Gênesis 32
Argumento
Temos aqui Jacó ainda na sua viagem rumo a Canaã. Nunca em marcha alguma aconteceram tantas coisas memoráveis como nesta da pequena família de Jacó. Pelo caminho, ele se depara:
I. Com boas notícias do seu Deus, v. 1, 2.
II. Com más notícias do seu irmão, a quem enviou uma mensagem para notificar o seu retorno, vv. 3-6. Na sua angústia:
Divide a sua companhia, v. 7, 8.
Faz a sua oração a Deus, vv. 9-12.
Envia um presente ao seu irmão, vv. 13-23.
Luta com o anjo, vv. 24-32.
Versículos 1 a 2
Jacó Prossegue a Sua Viagem. (a.C. 1739.)
Jacó, tendo-se livrado de Labão, prossegue a sua viagem de volta para casa, rumo a Canaã. Quando Deus nos ajudou a atravessar dificuldades, devemos seguir o nosso caminho para o céu com tanto mais alegria e resolução.
Ora, 1. Aqui está a escolta de Jacó na sua viagem (v. 1): “Os anjos de Deus o encontraram”, numa aparição visível. Se foi numa visão de dia ou num sonho de noite, como quando os viu sobre a escada (Gênesis 28:12), é incerto.
Repare: quem se mantém num bom caminho tem sempre uma boa guarda; os próprios anjos são espíritos ministradores para a segurança deles, Hebreus 1:14. Onde Jacó armava as suas tendas, eles armavam as deles ao redor dele, Salmos 34:7.
Eles o encontraram para lhe dar as boas-vindas de volta a Canaã. Foi uma recepção mais honrosa do que jamais teve príncipe algum, recebido pelos magistrados de uma cidade com as suas formalidades.
Eles o encontraram para felicitá-lo pela chegada, e também pela fuga de Labão, porque têm prazer na prosperidade dos servos de Deus. Eles o haviam acompanhado invisivelmente o tempo todo, mas agora lhe apareceram, porque tinha diante de si perigos maiores do que os que enfrentara até ali.
Repare: quando Deus destina o seu povo a provações extraordinárias, ele o prepara com consolos extraordinários.
Nós pensaríamos que teria sido mais oportuno que estes anjos lhe aparecessem em meio à perplexidade e à agitação causadas primeiro por Labão e depois por Esaú, do que neste intervalo calmo e tranquilo, quando ele não se via em nenhum perigo iminente.
Mas Deus quer que, quando estamos em paz, nos preparemos para a tribulação, e que, quando a tribulação vem, vivamos das observações e experiências anteriores; porque “andamos por fé, e não por vista”.
O povo de Deus, na morte, está voltando para Canaã, para a casa do seu Pai; e então os anjos de Deus o encontrarão, para felicitá-lo pelo feliz término da sua servidão, e para levá-lo ao seu descanso.
- A constatação consoladora que fez a respeito dessa escolta, v. 2. “Esta é a hoste de Deus”, e por isso:
(1.) É uma hoste poderosa; muito grande é aquele que assim é acompanhado, e muito seguro aquele que assim é guardado.
(2.) Deus deve ter o louvor desta proteção: “Por isto posso agradecer a Deus, porque é a hoste dele.”
O homem bom pode, com olho de fé, ver o mesmo que Jacó viu com os olhos do corpo, crendo naquela promessa (Salmos 91:11): “Ele dará aos seus anjos ordem a teu respeito”.
Que necessidade temos de discutir se cada santo em particular tem um anjo da guarda, quando temos certeza de que ele tem uma guarda de anjos ao seu redor?
Para preservar a lembrança deste favor, Jacó deu ao lugar o nome de Maanaim, duas hostes, ou dois acampamentos.
Isto é, dizem alguns dos rabinos, uma hoste dos anjos da guarda da Mesopotâmia, que conduziram Jacó de lá e o entregaram em segurança à outra hoste, a dos anjos de Canaã, que o encontraram nas fronteiras onde ele agora estava.
Antes, eles lhe apareceram em duas hostes, uma de cada lado, ou uma à frente e a outra na retaguarda, para protegê-lo de Labão atrás e de Esaú adiante, para que fossem uma guarda completa.
Assim ele está cercado com o favor de Deus. Talvez em alusão a isto a igreja seja chamada de Maanaim, dois exércitos, Cantares de Salomão 6:13.
