Gênesis 24
Argumento
Casamentos e funerais são as mudanças das famílias, e a notícia comum entre os habitantes das aldeias. No capítulo anterior tivemos Abraão sepultando a esposa; aqui o temos casando o filho.
Essas histórias a respeito da família dele, com as suas circunstâncias miúdas, são relatadas com amplitude, enquanto as histórias dos reinos do mundo que então existiam, com as suas revoluções, estão sepultadas no silêncio; porque “o Senhor conhece os que são seus”.
O acréscimo do casamento de Isaque ao funeral de Sara (com uma referência particular a ele, v. 67) nos mostra que, assim como “uma geração passa, outra geração vem”, assim se preserva o vínculo hereditário, tanto da natureza humana quanto da aliança. Aqui está:
I. O cuidado de Abraão com o casamento do filho, e o encargo que deu ao seu servo a respeito disso, vv. 1-9.
II. A viagem do seu servo à terra de Abraão, para buscar mulher para o seu jovem senhor entre os próprios parentes dele, vv. 10-14.
III. A providência bondosa que o levou a travar conhecimento com Rebeca, cujo pai era primo-irmão de Isaque, vv. 15-28.
IV. A negociação do casamento com os parentes dela, vv. 29-49.
V. O consentimento deles obtido, vv. 50-60.
VI. O feliz encontro e casamento entre Isaque e Rebeca, v. 61, etc.
Versículos 1 a 9
Os Encargos de Abraão ao Seu Servo. (a.C. 1857.)
Três coisas podemos observar aqui a respeito de Abraão:
I. O cuidado que ele teve com um bom filho, para casá-lo, e casá-lo bem. Já era tempo de pensar nisso, pois Isaque tinha cerca de quarenta anos, e era costume entre os seus antepassados casar aos trinta, ou antes, Gênesis 11:14, 18, 22, 24.
Abraão cria na promessa da edificação da sua família, e por isso não se apressou; não quis ter pressa que atrapalhasse o bom andamento. Duas considerações o moveram a pensar nisso agora (v. 1):
Que ele mesmo provavelmente deixaria o mundo em breve, pois era “velho e bem avançado em idade”, e seria uma satisfação para ele ver o filho estabelecido antes de morrer.
E que ele tinha um bom patrimônio a deixar atrás de si, pois “o Senhor o havia abençoado em todas as coisas”; e “a bênção do Senhor enriquece”. Veja o quanto a religião e a piedade favorecem a prosperidade exterior. Ora, o piedoso cuidado de Abraão a respeito do filho era este:
(1.) Que ele não se casasse com uma filha de Canaã, mas com uma da sua parentela. Ele via que os cananeus estavam degenerando em grande impiedade, e sabia por revelação que estavam destinados à ruína, e por isso não quis casar o filho entre eles, para que não fossem ou um laço para a sua alma, ou ao menos uma mancha para o seu nome.
(2.) Que, contudo, ele não deixasse a terra de Canaã para ir ele mesmo até a sua parentela, nem mesmo com o propósito de escolher esposa, para que não fosse tentado a se estabelecer ali.
Esta cautela é dada no v. 6 e repetida no v. 8. “Não leves meu filho para lá outra vez, aconteça o que acontecer. Antes lhe falte uma esposa do que se exponha a essa tentação.”
Repare: os pais, ao encaminhar os filhos, devem zelar cuidadosamente pelo bem-estar das almas deles e pelo seu progresso no caminho do céu.
Aqueles que pela graça “escaparam da corrupção que há no mundo pela concupiscência”, e criaram os filhos de acordo com isso, devem cuidar de não fazer nada pelo qual possam de novo ficar “enredados nela e vencidos”, 2 Pedro 2:20. Cuide para não os levar para lá outra vez, Hebreus 11:15.
II. O encargo que ele deu a um bom servo, provavelmente Eliézer de Damasco, de cuja conduta, fidelidade e afeição por ele e pela sua família ele tinha longa experiência.
Confiou-lhe este grande negócio, e não a Isaque mesmo, porque não queria que Isaque fosse de modo algum àquela terra, mas que casasse ali por procuração; e nenhum procurador tão apto quanto este mordomo da sua casa. Este assunto é acertado entre o senhor e o servo com muito cuidado e solenidade:
- O servo deve ser obrigado por juramento a fazer o máximo para conseguir esposa para Isaque entre os seus parentes, vv. 2-4. Abraão o faz jurar isso, tanto para sua própria satisfação quanto para o comprometimento do servo com todo cuidado e diligência possíveis neste assunto.
