Matthew Henry

Gênesis 17

Argumento

Este capítulo contém os artigos de um acordo pactuado e concluído entre o grande Jeová, o Pai das misericórdias, de uma parte, e o piedoso Abrão, o pai dos fiéis, da outra parte.

Por isso Abrão é chamado “o amigo de Deus”, não só porque era o homem do seu conselho, mas também porque era o homem da sua aliança; esses dois segredos estavam com ele.

Fez-se menção desta aliança (Gênesis 15:18), mas aqui ela é redigida em pormenor e posta na forma de uma aliança, para que Abrão tivesse forte consolação. Aqui estão:

I. As circunstâncias da celebração desta aliança, o tempo e o modo (v. 1), e a postura em que Abrão estava, v. 3.

II. A própria aliança. No seu alcance geral, v. 1. E, depois, nos casos particulares:

  1. Que ele seria pai de muitas nações (v. 4, 6) e, em sinal disso, o seu nome foi mudado, v. 5.

  2. Que Deus seria Deus para ele e para a sua descendência, e lhes daria a terra de Canaã, v. 7, 8. E o selo desta parte da aliança foi a circuncisão, vv. 9-14.

  3. Que ele teria um filho de Sarai e, em sinal disso, o nome dela foi mudado, v. 15, 16. Esta promessa Abrão recebeu, v. 17. E o seu pedido por Ismael (v. 18) foi respondido abundantemente, para a sua satisfação, vv. 19-22.

III. A circuncisão de Abrão e da sua família, conforme a determinação de Deus, v. 23, etc.

Versículos 1 a 3

A Aliança com Abraão Renovada. (a.C. 1898.)

Aqui está: I. O tempo em que Deus fez a Abrão esta visita cheia de graça: quando ele tinha noventa e nove anos, treze anos completos depois do nascimento de Ismael.

  1. Por todo esse tempo, ao que parece, as aparições extraordinárias de Deus a Abrão ficaram suspensas; e toda a comunhão que ele teve com Deus se deu apenas pelos caminhos usuais das ordenanças e das providências.

Repare: há certos consolos especiais que não são o pão de cada dia — não, nem mesmo dos melhores santos —, mas de vez em quando eles são agraciados com eles. Deste lado do céu eles têm alimento conveniente, mas não um banquete contínuo.

  1. Por todo esse tempo a promessa de Isaque ficou adiada:

(1.) Talvez para corrigir o casamento apressado demais de Abrão com Agar. Repare: os consolos que pecaminosamente antecipamos são justamente retardados.

(2.) Para que, estando Abrão e Sarai tão avançados em idade, o poder de Deus, nesta matéria, fosse tanto mais engrandecido, e a fé deles tanto mais provada. Veja Deuteronômio 32:36; João 11:6, 15.

(3.) Para que uma criança esperada por tanto tempo fosse um Isaque, um filho de fato, Isaías 54:1.

II. O modo como Deus fez com ele esta aliança: “o Senhor apareceu a Abrão”, na shechinah, alguma exibição visível da presença gloriosa e direta de Deus com ele.

Repare: Deus primeiro se dá a conhecer a nós, e nos dá uma visão dele pela fé, e então nos toma para dentro da sua aliança.

III. A postura em que Abrão se pôs nesta ocasião: ele “caiu sobre o seu rosto” enquanto Deus falava com ele, v. 3:

  1. Como quem foi vencido pelo esplendor da glória divina e era incapaz de suportar a visão dela, ainda que a tivesse visto diversas vezes antes.

Daniel e João fizeram o mesmo, ainda que também estivessem familiarizados com as visões do Todo-Poderoso, Daniel 8:17; 10:9, 15; Apocalipse 1:17.

Ou, 2. Como quem tem vergonha de si mesmo e cora ao pensar nas honras prestadas a alguém tão indigno.

Ele olha para si mesmo com humildade e para Deus com reverência, e, em sinal de ambas as coisas, cai sobre o seu rosto, pondo-se em postura de adoração.

Repare: (1.) Deus condescende, na sua graça, em falar com aqueles que ele toma para a aliança e a comunhão consigo mesmo.

Ele fala com eles pela sua palavra, Provérbios 6:22. Ele fala com eles pelo seu Espírito, João 14:26. Esta honra têm todos os seus santos.

(2.) Os que são admitidos à comunhão com Deus são, e têm de ser, muito humildes e muito reverentes ao se aproximarem dele. Se dizemos que temos comunhão com ele, e a familiaridade gera desprezo, estamos nos enganando.

(3.) Os que quiserem receber consolo de Deus devem aplicar-se a dar glória a Deus e a adorar diante do escabelo dos seus pés.

IV. O alcance geral e o resumo da aliança, postos como o fundamento sobre o qual tudo o mais foi construído; não é outra coisa senão a aliança da graça, que continuamente se faz com todos os crentes em Jesus Cristo, v. 1. Observe aqui:

  1. O que podemos esperar achar que Deus é para nós: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso.”

Por este nome ele escolheu se dar a conhecer a Abrão, e não pelo seu nome Jeová, Êxodo 6:3. Ele o usou com Jacó, Gênesis 28:3; 43:14; 48:3.

