Matthew Henry

Gênesis 3

Argumento

A história deste capítulo é talvez a mais triste, consideradas todas as coisas, de todas as que temos em toda a Bíblia.

Nos capítulos anteriores tivemos a vista agradável da santidade e da felicidade dos nossos primeiros pais, da graça e do favor de Deus, e da paz e da beleza de toda a criação: tudo bom, muito bom. Mas aqui a cena muda.

Temos aqui o relato do pecado e da miséria dos nossos primeiros pais, da cólera e da maldição de Deus contra eles, da paz da criação perturbada, e da sua beleza manchada e enodoada: tudo mau, muito mau.

Como se escureceu o ouro, e como se mudou o ouro mais fino!

Quem dera que o nosso coração fosse profundamente tocado por este registro! Porque a todos nós ele diz respeito de perto; que ele não seja para nós como uma história que se conta.

O conteúdo geral deste capítulo está em Romanos 5:12: “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte; e assim a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.”

Mais em particular, temos aqui:

I. O inocente tentado, vv. 1-5.

II. O tentado transgredindo, vv. 6-8.

III. Os transgressores levados a julgamento, v. 9, 10.

IV. Uma vez levados a julgamento, convictos, vv. 11-13.

V. Uma vez convictos, sentenciados, vv. 14-19.

VI. Depois da sentença, com a execução adiada, v. 20, 21.

VII. Apesar do adiamento, execução cumprida em parte, vv. 22-24.

E, se não fossem os graciosos anúncios que aqui se dão da redenção pela semente prometida, eles e toda a sua raça degenerada e culpada teriam ficado entregues a um desespero sem fim.

Versículos 1 a 4

A Sutileza do Tentador; A Insistência do Tentador (a.C. 4004.)

Temos aqui o relato da tentação com que Satanás atacou os nossos primeiros pais, para arrastá-los ao pecado, e que acabou sendo fatal para eles. Observe aqui:

I. O tentador, e esse era o diabo, na figura e na semelhança de uma serpente:

  1. É certo que foi o diabo quem enganou Eva.

O diabo e Satanás é a antiga serpente (Apocalipse 12:9), um espírito maligno, por criação um anjo de luz e servo imediato do trono de Deus, mas que pelo pecado se tornou apóstata do seu primeiro estado e rebelde contra a coroa e a dignidade de Deus.

Multidões de anjos caíram; mas este que atacou os nossos primeiros pais era com certeza o príncipe dos demônios, o cabeça da rebelião: mal se fez pecador, já era Satanás; mal se fez traidor, já era tentador, como quem está enfurecido contra Deus e a glória dele, e invejoso do homem e da felicidade dele.

Ele sabia que não podia destruir o homem senão corrompendo-o. Balaão não podia amaldiçoar Israel, mas podia tentar Israel, Apocalipse 2:14.

O jogo que Satanás tinha para jogar, portanto, era levar os nossos primeiros pais ao pecado, e assim separá-los do seu Deus. Assim o diabo foi, desde o princípio, um homicida, e o grande fazedor de estragos.

Toda a raça humana tinha aqui, por assim dizer, um só pescoço, e foi nele que Satanás golpeou. O adversário e inimigo é aquele maligno.

  1. Era o diabo na semelhança de uma serpente.

Se era apenas a forma visível e a aparência de uma serpente (como alguns pensam que eram aquelas de que lemos em Êxodo 7:12), ou se era uma serpente real e viva, movida e possuída pelo diabo, não é coisa certa: com a permissão de Deus, podia ser uma coisa ou outra.

O diabo escolheu fazer o seu papel dentro de uma serpente:

(1.) Porque é uma criatura vistosa, tem a pele malhada e salpicada, e naquele tempo andava ereta.

Talvez fosse uma serpente voadora, que parecia vir do alto como mensageira do mundo superior, um dos serafins; porque as serpentes ardentes eram voadoras, Isaías 14:29.

Muita tentação perigosa chega até nós em cores alegres e vistosas, que não passam da superfície, e parece vir de cima; porque Satanás sabe parecer um anjo de luz.

E (2.) Porque é uma criatura sutil; é disso que se toma nota aqui.

Dão-se muitos exemplos da sutileza da serpente, tanto para fazer o mal quanto para se pôr a salvo depois de feito. Somos orientados a ser prudentes como as serpentes.

Mas esta serpente, movida pelo diabo, era sem dúvida mais sutil que qualquer outra; porque o diabo, embora tenha perdido a santidade de anjo, conserva a sagacidade de anjo, e é sábio para fazer o mal.

Ele sabia que tiraria do uso da serpente mais vantagem do que nós percebemos.

Observe: não há nada com que o diabo sirva mais a si mesmo e ao seu próprio interesse do que a sutileza não santificada.

O que Eva pensou dessa serpente falando com ela dificilmente saberemos dizer, já que eu creio que nem ela mesma sabia o que pensar.

No início, talvez tenha suposto que fosse um bom anjo, e depois talvez tenha desconfiado de algo errado.

É digno de nota que muitos dos idólatras gentios adoravam o diabo na figura e na forma de uma serpente, declarando assim a sua adesão àquele espírito apóstata e vestindo as cores dele.

II. A pessoa tentada foi a mulher, agora sozinha, longe do marido, mas perto da árvore proibida. Foi sutileza do diabo:

  1. Atacar com as suas tentações o vaso mais fraco. Embora perfeita no seu gênero, podemos supô-la inferior a Adão em conhecimento, em força e em presença de espírito.

Alguns pensam que Eva recebeu o mandamento não diretamente de Deus, mas de segunda mão, pelo marido, e que por isso podia ser convencida com mais facilidade a duvidar dele.

  1. Foi tática dele puxar conversa com ela quando estava sozinha. Se ela tivesse ficado junto do lado de onde havia pouco fora tirada, não estaria tão exposta.

Há muitas tentações às quais a solidão dá grande vantagem; mas a comunhão dos santos contribui muito para a força e a segurança deles.

  1. Ele se aproveitou de encontrá-la perto da árvore proibida, e provavelmente contemplando o fruto dela, só para satisfazer a sua curiosidade.

Quem não quer comer o fruto proibido não deve chegar perto da árvore proibida. Evita-o, não passes por ele, Provérbios 4:15.

  1. Satanás tentou Eva para que, por meio dela, pudesse tentar Adão; assim tentou Jó pela mulher dele, e Cristo por Pedro.

É tática dele mandar as tentações por mãos insuspeitas, e pelas mãos dos que têm mais proximidade conosco e mais influência sobre nós.

III. A tentação em si, e o manejo engenhoso dela.

A Escritura muitas vezes nos avisa do perigo que corremos com as tentações de Satanás: as suas maquinações (2 Coríntios 2:11), as suas profundezas (Apocalipse 2:24), os seus ardis, Efésios 6:11.

Os maiores exemplos que temos disso estão na tentação dos dois Adãos: esta aqui, e Mateus 4. Nesta ele venceu; naquela foi derrotado.

O que ele falou a eles, sobre quem não tinha domínio algum por corrupção alguma dentro deles, ele fala dentro de nós pelos nossos próprios corações enganosos e pelos raciocínios carnais deles; isso torna os ataques dele contra nós menos perceptíveis, mas não menos perigosos.

O que o diabo pretendia era persuadir Eva a comer o fruto proibido; e, para isso, usou o mesmo método que usa ainda hoje.

Ele pôs em dúvida se aquilo era pecado ou não, v. 1. Negou que houvesse qualquer perigo nisso, v. 4. Sugeriu grande vantagem naquilo, v. 5. E estes são os assuntos de sempre dele.

  1. Ele pôs em dúvida se era pecado ou não comer desta árvore, e se realmente o fruto dela estava proibido. Observe:

(1.) Ele disse à mulher: Então Deus disse: Não comereis? A primeira palavra dá a entender que algo foi dito antes, que introduz isto e a que isto se liga: talvez alguma conversa que Eva tivera consigo mesma, e da qual Satanás se apossou para enxertar nela esta pergunta.

Na cadeia dos pensamentos, uma coisa traz outra de modo estranho, e talvez algo ruim no fim. Observe aqui:

[1.] Ele não revela o seu plano de início, mas faz uma pergunta que parecia inocente: “Ouvi uma notícia; diga, é verdade? Deus proibiu vocês de comer desta árvore?”

Assim ele começava uma conversa e a puxava para uma negociação. Quem quer estar seguro precisa ser desconfiado e arredio para conversar com o tentador.

[2.] Ele cita o mandamento de forma capciosa, como se fosse proibição não só daquela árvore, mas de todas.

Deus tinha dito: De toda árvore podereis comer, exceto de uma. Ele, agravando a exceção, procura anular a concessão: Disse Deus: Não comereis de toda árvore?

Não se pode lançar descrédito sobre a lei divina sem antes deturpá-la.

[3.] Ele parece dizer isso em tom de zombaria, repreendendo a mulher pelo receio de mexer naquela árvore, como se dissesse: “Você é tão escrupulosa e cautelosa, tão certinha, porque Deus disse: Não comereis.”

O diabo, assim como é mentiroso, é também escarnecedor desde o princípio; e os escarnecedores dos últimos dias são filhos dele.

[4.] O que ele visava no primeiro assalto era tirar dela a consciência de que o mandamento obrigava. “Com certeza você está enganada; não pode ser que Deus a mantenha afastada desta árvore; ele não faria uma coisa tão sem razão.”

Veja aqui: é sutileza de Satanás manchar a reputação da lei divina como incerta ou sem razão, e assim arrastar as pessoas ao pecado; e que por isso é sabedoria nossa manter uma crença firme no mandamento de Deus e um alto respeito por ele.

Deus disse: “Não mentirás, não tomarás o seu nome em vão, não te embriagarás”, etc.? “Sim, tenho certeza de que disse, e está bem dito, e pela graça dele eu me mantenho nisso, seja o que for que o tentador sugira em contrário.”

(2.) Em resposta a essa pergunta, a mulher lhe dá um relato claro e completo da lei sob a qual estavam, v. 2, 3. Observe aqui:

[1.] Foi fraqueza dela entrar em conversa com a serpente. Ela podia ter percebido pela pergunta dele que não havia boa intenção ali, e devia por isso ter recuado com um: Para trás de mim, Satanás, tu me és escândalo.

Mas a curiosidade dela, e talvez a surpresa de ouvir uma serpente falar, a levou a conversar mais com ele.

Repare: é coisa perigosa negociar com uma tentação, que deveria de saída ser rejeitada com desdém e horror. A guarnição que toca o sinal de negociação não está longe de se render.

Quem quer ser guardado do mal precisa ficar fora do caminho do mal. Veja Provérbios 14:7; Provérbios 19:27.

[2.] Foi sabedoria dela lembrar a liberdade que Deus lhes tinha concedido, em resposta à insinuação manhosa dele, como se Deus os tivesse posto no paraíso só para provocá-los com a vista de frutos belos mas proibidos.

“Sim”, diz ela, “podemos comer do fruto das árvores; graças ao nosso Criador, temos fartura e variedade de sobra permitidas a nós.”