Assim Deus faz os seus servos jurarem quanto à sua obra, para que, tendo jurado, a cumpram. Aqui é prestada honra ao Deus eterno, pois é por ele que se jura, a quem somente esses apelos devem ser feitos.
E alguns pensam que se presta honra à aliança da circuncisão pela cerimônia aqui usada de pôr a mão debaixo da coxa.
Repare: sendo o juramento uma ordenança não peculiar à igreja, mas comum a toda a humanidade, deve ser feito por sinais que sejam as determinações e os usos comuns do nosso país, para obrigar a pessoa que jura.
- Ele deve ficar livre deste juramento se, depois de ter feito o máximo, não puder consegui-lo. Esta ressalva o servo prudentemente inseriu (v. 5), pondo o caso de a mulher não querer segui-lo; e Abraão admitiu a exceção, v. 8.
Repare: os juramentos devem ser feitos com grande cautela, e a matéria que se jura deve ser retamente entendida e limitada, porque é laço devorar o que é santo e, depois dos votos, fazer a inquirição que deveria ter sido feita antes.
III. A confiança que ele depositou num bom Deus, que, não duvida ele, dará êxito ao seu servo nesta empreitada, v. 7.
Ele se lembra de que Deus o havia trazido maravilhosamente para fora da terra do seu nascimento, pelo chamado eficaz da sua graça; e por isso não duvida de que lhe dará bom êxito no seu cuidado de não levar o filho para lá outra vez.
Lembra-se também da promessa que Deus lhe fizera e confirmara, de que daria Canaã à sua descendência, e daí infere que Deus o reconheceria nos seus esforços para casar o filho, não entre aquelas nações votadas à destruição, mas com uma que fosse apta a ser a mãe de tal descendência.
“Não temas, portanto; ele enviará o seu anjo adiante de ti para tornar próspero o teu caminho.”
Repare: 1. Aqueles que cuidadosamente se mantêm no caminho do dever, e se governam pelos princípios da sua religião nos seus desígnios e empreitadas, têm boa razão para esperar prosperidade e êxito neles. Deus fará que resulte em nosso consolo aquilo em que sinceramente visamos à glória dele.
As promessas de Deus, e as nossas próprias experiências, são suficientes para animar a nossa dependência de Deus, e as nossas expectativas dele, em todos os negócios desta vida.
Os anjos de Deus são “espíritos ministradores, enviados” não só para a proteção, mas para a direção dos herdeiros da promessa, Hebreus 1:14. “Ele enviará o seu anjo adiante de ti, e então te sairás bem.”
Versículos 10 a 28
A Viagem do Servo de Abraão. (a.C. 1857.)
O servo de Abraão começa agora a ter destaque nesta história; e, ainda que não seja nomeado, muita coisa fica aqui registrada em honra dele, e como exemplo para todos os servos, que serão honrados se, servindo fielmente a Deus e aos seus senhores, adornarem a doutrina de Cristo (compare Provérbios 27:18 com Tito 2:10); porque para com Deus não há acepção de pessoas, Colossenses 3:24, 25.
O bom servo que faz consciência do dever do seu posto, e o cumpre no temor de Deus, ainda que não tenha destaque no mundo nem receba louvor dos homens, será acolhido e aceito por Deus e terá louvor dele. Observe aqui:
I. Quão fiel se mostrou o servo de Abraão para com o seu senhor. Recebido o encargo, partiu em viagem com toda a presteza, com uma comitiva condizente com o objeto da sua negociação (v. 10).
E tinha na mão todos os bens do seu senhor, isto é, um rol, ou relação particular deles, para mostrar àqueles com quem devia tratar; porque, do princípio ao fim, ele zelou pela honra do seu senhor.
Sendo Isaque um tipo de Cristo, alguns fazem este buscar uma esposa para ele significar o desposar da igreja pela atuação dos seus servos, os ministros. A igreja é “a noiva, a esposa do Cordeiro”, Apocalipse 21:9.
Cristo é o noivo, e os ministros são os amigos do noivo (João 3:29), cuja obra é persuadir as almas a consentirem nele, 2 Coríntios 11:2. A esposa de Cristo não deve ser das cananeias, mas da sua própria parentela, nascida de novo do alto.
Os ministros, como o servo de Abraão, devem empenhar-se com a maior sabedoria e cuidado para servir nisto ao interesse do seu senhor.
II. Com quanta devoção ele reconheceu a Deus neste negócio, como um daquela casa feliz a quem Abraão havia ordenado que “guardasse o caminho do Senhor”, etc., Gênesis 18:19.