É o nome de Deus mais usado ao longo do livro de Jó, ao menos nos discursos desse livro.

Depois de Moisés, Jeová é usado com mais frequência, e este, El-shaddai, muito raramente. Ele denota o poder onipotente de Deus, seja:

(1.) Como vingador, de shodeh, ele devastou, segundo alguns; e eles pensam que Deus tomou este título da destruição do velho mundo. Isso é favorecido por Isaías 13:6 e Joel 1:15.

Ou, (2.) Como benfeitor: shin (em lugar de) asher (que) e day (suficiente). Ele é um Deus que basta; ou, como a nossa antiga tradução inglesa o verte aqui, de modo muito significativo: “Eu sou Deus todo-suficiente.”

Repare: o Deus com quem temos de tratar é um Deus que basta.

[1.] Ele basta em si mesmo; é autossuficiente; tem tudo e não precisa de coisa alguma.

[2.] Ele nos basta, se estivermos em aliança com ele: temos tudo nele, e temos o bastante nele — o bastante para satisfazer os nossos desejos mais dilatados, o bastante para suprir a falta de todo o resto e para nos assegurar uma felicidade para as nossas almas imortais. Veja Salmos 16:5, 6; 73:25.

  1. O que Deus requer que sejamos para ele. A aliança é mútua: “Anda diante de mim, e sê perfeito”, isto é, reto e sincero; pois nisto a aliança da graça é bem ordenada: que a sinceridade é a nossa perfeição evangélica.

Observe: (1.) Que ser religioso é andar diante de Deus na nossa integridade; é pôr Deus sempre diante de nós, e pensar, falar e agir, em tudo, como quem está sempre debaixo do seu olhar.

É ter um respeito constante pela sua palavra como nossa regra e pela sua glória como nosso fim em todas as nossas ações, e estar continuamente no seu temor.

É ter intimidade com ele em todos os deveres do culto religioso, porque neles em particular andamos diante de Deus (1 Samuel 2:30), e ser inteiramente dele em toda conduta santa. Não conheço religião nenhuma senão a sinceridade.

(2.) Que o andar reto com Deus é a condição da nossa participação na sua plena suficiência. Se o negligenciamos, ou dissimulamos com ele, perdemos o benefício e o consolo da nossa relação com ele.

(3.) Um respeito contínuo à plena suficiência de Deus terá grande influência sobre o nosso andar reto com ele.

Versículos 4 a 6

A promessa aqui é introduzida com solenidade: “Quanto a mim”, diz o grande Deus, “vê, vê e admira isto, vê e fica certo disto, a minha aliança é contigo”; como antes (v. 2), “farei a minha aliança”.

Repare: a aliança da graça é aliança feita pelo próprio Deus; disso ele se gloria (“quanto a mim”), e nós também podemos. Agora, aqui:

I. É prometido a Abraão que ele seria pai de muitas nações; isto é:

  1. Que a sua descendência segundo a carne seria muito numerosa, tanto em Isaque quanto em Ismael, como também nos filhos de Quetura:

Sem dúvida algo de extraordinário está incluído nesta promessa, e podemos supor que o desfecho lhe correspondeu, e que houve, e há, mais filhos dos homens descendentes de Abraão do que de qualquer homem que esteja de Noé, a raiz comum, à mesma distância que ele.

  1. Que todos os crentes, em toda época, seriam tidos como a sua descendência espiritual, e que ele seria chamado não só o amigo de Deus, mas também o pai dos fiéis. Neste sentido o apóstolo nos manda entender esta promessa, Romanos 4:16, 17.

Ele é o pai daqueles, em toda nação, que pela fé entram em aliança com Deus e (como dizem os escritores judeus) são recolhidos debaixo das asas da divina Majestade.

II. Em sinal disso, o seu nome foi mudado de Abrão, pai elevado, para Abraão, o pai de uma multidão. Isto foi:

  1. Para lhe conferir honra. Fala-se, como glória da igreja, que ela será chamada por “um nome novo, que a boca do Senhor nomeará”, Isaías 62:2.

Os príncipes dignificam os seus favorecidos conferindo-lhes novos títulos; assim foi Abraão dignificado por aquele que é de fato a fonte da honra. Todos os crentes têm um nome novo, Apocalipse 2:17.

Alguns pensam que acrescentou honra ao novo nome de Abraão o fato de nele se ter inserido uma letra do nome Jeová, assim como foi desonra para Jeconias ter a primeira sílaba do seu nome cortada, porque era a mesma que a primeira sílaba do nome sagrado, Jeremias 22:28. Os crentes recebem o seu nome de Cristo, Efésios 3:15.

  1. Para animar e confirmar a fé de Abraão. Enquanto não tinha filhos, talvez até o seu próprio nome fosse às vezes ocasião de dor para ele: por que seria chamado de pai elevado quem não era pai de modo algum?