Repare: para que as restrições da religião não nos incomodem, é bom olhar muitas vezes para as liberdades e os consolos dela.

[3.] Foi prova da firmeza dela ter-se apegado ao mandamento e tê-lo repetido fielmente, como coisa de certeza inquestionável: “Deus disse — estou certa de que ele disse —: Não comereis do fruto desta árvore.”

E o que ela acrescenta, Nem tocareis nele, parece ter sido com boa intenção: não (como alguns pensam) para criticar de modo velado o mandamento como severo demais (Não pegues, não proves, não toques), mas para fazer uma cerca em volta dele.

“Não devemos comer, portanto não vamos tocar. Está proibido no mais alto grau, e a autoridade da proibição é sagrada para nós.”

[4.] Ela parece vacilar um pouco quanto à ameaça, e não é tão exata e fiel ao repeti-la como foi com o preceito.

Deus tinha dito: No dia em que dele comeres, certamente morrerás; tudo o que ela faz disso é: Para que não morrais.

Repare: fé vacilante e resoluções vacilantes dão grande vantagem ao tentador.

  1. Ele nega que houvesse qualquer perigo nisso, insistindo que, embora aquilo pudesse ser a transgressão de um preceito, não seria incorrer numa pena: Certamente não morrereis, v. 4.

“Morrendo não morrereis”, é assim a palavra, em contradição direta com o que Deus tinha dito. Ou:

(1.) “Não é certo que morrereis” — assim entendem alguns. “Não é tão certo quanto os fizeram acreditar que é.”

Assim Satanás procura abalar o que não consegue derrubar, e anula a força das ameaças divinas pondo em dúvida a certeza delas.

E, uma vez que se supõe possível haver falsidade ou engano em alguma palavra de Deus, abre-se então a porta para a descrença declarada.

Satanás ensina os homens primeiro a duvidar, depois a negar; faz deles céticos primeiro, e assim, aos poucos, faz deles ateus.

Ou (2.) “É certo que não morrereis” — assim entendem outros. Ele afirma a sua contradição com a mesma expressão de garantia que Deus tinha usado para ratificar a ameaça.

Ele começou pondo o preceito em dúvida (v. 1), mas, vendo que a mulher se mantinha firme nele, abandonou essa bateria e fez o segundo assalto contra a ameaça, onde percebeu que ela vacilava.

Porque ele é rápido em farejar toda vantagem e em atacar a muralha onde ela é mais fraca: Certamente não morrereis. Isso foi mentira, mentira deslavada; porque:

[1.] Era contrário à palavra de Deus, que temos certeza de ser verdadeira. Veja 1 João 2:21, 27. Foi uma mentira que desmentia o próprio Deus.

[2.] Era contrário ao que ele mesmo sabia. Quando lhes disse que não havia perigo na desobediência e na rebelião, disse o que sabia ser falso, por experiência amarga.

Ele tinha quebrado a lei da sua criação e descobrira, às suas custas, que não podia prosperar nisso; e mesmo assim diz aos nossos primeiros pais que eles não vão morrer.

Escondeu a própria miséria para arrastá-los à mesma coisa: assim ele ainda engana os pecadores até a ruína deles.

Diz a eles que, ainda que pequem, não morrerão; e ganha mais crédito do que Deus, que lhes diz: O salário do pecado é a morte.

Repare: a esperança de impunidade é um grande apoio a toda iniquidade e à impenitência nela. Terei paz, ainda que ande na imaginação do meu coração, Deuteronômio 29:19.

  1. Ele lhes promete vantagem com aquilo, v. 5. Aqui ele insiste no golpe, e era um golpe na raiz, um golpe fatal na árvore da qual somos ramos.

Ele não só se comprometia a que não perdessem nada com aquilo, obrigando-se assim a livrá-los de todo dano.

Mas — se eles fossem tolos a ponto de se arriscar na garantia de alguém que já tinha ido à falência — garantia que sairiam ganhando, e ganhando de modo indescritível.

Ele não teria conseguido persuadi-los a correr o risco de se arruinar se não lhes tivesse sugerido uma grande probabilidade de melhorar a própria condição.

(1.) Ele lhes insinua os grandes progressos que fariam comendo deste fruto.

E ajusta a tentação ao estado puro em que estavam então, propondo-lhes não prazeres nem gratificações carnais, mas deleites e satisfações intelectuais. Estas eram as iscas com que ele cobria o anzol.

[1.] “Os seus olhos se abrirão; vocês terão muito mais do poder e do prazer da contemplação do que têm agora; vão alcançar um raio muito mais largo nas suas vistas intelectuais e enxergar mais fundo nas coisas do que enxergam hoje.”

Ele fala como se agora eles fossem de vista turva e curta, comparados com o que seriam depois.

[2.] “Vocês serão como deuses, como Elohim, deuses poderosos; não só oniscientes, mas também onipotentes”; ou: “Vocês serão como o próprio Deus, iguais a ele, rivais dele; serão soberanos e não mais súditos, autossuficientes e não mais dependentes.”

Sugestão absurda como poucas! Como se fosse possível a criaturas de ontem serem como o seu Criador, que é desde a eternidade.

[3.] “Vocês conhecerão o bem e o mal, isto é, tudo o que é desejável conhecer.”

Para sustentar esta parte da tentação, ele abusa do nome dado a esta árvore: esse nome se destinava a ensinar o conhecimento prático do bem e do mal, isto é, do dever e da desobediência; e a árvore viria a proporcionar o conhecimento experimental do bem e do mal, isto é, da felicidade e da miséria.

Nestes sentidos, o nome da árvore era um aviso para que não comessem dela; mas ele perverte o sentido dele e o torce para a destruição deles, como se aquela árvore fosse lhes dar um conhecimento especulativo e teórico das naturezas, dos tipos e das origens do bem e do mal.

E [4.] Tudo isso já: “No dia em que comerem dele, vocês vão encontrar uma mudança repentina e imediata para melhor.”

Ora, em todas estas insinuações ele visa gerar neles:

Primeiro, descontentamento com o seu estado presente, como se ele não fosse tão bom quanto poderia e deveria ser.

Repare: nenhuma condição traz contentamento por si mesma, a não ser que a mente seja levada a ele. Adão não estava tranquilo, não, nem no paraíso, nem os anjos no seu primeiro estado, Judas 6.

Segundo, ambição por um posto mais alto, como se eles fossem próprios para ser deuses.

Satanás tinha arruinado a si mesmo desejando ser semelhante ao Altíssimo (Isaías 14:14), e por isso procura infectar os nossos primeiros pais com o mesmo desejo, para arruiná-los também.

(2.) Ele lhes insinua que Deus não tinha boa intenção com eles ao proibir-lhes este fruto: “Porque Deus sabe o quanto isso vai elevar vocês; e por isso, por inveja e má vontade contra vocês, ele o proibiu.”

É como se ele não ousasse deixá-los comer daquela árvore porque então conheceriam a própria força, não continuariam num estado inferior, e seriam capazes de enfrentá-lo.

Ou como se ele lhes invejasse a honra e a felicidade a que o comer daquela árvore os elevaria. Ora:

[1.] Isso era uma grande afronta a Deus, e a maior indignidade que se lhe podia fazer.

Lançava descrédito sobre o poder dele, como se temesse as suas criaturas, e ainda mais sobre a bondade dele, como se odiasse a obra das suas próprias mãos e não quisesse que aqueles a quem fez fossem feitos felizes.

Os melhores dos homens vão achar estranho serem deturpados e mal falados, quando o próprio Deus é assim tratado?

Satanás, assim como é o acusador dos irmãos diante de Deus, também acusa Deus diante dos irmãos; assim ele semeia discórdia, e é o pai dos que fazem o mesmo.

[2.] Foi um laço perigosíssimo para os nossos primeiros pais, porque tendia a afastar deles o afeto por Deus, e assim a tirá-los da lealdade que lhe deviam.

Assim o diabo ainda atrai as pessoas para o lado dele, sugerindo-lhes pensamentos duros a respeito de Deus e falsas esperanças de proveito e vantagem pelo pecado.

Por isso, em oposição a ele, pensemos sempre bem de Deus, como o melhor dos bens, e pensemos mal do pecado, como o pior dos males: assim resistamos ao diabo, e ele fugirá de nós.

Versículos 6 a 8

A Queda do Homem. (a.C. 4004.)

Aqui vemos em que deu a conversa de Eva com o tentador. Satanás, enfim, alcança o seu objetivo, e a fortaleza é tomada pelas suas artimanhas.

Deus provou a obediência dos nossos primeiros pais proibindo-lhes a árvore do conhecimento, e Satanás, por assim dizer, aceita o desafio e se compromete a seduzi-los à transgressão exatamente naquele ponto.

E aqui encontramos como ele prevaleceu, Deus permitindo isso para fins sábios e santos.

I. Temos aqui os atrativos que os levaram a transgredir.

A mulher, enganada pela condução astuta do tentador, foi a cabeça da transgressão, 1 Timóteo 2:14. Ela foi a primeira na culpa; e isso foi resultado da consideração dela, ou melhor, da falta de consideração.

  1. Ela não via naquela árvore mal nenhum, mais do que em qualquer das outras.

De todas as demais árvores frutíferas com que o jardim do Éden foi plantado se disse que eram agradáveis à vista e boas para alimento, Gênesis 2:9. Agora, aos olhos dela, esta era como todas as outras.

Parecia tão boa para alimento quanto qualquer delas, e ela não via na cor do fruto nada que ameaçasse morte ou perigo.

Era tão agradável à vista quanto qualquer outra e, por isso: “Que mal isso poderia lhes fazer? Por que esta haveria de lhes ser proibida, e não qualquer das outras?”

Repare: quando se pensa que no fruto proibido não há mais mal do que em outro fruto, o pecado está à porta, e Satanás logo leva a melhor.

Mais que isso: talvez lhe parecesse melhor para alimento, mais grata ao paladar e mais nutritiva ao corpo do que qualquer das outras, e aos olhos dela era mais agradável do que todas.

Muitas vezes somos traídos e caímos em armadilhas por um desejo desmedido de ter os sentidos satisfeitos.

Ou então, mesmo que ela nada tivesse de mais convidativo que as outras, ainda assim era mais cobiçada porque era proibida.

Se foi assim com ela ou não, o certo é que em nós (isto é, na nossa carne, na nossa natureza corrompida) habita um estranho espírito de contradição. Nitimur in vetitum — desejamos o que é proibido.

  1. Ela imaginou naquela árvore mais virtude do que em qualquer das outras: que era uma árvore não só não temível, mas desejável para dar sabedoria, superando nisso todas as demais.

Isto ela viu, isto é, percebeu e entendeu pelo que o diabo lhe tinha dito; e alguns pensam que ela viu a serpente comer daquela árvore, e que ele lhe disse ter adquirido assim as faculdades da fala e da razão.

Daí ela inferiu que a árvore tinha poder de dar sabedoria, e se persuadiu a pensar: “Se ela fez racional uma criatura bruta, por que não faria divina uma criatura racional?”

