Gênesis 19
Argumento
O conteúdo deste capítulo temos em 2 Pedro 2:6-8, onde encontramos que Deus, tornando em cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, as condenou com destruição e livrou o justo Ló. É a história da ruína de Sodoma e do resgate de Ló dessa ruína.
Lemos (Gênesis 18) a respeito da vinda de Deus para ver o estado presente de Sodoma, qual era a sua maldade e que pessoas justas havia nela; agora aqui temos o resultado dessa averiguação:
I. Verificou-se, feita a prova, que Ló era muito bom (vv. 1-3), e não pareceu que houvesse mais alguém do mesmo caráter.
II. Verificou-se que os sodomitas eram muito perversos e vis, vv. 4-11.
III. Tomou-se, por isso, cuidado especial com a segurança de Ló e da sua família, num lugar seguro, vv. 12-23.
IV. Tendo a misericórdia se alegrado nisso, a justiça se mostra na ruína de Sodoma e na morte da mulher de Ló (vv. 24-26), com uma repetição geral da história, vv. 27-29.
V. Um pecado torpe de que Ló foi culpado, ao cometer incesto com as suas duas filhas, v. 30, etc.
Versículos 1 a 2
O assalto à casa de Ló. (a.C. 1898.)
Estes anjos, ao que parece, eram dois dos três que pouco antes tinham estado com Abraão, os dois anjos criados que foram enviados para executar o propósito de Deus a respeito de Sodoma. Observe aqui:
- Havia apenas um homem bom em Sodoma, e esses mensageiros celestiais logo deram com ele. Onde quer que estejamos, devemos indagar quem, no lugar, vive no temor de Deus, e devemos escolher nos juntar a eles.
Mateus 10:11: “Indagai quem é digno, e ali ficai.” Os que são do mesmo país, quando estão em país estrangeiro, gostam de estar juntos.
- Ló se distinguiu suficientemente dos seus demais vizinhos, nesta ocasião, o que claramente pôs uma marca sobre ele. Quem não agiu como os demais não deve ter a sorte dos demais.
(1.) Ló estava sentado à porta de Sodoma ao entardecer. Quando os demais, ao que parece, estavam bebericando e bebendo, ele estava sentado sozinho, à espera de uma oportunidade de fazer o bem.
(2.) Ele foi extremamente respeitoso com homens cujo porte e cujo aspecto eram sóbrios e sérios, embora não viessem com aparato. Ele se inclinou até o chão quando os encontrou, como se, à primeira vista, discernisse neles algo de divino.
(3.) Ele foi hospitaleiro, e muito franco e generoso nos seus convites e acolhimentos. Ele insistiu com esses forasteiros para que fossem à sua casa e às melhores acomodações que tinha, e lhes deu todas as provas que pôde da sua sinceridade; porque:
[1.] Quando os anjos, para provar se ele era cordial no convite, recusaram aceitá-lo de início (o que é o uso comum da modéstia, e não é censura alguma à verdade e à honestidade), a recusa deles só o tornou mais insistente; pois ele instou muito com eles (v. 3).
Foi em parte porque de modo algum queria que eles se expusessem aos incômodos e perigos de pernoitar na rua de Sodoma, e em parte porque desejava a companhia e o trato deles.
Fazia muito tempo que ele não via em Sodoma dois rostos tão honestos. Repare: os que vivem em lugares maus devem saber dar valor à convivência com os que são sábios e bons, e desejá-la ardentemente.
[2.] Quando os anjos aceitaram o convite, ele os tratou com nobreza; fez um banquete para eles, e achou que estava bem empregado em tais hóspedes. Repare: as pessoas boas devem ser (com prudência) pessoas generosas.
Versículos 4 a 11
Agora ficava claro, sem contestação possível, que o clamor de Sodoma não era mais alto do que havia motivo para ser.
A obra desta noite bastava para encher a medida. Pois encontramos aqui:
I. Que todos eles eram perversos, v. 4. A perversidade se tornara universal, e eles eram unânimes em qualquer plano vil.
Aqui estavam velhos e moços, e todos de todos os cantos, metidos neste tumulto; os velhos não tinham passado disso, e os moços logo tinham chegado a isso.
Ou eles não tinham magistrados para manter a paz e proteger os pacíficos, ou os próprios magistrados estavam auxiliando e favorecendo.