Ele chegou ao lugar de destino no começo da noite (depois de muitos dias de viagem), e repousou junto a um poço de água, para considerar como poderia conduzir da melhor forma a sua tarefa. E:
- Ele reconhece a Deus por meio de uma oração particular (vv. 12-14), na qual:
(1.) Ele pede prosperidade e bom êxito neste negócio: “Envia-me hoje bom sucesso”. Repare: temos licença para ser particulares ao recomendar os nossos negócios à condução e ao cuidado da divina Providência.
Quem quer ter bom sucesso deve orar por ele. “Hoje”, neste negócio; assim devemos, em todos os nossos caminhos, reconhecer a Deus, Provérbios 3:6.
E, se assim olharmos para Deus em cada empreitada que nos dá cuidado, teremos o consolo de haver cumprido o nosso dever, seja qual for o desfecho.
(2.) Ele alega a aliança de Deus com o seu senhor Abraão: “Ó Deus do meu senhor Abraão, mostra benignidade a ele”.
Repare: assim como os filhos de bons pais, também os servos de bons senhores têm encorajamento peculiar nas orações que oferecem a Deus por prosperidade e êxito.
(3.) Ele propõe um sinal (v. 14), não para com ele limitar a Deus, nem com o desígnio de não ir adiante caso não fosse atendido nele; mas é uma oração:
[1.] Que Deus providenciasse uma boa esposa para o seu jovem senhor, e esta era uma boa oração. Ele sabia que “uma esposa prudente vem do Senhor” (Provérbios 19:14), e sabia, portanto, que Deus devia ser buscado a esse respeito.
Ele deseja que a esposa do seu senhor fosse uma mulher humilde e diligente, criada para o cuidado e para o trabalho, e disposta a pôr a mão em qualquer serviço que houvesse a fazer; e que fosse de índole cortês, e caridosa para com os estranhos.
Quando veio buscar uma esposa para o seu senhor, ele não foi ao teatro nem ao parque, para orar que encontrasse uma ali, mas ao poço de água, esperando achar ali uma bem ocupada.
[2.] Que ele se dignasse tornar o seu caminho, neste assunto, plano e claro diante dele, pelo concurso de circunstâncias miúdas a seu favor.
Repare: primeiro, é o consolo, bem como a crença, de um homem bom, que a providência de Deus se estende às menores ocorrências e admiravelmente serve por elas aos seus próprios propósitos.
Os nossos tempos estão na mão de Deus; não só os próprios acontecimentos, mas os tempos deles.
Segundo, é sabedoria nossa, em todos os nossos negócios, seguir a Providência, e loucura forçá-la.
Terceiro, é muito desejável, e coisa pela qual podemos licitamente orar, enquanto em geral pomos diante de nós a vontade de Deus como a nossa regra, que ele, por acenos da providência, nos dirija no caminho do nosso dever, e nos dê indicações do que ele tem em mente.
Assim ele guia o seu povo com o seu olhar (Salmos 32:8), e os conduz por vereda plana, Salmos 27:11.
- Deus o reconhece por meio de uma providência particular. Ele decretou a coisa, e ela lhe foi estabelecida, Jó 22:28. Segundo a sua fé, assim lhe foi feito. A resposta a esta oração foi:
(1.) Pronta — antes que ele tivesse acabado de falar (v. 15), como está escrito (Isaías 65:24): “Enquanto ainda estiverem falando, eu ouvirei”. Ainda que sejamos tardios em orar, Deus é pronto em ouvir a oração.
(2.) Satisfatória: a primeira que veio tirar água correspondia, em tudo o que era e fazia, ao desejo do coração dele.
[1.] Ela era tão bem qualificada que em todos os aspectos correspondia aos traços que ele desejava na mulher que devia ser a esposa do seu senhor: formosa e sadia, humilde e diligente, muito cortês e prestativa com um estranho, e com todas as marcas de uma boa índole.
Quando ela chegou ao poço (v. 16), desceu e encheu o seu cântaro, e subiu para voltar para casa com ele.
Ela não ficou parada a contemplar o homem estranho e os seus camelos, mas cuidou da sua tarefa, e não se teria desviado dela senão por uma ocasião de fazer o bem.
Ela não entrou em conversa com ele com curiosidade nem com atrevimento, mas respondeu-lhe com modéstia, com todo o decoro que convinha ao seu sexo.
Em que época degenerada vivemos, em que aparecem todos os exemplos de orgulho, luxo e preguiça, o contrário do caráter de Rebeca, a quem poucas filhas se assemelham!
Aqueles exemplos de bondade que então estavam em honra estão agora em desprezo.
[2.] A Providência de tal modo ordenou que ela fez exatamente o que correspondia ao seu sinal, e era admiravelmente a contraparte da sua proposta: ela não só lhe deu de beber, mas, o que era mais do que se poderia esperar, ofereceu os seus serviços para dar de beber aos seus camelos, que era o próprio sinal que ele propusera.