Aqui estava a família de Jacó, que formava um exército, representando a igreja militante e itinerante na terra; e os anjos, outro exército, representando a igreja triunfante e em descanso no céu.
Versículos 3 a 8
Agora que Jacó reentrava em Canaã, Deus, pela visão dos anjos, o lembrou dos amigos que tinha quando saiu dali, e daí ele toma ocasião para lembrar-se dos inimigos que tinha, particularmente Esaú.
É provável que Rebeca lhe tivesse mandado notícia do estabelecimento de Esaú em Seir e da continuação da inimizade dele contra Jacó.
Que fará o pobre Jacó? Ele anseia por ver o pai, e no entanto teme ver o irmão. Ele se alegra em ver Canaã de novo, e no entanto não pode senão alegrar-se com tremor por causa de Esaú.
I. Ele envia a Esaú uma mensagem muito bondosa e humilde. Não parece que o seu caminho passasse pelo país de Esaú, nem que precisasse pedir-lhe licença de passagem; mas passava perto daquele país.
Por isso, não passaria por Esaú sem prestar-lhe o respeito devido a um irmão, um irmão gêmeo, um irmão único, um irmão mais velho, um irmão ofendido. Repare:
Ainda que os nossos parentes falhem no dever que têm para conosco, ainda assim devemos fazer questão de consciência de cumprir o nosso dever para com eles.
É ato de amizade e de amor fraternal informar os nossos amigos da nossa condição e indagar da deles. Atos de civilidade podem ajudar a matar inimizades. A mensagem de Jacó a ele é muito atenciosa, v. 4, 5:
(1.) Ele chama Esaú de seu senhor e a si mesmo de seu servo, para dar a entender que não insistia nas prerrogativas do direito de primogenitura e da bênção que obtivera para si, mas deixava a Deus cumprir o seu próprio propósito na sua descendência.
Repare: “o ceder apazigua grandes ofensas”, Eclesiastes 10:4. Não devemos recusar-nos a falar de modo respeitoso e submisso àqueles que estão exasperados contra nós, por mais injustamente que seja.
(2.) Ele lhe dá um breve relato de si mesmo: que não era fugitivo e vagabundo, mas que, ainda que ausente por muito tempo, tivera morada certa, com os seus parentes: “Peregrinei com Labão, e ali fiquei até agora”.
Também informa que não era mendigo, nem voltava para casa, como o filho pródigo, destituído do necessário e provavelmente encargo para os parentes; não: “tenho bois e jumentos”. Sabia que isso, se alguma coisa o pudesse fazer, o recomendaria à boa opinião de Esaú.
E, (3.) ele corteja o favor dele: “Enviei, para que eu ache graça aos teus olhos”. Repare: não é desdouro para quem tem a melhor causa tornar-se suplicante da reconciliação e pleitear a paz tanto quanto o direito.
II. Ele recebe um relato muito temível dos preparativos de guerra de Esaú contra ele (v. 6): não uma palavra, mas um golpe; retribuição muito grosseira à sua mensagem bondosa, e triste acolhida em casa para um pobre irmão: “Ele vem ao teu encontro, e quatrocentos homens com ele”.
Ele já está cansado de esperar pelos dias de luto por esse bom pai, e mesmo antes que eles cheguem resolve matar o irmão.
- Ele se lembra da velha desavença e quer agora vingar-se dele por causa do direito de primogenitura e da bênção e, se possível, frustrar as expectativas de Jacó quanto a ambos.
Repare: a malícia acalentada dura muito e acha ocasião para irromper com violência muito tempo depois de dadas as provocações. Os homens iracundos têm boa memória.
- Ele inveja a Jacó os poucos bens que tinha e, embora ele mesmo estivesse agora de posse de outros muito melhores, ainda assim nada o satisfaz senão saciar os olhos na ruína de Jacó e encher os seus campos com os despojos de Jacó.
Talvez o relato que Jacó lhe mandou da sua riqueza não tenha feito senão provocá-lo tanto mais.
Ele conclui ser fácil destruí-lo, agora que estava na estrada, um pobre viajante cansado, sem pouso fixo e (como ele pensa) sem guarda. Quem tem o veneno da serpente tem comumente a sagacidade da serpente, de aproveitar a primeira e mais favorável oportunidade que se ofereça para a vingança.
