Matthew Henry

Gênesis 20

Argumento

Voltamos aqui à história de Abraão; contudo, a parte dela que aqui se registra não é para a honra dele.

Os mármores mais belos têm as suas falhas e, enquanto há manchas no sol, não devemos esperar nada sem mancha debaixo dele.

A Escritura, note-se, é imparcial ao relatar as máculas até dos seus personagens mais celebrados. Temos aqui:

I. O pecado de Abraão ao negar a sua esposa, e o pecado de Abimeleque em seguida, ao tomá-la, v. 1, 2.

II. A conversa de Deus com Abimeleque num sonho, nesta ocasião, em que lhe mostra o seu erro (v. 3), aceita o seu apelo (vv. 4-6) e o instrui a fazer restituição, v. 7.

III. A conversa de Abimeleque com Abraão, em que o repreende pelo engano que lhe havia imposto (vv. 8-10), e Abraão o desculpa como pode, vv. 11-13.

IV. O bom desfecho da história, em que Abimeleque restitui a Abraão a sua esposa (vv. 14-16), e Abraão, pela oração, alcança de Deus a remoção do juízo sob o qual Abimeleque estava, v. 17, 18.

Versículos 1 a 2

Abraão Nega a Sua Mulher. (a.C. 1898.)

Aqui está: 1. A partida de Abraão de Manre, onde vivera quase vinte anos, para o país dos filisteus: “Ele peregrinou em Gerar”, v. 1.

Não nos é dito por que ocasião ele partiu, se por estar aterrorizado com a destruição de Sodoma, ou porque a região em volta estava por ora prejudicada por ela.

Ou foi porque, como dizem alguns dos escritores judeus, ele estava aflito com o incesto de Ló com as suas filhas, e com o descrédito que os cananeus lançavam sobre ele e sobre a sua religião, por causa do seu parente. Sem dúvida havia alguma boa razão para a sua partida.

Repare: num mundo onde somos estrangeiros e peregrinos, não podemos esperar estar sempre no mesmo lugar. Mais uma vez: onde quer que estejamos, temos de nos ver apenas como forasteiros.

  1. O pecado dele ao negar a mulher, como antes (Gênesis 12:13), não era apenas uma ambiguidade próxima da mentira — que, se admitida como lícita, arruinaria o convívio humano e abriria caminho a toda falsidade —, mas também expunha a castidade e a honra da esposa que ele devia proteger.

Mas, além disso, o pecado teve aqui um duplo agravante:

(1.) Ele já fora culpado deste mesmo pecado antes, e fora censurado por ele, e convencido da insensatez da sugestão que o levou a cometê-lo; contudo, volta a ele.

Repare: é possível que um homem bom não só caia em pecado, mas recaia no mesmo pecado, pela surpresa e pela força da tentação e pela fraqueza da carne. Que os desviados, então, se arrependam, mas não se desesperem, Jeremias 3:22.

(2.) Sara, ao que parece, estava agora grávida da semente prometida, ou, pelo menos, na expectativa de estar em breve, segundo a palavra de Deus; ele deveria, por isso, ter tido um cuidado especial com ela agora, como em Juízes 13:4.

  1. O perigo em que Sara foi posta por esse meio: o rei de Gerar mandou buscá-la e a tomou para a sua casa, a fim de tomá-la para o seu leito.

Repare: o pecado de um muitas vezes ocasiona o pecado de outros; quem rompe a cerca dos mandamentos de Deus abre uma brecha para não sabe quantos; o princípio do pecado é como o soltar das águas.

Versículos 3 a 7

Parece, por isto, que Deus se revelava em sonhos (que se evidenciavam divinos e sobrenaturais) não só aos seus servos, os profetas, mas até àqueles que estavam fora dos limites da igreja e da aliança.

Mas, então, em geral era com alguma consideração pelo próprio povo de Deus: como no sonho de Faraó, com respeito a José; no de Nabucodonosor, com respeito a Daniel; e aqui, no de Abimeleque, com respeito a Abraão e Sara, pois ele censurou este rei por causa deles, Salmos 105:14, 15.