Repare: primeiro, Deus, na sua providência, às vezes acolhe admiravelmente a oração da fé, e satisfaz os desejos inocentes do seu povo que ora, até nas coisas pequenas, para mostrar a extensão do seu cuidado, e para animá-los a buscá-lo e a confiar nele em todo tempo.
Contudo, devemos guardar-nos de ser ousados demais em prescrever a Deus, para que o desfecho não enfraqueça a nossa fé em vez de fortalecê-la.
Segundo, é bom aproveitar todas as ocasiões de mostrar uma índole humilde, cortês e caridosa, porque, uma hora ou outra, isso pode reverter em nossa honra e proveito mais do que pensamos.
Alguns, assim, hospedaram anjos, e Rebeca, assim, muito além do que esperava naquele momento, foi trazida para a linhagem de Cristo e da aliança.
Terceiro, pode haver muita bondade atenciosa naquilo que custa pouco: o nosso Salvador prometeu recompensa por um copo de água fria, Mateus 10:42.
Quarto, o concurso das providências e as suas circunstâncias miúdas, para o avanço do nosso êxito em qualquer tarefa, devem ser particularmente observados, com admiração e gratidão, para a glória de Deus: o homem se admirou, v. 21.
Temos faltado a nós mesmos, tanto no dever quanto no consolo, por negligenciar a observação da Providência.
[3.] Ao indagar, ele descobriu, para sua grande satisfação, que ela era parenta próxima do seu senhor, e que a família a que ela pertencia era considerável, e capaz de lhe dar hospedagem, vv. 23-25.
Repare: a Providência às vezes dirige admiravelmente aqueles que pela fé e pela oração buscam direção do céu na escolha de companheiros de jugo adequados.
Casamentos felizes serão, provavelmente, os que se fazem no temor de Deus; e estes, temos certeza, são feitos no céu.
- Ele reconhece a Deus por meio de uma ação de graças particular. Primeiro ele prestou as suas homenagens a Rebeca, em gratidão pela gentileza dela (v. 22), presenteando-a com adornos e atavios que uma donzela, sobretudo uma noiva, não pode esquecer (Jeremias 2:32).
O que, contudo, pensaríamos nós, combinava mal com o cântaro de água; mas os brincos e as pulseiras que ela às vezes usava não a faziam julgar-se acima dos trabalhos de uma mulher virtuosa (Provérbios 31:13), que trabalha de boa vontade com as suas mãos.
Nem acima dos serviços de uma criança, que, enquanto menor, “em nada difere de um servo”, Gálatas 4:1. Feito isto, ele converte a sua admiração (v. 21) em adoração: “Bendito seja o Senhor Deus do meu senhor Abraão”, v. 26, 27. Observe aqui:
(1.) Ele havia orado por bom sucesso (v. 12), e agora que teve bom sucesso ele dá graças. Repare: o que ganhamos pela oração devemos trazer com louvor; porque as misericórdias em resposta à oração nos põem debaixo de obrigações particulares.
(2.) Ele tinha até então apenas uma perspectiva consoladora de misericórdia, e não estava certo do que o desfecho viria a ser; contudo, ele dá graças. Repare: quando os favores de Deus vêm vindo em nossa direção, devemos recebê-los com os nossos louvores.
(3.) Ele bendiz a Deus pelo êxito quando estava negociando para o seu senhor. Repare: devemos ser gratos pelas misericórdias do nosso amigo como pelas nossas próprias.
(4.) Ele dá graças que, estando no caminho, sem saber que rumo tomar, o Senhor o havia conduzido. Repare: em casos duvidosos, é muito consolador ver Deus conduzindo-nos, como conduziu Israel no deserto pela coluna de nuvem e de fogo.
(5.) Ele se considera muito feliz, e nisso reconhece a Deus, por ter sido conduzido à casa dos irmãos do seu senhor, aqueles dentre eles que haviam saído de Ur dos caldeus, ainda que não tivessem vindo a Canaã, mas permanecido em Harã.
Eles não eram idólatras, mas adoradores do Deus verdadeiro, e inclinados à religião da família de Abraão. Repare: Deus deve ser reconhecido ao prover companheiros de jugo adequados, sobretudo os que concordam na religião.
(6.) Ele reconhece que Deus, nisto, não havia deixado o seu senhor destituído da sua misericórdia e da sua verdade.