Ele resolve fazê-lo de repente, e antes que Jacó chegue ao pai, para que este não se interponha e medeie entre eles. Esaú era um daqueles que odeiam a paz; quando Jacó fala, fala pacificamente, ele é pela guerra, Salmos 120:6, 7.
Ele sai marchando, esporeado pela raiva e decidido a sangue e assassínios; quatrocentos homens levava consigo, provavelmente os que costumavam caçar com ele, armados, sem dúvida, rudes e cruéis como o seu chefe, prontos a executar a ordem por mais bárbara que fosse, e agora respirando apenas ameaças e matança.
A décima parte deles bastava para exterminar o pobre Jacó e a sua família inocente e desamparada, raiz e ramo. Não admira, por isso, que se siga (v. 7): “então Jacó teve muito medo e se angustiou”; talvez tanto mais por mal ter se refeito do susto em que Labão o tinha posto.
Repare: muitas são as tribulações do justo neste mundo, e às vezes o fim de uma é apenas o começo de outra. As nuvens tornam depois da chuva. Jacó, embora homem de grande fé, ainda assim estava agora com muito medo.
Repare: uma viva apreensão do perigo, e o temor que dela nasce e nos põe em ação, podem muito bem coexistir com uma humilde confiança no poder e na promessa de Deus. O próprio Cristo, na sua agonia, ficou profundamente consternado.
III. Ele se põe na melhor postura de defesa que as suas circunstâncias presentes admitem. Era absurdo pensar em fazer resistência; todo o seu plano é escapar, v. 7, 8. Ele julga prudente não arriscar tudo num só navio e por isso divide o que tinha em duas companhias, para que, se uma fosse ferida, a outra escapasse.
Como chefe de família terno e cuidadoso, ele está mais solícito pela segurança deles do que pela sua própria. Ele dividiu a sua companhia, não como Abraão (Gênesis 14:15), para a luta, mas para a fuga.
Versículos 9 a 12
A Oração de Jacó. (a.C. 1739.)
A nossa regra é invocar a Deus no tempo da tribulação; temos aqui um exemplo dessa regra, e o êxito nos anima a seguir esse exemplo.
Era agora o tempo da tribulação de Jacó, mas “ele será salvo dela”; e aqui o temos orando por essa salvação, Jeremias 30:7. Na sua angústia ele buscou o Senhor, e ele o ouviu.
Repare: tempos de temor devem ser tempos de oração; tudo o que nos assusta deve nos lançar de joelhos, ao nosso Deus.
Jacó tinha visto havia pouco a sua guarda de anjos, mas, nesta angústia, recorreu a Deus, e não a eles; sabia que eram seus conservos, Apocalipse 22:9. Nem consultou os terafins de Labão; bastava-lhe ter um Deus a quem ir.
A ele se dirige com toda a solenidade possível, correndo assim, em busca de segurança, para o nome do Senhor como para uma torre forte, Provérbios 18:10.
Esta oração é tanto mais notável por lhe ter valido a honra de ser um Israel, um príncipe com Deus, e o pai do remanescente que ora, os quais por isso são chamados a descendência de Jacó, a quem ele nunca disse: “Buscai-me em vão”.
Ora, vale a pena indagar o que havia de extraordinário nesta oração, para que ela rendesse ao suplicante toda esta honra.
I. O pedido em si é um só, e muito expresso: “Livra-me da mão do meu irmão”, v. 11. Embora não houvesse nenhuma probabilidade humana do seu lado, ainda assim ele cria que o poder de Deus podia resgatá-lo como um cordeiro das mandíbulas sangrentas do leão.
Repare: 1. Temos permissão para ser particulares nas nossas aproximações a Deus, para mencionar os apertos e as dificuldades particulares em que estamos; porque o Deus com quem temos de tratar é alguém com quem podemos ter liberdade: temos liberdade de palavra (parresia) diante do trono da graça.
- Quando os nossos irmãos visam a ser os nossos destruidores, é o nosso consolo termos um Pai a quem recorrer como aquele que nos livra.
II. As alegações são muitas, e muito poderosas; nunca uma causa foi melhor ordenada, Jó 23:4. Ele eleva o seu pedido com grande fé, fervor e humildade.
Com quanto ardor ele implora! “Livra-me, peço-te”, v. 11. O seu temor o fez importuno. Com que lógica santa ele argumenta! Com que eloquência divina ele alega! Aqui está um nobre modelo para se copiar.
