Matthew Henry

Gênesis 4

Argumento

Neste capítulo temos tanto o mundo quanto a igreja dentro de uma família, uma família pequena, a família de Adão, e nos é dada uma amostra do caráter e do estado dos dois nas eras seguintes; mais que isso, em todas as eras, até o fim do tempo.

Assim como toda a humanidade foi representada em Adão, também aquela grande divisão da humanidade entre santos e pecadores, piedosos e ímpios, filhos de Deus e filhos do maligno, foi aqui representada em Caim e Abel.

E é dado bem cedo um exemplo da inimizade que havia pouco fora posta entre a semente da mulher e a semente da serpente. Temos aqui:

I. O nascimento, os nomes e as ocupações de Caim e Abel, v. 1, 2.

II. A religião dos dois, e o êxito diferente que tiveram nela, v. 3, 4, e parte do v. 5.

III. A ira de Caim contra Deus e a repreensão que recebeu por essa ira, vv. 5-7.

IV. O assassinato do irmão por Caim, e o processo contra ele por esse assassinato.

O assassinato cometido, v. 8. Os procedimentos contra ele:

  1. A acusação formal, v. 9, primeira parte.

  2. A alegação dele, v. 9, segunda parte.

  3. A condenação dele, v. 10.

  4. A sentença proferida contra ele, v. 11, 12.

  5. A queixa dele contra a sentença, v. 13, 14.

  6. A ratificação da sentença, v. 15.

  7. A execução da sentença, v. 15, 16.

V. A família e a posteridade de Caim, vv. 17-24.

VI. O nascimento de outro filho e de um neto de Adão, v. 25, 26.

Versículos 1 a 2

Caim e Abel. (a.C. 3875.)

Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas, Gênesis 5:4. Mas Caim e Abel parecem ter sido os dois mais velhos. Alguns acham que eram gêmeos e que, como Esaú e Jacó, o mais velho foi odiado e o mais novo, amado.

Ainda que Deus tivesse lançado os nossos primeiros pais para fora do paraíso, não os declarou sem filhos; mas, para mostrar que tinha outras bênçãos guardadas para eles, preservou-lhes o benefício daquela primeira bênção da multiplicação.

Eram pecadores, e mais: sentiam a humilhação e a tristeza dos penitentes. Mesmo assim não se declararam sem consolo, tendo a promessa de um Salvador com que se sustentar. Temos aqui:

I. Os nomes dos seus dois filhos:

  1. Caim significa posse; porque Eva, ao dá-lo à luz, disse com alegria, com gratidão e com grande expectativa: “Adquiri um varão do Senhor.”

Repare: os filhos são dádivas de Deus, e ele deve ser reconhecido na edificação das nossas famílias.

Isso dobra e santifica o consolo que temos neles, quando os vemos chegar até nós da mão de Deus, que não abandonará as obras e as dádivas da sua própria mão.

Ainda que Eva o tenha gerado com as dores que foram consequência do pecado, ela não perdeu a percepção da misericórdia no meio dessas dores.

Os consolos, ainda que misturados, são mais do que merecemos; por isso as nossas queixas não podem afogar as nossas ações de graças.

Muitos supõem que Eva teve a ideia de que este filho era a semente prometida, e que por isso ela assim triunfava nele, conforme se podem ler as suas palavras: “Adquiri um varão, o Senhor”, o Deus-homem.

Se foi assim, ela se enganou lamentavelmente, como Samuel quando disse: “Certamente o ungido do Senhor está diante de mim”, 1 Samuel 16:6.

Quando os filhos nascem, quem pode prever o que eles virão a ser? Aquele que se pensava ser um varão, o Senhor, ou pelo menos um varão da parte do Senhor, e para o serviço dele como sacerdote da família, tornou-se inimigo do Senhor.

Quanto menos esperamos das criaturas, mais suportáveis serão as decepções.

  1. Abel significa vaidade. Quando ela pensou ter obtido em Caim a semente prometida, ficou tão tomada por aquela posse que um outro filho lhe pareceu vaidade.

Para quem tem parte em Cristo e faz dele o seu tudo, as outras coisas são um nada.

Isso também dá a entender que, quanto mais tempo vivemos neste mundo, mais podemos ver a vaidade dele. Aquilo de que no começo gostamos como posse, depois vemos razão para tratar como ninharia, morrendo para ele.

O nome dado a este filho é aplicado a toda a raça, Salmos 39:5. Todo homem, no seu melhor estado, é Abel — vaidade. Trabalhemos para ver assim a nós mesmos e aos outros. A infância e a juventude são vaidade.

II. As ocupações de Caim e Abel. Repare:

  1. Os dois tinham um ofício. Ainda que fossem herdeiros diretos do mundo, de nascimento nobre e de posses vastas, não foram criados na ociosidade.

Deus deu ao pai deles um ofício, mesmo no estado de inocência, e deu um a eles. Repare: é a vontade de Deus que cada um de nós tenha alguma coisa para fazer neste mundo.

Os pais devem criar os seus filhos para o trabalho. “Dê-lhes uma Bíblia e um ofício (dizia o bom Sr. Dod), e Deus esteja com eles.”

  1. As ocupações deles eram diferentes, para que pudessem negociar e trocar entre si, conforme houvesse ocasião. Os membros do corpo político precisam uns dos outros, e o amor mútuo é ajudado pelo comércio mútuo.

  2. As ocupações deles pertenciam ao ofício do lavrador, a profissão do pai: um ofício necessário, porque o próprio rei é servido do campo, mas um ofício trabalhoso, que exigia cuidado e dedicação constantes.

Hoje ele é visto como ofício humilde; os pobres da terra servem de vinhateiros e lavradores, Jeremias 52:16. Mas o ofício estava longe de ser desonra para eles; antes, eram eles que davam honra a ele.

  1. Pela ordem da narrativa, parece que Abel, embora fosse o irmão mais novo, entrou primeiro no seu ofício, e provavelmente o exemplo dele atraiu Caim.

  2. Abel escolheu a ocupação que mais favorecia a contemplação e a devoção, pois para essas a vida pastoril sempre foi tida como especialmente favorável.

Moisés e Davi guardaram ovelhas e, nas suas solidões, tiveram comunhão com Deus.

Repare: o ofício ou a condição de vida melhor para nós, e que devemos escolher, é o que é melhor para a nossa alma — o que menos nos expõe ao pecado e mais nos dá oportunidade de servir a Deus e de desfrutar dele.

Versículos 3 a 5

Aqui temos:

I. As devoções de Caim e Abel. Com o correr do tempo, quando já tinham progredido um pouco nas suas respectivas ocupações, em certo tempo marcado, Caim e Abel trouxeram a Adão, como sacerdote da família, cada um a sua oferta ao Senhor.

(No hebraico, “no fim dos dias”: seja no fim do ano, quando celebravam a festa da colheita, ou talvez um jejum anual em lembrança da queda, seja no fim dos dias da semana, o sétimo dia, que era o sábado.)

Temos razão para pensar que havia para isso uma determinação divina dada a Adão, como sinal do favor de Deus para com ele e dos seus pensamentos de amor para com ele e os seus, apesar da apostasia deles.

Deus queria assim provar a fé de Adão na promessa e a sua obediência à lei reparadora; queria assim restabelecer a correspondência entre o céu e a terra, e dar sombras dos bens que estavam por vir. Repare aqui:

  1. Que o culto religioso a Deus não é invenção nova, mas instituição antiga. É o que era “desde o princípio” (1 João 1:1); é o “bom caminho antigo”, Jeremias 6:16.

A cidade do nosso Deus é de fato aquela cidade alegre “cuja antiguidade vem dos dias antigos”, Isaías 23:7. A verdade largou na frente do erro, e a piedade, na frente da profanidade.