I. Deus lhe dá aviso do seu perigo (v. 3): o perigo de pecar, dizendo-lhe que a mulher é mulher de um homem, de modo que, se a tomar, cometerá injustiça contra o marido dela; e o perigo de morte por este pecado: “Tu és homem morto”; e Deus dizer isso de um homem faz com que ele o seja.

Repare: deve ser dito a todo aquele que peca de propósito que ele é homem morto, como se diz do malfeitor condenado e do doente cuja enfermidade é mortal. Se você é homem mau, certamente você é homem morto.

II. Ele alega ignorância: Abraão e Sara haviam combinado enganá-lo e não lhe deixar saber que eram algo mais do que irmão e irmã, v. 6. Veja que confiança um homem pode ter para com Deus quando o seu coração não o condena, 1 João 3:21.

Se a nossa consciência testemunha da nossa integridade, e de que, por mais que tenhamos sido levados por engano a um laço, não pecamos contra Deus com conhecimento e de propósito, isso será a nossa alegria no dia mau.

Ele apela a Deus, como Abraão havia feito, Gênesis 18:23: “Matarás uma nação justa?”, v. 4. Não uma nação como Sodoma, que de fato foi justamente destruída, mas uma nação que, neste assunto, era inocente.

III. Deus dá uma resposta muito completa ao que ele havia dito:

  1. Ele aceita o seu apelo e reconhece que o que ele fez, fez na integridade do seu coração: sim, Deus sabe disso, v. 6.

Repare: é motivo de consolo para os que são honestos que Deus conhece a honestidade deles e a reconhecerá, ainda que talvez os homens que têm preconceito contra eles ou não possam ser convencidos disso ou não queiram admitir que eles o sejam.

  1. Ele lhe faz saber que foi guardado de prosseguir no pecado unicamente pela boa mão de Deus sobre ele: “Eu te retive de pecar contra mim.” Com isso, Abimeleque foi guardado de cometer injustiça, Abraão de sofrê-la, e Sara de ambas as coisas. Repare:

(1.) Há muitíssimo pecado maquinado e planejado que nunca é executado. Por piores que as coisas estejam no mundo, não estão tão más quanto o diabo e os homens perversos as quereriam.

(2.) É Deus que refreia os homens de fazer o mal que fariam. Não é dele que há pecado, mas é dele que não há mais pecado, ou pela sua influência sobre a mente dos homens, contendo a inclinação deles para o pecado, ou pela sua providência, tirando a oportunidade de pecar.

(3.) É grande misericórdia ser impedido de cometer pecado; disso Deus deve ter a glória, seja quem for o instrumento, 1 Samuel 25:32, 33.

  1. Ele lhe ordena que faça restituição: “Agora, pois” — agora que estás mais bem informado — “restitui a este homem a sua mulher”, v. 7.

Repare: a ignorância não desculpa além do tempo em que dura. Se entramos num caminho errado por ignorância, isso não desculpará que persistamos nele com conhecimento, Levítico 5:3-5.

As razões por que ele deve ser justo e bondoso com Abraão são estas:

(1.) Porque ele é profeta, chegado e caro a Deus, por quem Deus de modo particular se interessa. Deus se indigna profundamente com as injúrias feitas aos seus profetas, e as toma como feitas a si mesmo.

(2.) Sendo profeta, “ele orará por ti”; esta é a recompensa de um profeta, e é boa recompensa.

Fica insinuado que havia grande eficácia nas orações de um profeta, e que os homens bons devem estar prontos a socorrer com as suas orações os que precisam delas, e devem dar, ao menos, esta retribuição pelas bondades que lhes são feitas.

Abraão contribuiu para a aflição de Abimeleque, e por isso estava obrigado em justiça a orar por ele.

(3.) Abimeleque corre perigo se não a restituir: “Sabe que certamente morrerás.”

Repare: quem comete injustiça, seja ele quem for, príncipe ou camponês, certamente receberá pela injustiça que cometeu, a menos que se arrependa e faça restituição, Colossenses 3:25. Nenhuma injustiça pode passar por boa diante de Deus, não, nem mesmo com a imagem de César cunhada nela.

Versículos 8 a 13

A Conduta de Abimeleque para com Abraão. (a.C. 1898.)

Abimeleque, sendo assim avisado por Deus em sonho, acolhe o aviso e, como quem tem verdadeiro temor do pecado e das suas consequências, levanta-se cedo para obedecer às instruções que lhe foram dadas.

