Gênesis 30
Argumento
Neste capítulo temos o relato do aumento:
I. Da família de Jacó. Encontramos mais oito filhos registrados neste capítulo:
Dã e Naftali, por Bila, criada de Raquel, vv. 1-8. Gade e Aser, por Zilpa, criada de Lia, vv. 9-13. Issacar, Zebulom e Diná, por Lia, vv. 14-21. E, por último, José, por Raquel, vv. 22-24.
II. Dos bens de Jacó. Ele faz um novo trato com Labão, vv. 25-34.
E nos seis anos de serviço a mais que prestou a Labão, Deus o abençoou maravilhosamente, de modo que a sua criação de gado se tornou muito considerável, vv. 35-43.
Nisto se cumpriu a bênção com que Isaque o despediu (Gênesis 28:3): “Deus te faça frutificar, e te multiplique.”
Até estas pequenas questões a respeito da casa e do campo de Jacó, embora pareçam pouco consideráveis, podem ser aproveitadas para o nosso ensino.
Porque as Escrituras foram escritas não para príncipes e estadistas, para instruí-los na política, mas para todas as pessoas, até as mais humildes, para dirigi-las nas suas famílias e nas suas vocações.
Contudo, algumas coisas são aqui registradas a respeito de Jacó, não para imitação, mas para advertência.
Versículos 1 a 13
O Aumento da Família de Jacó. (a.C. 1745.)
Temos aqui as más consequências daquele estranho casamento que Jacó fez com as duas irmãs. Aqui está:
I. Um desacordo infeliz entre ele e Raquel (v. 1, 2), ocasionado não tanto pela esterilidade dela própria quanto pela fecundidade da sua irmã.
Rebeca, a única mulher de Isaque, ficou muito tempo sem filhos, e ainda assim não encontramos nenhum mal-estar entre ela e Isaque; mas aqui, porque Lia dá à luz filhos, Raquel não consegue viver em paz com Jacó.
- Raquel se consome. Ela invejou a sua irmã, v. 1. A inveja é a dor com o bem alheio, e não há pecado mais ofensivo a Deus, nem mais danoso ao nosso próximo e a nós mesmos.
Ela não considerou que era Deus quem fazia a diferença, e que, embora neste único ponto a sua irmã fosse preferida a ela, ainda assim em outras coisas ela levava vantagem.
Vigiemos com cuidado contra todos os assomos e movimentos dessa paixão na nossa mente. Que o nosso olho não seja mau para com nenhum dos nossos conservos, porque o do nosso senhor é bom.
Mas isso não era tudo; ela disse a Jacó: “Dá-me filhos, ou então morro.” Repare: somos muito propensos a errar nos nossos desejos de misericórdias temporais, como Raquel aqui:
(1.) Um filho não a contentaria; mas, porque Lia tem mais de um, ela também tem de ter mais: “Dá-me filhos.”
(2.) O coração dela está desmedidamente fixado nisso, e, se não tiver o que queria ter, ela jogará fora a sua vida e todos os consolos dela. “Dá-mos, ou então morro”, isto é: “Vou me consumir até a morte; a falta dessa satisfação encurtará os meus dias.”
Alguns pensam que ela ameaça Jacó de pôr mãos violentas sobre si mesma, caso não pudesse obter essa misericórdia.
(3.) Ela não recorreu a Deus pela oração, mas somente a Jacó, esquecendo-se de que “os filhos são herança do Senhor”, Salmos 127:3. Fazemos mal tanto a Deus quanto a nós mesmos quando o nosso olho está mais nos homens, instrumentos das nossas cruzes e dos nossos consolos, do que em Deus, o autor.
Observe uma diferença entre o pedido de Raquel por essa misericórdia e o de Ana, 1 Samuel 1:10, etc. Raquel invejou; Ana chorou. Raquel tinha de ter filhos, e morreu do segundo; Ana orou por um filho, e teve mais quatro.
Raquel é importuna e peremptória; Ana é submissa e devota. “Se me deres um filho, eu o darei ao Senhor.” Que se imite Ana, e não Raquel; e que os nossos desejos estejam sempre sob a direção e o controle da razão e da religião.
- Jacó alterca, e com toda a justiça. Ele amava Raquel, e por isso a censurou pelo que ela disse de errado, v. 2.
Repare: censuras fiéis são produtos e mostras de verdadeiro afeto, Salmos 141:5; Provérbios 27:5, 6. Jó censurou a sua mulher quando ela falou a linguagem das mulheres loucas, Jó 2:10. Veja 1 Coríntios 7:16.
