Gênesis 37
Argumento
Neste capítulo começa a história de José, que ocupa o lugar central em todos os capítulos seguintes deste livro, exceto um. Ele era o filho mais velho que Jacó teve da sua amada mulher Raquel, nascido, como muitos homens eminentes, de uma mãe que por muito tempo fora estéril.
A sua história se divide de modo tão notável entre a sua humilhação e a sua exaltação que não podemos deixar de ver nela algo de Cristo, que primeiro foi humilhado e depois exaltado, e, em muitos casos, de modo a corresponder ao tipo de José.
Ela mostra também a sorte dos cristãos, que precisam entrar no reino através de muitas tribulações. Neste capítulo temos:
I. A malícia que os seus irmãos nutriam contra ele. Eles o odiaram:
Porque ele informou ao pai a maldade deles, v. 1, 2.
Porque o pai o amava, v. 3, 4.
Porque sonhou com o seu domínio sobre eles, vv. 5-11.
II. Os males que os seus irmãos planejaram e fizeram contra ele:
A visita bondosa que ele lhes fez deu a oportunidade para isso, vv. 12-17.
Intentaram matá-lo, mas resolveram deixá-lo morrer à míngua, vv. 18-24.
Mudaram de propósito e o venderam como escravo, vv. 25-28.
Fizeram o pai acreditar que ele fora despedaçado, vv. 29-35.
Ele foi vendido para o Egito, a Potifar, v. 36. E tudo isso concorria juntamente para o bem.
Versículos 1 a 4
A História de José. (a.C. 1729.)
Moisés não tem mais nada a dizer dos edomitas, a não ser quando eles calham de atravessar o caminho de Israel; mas agora se aplica de perto à história da família de Jacó: “Estas são as gerações de Jacó.” A dele não é uma genealogia nua e estéril como a de Esaú (Gênesis 36:1), mas uma história memorável e proveitosa. Aqui está:
Jacó, peregrino junto do seu pai Isaque, que ainda vivia, v. 1. Nunca estaremos em casa até chegarmos ao céu.
José, pastor, apascentando o rebanho com os seus irmãos, v. 2. Embora fosse o predileto do pai, não foi criado na ociosidade nem no conforto excessivo.
Não amam verdadeiramente os filhos aqueles que não os acostumam a uma ocupação, ao trabalho e à abnegação. Com razão se diz que mimar demais os filhos é estragá-los. Os que são criados para nada fazer provavelmente para nada prestarão.
- José, amado pelo seu pai (v. 3), em parte por amor da sua querida mãe, que havia morrido, e em parte por amor dele mesmo, porque era o maior consolo da sua velhice.
Provavelmente ele servia ao pai e era mais atento a ele do que os demais filhos. Era “o filho do ancião”, como alguns leem; isto é, mesmo criança, mostrava a seriedade e a prudência de um homem idoso: era criança, mas não infantil.
Jacó proclamou a sua afeição por ele vestindo-o com mais esmero que os demais filhos: fez-lhe uma túnica de diversas cores, o que provavelmente era sinal de honras ulteriores que lhe estavam destinadas.
Repare: embora sejam felizes os filhos que têm em si aquilo que justamente os recomenda ao amor particular dos seus pais, ainda assim é prudência dos pais não fazer diferença entre um filho e outro, a menos que haja para isso uma causa grande e manifesta, dada pelo cumprimento ou descumprimento do dever da parte dos filhos; o governo paterno deve ser imparcial e conduzido com mão firme.
- José, odiado pelos seus irmãos:
(1.) Porque o seu pai o amava. Quando os pais fazem diferença, os filhos logo reparam nisso, e isso muitas vezes ocasiona rixas e desavenças nas famílias.
(2.) Porque ele trazia ao pai a má fama deles. Os filhos de Jacó faziam, quando estavam longe das vistas dele, o que não teriam ousado fazer se estivessem em casa com ele.
Mas José dava ao pai o relato do mau procedimento deles, para que ele os repreendesse e refreasse; não como mexeriqueiro malicioso, para semear discórdia, mas como irmão fiel, que, quando ele mesmo não ousava admoestá-los, representava as faltas deles a alguém que tinha autoridade para admoestá-los. Repare:
[1.] É comum que aqueles que nos admoestam como amigos sejam vistos como inimigos. Os que odeiam ser corrigidos odeiam aqueles que querem corrigi-los, Provérbios 9:8.