Deus havia prometido edificar a família de Abraão, e contudo ela parecia destituída do benefício daquela promessa; mas agora a Providência está trabalhando para o cumprimento dela. Repare:
[1.] Os fiéis de Deus, por mais destituídos que estejam de consolos mundanos, nunca serão deixados destituídos da misericórdia e da verdade de Deus; porque a misericórdia de Deus é fonte inesgotável, e a sua verdade, fundamento inviolável.
[2.] Acrescenta muito ao consolo de qualquer bênção ver nela a continuação da misericórdia e da verdade de Deus.
Versículos 29 a 53
O Servo de Abraão Hospedado por Labão; A Incumbência do Servo de Abraão. (a.C. 1857.)
Temos aqui o acerto do casamento entre Isaque e Rebeca. É relatado com muita amplitude e minúcia, até nas circunstâncias miúdas, que, pensaríamos nós, poderiam ter sido poupadas, enquanto outras coisas de grande peso e mistério (como a história de Melquisedeque) são relatadas em poucas palavras.
Assim Deus esconde dos sábios e entendidos o que é primoroso, revela aos pequeninos o que é comum e ao alcance da capacidade deles (Mateus 11:25), e governa e salva o mundo pela loucura da pregação, 1 Coríntios 1:21.
Assim também somos orientados a reparar na providência de Deus nas pequenas ocorrências comuns da vida humana, e nelas também a exercer a nossa própria prudência e as demais graças; porque a Escritura não foi destinada ao uso de filósofos e estadistas apenas, mas a nos tornar a todos sábios e virtuosos na condução de nós mesmos e das nossas famílias. Aqui está:
I. A recepção muito bondosa dada ao servo de Abraão pelos parentes de Rebeca. O irmão dela, Labão, foi convidá-lo e conduzi-lo para dentro, mas não antes de ver os brincos e as pulseiras nas mãos da irmã, v. 30.
“Ah”, pensa Labão, “aqui está um homem com quem há alguma coisa a ganhar, um homem rico e generoso; certamente lhe daremos as boas-vindas!”
Sabemos o bastante do caráter de Labão, pela história que segue, para pensar que ele não teria sido tão liberal na sua hospedagem se não esperasse ser bem pago por ela, como foi, v. 53.
Repare: “a dádiva do homem lhe faz lugar” (Provérbios 18:16); “para onde quer que se volte, prospera”, Provérbios 17:8.
- O convite foi bondoso: “Entra, bendito do Senhor”, v. 31. Viram que ele era rico, e por isso o declararam bendito do Senhor; ou, talvez, porque ouviram de Rebeca (v. 28) as palavras de graça que saíam da sua boca, concluíram que era homem bom, e por isso bendito do Senhor.
Repare: aqueles que são benditos de Deus devem ser bem-vindos para nós. É bom ter por nossos aqueles que Deus tem por seus.
- A hospedagem foi bondosa, v. 32, 33. Tanto a casa quanto o estábulo estavam bem providos, e o servo de Abraão foi convidado ao uso livre de ambos.
Teve-se cuidado particular com os camelos; porque “o homem bom olha pela vida do seu animal”, Provérbios 12:10. Se o boi conhece o seu dono para servi-lo, o dono deve conhecer o seu boi para lhe prover aquilo que lhe convém.
II. O relato completo que ele lhes deu da sua incumbência, e os esforços que fez para obter o consentimento deles a respeito de Rebeca. Observe:
- Como estava concentrado no seu negócio: embora tivesse vindo de uma viagem, e chegado a uma boa casa, não quis comer enquanto não contasse a sua incumbência, v. 33.
Repare: o fazer da nossa obra e o cumprir daquilo que nos foi confiado, seja para Deus, seja para o homem, deve ser preferido por nós ao nosso alimento necessário: era o alimento e a bebida do nosso Salvador, João 4:34.
- Como foi engenhoso na condução do assunto: mostrou-se, nesta matéria, tanto homem prudente quanto homem de integridade, fiel ao seu senhor, de quem recebera a confiança, e justo para com aqueles com quem agora tratava.
(1.) Ele dá um breve relato do estado da família do seu senhor, vv. 34-36. Ele era bem-vindo antes, mas podemos supor que foi duplamente bem-vindo quando disse: “Eu sou servo de Abraão”.
O nome de Abraão, sem dúvida, era bem conhecido entre eles e respeitado, e poderíamos supor que não ignoravam de todo o estado dele, pois Abraão conhecia o deles, Gênesis 22:20-24.
Duas coisas ele sugere, para recomendar a sua proposta:
[1.] Que o seu senhor Abraão, pela bênção de Deus, tinha um patrimônio muito bom.
[2.] Que o havia destinado todo a Isaque, por quem ele agora fazia a proposta de casamento.