Ele se irou, não contra a pessoa, mas contra o pecado; expressou-se de modo a mostrar o seu desagrado. Repare: às vezes é necessário que a censura seja dada morna, como uma poção medicinal; não quente demais, para que não escalde o paciente; contudo, não fria, para que não saia ineficaz.
Foi uma resposta muito grave e piedosa a que Jacó deu à exigência rabugenta de Raquel: “Estou eu no lugar de Deus?”
O Caldeu parafraseia bem: “Pedes filhos a mim? Não deverias pedi-los de diante do Senhor?” O Arábico lê assim: “Estou eu acima de Deus? Posso dar-te aquilo que Deus te nega?” Isto foi dito como fala um homem simples. Observe:
(1.) Ele reconhece a mão de Deus na aflição de que era partícipe com ela: ele reteve o fruto do ventre.
Repare: seja o que for que nos falte, é Deus quem o retém — um Senhor soberano, muito sábio, santo e justo, que pode fazer o que quiser com o que é seu, e não é devedor a homem nenhum, que nunca fez, nem jamais pode fazer, injustiça alguma a nenhuma das suas criaturas.
As chaves das nuvens, do coração, da sepultura e do ventre são quatro chaves que Deus tinha na sua mão, e que (dizem os rabinos) ele não confia nem a anjos nem a serafins. Veja Apocalipse 3:7; Jó 11:10; 12:14.
(2.) Ele reconhece a sua própria incapacidade de alterar o que Deus tinha designado: “Estou eu no lugar de Deus? Como assim! Fazes de mim um deus?” Deos qui rogat ille facit — Aquele a quem oferecemos súplicas é para nós um deus. Repare:
[1.] Não há criatura que esteja, ou possa estar, para nós, no lugar de Deus. Deus pode ser para nós no lugar de qualquer criatura, como o sol no lugar da lua e das estrelas; mas a lua e todas as estrelas não serão para nós no lugar do sol. A sabedoria, o poder e o amor de nenhuma criatura serão para nós no lugar dos de Deus.
[2.] É, por isso, pecado e loucura nossa pôr qualquer criatura no lugar de Deus, e pôr em qualquer criatura aquela confiança que só em Deus deve ser posta.
II. Um acordo infeliz entre ele e as duas servas:
- Por persuasão de Raquel, ele tomou por mulher Bila, a serva dela, para que, segundo o uso daqueles tempos, os filhos que ele tivesse dela fossem adotados e reconhecidos como filhos da sua senhora, v. 3, etc.
Ela preferia ter filhos por reputação a não ter nenhum: filhos que pudesse imaginar seus próprios e chamar de seus próprios, ainda que não o fossem.
Seria de pensar que os filhos da sua própria irmã lhe fossem mais aparentados que os da sua criada, e que com mais satisfação ela os pudesse ter feito seus, se assim quisesse.
Mas (tão natural é para todos nós gostar de poder) filhos sobre os quais ela tinha direito de mandar eram mais desejáveis para ela do que filhos que tinha mais razão para amar.
E, como mostra precoce do seu domínio sobre os filhos nascidos no seu aposento, ela se compraz em dar-lhes nomes que não trazem em si nada senão marcas de emulação com a sua irmã, como se ela a tivesse vencido:
(1.) No tribunal. Ela chama o primeiro filho da sua serva de Dã (juízo), dizendo: “Deus me julgou” (v. 6), isto é, “proferiu sentença em meu favor.”
(2.) Na batalha. Ela chama o seguinte de Naftali (lutas), dizendo: “Lutei com a minha irmã, e prevaleci” (v. 8); como se todos os filhos de Jacó devessem nascer homens de disputa.
Veja que raízes de amargura são a inveja e a contenda, e que danos elas fazem entre parentes.
- Por persuasão de Lia, ele tomou também por mulher Zilpa, a serva dela, v. 9. Raquel tinha feito aquela coisa absurda e despropositada de dar a sua criada ao seu marido, em emulação com Lia; e agora Lia (porque falhou um ano em dar filhos) faz o mesmo, para se igualar a ela, ou melhor, para se manter à frente dela.
Veja o poder do ciúme e da rivalidade, e admire a sabedoria da designação divina, que une um só homem e uma só mulher; porque Deus nos chamou à paz e à pureza, 1 Coríntios 7:15.
