Matthew Henry

Gênesis 2

Argumento

Este capítulo é um apêndice à história da criação. Ele explica e amplia, com mais detalhe, a parte da história que diz respeito diretamente ao homem, o favorito deste mundo de baixo. Temos nele:

I. A instituição e a santificação do sábado, que foi feito para o homem, para promover a sua santidade e o seu consolo, vv. 1-3.

II. Um relato mais particular da criação do homem, como centro e resumo de toda a obra, vv. 4-7.

III. Uma descrição do jardim do Éden, e a colocação do homem nele sob as obrigações de uma lei e de uma aliança, vv. 8-17.

IV. A criação da mulher, o casamento dela com o homem, e a instituição da ordenança do casamento, v. 18, etc.

Versículos 1 a 2

A Criação. (a.C. 4004.)

Temos aqui:

I. A estabilidade do reino da natureza, no descanso de Deus depois da obra da criação, v. 1, 2. Observe aqui:

  1. As criaturas feitas tanto no céu como na terra são as hostes, ou exércitos, deles, o que mostra que são numerosas, mas ordenadas em fileiras, disciplinadas e sob comando.

Como é grande a soma delas! E ainda assim cada uma conhece e guarda o seu lugar.

Deus as usa como suas hostes para a defesa do seu povo e a destruição dos seus inimigos; porque ele é o Senhor das hostes, de todas essas hostes, Daniel 4:35.

  1. Os céus e a terra são obras acabadas, e assim também são todas as criaturas que há neles.

Tão perfeita é a obra de Deus que nada se lhe pode acrescentar nem dela tirar, Eclesiastes 3:14. Deus, que começou a construir, mostrou-se bem capaz de terminar.

  1. Passado o fim dos primeiros seis dias, Deus cessou de toda obra de criação.

Ele encerrou a sua obra de tal modo que, embora na sua providência trabalhe até agora (João 5:17), preservando e governando todas as criaturas, e em particular formando dentro do homem o espírito dele, ainda assim não faz nenhuma espécie nova de criatura.

Nos milagres ele controlou a natureza e se sobrepôs a ela, mas nunca mudou o curso fixo dela, nem revogou nem acrescentou nada às suas leis estabelecidas.

  1. O Deus eterno, ainda que infinitamente feliz no desfrute de si mesmo, ainda assim teve satisfação na obra das suas próprias mãos.

Ele não descansou como quem está cansado, mas como quem está bem contente com as amostras da sua própria bondade e com as manifestações da sua própria glória.

II. O começo do reino da graça, na santificação do dia de sábado, v. 3.

Ele descansou naquele dia e teve prazer nas suas criaturas; então o santificou e determinou que nós, naquele dia, descansemos e tenhamos prazer no Criador.

E o descanso dele, no quarto mandamento, é dado como razão do nosso, depois de seis dias de trabalho. Observe:

  1. A observância solene de um dia em cada sete, como dia de descanso santo e de trabalho santo, para honra de Deus, é o dever indispensável de todos aqueles a quem Deus revelou os seus santos sábados.

  2. O caminho da santificação do sábado é o bom caminho antigo, Jeremias 6:16.

Os sábados são tão antigos quanto o mundo; e não vejo razão para duvidar de que o sábado, instituído agora no estado de inocência, tenha sido observado religiosamente pelo povo de Deus por toda a era dos patriarcas.

  1. O sábado do Senhor é, na verdade, honroso, e temos razão para honrá-lo: honrá-lo por causa da sua antiguidade, do seu grande Autor, e da santificação do primeiro sábado pelo próprio Deus santo e pelos nossos primeiros pais no estado de inocência, em obediência a ele.

  2. O dia de sábado é um dia abençoado, porque Deus o abençoou, e aquilo que ele abençoa é abençoado de fato.

Deus pôs sobre ele uma honra, determinou que nós, naquele dia, o bendigamos, e prometeu, naquele dia, encontrar-se conosco e nos abençoar.

  1. O dia de sábado é um dia santo, porque Deus o santificou.

Ele o separou e o distinguiu dos demais dias da semana, e o consagrou e o reservou para si mesmo, para o seu próprio serviço e para a sua honra.

Embora se costume admitir que o sábado cristão que guardamos, contando desde a criação, não é o sétimo dia da semana, e sim o primeiro, ainda assim, sendo ele um sétimo dia e celebrando nós nele o descanso de Deus Filho e o acabamento da obra da nossa redenção, podemos e devemos exercer fé nesta instituição original do dia de sábado.

E devemos comemorar a obra da criação, para honra do grande Criador, que por isso é digno de receber, naquele dia, bênção, honra e louvor, de todas as assembleias religiosas.

Versículos 4 a 7

A Criação. (a.C. 4004.)

Nestes versículos:

I. Aqui está um nome dado ao Criador que ainda não tínhamos encontrado: Jeová — o SENHOR, em letras maiúsculas, que a nossa tradução inglesa usa sempre para indicar que no original está Jeová.

Em todo o primeiro capítulo ele foi chamado de Elohim — um Deus de poder; agora, porém, Jeová Elohim — um Deus de poder e de perfeição, um Deus que acaba a obra.

Assim como o encontramos conhecido pelo seu nome Jeová quando apareceu para cumprir o que havia prometido (Êxodo 6:3), também agora o temos conhecido por esse nome, quando aperfeiçoou o que havia começado.

Jeová é aquele grande e incomunicável nome de Deus que indica ter ele o seu ser de si mesmo e dar o ser a todas as coisas; com propriedade, então, ele é chamado por esse nome agora que o céu e a terra estão acabados.

II. Toma-se ainda nota da produção das plantas e das ervas, porque foram feitas e designadas para ser alimento para o homem, v. 5, 6. Observe aqui:

  1. A terra não produziu os seus frutos por si mesma, por alguma virtude inata sua, mas puramente pelo poder onipotente de Deus, que formou toda planta e toda erva antes que ela crescesse na terra.