I. Ele tem uma advertência para os seus servos, v. 8. O próprio Abraão não poderia ser mais cuidadoso do que ele foi em ordenar à sua casa nesta matéria.

Repare: aqueles a quem Deus convenceu do pecado e do perigo devem contar aos outros o que Deus fez pelas suas almas, para que eles também sejam despertados e levados a um temor santo semelhante.

II. Ele tem uma repreensão para Abraão. Observe:

  1. A séria censura que Abimeleque fez a Abraão, v. 9, 10. O seu modo de argumentar com Abraão nessa ocasião foi muito forte e, contudo, muito brando. Nada poderia ser dito melhor.

Ele não o afronta nem o insulta, não diz: “É esta a tua profissão de fé? Vejo que, embora não jures, mentes. Se estes são profetas, pedirei para ser livrado da vista deles.” Mas ele expõe com justeza a injúria que Abraão lhe havia feito, e com calma dá a entender o seu ressentimento.

(1.) Ao pecado de que agora se viu em perigo, ele chama de grande pecado. Repare: até a luz da natureza ensina aos homens que o pecado do adultério é um pecado muito grande. Que se observe isso, para vergonha de muitos que se dizem cristãos e contudo o tratam como coisa de pouca importância.

(2.) Ele entende que tanto ele mesmo quanto o seu reino teriam ficado expostos à cólera de Deus, se ele tivesse sido culpado deste pecado, ainda que por ignorância.

Repare: os pecados dos reis muitas vezes vêm a ser as pragas dos reinos. Por isso os governantes, por causa do seu povo, devem ter horror ao pecado.

(3.) Ele acusa Abraão de ter feito o que não se pode justificar, ao negar o seu casamento. Disso ele fala com justiça e, contudo, com ternura; não o chama de mentiroso e trapaceiro, mas lhe diz que havia feito obras que não deviam ser feitas.

Repare: a ambiguidade e a dissimulação, por mais que se procure atenuá-las, são coisas muito más, e de modo algum se devem admitir em caso nenhum.

(4.) Ele toma como grandíssimo dano a si e à sua família o fato de Abraão os ter assim exposto ao pecado: “Em que te ofendi? Se eu tivesse sido o teu pior inimigo, não poderias ter-me feito pior mal, nem tomado caminho mais eficaz para te vingares de mim.”

Repare: devemos considerar que nos fazem o maior desserviço do mundo aqueles que de algum modo nos tentam ou nos expõem ao pecado, ainda que aleguem amizade e ofereçam aquilo que é bastante agradável à natureza corrompida.

(5.) Ele o desafia a apontar uma causa para a sua suspeita de que fossem um povo perigoso para um homem honesto viver no meio dele: “Que viste, para teres feito tal coisa?” v. 10.

“Que razão tinhas para pensar que, se soubéssemos que ela era tua mulher, ficarias por isso exposto a algum perigo?”

Repare: a suspeita lançada sobre a nossa bondade é com justiça considerada afronta maior que o desprezo pela nossa grandeza.

  1. A pobre desculpa que Abraão apresentou em sua defesa:

(1.) Ele alegou a má opinião que tinha do lugar, v. 11. Pensou consigo mesmo (embora não pudesse dar nenhuma boa razão para pensar assim) que certamente não havia temor de Deus naquele lugar e que, por isso, o matariam.

[1.] Pouco bem se pode esperar onde não há temor de Deus. Veja Salmos 36:1.

[2.] Há muitos lugares e muitas pessoas que têm mais do temor de Deus em si do que julgamos que tenham.

Talvez não sejam chamados pelo nome que nos divide, não usem os nossos distintivos, não se prendam àquilo de que temos boa opinião; e por isso concluímos que não têm o temor de Deus no coração.

Isso é muito injusto tanto com Cristo quanto com os cristãos, e nos deixa expostos ao juízo de Deus, Mateus 7:1.

[3.] A falta de caridade e o espírito de censura são pecados que causam muitos outros pecados.

Quando os homens uma vez se persuadem, a respeito deste e daquele, de que não têm o temor de Deus, julgam que isso os justificará nas práticas mais injustas e mais indignas de um cristão para com eles. Os homens não fariam o mal se primeiro não pensassem o mal.