Veja aqui como o desejo de conhecimento desnecessário, sob a noção equivocada de sabedoria, se mostra prejudicial e destrutivo para muitos.

Os nossos primeiros pais, que sabiam tanto, não sabiam isto: que já sabiam o suficiente.

Cristo é uma árvore desejável para dar sabedoria, Colossenses 2:3; 1 Coríntios 1:30. Alimentemo-nos dele pela fé, para que sejamos sábios para a salvação.

No paraíso celestial, a árvore do conhecimento não será uma árvore proibida; porque lá conheceremos como somos conhecidos.

Desejemos ardentemente estar lá e, enquanto isso, não nos ocupemos de coisas altas ou profundas demais para nós, nem cobicemos ser sábios acima do que está escrito.

II. Os degraus da transgressão, degraus não para cima, mas para baixo, rumo ao poço — degraus que se agarram ao inferno:

  1. Ela viu. Devia ter desviado os olhos de contemplar a vaidade; mas entra na tentação olhando com prazer para o fruto proibido.

Repare: muito pecado entra pelos olhos. Por essas janelas Satanás lança aqueles dardos inflamados que perfuram e envenenam o coração.

O olho afeta o coração com culpa tanto quanto com dor. Façamos, então, como o santo Jó, uma aliança com os nossos olhos, de não olhar para aquilo que corremos o risco de cobiçar, Provérbios 23:31; Mateus 5:28.

Que o temor de Deus seja sempre para nós um véu sobre os olhos, Gênesis 20:16.

  1. Ela tomou. Foi ato e obra dela. O diabo não o tomou nem o pôs na boca dela, quisesse ela ou não; ela mesma o tomou.

Satanás pode tentar, mas não pode forçar; pode nos persuadir a nos lançar do alto, mas não pode nos lançar, Mateus 4:6.

O tomar de Eva foi um furto, como o de Acã ao tomar a coisa maldita: tomar aquilo a que ela não tinha direito. Certamente ela o tomou com a mão tremendo.

  1. Ela comeu. Talvez não pretendesse tomar, quando olhou, nem comer, quando tomou; mas foi nisso que deu.

Repare: o caminho do pecado é ladeira abaixo; o homem não consegue se deter quando quer.

O começo dele é como o romper das águas, às quais é difícil dizer: Até aqui virás, e não mais adiante.

Por isso é sabedoria nossa sufocar as primeiras emoções do pecado e abandoná-lo antes que se mexa nele. Obsta principiis — corte o mal pela raiz.

  1. Ela deu também ao marido, que estava com ela.

É provável que ele não estivesse com ela quando foi tentada (com certeza, se estivesse, teria intervindo para impedir o pecado), mas veio até ela depois que ela tinha comido, e foi levado por ela a comer também; porque é mais fácil aprender o que é mau do que ensinar o que é bom.

Ela lhe deu persuadindo-o com os mesmos argumentos que a serpente tinha usado com ela, e acrescentou a todos eles este: que ela mesma tinha comido, e o achara tão longe de ser mortal que era extremamente agradável e gostoso. As águas furtadas são doces.

Ela lhe deu sob a aparência de bondade — não queria comer sozinha aqueles bocados deliciosos; mas na verdade era a maior maldade que podia lhe fazer.

Ou talvez lhe tenha dado para que, se aquilo se mostrasse nocivo, ele partilhasse com ela a desgraça; o que de fato parece estranhamente cruel, mas se pode supor sem dificuldade que entre no coração de quem tinha comido do fruto proibido.

Repare: quem fez o mal costuma querer arrastar outros a fazer o mesmo. Como foi com o diabo, assim foi com Eva: mal se tornou pecadora, já se tornou tentadora.

  1. Ele comeu, vencido pela insistência da mulher. É inútil perguntar: “Qual teria sido a consequência se só Eva tivesse transgredido?”

A sabedoria de Deus, disso temos certeza, teria resolvido a dificuldade conforme a equidade; mas, ai! o caso não foi esse: Adão também comeu.

“E que grande mal, se comeu?”, dizem os raciocínios corrompidos e carnais de uma mente vã. Que mal!

Ora, este ato envolveu descrença na palavra de Deus junto com confiança na do diabo, descontentamento com o seu estado presente, orgulho dos próprios méritos, ambição da honra que não vem de Deus, inveja das perfeições de Deus e satisfação dos apetites do corpo.

Ao deixar de lado a árvore da vida, da qual lhe era permitido comer, e ao comer da árvore do conhecimento, que era proibida, ele mostrou claramente desprezo pelos favores que Deus lhe tinha dado, e preferência pelo que Deus não julgou conveniente para ele.

Ele queria ser ao mesmo tempo quem se serve e quem manda: queria ter o que lhe agradasse e fazer o que lhe agradasse.

O pecado dele foi, numa palavra, desobediência (Romanos 5:19): desobediência a um mandamento claro, fácil e expresso, que provavelmente ele sabia ser um mandamento de prova.

Ele pecou contra grande conhecimento, contra muitas misericórdias, contra luz e amor — a luz mais clara e o amor mais querido contra os quais pecador algum jamais pecou.

Não tinha dentro de si natureza corrompida que o traísse; tinha liberdade de vontade, não escravizada, e estava em plena força, não enfraquecido nem debilitado. Ele se desviou depressa.

Alguns pensam que ele caiu no mesmo dia em que foi feito; mas não vejo como conciliar isso com o fato de Deus declarar tudo muito bom no fim daquele dia.

Outros supõem que ele caiu no dia de sábado: quanto melhor o dia, pior o feito. Seja como for, é certo que ele guardou a sua integridade por pouquíssimo tempo: estando em honra, não permaneceu.

Mas a maior agravante do seu pecado foi que por ele envolveu toda a sua posteridade em pecado e ruína.

Tendo Deus lhe dito que a sua raça encheria a terra, ele não podia deixar de saber que estava ali como pessoa pública, e que a sua desobediência seria fatal a toda a sua descendência; e, se é assim, foi certamente a maior traição e a maior crueldade que já houve.

Estando a natureza humana alojada inteiramente nos nossos primeiros pais, dali em diante ela não podia deixar de ser transmitida por eles sob a condenação da culpa, a mancha da desonra e a doença hereditária do pecado e da corrupção.

E podemos, então, dizer que no pecado de Adão havia pouco mal?

III. As consequências finais da transgressão. A vergonha e o medo tomaram conta dos réus, ipso facto — no próprio fato; entraram no mundo junto com o pecado, e ainda o acompanham.

  1. A vergonha tomou conta deles sem que ninguém os visse, v. 7, onde repare:

(1.) As fortes convicções sob as quais caíram, no seu próprio íntimo: Os olhos de ambos se abriram.

Não se fala aqui dos olhos do corpo; esses já estavam abertos antes, como se vê por isto: que o pecado entrou por eles.

Os olhos de Jônatas foram iluminados por comer do fruto proibido (1 Samuel 14:27), isto é, ele foi revigorado e reanimado por ele; mas com os deles não foi assim.

Nem se fala de qualquer avanço obtido com isso em conhecimento verdadeiro; mas os olhos da consciência deles se abriram, e o coração os feriu pelo que tinham feito.

Agora, quando já era tarde demais, viram a loucura de comer do fruto proibido. Viram a felicidade da qual tinham caído e a miséria na qual tinham caído.

Viram um Deus amoroso provocado, a graça e o favor dele perdidos, a semelhança e a imagem dele perdidas, o domínio sobre as criaturas desaparecido.

Viram a sua natureza corrompida e depravada, e sentiram no próprio espírito uma desordem de que nunca antes tinham tido consciência.

Viram uma lei nos seus membros guerreando contra a lei da sua mente, e cativando-os tanto para o pecado quanto para a ira.

Viram, como Balaão quando os seus olhos se abriram (Números 22:31), o anjo do Senhor de pé no caminho, com a espada desembainhada na mão; e talvez tenham visto a serpente que os havia enganado zombando deles.

O texto nos diz que viram que estavam nus, isto é:

[1.] Que estavam despojados, privados de todas as honras e alegrias do seu estado de paraíso, e expostos a todas as misérias que com justiça se podiam esperar de um Deus irado. Estavam desarmados; a sua defesa tinha se apartado deles.

[2.] Que estavam envergonhados, envergonhados para sempre, diante de Deus e dos anjos.

Viram-se despidos de todos os seus ornamentos e insígnias de honra, rebaixados da sua dignidade e desonrados no mais alto grau, expostos ao desprezo e ao descrédito perante o céu, a terra e a própria consciência. Agora veja aqui:

Primeiro, que desonra e que inquietação é o pecado. Ele faz estrago onde quer que seja admitido, põe o homem contra si mesmo, perturba a sua paz e destrói todos os seus consolos.

Cedo ou tarde ele terá vergonha: ou a vergonha do arrependimento verdadeiro, que acaba em glória, ou aquela vergonha e desprezo eterno para os quais os ímpios hão de ressuscitar no grande dia. O pecado traz descrédito a qualquer povo.

Segundo, que enganador é Satanás. Ele disse aos nossos primeiros pais, quando os tentou, que os olhos deles se abririam; e de fato se abriram, mas não como eles entenderam: abriram-se para a sua vergonha e a sua dor, não para a sua honra nem para o seu proveito.

Por isso, quando ele falar bonito, não creia nele. Os mentirosos mais maliciosos e daninhos muitas vezes se desculpam dizendo que apenas usam de ambiguidade; mas Deus não os desculpará assim.

(2.) O recurso lastimável que usaram para atenuar essas convicções e se armar contra elas: costuraram, ou entrançaram, folhas de figueira; e, para esconder ao menos parte da sua vergonha um do outro, fizeram para si aventais.

Veja aqui qual é comumente a loucura dos que pecaram:

[1.] Que se preocupam mais em preservar a própria reputação diante dos homens do que em obter o perdão de Deus; custam a confessar o pecado e desejam muito escondê-lo o quanto for possível. Pequei; honra-me, porém.

[2.] Que as desculpas que os homens inventam para encobrir e atenuar os seus pecados são vãs e frívolas.

Como os aventais de folhas de figueira, elas não melhoram nada a situação, e sim a pioram: a vergonha, assim escondida, fica mais vergonhosa. E, no entanto, é assim que todos nós tendemos a encobrir as nossas transgressões, como Adão, Jó 31:33.

  1. O medo tomou conta deles imediatamente depois de comerem do fruto proibido, v. 8. Observe aqui:

(1.) Qual foi a causa e a ocasião do seu medo: Eles ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim, à viração do dia.

Foi a aproximação do Juiz que os pôs em pânico; e, no entanto, ele veio de tal maneira que só era temível para as consciências culpadas.

Supõe-se que ele veio em forma humana, e que aquele que julgava o mundo naquele momento era o mesmo que há de julgar o mundo no último dia, aquele mesmo homem que Deus ordenou.