Assim a graça na alma, aquela planta de renome, não cresce por si mesma no solo da natureza, mas é obra das próprias mãos de Deus.

  1. A chuva também é dádiva de Deus; ela não veio até que o Senhor Deus fizesse chover.

Se falta chuva, é Deus que a retém; se a chuva vem em abundância na sua estação, é Deus que a envia; se ela vem fazendo distinção, é Deus que faz chover sobre uma cidade e não sobre outra, Amós 4:7.

  1. Ainda que Deus normalmente trabalhe por meios, ainda assim ele não está preso a eles, mas, quando quer, pode fazer a sua própria obra sem eles.

Assim como as plantas foram produzidas antes de o sol ser feito, também o foram antes que houvesse chuva para regar a terra ou homem para lavrá-la.

Portanto, ainda que não devamos tentar a Deus desprezando os meios, ainda assim devemos confiar em Deus na falta de meios.

  1. De um jeito ou de outro, Deus vai cuidar de regar as plantas que são plantio dele. Embora ainda não houvesse chuva, Deus fez uma neblina equivalente a um aguaceiro, e com ela regou toda a face do chão.

Foi assim que ele escolheu cumprir o seu propósito pelos meios mais fracos, para que a excelência do poder fosse de Deus.

A graça divina desce como uma neblina, ou como orvalho silencioso, e rega a igreja sem barulho, Deuteronômio 32:2.

III. Um relato mais particular da criação do homem, v. 7.

O homem é um pequeno mundo, formado de céu e terra, alma e corpo. Aqui temos o relato da origem dos dois e da junção dos dois.

Vamos considerar isso com seriedade e dizer, para louvor do nosso Criador: de modo assombroso e maravilhoso fomos feitos, Salmos 139:14.

Eliú, na era patriarcal, se refere a esta história quando diz (Jó 33:6): “Também eu fui formado do barro”; e (Jó 33:4): “O sopro do Todo-Poderoso me deu vida”; e (Jó 32:8): “Há um espírito no homem”. Observe, então:

  1. A origem humilde, e no entanto a estrutura primorosa, do corpo do homem:

(1.) A matéria era desprezível. Ele foi feito do pó da terra, coisa muito improvável para se fazer um homem; mas o mesmo poder infinito que fez o mundo do nada fez o homem, a sua obra-prima, de quase nada.

Ele foi feito do pó, do pó fino, desse que está na superfície da terra. Provavelmente não do pó seco, mas do pó umedecido pela neblina que subia, v. 6.

Não foi feito de pó de ouro, nem de pó de pérola, nem de pó de diamante, mas de pó comum, do pó do chão.

Por isso se diz que ele é “da terra”, choikos — feito de pó, 1 Coríntios 15:47. E nós também somos da terra, porque somos geração dele e do mesmo molde.

É tão próximo o parentesco entre a terra e os nossos pais terrenos que o ventre da nossa mãe, de onde nascemos, é chamado de terra (Salmos 139:15), e a terra, na qual seremos sepultados, é chamada de ventre de nossa mãe, Jó 1:21.

O nosso fundamento está na terra, Jó 4:19. A nossa estrutura é terrena, e o feitio dela é como o de um vaso de barro, Jó 10:9.

O nosso alimento sai da terra, Jó 28:5. A nossa familiaridade é com a terra, Jó 17:14. Os nossos pais estão na terra, e o nosso próprio destino final é ela; e do que temos, então, para nos orgulhar?

(2.) Ainda assim o Autor era grande, e a obra ficou esmerada. O Senhor Deus, a grande fonte do ser e do poder, formou o homem.

Das outras criaturas se diz que foram criadas e feitas; mas do homem, que foi formado, palavra que indica um processo gradual no trabalho, com grande precisão e exatidão.

Para exprimir a criação desta coisa nova, ele toma uma palavra nova, palavra que alguns julgam emprestada do oleiro dando forma ao vaso na roda; porque nós somos o barro, e Deus é o oleiro, Isaías 64:8.

O corpo do homem é trabalho primoroso, Salmos 139:15, 16. Materiam superabat opus — a obra excedia a matéria.

Apresentemos os nossos corpos a Deus como sacrifícios vivos (Romanos 12:1), como templos vivos (1 Coríntios 6:19), e então estes corpos vis serão em breve formados de novo, semelhantes ao corpo glorioso de Cristo, Filipenses 3:21.

  1. A origem elevada e a admirável utilidade da alma do homem:

(1.) Ela tira o seu começo do sopro do céu e é produzida por ele. Não foi feita da terra, como o corpo foi; é uma pena, então, que ela se apegue à terra e cuide das coisas terrenas.

Ela veio de Deus sem mediação; ele a deu para ser posta no corpo (Eclesiastes 12:7), como depois deu as tábuas de pedra, escritas por ele mesmo, para serem postas na arca, e o urim, formado por ele mesmo, para ser posto no peitoral.

Por isso Deus não é apenas o formador, mas o Pai dos espíritos.

Que a alma que Deus soprou em nós suspire por ele; e que ela seja para ele, já que vem dele. Nas mãos dele entreguemos os nossos espíritos, porque das mãos dele os recebemos.

(2.) Ela se hospeda numa casa de barro e é a vida e o sustento dessa casa. É por ela que o homem é alma vivente, isto é, homem vivo; porque a alma é o homem.

O corpo seria uma carcaça sem valor, inútil e repugnante, se a alma não o animasse.

A Deus, que nos deu estas almas, teremos em breve de prestar contas delas: como as empregamos, como as usamos, que medida lhes demos e o que fizemos delas.

E se então se achar que as perdemos, ainda que fosse para ganhar o mundo, estaremos arruinados para sempre.

Já que a alma é de linhagem tão nobre, e a sua natureza e as suas faculdades são tão excelentes, não sejamos daqueles tolos que desprezam a própria alma, preferindo o corpo a ela, Provérbios 15:32.

