Matthew Henry

Gênesis 1

Argumento

Gênesis

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO PRIMEIRO LIVRO DE MOISÉS, CHAMADO GÊNESIS.

Temos agora diante de nós a Santa Bíblia, ou livro, pois é isso que Bíblia significa. Chamamos a Bíblia de Livro por excelência; pois é incomparavelmente o melhor livro já escrito, o livro dos livros, que brilha como o sol no firmamento do saber, enquanto outros livros valiosos e úteis, como a lua e as estrelas, tomam dele a sua luz.

Chamamos a Bíblia de livro santo porque foi escrita por homens santos e ditada pelo Espírito Santo; é inteiramente pura de toda falsidade e intenção corrupta; e sua tendência manifesta é promover a santidade entre os homens.

As grandes coisas da lei e do evangelho de Deus nos foram aqui escritas para que tivessem maior certeza, se espalhassem mais, durassem mais e chegassem a lugares e épocas distantes mais puras e íntegras do que seria possível por relato e tradição.

E teremos muito a responder se negligenciarmos, como coisa estranha e alheia, essas coisas que pertencem à nossa paz e nos foram confiadas por escrito, Oseias 8:12.

As Escrituras, ou escritos dos diversos autores inspirados, de Moisés a São João, nos quais a luz divina brilhou gradualmente como a da manhã (estando agora completo o cânon sagrado), foram reunidas nesta bendita Bíblia que, graças a Deus, temos nas mãos; e juntas formam o dia mais perfeito que podemos esperar deste lado do céu.

Cada parte era boa, mas todas juntas, muito boas. Esta é a luz que brilha em lugar escuro (2 Pedro 1:19), e o mundo seria de fato um lugar escuro sem a Bíblia.

Temos diante de nós a parte da Bíblia chamada Antigo Testamento, com atos e registros da igreja desde a criação até quase a vinda de Cristo em carne, durante cerca de quatro mil anos: as verdades então reveladas, as leis promulgadas, as devoções prestadas, as profecias dadas e os acontecimentos relativos àquele corpo distinto, até onde Deus julgou conveniente preservar-nos o conhecimento deles.

Chama-se testamento, ou aliança (Diatheke), porque era uma declaração estabelecida da vontade de Deus acerca do homem em forma de aliança e recebia sua força da morte preordenada do grande testador, o Cordeiro morto desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8).

Chama-se Antigo Testamento em relação ao Novo, que não o cancela nem o substitui, mas o coroa e aperfeiçoa ao introduzir aquela esperança melhor que nele foi prefigurada e predita; o Antigo Testamento ainda permanece glorioso, embora o Novo o exceda muito em glória (2 Coríntios 3:9).

Temos diante de nós a parte do Antigo Testamento que chamamos Pentateuco, ou cinco livros de Moisés, aquele servo do Senhor que superou todos os outros profetas e prefigurou o grande profeta.

Na divisão que o nosso Salvador faz dos livros do Antigo Testamento em lei, profetas e salmos, ou Hagiographa, estes são a lei; pois contêm não só as leis dadas a Israel nos quatro últimos livros, mas também as leis dadas a Adão, a Noé e a Abraão no primeiro.

Estes cinco livros foram, até onde sabemos, os primeiros jamais escritos; pois não temos a menor menção de escrita em todo o livro de Gênesis, nem antes de Deus mandar Moisés escrever (Êxodo 17:14); e alguns pensam que o próprio Moisés não aprendeu a escrever até Deus lhe dar um modelo ao escrever os Dez Mandamentos nas tábuas de pedra.

Contudo, estamos certos de que estes livros são os escritos mais antigos hoje existentes e, por isso, os mais capazes de nos dar um relato satisfatório das coisas mais antigas.

Temos diante de nós o primeiro e o mais longo desses cinco livros, a que chamamos Gênesis. Alguns pensam que foi escrito quando Moisés estava em Midiã, para instrução e consolo de seus irmãos que sofriam no Egito.

Eu, antes, penso que ele o escreveu no deserto, depois de estar no monte com Deus, onde provavelmente recebeu instruções completas e específicas para escrevê-lo. E, assim como construiu o tabernáculo, também compôs a estrutura mais excelente e duradoura deste livro exatamente segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte.

É melhor atribuir a esse modelo a certeza das coisas aqui contidas do que a qualquer tradição que porventura tenha sido transmitida de Adão a Matusalém, dele a Sem, deste a Abraão e assim à família de Jacó.

Gênesis é um nome tomado do grego. Significa origem ou geração: é apropriado que este livro assim se chame, pois é uma história das origens: a criação do mundo, a entrada do pecado e da morte nele, a invenção das artes, o surgimento das nações e, especialmente, o estabelecimento da igreja e sua condição nos primeiros dias.

É também uma história de gerações: as gerações de Adão, Noé, Abraão, etc.; genealogias não intermináveis, mas úteis. O começo do Novo Testamento também é chamado Gênesis (Mateus 1:1), Biblos geneseos, o livro da origem, ou geração, de Jesus Cristo.

Bendito seja Deus por aquele livro que nos mostra o remédio, assim como este abre a nossa ferida. Senhor, abra os nossos olhos, para que vejamos as coisas maravilhosas tanto da sua lei quanto do seu evangelho!

O fundamento de toda religião está na nossa relação com Deus como Criador. Era justo, portanto, que o livro das revelações divinas, feito para ser o guia, o apoio e a regra da religião no mundo, começasse como começa: com um relato simples e completo da criação do mundo.

É a resposta àquela primeira pergunta de uma boa consciência: “Onde está Deus, meu Criador?” (Jó 35:10).

Nisso os filósofos pagãos erraram lamentavelmente e se tornaram vãos em suas imaginações. Uns afirmavam que o mundo é eterno e existe por si mesmo; outros o atribuíam a um encontro casual de átomos.

Assim “o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria”, mas teve um trabalho enorme para perdê-lo.

A Escritura, então, tem um propósito: pela religião revelada, sustentar e aperfeiçoar a religião natural, reparar o que nela se estragou e suprir o que lhe falta desde a queda.

Para reavivar os preceitos da lei da natureza, ela assenta logo de saída este princípio da luz natural sem nuvens: no princípio do tempo, este mundo foi criado por um Ser de sabedoria e poder infinitos, que já existia antes de todo tempo e de todos os mundos.

A entrada da palavra de Deus dá essa luz, Salmos 119:130.

O primeiro versículo da Bíblia nos dá um conhecimento mais seguro, melhor, mais satisfatório e mais útil da origem do universo do que todos os volumes dos filósofos juntos.

A fé viva dos cristãos humildes entende este assunto melhor que a imaginação elevada dos maiores talentos, Hebreus 11:3.

Temos três coisas neste capítulo:

I. Uma ideia geral da obra da criação, v. 1, 2.

II. Um relato particular do trabalho de cada dia, registrado como num diário, com clareza e em ordem:

A criação da luz no primeiro dia, vv. 3-5; do firmamento no segundo dia, vv. 6-8; do mar, da terra e dos seus frutos no terceiro dia, vv. 9-13; das luzes do céu no quarto dia, vv. 14-19; dos peixes e das aves no quinto dia, vv. 20-23; dos animais, v. 24, 25; do homem, vv. 26-28; e do alimento para uns e outros no sexto dia, v. 29, 30.

III. A revisão e a aprovação de toda a obra, v. 31.

Versículos 1 a 2

A Criação. (a.C. 4004.)

Nestes versículos temos a obra da criação em resumo e em embrião.

I. Em resumo, v. 1, onde encontramos, para nosso consolo, o primeiro artigo do nosso credo: que Deus Pai Todo-Poderoso é o Criador do céu e da terra, e é como tal que cremos nele.

  1. Repare, neste versículo, em quatro coisas:

(1.) O efeito produzido: o céu e a terra, isto é, o mundo, incluindo toda a armação e a mobília do universo, o mundo e tudo o que nele há, Atos 17:24.

O mundo é uma casa grande, com andar de cima e andar de baixo, de estrutura imponente e magnífica, uniforme e cômoda, e cada cômodo bem e sabiamente mobiliado.