  1. Que é bom que os filhos sejam bem ensinados enquanto pequenos, e treinados cedo nos serviços religiosos, para que, quando chegarem à idade de agir por si mesmos, tragam por vontade própria uma oferta a Deus. É nessa criação do Senhor que os pais devem criar os seus filhos, Gênesis 18:19; Efésios 6:4.

  2. Que cada um de nós deve honrar a Deus com o que tem, conforme ele nos tenha prosperado. Conforme eram os seus empregos e as suas posses, assim trouxeram a sua oferta. Veja 1 Coríntios 16:1, 2.

O nosso negócio e o nosso salário, sejam eles quais forem, têm de ser “santidade ao Senhor”, Isaías 23:18. Ele deve receber a parte que lhe é devida em obras de piedade e de caridade, no sustento da religião e no socorro aos pobres.

Assim devemos agora trazer a nossa oferta com coração reto; e com tais sacrifícios Deus se agrada.

  1. Que hipócritas e malfeitores podem ser encontrados indo tão longe quanto os melhores do povo de Deus nos serviços externos da religião. Caim trouxe uma oferta junto com Abel; mais que isso, a oferta de Caim é mencionada primeiro, como se ele fosse o mais adiantado dos dois.

Um hipócrita talvez ouça tantos sermões, faça tantas orações e dê tantas esmolas quanto um bom cristão e, ainda assim, por falta de sinceridade, não alcance a aceitação de Deus. O fariseu e o publicano foram ao templo para orar, Lucas 18:10.

II. O êxito diferente das devoções dos dois. O que se deve buscar em todo ato de religião é a aceitação de Deus: se a alcançamos, vamos bem; mas se não a alcançamos, é em vão que adoramos, 2 Coríntios 5:9.

Talvez, para quem olhasse de fora, os sacrifícios de Caim e de Abel parecessem os dois igualmente bons. Adão aceitou os dois, mas Deus, que não vê como o homem vê, não aceitou.

Deus atentou para Abel e para a sua oferta, e mostrou que a aceitava, provavelmente por fogo vindo do céu; mas para Caim e para a sua oferta não atentou.

Temos certeza de que havia uma boa razão para essa diferença; o Governador do mundo, ainda que soberano absoluto, não age de modo arbitrário ao distribuir os seus sorrisos e as suas carrancas.

  1. Havia diferença no caráter das pessoas que ofereciam. Caim era um homem ímpio, levava má vida, sob o poder reinante do mundo e da carne; por isso o seu sacrifício era “abominação ao Senhor” (Provérbios 15:8), uma “oblação vã”, Isaías 1:13.

Deus não atentou para o próprio Caim e, por isso, não atentou para a sua oferta, como o modo de dizer dá a entender.

Mas Abel era um homem justo; ele é chamado “justo Abel” (Mateus 23:35); o seu coração era reto e a sua vida era piedosa; era um daqueles a quem o rosto de Deus contempla (Salmos 11:7) e cuja oração é, por isso, o deleite dele, Provérbios 15:8.

Deus atentou para ele como homem santo e, por isso, para a sua oferta como oferta santa. A árvore tem de ser boa, senão o fruto não pode agradar ao Deus que sonda os corações.

  1. Havia diferença nas ofertas que trouxeram. Diz-se expressamente (Hebreus 11:4) que o de Abel foi um sacrifício mais excelente que o de Caim. Ou:

(1.) Na natureza dele. O de Caim era apenas um sacrifício de reconhecimento oferecido ao Criador; as ofertas de manjares do fruto da terra não eram mais que isso e, pelo que sei, podiam ser oferecidas em estado de inocência.

Mas Abel trouxe um sacrifício de expiação, cujo sangue foi derramado para que houvesse remissão, reconhecendo-se com isso pecador, pedindo que a ira de Deus se afastasse e implorando o favor dele num Mediador.

Ou, (2.) Nas qualidades da oferta. Caim trouxe do fruto da terra, qualquer coisa que lhe viesse à mão, o que não lhe fazia falta ou o que não tinha saída no mercado.

Mas Abel foi primoroso na escolha da sua oferta: não o coxo, nem o magro, nem o refugo, mas os primogênitos do rebanho — o melhor que tinha — e a gordura deles — o melhor daquele melhor.

Daí os doutores hebreus darem como regra geral que tudo o que é para o nome do Deus bom deve ser o mais belo e o melhor. É justo que aquele que é o primeiro e o melhor tenha o primeiro e o melhor do nosso tempo, da nossa força e do nosso serviço.

  1. A grande diferença era esta: Abel ofereceu em fé, e Caim não. Havia diferença no princípio de que os dois partiam.

Abel ofereceu com o olho na vontade de Deus como sua regra, e na glória de Deus como seu fim, e na dependência da promessa de um Redentor; mas Caim fez o que fez só por companhia, ou para não perder o crédito, não em fé, e assim aquilo se lhe tornou em pecado.

Abel era um crente arrependido, como o publicano que voltou justificado; Caim não estava humilhado, a sua confiança estava dentro de si mesmo, era como o fariseu que se glorificava a si mesmo, mas nem sequer foi justificado diante de Deus.

III. O desgosto de Caim com a diferença que Deus fez entre o seu sacrifício e o de Abel. Caim ficou muito irado, e isso logo apareceu no próprio rosto, porque o seu semblante descaiu, o que diz menos da sua tristeza e do seu descontentamento do que da sua malícia e da sua raiva.

A cara fechada e arisca e o olhar baixo denunciavam os seus ressentimentos exaltados: ele trazia a má índole no rosto, e a aparência do seu semblante testemunhava contra ele. Esta ira diz:

  1. A sua inimizade contra Deus e a indignação que concebera contra ele por fazer tal diferença entre a sua oferta e a do seu irmão.

Ele devia ter ficado irado consigo mesmo pela própria infidelidade e hipocrisia, com as quais tinha perdido a aceitação de Deus; e o seu semblante devia ter descaído em arrependimento e santa vergonha, como o do publicano, que não levantava nem os olhos para o céu, Lucas 18:13.

Mas, em vez disso, ele se lança contra Deus, como se este fosse parcial e injusto ao distribuir os seus sorrisos e as suas carrancas, e como se lhe tivesse feito uma grande injustiça.

Repare: é sinal certo de coração não humilhado brigar com as repreensões que nós mesmos, pelo nosso próprio pecado, trouxemos sobre nós. “A loucura do homem perverte o seu caminho”, e depois, para piorar o que já é mau, “o seu coração se irrita contra o Senhor”, Provérbios 19:3.

  1. A sua inveja do irmão, que teve a honra de ser publicamente reconhecido. Ainda que o irmão não pensasse em pôr nenhuma desfeita sobre ele, nem agora o insultasse para provocá-lo, mesmo assim ele concebeu ódio dele como de um inimigo ou, o que dá no mesmo, de um rival. Repare:

(1.) É comum que os que se tornaram indignos do favor de Deus pelos seus pecados presunçosos tenham indignação contra aqueles que por esse favor são dignificados e distinguidos.

Os fariseus andaram nesse caminho de Caim, quando nem eles entravam no reino de Deus, nem deixavam entrar os que estavam entrando, Lucas 11:52. O olho deles é mau porque o olho do seu senhor e o olho dos seus companheiros de serviço são bons.

(2.) A inveja é um pecado que comumente traz consigo tanto a sua própria denúncia, na palidez do rosto, quanto o seu próprio castigo, na podridão dos ossos.

Versículos 6 a 7

Deus está aqui argumentando com Caim, para convencê-lo do pecado e da loucura da sua ira e do seu descontentamento, e para trazê-lo de volta a uma disposição serena, de modo que outros danos fossem evitados.