Repare: quando a doença do pecado se torna epidêmica, ela é fatal para qualquer lugar, Isaías 1:5-7.
II. Que tinham chegado ao mais alto grau de perversidade; eram “pecadores diante do Senhor em extremo” (Gênesis 13:13); porque:
- Era a perversidade mais contra a natureza e mais abominável aquilo em que agora estavam empenhados, um pecado que continua a levar o nome deles, e se chama sodomia.
Eram levados de roldão por aquelas “afeições vis” (Romanos 1:26, 27), que são piores do que bestiais, e são a eterna desonra da natureza humana, e que não podem ser pensadas sem horror por quem tenha a menor centelha de virtude e algum resto de luz natural e de consciência.
Repare: os que se permitem a impureza contra a natureza estão marcados para “a vingança do fogo eterno”. Veja Judas 7.
- Não tinham vergonha de assumi-lo, e de levar adiante o seu plano pela força e pelas armas.
A prática teria sido bastante má se tivesse sido conduzida por intriga e lábia; mas eles proclamaram guerra à virtude e lhe lançaram desafio aberto.
Por isso se diz que os pecadores atrevidos “declaram o seu pecado como Sodoma”, Isaías 3:9.
Repare: os que se tornaram impudentes no pecado geralmente se mostram impenitentes no pecado; e isso será a ruína deles. Têm coração duro, de fato, os que pecam de mão levantada, Jeremias 6:15.
- Quando Ló se interpôs, com toda a brandura imaginável, para conter a raiva e o furor da lascívia deles, eles foram, da maneira mais insolente, grosseiros e ofensivos com ele.
Ele se arriscou no meio deles, v. 6. Falou-lhes com civilidade, chamou-os de “irmãos” (v. 7) e rogou-lhes que não agissem com tal perversidade; e, muito perturbado com a tentativa vil deles, ofereceu-lhes imprudente e injustificavelmente as duas filhas para que as prostituíssem, v. 8.
É verdade que, de dois males, devemos escolher o menor; mas, de dois pecados, não devemos escolher nenhum, nem jamais fazer o mal para que dele venha o bem.
Ele argumentou com eles, alegou as leis da hospitalidade e a proteção da sua casa a que os seus hóspedes tinham direito; mas tanto valeria apresentar razão a um leão que ruge e a um urso furioso quanto a estes pecadores obstinados, governados apenas pela lascívia e pela paixão.
O fato de Ló argumentar com eles só os exaspera; e, para completar a sua perversidade e encher a medida dela, eles se atiram contra ele.
(1.) Eles o ridicularizam, o acusam do absurdo de alegar ser magistrado, quando não era sequer homem livre da cidade deles, v. 9.
Repare: é comum que quem repreende seja injustamente censurado como usurpador; e que, ao oferecer a bondade de um amigo, seja acusado de assumir a autoridade de um juiz: como se não fosse possível a um homem dizer o que é de razão sem se arrogar demais.
(2.) Eles o ameaçam, e lançam mãos violentas sobre ele; e o homem bom corre o perigo de ser feito em pedaços por essa turba desenfreada. Repare:
[1.] Os que odeiam ser corrigidos odeiam os que os repreendem, ainda que o façam com toda a ternura.
Os pecadores presunçosos fazem com as suas consciências o que os sodomitas fizeram com Ló: frustram os seus freios, sufocam as suas acusações, pressionam-nas com força, até as terem cauterizado e lhes fechado de todo a boca, e assim se terem tornado maduros para a ruína.
[2.] Os ultrajes feitos aos mensageiros de Deus e aos que repreendem com fidelidade logo enchem a medida da perversidade de um povo, e trazem destruição sem remédio. Veja Provérbios 29:1, e 2 Crônicas 36:16. Se as repreensões não remediam, não há remédio. Veja 2 Crônicas 25:16.
III. Que nada menos que o poder de um anjo poderia salvar um homem bom das mãos perversas deles.
Agora estava fora de disputa qual era o caráter de Sodoma e que rumo se devia tomar com ela, e por isso os anjos logo dão uma amostra do que ainda tencionavam.
- Eles resgatam Ló, v. 10. Repare: “aquele que rega será também ele mesmo regado”. Ló foi solícito em protegê-los, e agora eles cuidam com eficácia da segurança dele, em retribuição à sua bondade.