(2.) Ele lhes conta o encargo que o seu senhor lhe dera, de buscar uma esposa para o filho dentre a sua parentela, com a razão disso, v. 37, 38.
Assim ele insinua uma sugestão agradável: que, embora Abraão se houvesse mudado para um país a tão grande distância, contudo continuava a guardar a lembrança dos parentes que deixara para trás, e o respeito por eles. Os mais altos graus de afeição divina não devem nos despojar da afeição natural.
Ele igualmente antecipa uma objeção: que, se Isaque tinha méritos, não precisava mandar buscar esposa tão longe. Por que não se casou mais perto de casa?
“Por uma boa razão”, diz ele; “o filho do meu senhor não deve casar-se com uma cananeia.” Ele recomenda ainda mais a sua proposta:
[1.] Pela fé que o seu senhor tinha de que ela teria êxito, v. 40. Abraão tomava ânimo do testemunho da sua consciência de que andava diante de Deus num curso regular de vida santa, e daí inferia que Deus o faria prosperar.
Provavelmente ele se refere àquela aliança que Deus fizera com ele (Gênesis 17:1): Eu sou Deus, todo-suficiente; ande diante de mim. Por isso, diz ele, o Deus diante de quem ando enviará o seu anjo.
Repare: enquanto fazemos questão de consciência da nossa parte da aliança, podemos tomar o consolo da parte de Deus nela; e devemos aprender a aplicar as promessas gerais a casos particulares, conforme haja ocasião.
[2.] Pelo cuidado que ele mesmo tomara de preservar a liberdade deles de dar ou recusar o consentimento, conforme vissem motivo, sem incorrer na culpa do perjúrio (vv. 39-41), o que o mostrava, em geral, homem cauteloso, e particularmente zeloso de que o consentimento deles não fosse forçado, mas fosse ou livre ou de modo nenhum.
(3.) Ele lhes relata a admirável convergência de providências, para apoiar e favorecer a proposta, mostrando claramente o dedo de Deus nisso.
[1.] Ele lhes conta como orara por direção mediante um sinal, vv. 42-44. Repare: é bom tratar com aqueles que pela oração levam Deus consigo nos seus tratos.
[2.] Como Deus respondera à sua oração na própria letra dela. Ainda que ele apenas falasse no seu coração (v. 45), o que talvez mencione para que não se suspeite de que Rebeca tivesse escutado a sua oração e de propósito lhe tivesse feito a vontade.
“Não”, diz ele, “falei-o no meu coração, de modo que ninguém o ouviu senão Deus, para quem os pensamentos são palavras, e dele veio a resposta”, v. 46, 47.
[3.] Como imediatamente reconhecera a bondade de Deus para com ele nisso, conduzindo-o, como ele aqui o exprime, “pelo caminho direito”. Repare: o caminho de Deus é sempre o caminho direito (Salmos 107:7), e bem conduzidos são aqueles a quem ele conduz.
(4.) Ele remete com lisura a matéria à consideração deles, e espera a decisão deles (v. 49): “Se quiserdes usar de bondade e de verdade com o meu senhor, muito bem; se fordes sinceramente bondosos, aceitareis a proposta, e tenho o que vim buscar; se não, não me deixeis em suspenso.”
Repare: aqueles que tratam com lisura têm razão para esperar lisura no trato.
(5.) Eles aceitam a proposta livre e alegremente, sobre um princípio muito bom (v. 50): a coisa procede do Senhor; a Providência lhe sorri, e nada temos a dizer contra ela.
Eles não objetam a distância do lugar, nem o fato de Abraão os ter deixado, nem o de ele não ter terra em posse, mas somente bens móveis; não põem em dúvida a verdade do que este homem disse. Mas:
[1.] Eles confiam muito na integridade dele. Bom seria se a honestidade prevalecesse tão universalmente entre os homens que tomar a palavra de um homem fosse tanto um ato de prudência quanto é de boa índole.
[2.] Eles confiam mais na providência de Deus, e por isso pelo silêncio dão o consentimento, porque o casamento parece dirigido e disposto pela Sabedoria Infinita. Repare: um casamento provavelmente será consolador quando parece proceder do Senhor.
(6.) O servo de Abraão faz um reconhecimento agradecido do bom êxito que encontrara:
[1.] A Deus: “adorou ao Senhor”, v. 52. Observe: Primeiro, à medida que o seu bom êxito avançava, ele avançava em bendizer a Deus.
Aqueles que oram sem cessar devem em tudo dar graças, e confessar a Deus em cada passo de misericórdia.
Segundo, Deus enviou o seu anjo diante dele, e assim lhe deu êxito, v. 7, 40. Mas quando obtém o êxito desejado, ele adora a Deus, não ao anjo.