É da parte visível da criação que Moisés se ocupa aqui; por isso não menciona a criação dos anjos.

Mas assim como a terra não tem só a superfície enfeitada de ervas e flores, e sim também as entranhas enriquecidas de metais e pedras preciosas, que participam mais da sua natureza sólida e são mais valiosos, embora sua criação não seja mencionada aqui, também os céus não estão apenas embelezados aos nossos olhos com lâmpadas gloriosas que lhes guarnecem o lado de fora, cuja criação lemos aqui.

Eles estão por dentro cheios de seres gloriosos, fora da nossa vista, mais celestiais e superiores àquelas lâmpadas em valor e excelência do que o ouro ou a safira superam os lírios do campo.

No mundo visível é fácil observar:

[1.] Grande variedade, tipos de seres que diferem enormemente uns dos outros na natureza e na constituição. Senhor, como são variadas as tuas obras, e todas boas!

[2.] Grande beleza. O azul do céu e o verde da terra encantam o olho de quem observa com atenção, e muito mais os ornamentos dos dois. Quão transcendente, então, deve ser a beleza do Criador!

[3.] Grande exatidão e precisão. Para quem olha de perto as obras da natureza, com a ajuda do microscópio, elas aparecem muito mais esmeradas do que qualquer obra de arte.

[4.] Grande poder. Não é um bolo de matéria morta e inativa: há força, em maior ou menor grau, em cada criatura. A própria terra tem poder magnético.

[5.] Grande ordem, uma dependência mútua entre os seres, uma harmonia exata de movimentos e um encadeamento admirável de causas.

[6.] Grande mistério. Há fenômenos na natureza que não se resolvem, segredos que não se sondam nem se explicam.

Mas do que vemos do céu e da terra podemos inferir facilmente o poder eterno e a divindade do grande Criador, e nos abastecer de matéria abundante para o louvor dele.

E que a nossa constituição e o nosso lugar, como homens, nos lembrem do nosso dever como cristãos: manter sempre o céu diante dos olhos e a terra debaixo dos pés.

(2.) O autor e a causa desta grande obra: DEUS. A palavra hebraica é Elohim, que declara:

[1.] O poder de Deus, o Criador. El significa o Deus forte; e o que menos que uma força todo-poderosa poderia tirar todas as coisas do nada?

[2.] A pluralidade de pessoas na divindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

Esse nome plural de Deus, em hebraico, que fala dele como muitos ainda que ele seja um só, foi talvez para os gentios um cheiro de morte para morte, endurecendo-os na sua idolatria.

Mas para nós é cheiro de vida para vida, confirmando a nossa fé na doutrina da Trindade, que, embora apenas insinuada obscuramente no Antigo Testamento, está claramente revelada no Novo.

O Filho de Deus, o Verbo eterno e a Sabedoria eterna do Pai, estava com ele quando fez o mundo (Provérbios 8:30). Mais que isso: muitas vezes nos é dito que o mundo foi feito por ele, e que nada foi feito sem ele, João 1:3, 10; Efésios 3:9; Colossenses 1:16; Hebreus 1:2.

Que pensamentos altos isto deveria formar em nós a respeito daquele grande Deus de quem nos aproximamos no culto, e daquele grande Mediador em cujo nome nos aproximamos!

(3.) O modo como esta obra se realizou: Deus a criou, isto é, fez do nada.

Não havia matéria preexistente da qual o mundo tivesse sido produzido. Os peixes e as aves foram de fato produzidos das águas, e os animais e o homem, da terra; mas aquela terra e aquelas águas foram feitas do nada.

Pelo poder comum da natureza, é impossível que alguma coisa seja feita do nada; nenhum artífice trabalha se não tem sobre o que trabalhar.

Mas pelo poder todo-poderoso de Deus não só é possível que algo se faça do nada, porque o Deus da natureza não está sujeito às leis da natureza, como na criação é impossível que fosse de outro jeito.

Nada é mais prejudicial à honra da Mente Eterna do que supor matéria eterna. Assim a excelência do poder é de Deus, e toda a glória é dele.

(4.) Quando esta obra foi produzida: no princípio, isto é, no princípio do tempo, quando aquele relógio foi posto a andar pela primeira vez.

O tempo começou com a produção daqueles seres que o tempo mede. Antes do princípio do tempo não havia ninguém senão aquele Ser Infinito que habita a eternidade.

Se perguntássemos por que Deus não fez o mundo mais cedo, só escureceríamos o conselho com palavras sem conhecimento; pois como poderia haver mais cedo ou mais tarde na eternidade?

E ele o fez no princípio do tempo, segundo os seus conselhos eternos, anteriores a todo tempo.

Os rabinos judeus têm um dito: que sete coisas Deus criou antes do mundo, com o que apenas querem exprimir a excelência delas. A lei, o arrependimento, o paraíso, o inferno, o trono da glória, a casa do santuário e o nome do Messias.

Para nós, porém, basta dizer: “No princípio era o Verbo”, João 1:1.

  1. Aprendamos daqui:

(1.) Que o ateísmo é loucura, e que os ateus são os maiores tolos da natureza; porque veem que existe um mundo que não poderia ter feito a si mesmo, e ainda assim não admitem que exista um Deus que o fez. Sem dúvida estão sem desculpa, mas o deus deste mundo cegou o entendimento deles.

(2.) Que Deus é Senhor soberano de tudo, por direito incontestável. Se ele é o Criador, não há dúvida de que é o dono e possuidor do céu e da terra.

(3.) Que para Deus todas as coisas são possíveis, e por isso feliz é o povo que o tem por seu Deus, e cujo socorro e esperança estão no nome dele, Salmos 121:2; 124:8.

(4.) Que o Deus a quem servimos é digno de toda bênção e louvor, e ao mesmo tempo está exaltado muito acima deles, Neemias 9:5, 6.

Se ele fez o mundo, não precisa dos nossos serviços nem pode ser beneficiado por eles (Atos 17:24, 25); e mesmo assim os exige com justiça e merece o nosso louvor, Apocalipse 4:11. Se tudo vem dele, tudo tem de ser para ele.

II. Aqui está a obra da criação em embrião, v. 2, onde temos o relato da primeira matéria e do primeiro motor.

  1. Um caos foi a primeira matéria.

Ele é chamado aqui de terra, embora a terra, no sentido próprio, só tenha sido feita no terceiro dia, v. 10, porque era o que mais se parecia com aquilo que depois se chamaria terra: simples terra, despida dos seus ornamentos, massa pesada e desajeitada.

Também é chamado de abismo, tanto pela vastidão quanto porque as águas que depois foram separadas da terra estavam agora misturadas com ela.

Foi dessa massa imensa de matéria que todos os corpos, até o firmamento e os próprios céus visíveis, foram depois produzidos pelo poder do Verbo Eterno.

O Criador poderia ter feito a obra perfeita já de saída, mas com esse proceder gradual quis mostrar qual é, comumente, o método da sua providência e da sua graça.

Repare na descrição deste caos.

(1.) Não havia nele nada que fosse desejável de se ver, porque estava sem forma e vazio. Tohu e Bohu, confusão e vacuidade; é assim que estas palavras aparecem em Isaías 34:11.

Estava sem forma, sem utilidade, sem habitantes, sem ornamentos: a sombra ou o rascunho das coisas por vir, e não a imagem das coisas, Hebreus 10:1.

A terra está quase reduzida à mesma condição outra vez pelo pecado do homem, debaixo do qual a criação geme. Veja Jeremias 4:23: “Olhei para a terra, e eis que estava sem forma e vazia.”

Para quem tem o coração no céu, este mundo de baixo, comparado com aquele de cima, ainda parece não ser nada além de confusão e vacuidade.

Não há beleza verdadeira para se ver, nem plenitude que satisfaça para se desfrutar, nesta terra, mas somente em Deus.

(2.) E ainda que houvesse algo desejável de se ver, não havia luz para vê-lo; porque trevas, densas trevas, estavam sobre a face do abismo.

Deus não criou estas trevas, como se diz que cria as trevas da aflição, Isaías 45:7. Elas eram apenas a falta de luz, falta que nem se podia dizer que existisse antes de haver algo que pudesse ser visto por ela.