- Ele se dirige a Deus como o Deus dos seus pais, v. 9. Tinha da própria indignidade um senso tão humilde e abnegado que não chamou Deus de o seu próprio Deus, mas de um Deus em aliança com os seus antepassados: “Ó Deus de meu pai Abraão, e Deus de meu pai Isaque”.
Podia alegar isso com tanto mais força porque a aliança, por designação divina, lhe estava vinculada.
Repare: a aliança de Deus com os nossos pais pode ser um consolo para nós quando estamos em angústia. Muitas vezes foi assim para o povo do Senhor, Salmos 22:4, 5. Nascidos na casa de Deus, somos tomados sob a sua proteção especial.
- Ele apresenta o seu mandado: “Tu me disseste: Torna à tua terra”. Ele não deixou de modo precipitado o seu posto junto a Labão, nem empreendeu esta viagem por um humor volúvel, ou por um afeto tolo pela terra natal, mas em obediência à ordem de Deus.
Repare: (1.) Podemos estar no caminho do nosso dever e, ainda assim, encontrar tribulação e angústia nesse caminho.
Assim como a prosperidade não provará que estamos com a razão, assim os desfechos contrários não provarão que estamos errados; podemos estar indo para onde Deus nos chama e ainda assim julgar o nosso caminho cercado de espinhos.
(2.) Podemos confiar nossa segurança a Deus com tranquilidade, enquanto cumprimos cuidadosamente o nosso dever. Se Deus for o nosso guia, ele será a nossa guarda.
- Ele confessa humildemente a sua própria indignidade para receber qualquer favor de Deus (v. 10): “Não sou digno”; é uma alegação incomum.
Alguns pensariam que ele devia ter alegado que o que agora estava em perigo era seu, contra todo o mundo, e que ele o havia ganhado bem caro. Não: ele alega: “Senhor, não sou digno disso”.
Repare: a abnegação e o rebaixamento de si mesmo nos ficam bem em todas as nossas aproximações ao trono da graça.
Cristo nunca elogiou nenhum dos seus suplicantes tanto quanto aquele que disse: “Senhor, não sou digno” (Mateus 8:8), e aquela que disse: “Verdade, Senhor; contudo os cães comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores”, Mateus 15:27.
Ora, observe aqui: (1.) Com quanta magnificência e honra ele fala das misericórdias de Deus para com ele.
Temos aqui misericórdias, no plural, uma fonte inesgotável e correntes inumeráveis; misericórdias e verdade, isto é, misericórdias passadas dadas segundo a promessa, e misericórdias ulteriores asseguradas pela promessa.
Repare: o que está entesourado na verdade de Deus, assim como o que está despendido nas misericórdias de Deus, é matéria tanto dos consolos quanto dos louvores dos crentes ativos.
Ou melhor, observe: são todas as misericórdias e toda a verdade; o modo de expressão é copioso, e dá a entender que o seu coração estava cheio da bondade de Deus.
(2.) Com quanta baixeza e humildade ele fala de si mesmo, renunciando a todo pensamento de mérito próprio: “Não sou digno da menor de todas as tuas misericórdias, muito menos sou digno de um favor tão grande como este que agora estou pleiteando”.
Jacó era um homem considerável e, sob muitos aspectos, muito merecedor, e, ao tratar com Labão, tinha insistido com justiça nos seus méritos, mas não diante de Deus. “Sou menor que todas as tuas misericórdias”; assim diz a palavra.
Repare: os melhores e maiores dos homens são inteiramente indignos do menor favor de Deus, e devem estar prontos a reconhecê-lo em todas as ocasiões.
Era o lema do excelente sr. Herbert: “Menos que a menor de todas as misericórdias de Deus”. Estão mais bem preparados para as maiores misericórdias os que se veem indignos da menor.
- Ele reconhece com gratidão a bondade de Deus para com ele no seu desterro, e o quanto ela havia superado as suas expectativas: com o seu cajado atravessara este Jordão, pobre e desamparado, como um peregrino abandonado e desprezado.
Ele não tinha guias, nem companheiros, nem serviçais, nem comodidades para a viagem, mas somente o seu cajado, e nada mais em que se apoiar.
Agora, porém, tornara-se dois bandos e estava cercado de um séquito numeroso e consolador de filhos e servos.