Repare ainda: os anjos são empregados para a preservação especial daqueles que se expõem ao perigo por fazer o bem.
Os santos, na morte, são puxados como Ló para dentro de uma casa de perfeita segurança, e a porta é fechada para sempre contra os que os perseguem.
- Eles castigam a insolência dos sodomitas: feriram-nos com cegueira, v. 11. Isto se destinava:
(1.) A pôr fim à tentativa deles, e a incapacitá-los de prossegui-la. Com justiça foram feridos de cegueira os que tinham sido surdos à razão.
Os perseguidores violentos muitas vezes são entontecidos, de modo que não conseguem levar adiante os seus desígnios maliciosos contra os mensageiros de Deus, Jó 5:14, 15.
Contudo estes sodomitas, depois de feridos de cegueira, continuaram procurando a porta, para arrombá-la, até se cansarem.
Nenhum juízo há de, por si só, mudar as naturezas e os propósitos corrompidos dos homens perversos.
Se as suas mentes não tivessem sido cegadas assim como os seus corpos, teriam dito, como os magos: “Este é o dedo de Deus”, e teriam se submetido.
(2.) Havia de ser uma antecipação da ruína total deles, no dia seguinte. Quando Deus, por via de justo juízo, cega os homens, a condição deles já é desesperada, Romanos 11:8, 9.
Versículos 12 a 14
O resgate de Ló de Sodoma. (a.C. 1898.)
Temos aqui a preparação para o livramento de Ló.
I. É-lhe dado aviso da aproximação da ruína de Sodoma: “Destruiremos este lugar”, v. 13.
Repare: os santos anjos são ministros da ira de Deus para a destruição dos pecadores, assim como o são da sua misericórdia para a preservação e o livramento do seu povo. Nesse sentido, os anjos bons se tornam anjos maus, Salmos 78:49.
II. Ele é instruído a dar aviso aos seus amigos e parentes, para que eles, se quiserem, possam ser salvos com ele (v. 12). Os anjos perguntam se há mais alguém ali por quem Ló se importe; caso haja, deve avisá-los do que está para acontecer. Ora, isto implica:
- A ordem de um grande dever, que era fazer tudo o que pudesse pela salvação dos que estavam à sua volta, arrancá-los como tições do fogo.
Repare: quem, de sua parte, pela graça foi livrado de um estado de pecado deve fazer o que puder pelo livramento dos outros, especialmente dos seus parentes.
- O oferecimento de um grande favor. Eles não perguntam se ele conhecia na cidade algum justo digno de ser poupado: não, eles sabiam que não havia nenhum; mas perguntam que parentes ele tinha ali, para que, justos ou injustos, possam ser salvos com ele.
Repare: as pessoas más muitas vezes se dão melhor neste mundo por causa dos seus bons parentes. É bom ser aparentado com um homem piedoso.
III. Ele se dirige, em conformidade, aos seus genros, v. 14. Observe:
- A advertência leal que Ló lhes deu: “Levantai-vos, saí deste lugar”. O modo de expressão é alarmante e instigante. Não era hora de brincar, quando a destruição estava bem à porta.
Eles não tinham quarenta dias para se arrepender, como tiveram os ninivitas. Agora ou nunca tinham de escapar. À meia-noite foi feito este clamor. Tal como este é o nosso chamado aos não convertidos, para que se voltem e vivam.
- O desprezo que eles lançaram sobre esta advertência: ele lhes pareceu como quem zombava.
Eles pensaram, talvez, que o assalto que os sodomitas acabavam de fazer contra a sua casa lhe tinha perturbado a cabeça e o tinha posto em tal susto que ele não sabia o que dizia; ou pensaram que ele não falava a sério com eles.
Os que viviam uma vida alegre e faziam troça de tudo fizeram troça desta advertência, e assim pereceram na derrocada.
Assim, muitos que são advertidos da miséria e do perigo em que estão por causa do pecado fazem pouco caso disso e pensam que os seus ministros apenas troçam deles; esses perecerão com o seu sangue sobre a própria cabeça.
Versículos 15 a 23
Aqui está: I. O resgate de Ló de Sodoma. Ainda que não houvesse dez justos em Sodoma, por causa dos quais ela pudesse ser poupada, aquele único justo que estava no meio deles livrou a própria alma, Ezequiel 14:14.
