Gênesis 26
Argumento
Neste capítulo temos:
I. Isaque na adversidade, por causa de uma fome na terra:
A fome o obriga a mudar de morada, v. 1.
Mas Deus o visita com direção e consolo, vv. 2-5.
Ele nega insensatamente a sua mulher, estando em apuros, e é repreendido por Abimeleque por causa disso, vv. 6-11.
II. Isaque na prosperidade, pela bênção de Deus sobre ele, vv. 12-14:
Os filisteus tiveram inveja dele, vv. 14-17.
Ele continuou diligente nos seus afazeres, vv. 18-23.
Deus lhe apareceu e o animou, e ele reconheceu a Deus com devoção, v. 24, 25.
Os filisteus, por fim, procuraram ganhar sua boa vontade e fizeram aliança com ele, vv. 26-33.
O casamento desagradável do seu filho Esaú foi um dissabor em meio à alegria que sua prosperidade lhe trazia, v. 34, 35.
Versículos 1 a 5
A Mudança de Isaque para Gerar. (a.C. 1804.)
I. Aqui Deus provou Isaque pela sua providência. Isaque tinha sido criado para confiar, pela fé, na concessão divina da terra de Canaã a ele e aos seus herdeiros; contudo, agora há fome na terra, v. 1.
O que ele vai pensar da promessa, quando a terra prometida não lhe dá pão? Vale a pena aceitar uma concessão dessas, nesses termos e depois de tanto tempo?
Sim: Isaque continua apegado à aliança; e quanto menos valiosa Canaã parece ser em si mesma, melhor ele é ensinado a dar-lhe valor:
Como sinal da bondade eterna de Deus para com ele.
E como tipo da bem-aventurança eterna do céu.
Repare: o valor intrínseco das promessas de Deus não pode ser diminuído aos olhos do crente por nenhuma providência contrária.
II. Ele o dirigiu nessa prova pela sua palavra. Isaque se vê apertado pela escassez de mantimentos. Para algum lugar tem de ir buscar abastecimento.
Ao que parece, partiu em direção ao Egito, para onde o seu pai fora em aperto semelhante, mas passou por Gerar no caminho, sem dúvida ponderando que rumo seria melhor tomar, até que Deus lhe apareceu graciosamente e lhe deu uma orientação que o satisfez plenamente.
- Deus lhe ordenou que ficasse onde estava e não descesse ao Egito: “Peregrina nesta terra”, v. 2, 3.
Houve fome nos dias de Jacó, e Deus lhe ordenou que descesse ao Egito (Gênesis 46:3, 4); fome nos dias de Isaque, e Deus lhe ordenou que não descesse; fome nos dias de Abraão, e Deus o deixou em liberdade, não o dirigindo nem para um lado nem para o outro.
Essa variedade no proceder divino (visto que o Egito sempre foi lugar de prova e de exercício para o povo de Deus) alguns a fundamentam nos diferentes caracteres desses três patriarcas.
Abraão havia alcançado grande maturidade espiritual e tinha comunhão íntima com Deus; para ele todos os lugares e todas as condições eram iguais. Isaque era homem muito bom, mas não talhado para as agruras; por isso lhe é proibido ir ao Egito.
Jacó estava calejado para as dificuldades, forte e paciente; por isso tem de descer ao Egito, para que a prova da sua fé seja para louvor, e honra, e glória. Assim Deus proporciona as provas do seu povo à força deles.
Ele prometeu estar com ele e abençoá-lo, v. 3. Assim como podemos ir a qualquer lugar com consolo quando a bênção de Deus vai conosco, assim podemos ficar em qualquer lugar contentes se essa bênção repousa sobre nós.
Ele renovou com ele a aliança que tantas vezes fora feita com Abraão, repetindo e ratificando as promessas da terra de Canaã, de uma descendência numerosa e do Messias, v. 3, 4.
Repare: aqueles que têm de viver pela fé precisam muitas vezes rever e repetir para si mesmos as promessas de que devem viver, sobretudo quando são chamados a algum caso de sofrimento ou de abnegação.
- Ele lhe apresentou como exemplo a obediência do seu pai, pela qual a aliança continuara como herança da sua família (v. 5): “Abraão obedeceu à minha voz; faze tu também assim, e a promessa te será firme.”
A obediência de Abraão é aqui celebrada, para honra dele; porque por ela obteve bom testemunho tanto da parte de Deus quanto da parte dos homens.