Embora fosse a sua angústia que agora o obrigara a dividir a família em dois bandos, ainda assim ele usa isso para engrandecer a misericórdia do seu aumento.
Repare: (1.) O aumento das nossas famílias só nos é de fato consolador quando vemos nele as misericórdias de Deus, e a sua verdade.
(2.) Aqueles cujo último estado cresce grandemente devem, com humildade e gratidão, lembrar quão pequeno foi o seu princípio.
Jacó alega: “Senhor, tu me guardaste quando saí só com o meu cajado, e tinha apenas uma vida a perder; não me guardarás agora que tantos estão embarcados comigo?”
- Ele faz valer a extremidade do perigo em que estava: roga ao Senhor que o livre de Esaú, porque o teme, v. 11.
O povo de Deus não tem tido acanhamento em contar a Deus os seus temores; pois sabe que ele toma conhecimento deles e os leva em conta. O temor que aviva a oração pode ele mesmo ser alegado.
Não era de um ladrão, mas de um assassino, que ele temia; nem era só a sua própria vida que estava em jogo, mas a das mães e a das crianças, que haviam deixado o solo natal para ir com ele.
Repare: o afeto natural pode nos fornecer alegações lícitas e aceitáveis na oração.
- Ele insiste especialmente na promessa que Deus lhe havia feito (v. 9): “Tu disseste: Eu te tratarei bem”; e outra vez, no fecho (v. 12): “Tu disseste: Certamente te farei bem”.
Repare: (1.) O melhor que podemos dizer a Deus em oração é o que ele nos disse. Assim como as promessas de Deus são o guia mais seguro dos nossos desejos na oração e nos fornecem as melhores súplicas, assim são também o fundamento mais firme das nossas esperanças e nos fornecem as melhores alegações.
“Senhor, tu disseste isto e aquilo; e não cumprirás a tua palavra, a palavra na qual me fizeste esperar?” Salmos 119:49.
(2.) As promessas mais gerais se aplicam a casos particulares. “Tu disseste: Eu te farei bem; Senhor, faze-me bem neste caso.”
Ele alega também uma promessa particular, a da multiplicação da sua descendência. “Senhor, que será daquela promessa, se todos eles forem exterminados?”
Repare: [1.] Há promessas para as famílias das pessoas piedosas, das quais se pode tirar proveito na oração por misericórdias de família, ordinárias e extraordinárias, Gênesis 17:7; Salmos 112:2; 102:28.
[2.] As ameaças do mundo devem nos levar às promessas de Deus.
Versículos 13 a 23
O Presente de Jacó a Esaú. (a.C. 1739.)
Jacó, tendo piedosamente feito de Deus o seu amigo por meio de uma oração, procura aqui prudentemente fazer de Esaú o seu amigo por meio de um presente.
Ele havia orado a Deus para que o livrasse da mão de Esaú, porque o temia; mas seu temor não o lançou num desespero tão profundo que o desalentasse de empregar os meios, nem a oração o levou a contar presunçosamente com a misericórdia de Deus sem empregá-los.
Repare: quando oramos a Deus por alguma misericórdia, devemos acompanhar as nossas orações com os nossos esforços; do contrário, em vez de confiar em Deus, nós o tentamos.
Devemos depender da providência de Deus de tal modo que façamos uso da nossa própria prudência. “Ajuda-te a ti mesmo, e Deus te ajudará”; Deus responde às nossas orações ensinando-nos a ordenar os nossos assuntos com discernimento. Para apaziguar Esaú:
I. Jacó lhe enviou um presente muito nobre, não de joias nem de vestes esmeradas (ele não as tinha), mas de gado, no número de 580 ao todo, vv. 13-15. Ora:
Era prova do grande aumento com que Deus havia abençoado Jacó que ele pudesse ceder tal número de gado do seu rebanho.
Era prova da sua sabedoria que de bom grado abrisse mão de alguns, para garantir o restante; a cobiça de alguns homens lhes faz perder mais do que jamais lhes ganhou e, por regatearem uma pequena despesa, expõem-se a grande prejuízo; pele por pele, e tudo o que um homem tem, se for sábio, dará pela sua vida.