De manhã cedo, os próprios hóspedes de Ló, por bondade para com ele, puseram-no porta afora, junto com sua família, v. 15.
As filhas dele que eram casadas pereceram com os seus maridos incrédulos; mas as que continuaram com ele foram preservadas com ele. Observe:
- Com que violência graciosa Ló foi tirado de Sodoma, v. 16. Parece que, ainda que ele não tenha zombado do aviso dado, como fizeram os seus genros, contudo ele se demorou, ele perdeu tempo, ele não se apressou tanto quanto o caso exigia.
Assim, muitos que estão sob alguma convicção da miséria do seu estado espiritual e da necessidade de uma mudança adiam, contudo, essa obra necessária, e tolamente se demoram.
Ló fez assim, e isso poderia ter-lhe sido fatal se os anjos não lhe tivessem tomado a mão, e o tivessem tirado para fora, e o tivessem salvado com temor, Judas 23.
A respeito disso se diz que o Senhor foi misericordioso para com ele; do contrário, ele poderia justamente tê-lo deixado perecer, já que estava tão relutante em partir. Repare:
(1.) A salvação dos homens mais justos deve ser atribuída à misericórdia de Deus, não ao mérito deles. Somos salvos pela graça.
(2.) Também o poder de Deus deve ser reconhecido no tirar as almas de um estado de pecado. Se Deus não nos tivesse tirado para fora, nós nunca teríamos saído.
(3.) Se Deus não nos tivesse sido misericordioso, a nossa demora teria sido a nossa ruína.
- Com que veemência graciosa ele foi instado a apressar-se pelo caminho, quando foi tirado para fora, v. 17:
(1.) Ele deve continuamente perceber-se em perigo de ser consumido, e ser estimulado pela lei da autopreservação a fugir para salvar a vida. Repare: um santo temor e tremor são achados necessários para operar a nossa salvação.
(2.) Ele deve, por isso, cuidar do que tem a fazer com o maior cuidado e diligência. Ele não deve ficar com saudade de Sodoma: “não olhes para trás de ti”.
Ele não deve se entreter pelo caminho: “não pares na planície”; porque ela toda seria transformada num só mar morto.
Ele não deve parar aquém do lugar de refúgio que lhe foi designado: “escapa para o monte”.
Tais como estas são as ordens dadas àqueles que, pela graça, são livrados de um estado de pecado:
[1.] Não volte para o pecado e para Satanás, porque isso é olhar para trás, para Sodoma.
[2.] Não descanse em si mesmo nem no mundo, porque isso é parar na planície.
E, [3.] avance para Cristo e para o céu, porque isso é escapar para o monte, aquém do qual não devemos parar.
II. A fixação de um lugar de refúgio para ele. O monte foi primeiro designado para que ele fugisse para lá:
- Mas ele rogou por uma cidade de refúgio, uma das cinco que ficavam juntas, chamada Bela, Gênesis 14:2; 19:18-20. Foi fraqueza de Ló achar que uma cidade da sua própria escolha era mais segura do que o monte que Deus designava.
Argumentou contra si mesmo ao alegar: “tu magnificaste a tua misericórdia em salvar a minha vida, e eu não posso escapar para o monte”; pois quem o arrancara de Sodoma enquanto hesitava não poderia levá-lo salvo ao monte, mesmo que começasse a cansar? Quem o salvara de males maiores não poderia salvá-lo dos menores?
Ele insiste muito, na sua petição, na pequenez do lugar: era uma cidade pequena, não era? Portanto, era de esperar que não fosse tão má quanto as demais. Isso deu um novo nome ao lugar: foi chamado de Zoar, uma pequena. As intercessões pelos pequenos são dignas de serem lembradas.
- Deus lhe concedeu o pedido, ainda que houvesse nele muita enfermidade, v. 21, 22. Veja que favor Deus mostrou a um verdadeiro santo, ainda que fraco:
(1.) Zoar foi poupada, para agradá-lo. Ainda que a intercessão dele por ela não fosse, como a de Abraão por Sodoma, por um princípio de caridade generosa, mas apenas por interesse próprio, contudo Deus lhe concedeu o pedido, para mostrar quanto vale a oração fervorosa de um homem justo.