Uma grande variedade de palavras é aqui usada para exprimir a vontade divina a que Abraão foi obediente (“a minha voz, o meu mandado, os meus mandamentos, os meus estatutos e as minhas leis”), o que pode dar a entender que a obediência de Abraão era universal.
Ele obedeceu às leis originais da natureza e às leis reveladas do culto divino, em especial a da circuncisão.
Obedeceu também a todos os preceitos extraordinários que Deus lhe deu, como o de deixar a sua terra e o de oferecer o seu filho (ao qual, segundo alguns, a passagem se refere em especial), de que o próprio Isaque tinha motivo de sobra para se lembrar.
Repare: só terão o benefício e o consolo da aliança de Deus com os seus pais piedosos aqueles que andam nas pegadas da obediência deles.
Versículos 6 a 11
Isaque Nega a Sua Mulher. (a.C. 1840.)
Isaque já havia posto de lado todo pensamento de ir ao Egito e, em obediência à visão celestial, estabeleceu-se em Gerar, a região em que havia nascido (v. 6).
Contudo, ali ele entra em tentação, a mesma tentação pela qual o seu bom pai já fora surpreendido e vencido mais de uma vez: a de negar a sua mulher e dar a entender que ela era sua irmã. Observe:
I. Como ele pecou, v. 7. Porque a sua mulher era bonita, ele imaginou que os filisteus dariam um jeito ou outro de tirá-lo do caminho, para que algum deles pudesse casar com ela; e por isso ela tinha de passar por sua irmã.
É coisa inexplicável que ambos estes homens, grandes e bons, fossem culpados de uma dissimulação tão estranha, com a qual expuseram de tal modo tanto a própria reputação quanto a das suas mulheres. Mas vemos:
Que homens muito bons às vezes foram culpados de faltas e loucuras muito grandes. Portanto, que aqueles que estão de pé tomem cuidado para não caírem, e que os que caíram não percam a esperança de serem levantados outra vez.
Que há em nós uma tendência a imitar até as fraquezas e as enfermidades daqueles por quem temos apreço. Precisamos, portanto, guardar os pés, para que, ao procurarmos seguir os passos dos homens bons, não sigamos também os seus desvios.
II. Como ele foi flagrado e o embuste descoberto pelo próprio rei. Abimeleque não era o mesmo dos dias de Abraão, em Gênesis 20, pois isto se passou quase cem anos depois; Abimeleque era um nome comum dos reis filisteus, assim como César entre os imperadores romanos.
Ele viu Isaque mais íntimo e afetuoso com Rebeca do que seria com uma irmã (v. 8).
Ele o viu brincando com ela, ou rindo; é a mesma palavra que aquela de que Isaque recebeu o nome. Ele se alegrava com a mulher da sua mocidade, Provérbios 5:18.
Convém aos que estão nessa relação serem agradáveis uns com os outros, como quem se agrada um do outro. Em nenhum lugar um homem pode permitir-se estar inocentemente alegre mais do que com a própria mulher e os próprios filhos.
Abimeleque acusou-o da fraude (v. 9), mostrou-lhe como era frívola a sua desculpa e quais poderiam ter sido as más consequências dela (v. 10).
Então, para convencê-lo de como era infundada e injusta a sua desconfiança dos filisteus, tomou-o com sua família sob sua proteção especial e proibiu, sob pena de morte, que se fizesse qualquer mal a ele ou à sua mulher, v. 11. Repare:
“A língua mentirosa dura só um momento.” A verdade é filha do tempo; e, com o tempo, ela virá à tona.
Um pecado é muitas vezes a porta de entrada para muitos, e por isso os começos do pecado devem ser evitados.
Os pecados dos que professam a fé os envergonham diante dos que estão de fora.
Deus pode fazer com que os que estão irritados contra o seu povo, ainda que possa haver alguma aparência de causa para isso, saibam que, se lhes fizerem qualquer mal, será por sua conta e risco. Veja Salmos 105:14, 15.
Versículos 12 a 25
A Mudança de Isaque para Berseba. (a.C. 1804.)
Aqui temos:
I. Os sinais da boa vontade de Deus para com Isaque: ele o abençoou, o fez prosperar e fez florescer, debaixo das suas mãos, tudo o que ele tinha.
- Sua colheita se multiplicou de modo extraordinário, v. 12. Ele não tinha terra própria, mas tomou terra dos filisteus e a semeou; e (note-se isto, para o encorajamento dos arrendatários pobres, que ocupam terras alheias e são honestos e diligentes) Deus o abençoou com um grande aumento.