Ele lhes apareceu agora (ao que parece) sob nenhuma outra aparência senão aquela em que o tinham visto quando os pôs no paraíso; porque veio para convencê-los e humilhá-los, não para assombrá-los e aterrorizá-los.

Ele veio ao jardim, não descendo diretamente do céu diante dos olhos deles, como depois no monte Sinai (fazendo ou das trevas densas o seu pavilhão, ou do fogo ardente o seu carro), mas veio ao jardim como quem ainda estava disposto a ser familiar com eles.

Veio caminhando, não correndo, não cavalgando nas asas do vento, mas caminhando devagar, como quem é tardio para a ira, e nos ensina a, por mais provocados que estejamos, não sermos exaltados nem apressados, mas falar e agir com ponderação e não com precipitação.

Ele veio à viração do dia, não de noite, quando todos os medos são duplamente assustadores, nem no calor do dia, porque não veio no calor da sua ira. Não há furor nele, Isaías 27:4.

Nem veio de repente sobre eles; eles ouviram a voz dele a alguma distância, avisando-os da sua chegada, e provavelmente era uma voz mansa e delicada, como aquela com que ele veio perguntar por Elias.

Alguns pensam que eles o ouviram falando consigo mesmo sobre o pecado de Adão e sobre o juízo que agora seria pronunciado contra ele, talvez como fez a respeito de Israel, Oseias 11:8, 9. Como te entregarei?

Ou, melhor, eles o ouviram chamando por eles e vindo na direção deles.

(2.) Qual foi o efeito e a evidência do seu medo: Eles se esconderam da presença do Senhor Deus — que mudança triste!

Antes de pecarem, se tivessem ouvido a voz do Senhor Deus vindo na direção deles, teriam corrido ao seu encontro e, com humilde alegria, dado boas-vindas às suas visitas graciosas.

Mas, agora que era diferente, Deus tinha se tornado um terror para eles; e então não é de espantar que eles mesmos tivessem se tornado um terror para si próprios, e estivessem cheios de confusão.

A própria consciência os acusava e lhes punha o pecado diante dos olhos nas suas verdadeiras cores.

As folhas de figueira lhes falharam e não lhes prestariam serviço nenhum. Deus tinha saído contra eles como inimigo, e toda a criação estava em guerra com eles.

E, como ainda não conheciam nenhum mediador entre eles e um Deus irado, nada restava senão uma certa e terrível expectativa de juízo.

Nesse susto, esconderam-se entre os arbustos; tendo ofendido, fugiram por causa disso mesmo. Sabendo-se culpados, não ousaram enfrentar um julgamento, mas se esconderam e fugiram da justiça. Veja aqui:

[1.] A falsidade do tentador, e as fraudes e falácias das suas tentações.

Ele lhes prometeu que estariam seguros, mas agora nem sequer conseguem se julgar seguros; disse que não morreriam, e no entanto agora são forçados a fugir para salvar a vida.

Prometeu-lhes que seriam elevados, mas se veem rebaixados — nunca pareceram tão pequenos quanto agora; prometeu-lhes que seriam conhecedores, mas se veem perdidos, e não sabem nem onde se esconder.

Prometeu-lhes que seriam como deuses, grandes, ousados e destemidos, mas estão como criminosos descobertos, tremendo, pálidos e ansiosos por escapar: não quiseram ser súditos, e por isso são prisioneiros.

[2.] A loucura dos pecadores, de achar possível ou desejável esconder-se de Deus. Podem eles se ocultar do Pai das luzes? Salmos 139:7, etc.; Jeremias 23:24.

Vão eles se afastar da fonte da vida, o único que pode dar socorro e felicidade? Jonas 2:8.

[3.] O medo que acompanha o pecado. Todo aquele medo aterrador das aparições de Deus, as acusações da consciência, a chegada da tribulação, os assaltos das criaturas inferiores e as prisões da morte, que é coisa comum entre os homens, é efeito do pecado.

Adão e Eva, que foram parceiros no pecado, foram partícipes na vergonha e no medo que o acompanharam; e, ainda que mão se unisse a mão (mãos unidas em casamento havia tão pouco tempo), não conseguiram animar-se nem fortalecer-se um ao outro: tinham se tornado consoladores miseráveis um para o outro!

Versículo 9

Temos aqui a acusação formal destes desertores diante do justo Juiz do céu e da terra, que, embora não esteja obrigado a observar formalidades, procede contra eles com toda a equidade possível, para que seja justificado quando falar. Observe aqui:

I. A pergunta espantosa com que Deus foi atrás de Adão e o deteve: Onde estás? Não que Deus não soubesse onde ele estava; era assim que ele daria início ao processo contra ele. “Vamos, onde está este homem insensato?”

Alguns a tomam como pergunta de lamento: “Pobre Adão, o que foi feito de você?” — “Ai de você!”, como alguns leem. “Como você caiu, Lúcifer, filho da manhã! Você, que era meu amigo e meu favorito, por quem eu tanto fiz e por quem faria muito mais: agora me abandonou e arruinou a si mesmo? Chegou a isso?”

É antes uma pergunta de repreensão, que visa a convencê-lo e humilhá-lo: Onde estás? Não “em que lugar?”, mas “em que condição?” “Foi só isso que você ganhou comendo o fruto proibido? Você, que queria se igualar a mim, agora foge de mim?”

Repare: 1. Quem pelo pecado se desviou de Deus deve considerar seriamente onde está: está longe de todo bem, no meio dos seus inimigos, em servidão a Satanás e no caminho direto para a ruína total.

Esta indagação atrás de Adão pode ser vista como uma busca graciosa, feita por bondade para com ele e visando à sua recuperação.

Se Deus não o tivesse chamado, para trazê-lo de volta, a condição dele teria sido tão desesperada quanto a dos anjos caídos.

Esta ovelha perdida teria vagado sem fim, se o bom Pastor não tivesse ido atrás dela para trazê-la de volta e, para isso, não a tivesse lembrado de onde estava, onde não devia estar e onde não podia ser feliz nem estar tranquila.

Repare: 2. Se os pecadores apenas considerarem onde estão, não descansarão enquanto não voltarem para Deus.

II. A resposta trêmula que Adão deu a esta pergunta: Ouvi a tua voz no jardim, e tive medo, v. 10.

Ele não reconhece a sua culpa e, no entanto, na prática a confessa ao reconhecer a sua vergonha e o seu medo.

Mas é falta e loucura comum de quem fez uma coisa má, quando é interrogado a respeito, admitir apenas aquilo que é tão evidente que não se pode negar.

Adão teve medo porque estava nu: não só desarmado, e por isso com medo de contender com Deus, mas também sem roupa, e por isso com medo até de aparecer diante dele.

Temos razão para temer nos aproximar de Deus se não estivermos vestidos e protegidos com a justiça de Cristo, porque nada além dela serve de armadura à prova de tudo e cobre a vergonha da nossa nudez.

Revistamo-nos, então, do Senhor Jesus Cristo, e assim nos aproximemos com humilde ousadia.

Versículos 11 a 13

Temos aqui os infratores declarados culpados pela própria confissão, e ainda assim tentando desculpar e atenuar a falta.

Eles não conseguiam confessar e ao mesmo tempo justificar o que tinham feito, mas confessam e atenuam a falta. Observe:

I. Como a confissão foi arrancada deles. Deus pôs a questão ao homem: Quem te disse que estavas nu? v. 11.

“Como foi que passaste a sentir a tua nudez como tua vergonha?” Comeste da árvore proibida?

Repare que, ainda que Deus conheça todos os nossos pecados, ele quer conhecê-los da nossa boca e exige de nós uma confissão franca; não para que ele seja informado, mas para que sejamos humilhados.

Neste interrogatório, Deus lhe lembra o mandamento que lhe tinha dado: “Eu te ordenei que não comesses dela; eu, teu Criador, eu, teu Senhor, eu, teu benfeitor; eu te ordenei o contrário.”

O pecado aparece mais claro e mais pecaminoso no espelho do mandamento, e por isso Deus o coloca aqui diante de Adão; e nele devemos ver o nosso próprio rosto.

A pergunta feita à mulher foi: Que é isto que fizeste? v. 13. “Também vais reconhecer a tua falta e confessá-la? E vais enxergar que coisa má foi esta?”

Repare que interessa a quem comeu fruto proibido, e principalmente a quem induziu outros a comer também, considerar com seriedade o que fez.

Ao comer o fruto proibido, ofendemos um Deus grande e cheio de graça, quebramos uma lei justa e reta, violamos uma aliança sagrada e muito solene, e prejudicamos a nossa própria alma preciosa, perdendo o favor de Deus e nos expondo à sua ira e à sua maldição.

Ao induzir outros a comer dele, fazemos o trabalho do diabo, nos tornamos culpados dos pecados alheios e cúmplices da ruína deles. Que é isto que fizemos?

II. Como o crime foi atenuado por eles na própria confissão. Não adiantava alegar inocência. A aparência do rosto deles testemunhava contra eles; por isso se tornam seus próprios acusadores.

“Eu comi”, diz o homem. “E eu também”, diz a mulher; porque, quando Deus julga, ele vence.

Mas estas não parecem confissões de quem se arrepende; porque, em vez de agravar o pecado e tomar para si a vergonha, eles desculpam o pecado e lançam a vergonha e a culpa sobre outros.

  1. Adão põe toda a culpa na esposa. “Ela me deu da árvore e insistiu comigo para que eu comesse, o que fiz só para agradá-la” — desculpa frívola.

Ele devia tê-la ensinado, e não ser ensinado por ela; e não era difícil decidir por qual dos dois ele tinha de se guiar, se pelo seu Deus ou pela sua esposa.

Aprenda daqui a nunca se deixar levar ao pecado por aquilo que não vai nos livrar no juízo; que não nos sustente na hora de cometer o que não vai nos sustentar na hora da prova.

Nunca sejamos vencidos, portanto, pela insistência a ponto de agir contra a consciência, nem desagrademos a Deus para agradar ao melhor amigo que temos no mundo.

Mas não é isso o pior. Ele não só põe a culpa na esposa, como se exprime de modo a lançar tacitamente a censura sobre o próprio Deus.

“É a mulher que tu me deste, e que deste para estar comigo como minha companheira, minha guia e minha conhecida; ela me deu da árvore, senão eu não teria comido.”

Assim ele insinua que Deus foi cúmplice do seu pecado: Deus lhe deu a mulher, e ela lhe deu o fruto; de modo que ele parecia tê-lo recebido a apenas um passo da própria mão de Deus.

Repare que há uma estranha inclinação, nos que são tentados, a dizer que são tentados por Deus, como se o abuso dos dons de Deus desculpasse a nossa violação das leis de Deus.

Deus nos dá riquezas, honras e relações para que o sirvamos de bom ânimo enquanto desfrutamos delas.

Mas, se tomamos ocasião delas para pecar contra ele, em vez de culpar a Providência por nos ter posto em tal condição, temos de culpar a nós mesmos por termos pervertido os desígnios bondosos que ela tinha ali.