(2.) Ele desculpou aquilo da culpa de uma mentira descarada, mostrando que, num certo sentido, ela era sua irmã, v. 12.

Alguns pensam que ela era irmã germana de Ló, que é chamado de seu irmão Ló (Gênesis 14:16), embora fosse seu sobrinho; assim Sara é chamada de sua irmã.

Mas aqueles a quem ele disse “Ela é minha irmã” entenderam que ela era irmã dele de tal modo que não podia ser sua mulher; de modo que foi uma ambiguidade, com a intenção de enganar.

(3.) Ele afasta a ideia de ter pretendido afrontar Abimeleque, dizendo que já tinha esse costume por acordo com a mulher desde que começaram a peregrinar (v. 13): quando Deus o fez andar errante da casa de seu pai, os dois acertaram esse ponto. Repare:

[1.] Deus deve ser reconhecido em todas as nossas andanças.

[2.] Os que viajam para fora e convivem muito com estranhos, assim como precisam da sabedoria da serpente, assim também é necessário que essa sabedoria seja sempre temperada com a inocência da pomba.

Pode-se sugerir, pelo que sei, que Deus negou a Abraão e a Sara a bênção de filhos por tanto tempo para castigá-los por esse pacto pecaminoso: se eles não querem reconhecer o seu casamento, por que Deus o reconheceria?

Mas podemos supor que, depois desta censura que Abimeleque lhes fez, eles combinaram nunca mais fazer assim, e logo em seguida lemos (Gênesis 21:1, 2) que Sara concebeu.

Versículos 14 a 17

Aqui está: I. A bondade de príncipe que Abimeleque mostrou a Abraão. Veja como eram injustas as desconfianças de Abraão.

Ele imaginava que, se soubessem que Sara era sua mulher, o matariam; mas, quando de fato souberam, em vez de matá-lo foram bondosos com ele, amedrontados, ao menos, a sê-lo pelas repreensões divinas sob as quais estavam.

  1. Ele lhe dá a sua licença real para morar onde quisesse no seu país, procurando persuadi-lo a ficar, como mostram os presentes reais que lhe dá (v. 14), ovelhas e bois, e (v. 16) mil peças de prata.

Isto ele deu quando restituiu Sara, ou, [1.] A título de satisfação pelo mal que intentara fazer, ao levá-la para a sua casa: quando os filisteus restituíram a arca, castigados com pragas por a terem retido, mandaram um presente junto com ela.

A lei determinava que, quando se fizesse a restituição, algo lhe fosse acrescentado, Levítico 6:5.

Ou, [2.] Para obter as orações de Abraão em seu favor; não como se as orações devessem ser compradas e vendidas, mas devemos procurar ser bondosos com aqueles de cujas coisas espirituais colhemos, 1 Coríntios 9:11.

Repare: é sabedoria nossa conseguir e conservar influência junto aos que têm influência no céu, e fazer nossos amigos aqueles que são amigos de Deus.

[3.] Ele dá a Sara uma boa instrução: diz-lhe que o seu marido (ele o chama de irmão dela, para repreendê-la por tê-lo chamado assim) deve ser para ela como cobertura para os olhos, isto é, ela não deve olhar para nenhum outro, nem desejar ser olhada por nenhum outro.

Repare: os companheiros de jugo devem ser um para o outro como cobertura para os olhos. A aliança matrimonial é uma aliança com os olhos, como a de Jó, Jó 31:1.

II. A bondade de profeta que Abraão mostrou a Abimeleque: ele orou por ele, v. 17, 18.

Esta honra Deus quis dar a Abraão: que, embora Abimeleque tivesse restituído Sara, ainda assim o juízo sob o qual ele estava seria removido mediante a oração de Abraão, e não antes.

Assim Deus curou Miriã, quando Moisés, a quem ela mais tinha ofendido, orou por ela (Números 12:13), e se reconciliou com os amigos de Jó quando Jó, a quem eles tinham afligido, orou por eles (Jó 42:8-10), e assim, por assim dizer, deixou assinado de próprio punho que estava reconciliado com eles.

Repare: as orações dos homens bons podem ser uma bondade para os grandes homens, e devem ser valorizadas.


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