Ele colheu cem por um; e parece haver uma ênfase posta no tempo: foi naquele mesmo ano em que havia fome na terra. Enquanto outros mal colhiam alguma coisa, ele colhia com tal fartura. Veja Isaías 65:13: “Os meus servos comerão, mas vós tereis fome”; Salmos 37:19: “Nos dias de fome, serão saciados”.
O seu gado também aumentou, v. 14.
E, então, ele tinha grande número de servos, que empregava e sustentava. Repare: “Quando os bens são aumentados, são aumentados os que deles comem”, Eclesiastes 5:11.
II. Os sinais da má vontade dos filisteus para com ele. Eles o invejaram, v. 14. É um exemplo:
Da vaidade do mundo: quanto mais os homens têm dele, mais são invejados e expostos à censura e à injúria. “Quem pode ficar em pé diante da inveja?” Provérbios 27:4. Veja Eclesiastes 4:4.
Da corrupção da natureza; porque é mau princípio, de fato, aquele que faz os homens se entristecerem com o bem dos outros, como se tivesse necessariamente de me ir mal porque vai bem ao meu vizinho.
(1.) Eles já tinham mostrado a sua má vontade para com a família dele, tapando os poços que o seu pai havia cavado, v. 15. Isso foi feito por despeito. Como não tinham rebanhos próprios para dar de beber nesses poços, não os queriam deixar para o uso de outros; tão absurda é a malícia.
E foi feito com perfídia, contra a aliança de amizade que haviam feito com Abraão, Gênesis 21:31, 32. Nenhum vínculo prende a má índole.
(2.) Eles o expulsaram da sua terra, v. 16, 17. O rei de Gerar começou a olhá-lo com desconfiança. A casa de Isaque era como uma corte, e as suas riquezas e o seu séquito eclipsavam os de Abimeleque; por isso ele tinha de ir para mais longe.
Estavam cansados da vizinhança dele, porque viam que o Senhor o abençoava; ao passo que, por essa razão, deveriam antes ter buscado sua permanência, para que também eles fossem abençoados por causa dele.
Isaque não insiste no acordo que fizera com eles pelas terras que ocupava, nem no fato de tê-las ocupado e cultivado, nem se propõe a lhes fazer frente pela força, embora tivesse se tornado muito poderoso. Parte dali em paz, para mais longe da cidade real, talvez para uma região menos fértil.
Repare: devemos negar a nós mesmos tanto nos nossos direitos quanto nas nossas comodidades, em vez de entrar em desavença. Um homem sábio e bom preferirá retirar-se para a obscuridade, como Isaque aqui para um vale, a sentar-se no alto para ser alvo de inveja e de má vontade.
III. Sua perseverança nos afazeres:
- Ele manteve suas atividades rurais e continuou diligente em achar poços de água e prepará-los para seu uso, v. 18, etc.
Embora tivesse ficado muito rico, ainda assim estava tão cuidadoso como sempre a respeito do estado dos seus rebanhos, e continuava a olhar bem pelas suas manadas. Quando os homens crescem em grandeza, precisam tomar cuidado para não se acharem grandes demais e altos demais para os seus afazeres.
Embora tivesse perdido as comodidades de antes e não pudesse continuar suas atividades com a mesma facilidade e vantagem, dispôs-se a aproveitar da melhor maneira a região para onde se mudara, o que é prudente para qualquer pessoa. Observe:
(1.) Ele abriu os poços que o seu pai havia cavado (v. 18) e, por respeito ao pai, chamou-os pelos mesmos nomes que ele lhes dera. Repare: nas nossas buscas pela verdade, aquela fonte de água viva, é bom fazer uso das descobertas das eras passadas, que foram obscurecidas pelas corrupções dos tempos posteriores.
Procurem o caminho antigo, os poços que os nossos pais cavaram e que os adversários da verdade taparam; perguntem aos anciãos, e eles ensinarão.
(2.) Os seus servos cavaram poços novos, v. 19. Repare: embora devamos usar a luz das eras passadas, não se segue por isso que devamos descansar nela e não fazer avanços. Devemos continuamente edificar sobre o fundamento delas, correndo de um lado para outro, para que o conhecimento seja aumentado, Daniel 12:4.
(3.) Ao cavar os seus poços, ele encontrou muita oposição, v. 20, 21. Os que abrem as fontes da verdade devem esperar contradição. Os dois primeiros poços que cavaram foram chamados Eseque e Sitna, disputa e ódio. Veja aqui:
[1.] Qual é a natureza das coisas do mundo: são semeadoras de discórdia e ocasiões de contenda.
