheiros de Faraó não podiam aproveitar o sonho mais do que os seus magos podiam interpretá-lo.

Por isso se diz dele (Salmos 105:22) que ensinava sabedoria aos senadores. Daqui podemos justamente inferir, com Salomão (Eclesiastes 4:13): “Melhor é o menino pobre e sábio do que o rei velho e insensato.”

II. A grande honra que Faraó fez a José:

  1. Ele lhe deu um testemunho honroso: ele é “um homem em quem está o Espírito de Deus”; e isto põe uma grande excelência sobre qualquer homem. Tais homens devem ser tidos em valor, v. 38.

Ele é sem igual em prudência: “Não há ninguém tão avisado e sábio como tu”, v. 39. Agora ele é abundantemente recompensado pela desonra que lhe tinham feito, e a sua justiça é como a luz da manhã, Salmos 37:6.

  1. Ele o pôs num cargo honroso: não só o empregou para comprar cereal, mas fez dele primeiro-ministro de Estado, intendente da casa real — “Tu estarás sobre a minha casa” —, juiz supremo do reino — “conforme a tua palavra será governado todo o meu povo”, ou armado, como alguns leem, e então isso o designa general das forças.

A sua comissão era amplíssima: “Eu te pus sobre toda a terra do Egito” (v. 41); “sem ti ninguém levantará a mão ou o pé” (v. 44); todos os assuntos do reino tinham de passar pela sua mão. Ou melhor (v. 40): “somente no trono serei maior que tu.”

Repare: é sabedoria dos príncipes promover, e felicidade do povo ter promovidos a lugares de poder e de confiança, aqueles em quem está o Espírito de Deus.

É provável que houvesse na corte quem se opusesse à nomeação de José para o cargo, o que levou Faraó a repetir tantas vezes a concessão, e com aquela solene sanção (v. 44): “Eu sou Faraó.”

Quando se fez a proposta de que se nomeasse um superintendente-geral do cereal, diz-se (v. 37) que os servos de Faraó ficaram todos satisfeitos com a proposta, cada um esperando o cargo para si.

Mas quando Faraó lhes disse: “José será o homem”, não lemos que lhe tenham dado resposta alguma, incomodados com aquilo e conformando-se apenas porque não podiam evitá-lo.

José tinha inimigos, sem dúvida, flecheiros que atiravam contra ele e o odiavam (Gênesis 49:23), como Daniel, Daniel 6:4.

  1. Ele pôs sobre ele todas as marcas de honra imagináveis, para recomendá-lo à estima e ao respeito do povo como favorito do rei, e alguém a quem ele se comprazia em honrar.

(1.) Deu-lhe o seu próprio anel, como ratificação da sua comissão e em sinal de favor peculiar; ou foi como entregar-lhe o grande selo.

(2.) Vestiu-o de roupas esmeradas, em lugar das suas vestes de prisão. Pois os que estão nos palácios dos reis devem trajar roupas macias.

Aquele que, de manhã, arrastava os seus grilhões de ferro, antes da noite estava adornado com uma corrente de ouro.

(3.) Fê-lo andar no segundo carro depois do seu, e ordenou a todos que lhe prestassem homenagem: “Dobrai o joelho, como ao próprio Faraó.”

(4.) Deu-lhe um novo nome, para mostrar a sua autoridade sobre ele, e ainda assim um nome que exprimia o valor que lhe dava: Zafenate-Paneia — Revelador de segredos.

(5.) Casou-o honrosamente com a filha de um príncipe. Onde Deus tinha sido liberal em dar sabedoria e outros méritos, Faraó não foi mesquinho em conferir honras.

Ora, a ascensão de José a esse cargo foi:

[1.] Uma abundante recompensa pelo seu sofrimento inocente e paciente, um exemplo duradouro da equidade e da bondade da Providência, e uma fonte de ânimo para todas as pessoas boas confiarem num Deus bom.

[2.] Foi figura da exaltação de Cristo, aquele grande revelador de segredos (João 1:18), ou, como alguns traduzem o novo nome de José, o Salvador do mundo.

As mais brilhantes glórias do mundo superior são postas sobre ele, a mais alta confiança está depositada na sua mão, e todo o poder lhe é dado tanto no céu quanto na terra.

Ele é o que ajunta, o que guarda e o que dispõe de todos os depósitos da graça divina, e o principal governante do reino de Deus entre os homens.

O trabalho dos ministros é clamar diante dele: “Dobrai o joelho; beijai o Filho.”

Versículos 46 a 57

A Fome no Egito e em Canaã. (a.C. 1706.)