(2.) A ruína de Sodoma foi suspensa até que ele estivesse em segurança: nada poderia ser feito até que ele chegasse ali.
Repare: a própria presença de homens bons num lugar ajuda a afastar os juízos. Veja que cuidado Deus tem com a preservação do seu povo. Os ventos são retidos até que os servos de Deus sejam selados, Apocalipse 7:3; Ezequiel 9:4.
III. Repara-se que o sol havia nascido quando Ló entrou em Zoar; porque, quando um homem bom chega a um lugar, ele traz luz consigo, ou deveria trazer.
Versículos 24 a 25
A destruição de Sodoma e Gomorra. (a.C. 1898.)
Então, quando Ló já tinha entrado a salvo em Zoar, então veio esta ruína; porque os homens bons são tirados do mal que está por vir.
Então, quando o sol se levantara brilhante e claro, prometendo um dia sereno, então se levantou esta tormenta, para mostrar que ela não vinha de causas naturais.
A respeito desta destruição, observe:
- Deus foi o autor direto dela. Foi destruição vinda do Todo-Poderoso: “O Senhor fez chover — do Senhor” (v. 24), isto é, Deus de si mesmo, pelo seu próprio poder direto, e não no curso comum da natureza. Ou, Deus o Filho da parte de Deus o Pai; porque o Pai confiou todo o juízo ao Filho.
Repare: aquele que é o Salvador será o destruidor dos que rejeitam a salvação.
- Foi “um castigo estranho”, Jó 31:3. Nunca houve coisa igual, nem antes nem depois. O inferno foi feito chover do céu sobre eles.
“Fogo, e enxofre, e horrível tempestade” foram a porção do cálice deles (Salmos 11:6); não um relâmpago, que já é destrutivo o bastante quando Deus lhe dá ordem, mas uma chuva de relâmpagos.
Enxofre foi espalhado sobre a habitação deles (Jó 18:15), e então o fogo logo se prendeu a eles.
Deus poderia tê-los afogado, como fez com o mundo antigo; mas quis mostrar que tem muitas flechas na sua aljava, fogo assim como água.
- Foi um juízo que devastou tudo: subverteu as cidades, e destruiu todos os habitantes delas, a planície, e tudo o que crescia no solo, v. 25. Foi uma ruína completa, e irreparável.
Aquele vale fértil permanece até hoje um grande lago, ou mar morto; é chamado de Mar Salgado, Números 34:12.
Os viajantes dizem que ele tem cerca de trinta milhas de comprimento e dez milhas de largura; não há nele criatura viva; não é movido pelo vento; o cheiro dele é ofensivo; as coisas não afundam nele com facilidade.
Os gregos o chamam de Asphaltites, por uma espécie de piche que ele lança para fora. O Jordão desemboca nele, e ali se perde.
- Foi um castigo que correspondia ao pecado deles. Paixões ardentes contra a natureza foram justamente punidas com este ardor preternatural. Os que “foram atrás de carne estranha” foram destruídos por fogo estranho, Judas 7.
Eles perseguiram os anjos com a sua turba, e fizeram Ló temer; e agora Deus os perseguiu com a sua tempestade, e os fez temer com a sua tormenta, Salmos 83:15.
- Foi destinada a ser uma revelação permanente da ira de Deus contra o pecado e os pecadores em todas as eras.
É, por isso, muitas vezes mencionada na Escritura, e feita modelo da ruína de Israel (Deuteronômio 29:23), de Babilônia (Isaías 13:19), de Edom (Jeremias 49:17, 18), de Moabe e Amom, Sofonias 2:9.
Mais que isso: era figura da “vingança do fogo eterno” (Judas 7), e da ruína de todos os que vivem de modo ímpio (2 Pedro 2:6), especialmente dos que desprezam o evangelho, Mateus 10:15.
É em alusão a esta destruição que o lugar dos condenados é muitas vezes representado por um lago que arde, como Sodoma ardeu, com fogo e enxofre. Aprendamos disto:
(1.) O mal do pecado, e a natureza danosa dele. A iniquidade tende à ruína.
(2.) Os terrores do Senhor. Veja que coisa terrível é “cair nas mãos do Deus vivo”!
Versículo 26
Isto também está escrito para a nossa admoestação. O nosso Salvador se refere a isso (Lucas 17:32): “Lembrai-vos da mulher de Ló”.