Dois filhos Zilpa deu a Jacó, aos quais Lia se considerava com direito, e em sinal disso chamou um de Gade (v. 11), prometendo a si mesma uma pequena tropa de filhos. E os filhos são a milícia de uma família: eles enchem a aljava, Salmos 127:4, 5.
Ao outro ela chamou de Aser (feliz), julgando-se feliz nele e prometendo a si mesma que as suas vizinhas também assim pensariam: “As filhas me chamarão bem-aventurada”, v. 13.
Repare: é mostra da vaidade do mundo, e da insensatez atada ao nosso coração, que a maior parte das pessoas se avalia e se governa mais pela reputação do que quer pela razão, quer pela religião. Elas se julgam bem-aventuradas se ao menos as filhas as chamarem assim.
Havia muito de errado na porfia e na rivalidade entre estas duas irmãs; contudo, Deus tirou bem deste mal, porque, estando agora à mão o tempo em que a semente de Abraão devia começar a aumentar e a multiplicar-se, assim a família de Jacó foi enchida com doze filhos, cabeças dos milhares de Israel, dos quais descenderam as célebres doze tribos e de quem receberam o nome.
Versículos 14 a 24
Aqui está:
I. Lia fecunda de novo, depois de ter, por algum tempo, deixado de dar à luz.
Jacó, ao que parece, convivia mais com Raquel do que com Lia. A lei de Moisés supõe ser caso comum que, se um homem tivesse duas mulheres, uma seria amada e a outra, aborrecida, Deuteronômio 21:15.
Mas por fim as paixões fortes de Raquel a traíram, levando-a a um trato com Lia, para que Jacó voltasse ao aposento dela.
Rúben, um menininho de cinco ou seis anos, brincando no campo, achou mandrágoras, dudaim. Não se sabe ao certo o que eram, e os críticos não estão de acordo a respeito delas; temos certeza de que eram algumas raridades, ou frutos ou flores muito agradáveis ao olfato, Cantares de Salomão 7:13.
Repare: o Deus da natureza proveu não só para as nossas necessidades, mas também para os nossos deleites; há produtos da terra nos campos expostos, assim como nos jardins plantados e protegidos, que são muito valiosos e úteis.
Com que fartura está mobiliada a casa da natureza, e posta a sua mesa! Os seus frutos preciosos se oferecem para ser colhidos pelas mãos de crianças pequenas.
É costume louvável dos judeus devotos, quando encontram prazer — suponha, ao comer uma maçã —, levantar os seus corações e dizer: “Bendito seja aquele que fez este fruto agradável!” Ou, ao cheirar uma flor: “Bendito seja aquele que fez esta flor doce.”
Alguns pensam que estas mandrágoras eram flores de jasmim. Fossem o que fossem, Raquel não pôde vê-las nas mãos de Lia, onde a criança as tinha posto, sem que as cobiçasse.
Ela não suporta a falta destas flores bonitas, mas as comprará a qualquer preço. Repare: pode haver grande pecado e loucura no desejo desmedido de uma coisa pequena.
Lia tira vantagem disso (como Jacó tirara da cobiça de Esaú pelo seu guisado vermelho) para obter o que lhe era justamente devido, mas ao que Raquel não teria anuído de outro modo.
Repare: as paixões fortes muitas vezes se contrariam umas às outras, e não podem deixar de viver continuamente inquietos os que são impelidos por elas.
Lia fica muito contente por ter de novo a companhia do seu marido, para que a sua família ainda seja mais edificada, que é a bênção que ela deseja e pela qual ora com devoção, como se insinua no v. 17, onde se diz: “Deus ouviu a Lia”.
O douto bispo Patrick sugere aqui, com muito acerto, que o verdadeiro motivo desta disputa entre as mulheres de Jacó pela companhia dele, e de lhe darem elas as suas criadas para serem mulheres dele, foi o desejo ardente que tinham de cumprir a promessa feita a Abraão (e agora havia pouco renovada a Jacó):
Que a sua semente seria como as estrelas do céu em multidão, e que numa semente sua, o Messias, todas as nações da terra seriam abençoadas.
E ele pensa que teria sido abaixo da dignidade desta história sagrada reparar tão particularmente nestas coisas, se não houvesse nelas alguma consideração assim tão grande.
Lia foi agora abençoada com dois filhos. Ao primeiro chamou Issacar (paga), considerando-se bem paga pelas suas mandrágoras — ou melhor (o que é uma interpretação estranha da providência), recompensada por ter dado a sua criada ao seu marido.
Repare: abusamos da misericórdia de Deus quando consideramos que os favores dele aprovam e apadrinham as nossas loucuras.