Quando o nosso Senhor Jesus ungiu com barro os olhos do cego, talvez estivesse dando a entender que era ele quem no princípio formou o homem do barro.

E quando soprou sobre os seus discípulos, dizendo: “Recebei o Espírito Santo”, deu a entender que era ele quem no princípio soprou nas narinas do homem o fôlego de vida.

Aquele que fez a alma é o único capaz de fazê-la de novo.

Versículos 8 a 15

O Jardim do Éden. (a.C. 4004.)

O homem consta de corpo e alma: um corpo feito da terra e uma alma racional e imortal, sopro do céu. Nestes versículos temos a provisão que se fez para a felicidade dos dois.

Aquele que o fez cuidou de fazê-lo feliz, se ele ao menos tivesse conseguido se manter assim e reconhecer como estava bem.

A parte do homem pela qual ele se liga ao mundo dos sentidos foi feita feliz, porque ele foi posto no paraíso de Deus. A parte pela qual ele se liga ao mundo dos espíritos foi bem provida, porque ele foi tomado em aliança com Deus.

Senhor, que é o homem para ser assim dignificado — o homem, que é um verme! Aqui temos:

I. Uma descrição do jardim do Éden, destinado a ser a morada e o domínio deste grande senhor, o palácio deste príncipe.

O escritor inspirado, nesta história, escrevendo primeiro para os judeus e ajustando a narrativa ao estado infantil da igreja, descreve as coisas pelas suas aparências exteriores e palpáveis.

E nos deixa ser conduzidos, por descobertas posteriores da luz divina, ao entendimento dos mistérios escondidos debaixo delas.

As coisas espirituais eram alimento sólido, que eles ainda não podiam suportar; mas ele lhes escreve “como a carnais”, 1 Coríntios 3:1.

Por isso ele não insiste tanto na felicidade da mente de Adão quanto na do seu estado exterior.

A história mosaica, assim como a lei mosaica, traz antes os modelos das coisas celestiais do que “as próprias coisas celestiais”, Hebreus 9:23. Observe:

  1. O lugar designado para a residência de Adão foi um jardim; não uma casa de marfim nem um palácio revestido de ouro, mas um jardim, guarnecido e ornado pela natureza, e não pela arte.

Que pouca razão têm os homens de se orgulhar de construções imponentes e magníficas, quando a felicidade do homem na inocência estava em não precisar de nenhuma! Como a roupa entrou com o pecado, assim entraram as casas.

O céu era o teto da casa de Adão, e nunca houve teto tão primorosamente forrado e pintado. A terra era o seu piso, e nunca houve piso tão ricamente embutido.

A sombra das árvores era o seu retiro; debaixo delas ficavam as suas salas de jantar e os seus dormitórios, e nunca houve cômodos tão finamente forrados: os de Salomão, em toda a sua glória, não se vestiam como estes.

Quanto melhor nos acomodamos às coisas simples, e quanto menos nos entregamos àqueles deleites artificiais inventados para satisfazer o orgulho e o luxo dos homens, mais nos aproximamos de um estado de inocência.

A natureza se contenta com pouco, e com o que é mais natural; a graça, com menos; mas a cobiça, com nada.

  1. O traçado e a mobília deste jardim foram obra direta da sabedoria e do poder de Deus. O Senhor Deus plantou este jardim, isto é, o tinha plantado no terceiro dia, quando foram feitos os frutos da terra.

Podemos bem supor que tenha sido o lugar mais perfeito de prazer e deleite que o sol já viu, quando o próprio Deus todo-suficiente o projetou para ser a felicidade presente da sua criatura amada, o homem, na inocência, e um tipo e figura da felicidade do remanescente escolhido na glória.

Nenhum deleite pode agradar ou satisfazer uma alma senão os que o próprio Deus preparou e destinou para ela; não há paraíso verdadeiro senão o que Deus planta.

A luz das nossas próprias fogueiras e as fagulhas que nós mesmos acendemos logo nos deixarão no escuro, Isaías 50:11.

A terra inteira era agora um paraíso, comparada com o que é depois da queda e depois do dilúvio; os mais belos jardins do mundo são um deserto, comparados com o que era toda a face do solo antes de ser amaldiçoada por causa do homem.

E ainda assim isso não bastava: Deus plantou um jardim para Adão. Os escolhidos de Deus receberão favores que os distinguem.

  1. A situação deste jardim era extremamente agradável. Ficava no Éden, palavra que significa delícia e prazer.

O lugar é aqui apontado em detalhe por marcos e limites que bastavam, suponho, quando Moisés escreveu, para indicá-lo a quem conhecia aquela região; mas agora, ao que parece, os estudiosos não conseguem se satisfazer a respeito dele.

Cuidemos de garantir um lugar no paraíso celestial, e então não precisaremos nos afligir com a busca do lugar do paraíso terrestre.

É certo que, onde quer que ficasse, tinha todas as comodidades desejáveis e — o que nunca aconteceu com casa nem jardim algum na terra — nenhum incômodo.

Belo na sua situação, alegria e glória de toda a terra, era este jardim: sem dúvida era a terra na sua mais alta perfeição.

  1. As árvores com que este jardim foi plantado:

(1.) Ele tinha todas as melhores e mais seletas árvores, em comum com o resto do solo.

Era belo e ornado com toda árvore que, pela altura ou pela largura, pela forma ou pela cor, pela folha ou pela flor, era agradável à vista e encantava o olho.

Estava abastecido e enriquecido com toda árvore que dava fruto agradável ao paladar e útil ao corpo, e portanto bom para alimento.

Deus, como Pai carinhoso, olhou não só pelo proveito de Adão, mas também pelo seu prazer; porque há um prazer compatível com a inocência — ou melhor: há um prazer verdadeiro e transcendente na inocência.

Deus se deleita na prosperidade dos seus servos e os quer tranquilos; é culpa deles mesmos se andam inquietos.

Quando a Providência nos põe num Éden de fartura e prazer, devemos servi-lo com alegria e contentamento de coração, na abundância das coisas boas que ele nos dá.