Assim como pelo exemplo de Sodoma os ímpios são advertidos a se desviar da sua maldade, também pelo exemplo da mulher de Ló os justos são advertidos a não se desviar da sua justiça. Veja Ezequiel 3:18, 20. Temos aqui:
I. O pecado da mulher de Ló: ela, que vinha atrás dele, olhou para trás. Isso pareceu coisa pequena, mas temos certeza, pelo castigo disso, de que foi grande pecado, e excessivamente pecaminoso.
Ela desobedeceu a uma ordem expressa, e assim pecou à semelhança da transgressão de Adão, que arruinou a todos nós.
A incredulidade estava no fundo disso; ela punha em dúvida se Sodoma seria destruída, e pensava que ainda poderia estar segura nela.
Ela olhou para trás, para os vizinhos que tinha deixado atrás de si, com mais preocupação do que convinha, agora que o dia de graça deles havia terminado e a justiça divina se glorificava na ruína deles. Veja Isaías 66:24.
Provavelmente ela suspirava pela casa e pelos bens que tinha em Sodoma, e relutava em deixá-los. Cristo dá a entender que esse foi o pecado dela (Lucas 17:31, 32); ela dava atenção demais aos seus haveres.
O olhar para trás dela evidenciava uma inclinação para voltar atrás; e por isso o nosso Salvador o usa como advertência contra a apostasia da nossa profissão cristã.
Todos nós renunciamos ao mundo e à carne, e voltamos o rosto para o céu; estamos na planície, à prova; e, se voltarmos aos interesses que professamos ter abandonado, é por nossa conta e risco.
O recuar é para a perdição, e o olhar para trás é em direção a ela. “Temamos, portanto”, Hebreus 4:1.
II. O castigo da mulher de Ló por esse pecado. Ela foi ferida de morte ali mesmo.
O corpo dela, porém, não caiu: ficou de pé, fixo e ereto, como uma coluna, ou monumento, não sujeito a desgaste nem a corrupção, como estão os corpos humanos expostos ao ar, mas metamorfoseado numa substância metálica que duraria perpetuamente.
Venha, “contempla a bondade e a severidade de Deus” (Romanos 11:22): para com Ló, que seguiu adiante, bondade; para com a mulher dele, que olhou para trás, severidade.
Embora fosse aparentada de perto com um homem justo, embora fosse melhor que os vizinhos e embora fosse monumento de misericórdia distintiva no seu livramento de Sodoma, ainda assim Deus não fez vista grossa à desobediência dela.
Grandes privilégios não nos porão a salvo da ira de Deus se não os aproveitarmos com cuidado e fidelidade.
Esta coluna de sal deve nos temperar. Já que é coisa tão perigosa olhar para trás, prossigamos sempre para diante, Filipenses 3:13, 14.
Versículos 27 a 29
A nossa comunhão com Deus consiste na nossa consideração graciosa para com ele e na consideração graciosa dele para conosco.
Temos aqui, portanto, a comunhão que houve entre Deus e Abraão no desfecho a respeito de Sodoma, como antes na consulta a respeito dela, porque a comunhão com Deus deve ser mantida tanto nas providências quanto nas ordenanças.
I. Aqui está a consideração piedosa de Abraão para com Deus neste desfecho, em duas coisas:
- Uma expectativa cuidadosa do desfecho, v. 27. Ele se levantou cedo para olhar para Sodoma; e, para dar a entender que a sua intenção era ver o que tinha acontecido com as suas orações, foi ao lugar exato onde tinha estado diante do Senhor e ali se pôs, como sobre a sua torre de vigia, Habacuque 2:1.
Repare: depois de orarmos, temos de acompanhar as nossas orações e observar o êxito delas.
Devemos dirigir a nossa oração como uma carta, e então olhar para o alto à espera de resposta; dirigir a nossa oração como uma flecha, e então olhar para o alto para ver se ela atinge o alvo, Salmos 5:3. As nossas indagações por notícias devem ser na expectativa de uma resposta às nossas orações.
- Uma observação reverente disso: ele olhou para Sodoma (v. 28), não como fez a mulher de Ló, censurando tacitamente a severidade divina, mas adorando-a humildemente e conformando-se com ela.