Ao outro chamou Zebulom (habitação), reconhecendo a liberalidade de Deus para com ela: “Deus me dotou com um bom dote”, v. 20.
Jacó não a dotara quando se casou com ela, nem possuía com que dotá-la; mas ela considera uma família de filhos não uma conta de despesas, e sim um bom dote, Salmos 113:9.
Ela promete a si mesma mais da companhia do seu marido agora que lhe dera seis filhos, e que, ao menos por amor aos seus filhos, ele visitaria com frequência a morada dela.
Menciona-se (v. 21) o nascimento de uma filha, Diná, por causa da história que se segue a respeito dela, Gênesis 34. Talvez Jacó tivesse outras filhas, embora os nomes delas não estejam registrados.
II. Raquel fecunda enfim (v. 22): “Deus lembrou-se de Raquel”, a quem ele parecia ter esquecido, e ouviu aquela cujas orações tinham sido por muito tempo negadas; e então ela deu à luz um filho.
Repare: assim como Deus justamente nega a misericórdia que desejamos desmedidamente, assim também ele às vezes concede graciosamente, por fim, aquilo que esperamos há muito tempo. Ele corrige a nossa loucura e, contudo, considera a nossa estrutura, e não contende para sempre.
Raquel chamou o seu filho de José, nome que em hebraico é aparentado a duas palavras de significação contrária. Asaph (abstulit), “Ele tirou o meu descrédito” — como se a maior misericórdia que ela tinha neste filho fosse ter salvado o seu bom nome.
E Jasaph (addidit), “O Senhor me acrescentará outro filho”, o que se pode encarar ou como a linguagem do seu desejo desmedido (ela mal sabe ser grata por um, a não ser que possa ter certeza de outro), ou da sua fé — ela toma esta misericórdia como penhor de mais misericórdia.
“Deus me deu a sua graça? Posso chamá-la de José e dizer: ele acrescentará mais graça! Deu-me a sua alegria? Posso chamá-la de José e dizer: ele me dará mais alegria. Ele começou, e não terminará?”
Versículos 25 a 35
O Trato de Jacó com Labão. (a.C. 1745.)
Temos aqui:
I. Os pensamentos de Jacó a respeito de casa. Ele cumpriu fielmente o seu tempo de serviço com Labão, até a sua segunda aprendizagem, ainda que fosse homem velho, tivesse uma família grande a quem prover e já fosse mais que hora de se estabelecer por conta própria.
Ainda que o serviço de Labão fosse árduo, e ele o tivesse levado por embuste no primeiro trato que fizera, ainda assim Jacó cumpre honestamente os seus compromissos.
Repare: um homem bom, ainda que jure com prejuízo próprio, não muda. E ainda que outros nos tenham enganado, isso não nos justifica em enganá-los. A nossa regra é fazer como gostaríamos que nos fizessem, não como nos fazem.
Terminado o prazo de Jacó, ele pede licença para partir, v. 25. Observe:
- Ele conservou o seu afeto pela terra de Canaã, não só por ser a terra do seu nascimento, e por estarem lá o seu pai e a sua mãe, a quem ele ansiava por ver, mas também por ser a terra da promessa.
E, em sinal da sua dependência da promessa dela, ainda que peregrine em Harã, ele não pode de modo nenhum pensar em se estabelecer ali.
Assim devemos estar afeiçoados à nossa pátria celestial: olhando para nós mesmos como estrangeiros aqui, vendo a pátria celestial como o nosso lar e ansiando por estar lá, assim que os dias do nosso serviço sobre a terra estiverem contados e cumpridos.
Não devemos pensar em criar raízes aqui, porque este não é o nosso lugar nem a nossa pátria, Hebreus 13:14.
- Ele desejava ir para Canaã, ainda que tivesse uma família grande para levar consigo e nenhuma provisão ainda feita para ela. Ele conseguira mulheres e filhos com Labão, mas nada além disso; contudo, não pede a Labão que lhe dê nem um dote com as suas mulheres nem o sustento de alguns dos seus filhos.
Não: todo o seu pedido é “Dá-me as minhas mulheres e os meus filhos, e manda-me embora”, v. 25, 26.
Repare: quem confia em Deus, na sua providência e na sua promessa, ainda que tenha família grande e renda pequena, pode esperar alegremente que aquele que manda bocas mandará alimento. Aquele que alimenta a ninhada dos corvos não fará morrer de fome a semente dos justos.