Nem é preciso lamentar muito essa falta, quando não havia nada para ver senão confusão e vacuidade.

Se a obra da graça na alma é uma nova criação, este caos representa o estado de uma alma sem regeneração e sem graça: há desordem, confusão e toda obra má.

Ela está vazia de todo bem, porque está sem Deus; é escura, é a própria escuridão. Esta é a nossa condição por natureza, até que a graça todo-poderosa produza uma mudança abençoada.

  1. O Espírito de Deus foi o primeiro motor: ele se movia sobre a face das águas.

Quando consideramos a terra sem forma e vazia, ela me parece o vale cheio de ossos secos e mortos. Podem estes viver? Pode esta massa confusa de matéria ser formada num mundo belo?

Pode, se um espírito de vida vindo de Deus entrar nela, Ezequiel 37:9.

Agora há esperança quanto a isto, porque o Espírito de Deus começa a trabalhar; e, se ele trabalha, quem ou o que há de impedir?

Diz-se que Deus fez o mundo pelo seu Espírito, Salmos 33:6; Jó 26:13; e é pelo mesmo poderoso operário que a nova criação se realiza.

Ele se movia sobre a face do abismo, como Elias se estendeu sobre a criança morta; como a galinha ajunta os pintinhos debaixo das asas e paira sobre eles para aquecê-los e cuidar deles, Mateus 23:37; como a águia agita o ninho e esvoaça sobre os filhotes, que é a mesma palavra usada aqui, Deuteronômio 32:11.

Aprenda daqui que Deus não é só o autor de todo ser, mas também a fonte da vida e a nascente do movimento. A matéria morta ficaria morta para sempre se ele não a vivificasse.

E isto torna crível para nós que Deus há de ressuscitar os mortos.

Aquele poder que tirou um mundo como este da confusão, da vacuidade e das trevas, no princípio do tempo, pode, no fim do tempo, tirar da sepultura os nossos corpos vis, ainda que ela seja “terra de escuridão como a própria escuridão, e sem nenhuma ordem”, Jó 10:22, e fazer deles corpos gloriosos.

Versículos 3 a 5

A Criação. (a.C. 4004.)

Temos aqui um relato mais detalhado da obra do primeiro dia. Nela, repare:

  1. Que o primeiro de todos os seres visíveis que Deus criou foi a luz. Não para que por ela ele mesmo pudesse ver para trabalhar (porque as trevas e a luz são ambas iguais para ele), mas para que por ela nós víssemos as obras dele e a glória dele nelas, e fizéssemos as nossas obras enquanto é dia.

As obras de Satanás e dos seus servos são obras de trevas; mas quem pratica a verdade e faz o bem vem para a luz e a deseja, para que as suas obras se manifestem, João 3:21.

A luz é a grande beleza e a grande bênção do universo. Como o primogênito, ela é, de todos os seres visíveis, o que mais se parece com o seu grande Pai em pureza e poder, brilho e bondade.

Tem grande afinidade com um espírito, e vem logo depois dele. Ainda que por ela vejamos as outras coisas, e tenhamos certeza de que ela existe, não conhecemos a sua natureza, nem sabemos descrever o que ela é, nem por que caminho a luz se reparte, Jó 38:19, 24.

Que a vista dela nos conduza e nos ajude na contemplação crente daquele que é luz, luz infinita e eterna (1 João 1:5), o Pai das luzes (Tiago 1:17), e que habita em luz inacessível, 1 Timóteo 6:16.

Na nova criação, a primeira coisa produzida na alma é luz: o bendito Espírito cativa a vontade e os afetos iluminando o entendimento, e entra assim no coração pela porta, como o bom pastor de quem as ovelhas são.

O pecado e Satanás, porém, como ladrões e salteadores, sobem por outra parte. Os que pelo pecado eram trevas, pela graça se tornam luz no mundo.

  1. Que a luz foi feita pela palavra do poder de Deus. Ele disse: “Haja luz”; ele quis e ordenou, e no mesmo instante estava feito: houve luz, uma cópia que correspondia exatamente à ideia original na Mente Eterna.

Que poder tem a palavra de Deus! Ele falou, e foi feito — feito de verdade, com eficácia e para sempre, não só na aparência e para servir a uma ocasião passageira, porque ele mandou, e tudo se firmou.

Com ele era dictum, factum — uma palavra, e um mundo. A palavra de Deus (isto é, a vontade dele e o beneplácito dessa vontade) é viva e eficaz.

Cristo é o Verbo, o Verbo essencial e eterno, e por ele a luz foi produzida, porque nele estava a luz, e ele é a luz verdadeira, a luz do mundo, João 1:9; 9:5.

A luz divina que brilha nas almas santificadas vem do poder de Deus, do poder da sua palavra e do Espírito de sabedoria e revelação, que abre o entendimento, dispersa as névoas da ignorância e do engano e dá o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo, como no princípio Deus mandou que a luz brilhasse das trevas, 2 Coríntios 4:6.

As trevas estariam para sempre sobre a face do homem caído se o Filho de Deus não tivesse vindo e nos dado entendimento, 1 João 5:20.

  1. Que a luz que Deus quis, depois de produzida, ele aprovou: Deus viu que a luz era boa. Estava exatamente como ele a projetara, e servia bem ao fim para o qual a projetou.

Era útil e proveitosa; o mundo, que agora é um palácio, teria sido uma masmorra sem ela. Era amável e agradável.

“Na verdade, a luz é doce” (Eclesiastes 11:7); ela alegra o coração, Provérbios 15:30.

O que Deus manda, ele aprova e aceita de bom grado; ele se agrada da obra das suas próprias mãos. Bom de verdade é o que é bom aos olhos de Deus, porque ele não vê como o homem vê.

Se a luz é boa, quão bom é aquele que é a fonte da luz, de quem a recebemos, e a quem devemos todo o louvor por ela e todos os serviços que por ela fazemos!

  1. Que Deus separou a luz das trevas, pondo-as tão apartadas que nunca poderiam se juntar nem se reconciliar; pois que comunhão tem a luz com as trevas? 2 Coríntios 6:14.

E ainda assim ele repartiu o tempo entre elas: o dia para a luz e a noite para as trevas, numa sucessão constante e regular de uma para a outra.

Embora as trevas agora tenham sido dispersas pela luz, não foram condenadas a um banimento perpétuo. Elas se revezam com a luz e têm o seu lugar, porque têm a sua utilidade.

Assim como a luz da manhã favorece o trabalho do dia, também as sombras da tarde favorecem o repouso da noite e correm as cortinas ao nosso redor, para que durmamos melhor. Veja Jó 7:2.

Deus repartiu assim o tempo entre a luz e as trevas porque quer nos lembrar todo dia de que este é um mundo de misturas e mudanças.

No céu há luz perfeita e perpétua, e treva nenhuma; no inferno, trevas totais, e nenhum raio de luz. Naquele mundo, entre esses dois há um grande abismo fixado.

Mas neste mundo eles se alternam, e passamos diariamente de um para o outro, para que aprendamos a esperar as mesmas alternâncias na providência de Deus: paz e aflição, alegria e tristeza.

Que ponhamos uma diante da outra, acomodando-nos às duas como nos acomodamos à luz e às trevas, dando boas-vindas às duas e tirando o melhor de ambas.

  1. Que Deus as separou uma da outra por nomes distintos: ele chamou à luz dia, e às trevas chamou noite.

Ele lhes deu nomes, como Senhor de ambas; porque o dia é dele, a noite também é dele, Salmos 74:16.

Ele é o Senhor do tempo, e há de sê-lo até que o dia e a noite cheguem ao fim, e a corrente do tempo seja engolida no oceano da eternidade.

Reconheçamos Deus na sucessão constante do dia e da noite, e consagremos os dois à honra dele: trabalhando para ele todo dia, descansando nele toda noite, e meditando na sua lei de dia e de noite.

  1. Que esta foi a obra do primeiro dia, e boa obra de um dia ela foi. A tarde e a manhã foram o primeiro dia.

As trevas da tarde vieram antes da luz da manhã, para servirem de fundo a ela, realçá-la e fazê-la brilhar mais.