É um exemplo da paciência de Deus e da sua bondade condescendente que ele tratasse com tanta ternura um homem tão mau, num caso tão mau. Ele não quer que nenhum pereça, mas que todos venham ao arrependimento.

Foi assim que o pai do pródigo discutiu o caso com o filho mais velho (Lucas 15:28, etc.), e assim fez Deus com aqueles israelitas que diziam: “O caminho do Senhor não é justo”, Ezequiel 18:25.

I. Deus leva o próprio Caim a examinar a causa do seu descontentamento e a considerar se ela era mesmo uma causa justa: “Por que descaiu o teu semblante?” Observe:

  1. Que Deus toma nota de todas as nossas paixões pecaminosas e de todos os nossos descontentamentos. Não há olhar irado, olhar invejoso nem olhar contrariado que escape ao seu olho atento.

  2. Que a maior parte dos nossos ardores pecaminosos e das nossas inquietações logo se desfaria diante de um exame rigoroso e imparcial da causa deles. “Por que estou encolerizado? Há uma causa real, uma causa justa, uma causa proporcional para isso? Por que fico irado tão depressa? Por que tão irado e tão implacável?”

II. Para trazer Caim de volta ao juízo, aqui se torna evidente para ele:

  1. Que ele não tinha motivo para se irar contra Deus, porque Deus tinha procedido segundo as regras firmes e invariáveis de governo próprias de um estado de provação.

Ele põe diante dos homens a vida e a morte, a bênção e a maldição, e depois lhes retribui segundo as suas obras, e os distingue conforme eles próprios se distinguem — e assim será a condenação deles.

As regras são justas, e por isso os seus caminhos, feitos segundo essas regras, não podem deixar de ser direitos, e ele será justificado quando falar.

(1.) Deus põe diante de Caim a vida e uma bênção: “Se fizeres o bem, não serás aceito?” Sem dúvida será aceito; mais que isso, Caim sabe que será.

Ou, [1.] Se Caim tivesse feito o bem, como seu irmão fez, teria sido aceito, como ele foi.

Deus não faz acepção de pessoas, não odeia nada do que fez, não nega o seu favor a ninguém senão aos que o perderam, e não é inimigo de ninguém senão dos que pelo pecado o fizeram seu inimigo.

Assim, se ficamos aquém da aceitação diante dele, só temos a nós mesmos a agradecer: a culpa é inteiramente nossa. Se tivéssemos cumprido o nosso dever, não teríamos perdido a sua misericórdia.

Isto justificará Deus na destruição dos pecadores e agravará a ruína deles. Não há um só pecador condenado no inferno que, se tivesse feito o bem, como podia ter feito, não fosse um santo glorioso no céu. Em breve toda boca será tapada com isto.

Ou, [2.] Se agora Caim fizer o bem, se se arrepender do seu pecado, reformar o coração e a vida e trouxer o sacrifício de maneira melhor, se não só fizer o que é bom, mas o fizer bem, ainda será aceito, seu pecado será perdoado, seu consolo e sua honra serão restaurados, e tudo irá bem.

Veja aqui o efeito da interposição de um Mediador entre Deus e o homem. Não estamos no terreno da primeira aliança, que não deixava lugar para o arrependimento: Deus passou a tratar conosco em novos termos.

Ainda que tenhamos ofendido, se nos arrependermos e voltarmos, acharemos misericórdia. Veja quão cedo o evangelho foi pregado, e o benefício dele oferecido aqui até a um dos maiores pecadores.

(2.) Ele põe diante dele a morte e uma maldição: mas, se Caim não fizesse o bem, isto é, visto que não tinha feito o bem nem oferecido em fé e da maneira certa, o pecado jazia à porta.

Ou seja: o pecado foi imputado a Caim, que foi olhado com desagrado e rejeitado como pecador. Acusação tão grave não teria sido posta à sua porta se ele mesmo não a tivesse trazido sobre si por não fazer o bem.

Ou, como comumente se entende: se agora Caim não fizesse o bem, se persistisse nesta cólera e, em vez de se humilhar diante de Deus, se endurecesse contra ele, o pecado jazeria à porta. Isto é:

[1.] Mais pecado. Agora que a ira está no coração de Caim, o homicídio está à porta. O caminho do pecado é ladeira abaixo, e os homens vão de mal a pior.

Os que não sacrificam bem, mas são descuidados e negligentes na sua devoção a Deus, se expõem às piores tentações; e talvez o pecado mais escandaloso esteja à porta.

Os que não guardam as ordenanças de Deus estão em perigo de cometer todas as abominações, Levítico 18:30.

Ou, [2.] O castigo do pecado. Tão aparentados são o pecado e o castigo que a mesma palavra, em hebraico, significa os dois.

Se o pecado é abrigado dentro de casa, a maldição espera à porta, como um oficial de justiça, pronta para prender o pecador assim que ele puser a cabeça para fora.

Ela jaz como se dormisse, mas jaz à porta, onde logo será despertada; e então se verá que a condenação não dormitava. O pecado acabará encontrando você, Números 32:23.

Ainda assim, alguns preferem entender isto também como um sinal de misericórdia: se Caim não fizer o bem, o pecado (isto é, a oferta pelo pecado) jaz à porta, e ele pode valer-se do benefício dela.

A mesma palavra significa pecado e sacrifício pelo pecado. “Ainda que não tenhas feito bem, não te desesperes; o remédio está à mão; a propiciação não está longe de se achar; lança mão dela, e a iniquidade das tuas coisas santas te será perdoada.”

De Cristo, a grande oferta pelo pecado, se diz que está à porta, Apocalipse 3:20. E bem merecem perecer nos seus pecados os que não querem ir até a porta para ter parte na oferta pelo pecado.

Considerado tudo isto, Caim não tinha motivo para se irar contra Deus, mas somente contra si mesmo.

  1. Que ele não tinha motivo para se irar contra o seu irmão: o desejo de Abel seria para Caim; Abel continuaria a respeitá-lo como irmão mais velho, e Caim, como primogênito, governaria sobre ele como antes.

A aceitação da oferta de Abel por parte de Deus não transferiu a ele o direito de primogenitura (de que Caim tinha ciúme), nem lhe deu aquela excelência de dignidade e de poder que se diz pertencer a esse direito, Gênesis 49:3.

Deus não teve essa intenção; Abel não a interpretou assim; não havia perigo de que fosse aproveitada em prejuízo de Caim. Por que, então, ele haveria de ficar tão exasperado? Observe aqui:

(1.) Que a diferença que a graça de Deus faz não altera as distinções que a providência de Deus faz, mas as preserva, e nos obriga a cumprir o dever que delas resulta: servos crentes devem ser obedientes a senhores incrédulos.

O domínio não se funda na graça, nem a religião autoriza deslealdade ou desrespeito em relação alguma.

(2.) Que as suspeitas que os poderes civis às vezes conceberam contra os verdadeiros adoradores de Deus — como perigosos ao seu governo, inimigos de César e nocivos a reis e províncias, suspeita em que os perseguidores fundamentaram a sua fúria contra eles — são muito injustas e desarrazoadas.

Seja qual for o caso de alguns que se dizem cristãos, é certo que os cristãos de verdade são os melhores súditos, e os pacíficos da terra. O desejo deles é para os seus governantes, e estes dominarão sobre eles.

Versículo 8

Temos aqui o progresso da ira de Caim e o desfecho dela no assassinato de Abel, que pode ser considerado de duas maneiras:

I. Como pecado de Caim; e era um pecado escarlate, carmesim, um pecado de primeira grandeza, um pecado contra a luz e a lei da natureza, diante do qual até a consciência dos homens maus se assustou. Repare nele:

  1. Os tristes efeitos da entrada do pecado no mundo e no coração dos homens.

Veja que raiz de amargura é a natureza corrompida, que produz este fel e este absinto. Comer do fruto proibido parecia, em Adão, um pecado pequeno, mas abriu a porta para o maior de todos.