Assim os santos, quando virem a fumaça do tormento da Babilônia subir para sempre (como a de Sodoma aqui), dirão vezes e vezes: “Aleluia”, Apocalipse 19:3.
Aqueles que, no dia da graça, mais fervorosamente intercederam pelos pecadores, no dia do juízo se contentarão em vê-los perecer e glorificarão a Deus na destruição deles.
II. Aqui está a consideração favorável de Deus para com Abraão, v. 29. Assim como antes, quando Abraão orou por Ismael, Deus o ouviu quanto a Isaque, assim agora, quando ele orou por Sodoma, ouviu-o quanto a Ló. Ele se lembrou de Abraão e, por causa dele, tirou Ló da destruição. Repare:
Deus certamente dará uma resposta de paz à oração da fé, no seu próprio modo e tempo; ainda que, por um tempo, ela pareça estar esquecida, contudo, mais cedo ou mais tarde, parecerá estar lembrada.
Os parentes e amigos dos piedosos se saem melhor pela relação que estes têm com Deus e pelas suas intercessões; foi por respeito a Abraão que Ló foi resgatado. Talvez esta palavra tenha animado Moisés, muito tempo depois, a orar para que o Senhor se lembrasse de Abraão (Êxodo 32:13); veja também Isaías 63:11.
Versículos 30 a 38
A Desonra de Ló. (a.C. 1898.)
Aqui está: I. A grande aflição e angústia em que Ló foi lançado depois do seu livramento, v. 30.
- Ele foi afugentado de Zoar e não ousou morar ali, provavelmente porque sabia que escolhera esse refúgio por conta própria e, com isso, havia tolamente ditado a Deus o que fazer; por isso, não confiava na própria segurança ali.
Talvez também tenha achado Zoar tão perversa quanto Sodoma e concluído que ela não sobreviveria por muito tempo.
Ou talvez tenha observado a subida e o aumento daquelas águas que, depois da conflagração, talvez vindas do Jordão, começaram a transbordar sobre a planície, e que, misturando-se com as ruínas, aos poucos formaram o mar Morto.
Nessas águas, concluiu ele, Zoar necessariamente pereceria (embora tivesse escapado do fogo), porque ficava sobre a mesma planura.
Repare: as moradas e os abrigos da nossa própria escolha, em que não seguimos a Deus, comumente vêm a ser incômodos para nós.
- Ele foi forçado a se recolher ao monte e a se contentar com uma caverna por habitação ali.
Parece-me estranho que ele não tenha voltado a Abraão e se posto sob a proteção dele, a quem uma vez e outra devera a sua segurança; mas a verdade é que há alguns homens bons que não são sábios o bastante para saber o que é melhor para eles mesmos. Observe:
(1.) Agora ele ficou contente de ir para o monte, o lugar que Deus lhe havia designado por abrigo. Repare: é bom se a decepção no nosso caminho nos levar, enfim, ao caminho de Deus.
(2.) Aquele que, pouco tempo atrás, não achava espaço bastante para si e para o seu gado em toda a terra, mas tinha de acotovelar-se com Abraão e afastar-se dele o máximo que podia, está agora confinado a um buraco numa colina, onde mal tem espaço para se virar, e ali está solitário e tremendo.
Repare: é justo da parte de Deus reduzir à pobreza e ao confinamento os que abusaram da sua liberdade e da sua fartura.
Veja também em Ló aonde vão parar, afinal, os que abandonam a comunhão dos santos por vantagens seculares; eles serão açoitados com a sua própria vara.
II. O grande pecado de que Ló e as suas filhas foram culpados, quando estavam neste lugar desolado. É uma história triste:
- As filhas dele armaram uma trama muito perversa para levá-lo ao pecado; e a delas foi, sem dúvida, a culpa maior. Elas maquinaram, sob o pretexto de levantar o ânimo do pai na sua condição presente, embriagá-lo e depois deitar-se com ele, v. 31, 32.
(1.) Alguns pensam que o pretexto delas era plausível. O pai delas não tinha filhos homens, elas não tinham maridos, nem sabiam onde conseguir algum da semente santa; ou, se tivessem filhos de outros, o nome do pai não seria preservado neles.
Alguns pensam que elas tinham o Messias em vista, o qual, esperavam, poderia descender do pai delas; pois ele vinha do filho mais velho de Terá, que se separou do restante da posteridade de Sem, assim como Abraão, e agora fora livrado de Sodoma de modo assinalado.