Este não foi só o primeiro dia do mundo, mas o primeiro dia da semana. Eu observo isso para a honra desse dia, porque o mundo novo também começou no primeiro dia da semana, na ressurreição de Cristo, como a luz do mundo, de manhã cedo.

Nele a aurora do alto visitou o mundo; e felizes somos, felizes para sempre, se essa estrela da alva nascer nos nossos corações.

Versículos 6 a 8

A Criação. (a.C. 4004.)

Temos aqui o relato da obra do segundo dia, a criação do firmamento. Nela, repare:

  1. A ordem de Deus a respeito dele: “Haja um firmamento” — uma expansão, é isso que a palavra hebraica significa, como um lençol estendido ou uma cortina puxada.

Isso inclui tudo o que é visível acima da terra, entre ela e o terceiro céu: o ar, nas suas regiões superior, média e inferior; o globo celeste e todas as esferas e orbes de luz lá de cima.

Chega tão alto quanto o lugar onde as estrelas estão fixadas, porque esse lugar é chamado aqui de firmamento do céu (v. 14, 15), e tão baixo quanto o lugar onde as aves voam, porque esse também é chamado de firmamento do céu, v. 20.

Quando Deus fez a luz, designou o ar para ser o receptáculo e o veículo dos seus raios, e para servir de meio de comunicação entre o mundo invisível e o visível.

Porque, embora entre o céu e a terra haja uma distância inconcebível, não há um abismo intransponível, como há entre o céu e o inferno.

Este firmamento não é um muro de separação, e sim um caminho de intercâmbio. Veja Jó 26:7; 37:18; Salmos 104:3; Amós 9:6.

  1. A criação dele. Para que não parecesse que Deus apenas mandou que fosse feito e outro alguém o fez, ele acrescenta: “E Deus fez o firmamento.”

O que Deus exige de nós, ele mesmo opera em nós, ou não se faz. Aquele que ordena fé, santidade e amor cria essas coisas pelo poder da sua graça que acompanha a sua palavra, para que toda a honra seja dele. “Senhor, dá o que ordenas, e depois ordena o que quiseres.”

Diz-se que o firmamento é obra dos dedos de Deus, Salmos 8:3. Ainda que a imensidão da sua extensão o declare obra do seu braço estendido, a admirável finura da sua constituição mostra que é uma peça primorosa de arte, obra dos seus dedos.

  1. O uso e o propósito dele: dividir as águas das águas, isto é, distinguir entre as águas que estão embrulhadas nas nuvens e as que cobrem o mar; as águas do ar e as da terra.

Veja a diferença entre as duas cuidadosamente observada em Deuteronômio 11:10, 11, onde Canaã é preferida ao Egito exatamente por isto: o Egito era umedecido e tornado fértil com as águas que estão debaixo do firmamento, mas Canaã com águas do alto, saídas do firmamento, o próprio orvalho do céu, que não espera pelos filhos dos homens, Miquéias 5:7.

Deus tem, no firmamento do seu poder, câmaras, câmaras de depósito, de onde ele rega a terra, Salmos 104:13; 65:9, 10. Tem também tesouros, ou arsenais, de neve e de granizo, que reservou para o dia da batalha e da guerra, Jó 38:22, 23.

Que Deus grande é ele, que assim proveu para o consolo de todos os que o servem e para a confusão de todos os que o odeiam! É bom tê-lo por amigo, e ruim tê-lo por inimigo.

  1. O nome dado a ele: ele chamou o firmamento de céu. É o céu visível, o pavimento da cidade santa. Acima do firmamento diz-se que Deus tem o seu trono (Ezequiel 1:26), porque ele o preparou nos céus; por isso se diz que os céus dominam, Daniel 4:26.

“Não está Deus na altura do céu?” Jó 22:12. Sim, está. E devíamos ser levados pela contemplação dos céus que temos diante dos olhos a considerar o nosso Pai que está no céu.

A altura dos céus deve nos lembrar da supremacia de Deus e da distância infinita que há entre nós e ele. O brilho e a pureza dos céus devem nos lembrar da sua glória, da sua majestade e da sua perfeita santidade.

A vastidão dos céus, o modo como envolvem a terra e a influência que exercem sobre ela devem nos lembrar da sua imensidade e da sua providência universal.

Versículos 9 a 13

A Criação. (a.C. 4004.)

O trabalho do terceiro dia está relatado nestes versículos: a formação do mar e da terra seca, e o tornar fértil a terra.

Até aqui o poder do Criador tinha se exercido e se ocupado da parte de cima do mundo visível; a luz do céu foi acesa, e o firmamento do céu, fixado.

Mas agora ele desce a este mundo de baixo, a terra, que foi destinada aos filhos dos homens, destinada tanto à habitação deles quanto ao sustento deles.

E aqui temos o relato de como ela foi ajustada para as duas coisas: o levantar da casa deles e o pôr da mesa deles. Repare:

I. Como a terra foi preparada para ser habitação do homem, pelo ajuntamento das águas e pelo aparecimento da terra seca.

No lugar da confusão que havia (v. 2), quando terra e água estavam misturadas numa grande massa, veja agora: há ordem, por uma separação que tornou as duas úteis. Deus disse: Que assim seja; e assim foi. Mal foi dito, já estava feito.

  1. As águas que cobriam a terra receberam ordem de se retirar e de se ajuntar num só lugar: aquelas cavidades que foram preparadas e destinadas para recebê-las e para o repouso delas.

A essas águas, assim escoadas, assim recolhidas e assim alojadas no lugar próprio, ele chamou mares.

Ainda que sejam muitos, em regiões distantes, e banhem praias diversas, eles têm comunicação uns com os outros, seja acima do solo, seja debaixo dele; e assim são um só, o receptáculo comum das águas, para onde correm todos os rios, Eclesiastes 1:7.

Águas e mares, muitas vezes na Escritura, significam tribulações e aflições, Salmos 42:7; 69:2, 14, 15.

O próprio povo de Deus não está isento delas neste mundo; mas é consolo deles que sejam apenas águas debaixo do céu (no céu não há nenhuma), e que estejam todas no lugar que Deus lhes marcou e dentro dos limites que ele lhes pôs.

Como as águas foram ajuntadas no princípio, e como continuam presas e limitadas pela mesma mão todo-poderosa que primeiro as confinou, está descrito com elegância em Salmos 104:6-9, e ali é apresentado como matéria de louvor.

Os que descem ao mar em navios devem reconhecer todos os dias a sabedoria, o poder e a bondade do Criador, ao tornar as grandes águas úteis ao homem para o negócio e o comércio.

E os que ficam em casa precisam se reconhecer devedores àquele que guarda o mar com trancas e portas no lugar que lhe decretou, e detém as suas ondas soberbas, Jó 38:10, 11.

  1. A terra seca foi feita aparecer e emergir das águas, e foi chamada terra, e dada aos filhos dos homens.

A terra, ao que parece, já existia antes; mas não servia para nada, porque estava debaixo d'água.

Assim muitos dons de Deus são recebidos em vão, porque estão enterrados; faça-os aparecer, e eles se tornam úteis.

Nós, que até hoje desfrutamos o benefício da terra seca (ainda que, depois disto, ela tenha sido uma vez inundada e outra vez enxugada), precisamos nos reconhecer inquilinos e dependentes daquele Deus cujas mãos formaram a terra seca, Salmos 95:5; Jonas 1:9.

II. Como a terra foi abastecida para o sustento e o amparo do homem, v. 11, 12.

O provimento presente foi feito agora pelos produtos imediatos da terra recém-surgida, que, obedecendo à ordem de Deus, mal foi feita já ficou fértil e produziu erva para o gado e planta para o serviço do homem.

Também se fez provisão para o tempo por vir, pela perpetuação das várias espécies de vegetais, que são numerosas, variadas e todas primorosas, cada uma tendo em si a sua semente conforme a sua espécie.

Assim, enquanto o homem durasse sobre a terra, o alimento poderia ser tirado da terra para o uso e o proveito dele.