Observe aqui: I. A edificação da família de José no nascimento de dois filhos, Manassés e Efraim, vv. 50-52.

Nos nomes que lhes deu, ele reconheceu a divina Providência, que deu esse rumo feliz aos seus assuntos:

  1. Ele foi levado a esquecer a sua miséria, Jó 11:16. Devemos suportar as nossas aflições enquanto estão presentes, como quem não sabe se a Providência não as compensará de tal modo com consolos posteriores que possamos até esquecê-las quando estiverem passadas.

Mas poderia ele ser tão desnaturado a ponto de esquecer toda a casa do seu pai? Ele se refere à falta de bondade que recebeu dos seus irmãos, ou talvez à riqueza e à honra que esperava do seu pai, com o direito de primogenitura.

As vestes que agora usava lhe faziam esquecer a túnica de várias cores que usava na casa do seu pai.

  1. Ele foi feito frutífero na terra da sua aflição. Tinha sido a terra da sua aflição, e em certo sentido ainda o era, pois não era Canaã, a terra da promessa. O seu afastamento do pai ainda era a sua aflição.

Repare: a luz às vezes é semeada para o justo em solo estéril e improvável; e, contudo, se Deus a semeia e a rega, ela tornará a brotar. As aflições dos santos promovem a frutificação deles.

Efraim significa frutificação, e Manassés, esquecimento, pois estes dois muitas vezes andam juntos: quando Jesurum engordou, esqueceu-se de Deus, o seu Criador.

II. O cumprimento das predições de José. Faraó tinha grande confiança na verdade delas, achando talvez na sua própria mente, mais do que outra pessoa poderia, uma correspondência exata entre elas e os seus sonhos, como entre a chave e a fechadura; e o desfecho mostrou que ele não foi enganado.

Os sete anos de fartura vieram (v. 47) e, por fim, se acabaram, v. 53. Repare: devemos prever o fim que se aproxima dos dias tanto da nossa prosperidade quanto da nossa oportunidade, e por isso não devemos nos acomodar no gozo da nossa prosperidade nem ser preguiçosos no aproveitamento da nossa oportunidade.

Os anos de fartura acabarão; portanto, “tudo quanto a tua mão achar para fazer, faze-o”; e ajunte no tempo de ajuntar. “Vem a manhã, e também a noite” (Isaías 21:12): a fartura, e também a fome.

Os sete anos de carestia começaram a vir, v. 54. Veja a que mudanças de condição estamos sujeitos neste mundo, e quanta necessidade temos de estar alegres no dia da prosperidade e, no dia da adversidade, de considerar, Eclesiastes 7:14.

Esta fome, ao que parece, não foi só no Egito, mas em outras terras, em todas as terras, isto é, em todos os países vizinhos; as terras frutíferas logo se tornam em esterilidade pela iniquidade dos que nelas habitam, Salmos 107:34.

Diz-se aqui que na terra do Egito havia pão, querendo dizer provavelmente não só o que José havia comprado para o rei, mas o que os particulares, pelo exemplo dele e pelo aviso público desta predição, bem como pelas regras da prudência comum, haviam armazenado.

III. O desempenho da confiança depositada em José. Ele foi achado fiel a ela, como deve ser um mordomo:

  1. Ele foi diligente em armazenar enquanto durou a fartura, v. 48, 49. Quem assim ajunta é filho sábio.

  2. Ele foi prudente e cuidadoso em distribuir quando veio a fome, e manteve os preços baixos, abastecendo os mercados a preços razoáveis com os seus depósitos.

O povo em angústia clamou a Faraó, como aquela mulher ao rei de Israel (2 Reis 6:26): “Socorre, meu senhor, ó rei”. Ele os enviou ao seu tesoureiro: “Ide a José”.

Assim Deus, no evangelho, dirige os que recorrem a ele por misericórdia e graça para que vão ao Senhor Jesus, em quem habita toda a plenitude; e façam o que ele lhes disser.

José, sem dúvida, fixou com sabedoria e justiça o preço do cereal que vendia, de modo que Faraó, cujo dinheiro o havia comprado, pudesse ter um lucro razoável, e ainda assim o país não fosse oprimido, nem se tirasse proveito da necessidade premente deles.

Ao passo que aquele que retém o cereal quando ele está caro, na esperança de que fique ainda mais caro, embora as pessoas pereçam por falta dele, tem muitas maldições por assim proceder (e não é maldição sem causa), bênçãos virão sobre a cabeça daquele que assim o vende, Provérbios 11:26.

E que o preço seja determinado por aquela regra de ouro da justiça: fazer aos outros o que queremos que nos façam.


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