  1. Um fruto da inimizade que há na semente da serpente contra a semente da mulher.

Assim como Abel vai à frente do nobre exército dos mártires (Mateus 23:35), Caim está na frente do ignóbil exército dos perseguidores, Judas 11.

Tão cedo aquele que era segundo a carne perseguiu aquele que era segundo o Espírito; e assim é ainda hoje, em maior ou menor grau (Gálatas 4:29).

E assim será até que a guerra termine na salvação eterna de todos os santos e na perdição eterna de todos os que os odeiam.

  1. Veja também o que resulta da inveja, do ódio, da malícia e de toda falta de caridade. Se forem alimentadas e acariciadas na alma, correm o risco de envolver o homem na culpa horrenda do próprio assassinato.

A ira precipitada é assassinato do coração, Mateus 5:21, 22. Muito mais o é a malícia. Quem odeia o seu irmão já é assassino diante de Deus; e, se Deus o entrega a si mesmo, só lhe falta uma oportunidade para torná-lo assassino diante do mundo.

Muitos foram os agravantes do pecado de Caim:

(1.) Foi o seu irmão, o seu próprio irmão, que ele assassinou; o filho da sua própria mãe (Salmos 50:20), a quem devia amar; o seu irmão mais novo, a quem devia proteger.

(2.) Era um bom irmão, que nunca lhe tinha feito mal algum nem lhe dera a menor provocação em palavra ou em ação; ao contrário, o desejo dele sempre esteve voltado para Caim, e em tudo lhe foi obediente e respeitoso.

(3.) Ele tinha recebido antes um aviso claro sobre isso. O próprio Deus lhe tinha dito no que aquilo ia dar, e mesmo assim ele persistiu no seu plano bárbaro.

(4.) Parece que ele encobriu tudo com uma aparência de amizade e bondade: “falou com Abel, seu irmão”, livre e familiarmente, para que Abel não suspeitasse do perigo nem se mantivesse fora do seu alcance.

Assim Joabe beijou Abner, e depois o matou. Assim Absalão deu um banquete ao seu irmão Amnom, e depois o matou.

Segundo a Septuaginta [versão grega do Antigo Testamento, que se supõe traduzida por setenta e dois judeus, a pedido de Ptolomeu Filadelfo, mais de 200 anos antes de Cristo], Caim disse a Abel: “Vamos ao campo”.

Se foi assim, temos certeza de que Abel não entendeu aquilo (no sentido moderno) como um desafio, senão não o teria aceitado, mas como um convite fraternal para irem juntos ao trabalho.

O parafraseador caldeu acrescenta que Caim, enquanto conversavam no campo, sustentou que não havia juízo por vir, nem estado futuro, nem prêmios e castigos no outro mundo.

Ainda segundo ele, quando Abel falou em defesa da verdade, Caim aproveitou a ocasião para se lançar sobre ele.

(5.) No entanto, aquilo que a Escritura nos diz ter sido a razão por que ele o matou já é agravante suficiente do assassinato: foi “porque as suas próprias obras eram más, e as do seu irmão, justas”.

Nisso ele se mostrou ser daquele maligno (1 João 3:12), um filho do diabo, por ser inimigo de toda justiça, mesmo no seu próprio irmão, e, nisto, empregado diretamente pelo destruidor.

(6.) Mais que isso: ao matar o seu irmão, ele atingiu diretamente o próprio Deus. O pretexto da provocação foi Deus ter aceitado Abel, e foi exatamente por essa razão que ele odiou Abel: porque Deus o amava.

(7.) O assassinato de Abel foi ainda mais desumano porque havia então tão poucos homens no mundo para enchê-lo.

A vida de um homem é preciosa em qualquer tempo; mas naquele momento era preciosa de modo especial, e mal se podia dispensá-la.

II. Como sofrimento de Abel. A morte reinava desde que Adão pecou, mas não lemos de ninguém levado cativo por ela até agora. E agora:

  1. O primeiro que morre é um santo, alguém que era aceito e amado de Deus, para mostrar que, embora a semente prometida devesse destruir aquele que tinha o poder da morte, a ponto de salvar os crentes do aguilhão dela, ainda assim eles continuariam expostos ao golpe dela.

O primeiro que desceu à sepultura foi para o céu. Deus quis assegurar para si as primícias, o primogênito entre os mortos, aquele que primeiro abriu o ventre para outro mundo.

Que isto tire o terror da morte: ela foi, bem cedo, a sorte dos escolhidos de Deus, e isso muda a natureza dela.

  1. Mais que isso: o primeiro que morre é um mártir, e morre pela sua religião; e deles se pode dizer, com mais verdade do que dos soldados, que morrem no leito da honra.

A morte de Abel não só não tem maldição nenhuma dentro dela, como tem uma coroa dentro dela.

A natureza da morte foi alterada de modo tão admirável que ela não só se tornou inocente e inofensiva para os que morrem em Cristo, como honrosa e gloriosa para os que morrem por ele.

Não achemos estranha a provação de fogo, nem recuemos se formos chamados a resistir até o sangue; porque sabemos que há uma coroa de vida para todos os que forem fiéis até a morte.

Versículos 9 a 12

O Castigo de Caim. (a.C. 3875.)

Temos aqui um relato completo do julgamento e da condenação do primeiro assassino.

Como ainda não havia tribunais civis erguidos para esse fim, como houve depois (Gênesis 9:6), o próprio Deus se assenta como Juiz; porque ele é o Deus a quem pertence a vingança, e que certamente fará inquirição pelo sangue, sobretudo pelo sangue dos santos. Repare:

I. A acusação de Caim: “E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão?”

Alguns pensam que Caim foi interrogado assim no sábado seguinte ao assassinato, quando os filhos de Deus vieram, como de costume, apresentar-se diante do Senhor numa assembleia religiosa, e Abel faltava, cujo lugar não costumava ficar vazio.

Porque o Deus do céu toma nota de quem está presente e de quem está ausente nos cultos públicos.

Caim é interrogado não só porque havia justa causa para suspeitar dele, tendo ele demonstrado malícia contra Abel e tendo sido o último a estar com ele, mas porque Deus o sabia culpado.

Ainda assim ele pergunta, para tirar dele uma confissão do seu crime; porque quem quer ser justificado diante de Deus precisa acusar a si mesmo, e é o que o penitente faz.

II. A defesa de Caim: ele se declara inocente, e acrescenta rebeldia ao seu pecado. Porque:

  1. Ele tenta encobrir um assassinato deliberado com uma mentira deliberada: “Não sei.” Ele sabia muito bem o que tinha acontecido com Abel, e mesmo assim teve o descaramento de negar.

Assim, em Caim, o diabo foi ao mesmo tempo assassino e mentiroso desde o princípio.

Veja como o engano do pecado cega a mente dos pecadores e endurece o coração deles: é estranha cegueira achar possível esconder os próprios pecados de um Deus que vê tudo, e estranha dureza achar desejável escondê-los de um Deus que só perdoa quem os confessa.

  1. Ele descaradamente acusa o seu Juiz de tolice e injustiça por lhe fazer esta pergunta: “Sou eu guardador do meu irmão?”

Ele devia ter se humilhado e dito: “Não sou eu o assassino do meu irmão?” Mas ele investe contra o próprio Deus, como se este lhe tivesse feito uma pergunta impertinente, à qual não estava de modo algum obrigado a responder:

“Sou eu guardador do meu irmão? Certamente ele já tem idade para cuidar de si, e eu nunca tomei conta dele.”