II. O desejo de Labão de que ele ficasse, v. 27. Por amor a si mesmo, não a Jacó nem às mulheres e aos filhos dele, Labão procura persuadi-lo a continuar como seu pastor principal, rogando-lhe, pela consideração que tinha por ele, que não o deixasse: “Se achei graça aos teus olhos, fica”.
Repare: os homens rudes e egoístas sabem dar boas palavras quando é para servir aos seus próprios fins.
Labão viu que a sua criação aumentara maravilhosamente com a boa administração de Jacó, e ele o reconhece, com expressões muito boas de respeito tanto a Deus quanto a Jacó: “Aprendi por experiência que o Senhor me abençoou por tua causa”. Observe:
- O aprendizado de Labão: “Aprendi por experiência”. Repare: há muita lição boa e proveitosa a se aprender pela experiência.
Somos alunos muito pouco aptos se não aprendemos pela experiência o mal do pecado, a traição do nosso próprio coração, a vaidade do mundo, a bondade de Deus, os ganhos da piedade e coisas semelhantes.
- A lição de Labão. Ele reconhece:
(1.) Que a sua prosperidade se devia à bênção de Deus: “O Senhor me abençoou”. Repare: os homens mundanos, que escolhem a sua porção nesta vida, são muitas vezes abençoados com abundância dos bens deste mundo.
As bênçãos comuns são dadas com fartura a muitos que não têm direito às bênçãos da aliança.
(2.) Que a piedade de Jacó tinha trazido aquela bênção sobre ele: “O Senhor me abençoou, não por causa de mim mesmo” (que um homem como Labão, que vive sem Deus no mundo, não pense que receberá coisa alguma do Senhor, Tiago 1:7), “mas por tua causa”. Repare:
[1.] Os homens bons são bênçãos para os lugares onde vivem, mesmo onde vivem de modo humilde e obscuro, como Jacó no campo e José na prisão, Gênesis 39:23.
[2.] Deus muitas vezes abençoa os homens maus com misericórdias exteriores por causa dos seus parentes piedosos, ainda que seja raro que eles tenham ou o tino para ver isso ou a graça para reconhecê-lo, como Labão reconheceu aqui.
III. O novo trato a que chegaram. A astúcia e a cobiça de Labão tiraram vantagem da simplicidade, da honestidade e do bom natural de Jacó.
E, percebendo que Jacó começava a se deixar ganhar pelas suas belas palavras, em vez de lhe fazer uma oferta generosa e propor muito, como devia ter feito, considerando tudo, ele lhe passa a tarefa de apresentar as suas exigências (v. 28): “Designa-me o teu salário”, sabendo que ele seria muito modesto nelas e pediria menos do que Labão poderia, por vergonha, oferecer.
Assim, Jacó lhe faz uma proposta na qual:
- Ele mostra que razão tinha para insistir em tanto, considerando:
(1.) Que Labão estava obrigado, por gratidão, a fazer-lhe bem, porque ele o tinha servido não só com fidelidade, mas também com muito êxito, v. 30.
Contudo, observe aqui como ele fala, à sua maneira, com muita modéstia. Labão dissera: “O Senhor me abençoou por tua causa”; Jacó não dirá isso, mas: “O Senhor te abençoou desde a minha vinda”.
Repare: os santos humildes sentem mais prazer em fazer o bem do que em ouvir falar dele de novo.
(2.) Que ele mesmo estava obrigado, por dever, a cuidar da sua própria família: “Agora, quando proverei também para a minha própria casa?”
Repare: a fé e a caridade, ainda que sejam coisas excelentes, não devem nos afastar de fazer as provisões necessárias para o nosso próprio amparo e para o amparo das nossas famílias.
Devemos, como Jacó, confiar no Senhor e fazer o bem, e ainda assim devemos, como ele, prover também para as nossas próprias casas. Quem não faz o segundo é pior que um infiel, 1 Timóteo 5:8.
- Ele está disposto a se remeter à providência de Deus, que, ele sabia, se estende às menores coisas, até à cor do gado.
E se contentará em ter por salário as ovelhas e as cabras desta ou daquela cor — salpicadas, malhadas e pardas — que viessem a nascer dali em diante, v. 32, 33.
Este, pensa ele, será o modo mais eficaz tanto de impedir que Labão o leve por embuste quanto de se resguardar da suspeita de estar levando Labão por embuste.
Alguns pensam que ele escolheu esta cor porque em Canaã ela era em geral a mais desejada e a mais apreciada. Os pastores deles em Canaã são chamados Nekodim (Amós 1:1), a palavra usada aqui para “salpicado”.