Mas, (2.) ele tinha duas árvores extraordinárias, próprias só dele; na terra não havia semelhantes a elas.

[1.] Havia a árvore da vida no meio do jardim. Ela não era tanto um lembrete para ele da fonte e do autor da sua vida, nem talvez algum meio natural de conservar ou prolongar a vida.

Mas ela se destinava principalmente a ser sinal e selo para Adão, garantindo-lhe a continuação da vida e da felicidade, até a imortalidade e a bem-aventurança eterna, pela graça e pelo favor do seu Criador, com a condição de perseverar neste estado de inocência e obediência.

Dela ele podia comer e viver. Cristo é agora para nós “a árvore da vida” (Apocalipse 2:7; 22:2) e “o pão da vida”, João 6:48, 53.

[2.] Havia a árvore do conhecimento do bem e do mal, assim chamada não porque tivesse alguma virtude para gerar ou aumentar conhecimento útil (certamente, nesse caso, ela não teria sido proibida), mas:

Primeiro, porque havia uma revelação expressa e positiva da vontade de Deus a respeito desta árvore, de modo que por ela ele podia conhecer o bem e o mal morais.

O que é bom? É bom não comer desta árvore. O que é mau? É mau comer desta árvore.

A distinção entre todo o restante do bem e do mal morais estava escrita no coração do homem pela natureza; mas esta, que resultava de uma lei positiva, estava escrita nesta árvore.

Segundo, porque, no desfecho, ela veio a dar a Adão um conhecimento experimental do bem, pela perda dele, e do mal, por senti-lo.

Assim como a aliança da graça tem em si não só “Creia e seja salvo”, mas também “Não creia e seja condenado” (Marcos 16:16), assim a aliança da inocência tinha em si não só “Faça isto e viva”, selado e confirmado pela árvore da vida, mas também “Falhe e morra”, do que Adão ficou certo por esta outra árvore.

“Toque-a por sua conta e risco.” Assim, nestas duas árvores, Deus pôs diante dele o bem e o mal, a bênção e a maldição, Deuteronômio 30:19. Estas duas árvores eram como dois sacramentos.

  1. Os rios com que este jardim era regado, vv. 10-14. Estes quatro rios (ou um rio ramificado em quatro braços) contribuíam muito tanto para o encanto quanto para a fertilidade deste jardim.

Diz-se que a terra de Sodoma era “bem regada por toda parte, como o jardim do Senhor”, Gênesis 13:10. Observe: o que Deus planta, ele cuidará de manter regado. As árvores da justiça estão plantadas junto aos rios, Salmos 1:3.

No paraíso celestial há um rio que supera estes infinitamente; porque é um rio da água da vida, que não sai do Éden, como este, mas está “procedendo do trono de Deus e do Cordeiro” (Apocalipse 22:1), um rio que alegra a cidade do nosso Deus, Salmos 46:4.

O Hidéquel e o Eufrates são rios da Babilônia, dos quais lemos em outros lugares. Junto a eles os judeus cativos se assentavam e choravam, quando se lembravam de Sião (Salmos 137:1).

Mas me parece que eles tinham muito mais razão para chorar — e nós também — ao se lembrarem do Éden. O paraíso de Adão era a prisão deles; que obra miserável o pecado fez.

Da terra de Havilá se diz (v. 12): “O ouro daquela terra é bom”, e “ali há bdélio e pedra de ônix”. Certamente isso é mencionado para que a riqueza de que a terra de Havilá se gabava sirva de contraste àquilo que era a glória da terra do Éden.

Havilá tinha ouro, especiarias e pedras preciosas; mas o Éden tinha o que era infinitamente melhor: a árvore da vida e a comunhão com Deus.

Assim podemos dizer dos africanos e dos índios: “Eles têm o ouro, mas nós temos o evangelho. O ouro da terra deles é bom, mas as riquezas da nossa são infinitamente melhores.”

II. A colocação do homem neste paraíso de delícias, v. 15, onde observe:

  1. Como Deus o pôs de posse dele: “O Senhor Deus tomou o homem e o pôs no jardim do Éden”; assim também v. 8, 15. Repare aqui:

(1.) O homem foi feito fora do paraíso; porque, depois que Deus o formou, o pôs no jardim: ele foi feito de barro comum, não do pó do paraíso.

Ele viveu fora do Éden antes de viver nele, para que visse que todos os confortos do seu estado paradisíaco se deviam à livre graça de Deus.

Ele não podia alegar direito de inquilino sobre o jardim, porque não nasceu na propriedade nem tinha nada além do que recebeu; assim toda vanglória ficou para sempre excluída.

(2.) O mesmo Deus que foi o autor do seu ser foi o autor da sua bem-aventurança; a mesma mão que o fez alma vivente plantou para ele a árvore da vida e o instalou junto dela.

Aquele que nos fez é o único capaz de nos fazer felizes; aquele que é o formador dos nossos corpos e o Pai dos nossos espíritos, ele, e mais ninguém, pode prover de fato a felicidade dos dois.

(3.) Acrescenta muito ao conforto de qualquer condição termos visto claramente Deus indo à nossa frente e nos colocando nela.

Se não forçamos a providência, mas a seguimos e aproveitamos as indicações que ela nos deu, podemos esperar encontrar um paraíso onde de outro modo não o esperaríamos. Veja Salmos 47:4.

  1. Como Deus lhe designou ocupação e trabalho. Ele o pôs ali não como o leviatã nas águas, para brincar nelas, mas para cultivar o jardim e guardá-lo.

O próprio paraíso não era lugar de dispensa do trabalho. Repare aqui:

(1.) Nenhum de nós foi enviado ao mundo para ficar ocioso. Aquele que nos fez estas almas e estes corpos nos deu com que trabalhar; e aquele que nos deu esta terra por habitação nos fez algo sobre o que trabalhar.