Alguns pensam que ele lança uma indireta contra Deus e a sua providência, como se dissesse: “Não é você o guardador dele? Se ele está sumido, a culpa é sua, e não minha, que nunca me comprometi a guardá-lo.”

Repare: uma preocupação caridosa com os nossos irmãos, como guardadores deles, é um grande dever, exigido de nós com rigor, mas em geral negligenciado por nós.

Quem não se importa com os assuntos dos seus irmãos e não toma cuidado, quando tem oportunidade, de evitar o dano deles no corpo, nos bens ou no bom nome, e sobretudo na alma, está, na prática, falando a língua de Caim. Veja Levítico 19:17; Filipenses 2:4.

III. A comprovação da culpa de Caim, v. 10. Deus não deu resposta direta à pergunta dele, mas rejeitou a sua defesa como falsa e frívola:

“Que fizeste? Tu fazes disso coisa leve; mas consideraste que coisa má é esta, quão funda é a mancha, quão pesado é o fardo desta culpa? Pensas escondê-la, mas é inútil, a prova contra ti é clara e incontestável: A voz do sangue do teu irmão clama.”

Ele fala como se o próprio sangue fosse ao mesmo tempo testemunha e acusador, porque o próprio conhecimento de Deus testemunhava contra ele e a própria justiça de Deus exigia satisfação. Repare aqui:

  1. O assassinato é um pecado que clama, e nenhum clama mais que ele.

Sangue chama por sangue, o sangue do assassinado pelo sangue do assassino; ele clama nas palavras finais de Zacarias (2 Crônicas 24:22): “O Senhor o veja e o requeira”; ou nas das almas debaixo do altar (Apocalipse 6:10): “Até quando, Senhor, santo e verdadeiro?”

Os que sofreram com paciência clamaram por perdão (“Pai, perdoa-lhes”), mas o sangue deles clama por vingança.

Ainda que eles se calem, o sangue deles tem um clamor alto e constante, ao qual o ouvido do Deus justo está sempre aberto.

  1. Diz-se que o sangue clama desde o solo, a terra, da qual se diz que abriu a sua boca para receber da mão dele o sangue do seu irmão, v. 11.

A terra, por assim dizer, corou ao ver a própria face manchada com um sangue desses, e por isso abriu a boca para esconder aquilo que não pôde impedir.

Quando o céu revelou a iniquidade de Caim, também a terra se levantou contra ele (Jó 20:27), e gemeu por ser assim sujeita à vaidade, Romanos 8:20, 22.

É provável que Caim tenha enterrado o sangue e o corpo para esconder o seu crime; mas “o assassinato vem à tona”. Ele não os enterrou tão fundo que o clamor deles não chegasse ao céu.

  1. No original a palavra está no plural, “os sangues do teu irmão”: não só o sangue dele, mas o sangue de todos os que poderiam ter descendido dele; ou o sangue de toda a semente da mulher, que haveria, do mesmo modo, de selar a verdade com o próprio sangue.

Cristo põe tudo numa só conta (Mateus 23:35); ou então porque se guardava registro de cada gota de sangue derramada.

Que bom para nós que o sangue de Cristo fala coisas melhores do que o de Abel! Hebreus 12:24. O sangue de Abel clamava por vingança, o sangue de Cristo clama por perdão.

IV. A sentença proferida sobre Caim: “E agora és maldito da terra”, v. 11. Repare aqui:

  1. Ele é amaldiçoado, separado para todo mal, posto debaixo da ira de Deus, tal como ela se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, Romanos 1:18.

Quem conhece a extensão e o peso de uma maldição divina, até onde ela alcança, quão fundo ela penetra?

Deus declarar um homem maldito já o torna maldito; porque aqueles a quem ele amaldiçoa estão de fato malditos.

A maldição pela desobediência de Adão parou no solo: “Maldita é a terra por tua causa”; mas a da rebeldia de Caim caiu diretamente sobre ele mesmo: “Tu és maldito”; porque Deus tinha misericórdia guardada para Adão, mas nenhuma para Caim.

Todos nós merecemos essa maldição, e é só em Cristo que os crentes são salvos dela e herdam a bênção, Gálatas 3:10, 13.

  1. A maldição lhe vem da terra. De lá subiu o clamor a Deus, de lá subiu a maldição a Caim.

Deus poderia ter tomado vingança com um golpe imediato do céu, pela espada de um anjo ou por um raio; mas escolheu fazer da terra a vingadora do sangue, deixá-lo viver nela e não o eliminar de uma vez, e ainda assim fazer disso mesmo a maldição dele.

A terra está sempre perto de nós, não podemos fugir dela; de modo que, se ela é feita executora da ira divina, o nosso castigo é inevitável: é o pecado, isto é, o castigo do pecado, jazendo à porta.

Caim encontrou o seu castigo justamente onde escolheu a sua porção e pôs o seu coração.

Duas coisas esperamos da terra, e por esta maldição as duas são negadas a Caim e tiradas dele: sustento e um lugar estável onde viver.

(1.) O sustento vindo da terra lhe é aqui retirado. É uma maldição sobre ele nos seus bens, e particularmente no seu ofício: “Quando lavrares o solo, ele não te dará mais a sua força.”

Repare: cada criatura é para nós aquilo que Deus faz dela, conforto ou cruz, bênção ou maldição.

Se a terra não nos dá a sua força, temos de reconhecer nisso a justiça de Deus; porque nós não demos a nossa força a ele.

O solo já tinha sido amaldiçoado antes para Adão, mas agora foi duplamente amaldiçoado para Caim. A parte do solo que lhe coube, e da qual ele tinha a ocupação, foi tornada infrutífera e sem conforto para ele pelo sangue de Abel.

Repare: a maldade dos maus traz maldição sobre tudo o que fazem e tudo o que têm (Deuteronômio 28:15 etc.), e essa maldição amarga tudo o que têm e os frustra em tudo o que fazem.

(2.) Também lhe é negado um lugar estável na terra: “Fugitivo e vagabundo serás na terra.” Por isto ele foi condenado:

[1.] A perpétua desonra e descrédito entre os homens. Acolhê-lo, conviver com ele ou lhe dar qualquer apoio devia ser sempre tido por coisa escandalosa.

E com justiça um homem que se despira de toda humanidade foi abominado e abandonado por toda a humanidade, e feito infame.

[2.] A perpétuo desassossego e horror na sua própria mente. A sua consciência culpada havia de persegui-lo aonde quer que fosse, e fazer dele Magormissabib, terror ao redor.

Que descanso, que lugar estável podem achar aqueles que carregam no peito a própria perturbação para onde quer que vão? Quem é sacudido assim não pode deixar de ser fugitivo.

Não há na terra fugitivo mais inquieto do que aquele que é continuamente perseguido pela própria culpa, nem vagabundo mais vil do que aquele que está à mercê dos próprios desejos desordenados.

Esta foi a sentença proferida sobre Caim; e mesmo nela havia misericórdia misturada, visto que ele não foi eliminado de imediato, mas recebeu espaço para se arrepender; porque Deus é paciente conosco, não querendo que nenhum pereça.

Versículos 13 a 15

A Queixa de Caim. (a.C. 3875.)

Temos aqui mais um relato do processo movido contra Caim.

I. Aqui está a queixa de Caim contra a sentença proferida sobre ele, tida por dura e severa.

Alguns o fazem falar a linguagem do desespero, e leem assim: “A minha iniquidade é grande demais para ser perdoada”; e nesse caso o que ele diz é uma censura e uma afronta à misericórdia de Deus, da qual só terão o benefício os que nela esperam.

Há perdão com o Deus dos perdões para os maiores pecados e os maiores pecadores; mas perdem esse perdão os que desesperam dele.