Era um presente que ele julgava que seria aceitável a Esaú, que tanto se ocupara em caçar feras que talvez estivesse mal provido de gado manso com que abastecer as suas novas conquistas. E podemos supor que as cores mescladas do gado de Jacó, listrado, salpicado e malhado, agradariam ao gosto de Esaú.
Ele prometia a si mesmo que por este presente ganharia o favor de Esaú; pois um presente comumente prospera, para onde quer que se volte (Provérbios 17:8), e abre lugar para o homem (Provérbios 18:16); ou melhor, apazigua a ira e o forte furor, Provérbios 21:14. Repare:
[1.] Não devemos desesperar de nos reconciliar mesmo com aqueles que mais se exasperaram contra nós; não nos cabe julgar os homens implacáveis enquanto não tivermos tentado aplacá-los.
[2.] A paz e o amor, ainda que comprados caro, virão a ser bom negócio para o comprador. Muito homem rabugento e de má índole teria dito, no caso de Jacó: “Esaú jurou a minha morte sem causa, e não receberá de mim nem um vintém; eu o verei bem longe antes de lhe enviar um presente.” Mas Jacó perdoa e esquece.
II. Ele lhe enviou uma mensagem muito humilde, que ordenou aos seus servos transmitir da melhor maneira, v. 17, 18. Deviam chamar Esaú de seu senhor, e Jacó de seu servo; deviam dizer-lhe que o gado que traziam era um pequeno presente que Jacó lhe enviava, como amostra das suas aquisições enquanto esteve fora.
O gado que ele enviou devia ser distribuído em diversas manadas, e os servos que acompanhavam cada manada deviam transmitir a mesma mensagem, para que o presente parecesse tanto mais valioso, e a sua submissão, repetida tantas vezes, tivesse tanto mais probabilidade de influir sobre Esaú.
Deviam cuidar especialmente de lhe dizer que Jacó vinha atrás (vv. 18-20), para que ele não suspeitasse que havia fugido por temor.
Repare: uma confiança amistosa na bondade dos homens pode ajudar a prevenir o dano que a maldade deles nos destina: se Jacó parecer não ter medo de Esaú, é de esperar que Esaú não seja terror para Jacó.
Versículos 24 a 32
Jacó Luta com um Anjo. (a.C. 1739.)
Temos aqui a notável história de como Jacó lutou com o anjo e prevaleceu, referida em Oseias 12:4.
Muito cedo de manhã, bastante tempo antes do dia, Jacó tinha ajudado as suas mulheres e os seus filhos a passar o rio, e desejou estar a sós, e foi deixado sozinho, para que pudesse outra vez expor mais plenamente os seus cuidados e temores diante de Deus em oração.
Repare: devemos perseverar na oração, orar sempre e não desfalecer; a frequência e a importunidade na oração nos preparam para a misericórdia.
Enquanto Jacó orava com fervor, incitando a si mesmo a apegar-se a Deus, um anjo se agarra a ele.
Alguns pensam que este era um anjo criado, o anjo da sua presença (Isaías 63:9), um daqueles que sempre contemplam a face do nosso Pai e se dedicam à shechinah, ou à Majestade divina, que provavelmente Jacó também tinha em vista.
Outros pensam que era Miguel, o nosso príncipe, a Palavra eterna, o anjo da aliança, que é de fato o Senhor dos anjos, e que muitas vezes apareceu em forma humana antes de assumir a natureza humana em perpetuidade.
Seja qual for, temos certeza de que o nome de Deus estava nele, Êxodo 23:21. Observe:
I. Como Jacó e este anjo travaram combate, v. 24. Foi um duelo, corpo a corpo; nenhum dos dois tinha padrinhos.
Jacó estava agora cheio de preocupação e temor a respeito do encontro que esperava ter, no dia seguinte, com o seu irmão.
E, para agravar a provação, o próprio Deus parecia sair contra ele como inimigo, para se opor à sua entrada na terra da promessa e para lhe disputar a passagem, não permitindo que seguisse as suas mulheres e filhos, que enviara adiante.
Repare: os crentes fortes devem esperar tentações diversas, e fortes. O profeta nos diz (Oseias 12:4) como Jacó lutou: “chorou, e fez súplicas”; orações e lágrimas foram as suas armas.
Foi uma luta não só corporal, mas espiritual, pelo exercício vigoroso da fé e do santo desejo; e assim toda a descendência espiritual de Jacó, que ora de fato quando ora, continua a lutar com Deus.