Se uma linhagem elevada, ou uma grande fortuna, ou um vasto domínio, ou uma inocência perfeita, ou um talento para a pura contemplação, ou uma família pequena pudessem dar a um homem uma carta de dispensa, Adão não teria sido posto a trabalhar.

Mas aquele que nos deu o ser nos deu ocupação: servi-lo e servir à nossa geração, e trabalhar a nossa salvação; se não cuidamos da nossa ocupação, somos indignos do nosso ser e do nosso sustento.

(2.) As ocupações seculares combinam muito bem com um estado de inocência e uma vida de comunhão com Deus.

Os filhos e herdeiros do céu, enquanto estão aqui neste mundo, têm algo a fazer a respeito desta terra, que precisa ter a sua parte do tempo e dos pensamentos deles; e, se o fazem com os olhos em Deus, estão servindo-o nisso tão de verdade quanto quando estão de joelhos.

(3.) O ofício do lavrador é antigo e honroso; era necessário até no paraíso. O jardim do Éden, embora não precisasse ser capinado (porque espinhos e cardos ainda não eram um estorvo), ainda assim tinha de ser cultivado e guardado.

A natureza, mesmo no seu estado primitivo, deixou espaço para os aperfeiçoamentos da arte e da indústria.

Era um ofício próprio para um estado de inocência, provendo para a vida e não para a cobiça, e dando ao homem a oportunidade de admirar o Criador e de reconhecer a sua providência: enquanto as mãos dele cuidavam das suas árvores, o coração dele podia estar com o seu Deus.

(4.) Há um prazer verdadeiro no trabalho para o qual Deus nos chama e no qual nos emprega.

O trabalho de Adão, longe de rebaixar os prazeres do paraíso, era um acréscimo a eles; ele não poderia ter sido feliz se estivesse ocioso. Continua valendo a lei: quem não quer trabalhar não tem direito de comer, 2 Tessalonicenses 3:10; Provérbios 27:23.

III. A ordem que Deus deu ao homem na inocência, e a aliança em que então o tomou.

Até aqui vimos Deus como Criador poderoso do homem e como seu Benfeitor generoso; agora ele aparece como seu Governante e Legislador.

Deus o pôs no jardim do Éden não para viver ali como bem quisesse, mas para estar debaixo de governo.

Assim como não nos é permitido ficar ociosos neste mundo, sem fazer nada, também não nos é permitido ser voluntariosos e fazer o que nos agrada.

Quando Deus deu ao homem domínio sobre as criaturas, quis que ele soubesse que ele mesmo continuava debaixo do governo do seu Criador.

Versículos 16 a 17

A Árvore do Conhecimento Proibida. (a.C. 4004.)

Observe aqui: I. A autoridade de Deus sobre o homem, como criatura que tinha razão e liberdade de vontade.

O Senhor Deus deu ordem ao homem, que estava agora como pessoa pública, o pai e o representante de toda a humanidade, para que recebesse a lei, como havia recebido pouco antes uma natureza, para si e para todos os seus.

Deus deu ordem a todas as criaturas, conforme a capacidade de cada uma; o curso estabelecido da natureza é uma lei, Salmos 148:6; Salmos 104:9.

Os animais irracionais têm cada um o seu instinto; mas o homem foi feito capaz de prestar um serviço racional, e por isso recebeu não só a ordem de um Criador, mas a ordem de um Príncipe e Senhor.

Embora Adão fosse um homem muito grande, muito bom e muito feliz, ainda assim o Senhor Deus lhe deu ordem; e a ordem não rebaixou a sua grandeza, não trouxe descrédito à sua bondade, nem diminuiu em nada a sua felicidade.

Reconheçamos o direito que Deus tem de nos governar, e as nossas obrigações de sermos governados por ele; e nunca admitamos vontade nossa que contradiga a santa vontade de Deus, ou que dispute com ela.

II. O ato particular desta autoridade, prescrevendo-lhe o que devia fazer e em que termos ficaria diante do seu Criador. Aqui está:

  1. Uma confirmação da felicidade presente que ele tinha, naquela concessão: “De toda árvore do jardim poderás comer livremente”.

Isso não era só uma concessão de liberdade para tomar os frutos deliciosos do paraíso, como recompensa pelo zelo e pelo esforço de cultivá-lo e guardá-lo (1 Coríntios 9:7, 10), mas era também uma garantia de vida para ele, de vida imortal, mediante a sua obediência.

Pois, estando a árvore da vida posta no meio do jardim (v. 9), como o coração e a alma dele, sem dúvida era nela sobretudo que Deus tinha os olhos nesta concessão.

E por isso, quando esta concessão é revogada depois da sua revolta, nenhuma árvore do jardim é apontada como proibida a ele, exceto a árvore da vida (Gênesis 3:22), da qual ali se diz que ele poderia ter comido e vivido para sempre, isto é, nunca ter morrido nem jamais perdido a sua felicidade.

“Continue santo como você é, em conformidade com a vontade do seu Criador, e continuará feliz como você é, no gozo do favor do seu Criador, seja neste paraíso, seja num melhor.”

Assim, sob a condição de uma obediência pessoal, perfeita e perpétua, Adão tinha o paraíso garantido para si e para os seus herdeiros para sempre.

  1. Uma prova da sua obediência, sob pena de perder toda a sua felicidade: “Mas quanto à outra árvore, que estava bem perto da árvore da vida (pois das duas se diz que estavam no meio do jardim), e que se chamava árvore do conhecimento: no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”

É como se ele dissesse: “Saiba, Adão, que você está agora sob observação; foi posto no paraíso à prova. Seja atento, seja obediente, e estará feito para sempre; do contrário, será tão infeliz quanto agora é feliz.” Aqui:

(1.) Adão é ameaçado com a morte em caso de desobediência: “Morrendo morrerás”, o que denota uma sentença certa e terrível, assim como, na parte anterior desta aliança, “comendo comerás” denota uma concessão livre e plena. Observe:

[1.] Até Adão, na inocência, foi contido por uma ameaça; o medo é uma das alças da alma, pela qual ela é agarrada e segurada. Se ele já precisava dessa cerca, quanto mais nós agora.