[2.] É comum que os amados de Deus sejam odiados pelo mundo; a quem o Céu abençoa, o inferno amaldiçoa. Àqueles a quem Deus fala consoladoramente, os homens ímpios não falarão pacificamente.
Diz-se aqui de José que “o rapaz estava com os filhos de Bila”; alguns leem: “e ele era servo deles” — faziam dele o seu criado de trabalhos pesados.
Versículos 5 a 11
Aqui, I. José relata os sonhos proféticos que teve, v. 6, 7, 9, 10. Embora fosse ainda muito jovem (cerca de dezessete anos), era piedoso, devoto e bem-disposto; por isso estava preparado para as revelações em que Deus, por graça, se deu a conhecer a ele.
José tinha muita tribulação diante de si, e por isso Deus lhe deu cedo esta perspectiva da sua elevação, para sustentá-lo e consolá-lo debaixo das longas e penosas tribulações com que ele devia ser exercitado. Assim Cristo teve uma alegria posta diante de si, e assim têm os cristãos.
Repare: Deus tem meios de preparar de antemão o seu povo para as provações que eles não podem prever, mas que ele tem em vista nos consolos com que os provê. Os seus sonhos foram:
Que os feixes dos seus irmãos todos se curvavam ao seu, indicando em que ocasião eles seriam levados a prestar-lhe homenagem, a saber, ao recorrerem a ele por trigo; os feixes vazios deles se curvariam ao feixe cheio dele.
Que o sol, a lua e onze estrelas lhe faziam reverência, v. 9. José era mais profeta do que calculista; do contrário, teria guardado isso para si, pois não podia deixar de saber que os irmãos já o odiavam e que isso só os exasperaria ainda mais.
Embora ele o tenha contado com simplicidade, Deus assim o dirigiu para humilhar os irmãos.
Observe: José sonhou com sua elevação, mas não com sua prisão. Assim muitos jovens, quando estão entrando no mundo, não pensam em nada além de prosperidade e prazer, e nunca sonham com tribulação.
II. Os seus irmãos levam isso muito a mal, e se enfurecem mais e mais contra ele (v. 8): “Reinarás tu deveras sobre nós?” Veja aqui:
Com quanta verdade eles interpretaram o seu sonho: que ele reinaria sobre eles. Tornam-se expositores do seu sonho aqueles que eram inimigos do cumprimento dele, como na história de Gideão (Juízes 7:13, 14); “perceberam que ele falava deles”, Mateus 21:45. O desfecho correspondeu exatamente a esta interpretação, Gênesis 42:6, etc.
Com quanto escárnio receberam o sonho: “Reinarás tu, que és apenas um, sobre nós, que somos muitos? Tu, que és o mais novo, sobre nós, que somos mais velhos?”
Repare: o reinado e o domínio de Jesus Cristo, o nosso José, foram, e são, desprezados e combatidos por um mundo carnal e incrédulo, que não pode suportar pensar que este homem reine sobre eles. Também o domínio dos retos, na manhã da ressurreição, é considerado com o máximo desdém.
III. O pai lhe dá uma branda reprimenda por isso, contudo guarda o dito, v. 10, 11. Provavelmente o censurou por isso, para diminuir a ofensa que os irmãos estariam propensos a tomar disso; contudo, reparou nisso mais do que aparentava.
Insinuou que era apenas um sonho vão, porque a mãe dele era trazida à cena, ela que já havia morrido algum tempo antes; ao passo que o sol, a lua e as onze estrelas não significam nada mais do que a família inteira que dependeria dele e teria prazer em ficar-lhe devedora.
Repare: a fé do povo de Deus nas promessas de Deus é muitas vezes duramente abalada porque eles entendem mal as promessas e então sugerem as improbabilidades que acompanham o cumprimento; mas Deus está fazendo a sua própria obra, e a fará, quer o entendamos corretamente, quer não.
Jacó, como Maria (Lucas 2:51), guardava estas coisas no coração, e sem dúvida se lembrou delas muito tempo depois, quando o desfecho correspondeu à predição.