Senhor, que é o homem, para que assim seja visitado e considerado? Para que se tenha tanto cuidado, e se faça tanta provisão, para o sustento e a preservação daquelas vidas culpadas e expostas à pena, que mil vezes já perderam o direito de ser preservadas! Repare aqui:

  1. Que não só a terra é do Senhor, mas também a plenitude dela; e ele é o dono legítimo e o soberano dispensador, não só dela, mas de toda a sua mobília.

A terra era vacuidade (v. 2), mas agora, por uma palavra dita, ficou cheia das riquezas de Deus, e dele elas continuam sendo: o trigo dele e o vinho dele, a lã dele e o linho dele, Oseias 2:9.

Ainda que o uso delas nos seja permitido, a propriedade continua sendo dele, e é para o serviço e a honra dele que devem ser usadas.

  1. Que a providência comum é uma criação continuada, e nela o nosso Pai trabalha até agora.

A terra ainda permanece sob a eficácia desta ordem: produzir erva, plantas e os seus frutos de cada ano.

E ainda que, por seguirem o curso comum da natureza, esses frutos não sejam milagres permanentes, eles são exemplos permanentes do poder incansável e da bondade inesgotável do grande Autor e Senhor do mundo.

  1. Que, embora Deus ordinariamente se sirva da ação das causas segundas, conforme a natureza delas, ele nem precisa delas nem está preso a elas.

Porque, ainda que os frutos preciosos da terra sejam normalmente produzidos pelas influências do sol e da lua (Deuteronômio 33:14), aqui encontramos a terra dando grande abundância de fruto, e provavelmente fruto maduro, antes que o sol e a lua fossem feitos.

  1. Que é bom preparar as coisas necessárias antes de termos ocasião de usá-las: antes que os animais e o homem fossem feitos, já havia aqui erva e plantas preparadas para eles.

Deus tratou o homem assim, com sabedoria e com graça; que o homem, então, não seja tolo e sem juízo consigo mesmo.

  1. Que Deus deve ter a glória de todo benefício que recebemos dos produtos da terra, seja para alimento, seja para remédio.

É ele que ouve os céus quando eles ouvem a terra, Oseias 2:21, 22. E se temos, pela graça, parte naquele que é a fonte, quando as correntes secarem e a figueira não florescer, poderemos nos alegrar nele.

Versículos 14 a 19

A Criação. (a.C. 4004.)

Esta é a história da obra do quarto dia: a criação do sol, da lua e das estrelas. Eles são tratados aqui não como são em si mesmos e na sua própria natureza, para satisfazer o curioso, mas como estão em relação a esta terra, à qual servem de luzes.

E isso já basta para nos fornecer matéria de louvor e ação de graças. O santo Jó menciona isto como exemplo do poder glorioso de Deus: que pelo seu Espírito ele adornou os céus (Jó 26:13).

Aqui temos o relato desse adorno, que não é só a beleza do mundo de cima, mas também a bênção deste mundo de baixo; porque, ainda que o céu seja alto, ele tem consideração por esta terra, e por isso deve receber consideração dela. Da criação das luzes do céu temos este relato:

I. Em geral, v. 14, 15, onde temos:

  1. A ordem dada a respeito delas: “Haja luzeiros no firmamento do céu.” Deus tinha dito: “Haja luz” (v. 3), e “houve luz”; mas aquilo era, por assim dizer, um caos de luz, espalhada e confusa.

Agora ela foi recolhida e moldada, e feita em vários luzeiros, e assim tornada ao mesmo tempo mais gloriosa e mais útil. Deus é o Deus da ordem, e não da confusão; e, assim como ele é luz, também é o Pai e o formador das luzes.

Aqueles luzeiros deviam estar no firmamento do céu, aquela vasta extensão que envolve a terra e está à vista de todos; porque ninguém, tendo acendido uma vela, a põe debaixo do alqueire, e sim no velador (Lucas 8:16).

E o firmamento do céu é um velador de ouro imponente, do qual estas velas dão luz a todos os que estão na casa. Fala-se do próprio firmamento como tendo um brilho seu (Daniel 12:3), mas isso não bastava para dar luz à terra.

Talvez seja por essa razão que não se diz expressamente da obra do segundo dia, em que o firmamento foi feito, que era boa: porque, até ser enfeitado com estas luzes no quarto dia, ele não tinha se tornado útil ao homem.

  1. O uso que deviam ter para esta terra:

(1.) Devem servir para distinguir os tempos, o dia e a noite, o verão e o inverno, que se alternam pelo movimento do sol: o nascer dele faz o dia, o pôr dele faz a noite, a aproximação em direção ao nosso trópico faz o verão, o afastamento para o outro faz o inverno.

E assim, debaixo do sol, há um tempo para cada propósito, Eclesiastes 3:1.

(2.) Devem servir para dirigir as ações. São sinais da mudança do tempo, para que o lavrador conduza os seus negócios com discernimento, prevendo pelo aspecto do céu, quando as causas segundas já começaram a agir, se vai fazer bom ou mau tempo, Mateus 16:2, 3.

Também dão luz sobre a terra, para que andemos (João 11:9) e trabalhemos (João 9:4), conforme o dever de cada dia exige.

As luzes do céu não brilham para si mesmas, nem para o mundo dos espíritos lá de cima, que não precisam delas; brilham para nós, para o nosso prazer e proveito. Senhor, que é o homem, para que seja assim considerado! Salmos 8:3, 4.

Quão ingratos e sem desculpa somos se, tendo Deus posto estas luzes para trabalharmos à luz delas, dormimos, brincamos ou desperdiçamos o tempo do trabalho, e descuidamos da grande obra para a qual fomos enviados ao mundo!

As luzes do céu foram feitas para nos servir, e o fazem com fidelidade, e brilham na sua estação, sem falhar; mas nós fomos postos como luzes neste mundo para servir a Deus, e será que respondemos da mesma forma ao fim da nossa criação?

Não, não respondemos: a nossa luz não brilha diante de Deus como as luzes dele brilham diante de nós, Mateus 5:14. Queimamos as velas do nosso Mestre, mas não damos atenção à obra do nosso Mestre.

II. Em particular, vv. 16-18.

  1. Observe: as luzes do céu são o sol, a lua e as estrelas; e todas elas são obra das mãos de Deus.

(1.) O sol é a maior luz de todas, mais de um milhão de vezes maior que a terra, e a mais gloriosa e útil de todas as lâmpadas do céu, exemplo nobre da sabedoria, do poder e da bondade do Criador, e bênção inestimável para as criaturas deste mundo de baixo.

Aprendamos em Salmos 19:1-6 como dar a Deus a glória devida ao seu nome, como Criador do sol.

(2.) A lua é uma luz menor, e ainda assim é contada aqui entre as grandes luzes; porque, embora em tamanho e em luz emprestada seja inferior a muitas das estrelas, pelo seu ofício de governar a noite e pela sua utilidade à terra ela é mais excelente que elas.

Mais valiosos são os que mais servem; e são luzes maiores não os que têm os melhores dons, mas os que, com humildade e fidelidade, fazem o maior bem com eles. “Qualquer que entre vós quiser ser grande, seja o vosso ministro”, Mateus 20:26.

(3.) Ele fez também as estrelas, das quais se fala aqui como elas aparecem aos olhos comuns, sem distinguir entre os planetas e as estrelas fixas, nem dar conta do número, da natureza, do lugar, do tamanho, dos movimentos ou das influências delas.

Porque as Escrituras foram escritas não para satisfazer a nossa curiosidade e fazer de nós astrônomos, mas para nos levar a Deus e fazer de nós santos.

Agora, diz-se que estas luzes governam (v. 16, 18); não que tenham domínio supremo, como Deus tem, mas são governantes delegados, que governam debaixo dele.

Aqui se diz que a luz menor, a lua, governa a noite; mas em Salmos 136:9 as estrelas são mencionadas como participantes desse governo: “A lua e as estrelas para governarem à noite.”

Não se quer dizer mais do que isto: que elas dão luz, Jeremias 31:35. O modo melhor e mais honroso de governar é dando luz e fazendo o bem: merecem respeito os que vivem uma vida útil e assim brilham como luzes.