[2.] A pena ameaçada é a morte: “Morrerás”, isto é: “Você será impedido de chegar à árvore da vida e a todo o bem que ela significa, a toda a felicidade que você tem, seja em posse, seja em expectativa; e ficará sujeito à morte e a todas as misérias que a antecedem e a acompanham.”

[3.] Isso foi ameaçado como consequência direta do pecado: “No dia em que comeres, morrerás”, isto é: “Você se tornará mortal e capaz de morrer; a concessão da imortalidade será revogada, e essa defesa se apartará de você.”

“Você ficará exposto à morte, como um malfeitor condenado que já está morto na lei” (só que, como Adão seria a raiz da humanidade, foi-lhe concedido adiamento).

“Ou melhor: os arautos e precursores da morte o tomarão imediatamente, e a sua vida, dali em diante, será uma vida que morre: e isso com certeza; é regra assentada, a alma que pecar, essa morrerá.”

(2.) Adão é provado por uma lei positiva: não comer do fruto da árvore do conhecimento. Ora, era muito apropriado provar a obediência dele por uma ordem como esta:

[1.] Porque a razão dela é tirada puramente da vontade do Legislador. Adão tinha na sua natureza uma aversão ao que era mau em si mesmo, e por isso é provado numa coisa que era má só porque estava proibida; e, sendo coisa pequena, era mais adequada para pôr à prova a sua obediência.

[2.] Porque a restrição dela recai sobre os desejos da carne e da mente, que, na natureza corrompida do homem, são as duas grandes fontes do pecado.

Esta proibição continha tanto o apetite dele pelos deleites dos sentidos quanto as suas ambições de um conhecimento curioso, para que o corpo fosse governado pela alma, e a alma, pelo seu Deus.

Tão tranquilo, tão feliz era o homem no estado de inocência, tendo tudo o que o coração podia desejar para que assim fosse.

Como Deus foi bom com ele! Com quantos favores o cumulou! Como eram fáceis as leis que lhe deu! Como era bondosa a aliança que fez com ele!

E, no entanto, o homem, estando em honra, não entendeu o seu próprio interesse, mas logo se tornou como os animais que perecem.

Versículos 18 a 20

O Domínio de Adão. (a.C. 4004.)

Temos aqui:

I. Um exemplo do zelo do Criador com o homem e da sua preocupação paterna com o conforto dele, v. 18.

Embora Deus lhe tivesse feito saber que era um súdito, ao lhe dar um mandamento (v. 16, 17), ainda assim aqui também lhe faz saber, para animá-lo na obediência, que era um amigo, um favorecido, alguém de cuja satisfação ele cuidava com carinho. Observe:

  1. Como Deus se compadeceu com bondade da solidão dele: Não é bom que o homem, este homem, esteja só.

Ainda que houvesse um mundo superior de anjos e um mundo inferior de animais, e ele entre os dois, não havia nenhum ser da mesma natureza e da mesma ordem que a sua, nenhum com quem pudesse conviver com familiaridade; por isso se podia dizer com verdade que ele estava só.

Ora, aquele que o fez conhecia melhor do que ele mesmo tanto a ele quanto o que lhe era bom, e disse: “Não é bom que ele continue assim, sozinho.”

(1.) Não é bom para o conforto dele, porque o homem é uma criatura sociável. É um prazer para ele trocar conhecimento e afeto com os da sua própria espécie: informar e ser informado, amar e ser amado.

O que Deus diz aqui do primeiro homem, Salomão diz de todos os homens (Eclesiastes 4:9, etc.): que “dois são melhores do que um”, e “ai daquele que está só”.

Se houvesse apenas um homem no mundo, que homem melancólico ele teria de ser! A solidão perfeita transformaria um paraíso em deserto, e um palácio em masmorra. São tolos, portanto, os que são egoístas e gostariam de ficar sozinhos na terra.

(2.) Não é bom para o aumento e a continuação da sua espécie. Deus poderia ter feito de saída um mundo de homens para encher a terra, como encheu o céu com um mundo de anjos.

Mas o lugar teria ficado estreito demais para o número previsto de homens vivendo juntos ao mesmo tempo; por isso Deus achou por bem completar esse número por uma sucessão de gerações, que, do modo como Deus formou o homem, teria de vir de dois, e esses dois, macho e fêmea. Um será sempre um só.

  1. Como Deus resolveu com bondade prover convívio para ele. O resultado desse raciocínio a respeito dele foi esta resolução bondosa: “Farei para ele uma auxiliadora idônea”.

Uma ajuda semelhante a ele (assim alguns leem), da mesma natureza e da mesma ordem de seres; uma ajuda junto dele (assim outros), que morasse com ele e estivesse sempre à mão; uma ajuda diante dele (assim outros), para quem ele olhasse com prazer e deleite. Repare daqui:

(1.) No nosso melhor estado neste mundo precisamos da ajuda uns dos outros, porque somos membros uns dos outros, e o olho não pode dizer à mão: “Não tenho necessidade de ti”, 1 Coríntios 12:21.

Devemos, portanto, receber de bom grado a ajuda dos outros e dar ajuda aos outros, conforme a ocasião pedir.

(2.) Só Deus conhece perfeitamente as nossas carências e é perfeitamente capaz de suprir todas elas, Filipenses 4:19. Somente nele está o nosso socorro, e dele vêm todos os que nos socorrem.

(3.) Uma esposa adequada é uma auxiliadora idônea, e vem do Senhor. A relação tem tudo para ser agradável quando a adequação dirige e decide a escolha, e a ajuda mútua é o zelo e o esforço constante, 1 Coríntios 7:33, 34.

(4.) O convívio da família, quando é agradável, basta como remédio para o mal da solidão.