  1. Eva põe toda a culpa na serpente: A serpente me enganou.

O pecado é um filho que ninguém quer reconhecer, sinal de que é coisa escandalosa. Quem está muito disposto a tirar o prazer e o proveito do pecado está muito pouco disposto a levar a culpa e a vergonha dele.

“A serpente, aquela criatura astuta que tu fizeste, e que permitiste que viesse até nós no paraíso, ela me enganou”, ou me fez errar; porque os nossos pecados são os nossos erros. Aprenda daqui:

(1.) Que as tentações de Satanás são todas engodos, os argumentos dele são todos falácias, os atrativos dele são todos trapaças. Quando ele fala bonito, não acredite nele.

O pecado nos ilude e, iludindo, nos trapaceia. É pelo engano do pecado que o coração se endurece. Veja Romanos 7:11; Hebreus 3:13.

(2.) Que, embora a astúcia de Satanás nos tenha arrastado para o pecado, ela não nos justifica no pecado. Ele é o tentador, mas nós somos os pecadores; e na verdade é a nossa própria cobiça que nos desvia e seduz, Tiago 1:14.

Que não diminua, portanto, a nossa tristeza e a nossa humilhação pelo pecado o fato de termos sido enganados nele; antes, aumente a nossa indignação contra nós mesmos por termos deixado que um trapaceiro conhecido e um inimigo jurado nos enganasse.

Pois bem: isto é tudo o que os réus no banco dos réus têm a dizer para que a sentença não seja proferida e a execução não seja decretada, segundo a lei; e esse tudo é quase nada, e em alguns aspectos pior que nada.

Versículos 14 a 15

Sentença Proferida contra a Serpente; Anúncio do Messias. (a.C. 4004.)

Os réus foram considerados culpados pela própria confissão, além do conhecimento pessoal e infalível do Juiz, e nada de substancial foi apresentado para suspender a sentença.

Deus passa então imediatamente a sentenciar; e, nestes versículos, começa pela serpente, que foi onde o pecado começou.

Deus não interrogou a serpente, nem lhe perguntou o que tinha feito nem por que o fez; sentenciou-a imediatamente:

  1. Porque ela já fora declarada culpada de rebelião contra Deus, e a sua malícia e maldade eram notórias, não descobertas por busca secreta, mas assumidas e declaradas abertamente como as de Sodoma.

  2. Porque estava para sempre excluída de toda esperança de perdão; e por que se diria alguma coisa para convencer e humilhar quem não iria achar lugar para arrependimento? A ferida dela não foi sondada, porque não seria curada.

Alguns pensam que a condição dos anjos caídos não foi declarada desesperada e sem remédio senão agora, depois que eles seduziram o homem para a rebelião.

I. A sentença proferida contra o tentador pode ser considerada como recaindo sobre a serpente, o animal de que Satanás se serviu, e que fora feito, como os demais, para o serviço do homem, mas foi agora usado para dano dele.

Por isso, para testemunhar o seu desagrado contra o pecado e o seu zelo pela honra ferida de Adão e Eva, Deus prende uma maldição e um descrédito à serpente, e a faz gemer sob o peso. Veja Romanos 8:20.

Os instrumentos do diabo têm de partilhar dos castigos do diabo. Assim os corpos dos ímpios, embora sejam apenas instrumentos de injustiça, participarão dos tormentos eternos junto com a alma, que é o agente principal.

Até o boi que matasse um homem tinha de ser apedrejado, Êxodo 21:28, 29.

Veja aqui como Deus odeia o pecado, e sobretudo como fica desagradado com os que arrastam outros para o pecado. É marca perpétua no nome de Jeroboão que ele fez Israel pecar. Agora:

  1. A serpente é posta aqui debaixo da maldição de Deus: “Maldita és tu acima de todo o gado.” Até os répteis, quando Deus os fez, foram abençoados por ele (Gênesis 1:22), mas o pecado transformou a bênção em maldição.

A serpente era mais astuta que qualquer animal do campo (v. 1), e aqui é maldita acima de todo animal do campo.

A astúcia não santificada muitas vezes se mostra uma grande maldição para o homem; e quanto mais hábeis os homens são para fazer o mal, mais estrago fazem e, por consequência, receberão a condenação maior.

Tentadores astutos são as criaturas mais malditas debaixo do sol.

  1. Aqui ela é posta debaixo do descrédito e da inimizade do homem:

(1.) Ela deve ser para sempre vista como criatura vil e desprezível, e como objeto próprio de escárnio e desprezo: andará sobre o ventre, não mais sobre pés, nem meio erguida, mas rastejará com o ventre colado à terra.

É a expressão de uma condição abjeta e miserável, Salmos 44:25; e ela não escapará de comer pó junto com o alimento.

O crime dela foi tentar Eva a comer o que não devia; a pena dela foi ficar obrigada a comer o que não queria: Pó comerás.

Isso indica não só uma condição baixa e desprezível, mas um espírito mesquinho e lastimável; diz-se dos que perderam a coragem que lambem o pó como a serpente, Miquéias 7:17.

Que triste que a maldição da serpente seja a escolha do mundano cobiçoso, cujo retrato é este: ele suspira pelo pó da terra! Amós 2:7. Esses escolhem os próprios enganos, e assim será a sentença deles.

(2.) Ela deve ser para sempre vista como criatura venenosa e nociva, e como objeto próprio de ódio e repulsa: Porei inimizade entre ti e a mulher.

Como as criaturas inferiores foram feitas para o homem, era maldição para qualquer uma delas ser voltada contra o homem, e o homem contra elas; e isso faz parte da maldição da serpente.

A serpente é danosa ao homem e muitas vezes lhe fere o calcanhar, porque não alcança mais alto; e há até menção de que ela morde os calcanhares dos cavalos, Gênesis 49:17.

Mas o homem vence a serpente e lhe fere a cabeça, isto é, dá-lhe um golpe mortal, com o intuito de destruir toda a geração de víboras.

É efeito desta maldição sobre a serpente que, embora essa criatura seja astuta e muito perigosa, ela não prevalece (como prevaleceria se Deus lhe desse licença) a ponto de destruir a humanidade.

Esta sentença pronunciada sobre a serpente é muito reforçada pela promessa de Deus ao seu povo: Pisarás o leão e a áspide (Salmos 91:13).

E também pela promessa de Cristo aos seus discípulos: Pegarão em serpentes (Marcos 16:18) — como testemunha Paulo, a quem a víbora presa à sua mão não fez mal.

Observe aqui: a serpente e a mulher tinham acabado de conversar com toda a familiaridade e amizade sobre o fruto proibido, e havia entre elas um acordo admirável; mas aqui ficam irreconciliavelmente inimigas.

Repare: as amizades pecaminosas terminam com justiça em inimizades mortais; os que se unem na maldade não permanecem unidos por muito tempo.

II. Esta sentença pode ser considerada como dirigida ao diabo, que se serviu da serpente apenas como veículo nesta aparição, mas era ele mesmo o agente principal.

Aquele que falou pela boca da serpente é aqui golpeado através do flanco da serpente, e é ele o alvo principal da sentença, que, como a coluna de nuvem e de fogo, tem um lado escuro voltado para o diabo e um lado luminoso voltado para os nossos primeiros pais e para a descendência deles.

Grandes coisas estão contidas nestas palavras.

  1. Um descrédito perpétuo é aqui imposto àquele grande inimigo, tanto de Deus como do homem. Sob a cobertura da serpente, ele é aqui sentenciado a ser:

(1.) Rebaixado e amaldiçoado por Deus. Supõe-se que o pecado que transformou anjos em demônios foi o orgulho, que aqui é justamente punido por uma grande variedade de humilhações escondidas nas circunstâncias baixas de uma serpente que rasteja sobre o ventre e lambe o pó.

Como caíste, ó Lúcifer! Aquele que queria estar acima de Deus e chefiar uma rebelião contra ele é aqui justamente exposto ao desprezo e fica caído para ser pisado.

O orgulho do homem o abaterá, e Deus humilhará os que não se humilham.

(2.) Detestado e abominado por toda a humanidade. Até os que de fato foram seduzidos para o partido dele professam ódio e horror a ele.

E todos os que nasceram de Deus fazem disto o seu cuidado constante: guardar-se, para que o maligno não os toque, 1 João 5:18. Ele é aqui condenado a um estado de guerra e de inimizade irreconciliável.

(3.) Destruído e arruinado por fim pelo grande Redentor, o que se significa pelo esmagamento da sua cabeça.

Todas as suas manobras astutas serão frustradas, o poder que usurpou será inteiramente esmagado, e ele ficará para sempre cativo da honra ferida da soberania divina. Ao ser avisado disto agora, foi atormentado antes do tempo.

  1. Uma contenda perpétua começa aqui entre o reino de Deus e o reino do diabo entre os homens; declara-se guerra entre a semente da mulher e a semente da serpente.

Aquela guerra no céu entre Miguel e o dragão começou agora, Apocalipse 12:7. É fruto desta inimizade:

(1.) Que há um conflito contínuo entre a graça e a corrupção no coração do povo de Deus. Satanás, pelas corrupções deles, os ataca, os esbofeteia, os peneira e procura devorá-los; eles, pelo exercício das suas graças, resistem a ele, lutam com ele, apagam os seus dardos inflamados e o obrigam a fugir.

O céu e o inferno nunca podem ser reconciliados, nem a luz e as trevas; nem Satanás e uma alma santificada, porque são contrários um ao outro.

(2.) Que há igualmente uma luta contínua entre os ímpios e os piedosos neste mundo. Os que amam a Deus têm por seus inimigos os que o odeiam, Salmos 139:21, 22.

E toda a fúria e malícia dos perseguidores contra o povo de Deus são fruto desta inimizade, que vai durar enquanto houver um homem piedoso deste lado do céu e um homem ímpio deste lado do inferno.

Não se admire, portanto, se o mundo o odiar, 1 João 3:13.

  1. Faz-se aqui uma promessa graciosa de Cristo, como o libertador do homem caído do poder de Satanás.

Embora o que foi dito tenha sido dirigido à serpente, foi dito na presença dos nossos primeiros pais, que sem dúvida captaram os sinais de graça que aí lhes foram dados e viram abrir-se para eles uma porta de esperança; do contrário, a sentença seguinte, sobre eles mesmos, os teria esmagado.

Aqui estava o raiar do dia do evangelho. Mal foi dada a ferida, já o remédio estava providenciado e revelado.

Aqui, na abertura do livro, como diz a palavra (Hebreus 10:7), no começo da Bíblia, está escrito a respeito de Cristo que ele haveria de fazer a vontade de Deus.

Pela fé nesta promessa, temos razão para pensar, os nossos primeiros pais e os patriarcas antes do dilúvio foram justificados e salvos; e a esta promessa, e ao benefício dela, servindo a Deus sem cessar de dia e de noite, eles esperavam chegar.

É-lhes dado aqui aviso de três coisas a respeito de Cristo:

(1.) A encarnação dele: que seria a semente da mulher, a semente daquela mulher. Por isso a genealogia dele (Lucas 3) sobe tão alto que o mostra filho de Adão.