Ainda agora Caim não fazia caso nenhum do seu pecado, e já está no outro extremo: Satanás leva os seus vassalos da presunção ao desespero. Não podemos pensar mal demais do pecado, contanto que não o julguemos imperdoável.

Mas Caim parece falar antes a linguagem da indignação: “O meu castigo é maior do que posso suportar”; e nesse caso o que ele diz é uma censura e uma afronta à justiça de Deus.

É queixa não da grandeza do seu pecado, mas da extremidade do seu castigo, como se este fosse desproporcional ao que ele merecia.

Em vez de justificar a Deus na sentença, ele o condena, não aceitando o castigo da sua iniquidade, mas brigando com ele.

Repare: os corações impenitentes e não humilhados não se corrigem pelas repreensões de Deus porque se julgam lesados por elas. E é prova de grande dureza estar mais preocupado com os nossos sofrimentos do que com os nossos pecados.

O cuidado de Faraó era com esta morte apenas, não com este pecado (Êxodo 10:17); e assim era o de Caim aqui. Ele é um homem vivo, e ainda assim se queixa do castigo do seu pecado, Lamentações 3:39.

Julga-se tratado com rigor quando na verdade está sendo tratado com favor; e grita contra a injustiça quando tem mais razão para se admirar de estar fora do inferno. Ai daquele que assim contende com o seu Criador e entra em juízo com o seu Juiz.

Agora, para justificar esta queixa, Caim disseca a sentença:

  1. Ele se vê excluído por ela do favor do seu Deus, e conclui que, sendo maldito, está escondido da face de Deus, que é de fato a verdadeira natureza da maldição de Deus.

Os pecadores condenados sabem que é assim, pois a eles se diz: “Apartai-vos de mim, malditos.” Malditos de verdade são os que estão para sempre excluídos do amor e do cuidado de Deus e de toda esperança da sua graça.

  1. Ele se vê expulso de todos os confortos desta vida, e conclui que, sendo fugitivo, está, na prática, “lançado hoje da face da terra”.

Tanto vale não ter lugar nenhum na terra quanto não ter lugar fixo. Melhor descansar na sepultura do que não descansar de modo algum.

  1. Ele se vê excomungado por ela, cortado da igreja e proibido de participar das ordenanças públicas. Estando as suas mãos cheias de sangue, ele não deve “trazer mais ofertas vãs”, Isaías 1:13, 15.

Talvez seja isto que ele queira dizer ao se queixar de ser lançado da face da terra; pois, ficando fora da igreja, que ninguém ainda havia abandonado, ele estava escondido da face de Deus, não sendo admitido a vir com os filhos de Deus apresentar-se diante do Senhor.

  1. Ele se vê exposto por ela ao ódio e à má vontade de toda a humanidade: “Acontecerá que todo aquele que me achar me matará.”

Para onde quer que vagueie, anda em perigo de vida, ao menos é o que pensa; e, como um homem endividado, toma por oficial de justiça cada um que encontra.

Não havia ninguém vivo senão os seus parentes próximos; e mesmo desses ele tem justo motivo de ter medo, ele que fora tão bárbaro com o próprio irmão.

Alguns leem assim: “Tudo o que me achar me matará”; não só “quem quer que seja entre os homens”, mas “o que quer que seja entre todas as criaturas”. Vendo-se lançado fora da proteção de Deus, ele vê toda a criação armada contra si.

Repare: a culpa não perdoada enche os homens de terrores contínuos, Provérbios 28:1; Jó 15:20, 21; Salmos 53:5. É melhor temer e não pecar do que pecar e depois temer.

O Dr. Lightfoot acha que esta palavra de Caim deve ser lida como um desejo: “Agora, portanto, que aconteça que qualquer um que me ache me mate.”

Amargurado na alma, ele anseia pela morte, e ela não vem (Jó 3:20-22), como acontece com os que estão sob tormentos espirituais, Apocalipse 9:5, 6.

II. Aqui está a confirmação da sentença por Deus; porque quando ele julga, há de vencer, v. 15. Repare:

  1. Como Caim é protegido mesmo sob a ira de Deus por esta declaração, notificada, podemos supor, a todo aquele mundo pequeno que então existia: “Qualquer que matar Caim, sete vezes será vingado.” Porque, com isso, a sentença sob a qual ele estava, a de ser fugitivo e vagabundo, ficaria frustrada.

Os presos condenados estão sob a proteção especial da lei; os que estão destinados a ser sacrifícios da justiça pública não devem ser sacrificados à vingança particular.

Tendo Deus dito, no caso de Caim: “Minha é a vingança, eu retribuirei”, seria usurpação atrevida qualquer homem tirar a espada da mão de Deus. Seria desprezo lançado sobre uma declaração expressa da mente de Deus, e por isso vingado sete vezes.

Repare: Deus tem fins sábios e santos ao proteger e prolongar a vida até mesmo de homens muito perversos. Deus trata alguns segundo aquela oração: “Não os mates, para que o meu povo não se esqueça; dispersa-os pelo teu poder”, Salmos 59:11.

Se Caim tivesse sido morto de imediato, teria sido esquecido (Eclesiastes 8:10); mas agora ele vive como monumento mais temível e mais duradouro da justiça de Deus, pendurado em correntes, por assim dizer.

  1. Como ele é marcado sob a ira de Deus: “E pôs o Senhor um sinal em Caim”, para distingui-lo do resto da humanidade e para dar a saber que era ele o homem que assassinara o próprio irmão, a quem ninguém devia ferir, mas todos deviam vaiar.

Deus o estigmatizou (como alguns malfeitores são marcados a ferro na face), e pôs sobre ele uma marca de infâmia e desonra tão visível e indelével que faria toda gente sensata fugir dele. Assim ele não podia ser outra coisa senão fugitivo e vagabundo, e a escória de todas as coisas.

Versículos 16 a 18

A Família de Caim. (a.C. 3875.)

Temos aqui mais um relato sobre Caim, e o que foi feito dele depois de ser rejeitado por Deus.

I. Ele se submeteu sem resistência àquela parte da sentença pela qual ficou escondido da face de Deus; porque (v. 16) “saiu da presença do Senhor”, isto é, renunciou de bom grado a Deus e à religião, e se contentou em abrir mão dos privilégios dela, contanto que não ficasse debaixo dos preceitos dela.

Abandonou a família e o altar de Adão, jogou fora toda pretensão de temer a Deus, e nunca mais apareceu entre gente boa nem participou das ordenanças de Deus.

Repare: os que professam a fé por hipocrisia, que fingiram e brincaram com o Deus Todo-Poderoso, são com justiça entregues a si mesmos, para fazerem alguma coisa grosseiramente escandalosa.

Assim jogam fora aquela forma de piedade à qual trouxeram descrédito, e sob cuja capa negaram o poder dela.

Caim saiu agora da presença do Senhor, e nunca vemos que tenha voltado a ela, para consolo dele.

O inferno é “destruição, longe da presença do Senhor”, 2 Tessalonicenses 1:9. É banimento perpétuo da fonte de todo bem.

Esta é a escolha dos pecadores; e essa será também a condenação deles, para eterna confusão deles.

II. Ele tentou enfrentar aquela parte da sentença que o fazia fugitivo e errante:

  1. Escolheu a terra dele. Foi morar ao oriente do Éden, em algum lugar distante de onde moravam Adão e sua família religiosa.

Distinguia a si mesmo e à sua geração maldita da semente santa, o acampamento dele do “acampamento dos santos e da cidade amada”, Apocalipse 20:9.

Ao oriente do Éden estavam os querubins, com a espada flamejante, Gênesis 3:24. Foi ali que ele escolheu o seu quinhão, como que para desafiar os terrores do Senhor.

Mas a tentativa de se fixar foi em vão; porque a terra em que morou foi para ele a terra de Node (isto é, de agitação, ou tremor), por causa da inquietação contínua e do desassossego do seu próprio espírito.