II. Qual foi o resultado do combate:
- Jacó manteve a sua posição. Ainda que a luta continuasse longamente, o anjo “não prevaleceu contra ele” (v. 25), isto é, este desânimo não abalou a sua fé nem silenciou a sua oração.
Não foi na sua própria força que ele lutou, nem pela sua própria força que prevaleceu, mas na força e pela força derivada do Céu.
Aquela palavra de Jó ilustra isto (Jó 23:6): “Contenderá ele comigo com o seu grande poder? Não” (se o anjo tivesse feito isso, Jacó teria sido esmagado), “mas ele porá força em mim”; e por essa força Jacó teve poder sobre o anjo, Oseias 12:4.
Repare: não podemos prevalecer com Deus senão na própria força dele. É o seu Espírito que intercede em nós e ajuda as nossas fraquezas, Romanos 8:26.
- O anjo deslocou a coxa de Jacó, para lhe mostrar o que podia fazer, e que era com Deus que ele lutava; porque nenhum homem poderia desconjuntar-lhe a coxa com um toque.
Alguns pensam que Jacó sentiu pouca ou nenhuma dor com essa lesão; é provável que não tenha sentido, pois nem sequer coxeou até que a luta acabasse (v. 31).
E, se foi assim, isto era prova de um toque verdadeiramente divino, que feria e curava ao mesmo tempo. Jacó prevaleceu, e ainda assim teve a coxa deslocada.
Repare: os crentes que lutam podem obter vitórias gloriosas e ainda assim sair com ossos quebrados; porque quando são fracos, então são fortes: fracos em si mesmos, mas fortes em Cristo, 2 Coríntios 12:10. As nossas honras e consolações neste mundo vêm misturadas com impurezas.
- O anjo, por uma condescendência admirável, pede a Jacó com brandura que o deixe ir (v. 26), como Deus disse a Moisés (Êxodo 32:10): “Deixa-me”.
Não poderia um anjo poderoso livrar-se dos agarros de Jacó? Poderia; mas assim ele queria pôr honra sobre a fé e a oração de Jacó, e provar ainda mais a sua constância.
“O rei está preso nas galerias” (Cantares de Salomão 7:5); “eu o segurei” (diz a esposa) “e não o quis deixar ir”, Cantares de Salomão 3:4.
A razão que o anjo dá para querer partir é que o dia rompe, e por isso não queria mais deter Jacó, que tinha negócio a fazer, viagem a seguir, família de que cuidar, o que, sobretudo nesta conjuntura crítica, reclamava a sua presença.
Repare: tudo é formoso no seu tempo; até o negócio da religião e as consolações da comunhão com Deus precisam às vezes ceder lugar aos assuntos necessários desta vida: Deus quer misericórdia, e não sacrifício.
- Jacó persiste na sua santa importunidade: “Não te deixarei ir, se me não abençoares”.
Aconteça o que acontecer com a sua família e a sua jornada, ele resolve tirar desta oportunidade o melhor que pode, e não perder a vantagem da sua vitória.
Ele não pretende lutar a noite inteira para nada, mas resolve humildemente que terá uma bênção, e antes se lhe desloquem todos os ossos do que ir-se embora sem ela. O crédito de uma conquista não lhe fará bem nenhum sem o consolo de uma bênção.
Ao pedir esta bênção, ele reconhece a sua inferioridade, ainda que parecesse levar a melhor na luta; porque o menor é abençoado pelo maior.
Repare: os que querem ter a bênção de Cristo precisam levar a coisa a sério e ser importunos por ela, como quem está resolvido a não aceitar recusa. É a oração fervorosa que é a oração eficaz.
- O anjo põe sobre ele uma marca perpétua de honra, mudando-lhe o nome (v. 27, 28): “Tu és um bravo combatente”, diz o anjo, “um homem de resolução heroica; qual é o teu nome?” “Jacó”, diz ele, um suplantador; é isso que Jacó significa.
“Pois bem”, diz o anjo, “nunca mais sejas assim chamado; daqui em diante serás celebrado, não pela astúcia e pelo manejo ardiloso, mas pelo verdadeiro valor; serás chamado Israel, um príncipe com Deus, um nome maior do que os dos grandes homens da terra.”
É príncipe de fato quem é príncipe com Deus, e são verdadeiramente honrados os que são poderosos na oração: Israéis, israelitas de fato.