Mas Deus faz à mulher a honra de chamá-lo antes semente dela, porque foi ela quem o diabo enganou, e foi sobre ela que Adão pôs a culpa.

Nisto Deus engrandece a sua graça: embora a mulher tenha sido a primeira na transgressão, ainda assim ela será salva dando à luz (como alguns leem), isto é, pela semente prometida que há de descender dela, 1 Timóteo 2:15.

Ele havia de ser também semente somente de uma mulher, de uma virgem, para não ser manchado pela corrupção da nossa natureza; foi enviado, feito de mulher (Gálatas 4:4), para que esta promessa se cumprisse.

É grande ânimo para os pecadores saber que o seu Salvador é a semente da mulher, osso dos nossos ossos, Hebreus 2:11, 14.

O homem é pecador e impuro porque nasce de mulher (Jó 25:4), e por isso os seus dias são cheios de inquietação, Jó 14:1. Mas a semente da mulher foi feita pecado e maldição por nós, e assim nos salvou de ambos.

(2.) Os sofrimentos e a morte dele, apontados no ferir do seu calcanhar por Satanás, isto é, da sua natureza humana.

Satanás tentou Cristo no deserto, para arrastá-lo ao pecado; e alguns pensam que foi Satanás que aterrorizou Cristo na sua agonia, para levá-lo ao desespero.

Foi o diabo que pôs no coração de Judas trair a Cristo, no de Pedro negá-lo, no dos principais sacerdotes processá-lo, no das falsas testemunhas acusá-lo e no de Pilatos condená-lo, visando em tudo isso, ao destruir o Salvador, arruinar a salvação.

Mas, ao contrário, foi pela morte que Cristo destruiu aquele que tinha o poder da morte, Hebreus 2:14.

O calcanhar de Cristo foi ferido quando os seus pés foram traspassados e pregados na cruz, e os sofrimentos de Cristo continuam nos sofrimentos dos santos por causa do nome dele.

O diabo os tenta, os lança na prisão, os persegue e os mata, e assim fere o calcanhar de Cristo, que é afligido nas aflições deles.

Mas, enquanto o calcanhar é ferido na terra, é bom que a cabeça esteja segura no céu.

(3.) A vitória dele sobre Satanás por esse meio. Satanás tinha agora pisado a mulher e zombado dela.

Mas a semente da mulher seria levantada na plenitude dos tempos para vingar a causa dela, para pisá-lo, despojá-lo, levá-lo cativo e triunfar sobre ele, Colossenses 2:15.

Ele lhe ferirá a cabeça, isto é, destruirá todas as suas manobras e todos os seus poderes, e derrubará por completo o reino e os interesses dele.

Cristo frustrou as tentações de Satanás, arrancou almas das mãos dele, expulsou-o dos corpos das pessoas, desalojou o homem forte armado e repartiu os seus despojos.

Pela sua morte, deu um golpe fatal e incurável ao reino do diabo, uma ferida na cabeça desta besta, que nunca poderá ser curada.

À medida que o evangelho dele ganha terreno, Satanás cai (Lucas 10:18) e é preso, Apocalipse 20:2. Pela sua graça, ele esmaga Satanás debaixo dos pés do seu povo (Romanos 16:20) e em breve o lançará no lago de fogo, Apocalipse 20:10.

E a derrota perpétua do diabo será a alegria e a glória completas e eternas do remanescente escolhido.

Versículo 16

Sentença Proferida contra Eva. (a.C. 4004.)

Temos aqui a sentença proferida contra a mulher pelo seu pecado. Ela é condenada a duas coisas: um estado de tristeza e um estado de sujeição, castigos próprios de um pecado em que ela satisfez o seu prazer e o seu orgulho.

I. Ela é aqui posta num estado de tristeza, do qual só um item é especificado, o de dar à luz filhos; mas isso inclui todas aquelas impressões de dor e de medo que a mente daquele sexo delicado é mais propensa a receber, e todas as calamidades comuns a que elas estão sujeitas.

Repare: o pecado trouxe a tristeza ao mundo. Foi ele que fez do mundo um vale de lágrimas, que trouxe aguaceiros de aflição sobre a nossa cabeça e abriu nascentes de tristeza no nosso coração, e assim inundou o mundo. Se não tivéssemos conhecido a culpa, não teríamos conhecido a dor.

As dores do parto, que são grandes a ponto de virar provérbio, um provérbio da Escritura, são efeito do pecado. Cada pontada e cada gemido da mulher em trabalho de parto proclamam em voz alta as consequências fatais do pecado: isto vem de comer o fruto proibido. Observe:

  1. Diz-se aqui que as dores são multiplicadas, grandemente multiplicadas. Todas as dores deste tempo presente são assim. Muitas são as calamidades a que a vida humana está sujeita, de vários tipos e repetidas com frequência, as nuvens voltando depois da chuva.

E não é de espantar que as nossas dores se multipliquem quando os nossos pecados se multiplicam: uns e outros são males inumeráveis.

As dores do parto são multiplicadas, porque incluem não só as dores do trabalho de parto, mas também os mal-estares de antes (é dor desde a concepção) e os cansaços e desgostos de criar os filhos depois.

E, no fim de tudo, se os filhos saem maus e insensatos, eles se tornam, mais que nunca, o peso daquela que os deu à luz. Assim as dores são multiplicadas: neste mundo, mal um pesar acaba, outro toma o lugar dele.

  1. É Deus que multiplica as nossas dores: eu o farei. Deus, como Juiz justo, o faz, e isso deve nos calar debaixo de todas as nossas dores; por mais que sejam, todas as merecemos, e mais ainda.

Mais que isso: Deus, como Pai terno, o faz para a nossa correção necessária, para que sejamos humilhados por causa do pecado e desapegados do mundo por todas as nossas dores.

E o bem que tiramos delas, com o consolo que temos no meio delas, há de compensar com folga as nossas dores, por mais grandemente multiplicadas que sejam.

II. Ela é aqui posta num estado de sujeição. Todo o sexo, que pela criação era igual ao homem, é, por causa do pecado, feito inferior, e está proibido de usurpar autoridade, 1 Timóteo 2:11, 12.

A esposa em particular fica assim posta sob o domínio do marido, e não é sui juris, dona de si mesma. Veja um exemplo disso naquela lei de Números 30:6-8, onde o marido recebe poder para anular, se quiser, os votos feitos pela esposa.

Esta sentença equivale apenas àquele mandamento: Mulheres, sujeitai-vos aos vossos próprios maridos. Mas a entrada do pecado fez daquele dever um castigo, o que de outro modo ele não teria sido.

Se o homem não tivesse pecado, teria sempre governado com sabedoria e amor; e, se a mulher não tivesse pecado, teria sempre obedecido com humildade e mansidão. Então o domínio não seria peso nenhum: é o nosso próprio pecado e a nossa própria loucura que tornam pesado o nosso jugo.

Se Eva não tivesse ela mesma comido o fruto proibido e tentado o marido a comê-lo, nunca teria se queixado da sua sujeição. Portanto nunca se deve queixar dela, por mais dura que seja; queixe-se do pecado, que a tornou assim.

Aquelas esposas que não só desprezam e desobedecem aos maridos, mas mandam neles, não consideram que estão não só violando uma lei divina, mas contrariando uma sentença divina.

III. Observe aqui como a misericórdia está misturada com a cólera nesta sentença. A mulher terá dores, mas será ao dar à luz filhos, e a dor será esquecida pela alegria de ter nascido uma criança, João 16:21.

Ela será sujeita, mas ao seu próprio marido, que a ama, não a um estranho nem a um inimigo. A sentença não foi uma maldição, para levá-la à ruína, mas um castigo, para levá-la ao arrependimento.

Foi bom que não se tenha posto inimizade entre o homem e a mulher, como houve entre a serpente e a mulher.

Versículos 17 a 19

A Sentença Proferida contra Adão; Consequências da Queda. (a.C. 4004.)

Temos aqui a sentença proferida contra Adão, precedida de um relato do seu crime: “Visto que deste ouvidos à voz de tua mulher”, v. 17.

Ele desculpou a falta jogando-a sobre a mulher: Ela me deu. Mas Deus não aceita a desculpa. Ela podia apenas tentá-lo, não podia forçá-lo; ainda que fosse culpa dela persuadi-lo a comer, foi culpa dele dar ouvidos a ela.

Assim as alegações frívolas dos homens, no dia do juízo de Deus, não só serão rejeitadas como serão voltadas contra eles e se tornarão o fundamento da sua sentença. “Pela tua própria boca te julgarei.” Observe:

I. Deus pôs marcas do seu desagrado sobre Adão em três pontos:

  1. A habitação dele fica amaldiçoada por esta sentença: “Maldita é a terra por tua causa”; e o efeito dessa maldição é: Espinhos e cardos ela te produzirá.

Fica indicado aqui que a habitação dele seria mudada: ele não moraria mais num paraíso distinto e abençoado, e sim seria removido para terreno comum, e ainda amaldiçoado.

O solo, ou terra, está aqui posto pela criação visível inteira, que pelo pecado do homem foi sujeitada à vaidade.

As várias partes dela já não servem ao conforto e à felicidade do homem como foram destinadas a servir quando foram feitas, e como teriam servido se ele não tivesse pecado.

Deus deu a terra aos filhos dos homens, destinando-a a ser para eles uma morada confortável. Mas o pecado alterou a qualidade dela.

Agora ela está amaldiçoada por causa do pecado do homem, isto é, é uma habitação sem honra: ela diz que o homem é baixo, que o seu fundamento está no pó.

É uma habitação seca e estéril. O que ela produz espontaneamente agora são ervas daninhas e sarças, coisa enjoativa ou nociva; os bons frutos que ela dá têm de ser arrancados dela pela engenhosidade e pelo trabalho do homem.

A fecundidade era a bênção dela, para o serviço do homem (Gênesis 1:11, 29), e agora a esterilidade passou a ser a maldição dela, para o castigo do homem. Ela não é o que era no dia em que foi criada.

O pecado transformou uma terra fértil em esterilidade; e o homem, tendo-se tornado como o filhote do jumento selvagem, tem a sorte do jumento selvagem: o deserto por habitação e a terra estéril por morada, Jó 39:6; Salmos 68:6.

Se esta maldição não tivesse sido removida em parte, pelo que sei, a terra teria ficado estéril para sempre e nunca teria produzido outra coisa senão espinhos e cardos.

A terra está amaldiçoada, isto é, condenada à destruição no fim do tempo, quando a terra e todas as obras que nela há serão queimadas por causa do pecado do homem, cuja medida de iniquidade estará então cheia, 2 Pedro 3:7, 10.

Mas repare numa mistura de misericórdia nesta sentença:

(1.) O próprio Adão não é amaldiçoado, como a serpente foi (v. 14), mas só a terra por causa dele. Deus tinha bênçãos nele, a saber, a semente santa: Não a destruas, porque aquela bênção está nela, Isaías 65:8.

E tinha bênçãos guardadas para ele; por isso não é amaldiçoado direta e imediatamente, e sim, por assim dizer, de segunda mão.