Versículos 12 a 22
Aqui está:
I. A visita bondosa que José, em obediência à ordem do pai, fez aos seus irmãos, que apascentavam o rebanho em Siquém, a muitas milhas de distância.
Alguns sugerem que eles foram para lá de propósito, na expectativa de que José fosse enviado para vê-los e de que então teriam uma oportunidade de causar-lhe um dano.
Contudo, José e o pai tinham, ambos, mais da inocência da pomba do que da sabedoria da serpente; do contrário, ele jamais teria vindo parar assim nas mãos dos que o odiavam. Mas Deus planejou tudo isso para o bem. Veja em José um exemplo:
- De dedicação ao dever para com o pai. Embora fosse o predileto do pai, ainda assim foi colocado a serviço dele e estava disposto a servi-lo. Com que prontidão aguarda suas ordens! “Eis-me aqui”, v. 13.
Repare: os filhos que são os mais amados pelos pais devem ser os mais obedientes aos pais; e então o amor deles é bem empregado e bem retribuído.
- De bondade para com os irmãos. Embora soubesse que eles o odiavam e o invejavam, contudo não fez objeção nenhuma às ordens do pai, nem pela distância do lugar nem pelo perigo da viagem, mas abraçou alegremente a oportunidade de mostrar o seu respeito aos irmãos.
Repare: é uma lição muito boa, embora se aprenda com dificuldade e raramente se pratique, amar os que nos odeiam. Se os nossos parentes não cumprem o seu dever para conosco, ainda assim não devemos estar em falta com o nosso dever para com eles. Isso é digno de agradecimento.
José foi enviado pelo pai a Siquém para ver se os irmãos estavam bem ali, e se a terra não se tinha levantado contra eles e os tinha destruído, em vingança do bárbaro homicídio dos siquemitas, praticado por eles alguns anos antes.
Mas José, não os encontrando ali, foi a Dotã, o que mostrou que ele empreendeu esta viagem não só em obediência ao pai (pois então poderia ter voltado quando não os achou em Siquém, tendo feito o que o pai lhe dissera), mas por amor aos irmãos; e por isso buscou diligentemente até encontrá-los. Que assim permaneça o amor fraternal, e demos provas dele.
II. A trama sanguinária e maliciosa dos seus irmãos contra José, que retribuía o mal com o bem; eles, em troca do amor dele, tornaram-se seus adversários. Observe:
- Como foram deliberados na maquinação deste dano: “quando o viram de longe, conspiraram contra ele”, v. 18. Não foi num ímpeto, nem por uma provocação repentina, que pensaram em matá-lo, mas por malícia premeditada e a sangue-frio.
Repare: “quem quer que odeie a seu irmão é homicida”; pois ele o será, se tiver oportunidade, 1 João 3:15. A malícia é coisa extremamente danosa, e corre o risco de fazer obra sangrenta onde é abrigada e alimentada.
Quanto mais há de projeto e maquinação num pecado, pior ele é; é mau fazer o mal, mas pior é engendrá-lo.
Como foram cruéis no seu desígnio; nada menos que o sangue dele os satisfaria: “Vinde, e matemo-lo”, v. 20. Repare: a velha inimizade anda à caça da vida preciosa. São os sanguinários que odeiam o justo (Provérbios 29:10), e é do sangue dos santos que a meretriz está embriagada.
Com que escárnio lhe lançaram em rosto os seus sonhos (v. 19): “Vem este sonhador”; e (v. 20): “Veremos o que será dos seus sonhos”. Isto mostra o que era que os irritava e enfurecia. Não podiam suportar o pensamento de prestar-lhe homenagem; era isso que estavam tramando impedir por meio do homicídio dele.
Repare: os homens que se irritam e se enfurecem contra os conselhos de Deus estão impiamente visando frustrá-los; mas “imaginam uma coisa vã”, Salmos 2:1-3. Os conselhos de Deus permanecerão.
- Como concordaram em guardar o segredo uns dos outros e encobrir o homicídio com uma mentira: “Diremos: Alguma fera o devorou”; quando, na verdade, ao planejarem devorá-lo, provaram ser piores que as feras, pois elas não fazem presa das da sua própria espécie, mas eles estavam despedaçando parte de si mesmos.