Quem tem um bom Deus, um bom coração e uma boa esposa com quem conviver, e ainda assim se queixa de que lhe falta convivência, não teria ficado tranquilo e contente no paraíso; porque o próprio Adão não teve mais do que isso.

E, ainda assim, mesmo antes de Eva ser criada, não vemos que ele se queixasse de estar sozinho, sabendo que não estava sozinho, porque o Pai estava com ele.

Os que mais se satisfazem em Deus e no favor dele estão no melhor caminho e na melhor disposição para receber as coisas boas desta vida, e as terão com certeza, na medida em que a Sabedoria Infinita julgar bom.

II. Um exemplo da sujeição das criaturas ao homem e do domínio dele sobre elas (v. 19, 20): todo animal do campo e toda ave do céu Deus trouxe a Adão, seja pelo ministério dos anjos, seja por um instinto especial que as dirigia a vir ao homem como seu senhor, ensinando cedo ao boi a conhecer o seu dono.

Assim Deus deu ao homem a investidura e a posse da bela propriedade que lhe havia concedido, e o pôs de posse do seu domínio sobre as criaturas.

Deus as trouxe a ele para que lhes desse nome, e assim desse:

  1. Uma prova do seu conhecimento, como criatura dotada das faculdades tanto da razão quanto da fala, e a quem, por isso, se ensinou mais do que aos animais da terra e que foi feita mais sábia que as aves do céu, Jó 35:11.

  2. E uma prova do seu poder. Impor nomes é ato de autoridade (Daniel 1:7), e recebê-los é ato de sujeição. As criaturas inferiores agora, por assim dizer, prestavam homenagem ao seu príncipe na posse do cargo, e lhe juravam fidelidade e lealdade.

Se Adão tivesse continuado fiel ao seu Deus, podemos supor que as próprias criaturas teriam conhecido e guardado tão bem os nomes que ele agora lhes deu, que viriam ao seu chamado a qualquer hora e responderiam pelos seus nomes.

Deus deu nomes ao dia e à noite, ao firmamento, à terra e ao mar; e ele chama as estrelas pelos seus nomes, para mostrar que é o Senhor supremo delas.

Mas deu a Adão licença para dar nome aos animais e às aves, como senhor subordinado; pois, tendo-o feito à sua própria imagem, pôs assim sobre ele um pouco da sua honra.

III. Um exemplo da insuficiência das criaturas para serem a felicidade do homem: “Mas” (entre todas elas) “para Adão não se achou uma auxiliadora idônea”.

Alguns tomam estas palavras como do próprio Adão. Vendo todas as criaturas virem a ele aos pares para receber nome, ele assim insinua o seu desejo ao seu Criador: “Senhor, todas estas têm auxílios adequados para elas; mas o que farei eu? Aqui não há nenhum para mim.”

É antes o juízo de Deus depois da revista. Ele as trouxe todas juntas para ver se havia algum par adequado para Adão em alguma das numerosas famílias das criaturas inferiores; mas não havia nenhum. Observe aqui:

  1. A dignidade e a excelência da natureza humana. Na terra não havia coisa igual a ela, nem par que se achasse entre todas as criaturas visíveis; todas foram passadas em revista, mas entre todas elas não se achou par para ela.

  2. A vaidade deste mundo e das coisas dele: junte tudo, e não farão uma auxiliadora idônea para o homem.

Elas não servirão à natureza da alma dele, nem suprirão as necessidades dela, nem satisfarão os seus desejos justos, nem correrão lado a lado com a sua duração que nunca acaba.

Deus cria uma coisa nova para ser auxiliadora idônea do homem: não tanto a mulher, mas a semente da mulher.

Versículos 21 a 25

A Formação de Eva; a Instituição do Casamento. (a.C. 4004.)

Temos aqui:

I. A formação da mulher, para ser uma auxiliadora idônea para Adão. Isso se deu no sexto dia, assim como a colocação de Adão no paraíso, embora venha mencionado aqui depois do relato do descanso do sétimo dia.

Mas o que foi dito de modo geral (Gênesis 1:27), que Deus fez o homem macho e fêmea, é contado aqui com mais detalhe. Observe:

  1. Que “Adão foi formado primeiro, depois Eva” (1 Timóteo 2:13), e que ela foi feita do homem e para o homem (1 Coríntios 11:8, 9).

Tudo isso é alegado ali como razão para a humildade, a modéstia, o silêncio e a submissão desse sexo em geral, e em particular para a sujeição e a reverência que as esposas devem aos seus próprios maridos.

Ainda assim, tendo o homem sido feito por último entre as criaturas, como a melhor e mais excelente de todas, o fato de Eva ter sido feita depois de Adão, e dele mesmo, honra esse sexo, como “a glória do homem”, 1 Coríntios 11:7.

Se o homem é a cabeça, ela é a coroa: coroa do seu marido, coroa da criação visível. O homem era pó refinado, mas a mulher era pó refinado duas vezes, um passo mais distante da terra.

  1. Que Adão dormia enquanto a sua esposa era feita, para que não sobrasse espaço para imaginar que ele tivesse nisso dirigido o Espírito do Senhor, ou sido conselheiro dele, Isaías 40:13.

Ele tinha sido levado a sentir a falta de uma ajuda adequada; mas, tendo Deus se encarregado de providenciar uma, ele não se aflige com nenhum cuidado a respeito disso.

Deita-se e dorme docemente, como quem tinha lançado todo o seu cuidado sobre Deus, com uma entrega alegre de si mesmo e de todos os seus assuntos à vontade e à sabedoria do seu Criador.

Jehovah-jireh: que o Senhor proveja quando ele quiser e quem ele quiser. Se descansamos em Deus com graça, Deus trabalhará por nós com graça e fará tudo cooperar para o bem.

  1. Que Deus fez cair um sono sobre Adão, e o fez um sono profundo, para que a abertura do seu lado não lhe fosse penosa; enquanto ele não conhece pecado, Deus cuida para que ele não sinta dor.

