Matthew Henry

Gênesis 40

Argumento

Neste capítulo as coisas caminham, ainda que devagar, rumo à elevação de José.

I. Dois dos servos de Faraó são postos na prisão, e ali aos cuidados de José, e assim se tornam testemunhas da conduta extraordinária dele, vv. 1-4.

II. Cada um deles sonhou um sonho, que José interpretou (vv. 5-19), e o desfecho confirmou a interpretação (vv. 20-22), e assim eles se tornaram testemunhas da habilidade extraordinária dele.

III. José recomenda o seu caso a um deles, para quem ele previa um cargo (v. 14, 15), mas em vão, v. 23.

Versículos 1 a 4

A História de José. (a.C. 1717.)

Não teríamos tido esta história do copeiro e do padeiro de Faraó registrada na Escritura se ela não tivesse contribuído para que José obtivesse um cargo. O mundo subsiste por causa da igreja, e é governado para o bem dela. Observe:

  1. Dois dos grandes oficiais da corte de Faraó, tendo ofendido o rei, são postos na prisão. Repare: os lugares altos são lugares escorregadios; nada é mais incerto do que o favor dos príncipes.

Os que fazem do favor de Deus a sua felicidade, e do serviço dele o seu negócio, acharão nele um Senhor melhor do que Faraó foi, e não tão severo em marcar o que fazem de errado.

Há muitas conjecturas a respeito da ofensa desses servos de Faraó; uns fazem dela nada menos que uma tentativa de tirar-lhe a vida, outros nada mais que o pousar fortuito de uma mosca no copo dele e um pouco de areia no pão dele. Fosse o que fosse, a Providência por este meio os trouxe para a prisão onde José estava.

  1. O próprio capitão da guarda, que era Potifar, encarregou José deles (v. 4), o que dá a entender que ele começava agora a se reconciliar com José, e talvez a se convencer da inocência dele, embora não ousasse soltá-lo por medo de desagradar a sua mulher. João Batista tem de perder a cabeça, para agradar a Herodias.

Versículos 5 a 19

Observe: I. A providência especial de Deus, que encheu as cabeças destes dois prisioneiros de sonhos incomuns, sonhos que causaram neles impressões extraordinárias e traziam consigo evidências de uma origem divina, os dois numa só noite.

Repare: Deus tem acesso direto aos espíritos dos homens, e pode pô-los a serviço dos seus próprios propósitos sempre que lhe apraz, muito além da intenção dos que estão envolvidos.

Diante dele todos os corações estão abertos, e antigamente ele falava não só ao seu próprio povo, mas também a outros, por sonhos, Jó 33:15. As coisas por vir eram assim preditas, mas de modo muito obscuro.

II. A impressão que os sonhos causaram nestes prisioneiros (v. 6): “estavam tristes”. Não foi a prisão que os entristeceu (já estavam bastante acostumados a ela, e talvez vivessem ali alegremente), mas o sonho.

Repare: Deus tem mais de um modo de entristecer os espíritos daqueles que devem ser entristecidos. Os pecadores que são bastante resistentes debaixo das aflições exteriores e não cedem a elas, ainda assim Deus pode encontrar um modo de castigá-los; ele pode tirar-lhes as rodas, ferindo-lhes os espíritos e pondo cargas sobre eles.

III. A grande ternura e compaixão de José para com eles. Ele indagou, preocupado: “Por que pareceis hoje tão tristes?” v. 7. José era o guarda deles, e nesse ofício era brando.

Repare: convém que tomemos conhecimento das tristezas até dos que estão sob a nossa autoridade. José era companheiro deles na tribulação: agora estava preso com eles, e também tinha sido sonhador.

Repare: a comunhão nos sofrimentos ajuda a produzir compaixão para com os que sofrem.

Aprendamos daqui: 1. A nos preocuparmos com as tristezas e as aflições dos outros, e a indagar o motivo da tristeza no semblante dos nossos irmãos; devemos considerar muitas vezes as lágrimas dos oprimidos, Eclesiastes 4:1. É algum alívio, para os que estão em aflição, que se repare neles.

  1. A indagar as causas da nossa própria tristeza: “Por que pareço eu tão triste? Há motivo para isso? É um bom motivo? Não há motivo de consolo bastante para contrabalançá-lo, seja ele qual for? Por que estás abatida, ó minha alma?”