(2.) Ele ainda está acima do chão. A terra não se abre para engoli-lo; ela apenas não é o que era.

Assim como ele continua vivo, apesar de ter degenerado da sua pureza e retidão primitivas, também a terra continua a ser a habitação dele, apesar de ter degenerado da sua beleza e fecundidade primitivas.

(3.) Esta maldição sobre a terra, que cortou toda expectativa de felicidade nas coisas de baixo, podia dirigi-lo e estimulá-lo a buscar a bem-aventurança e a satisfação só nas coisas do alto.

  1. Os seus trabalhos e os seus prazeres estão todos amargados para ele:

(1.) A ocupação dele passa daqui em diante a ser uma labuta, e ele a levará adiante no suor do seu rosto, v. 19.

A ocupação dele, antes de pecar, era um prazer constante: o jardim era então cultivado sem trabalho penoso e guardado sem cuidado penoso.

Mas agora o trabalho dele será cansaço e há de consumir o corpo; o cuidado dele será tormento e há de afligir a mente.

A maldição sobre a terra, que a tornou estéril e fez brotar espinhos e cardos, tornou o trabalho dele com ela muito mais difícil e penoso. Se Adão não tivesse pecado, não teria suado. Observe aqui:

[1.] Que o trabalho é o nosso dever, e temos de cumpri-lo com fidelidade. Estamos obrigados a trabalhar não só como criaturas, mas como criminosos: faz parte da nossa sentença, e a preguiça a desafia com atrevimento.

[2.] Que o incômodo e o cansaço do trabalho são o nosso justo castigo, ao qual temos de nos submeter com paciência, sem reclamar, já que são menos do que a nossa iniquidade merece.

Não façamos, com cuidado e trabalho desmedidos, o nosso castigo mais pesado do que Deus o fez. Procuremos antes aliviar a nossa carga e enxugar o nosso suor, olhando para a Providência em tudo e esperando o descanso que vem em breve.

(2.) O alimento dele passa daqui em diante a ser desagradável para ele, em comparação com o que tinha sido:

[1.] A matéria do alimento dele está mudada: agora tem de comer a erva do campo e não será mais banqueteado com as delícias do jardim do Éden.

Tendo pelo pecado feito de si mesmo um semelhante dos animais que perecem, é com justiça posto a partilhar a mesa comum com eles e a comer erva como os bois, até que saiba que os céus dominam.

[2.] Há uma mudança no modo de comê-lo: Na dor (v. 17) e no suor do seu rosto (v. 19) ele tem de comer dele.

Adão não podia deixar de comer com dor todos os dias da sua vida, lembrando-se do fruto proibido que tinha comido e da culpa e da vergonha que contraíra com ele. Observe:

Primeiro, que a vida humana está exposta a muitas misérias e calamidades, que amargam bastante o pouco que resta dos seus prazeres e deleites.

Alguns nunca comem com prazer (Jó 21:25), por doença ou melancolia; todos, mesmo os melhores, têm motivo para comer com dor pelo pecado; e todos, mesmo os mais felizes neste mundo, têm alguma coisa que lhes diminui a alegria.

Tropas de doenças, de desastres e de mortes, sob várias formas, entraram no mundo com o pecado, e ainda o devastam.

Segundo, que a justiça de Deus tem de ser reconhecida em todas as tristes consequências do pecado. Por que, então, haveria de se queixar o homem que vive?

Ainda assim, nesta parte da sentença também há uma mistura de misericórdia. Ele vai suar, mas a labuta tornará o descanso mais bem-vindo quando ele voltar para a sua terra, como para a sua cama.

Ele vai sofrer, mas não vai morrer de fome; terá dor, mas nessa dor comerá pão, que lhe fortalecerá o coração debaixo das suas dores. Ele não é sentenciado a comer pó como a serpente, apenas a comer a erva do campo.

  1. A vida dele também é curta. Considerando como os seus dias são cheios de aflição, é um favor para ele que sejam poucos; mas, como a morte é pavorosa para a natureza (sim, ainda que a vida seja desagradável), é ela que encerra a sentença.

“Tu voltarás para a terra de que foste tomado; o teu corpo, aquela parte de ti que foi tirada do solo, voltará a ela outra vez; porque tu és pó.”

Isto aponta ou para a origem primeira do corpo dele: foi feito do pó, mais que isso, foi feito pó, e continuava sendo pó.

Assim, não era preciso mais do que revogar a concessão da imortalidade e retirar o poder que fora posto em ação para sustentá-la, e então ele voltaria naturalmente ao pó.

Ou aponta para a corrupção e a degeneração presentes da mente dele: “Tu és pó”, isto é: “A tua alma preciosa está agora perdida e sepultada no pó do corpo e no lodo da carne; foi feita espiritual e celestial, mas se tornou carnal e terrena.”

Por isso a condenação dele é lida assim: “Ao pó tornarás. O teu corpo será abandonado pela tua alma e se tornará ele mesmo um torrão de pó; e então será depositado na sepultura, o lugar próprio dele, e se misturará com o pó da terra”, o nosso pó, Salmos 104:29.

Terra à terra, pó ao pó. Observe aqui:

(1.) Que o homem é uma criatura baixa e frágil: pequeno como o pó, o pó miúdo da balança; leve como o pó, mais leve que a própria vaidade; fraco como o pó, e sem nenhuma consistência.

A nossa força não é a força das pedras; aquele que nos fez leva isso em conta e se lembra de que somos pó, Salmos 103:14. O homem é de fato a parte principal do pó do mundo (Provérbios 8:26), mas ainda assim é pó.

(2.) Que ele é uma criatura mortal, que morre e corre para a sepultura.

O pó pode ser levantado, por um tempo, numa nuvenzinha, e pode parecer coisa de vulto enquanto o vento que o levantou o sustenta; mas, gasta a força do vento, ele cai outra vez e volta para a terra de onde foi levantado.

Assim é o homem: um grande homem não passa de uma grande massa de pó, e tem de voltar para a sua terra.

(3.) Que o pecado trouxe a morte ao mundo. Se Adão não tivesse pecado, não teria morrido, Romanos 5:12.

Deus confiou a Adão uma centelha de imortalidade que ele, perseverando com paciência em fazer o bem, poderia ter soprado até virar chama eterna.

Mas ele, como um tolo, a apagou com um pecado voluntário; e agora a morte é o salário do pecado, e o pecado é o aguilhão da morte.

II. Não devemos sair desta sentença proferida contra os nossos primeiros pais, que a todos nós toca tão de perto e cujo efeito sentimos até hoje, antes de considerar duas coisas:

  1. Com que propriedade as tristes consequências do pecado sobre a alma de Adão e sobre a sua raça pecadora foram representadas e figuradas por esta sentença, e talvez estivessem nela mais em vista do que percebemos.

Ainda que só se mencione a miséria que atingiu o corpo, ela era um modelo das misérias espirituais, da maldição que entrou na alma:

(1.) As dores da mulher em trabalho de parto representam os terrores e as pontadas de uma consciência culpada, desperta para o senso do pecado.

Desde a concepção da concupiscência, essas dores se multiplicam muito e, cedo ou tarde, virão sobre o pecador como a dor vem sobre a mulher em trabalho de parto, e não se pode evitá-la.

(2.) O estado de sujeição a que a mulher foi reduzida representa aquela perda de liberdade espiritual e de livre-arbítrio que é efeito do pecado.

O domínio do pecado na alma é comparado ao de um marido (Romanos 7:1-5): o desejo do pecador é para ele, porque ele gosta da sua escravidão, e o pecado domina sobre ele.

(3.) A maldição de esterilidade que veio sobre a terra, e o que ela produz de sarças e espinhos, são uma boa representação da esterilidade de uma alma corrompida e pecadora naquilo que é bom, e da fecundidade dela no mal.

Está toda coberta de espinhos, e as urtigas cobrem a face dela; por isso está perto da maldição, Hebreus 6:8.

(4.) A labuta e o suor falam da dificuldade sob a qual o homem trabalha, pela fraqueza da carne, no serviço de Deus e na obra da religião: de tal modo se tornou difícil entrar no reino dos céus. Bendito seja Deus, não é impossível.

(5.) O amargor posto no alimento dele fala da falta que a alma sente do consolo do favor de Deus, que é a vida e o pão da vida.

(6.) A alma, como o corpo, volta ao pó deste mundo; a tendência dela é para lá; ela tem uma mancha de terra, João 3:31.

  1. Com que admirável exatidão a satisfação que o nosso Senhor Jesus fez pela sua morte e pelos seus sofrimentos correspondeu à sentença proferida aqui contra os nossos primeiros pais:

(1.) As dores de parto entraram com o pecado? Lemos do trabalho da alma de Cristo (Isaías 53:11); e as dores da morte que o retinham são chamadas odinai (Atos 2:24), as dores de uma mulher em trabalho de parto.

(2.) A sujeição entrou com o pecado? Cristo foi feito debaixo da lei, Gálatas 4:4.

(3.) A maldição entrou com o pecado? Cristo foi feito maldição por nós, morreu uma morte maldita, Gálatas 3:13.

(4.) Os espinhos entraram com o pecado? Ele foi coroado de espinhos por nós.

(5.) O suor entrou com o pecado? Ele suou por nós como que grandes gotas de sangue.

(6.) A dor entrou com o pecado? Ele foi homem de dores, e a alma dele, na sua agonia, esteve profundamente triste.

(7.) A morte entrou com o pecado? Ele se fez obediente até a morte.

Assim o emplastro é tão largo quanto a ferida. Bendito seja Deus por Jesus Cristo!

Versículo 20

Tendo Deus dado nome ao homem e o chamado Adão, que significa terra vermelha, Adão, como mais um sinal de domínio, deu nome à mulher e a chamou Eva, isto é, vida.

Adão leva o nome do corpo que morre; Eva, o da alma que vive.

A razão do nome é dada aqui (alguns acham que por Moisés, o historiador; outros, pelo próprio Adão): Porque ela era, isto é, viria a ser, a mãe de todos os viventes.

Antes ele a tinha chamado Ishah — mulher, como esposa; aqui ele a chama Evah — vida, como mãe. Agora:

  1. Se isso foi feito por direção divina, foi uma prova do favor de Deus.

E, como o novo nome dado a Abraão e a Sara, foi um selo da aliança e uma garantia para eles de que, apesar do pecado deles e do desagrado dele contra eles por causa disso, ele não tinha revogado aquela bênção com que os havia abençoado: Frutificai e multiplicai-vos.

Foi também uma confirmação da promessa que acabava de ser feita: que a semente da mulher, desta mulher, quebraria a cabeça da serpente.

  1. Se Adão fez isso por si mesmo, foi uma prova da sua fé na palavra de Deus.

Sem dúvida não foi feito, como alguns suspeitaram, por desprezo ou desafio à maldição, e sim numa confiança humilde e numa dependência da bênção:

(1.) A bênção de um indulto, admirando a paciência de Deus, que poupasse tais pecadores para serem os pais de todos os viventes, e não fechasse imediatamente aquelas fontes da vida e da natureza humana, porque elas não podiam enviar senão correntes poluídas e envenenadas.