III. O projeto de Rúben para livrá-lo, v. 21, 22. Repare: Deus pode levantar amigos para o seu povo, até entre os inimigos deles; pois ele tem todos os corações nas suas mãos.
Rúben, entre todos os irmãos, era o que mais razão tinha para ter ciúmes de José, pois era o primogênito e, assim, tinha direito àqueles favores distintivos que Jacó estava conferindo a José; contudo, ele se mostra o seu melhor amigo.
O temperamento de Rúben parece ter sido brando e efeminado, o que o havia entregado ao pecado da impureza; ao passo que o temperamento dos dois irmãos seguintes, Simeão e Levi, era feroz, o que os entregou ao pecado do homicídio, pecado a cujo pensamento Rúben se sobressaltava.
Repare: devemos vigiar nosso temperamento natural quanto aos pecados a que mais se inclina e aproveitar suas qualidades (como fez Rúben) para resistir àqueles a que é mais avesso.
Rúben fez uma proposta que, pensavam os irmãos, realizaria o plano deles de destruir José. Ele, porém, pretendia resgatar José das mãos deles e devolvê-lo ao pai, provavelmente na esperança de recuperar o favor paterno, que perdera havia pouco.
Mas Deus dispôs tudo soberanamente para servir ao seu próprio propósito de fazer de José um instrumento para conservar viva muita gente.
José foi aqui tipo de Cristo. Embora fosse o Filho amado do seu Pai, e odiado por um mundo perverso, contudo o Pai o enviou do seu seio para nos visitar em grande humildade e amor.
Ele veio do céu à terra para nos buscar e salvar; contudo, tramas maliciosas foram armadas contra ele. Veio para os seus, e os seus não só não o receberam, mas conspiraram contra ele: “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo”; “Crucifica-o, crucifica-o”. A isso se submeteu para cumprir seu propósito de nos redimir e salvar.
Versículos 23 a 30
Temos aqui a execução da trama deles contra José:
- Eles o despiram, cada um se esforçando para agarrar a invejada túnica de muitas cores, v. 23.
Assim, em sua imaginação, retiraram-lhe a posição de primogênito, da qual talvez a túnica fosse a insígnia; magoavam-no, afrontavam o pai e se divertiam ao triunfar insolentemente sobre ele. “Agora, José, onde está a bela túnica?”
Assim o nosso Senhor Jesus foi despido da sua túnica sem costura, e assim os seus santos sofredores primeiro foram diligentemente despojados dos seus privilégios e das suas honras, e depois feitos a escória de todas as coisas.
- Trataram de matá-lo à míngua, lançando-o numa cova seca, para perecer ali de fome e de frio — tão cruéis eram as suas ternas misericórdias, v. 24.
Repare: onde a inveja reina, a piedade é banida, e a própria humanidade é esquecida, Provérbios 27:4. Tão cheia de veneno mortal é a malícia que, quanto mais bárbara é uma coisa, mais agradável ela é.
Então José implorou pela vida, na “angústia da sua alma” (Gênesis 42:21), e rogou, com todos os carinhos imagináveis, que se contentassem com a túnica e lhe poupassem a vida. Ele alega inocência, parentesco, afeto, submissão; chora e faz súplica, mas tudo em vão.
Só Rúben se abranda e intercede por ele, Gênesis 42:22. Mas não consegue livrar José da cova horrível, na qual resolvem que ele morrerá aos poucos e será sepultado vivo. É este aquele a quem os seus irmãos terão de prestar homenagem?
Repare: as providências de Deus muitas vezes parecem contradizer os seus propósitos, mesmo quando os estão servindo e trabalhando à distância para o cumprimento deles.
- Desprezaram-no quando ele estava em apuros, e não se magoavam com a aflição de José; pois, quando ele definhava na cova, deplorando a própria miséria e clamando-lhes por piedade com um grito desfalecido, eles “assentaram-se a comer pão”, v. 25.
(1.) Não sentiram nenhum remorso de consciência pelo pecado; se tivessem sentido, ele lhes teria estragado o apetite pelo alimento e o gosto dele.