  1. Aprenda de tudo isto:

(1.) O pecado e a loucura daquela antiga idolatria, o culto ao sol, à lua e às estrelas, que, no entender de alguns, teve origem, ou pelo menos apoio, em algumas tradições truncadas da era patriarcal a respeito do governo e do domínio das luzes do céu.

Mas o relato que se dá aqui delas mostra claramente que são ao mesmo tempo criaturas de Deus e servas do homem; e por isso é ao mesmo tempo uma grande afronta a Deus e uma grande vergonha para nós fazer delas divindades e prestar-lhes honras divinas. Veja Deuteronômio 4:19.

(2.) O dever e a sabedoria de adorar todo dia aquele Deus que fez todas estas coisas, e as fez para serem para nós o que são.

O revezamento do dia e da noite nos obriga a oferecer o sacrifício solene de oração e louvor toda manhã e toda tarde.

Versículos 20 a 23

A Criação. (a.C. 4004.)

Cada dia, até aqui, produziu seres nobilíssimos e excelentes, que nunca poderemos admirar o bastante; mas não lemos da criação de nenhuma criatura viva até o quinto dia, do qual estes versículos nos dão conta.

A obra da criação não só avançou aos poucos de uma coisa para outra, como subiu e progrediu aos poucos do que era menos excelente para o que era mais, ensinando-nos a avançar rumo à perfeição e a procurar que as nossas últimas obras sejam as nossas melhores obras.

Foi no quinto dia que os peixes e as aves foram criados, e uns e outros a partir das águas.

Embora haja uma carne de peixes e outra de aves, ainda assim foram feitos juntos, e uns e outros a partir das águas; porque o poder da primeira Causa pode produzir efeitos muito diferentes a partir das mesmas causas segundas.

Repare: 1. A feitura dos peixes e das aves, no princípio, v. 20, 21. Deus mandou que fossem produzidos.

Ele disse: “Produzam as águas abundantemente”; não como se as águas tivessem algum poder produtivo próprio, mas: sejam trazidos ao ser os peixes nas águas e as aves fora delas. Esta ordem ele mesmo executou: “Deus criou as grandes baleias”, etc.

Os insetos, que talvez sejam tão variados e tão numerosos quanto qualquer espécie de animal, e cuja estrutura é igualmente primorosa, fizeram parte do trabalho deste dia; alguns deles aparentados com os peixes e outros com as aves.

O sr. Boyle (se me lembro bem) diz que admira a sabedoria e o poder do Criador tanto numa formiga quanto num elefante.

Nota-se aqui a variedade de tipos de peixes e de aves, cada um segundo a sua espécie, e o grande número de uns e de outros que foram produzidos, porque as águas produziram abundantemente.

E se faz menção particular das grandes baleias, os maiores peixes, cujo volume e cuja força, superiores aos de qualquer outro animal, são provas notáveis do poder e da grandeza do Criador.

A nota expressa que aqui se faz da baleia, acima de todos os demais, parece bastante para determinar que animal se entende pelo Leviatã, Jó 41:1.

A formação primorosa dos corpos dos animais, seus diferentes tamanhos, formas e naturezas, e os poderes admiráveis da vida sensitiva de que estão dotados, quando devidamente considerados, servem não só para calar e envergonhar as objeções dos ateus e dos incrédulos, mas também para despertar altos pensamentos e louvores a Deus em almas piedosas e devotas, Salmos 104:25, etc.

  1. A bênção sobre eles, para que continuassem. A vida é coisa que se gasta. A sua força não é a força das pedras.

É uma vela que vai queimar até o fim, se não for apagada antes; e por isso o sábio Criador não só fez os indivíduos, como também proveu a propagação de cada espécie. Deus os abençoou, dizendo: “Frutificai e multiplicai-vos”, v. 22.

Deus abençoará as suas próprias obras e não as abandonará; e o que ele faz será para sempre, Eclesiastes 3:14.

O poder da providência de Deus conserva todas as coisas, assim como no princípio o seu poder criador as produziu.

A fecundidade é efeito da bênção de Deus e a ela deve ser atribuída; a multiplicação dos peixes e das aves, de ano em ano, ainda é fruto desta bênção.

Pois bem, demos a Deus a glória pela continuação destas criaturas até hoje, para o benefício do homem. Veja Jó 12:7, 9.

É uma pena que a pesca e a caça de aves, recreações inocentes em si mesmas, sejam alguma vez abusadas para afastar alguém de Deus e do seu dever, quando poderiam ser aproveitadas para nos levar à contemplação da sabedoria, do poder e da bondade daquele que fez todas estas coisas, e para nos fazer temê-lo, como os peixes e as aves temem a nós.

Versículos 24 a 25

A Criação. (a.C. 4004.)

Temos aqui a primeira parte da obra do sexto dia. O mar tinha sido povoado no dia anterior com os seus peixes, e o ar com as suas aves; e neste dia foram feitos os animais da terra, o gado e os animais rastejantes que pertencem à terra. Aqui, como antes:

  1. O Senhor deu a palavra; ele disse: “Produza a terra.” Não como se a terra tivesse alguma virtude fecunda a ponto de produzir esses animais, ou como se Deus lhe entregasse o seu poder criador, mas: que estas criaturas venham agora à existência sobre a terra, e a partir dela, cada uma na sua espécie, conforme as ideias delas nos conselhos divinos a respeito da sua criação.

  2. Ele também fez a obra; fez todos eles segundo a sua espécie, não só de formas diversas, mas de naturezas, hábitos, alimentos e feitios diversos.

Uns para serem mansos dentro de casa, outros para serem selvagens no campo; uns vivendo de capim e ervas, outros de carne; uns inofensivos, outros vorazes; uns audazes, outros medrosos.

Uns para o serviço do homem e não para o seu sustento, como o cavalo; outros para o seu sustento e não para o seu serviço, como a ovelha; outros para os dois, como o boi; e uns para nenhum dos dois, como os animais selvagens. Em tudo isso aparece a multiforme sabedoria do Criador.

Versículos 26 a 28

A Criação. (a.C. 4004.)

Temos aqui a segunda parte da obra do sexto dia: a criação do homem, que nos interessa de modo especial observar, para que conheçamos a nós mesmos. Repare:

I. O homem foi feito por último de todas as criaturas, para que não se pudesse suspeitar que ele tivesse sido, de algum modo, ajudante de Deus na criação do mundo.

Aquela pergunta deve humilhá-lo e mortificá-lo para sempre: onde você estava, ou alguém da sua espécie, quando eu lançava os fundamentos da terra? Jó 38:4.

Ainda assim, foi ao mesmo tempo honra e favor ter sido feito por último: honra, porque o método da criação foi avançar do menos perfeito para o mais perfeito; e favor, porque não convinha que fosse alojado no palácio destinado a ele antes que estivesse completamente preparado e mobiliado para recebê-lo.

O homem, assim que foi feito, tinha diante de si toda a criação visível, para contemplá-la e para tirar dela o seu conforto.

O homem foi feito no mesmo dia em que os animais, porque o seu corpo foi feito da mesma terra que o deles; e, enquanto está no corpo, habita a mesma terra que eles.

Deus nos livre de, cedendo ao corpo e aos seus desejos, nos fazermos semelhantes aos animais que perecem!

II. A criação do homem foi um ato mais notável e mais imediato da sabedoria e do poder divinos do que a das outras criaturas.

O relato dela é introduzido com certa solenidade e com uma distinção evidente em relação ao resto. Até aqui se dissera: “Haja luz”, e “Haja um firmamento”, e “Produza a terra, ou as águas”, tal e tal coisa.

Mas agora a palavra de comando se transforma em palavra de consulta: “Façamos o homem, por causa de quem as demais criaturas foram feitas: esta é uma obra que precisamos tomar nas nossas próprias mãos.”

Nas primeiras ele fala como quem tem autoridade; nesta, como quem tem afeto, pois as suas delícias estavam com os filhos dos homens, Provérbios 8:31.

Parece que esta era a obra pela qual ele ansiava, como se dissesse: “Tendo enfim acertado os preliminares, vamos agora ao trabalho. Façamos o homem.”