Quando Deus, pela sua providência, faz ao seu povo aquilo que é penoso para a carne e o sangue, ele não só olha pela felicidade deles no desfecho, mas pela sua graça pode aquietar e serenar o espírito deles a ponto de deixá-los tranquilos sob as operações mais cortantes.

  1. Que a mulher foi feita de uma costela do lado de Adão. Não foi feita da cabeça dele para dominá-lo, nem dos pés para ser pisada por ele, mas do lado para ser igual a ele, debaixo do braço para ser protegida, e perto do coração para ser amada.

Adão perdeu uma costela, e sem nenhuma diminuição da sua força ou da sua boa aparência (pois, sem dúvida, a carne se fechou sem cicatriz); mas em lugar dela recebeu uma auxiliadora idônea, que compensou de sobra a sua perda.

O que Deus tira do seu povo, ele restituirá, de um jeito ou de outro, com vantagem.

Nisto (como em muitas outras coisas) Adão era figura daquele que estava por vir; pois do lado de Cristo, o segundo Adão, foi formada a sua esposa, a igreja, quando ele dormiu o sono, o sono profundo, da morte na cruz.

Para isso o lado dele foi aberto, e dali saíram sangue e água: sangue para comprar a sua igreja e água para purificá-la para si mesmo. Veja Efésios 5:25, 26.

II. O casamento da mulher com Adão. O casamento é honroso, mas este certamente foi o casamento mais honroso que já houve, e nele o próprio Deus teve, o tempo todo, participação direta.

Dizem que os casamentos são feitos no céu. Deste temos certeza, porque o homem, a mulher e o enlace eram todos obra do próprio Deus: ele, pelo seu poder, fez os dois, e agora, pela sua ordenança, fez deles um só.

Este foi um casamento feito em perfeita inocência, e nenhum outro casamento foi assim desde então.

  1. Deus, como Pai dela, trouxe a mulher ao homem, como seu segundo eu e auxiliadora idônea para ele. Depois de fazê-la, não a deixou entregue à própria escolha; não: ela era filha dele, e não podia se casar sem a anuência dele.

Tendem a se estabelecer para o próprio consolo aqueles que, pela fé e pela oração, e por uma dependência humilde da providência, se colocam sob a direção divina.

A esposa que é feita por Deus por graça especial, e trazida por Deus por providência especial, tende a se mostrar uma auxiliadora idônea para o homem.

  1. De Deus, como Pai dele, Adão a recebeu (v. 23): “Esta agora é osso do meu osso. Agora tenho o que me faltava, e que nenhuma das criaturas pôde me dar: uma auxiliadora idônea para mim.”

Os dons de Deus para nós devem ser recebidos com um reconhecimento humilde e grato da sabedoria dele em ajustá-los a nós, e do favor dele em concedê-los a nós.

Provavelmente foi revelado a Adão numa visão, enquanto dormia, que aquela criatura encantadora, agora apresentada a ele, era um pedaço dele mesmo, e seria a sua companheira e a esposa da sua aliança.

Daí alguns tiraram um argumento para provar que os santos glorificados, no paraíso celestial, vão reconhecer uns aos outros.

E ainda, como sinal de que a aceitava, ele lhe deu um nome, não próprio dela, mas comum ao seu sexo: “Ela se chamará mulher”, Isha, um homem no feminino, que difere do homem só no sexo, não na natureza: feita do homem e unida ao homem.

III. A instituição da ordenança do casamento, e o estabelecimento da lei que a rege, v. 24. O sábado e o casamento foram duas ordenanças instituídas na inocência: o primeiro para a preservação da igreja, o segundo para a preservação do mundo dos homens.

Parece (por Mateus 19:4, 5) que foi o próprio Deus quem disse aqui: “O homem deve deixar todos os seus parentes para se apegar à sua mulher”; mas se ele o disse por Moisés, o escritor, ou por Adão (que falou no v. 23), é incerto.

Parece que são palavras de Adão, em nome de Deus, estabelecendo esta lei para toda a sua posteridade.

  1. Veja aqui como é grande a força de uma ordenança divina: as amarras dela são mais fortes até que as da natureza.

A quem podemos estar mais firmemente presos do que aos pais que nos geraram e às mães que nos deram à luz? E ainda assim o filho deve deixá-los para se unir à sua mulher, e a filha esquecê-los para se apegar ao seu marido, Salmos 45:10, 11.

  1. Veja como é necessário que os filhos levem consigo a anuência dos pais no casamento, e como são injustos com os pais, além de faltarem com o dever, aqueles que se casam sem ela.

Pois roubam deles o direito que têm sobre os filhos, e a parte que neles têm, e a transferem para outra pessoa, de modo fraudulento e antinatural.

  1. Veja como é preciso ter tanto prudência quanto oração na escolha desta relação, que é tão próxima e tão duradoura. O que se faz para a vida inteira precisa ser bem feito.

  2. Veja como é firme o vínculo do casamento: não deve ser dividido e enfraquecido pela posse de muitas esposas (Malaquias 2:15), nem rompido ou cortado por divórcio, por causa nenhuma senão fornicação ou abandono voluntário.

  3. Veja como deve ser terno o afeto entre marido e mulher, igual ao que temos pelos nossos próprios corpos, Efésios 5:28. Esses dois são uma só carne; então que sejam uma só alma.

IV. Uma prova da pureza e da inocência daquele estado em que os nossos primeiros pais foram criados, v. 25. “Estavam os dois nus”.

Não precisavam de roupa para defesa contra o frio nem contra o calor, pois nem um nem outro podia lhes fazer mal. Não precisavam de roupa como ornamento. Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu como um deles.

Ou melhor: não precisavam de roupa nem por decência; estavam nus e não tinham motivo para se envergonhar. Não sabiam o que era vergonha; é assim que o Caldeu traduz.

O rubor é hoje a cor da virtude, mas então não era a cor da inocência. Quem não tinha pecado na consciência bem podia não ter vergonha no rosto, ainda que não tivesse roupa nas costas.


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