Repare: quem se afasta de Deus não encontra descanso em nenhum outro lugar. Depois que Caim saiu da presença do Senhor, nunca mais descansou.

Os que se trancam do lado de fora do céu se entregam a um tremor perpétuo. “Volta, pois, ao teu descanso, ó minha alma, ao teu descanso em Deus; do contrário, ficas para sempre sem sossego.”

  1. Construiu uma cidade para morar, v. 17. “Estava construindo uma cidade”, como alguns leem, construindo-a sempre; mas, como havia maldição sobre ele e sobre a obra das suas mãos, não conseguia terminá-la.

Ou, como nós lemos, “construiu uma cidade”, em sinal de separação definitiva da igreja de Deus, à qual ele não pensava voltar nunca mais. Esta cidade seria o quartel-general da apostasia. Repare aqui:

(1.) O desafio de Caim à sentença divina. Deus disse que ele seria fugitivo e errante.

Se tivesse se arrependido e se humilhado, esta maldição poderia ter virado bênção, como aconteceu com a da tribo de Levi, que seria dividida em Jacó e espalhada em Israel.

Mas, como o seu coração impenitente e não humilhado andava em oposição a Deus, resolvido a se fixar apesar do céu, aquilo que poderia ter sido bênção virou maldição.

(2.) Veja qual foi a escolha de Caim depois de abandonar Deus: fixou-se neste mundo, como se fosse o seu descanso para sempre.

Os que esperavam a cidade celestial escolheram, enquanto estavam na terra, morar em tendas; mas Caim, como quem não dava atenção àquela cidade, construiu uma para si na terra.

Os que são amaldiçoados por Deus tendem a buscar aqui embaixo um lugar estável e a sua satisfação, Salmos 17:14.

(3.) Veja o método que Caim usou para se defender dos terrores que o assombravam sem parar.

Ele empreendeu essa construção para desviar os pensamentos da consideração da própria miséria, e para afogar os clamores de uma consciência culpada no barulho de machados e martelos.

É assim que muitos driblam as próprias convicções, jogando-se na correria dos negócios deste mundo.

(4.) Veja como os ímpios muitas vezes largam na frente do povo de Deus e o ultrapassam na prosperidade exterior.

Caim e sua raça maldita moram numa cidade, enquanto Adão e sua família abençoada moram em tendas. Não podemos julgar do amor ou do ódio por tudo o que está diante de nós, Eclesiastes 9:1, 2.

  1. A família dele também foi edificada. Temos aqui um relato da sua posteridade, ao menos dos herdeiros da sua família, por sete gerações.

O filho dele foi Enoque, do mesmo nome, mas não do mesmo caráter, daquele homem santo que andou com Deus, Gênesis 5:22.

Homens bons e maus podem ter os mesmos nomes; mas Deus pode distinguir entre Judas Iscariotes e “Judas, não o Iscariotes”, João 14:22.

Os nomes de outros da sua posteridade são mencionados, e apenas mencionados; não como os da semente santa (Gênesis 5), onde temos três versículos sobre cada um, enquanto aqui temos três ou quatro num versículo só.

São contados às pressas, como quem não é valorizado, nem apreciado com prazer, em comparação com os escolhidos de Deus.

Versículos 19 a 22

A Família de Lameque. (a.C. 3875.)

Temos aqui alguns detalhes a respeito de Lameque, o sétimo a partir de Adão na linhagem de Caim. Observe:

I. O casamento dele com duas mulheres. Foi um da raça degenerada de Caim que primeiro transgrediu aquela lei original do casamento, que só dois deviam ser uma só carne.

Até ali cada homem tinha apenas uma esposa por vez; mas Lameque tomou duas. “Desde o princípio não foi assim.” Malaquias 2:15; Mateus 19:5. Veja aqui:

  1. Quem abandona a igreja e as ordenanças de Deus se expõe a todo tipo de tentação.

  2. Quando um mau costume é iniciado por homens maus, às vezes homens de melhor caráter são arrastados, por descuido, a segui-los. Jacó, Davi e muitos outros, que no mais eram homens bons, foram depois enredados neste pecado que Lameque começou.

II. A felicidade dele nos filhos, apesar disso. Ainda que tivesse pecado ao casar-se com duas mulheres, ainda assim foi abençoado com filhos das duas, e filhos que chegaram a ser famosos na sua geração — não pela piedade, disso não se faz nenhuma menção (pelo que aparece, eram os pagãos daquela época), mas pelo engenho.

Não eram apenas eles mesmos homens de negócio, mas eram homens proveitosos ao mundo, notáveis pela invenção, ou pelo menos pelo aperfeiçoamento, de algumas artes úteis.

  1. Jabal foi um pastor famoso; ele mesmo tinha grande prazer em criar gado, e foi tão feliz em inventar métodos de fazer isso do melhor modo, e em ensinar esses métodos aos outros, que os pastores daquele tempo, ou melhor, os pastores dos tempos seguintes, o chamaram de pai.

Ou talvez, tendo os filhos dele depois sido criados no mesmo ofício, a família tenha sido uma família de pastores.

  1. Jubal foi um músico famoso, e em particular um organista, e o primeiro a dar regras para a nobre arte, ou ciência, da música. Quando Jabal os pôs no caminho de serem ricos, Jubal os pôs no caminho de serem alegres.

Quem passa os dias na riqueza não ficará sem o tamboril e a harpa, Jó 21:12, 13. Do nome dele, Jubal, provavelmente veio o nome da trombeta do jubileu; porque a melhor música era aquela que proclamava liberdade e redenção.

Jabal era o Pã deles, e Jubal o Apolo deles.

  1. Tubalcaim foi um ferreiro famoso, que aperfeiçoou muito a arte de trabalhar em bronze e em ferro, para o serviço tanto da guerra quanto da lavoura. Era o Vulcano deles. Veja aqui:

(1.) Que as coisas do mundo são as únicas coisas em que as pessoas carnais e más põem o coração, e a respeito das quais são mais engenhosas e diligentes. Assim foi com esta raça ímpia do maldito Caim.

Aqui havia um pai de pastores e um pai de músicos, mas não um pai dos fiéis. Havia quem ensinasse a trabalhar em bronze e em ferro, mas ninguém que ensinasse o bom conhecimento do Senhor.

Havia invenções para ficar rico, para ficar poderoso e para ficar alegre, mas nada de Deus, nem do temor e do serviço dele, entre eles. As coisas presentes enchem a cabeça da maioria das pessoas.

(2.) Que mesmo os que são destituídos do conhecimento e da graça de Deus podem ser dotados de muitos talentos excelentes e úteis, capazes de torná-los famosos e proveitosos na sua geração.

Dons comuns são dados a homens maus, enquanto Deus escolhe para si as coisas loucas do mundo.

Versículos 23 a 24

Por este discurso de Lameque, que fica aqui registrado e provavelmente foi muito comentado naquele tempo, ele parece, além disso, ter sido um homem perverso, como em geral era a raça maldita de Caim. Observe:

  1. Com que arrogância e prepotência ele fala às suas mulheres, como quem esperava enorme consideração e obediência: “Ouvi a minha voz, mulheres de Lameque.”

Não é de espantar que quem quebrou uma lei do casamento, tomando duas mulheres, quebrasse também a outra, que o obrigava a ser bondoso e terno com as que tomara, e a dar honra à mulher como ao vaso mais frágil.

Nem sempre os que mais exigem respeito dos outros, e os que mais chamam os seus para saberem o seu lugar e cumprirem o seu dever, são os mais zelosos em cumprir o seu próprio dever.

  1. Como era sanguinário e bárbaro com todos ao seu redor: “Abati”, ou (como está na margem) “abateria um homem em minha ferida, e um jovem em meu dano.”