Qualquer benefício que tenhamos pelo ministério dos anjos, toda a glória deve ser dada ao Senhor dos anjos, Apocalipse 22:9.
[2.] Ele presta as suas homenagens também à família, e particularmente à noiva, v. 53. Presenteou-a, e à mãe dela, e ao irmão, com muitas coisas preciosas, tanto para dar prova real das riquezas e da generosidade do seu senhor quanto em gratidão pela gentileza que lhe tinham feito, e ainda para se insinuar na boa graça deles.
Versículos 54 a 61
A Partida de Rebeca. (a.C. 1857.)
Rebeca está aqui se despedindo da casa de seu pai:
- O servo de Abraão insiste pela despedida. Ainda que ele e a sua companhia fossem muito bem-vindos e estivessem ali muito alegres, ainda assim ele disse: “Despedi-me” (v. 54), e outra vez, v. 56.
Ele sabia que o seu senhor o esperaria em casa com alguma impaciência; tinha negócios a fazer em casa que careciam dele e, por isso, como quem preferia o seu trabalho ao seu prazer, queria apressar a volta.
Repare: demorar-se e vadiar de modo algum ficam bem a um homem sábio e bom. Quando despachamos os nossos negócios fora, não devemos atrasar a volta aos nossos negócios em casa, nem ficar longe deles mais do que o necessário; porque “como a ave que vagueia longe do seu ninho, assim é aquele que vagueia longe do seu lugar”, Provérbios 27:8.
- Os parentes de Rebeca, por afeição natural e conforme a expressão costumeira de bondade nesse caso, pedem que ela fique algum tempo entre eles, v. 55.
Eles não podiam pensar em se separar dela de repente, ainda mais estando ela prestes a mudar-se para tão longe, e não sendo provável que algum dia voltassem a se ver: “Que ela fique alguns dias, ao menos dez”, o que torna o pedido tão razoável quanto a leitura da margem parece torná-lo desarrazoado: “um ano, ou ao menos dez meses”.
Eles tinham consentido no casamento e, ainda assim, custava-lhes separar-se dela. Repare: é um exemplo da vaidade deste mundo não haver nele nada tão agradável que não tenha a sua liga. Nulla est sincera voluptas — Não há prazer sem mistura.
Ficaram contentes de terem casado tão bem uma filha da sua família e, no entanto, chegada a hora, foi com grande relutância que a despediram.
- A própria Rebeca decidiu a questão. A ela apelaram, como era justo que fizessem (v. 57): “Chamai a moça” (que se tinha retirado para o seu aposento com um silêncio recatado) “e perguntai da sua boca”.
Repare: assim como os filhos não devem casar sem o consentimento dos pais, também os pais não devem casá-los sem o consentimento deles.
Antes de a questão ficar resolvida, perguntem à própria moça; ela é a parte principalmente interessada e, portanto, deve ser principalmente consultada.
Rebeca consentiu, não só em ir, mas em ir imediatamente: “Eu irei”, v. 58.
Podemos esperar que o que ela reparou na piedade e na devoção do servo lhe tenha dado tal ideia do quanto a religião e o temor de Deus prevaleciam na família para onde devia ir, que a deixou desejosa de apressar-se para lá, e disposta a esquecer o seu próprio povo e a casa de seu pai, onde a religião não exercia tanta influência.
- Diante disso, ela é enviada com o servo de Abraão — não, podemos supor, logo no dia seguinte, mas muito depressa: os seus amigos veem que ela está de bom ânimo para isso, e assim a despedem:
(1.) Com acompanhantes convenientes: a sua ama (v. 59), as suas moças, v. 61. Parece, então, que, quando ela foi ao poço buscar água, não foi por não ter servos às ordens, mas porque tinha prazer em trabalhos de humilde diligência.
Agora que ia para o meio de estranhos, era justo que levasse consigo aquelas com quem tinha convivência. Aqui nada se diz do seu dote. Os seus méritos pessoais eram um dote em si mesma; não precisava de nenhum que viesse com ela, nem isso jamais entrou na negociação do casamento.
(2.) Com sinceros votos de bem: “Eles abençoaram Rebeca”, v. 60. Repare: quando os nossos parentes entram numa nova condição, devemos, pela oração, recomendá-los à bênção e à graça de Deus.
Agora que ela ia ser esposa, oraram para que fosse mãe tanto de uma prole numerosa quanto de uma prole vitoriosa.
Talvez o servo de Abraão lhes tivesse falado da promessa que Deus fizera havia pouco ao seu senhor, promessa que, é provável, Abraão dera a conhecer à sua casa: que Deus multiplicaria a sua descendência como as estrelas do céu, e que ela possuiria a porta dos seus inimigos (Gênesis 22:17).