O homem seria uma criatura diferente de tudo o que fora feito até então. Carne e espírito, céu e terra, precisavam ser postos juntos nele, e ele precisava ter parentesco com os dois mundos.

Por isso Deus mesmo não só se encarrega de fazê-lo, como se agrada de falar como se convocasse um conselho para deliberar sobre a feitura dele: “Façamos o homem.”

As três pessoas da Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — consultam-se sobre isso e concordam nisso, porque o homem, quando foi feito, seria dedicado e consagrado ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

É nesse grande nome que somos batizados, e com boa razão, pois a esse grande nome devemos o nosso ser. Que governe o homem aquele que disse: “Façamos o homem.”

III. O homem foi feito à imagem de Deus e conforme a sua semelhança: duas palavras para dizer a mesma coisa, cada uma tornando a outra mais expressiva.

Imagem e semelhança indicam a imagem mais parecida, a semelhança mais próxima que há em qualquer das criaturas visíveis.

O homem não foi feito à semelhança de nenhuma criatura que veio antes dele, mas à semelhança do seu Criador; e ainda assim, entre Deus e o homem há uma distância infinita.

Só Cristo é a imagem expressa da pessoa de Deus, como Filho do seu Pai, tendo a mesma natureza. É apenas algo da honra de Deus que se põe sobre o homem, que é imagem de Deus somente como a sombra no espelho, ou como o cunho do rei na moeda.

A imagem de Deus no homem consiste nestas três coisas:

  1. Na sua natureza e constituição — não as do corpo (porque Deus não tem corpo), mas as da alma.

Esta honra Deus de fato pôs sobre o corpo do homem: que o Verbo se fez carne, que o Filho de Deus foi revestido de um corpo como o nosso e em breve revestirá o nosso de uma glória como a dele.

E isto podemos dizer com segurança: aquele por quem Deus fez os mundos — não só o grande mundo, mas o homem, o pequeno mundo — formou o corpo humano, no princípio, conforme o modelo que destinava para si mesmo na plenitude dos tempos.

Mas é a alma, a grande alma do homem, que traz de modo especial a imagem de Deus. A alma é um espírito: espírito inteligente e imortal, espírito ativo e influente, semelhante nisso a Deus, o Pai dos espíritos e a alma do mundo.

O espírito do homem é a lâmpada do Senhor. A alma do homem, considerada nas suas três faculdades nobres — entendimento, vontade e poder de agir —, é talvez o espelho mais claro e mais brilhante que há na natureza para nele ver a Deus.

  1. No seu lugar e na sua autoridade: Façamos o homem à nossa imagem, e domine ele.

Como tem o governo das criaturas inferiores, ele é, por assim dizer, o representante de Deus, ou o seu vice-rei, sobre a terra; elas não são capazes de temer e servir a Deus, e por isso Deus as destinou a temer e servir ao homem.

Ainda assim, o governo que ele exerce sobre si mesmo pela liberdade da vontade tem mais da imagem de Deus do que o governo que exerce sobre as criaturas.

  1. Na sua pureza e retidão. A imagem de Deus no homem consiste em conhecimento, justiça e verdadeira santidade, Efésios 4:24; Colossenses 3:10. Ele era reto, Eclesiastes 7:29.

Ele tinha uma conformidade habitual de todas as suas forças naturais com toda a vontade de Deus. O seu entendimento via as coisas divinas com clareza e com verdade, e não havia erro nem engano no seu conhecimento.

A sua vontade se conformava pronta e inteiramente à vontade de Deus, sem relutância nem resistência. Os seus afetos eram todos regulados, e ele não tinha apetites nem paixões desordenados.

Os seus pensamentos eram facilmente levados e fixados nos melhores assuntos, e não havia neles vaidade nem falta de domínio. Todas as forças inferiores estavam sujeitas ao mando e à direção das superiores, sem nenhum motim nem revolta.

Assim santos, assim felizes eram os nossos primeiros pais, por terem sobre si a imagem de Deus.

E esta honra, posta sobre o homem no princípio, é boa razão para que não falemos mal uns dos outros (Tiago 3:9) nem façamos mal uns aos outros (Gênesis 9:6), e boa razão para que não nos rebaixemos ao serviço do pecado, e para que nos entreguemos ao serviço de Deus.

Mas como você caiu, ó filho da manhã! Como está desfigurada esta imagem de Deus no homem! Como são pequenos os restos dela, e como são grandes as suas ruínas!

Que o Senhor a renove nas nossas almas pela sua graça santificadora!

IV. O homem foi feito macho e fêmea, e abençoado com a bênção da fecundidade e do aumento.

Deus disse: “Façamos o homem”, e logo em seguida se lê: “E criou Deus o homem.” Ele cumpriu o que resolvera. Entre nós, dizer e fazer são duas coisas; com Deus não é assim.

Ele o criou macho e fêmea, Adão e Eva — Adão primeiro, da terra, e Eva, do lado dele, Gênesis 2.

Parece que, das demais criaturas, Deus fez muitos casais; mas do homem não fez ele um só? (Malaquias 2:15), ainda que tivesse o resíduo do Espírito. Daí Cristo tira um argumento contra o divórcio, Mateus 19:4, 5.

O nosso primeiro pai, Adão, ficou restrito a uma só esposa; e, se a tivesse repudiado, não haveria outra com quem se casar, o que dá a entender claramente que o vínculo do casamento não devia ser dissolvido à vontade.

Os anjos não foram feitos macho e fêmea, porque não deviam propagar a sua espécie (Lucas 20:34-36); mas o homem foi feito assim, para que a natureza se propagasse e a raça continuasse.

O fogo e a vela, luminares deste mundo de baixo, porque se gastam e se apagam, têm poder de acender outros; mas não é assim com as luzes do céu: estrelas não acendem estrelas.

Deus fez apenas um macho e uma fêmea, para que todas as nações dos homens soubessem que são feitas de um só sangue, descendentes de um tronco comum, e assim fossem levadas a se amarem umas às outras.

Deus, tendo-os feito capazes de transmitir a natureza que haviam recebido, disse-lhes: “Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra.” Aqui ele lhes deu:

  1. Uma herança ampla: “Enchei a terra.” É isto que se concede aos filhos dos homens. Eles foram feitos para habitar sobre a face de toda a terra, Atos 17:26.

Este é o lugar em que Deus pôs o homem para ser o servo da sua providência no governo das criaturas inferiores e, por assim dizer, a inteligência deste orbe; para ser o recebedor da generosidade de Deus, de que as outras criaturas vivem sem o saber.

Para ser também aquele que recolhe os louvores dele neste mundo de baixo e os deposita no tesouro lá de cima (Salmos 145:10); e, por fim, para ser posto à prova para um estado melhor.

  1. Uma família numerosa e duradoura, para desfrutar dessa herança, pronunciando sobre eles uma bênção em virtude da qual a sua posteridade se estenderia aos cantos mais distantes da terra e continuaria até o último período do tempo.

A fecundidade e o aumento dependem da bênção de Deus: Obede-Edom teve oito filhos, porque Deus o abençoou, 1 Crônicas 26:5.

É a essa bênção, que Deus ordenou no princípio, que se deve o fato de a raça humana ainda existir, e de que, passando uma geração, venha outra.

V. Deus deu ao homem, depois de tê-lo feito, domínio sobre as criaturas inferiores, sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu.

Embora o homem não proveja para nenhum dos dois, tem poder sobre ambos; e muito mais sobre todo ser vivente que se move sobre a terra, que está mais sob o seu cuidado e ao seu alcance.

Deus quis com isso pôr uma honra sobre o homem, para que ele se sentisse tanto mais obrigado a levar honra ao seu Criador.

Esse domínio está muito diminuído e perdido pela queda; ainda assim, a providência de Deus conserva dele, para os filhos dos homens, o quanto é necessário à segurança e ao sustento da vida deles.

E a graça de Deus deu aos santos um título novo e melhor sobre a criatura do que aquele que se perdeu pelo pecado; porque tudo é nosso, se somos de Cristo, 1 Coríntios 3:22.

Versículos 29 a 30

A Criação. (a.C. 4004.)