IV. Os sonhos em si, e a interpretação deles. O que afligia estes prisioneiros era que, estando confinados, não podiam recorrer aos adivinhos do Egito, que alegavam interpretar sonhos: “Não há intérprete aqui na prisão”, v. 8.

Repare: há intérpretes que os que estão na prisão e na tristeza deveriam desejar ter consigo, para instruí-los no sentido e no desígnio da Providência (Eliú alude a eles quando diz: “Se houver um intérprete, um entre mil, para mostrar ao homem a sua retidão”, Jó 33:23, 24), intérpretes para guiar as suas consciências, não para satisfazer a sua curiosidade.

José então lhes indicou para onde olhar: “Não pertencem a Deus as interpretações?” Ele quer dizer o Deus a quem adorava, ao conhecimento de quem por este meio se esforça por levá-los.

Repare: é prerrogativa de Deus predizer as coisas por vir, Isaías 46:10. Por isso ele deve ter o louvor de todos os dons de previsão que os homens têm, ordinários ou extraordinários.

José antepõe uma ressalva contra o louvor a si mesmo, e tem o zelo de transmitir a glória a Deus, como Daniel, Daniel 2:30.

José insinua: “Se as interpretações pertencem a Deus, ele é um agente livre, e pode comunicar o poder a quem lhe apraz; portanto, contai-me os vossos sonhos.”

Ora: 1. O sonho do chefe dos copeiros era feliz presságio da sua soltura e da sua nova elevação dentro de três dias; e assim José o explicou a ele, v. 12, 13.

Provavelmente era costume dele espremer as uvas bem maduras diretamente no copo de Faraó, não conhecendo a simplicidade daquela época as artes modernas de apurar o vinho.

Observe: José predisse a libertação do chefe dos copeiros, mas não previu a sua própria. Muito antes ele havia sonhado com a sua própria honra e com a reverência que os seus irmãos lhe fariam, e com a lembrança disso tem agora de se sustentar, sem nenhuma revelação nova ou recente.

As visões que são para o consolo dos santos de Deus são para muito tempo depois, e dizem respeito a coisas que estão muito distantes, ao passo que as previsões dos outros, como esta ali registrada, olham só três dias à frente.

  1. O sonho do chefe dos padeiros prenunciava a sua morte ignominiosa, v. 18, 19. A interpretação feliz do sonho do outro animou-o a contar o seu.

Assim os hipócritas, quando ouvem coisas boas prometidas aos bons cristãos, quereriam ter também o seu quinhão, embora não tenham parte nem sorte nesse assunto.

Não foi culpa de José não lhe trazer melhores notícias. Os ministros são apenas intérpretes; não podem fazer a coisa ser diferente do que é. Por isso, se agirem fielmente e a sua mensagem for desagradável, a culpa não é deles. Sonhos maus não podem esperar boa interpretação.

V. O proveito que José tirou desta oportunidade para conseguir um amigo na corte, v. 14, 15. Ele solicitou modestamente o favor do chefe dos copeiros, para quem predizia um cargo: “Mas pensa em mim quando te for bem.”

Ainda que o respeito prestado a José tornasse a prisão tão suportável para ele quanto uma prisão pudesse ser, contudo ninguém pode culpá-lo por desejar a liberdade.

Veja aqui: 1. Que exposição modesta ele faz do seu próprio caso, v. 15. Ele não lança censura sobre os seus irmãos, que o venderam; diz apenas: “Fui roubado da terra dos hebreus”, isto é, enviado de lá injustamente, não importa de quem fosse a culpa.

Nem lança censura sobre a injustiça que lhe foi feita nesta prisão pela sua senhora, que foi a sua acusadora, e pelo seu senhor, que foi o seu juiz; mas afirma com brandura a sua própria inocência: “Aqui nada fiz para que me pusessem na masmorra.”

Repare: quando somos chamados a nos defender, devemos evitar com cuidado, tanto quanto for possível, falar mal dos outros. Contentemo-nos em provar a nossa inocência, e não sejamos afeitos a repreender os outros pela culpa deles.

  1. Que pedido modesto ele faz ao chefe dos copeiros: “Somente, pensa em mim. Peço-te que me faças uma bondade, se estiver ao teu alcance.” E o seu pedido particular é: “Tira-me desta casa.”