[2.] Qual é muitas vezes a sorte até dos homens mais sossegados e pacíficos deste mundo: os que evitam contender, ainda assim não podem evitar que contendam com eles, Salmos 120:7. Nesse sentido, Jeremias foi “homem de disputa” (Jeremias 15:10), e o próprio Cristo, embora seja o Príncipe da Paz.
[3.] Que misericórdia é ter água em abundância, e tê-la sem contender por ela. Quanto mais comum é esta misericórdia, mais razão temos para ser gratos por ela.
(4.) Por fim, mudou-se para se estabelecer em sossego, apegado ao seu princípio pacífico, antes fugir que lutar, e sem querer morar com os que odiavam a paz, Salmos 120:6. Ele preferiu o sossego à vitória. Cavou um poço, e por este não contenderam, v. 22.
Repare: os que seguem a paz, cedo ou tarde, acharão paz; os que se empenham em estar em sossego raramente deixam de estar. Como Isaque era diferente do seu irmão Ismael, que, com razão ou sem ela, queria segurar o que tinha, contra o mundo inteiro! Gênesis 16:12. E de qual dos dois seríamos achados seguidores?
Este poço eles chamaram de Reobote, amplidão, espaço de sobra: nos dois poços anteriores podemos ver o que é a terra, estreiteza e contenda; os homens não conseguem prosperar, espremidos pelos vizinhos. Este poço nos mostra o que é o céu: amplidão e paz, espaço de sobra, porque ali há muitas moradas.
- Ele continuou firme na sua religião e manteve a sua comunhão com Deus.
(1.) Deus lhe apareceu graciosamente, v. 24. Quando os filisteus o expulsaram, o obrigaram a mudar de lugar em lugar e o importunavam continuamente, então Deus o visitou e lhe deu novas garantias do seu favor.
Repare: quando os homens se mostram desleais e sem bondade, podemos nos consolar com o fato de que Deus é fiel e gracioso; e o momento em que ele se mostra assim é aquele em que os homens mais frustram nossas expectativas.
Quando Isaque tinha chegado a Berseba (v. 23), é provável que o incomodasse pensar na sua condição sem estabilidade, e em que não se lhe permitia ficar muito tempo num lugar.
E, na multidão desses pensamentos dentro dele, naquela mesma noite em que chegou cansado e inquieto a Berseba, Deus lhe trouxe os seus consolos para deleitar a sua alma.
Provavelmente ele receava que os filisteus não o deixassem repousar ali. “Não temas”, diz-lhe Deus, “eu estou contigo e te abençoarei.” Podem mudar-se com consolo os que estão certos da presença de Deus com eles aonde quer que vão.
(2.) Ele também cumpriu seus deveres para com Deus; pois ali “edificou um altar e invocou o nome do Senhor”, v. 25. Repare:
[1.] Aonde quer que formos, devemos levar a nossa religião conosco. Provavelmente os altares de Isaque e o seu culto religioso ofendiam os filisteus e os provocavam a ser tanto mais incômodos para com ele; ainda assim ele manteve o seu dever, qualquer que fosse a má vontade a que isso o expusesse.
[2.] Os consolos e encorajamentos que Deus nos dá pela sua palavra devem nos estimular e avivar para todo exercício de devoção pelo qual Deus seja honrado e mantida a nossa comunhão com o céu.
Versículos 26 a 33
A Aliança de Isaque com Abimeleque. (a.C. 1760.)
Temos aqui as pendências que houve entre Isaque e os filisteus, terminando em feliz paz e reconciliação.
I. Abimeleque faz uma visita amistosa a Isaque, em sinal do respeito que tinha por ele, v. 26.
Repare: “Quando os caminhos de um homem agradam ao Senhor, ele faz que até os seus inimigos tenham paz com ele”, Provérbios 16:7. Os corações dos reis estão nas mãos dele, e, quando quer, pode voltá-los para favorecer o seu povo.
II. Isaque, com prudência e cautela, põe em dúvida a sinceridade dele nesta visita, v. 27.
Repare: ao firmar amizades e relações, é preciso a sabedoria da serpente, bem como a inocência da pomba. Nem é transgressão alguma da lei da mansidão e do amor manifestar com clareza a nossa viva percepção das injúrias recebidas, e ficar de sobreaviso ao tratar com os que agiram sem lisura.
III. Abimeleque declara a sua sinceridade ao falar com Isaque e busca com empenho a amizade dele, v. 28, 29.
Alguns sugerem que Abimeleque insistiu neste acordo com ele porque temia que Isaque, enriquecendo, viesse um dia ou outro a vingar-se deles pelas injúrias que havia recebido. Contudo, ele declara fazê-lo antes por um princípio de amor.