Repare: uma grande violência feita à consciência comumente a entorpece e, por um tempo, a priva tanto do sentido quanto da fala. Pecadores ousados são pecadores despreocupados.
Mas as consciências dos irmãos de José, embora agora adormecidas, foram despertadas muito tempo depois, Gênesis 42:21.
(2.) Agora lhes agradava pensar como estavam livres do medo do domínio do irmão sobre eles e como, ao contrário, tinham virado a roda contra ele. Alegraram-se à custa dele, como os perseguidores à custa das duas testemunhas que os haviam atormentado, Apocalipse 11:10.
Repare: os que se opõem aos conselhos de Deus podem talvez conseguir tanto que cheguem a pensar que alcançaram o seu intento, e ainda assim estar enganados.
- Eles o venderam. Uma caravana de mercadores passou por ali muito oportunamente (a Providência assim o dispondo), e Judá fez a proposta de que vendessem José a eles, para ser levado para bem longe, ao Egito, onde, com toda a probabilidade, ele se perderia e nunca mais se ouviria falar dele.
(1.) Judá o propôs por compaixão de José (v. 26): “Que proveito há, se matarmos o nosso irmão? Será menos culpa, e mais ganho, vendê-lo.”
Repare: quando somos tentados a pecar, devemos considerar a falta de proveito que há nele. É coisa com que nada se ganha.
(2.) Eles concordaram, porque pensavam que, se ele fosse vendido como escravo, nunca seria senhor; se vendido para o Egito, nunca seria senhor deles; contudo, tudo isso estava concorrendo para isso.
Repare: a ira do homem louvará a Deus, e o restante da ira ele refreará, Salmos 76:10. Os irmãos de José foram maravilhosamente refreados de assassiná-lo, e a venda que fizeram dele foi, de modo igualmente maravilhoso, convertida em louvor de Deus.
Assim como José foi vendido, pela maquinação de Judá, por vinte peças de prata, também o nosso Senhor Jesus o foi por trinta, e também por um do mesmo nome, Judas.
Rúben (ao que parece) tinha se afastado dos irmãos quando venderam José, com a intenção de dar a volta até a cova por outro caminho, ajudar José a sair dela e devolvê-lo em segurança ao pai.
Era um projeto bondoso; mas, se tivesse surtido efeito, que teria sido do propósito de Deus quanto à elevação de José no Egito?
Repare: há muitos planos no coração do homem, muitos planos dos inimigos do povo de Deus para destruí-lo e dos amigos dele para ajudá-lo, os quais talvez sejam frustrados, tanto uns quanto outros, como estes foram; mas o conselho do Senhor, esse permanecerá.
Rúben julgou-se perdido, porque o menino fora vendido: “Eu, aonde irei?”, v. 30. Sendo ele o mais velho, o pai esperaria dele um relato de José; mas, como se comprovou, todos eles teriam ficado perdidos se ele não tivesse sido vendido.
Versículos 31 a 36
I. A falta de José logo seria sentida, e muitos perguntariam por ele; por isso os irmãos tramaram mais um plano: fazer todos acreditarem que José fora despedaçado por uma fera. E o fizeram:
- Para se inocentarem, a fim de que não fossem suspeitos de lhe ter feito algum dano. Repare: todos nós aprendemos de Adão a encobrir nossa transgressão, Jó 31:33.
Quando o diabo ensinou os homens a cometer um pecado, ensina-os em seguida a escondê-lo com outro: o furto e o assassinato, com a mentira e o perjúrio. Mas aquele que cobre o seu pecado não prosperará por muito tempo.
Os irmãos de José guardaram por algum tempo o próprio segredo e o segredo uns dos outros, mas a vilania deles veio à luz por fim, e aqui está publicada ao mundo, e a sua lembrança, transmitida a todas as eras.
- Para magoar o seu bom pai. Ao que parece, foi intentado por eles de propósito, para se vingarem dele pelo amor com que ele distinguia José. Foi maquinado de propósito para lhe causar o mais extremo desgosto.
Enviaram-lhe a túnica de muitas cores de José, com uma cor a mais do que ela tivera, uma cor de sangue, v. 32. Alegaram que a haviam encontrado nos campos, e o próprio Jacó teve de ouvir, com escárnio, a pergunta: “É esta a túnica do teu filho?”