Ele não diz: “Leva-me à casa de Faraó, consegue-me um lugar na corte.” Não: ele pede a soltura, não um cargo.

Repare: a Providência às vezes destina as maiores honras aos que menos as cobiçam ou esperam.

Versículos 20 a 23

Aqui está:

  1. A confirmação da interpretação que José deu aos sonhos, no dia exato que fora marcado. O chefe dos copeiros e o chefe dos padeiros foram ambos elevados, um ao seu ofício, o outro à forca, e os dois ao fim dos três dias.

Repare: mudanças muito grandes, tanto para melhor quanto para pior, acontecem muitas vezes em pouquíssimo tempo — tão repentinas são as revoluções da roda da natureza.

A ocasião de se julgar separadamente o caso deles foi a solenização do aniversário de Faraó, em que, sendo todos os seus servos obrigados pelo costume a comparecer diante dele, esses dois vieram a ser procurados, e a causa da prisão deles, examinada.

A solenização do aniversário dos príncipes tem sido uma antiga demonstração de respeito prestada a eles; e, se não for usada para o mal, como foi a de Jeroboão (Oseias 7:5) e a de Herodes (Marcos 6:21), é um costume bastante inocente.

E todos nós podemos reparar com proveito nos nossos aniversários, com gratidão pelas misericórdias do nosso nascimento, tristeza pela pecaminosidade dele, e expectativa do dia da nossa morte como melhor que o dia do nosso nascimento.

No aniversário de Faraó ele levantou a cabeça desses dois prisioneiros, isto é, acusou-os formalmente e julgou-os (quando Nabote foi julgado, foi “posto no alto entre o povo”, 1 Reis 21:9), e restaurou o chefe dos copeiros e enforcou o chefe dos padeiros.

Se o copeiro era inocente e o padeiro culpado, temos de reconhecer a equidade da Providência em esclarecer a inocência do inocente e em fazer que o pecado do culpado o encontre.

Se os dois eram ou igualmente inocentes ou igualmente culpados, é um exemplo do arbítrio dos grandes príncipes que se orgulham daquele poder que Nabucodonosor alegava para si (Daniel 5:19: “a quem queria, abatia, e a quem queria, conservava vivo”), esquecendo-se de que há um mais alto do que eles, a quem devem prestar contas.

  1. A frustração da expectativa que José depositava no chefe dos copeiros: ele não se lembrou de José, mas esqueceu-se dele, v. 23:

(1.) Veja aqui um exemplo de vil ingratidão. José havia merecido bem das mãos dele: tinha-o servido, tinha-se compadecido dele, ajudara-o com uma interpretação favorável do seu sonho, tinha-se recomendado a ele como pessoa extraordinária sob todos os aspectos; e ainda assim ele se esqueceu dele.

Não devemos achar estranho se neste mundo nos mostram ódio em troca do nosso amor, e desprezo em troca do nosso respeito.

(2.) Veja como quem, de sua parte, está tranquilo tende a esquecer os outros que estão em angústia. Talvez seja em alusão a esta história que o profeta fala dos que bebem vinho em taças, e não sentem dor pela aflição de José, Amós 6:6.

Aprendamos daqui a desistir do homem. José talvez dependesse demais do crédito que tinha junto ao chefe dos copeiros, e prometesse a si mesmo demais da parte dele; aprendeu pela sua frustração a confiar somente em Deus. Não podemos esperar pouco demais do homem nem demais de Deus.

Alguns observam a semelhança entre José e Cristo nesta história. Os companheiros de sofrimento de José eram como os dois ladrões que foram crucificados com Cristo — um salvo, o outro condenado. (A observação é do Dr. Lightfoot, tirada do Sr. Broughton.)

Um destes, quando José lhe disse: “Lembra-te de mim quando te for bem”, esqueceu-se dele; mas um daqueles, quando disse a Cristo: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino”, não foi esquecido.

Com justiça censuramos a ingratidão do chefe dos copeiros para com José; contudo, nós nos conduzimos de modo muito menos franco para com o Senhor Jesus.

José apenas predissera a soltura do chefe dos copeiros, mas Cristo realizou a nossa, mediou em nosso favor junto ao Rei dos reis; e ainda assim nos esquecemos dele, embora muitas vezes nos seja trazido à lembrança, embora tenhamos prometido nunca esquecê-lo: assim mal o retribuímos, como povo insensato e sem sabedoria.


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