A essa promessa eles olhavam nesta bênção: “Sê tu a mãe daquela descendência”.
Versículos 62 a 67
O Casamento de Isaque. (a.C. 1857.)
Isaque e Rebeca são, enfim, felizmente reunidos. Observe:
I. Isaque estava bem ocupado quando encontrou Rebeca: ele “saiu ao campo para meditar”, ou orar, “ao cair da tarde”, v. 62, 63.
Alguns pensam que ele esperava o retorno dos seus servos por esse tempo, e saiu de propósito para encontrá-los.
Mas, ao que parece, ele saiu com outro encargo: valer-se de uma tarde silenciosa e de um campo solitário para a meditação e a oração, esses exercícios divinos pelos quais temos comunhão com Deus e com os nossos próprios corações. Repare:
As almas santas amam o retiro. Fará bem a nós sermos deixados a sós muitas vezes, andando a sós e sentados a sós; e, se tivermos a arte de aproveitar a solidão, descobriremos que nunca estamos menos sós do que quando estamos sós.
A meditação e a oração devem ser tanto a nossa ocupação quanto o nosso deleite quando estamos a sós; enquanto temos um Deus, um Cristo e um céu com que nos familiarizar e em que assegurar o nosso interesse, não precisamos carecer de matéria nem para a meditação nem para a oração, que, se andarem juntas, se favorecerão uma à outra.
Os nossos passeios pelo campo são então verdadeiramente agradáveis quando neles nos aplicamos à meditação e à oração.
Ali temos uma perspectiva livre e aberta dos céus acima de nós e da terra ao nosso redor, e da hoste e das riquezas de ambos, e pela vista disso deveríamos ser levados à contemplação do Criador e dono de tudo.
Os exercícios de devoção devem ser o refrigério e a ocupação agradável do entardecer, para nos aliviar do cansaço causado pelo cuidado e pela ocupação do dia, e para nos preparar para o repouso e o sono da noite.
As providências misericordiosas são então duplamente consoladoras quando nos encontram bem ocupados e no caminho do nosso dever.
Alguns pensam que Isaque estava agora orando por bom êxito neste assunto que estava pendente, e meditando naquilo que era próprio para animar a sua esperança em Deus a respeito dele; e agora, quando ele se põe, por assim dizer, sobre a sua torre de vigia, para ver o que Deus lhe responderia, como o profeta (Habacuque 2:1), ele vê os camelos chegando.
Às vezes Deus envia de imediato a misericórdia pedida em oração, Atos 12:12.
II. Rebeca se portou com muito decoro quando encontrou Isaque: entendendo quem ele era, ela desceu do seu camelo (v. 64), e “tomou um véu, e se cobriu” (v. 65), em sinal de humildade, modéstia e sujeição.
Ela não repreendeu Isaque por não vir ele mesmo buscá-la, ou, ao menos, encontrá-la a um ou dois dias de viagem, não se queixou do enfado da sua jornada, nem da dificuldade de deixar os seus parentes para vir a um lugar estranho; mas, tendo visto a Providência indo adiante dela no assunto, ela se acomoda com alegria à sua nova relação.
Aqueles que pela fé estão desposados com Cristo, e querem ser apresentados a ele como virgens castas, devem, em conformidade com o exemplo dele, humilhar-se, como Rebeca, que desceu quando viu Isaque a pé, e devem pôr-se em sujeição àquele que é a sua cabeça (Efésios 5:24), como Rebeca, significando-o pelo véu que pôs, 1 Coríntios 11:10.
III. Eles foram reunidos (provavelmente depois de se conhecerem um pouco mais), para consolo mútuo, v. 67. Observe aqui:
- Que filho afetuoso ele era para a sua mãe: fazia cerca de três anos desde a morte dela, e ainda assim ele não havia, até agora, sido consolado quanto a ela; a ferida que aquela aflição deu ao seu espírito terno sangrou por tanto tempo, e nunca foi curada até que Deus o trouxe a esta nova relação.
Assim as cruzes e os consolos são contrapesos um do outro (Eclesiastes 7:14), e ajudam a manter a balança equilibrada.
- Que marido afetuoso ele era para a sua mulher. Repare:
Aqueles que se mostraram bons numa relação, é de esperar, farão o mesmo em outra: “ela se tornou sua mulher, e ele a amou”; havia toda a razão do mundo para que o fizesse, porque assim devem os homens amar as suas mulheres, tal como a si mesmos.
O dever da relação é então cumprido, e o consolo da relação é então desfrutado, quando o amor mútuo governa; pois ali o Senhor ordena a bênção.