(2.) A bênção de um Redentor, a semente prometida, para quem Adão olhava ao chamar sua mulher de Eva — vida; porque ele havia de ser a vida de todos os viventes, e nele todas as famílias da terra seriam abençoadas. É na esperança disso que ele triunfa assim.

Versículo 21

Temos aqui outra prova do cuidado de Deus com os nossos primeiros pais, apesar do pecado deles. Ainda que corrija os filhos desobedientes e os ponha sob as marcas do seu desagrado, ele não os deserda, mas, como um pai carinhoso, providencia a erva do campo para seu alimento e túnicas de peles para vesti-los.

Assim o pai proveu para o filho pródigo que voltava, Lucas 15:22, 23. Se o Senhor tivesse querido matá-los, não teria feito isso por eles. Observe:

  1. Que as roupas entraram com o pecado. Não teríamos necessidade delas, nem para defesa nem para decência, se o pecado não nos tivesse deixado nus, para nossa vergonha.

Pouca razão temos, portanto, para nos orgulhar das nossas roupas, que são apenas os distintivos da nossa pobreza e da nossa infâmia.

  1. Que, quando Deus fez roupas para os nossos primeiros pais, fez roupas quentes e resistentes, mas grosseiras e muito simples: não vestes de escarlata, e sim túnicas de peles.

As roupas deles foram feitas não de seda e cetim, mas de peles simples; sem enfeite, sem bordado, nada dos ornamentos que as filhas de Sião inventaram depois e de que se orgulhavam.

Que o pobre, que anda mal vestido, aprenda daqui a não reclamar: tendo alimento e com que se cobrir, fique contente; ele é tratado tão bem quanto Adão e Eva foram.

E que o rico, que anda vestido com esmero, aprenda daqui a não fazer do uso de roupas o seu adorno, 1 Pedro 3:3.

  1. Que Deus deve ser reconhecido com gratidão não só por nos dar alimento, mas também por nos dar roupa, Gênesis 28:20. A lã e o linho são dele, tanto quanto o trigo e o vinho, Oseias 2:9.

  2. Estas túnicas de peles tinham um significado. Os animais cujas peles eram aquelas tiveram de ser mortos, mortos diante dos olhos deles, para lhes mostrar o que é a morte e (como está em Eclesiastes 3:18) para que vissem que eles mesmos eram animais, mortais e sujeitos a morrer.

Supõe-se que foram mortos não para alimento, mas para sacrifício, para prefigurar o grande sacrifício que, no fim do mundo, seria oferecido uma vez por todas.

Assim a primeira coisa que morreu foi um sacrifício, ou Cristo em figura, que por isso é chamado o Cordeiro morto desde a fundação do mundo.

Esses sacrifícios eram repartidos entre Deus e o homem, em sinal de reconciliação: a carne era oferecida a Deus, um holocausto inteiro; as peles eram dadas ao homem para vestir.

Isso significa que, tendo Jesus Cristo se oferecido a Deus como sacrifício de cheiro suave, devemos nos vestir da justiça dele como de uma roupa, para que a vergonha da nossa nudez não apareça.

Adão e Eva fizeram para si aventais de folhas de figueira, cobertura estreita demais para que se envolvessem nela, Isaías 28:20. Assim são todos os trapos da nossa própria justiça.

Mas Deus lhes fez túnicas de peles: largas, fortes, duráveis e adequadas a eles. Assim é a justiça de Cristo. Portanto, revista-se do Senhor Jesus Cristo.

Versículos 22 a 24

Adão e Eva expulsos do Éden. (a.C. 4004.)

Proferida a sentença contra os transgressores, temos aqui a execução da sentença, em parte, cumprida imediatamente. Observe aqui:

I. Como foram justamente desonrados e envergonhados diante de Deus e dos santos anjos, pela repreensão irônica com que lhes foi lembrado o resultado do empreendimento deles:

“Eis que o homem se tornou como um de nós, para conhecer o bem e o mal! Que belo deus ele se fez! Não é mesmo? Veja o que ele ganhou, que postos, que vantagens, por comer do fruto proibido!”

Isto foi dito para despertá-los e humilhá-los, para trazê-los à consciência do seu pecado e da sua loucura, e ao arrependimento por ele.

Vendo-se assim miseravelmente enganados por seguirem o conselho do diabo, buscariam daí em diante a felicidade que Deus lhes oferecesse, pelo caminho que ele prescrevesse.

Deus assim lhes enche o rosto de vergonha, para que busquem o seu nome, Salmos 83:16. Ele os lança nessa confusão para levá-los à conversão.

Quem se arrepende de verdade se censura assim: “Que fruto tenho eu agora do pecado? Romanos 6:21. Ganhei aquilo que tolamente prometi a mim mesmo por um caminho pecaminoso? Não, não; nunca se mostrou ser aquilo que alegava ser, mas o contrário.”

II. Como foram justamente descartados e postos fora do paraíso, o que era parte da sentença implícita naquilo: Comerás a erva do campo. Aqui temos:

  1. A razão que Deus deu para expulsar o homem do paraíso não foi só que ele havia estendido a mão e tomado da árvore do conhecimento, o que foi o seu pecado.

Foi para que ele não estendesse outra vez a mão e tomasse também da árvore da vida, agora proibida a ele pela sentença divina, como antes a árvore do conhecimento fora proibida pela lei.

E ousasse comer daquela árvore, profanando assim um sacramento divino e desafiando uma sentença divina, e ainda se lisonjeasse com a ideia de que com isso viveria para sempre. Observe:

(1.) Há uma inclinação tola, nos que se tornaram indignos da substância dos privilégios cristãos, a agarrar os sinais e as sombras deles.

Muitos que não gostam dos termos da aliança são, mesmo assim, apaixonados pelos selos dela, por causa da própria reputação.

(2.) Negar esses sinais a essas pessoas não é só justiça: é bondade. Porque, ao usurpar aquilo a que não têm direito, elas afrontam a Deus e tornam o seu pecado mais grave.

E, ao apoiar a sua esperança sobre um fundamento errado, tornam a sua conversão mais difícil e a sua ruína mais lamentável.

  1. Ao lhe dar esta carta de divórcio, Deus o expulsou e excluiu deste jardim de delícias, pondo-o para fora e mantendo-o fora da seguinte maneira:

(1.) Ele o pôs para fora, do jardim para o campo comum. Isso é mencionado duas vezes: ele o enviou para fora (v. 23), e depois o expulsou, v. 24.

Deus mandou que ele saísse, disse-lhe que aquele não era lugar para ele, que ele não mais ocuparia nem desfrutaria aquele jardim.

Mas ele gostava demais do lugar para se dispor a deixá-lo, e por isso Deus o expulsou, fez com que saísse, quisesse ele ou não.

Isso significava a exclusão dele, e de toda a sua raça culpada, daquela comunhão com Deus que era a bem-aventurança e a glória do paraíso.

Os sinais do favor de Deus para com ele e do deleite de Deus nos filhos dos homens, que ele tinha no seu estado de inocência, ficaram agora suspensos.

As comunicações da graça de Deus lhe foram retiradas, e Adão ficou fraco, e como os outros homens, como Sansão quando o Espírito do Senhor se retirou dele.

O seu conhecimento de Deus diminuiu e se perdeu, e aquela correspondência que se estabelecera entre o homem e o seu Criador foi interrompida e cortada.

Ele foi expulso como quem era indigno desta honra e incapaz deste serviço. Assim ele e toda a humanidade, pela queda, perderam o direito à comunhão com Deus, e a perderam de fato.

Mas para onde Deus o mandou quando o pôs fora do Éden? Poderia, com toda justiça, tê-lo expulsado do mundo (Jó 18:18), mas só o expulsou do jardim.

Poderia, com toda justiça, tê-lo lançado no inferno, como fez com os anjos que pecaram, quando os excluiu do paraíso celestial, 2 Pedro 2:4. Mas o homem foi apenas enviado a lavrar a terra de que fora tirado.

Foi enviado a um lugar de labuta, não a um lugar de tormento. Foi enviado ao solo, não à sepultura; à casa de trabalho, não à masmorra, não à casa de prisão; a segurar o arado, não a arrastar a corrente.

O seu trabalho na terra seria recompensado pelo comer dos frutos dela; e o seu convívio com a terra de onde fora tirado podia servir a bons propósitos, para mantê-lo humilde e para lembrá-lo do seu fim.

Observe, então, que embora os nossos primeiros pais tenham sido excluídos dos privilégios do seu estado de inocência, não foram entregues ao desespero: os pensamentos de amor de Deus os destinavam a um segundo estado de provação, em novos termos.

(2.) Ele o manteve fora, e lhe proibiu toda esperança de voltar a entrar. Colocou ao oriente do jardim do Éden um destacamento de querubins, as hostes de Deus, armados de um poder terrível e irresistível, representado por espadas flamejantes que se voltavam para todo lado.

Foi naquele lado do jardim que ficava mais perto do lugar para onde Adão fora enviado, para guardar o caminho que levava à árvore da vida, de modo que ele não pudesse entrar nem às escondidas nem à força.

Pois quem pode forçar passagem contra um anjo de guarda, ou vencer uma passagem defendida por tal força?

Isto dava a entender a Adão:

[1.] Que Deus estava descontente com ele. Embora tivesse misericórdia guardada para ele, no momento estava irado com ele, tinha-se tornado seu inimigo e lutava contra ele.

Porque aqui havia uma espada desembainhada (Números 22:23); e ele era para Adão um fogo consumidor, porque era uma espada flamejante.

[2.] Que os anjos estavam em guerra com ele; nenhuma paz com as hostes celestiais, enquanto ele estivesse em rebelião contra o Senhor deles e nosso.

[3.] Que o caminho para a árvore da vida estava fechado, isto é, aquele caminho em que ele foi posto no princípio, o caminho da inocência sem mancha.

Não se diz que os querubins foram postos para manter a ele e aos seus para sempre longe da árvore da vida (graças a Deus, há um paraíso posto diante de nós, e uma árvore da vida no meio dele, cuja esperança é a nossa alegria).

Eles foram postos para guardar aquele caminho da árvore da vida em que ele estivera até ali. Isto é: daí em diante seria inútil, para ele e para os seus, esperar justiça, vida e felicidade em virtude da primeira aliança.

Porque ela estava irremediavelmente quebrada, e nunca mais poderia ser alegada, nem dela se poderia tirar proveito algum.

Quebrado o mandamento daquela aliança, a maldição dela está em pleno vigor; não deixa lugar para arrependimento, e estamos todos perdidos se formos julgados por ela.

Deus revelou isto a Adão não para levá-lo ao desespero, mas para obrigá-lo e estimulá-lo a buscar vida e felicidade na semente prometida, por quem a espada flamejante é retirada.

Deus e os seus anjos estão reconciliados conosco, e um caminho novo e vivo para o santíssimo está consagrado e aberto para nós.


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