Ele mesmo se reconhece homem de índole feroz e cruel, que golpearia à sua volta sem misericórdia e mataria todo o que lhe cruzasse o caminho, fosse homem ou jovem; ou melhor, mesmo correndo ele próprio o risco de sair ferido e machucado do conflito.

Alguns acham que, por se comparar com Caim (v. 24), ele havia assassinado alguns da semente santa, os verdadeiros adoradores de Deus, e que reconhecia nisso a ferida da sua consciência e o dano da sua alma. E ainda assim, como Caim, continuou impenitente, tremendo e, ainda assim, não humilhado.

Ou então as suas mulheres, sabendo de que espírito ele era, e como era pronto tanto a provocar quanto a se ofender, temiam que alguém acabasse por matá-lo.

“Não tenham medo”, diz ele, “desafio qualquer um a me atacar; quem o fizer, deixem que eu mesmo acerte as contas com ele; eu o abaterei, seja homem ou jovem.”

Repare: é comum homens ferozes e sanguinários se gloriarem na sua vergonha (Filipenses 3:19), como se fosse tanto a sua segurança quanto a sua honra não se importarem com quantas vidas são sacrificadas aos seus ressentimentos irados, nem com o quanto são odiados, contanto que sejam temidos.

Oderint, dum metuant — que odeiem, contanto que temam.

  1. Com que impiedade ele presume até da proteção de Deus no seu caminho perverso, v. 24.

Ele tinha ouvido que Caim seria vingado sete vezes (v. 15), isto é, que se alguém ousasse matar Caim seria severamente cobrado e punido por isso, ainda que Caim merecesse morrer mil mortes pelo assassinato do irmão.

Daí ele conclui que, se alguém o matasse pelos assassinatos que havia cometido, Deus vingaria a morte dele muito mais.

Como se o cuidado especial que Deus teve em prolongar e assegurar a vida de Caim, por razões especiais, próprias do caso dele (e de fato para castigo mais severo, assim como a existência dos condenados se prolonga), tivesse sido pensado como proteção para todos os assassinos.

Assim argumenta Lameque, perversamente: “Se Deus proveu a segurança de Caim, muito mais proverá a minha, pois, ainda que eu tenha abatido muitos, ainda assim nunca abati o meu próprio irmão, e sem provocação nenhuma, como ele fez.”

Repare: o adiamento da pena de alguns pecadores, e a paciência que Deus exerce para com eles, muitas vezes são abusados para endurecer outros nos mesmos caminhos de pecado, Eclesiastes 8:11.

Mas, ainda que a justiça atinja alguns devagar, nem por isso os outros podem ter certeza de que não serão levados por uma destruição repentina.

Ou, se Deus tiver muita paciência com os que assim presumem da sua tolerância, com isso eles apenas entesouram para si mesmos cólera para o dia da cólera.

E isto é tudo o que a Escritura registra a respeito da família e da posteridade do maldito Caim, até os encontrarmos todos ceifados, perecendo no dilúvio universal.

Versículos 25 a 26

O Nascimento de Sete. (a.C. 3874.)

Esta é a primeira menção a Adão na história deste capítulo.

Sem dúvida, o assassinato de Abel e a impenitência e apostasia de Caim foram uma dor imensa para ele e para Eva, e mais ainda porque a própria maldade deles agora os corrigia e os seus desvios os censuravam.

A loucura deles tinha dado ao pecado e à morte entrada no mundo; e agora sofriam por causa disso, ficando, por esse meio, privados dos dois filhos num só dia, Gênesis 27:45.

Quando a maldade dos filhos causa dor aos pais, eles devem tomar isso como ocasião para lamentar aquela corrupção da natureza que veio deles, e que é a raiz de amargura.

Mas aqui temos o que serviu de alívio aos nossos primeiros pais na sua aflição:

I. Deus lhes concedeu ver a reconstrução da sua família, que aquele triste desfecho tinha abalado e enfraquecido gravemente. Porque:

  1. Viram a sua descendência, “outra descendência em lugar de Abel”, v. 25.

Observe a bondade e a ternura de Deus para com o seu povo, no modo como a sua providência lida com eles: quando tira deles um consolo, dá-lhes outro em lugar dele, que pode vir a ser bênção maior do que aquele em que julgavam estar presa a sua vida.

Essa outra descendência foi aquele em quem a igreja devia ser edificada e perpetuada, e ele vem em lugar de Abel; pois a sucessão dos confessores é o reviver dos mártires e, por assim dizer, a ressurreição das testemunhas de Deus que foram abatidas.

Assim somos batizados pelos mortos (1 Coríntios 15:29), isto é, somos, pelo batismo, admitidos na igreja em lugar, ou em substituição, daqueles que pela morte, sobretudo pelo martírio, são tirados dela; e ocupamos o espaço deles.

Os que abatem os servos de Deus esperam por esse meio desgastar os santos do Altíssimo; mas serão enganados.

Cristo verá continuamente a sua descendência; Deus pode levantar das pedras filhos para ele, e fazer do sangue dos mártires a semente da igreja, cujas terras, temos certeza, nunca se perderão por falta de herdeiros.

A este filho, por espírito profético, chamaram Sete (isto é, posto, assentado, ou colocado), porque na descendência dele a humanidade continuaria até o fim do tempo, e dele descenderia o Messias.

Enquanto Caim, o cabeça da apostasia, é feito errante, Sete, de quem devia vir a verdadeira igreja, é alguém fixado. Em Cristo e na sua igreja está a única estabilidade verdadeira.

  1. Viram a descendência da sua descendência, v. 26.

A Sete nasceu um filho chamado Enos, aquele nome geral para todos os homens, que exprime a fraqueza, a fragilidade e a miséria do estado do homem.

Os melhores homens são os que mais sentem isso, tanto em si mesmos quanto nos seus filhos. Nunca estamos tão assentados que não precisemos lembrar a nós mesmos de que somos frágeis.

II. Deus lhes concedeu ver o reavivamento da religião na sua família: “Então os homens começaram a invocar o nome do Senhor”, v. 26.

É pequeno consolo para um homem bom ver os filhos dos seus filhos, se não vir junto com isso paz sobre Israel, e os que dele descendem andando na verdade.

Sem dúvida o nome de Deus já era invocado antes, mas agora:

  1. Os adoradores de Deus começaram a se animar para fazer na religião mais do que tinham feito; talvez não mais do que se fizera no princípio, mas mais do que se vinha fazendo ultimamente, desde a deserção de Caim.

Agora os homens começaram a adorar a Deus não só nos seus aposentos e nas suas famílias, mas em assembleias públicas e solenes. Ou então houve agora uma reforma tão grande na religião que foi, por assim dizer, um novo começo dela.

“Então” pode se referir não ao nascimento de Enos, mas a toda a história anterior, então, quando os homens viram em Caim e Lameque os tristes efeitos do pecado pela atuação da consciência natural — quando viram os juízos de Deus sobre o pecado e sobre os pecadores — então ficaram muito mais vivos e resolutos na religião.

Quanto piores são os outros, melhores devemos ser nós, e mais zelosos.

  1. Os adoradores de Deus começaram a se distinguir. A margem traz: “Então os homens começaram a ser chamados pelo nome do Senhor”, ou a se chamarem por ele.

Agora que Caim e os que tinham abandonado a religião haviam construído uma cidade, e começado a se declarar pela impiedade e pela irreligião, e se chamavam filhos dos homens, os que se mantinham firmes com Deus começaram a se declarar por ele e pelo seu culto, e se chamavam filhos de Deus.

Começou aí a distinção entre os que professam e os profanos, que se manteve desde então, e se manterá enquanto o mundo durar.


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