- Ele apresenta da melhor maneira o comportamento deles para com ele. Isaque se queixou de que o haviam odiado e o haviam mandado embora. Não, disse Abimeleque: “nós te despedimos em paz”. Eles o expulsaram da terra que ele tinha deles; mas permitiram que levasse consigo o seu gado e todos os seus haveres.
Repare: atenuar as injúrias é necessário para preservar a amizade; porque agravá-las exaspera e alarga as rupturas. A descortesia que nos fizeram poderia ter sido pior.
- Ele reconhece o sinal do favor de Deus para com ele, e faz disso o fundamento do desejo que tinham de estar em acordo com ele: “O Senhor é contigo, e tu és o bendito do Senhor.”
Como se dissesse: “Deixa-te persuadir a relevar e a passar por cima das injúrias que te foram feitas; porque Deus te compensou abundantemente o dano que recebeste.”
Repare: aqueles a quem Deus abençoa e favorece têm razão de sobra para perdoar os que os odeiam, pois o pior inimigo que têm não lhes pode fazer nenhum dano real.
Ou então: “Por esta razão desejamos a tua amizade, porque Deus é contigo.” Repare: é bom estar em aliança e em comunhão com aqueles que estão em aliança e em comunhão com Deus, 1 João 1:3; presente discurso a ele foi o resultado de madura deliberação: “Dissemos: Haja um juramento entre nós.”
Fosse o que fosse que alguns dos seus súditos rabugentos e invejosos quisessem em contrário, ele e os seus principais ministros de Estado, que agora trazia consigo, não tinham outra intenção senão uma amizade cordial.
Talvez Abimeleque tivesse recebido, por tradição, o aviso que Deus deu ao seu antecessor para não fazer mal a Abraão (Gênesis 20:7), e isso o fez ter tanta reverência por Isaque, o qual parecia ser o favorito do Céu tanto quanto Abraão foi.
IV. Isaque o hospeda, a ele e à sua comitiva, e entra num acordo de amizade com ele, v. 30, 31. Veja aqui como o bom homem foi generoso:
No dar: “ele lhes fez um banquete”, e lhes deu as boas-vindas.
No perdoar. Ele não insistiu nas descortesias que lhe haviam feito, mas entrou de bom grado numa aliança de amizade com eles, e se obrigou a nunca lhes fazer nenhuma injúria.
Repare: a religião nos ensina a ser bons vizinhos e, quanto está ao nosso alcance, a viver em paz com todos os homens.
V. A Providência sorriu para o que Isaque fez; porque no mesmo dia em que fez esta aliança com Abimeleque, os seus servos lhe trouxeram a notícia de um poço de água que haviam achado, v. 32, 33.
Ele não insistiu na restituição dos poços que os filisteus lhe haviam tomado injustamente, para que isso não rompesse o tratado, mas ficou em silêncio sob a injúria.
E, para recompensá-lo por isso, logo é enriquecido com um novo poço, que, por combinar tão bem com o que ocorreu naquele dia, ele chamou por um nome antigo: Berseba, o poço do juramento.
Versículos 34 a 35
O Casamento Insensato de Esaú. (a.C. 1760.)
Aqui está:
- O casamento insensato de Esaú. Alguns o consideram insensato por ele ter se casado com duas mulheres ao mesmo tempo, motivo pelo qual talvez seja chamado de fornicador (Hebreus 12:16).
Mais provavelmente, foi insensato por ele ter se casado com cananeias, estranhas à bênção de Abraão e sujeitas à maldição de Noé, motivo pelo qual é chamado de profano. Com isso, Esaú deu a entender que não desejava a bênção nem temia a maldição de Deus.
- A tristeza e a aflição que isso causou aos seus pais afetuosos:
(1.) Entristeceu-os que ele se casasse sem pedir, ou ao menos sem acatar, o conselho e o consentimento deles: veja nos passos de quem andam os filhos que ou desprezam ou contrariam os pais ao dispor de si mesmos.
(2.) Entristeceu-os que ele se casasse com as filhas dos heteus, que não tinham religião alguma entre eles; porque Isaque se lembrava do cuidado do seu pai a respeito dele, de que de modo nenhum se casasse com uma cananeia.
(3.) Ao que parece, as mulheres com quem ele se casou provocavam Isaque e Rebeca com sua conduta. Pouca razão têm de esperar a bênção de Deus os filhos que fazem aquilo que entristece profundamente seus bons pais.