E Labão estava disposto a anuir a este trato porque pensava que, se os poucos que tinha e que agora eram salpicados e malhados fossem separados do resto, o que por acordo devia ser feito de imediato, o grosso do rebanho que Jacó devia apascentar, sendo de uma só cor, ou todo preto ou todo branco, produziria poucos de cores misturadas, ou nenhum.
E assim ele teria o serviço de Jacó de graça, ou quase de graça. De acordo com este trato, aqueles poucos que eram de várias cores foram separados, postos nas mãos dos filhos de Labão e mandados a três dias de caminho de distância.
Tão grande era o ciúme de Labão, com receio de que algum deles se misturasse com o resto do rebanho, em vantagem de Jacó.
E que belo trato Jacó fez para si mesmo! É isto prover para a sua própria casa, pôr a coisa em tamanha incerteza?
Se este gado gerar, como o gado costuma gerar, filhotes da mesma cor que a sua, ele terá de continuar servindo de graça e será um burro de carga e um mendigo todos os dias da sua vida. Mas ele sabe em quem confiou, e o desfecho mostrou:
(1.) Que ele tomou o melhor caminho que se podia tomar com Labão, que de outro modo certamente o teria superado em astúcia.
E, (2.) Que não foi em vão confiar na divina providência, que reconhece e abençoa a diligência honesta e humilde.
Quem acha injustos e sem bondade os homens com quem lida não achará Deus assim; mas, de um modo ou de outro, ele recompensará o injustiçado e será um bom pagador para quem entrega a sua causa a ele.
Versículos 37 a 42
O Estratagema Engenhoso de Jacó. (a.C. 1745.)
Aqui está o estratagema honesto de Jacó para tornar o seu trato mais vantajoso para si do que provavelmente viria a ser.
Se ele não tivesse tomado algum meio para se ajudar, teria sido de fato um péssimo trato, coisa que, ele sabia, Labão nunca levaria em conta; ou melhor, ficaria bem satisfeito de vê-lo sair perdendo com ele, tão pouco olhava Labão pelo interesse de quem quer que fosse, senão o seu próprio.
Ora, as maquinações de Jacó foram estas:
- Pôr varas descascadas diante do gado no lugar onde era abeberado, para que, de tanto olhar para aquelas varas incomuns, de várias cores, pela força da imaginação desse cria igualmente de várias cores, vv. 37-39.
Provavelmente esse costume era de uso comum entre os pastores de Canaã, que cobiçavam ter o seu gado dessa cor mesclada.
Repare: convém ao homem ser senhor do seu ofício, seja ele qual for, e ser nele não só laborioso, mas também engenhoso, e ser versado em todas as suas artes e mistérios lícitos; pois o que é um homem senão o seu ofício?
Há um discernimento que Deus ensina ao lavrador (por mais simples que seja esse ofício), e que ele deve aprender, Isaías 28:26.
- Quando começou a ter uma criação de listrados e pardos, maquinou pô-los à frente e voltar para eles as faces dos demais, com o mesmo desígnio da maquinação anterior; mas não quis deixar os seus próprios, que eram de uma cor só, v. 40.
Impressões fortes, ao que parece, são feitas pelo olho, com o qual, por isso, precisamos fazer uma aliança.
- Quando viu que o seu projeto dava certo, pela bênção especial de Deus sobre ele, maquinou, usando-o somente com o gado mais forte, garantir para si os que eram mais valiosos, deixando os mais fracos para Labão, v. 41, 42. Assim Jacó aumentou extraordinariamente (v. 43), e ficou muito rico em pouco tempo.
Esse êxito do seu estratagema, é verdade, não bastaria para justificá-lo, se tivesse havido nele alguma coisa fraudulenta ou injusta, o que temos certeza de que não houve, pois ele o fez por direção divina (Gênesis 31:12).
Nem havia na coisa em si nada além do honesto aproveitamento de um trato justo, que a divina providência prosperou de modo admirável, tanto por justiça para com Jacó, a quem Labão tinha lesado e tratado com dureza, quanto em cumprimento das promessas particulares que lhe foram feitas dos sinais do favor divino.
Repare: quem, enquanto o seu princípio é pequeno, é humilde e honesto, contente e laborioso, está em bom caminho para ver o seu fim aumentar grandemente.
A quem é fiel no pouco, mais será confiado. A quem é fiel naquilo que é de outro homem, será confiado algo que seja seu. Jacó, que fora servo justo, tornou-se senhor rico.