Jacó é aqui armado cavaleiro em campo, por assim dizer, e recebe um título de honra dado por aquele que é a fonte da honra, e que permanecerá, para louvor dele, até o fim do tempo.
Contudo, isto não era tudo: tendo poder com Deus, terá poder também com os homens. Tendo prevalecido por uma bênção do céu, prevalecerá, sem dúvida, pelo favor de Esaú.
Repare: quaisquer inimigos que tenhamos, se ao menos conseguirmos fazer de Deus o nosso amigo, estamos bem; os que pela fé têm poder no céu têm por isso tanto na terra quanto lhes é preciso.
- Ele o despede com uma bênção, v. 29. Jacó desejou saber o nome do anjo, para que pudesse, conforme a sua capacidade, honrá-lo, Juízes 13:17.
Mas esse pedido foi negado, para que não se ensoberbecesse demais com a sua conquista, nem pensasse que tinha o anjo em tal vantagem que pudesse obrigá-lo ao que quisesse.
Não: “Por que perguntas pelo meu nome? Que bem te fará saber isso?” A descoberta disso ficou reservada para o seu leito de morte, no qual ele foi ensinado a chamá-lo de Siló.
Mas, em vez de lhe dizer o seu nome, deu-lhe a sua bênção, que era aquilo por que ele lutava: “ali o abençoou”, repetiu e ratificou a bênção que antes lhe fora dada.
Repare: as bênçãos espirituais, que asseguram a nossa felicidade, são melhores e muito mais desejáveis do que as noções requintadas que satisfazem a nossa curiosidade.
Ter parte na bênção do anjo é melhor do que ter conhecimento do seu nome. A árvore da vida é melhor do que a árvore do conhecimento.
Assim Jacó conseguiu o seu intento: por uma bênção lutou, e uma bênção teve; nem jamais alguém da sua descendência que ora buscou em vão.
Veja quão admiravelmente Deus condescende em favorecer e coroar a oração importuna: os que resolvem confiar nele ainda que ele os mate serão, por fim, mais que vencedores.
- Jacó dá um novo nome ao lugar: chama-o Peniel, a face de Deus (v. 30), porque ali tinha visto a aparição de Deus e obtido o favor de Deus.
Observe: o nome que ele dá ao lugar preserva e perpetua não a honra do seu valor, ou vitória, mas somente a honra da graça gratuita de Deus.
Ele não diz: “Neste lugar lutei com Deus e prevaleci”, mas: “Neste lugar vi Deus face a face, e a minha vida foi preservada”; não: “Foi louvor meu ter saído vencedor, mas foi misericórdia de Deus eu ter escapado com vida.”
Repare: convém aos que Deus honra tomarem para si a vergonha e admirarem as condescendências da graça dele para com eles.
Assim fez Davi, depois que Deus lhe enviou uma mensagem cheia de graça (2 Samuel 7:18): “Quem sou eu, ó Senhor Deus?”
- O memorando que Jacó levou disto nos ossos: “coxeava da sua coxa” (v. 31).
Alguns pensam que continuou assim até o dia da sua morte; e, se continuou, não tinha razão para se queixar, pois a honra e o consolo que obteve com esta luta eram amplamente suficientes para compensar o dano, ainda que fosse manquejando para a sepultura.
Não tinha razão para ver como afronta sua trazer assim no seu corpo “as marcas do Senhor Jesus” (Gálatas 6:17); contudo, isso podia servir, como o espinho na carne de Paulo, para impedi-lo de se exaltar com a abundância das revelações.
Repara-se no nascer do sol sobre ele quando passou por Penuel; porque é nascer do sol para a alma que tem comunhão com Deus.
O escritor inspirado menciona um costume tradicional que a descendência de Jacó tinha, em lembrança disto: nunca comer, em animal algum, daquele nervo, ou músculo, pelo qual o osso do quadril se prende no seu encaixe.
Assim eles preservavam o memorial desta história e davam ocasião a que os seus filhos indagassem a respeito dela; também prestavam honra à memória de Jacó.
E este uso podemos continuamente fazer dela: reconhecer a misericórdia de Deus e as nossas obrigações para com Jesus Cristo, para que possamos agora manter a nossa comunhão com Deus, em fé, esperança e amor, sem pôr em risco a vida nem qualquer membro do corpo.