Temos aqui a terceira parte da obra do sexto dia, que não foi nenhuma criação nova, mas uma provisão generosa de alimento para toda carne, Salmos 136:25.

Aquele que fez o homem e o animal cuidou assim de preservar os dois, Salmos 36:6. Aqui está:

I. Alimento provido para o homem, v. 29. Ervas e frutos deviam ser o seu alimento, incluindo o cereal e todos os produtos da terra; isso lhe foi concedido, mas (ao que parece) não a carne, até depois do dilúvio, Gênesis 9:3.

E antes que a terra fosse inundada, e muito mais antes que fosse amaldiçoada por causa do homem, os frutos dela sem dúvida eram mais agradáveis ao paladar e mais fortificantes e nutritivos para o corpo do que hoje são o tutano e a gordura, bem como toda a porção da comida do rei.

Repare aqui: 1. No que deve nos deixar humildes. Assim como fomos feitos da terra, também somos sustentados por ela.

Houve mesmo um tempo em que os homens comeram o alimento dos anjos, pão do céu; mas morreram (João 6:49); para eles aquilo não passou de alimento tirado da terra, Salmos 104:14.

Há um alimento que permanece para a vida eterna; Senhor, dê-nos sempre desse alimento.

  1. No que deve nos deixar gratos. O Senhor é para o corpo; dele recebemos todo o sustento e todo o consolo desta vida, e a ele devemos dar graças.

Ele nos dá todas as coisas ricamente para que as desfrutemos, não só para a necessidade, mas com fartura, com iguarias e variedade, para ornamento e deleite.

Como somos devedores! Que cuidado devemos ter, vivendo da generosidade de Deus, de viver para a glória dele!

  1. No que deve nos deixar moderados e contentes com a nossa sorte. Ainda que Adão tivesse recebido domínio sobre os peixes e as aves, Deus o limitou, no alimento, a ervas e frutos; e ele nunca reclamou disso.

Depois ele cobiçou o fruto proibido, por causa da sabedoria e do conhecimento que prometia a si mesmo dali; mas nunca lemos que tenha cobiçado carne proibida.

Se Deus nos dá alimento para a vida, não peçamos, como o Israel que murmurava, alimento para as nossas cobiças, Salmos 78:18; veja Daniel 1:15.

II. Alimento provido para os animais, v. 30. Será que Deus tem cuidado dos bois? Sim, certamente; ele lhes provê alimento conveniente.

E não só aos bois, que serviam nos seus sacrifícios e no trabalho do homem: até os leõezinhos e os filhotes do corvo são cuidado da sua providência; eles pedem e recebem de Deus o seu alimento.

Demos a Deus a glória da sua generosidade para com as criaturas inferiores, pois todas são alimentadas, por assim dizer, à mesa dele, todos os dias.

Ele é um grande dono de casa, riquíssimo e generoso, que satisfaz o desejo de todo ser vivente.

Que isso anime o povo de Deus a lançar sobre ele o seu cuidado, e a não andar ansioso a respeito do que há de comer e do que há de beber.

Aquele que proveu para Adão sem que ele se preocupasse, e que ainda provê para todas as criaturas sem que elas se preocupem, não deixará faltar nenhum bem aos que confiam nele, Mateus 6:26.

Aquele que alimenta os seus pássaros não fará as suas criancinhas morrerem de fome.

Versículo 31

A Criação. (a.C. 4004.)

Aqui temos a aprovação e a conclusão de toda a obra da criação. Quanto a Deus, a sua obra é perfeita; e, se ele começa, também leva ao fim, na providência e na graça, tanto quanto aqui na criação. Repare:

I. A revisão que Deus fez da sua obra: ele viu tudo o que tinha feito. E assim continua fazendo: todas as obras das suas mãos estão debaixo dos seus olhos.

Quem fez tudo vê tudo; quem nos fez nos vê, Salmos 139:1-16. A onisciência não se separa da onipotência. “Conhecidas são a Deus todas as suas obras”, Atos 15:18.

Mas esta foi a reflexão solene da Mente Eterna sobre as cópias da sua própria sabedoria e os produtos do seu próprio poder.

Com isso Deus nos deu o exemplo de rever as nossas obras. Tendo nos dado um poder de reflexão, ele espera que usemos esse poder, que vejamos o nosso caminho (Jeremias 2:23) e pensemos nele, Salmos 119:59.

Quando terminamos o trabalho de um dia e entramos no descanso da noite, devemos conversar com o nosso próprio coração sobre o que fizemos naquele dia.

Da mesma forma, quando terminamos o trabalho de uma semana e entramos no descanso do sábado, devemos nos preparar assim para encontrar o nosso Deus.

E quando estamos terminando o trabalho da nossa vida e entrando no nosso descanso na sepultura, esse é o momento de trazer tudo à lembrança, para que morramos arrependidos e assim nos despeçamos dele.

II. A satisfação que Deus teve na sua obra. Quando vamos rever as nossas obras, descobrimos, para vergonha nossa, que muita coisa foi muito ruim; mas, quando Deus reviu as suas, tudo era muito bom.

Ele não a declarou boa antes de tê-la visto assim, para nos ensinar a não responder sobre um assunto antes de ouvi-lo.

A obra da criação foi uma obra muito boa. Tudo o que Deus fez foi bem feito, e não havia nele falha nem defeito.

  1. Era boa. Boa, porque tudo está de acordo com a mente do Criador, exatamente como ele queria que fosse; quando a cópia veio a ser comparada com o grande original, foi achada exata, sem nenhuma errata, sem um traço fora do lugar.

Boa, porque responde ao fim da sua criação e serve ao propósito para o qual foi projetada. Boa, porque é útil ao homem, a quem Deus tinha constituído senhor da criação visível.

Boa, porque tudo é para a glória de Deus; há em toda a criação visível algo que é demonstração do ser e das perfeições de Deus, e que tende a gerar na alma do homem um respeito religioso por ele e uma veneração por ele.

  1. Era muito boa. Da obra de cada dia (exceto o segundo) se disse que era boa, mas agora é muito boa. Porque:

(1.) Agora o homem estava feito, ele que era o principal dos caminhos de Deus, destinado a ser a imagem visível da glória do Criador e a boca da criação nos louvores dele.

(2.) Agora tudo estava feito; cada parte era boa, mas tudo junto era muito bom.

A glória e a bondade, a beleza e a harmonia das obras de Deus, tanto na providência quanto na graça, como esta da criação, vão aparecer melhor quando estiverem completas.

Quando a pedra de remate for trazida, clamaremos: “Graça, graça a ela!” Zacarias 4:7. Por isso, não julgue nada antes do tempo.

III. O tempo em que esta obra se concluiu: a tarde e a manhã foram o sexto dia; de modo que em seis dias Deus fez o mundo.

Não devemos pensar que Deus não pudesse ter feito o mundo num instante. Aquele que disse: “Haja luz”, e “houve luz”, poderia ter dito: “Haja um mundo”, e teria havido um mundo, num momento, num abrir e fechar de olhos, como na ressurreição, 1 Coríntios 15:52.

Mas ele o fez em seis dias, para se mostrar um agente livre, fazendo a sua própria obra do seu próprio jeito e no seu próprio tempo — para que a sua sabedoria, o seu poder e a sua bondade nos aparecessem e fossem meditados por nós com mais clareza.

E para nos dar o exemplo de trabalhar seis dias e descansar no sétimo; por isso esse exemplo é apresentado como a razão do quarto mandamento.

O sábado contribuiria tanto para a manutenção da religião no mundo que Deus teve os olhos nele ao marcar o tempo da sua criação.

E agora, assim como Deus reviu a sua obra, revisemos nós as nossas meditações sobre ela, e vamos achá-las muito capengas e defeituosas, e os nossos louvores baixos e sem vida.

Por isso, despertemos a nós mesmos, e a tudo o que há dentro de nós, para adorar aquele que fez o céu, a terra e o mar, e as fontes das águas, conforme o teor do evangelho eterno, que é pregado a toda nação, Apocalipse 14:6, 7.

Todas as suas obras, em todos os lugares do seu domínio, o bendizem; e, portanto, bendiga o Senhor, ó minha alma!


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