Agora a insígnia da honra de José serve de suposta prova do seu destino; e da túnica ensanguentada Jacó conclui precipitadamente que ele foi despedaçado. O amor está sempre inclinado a temer o pior a respeito da pessoa amada; há um amor que lança fora o medo, mas esse é um amor perfeito.
Agora, que aqueles que conhecem o coração de um pai imaginem as agonias do pobre Jacó e ponham a sua alma no lugar da alma dele. Com que força ele representa a si mesmo a ideia pavorosa da miséria de José!
Dormindo ou acordado, ele imagina que vê a fera lançando-se sobre José; pensa que ouve os seus gritos lastimosos quando o leão rugia contra ele; faz-se tremer e gelar, muitas vezes, ao fantasiar como a fera lhe sugou o sangue, despedaçou-o membro a membro e não deixou dele resto nenhum, senão a túnica de muitas cores, para levar as notícias.
E sem dúvida acrescentou não pouco à mágoa o fato de ele o ter exposto, ao enviá-lo, e enviá-lo sozinho, nessa viagem perigosa, que lhe resultou tão fatal. Isso lhe corta o coração, e ele está pronto a olhar para si mesmo como cúmplice da morte do filho. Agora:
(1.) Esforços foram empregados para consolá-lo. Os seus filhos torpemente alegaram fazê-lo (v. 35); mas consoladores miseráveis e hipócritas eram todos eles.
Se realmente desejassem consolá-lo, poderiam tê-lo feito com facilidade, dizendo-lhe a verdade: “José está vivo; ele foi, de fato, vendido para o Egito, mas será coisa fácil mandar até lá e resgatá-lo.” Isso teria desatado o seu saco e o teria cingido de alegria imediatamente.
Admiro-me de que os semblantes deles não traíssem a sua culpa, e de com que rosto podiam alegar condoer-se com Jacó pela morte de José, quando sabiam que ele estava vivo. Repare: o coração é estranhamente endurecido pelo engano do pecado.
(2.) Mas foi tudo em vão: Jacó “recusou ser consolado”, v. 35. Era pranteador obstinado, resolvido a descer pranteando à sepultura. Não foi arrebatamento súbito de paixão, como o de Davi: “Quisera Deus que eu tivesse morrido por ti, meu filho, meu filho!” Mas, como Jó, ele se endureceu na tristeza. Repare:
[1.] A grande afeição a qualquer criatura não faz senão preparar aflição tanto maior, quando ela ou nos é tirada ou nos é amargada. O amor desordenado comumente termina em mágoa imoderada; o quanto o balanço do pêndulo lança para um lado, outro tanto lançará para o outro.
[2.] Não consultam nem o consolo da sua alma nem o crédito da sua religião aqueles que, seja qual for a ocasião, estão determinados na sua tristeza.
Nunca devemos dizer: “Iremos pranteando à nossa sepultura”, porque não sabemos que dias alegres a Providência ainda pode reservar para nós, e é a nossa sabedoria e o nosso dever nos acomodarmos à Providência.
[3.] Muitas vezes nos inquietamos com tribulações imaginárias. Fantasiamos as coisas piores do que são, e então nos afligimos mais do que precisamos. Às vezes não se precisa de mais, para nos consolar, do que nos desenganar: é bom esperar o melhor.
II. Tendo os ismaelitas e os midianitas comprado José somente para fazer dele o seu negócio, aqui o temos vendido outra vez (com lucro bastante para os mercadores, sem dúvida) a Potifar, v. 36.
Jacó lamentava a perda da vida dele; se tivesse sabido de tudo, teria lamentado, embora não tão apaixonadamente, a perda da liberdade.
Trocará o filho de Jacó, livre de nascença, a melhor veste da sua família pela libré de um senhor egípcio e por todas as marcas da servidão? Quão cedo a terra do Egito foi feita casa de servidão para a semente de Jacó!
Repare: é sabedoria dos pais não criar os filhos com conforto excessivo, porque não sabem a que agruras e privações a Providência pode reduzi-los antes que morram. Mal pensava Jacó que um dia o seu amado José seria assim comprado e vendido como servo.