A mãe delas e o resto da família tinham partido; não lhes era permitido casar com os cananeus malditos; e por isso supunham que o fim a que visavam e o extremo a que tinham sido levadas desculpariam a irregularidade. Assim o erudito Monsieur Allix.
Repare: boas intenções muitas vezes são usadas com abuso para apadrinhar más ações.
Mas, (2.) Qualquer que fosse o pretexto delas, é certo que o seu projeto era muito perverso e vil, e uma afronta descarada à própria luz e lei da natureza. Repare:
[1.] A vista dos juízos mais tremendos de Deus sobre os pecadores não refreia por si mesma, sem a graça de Deus, os corações maus das práticas más: é de admirar como o fogo da concupiscência pôde sequer acender-se sobre aqueles que tão recentemente tinham sido testemunhas oculares das chamas de Sodoma.
[2.] A solidão tem as suas tentações, assim como a companhia, e particularmente para a impureza. Quando José estava a sós com a sua senhora, estava em perigo, Gênesis 39:11.
Parentes que moram juntos, especialmente se estão isolados, precisam vigiar com cuidado até contra o menor pensamento mau desse tipo, para que Satanás não leve vantagem.
- O próprio Ló, pela sua tolice e falta de cautela, foi miseravelmente vencido e deixou-se enganar de tal modo pelas próprias filhas que, duas noites seguidas, embriagou-se e cometeu incesto, v. 33, etc.
Senhor, o que é o homem! O que são os melhores dos homens, quando Deus os deixa entregues a si mesmos! Veja aqui:
(1.) O perigo da falsa segurança. Ló, que não só se manteve sóbrio e casto em Sodoma, mas foi pranteador constante da perversidade daquele lugar e testemunha contra ela, foi contudo, no monte, onde estava sozinho e, como pensava, bem longe do caminho da tentação, vergonhosamente surpreendido.
Portanto, aquele que pensa estar em pé, estar no alto e estar firme, tome cuidado para não cair. Nenhum monte, deste lado do santo monte lá do alto, pode nos pôr fora do alcance dos dardos inflamados de Satanás.
(2.) O perigo da embriaguez. Não é apenas um grande pecado em si, mas é a porta de entrada de muitos pecados; pode vir a ser a porta de entrada dos piores e mais antinaturais pecados, que podem ser ferida e desonra perpétuas. Com que excelência o Sr. Herbert a descreve:
“Aquele que está embriagado pode matar a própria mãe, grávida da própria irmã.”
Um homem pode fazer sem relutância, quando está bêbado, aquilo em que, quando está sóbrio, não poderia pensar sem horror.
(3.) O perigo da tentação que vem dos nossos parentes e amigos mais queridos, a quem amamos e estimamos, e de quem esperamos bondade.
Ló, cuja temperança e castidade eram inexpugnáveis contra as baterias da força estrangeira, foi levado de surpresa ao pecado e à vergonha pela traição vil das próprias filhas: devemos temer um laço onde quer que estejamos, e estar sempre em guarda.
- No fecho temos o relato do nascimento dos dois filhos, ou netos (chame-os como quiser), de Ló: Moabe e Amom, os pais de duas nações, vizinhas de Israel, e sobre as quais lemos com frequência no Antigo Testamento; os dois juntos são chamados os filhos de Ló, Salmos 83:8.
Repare: embora nascimentos prósperos possam acompanhar concepções incestuosas, contudo eles estão tão longe de justificá-las que antes perpetuam o descrédito delas e legam infâmia à posteridade.
Contudo a tribo de Judá, da qual brotou o nosso Senhor, descendeu de um nascimento assim, e Rute, moabita, tem nome na genealogia dele, Mateus 1:3, 5.
Por último, observe que, depois disso, nunca mais lemos de Ló, nem o que foi feito dele. Sem dúvida ele se arrependeu do seu pecado e foi perdoado.
Mas do silêncio da Escritura a respeito dele daí em diante podemos aprender que a embriaguez, assim como torna os homens esquecidiços, assim também os torna esquecidos; e muitos nomes que, de outro modo, poderiam ter sido lembrados com respeito, são por ela sepultados no desprezo e no esquecimento.