Mas agora que Deus lhe havia prometido prole numerosa e lhe havia dado um nome que significava tanto, aquele nome era a sua alegria.

Repare: Deus “chama as coisas que não são como se fossem”. É a observação do apóstolo sobre esta mesma coisa, Romanos 4:17.

Ele chamou Abraão de pai de uma multidão porque ele viria a ser isso no devido tempo, ainda que até então tivesse apenas um filho.

Versículos 7 a 14

Aqui está: I. A continuidade da aliança, insinuada em três coisas:

  1. Ela está estabelecida; não pode ser alterada nem revogada. Está fixada, está ratificada, está feita tão firme quanto o poder e a verdade divinos a podem fazer.

  2. Ela é vinculada como herança; é uma aliança não só com Abraão (então morreria com ele), mas também com a sua descendência depois dele, não só a sua descendência segundo a carne, mas também a sua descendência espiritual.

  3. Ela é eterna no sentido e no significado evangélico dela. A aliança da graça é eterna. Ela é desde a eternidade nos seus conselhos, e para a eternidade nas suas consequências.

E a administração externa dela é transmitida, com o selo dela, à descendência dos crentes, e a administração interna dela, pelo Espírito, à descendência de Cristo em toda época.

II. O conteúdo da aliança: é uma aliança de promessas, promessas grandíssimas e preciosas. Aqui estão duas que de fato são inteiramente suficientes:

  1. Que Deus seria o Deus deles, v. 7, 8. Todos os privilégios da aliança, todas as suas alegrias e todas as suas esperanças, resumem-se nisto. Um homem não precisa desejar mais do que isto para ser feliz.

O que Deus é em si mesmo, isso ele será para o seu povo: a sabedoria dele será deles, para guiá-los e aconselhá-los; o poder dele, deles, para protegê-los e sustentá-los; a bondade dele, deles, para supri-los e consolá-los.

O que adoradores fiéis podem esperar do Deus a quem servem, os crentes encontrarão em Deus como seu. Isto é bastante, e contudo não é tudo.

  1. Que Canaã seria a possessão eterna deles, v. 8. Deus já havia prometido esta terra a Abraão e à sua descendência, Gênesis 15:18.

Mas aqui, onde ela é prometida como possessão eterna, sem dúvida deve ser vista como tipo da felicidade do céu, aquele descanso eterno que resta para o povo de Deus, Hebreus 4:9.

Esta é aquela melhor pátria em que Abraão tinha os olhos postos, e cuja concessão foi o que correspondeu à vasta extensão e ao alcance daquela promessa, de que Deus seria Deus para eles; de modo que, se Deus não tivesse preparado e destinado isto, ele teria se envergonhado de ser chamado o Deus deles, Hebreus 11:16.

Assim como a terra de Canaã foi assegurada à descendência de Abraão segundo a carne, assim o céu está assegurado a toda a sua descendência espiritual, por uma aliança e para uma possessão verdadeiramente eternas.

A oferta desta vida eterna é feita na palavra, e confirmada pelos sacramentos, a todos os que estão debaixo da administração externa da aliança; e o penhor dela é dado a todos os crentes, Efésios 1:14.

Diz-se aqui que Canaã é a terra em que Abraão era estrangeiro; e a Canaã celestial é uma terra para a qual somos estrangeiros, porque ainda não se manifestou o que seremos.

III. O sinal da aliança, e esse sinal é a circuncisão, por causa da qual a própria aliança é chamada “a aliança da circuncisão”, Atos 7:8.

Diz-se aqui que ela é a aliança que Abraão e a sua descendência devem guardar, como cópia, ou contraparte, v. 9, 10. É chamada sinal e selo (Romanos 4:11), pois era:

  1. Uma confirmação, a Abraão e à sua descendência, daquelas promessas que eram a parte de Deus na aliança, assegurando-lhes que elas se cumpririam, que no devido tempo Canaã seria deles.

E a continuação desta ordenança, depois que Canaã já era deles, insinua que estas promessas olhavam mais adiante, para outra Canaã, que eles deviam continuar a esperar. Veja Hebreus 4:8.

  1. Uma obrigação, sobre Abraão e a sua descendência, quanto ao dever que era a parte deles na aliança; não só ao dever de aceitar a aliança e anuir a ela, e de pôr de lado a corrupção da carne (deveres mais direta e primariamente significados pela circuncisão).

Mas era também, em geral, obrigação à observância de todos os mandamentos de Deus, conforme fossem, a qualquer tempo dali em diante, insinuados e dados a conhecer a eles; porque a circuncisão fazia dos homens devedores de cumprir toda a lei, Gálatas 5:3.

Aqueles que querem que Deus seja Deus para eles têm de anuir e resolver ser povo para ele. Ora:

(1.) A circuncisão era uma ordenança sangrenta; porque pela lei todas as coisas eram purificadas com sangue, Hebreus 9:22. Veja Êxodo 24:8. Mas, tendo sido derramado o sangue de Cristo, todas as ordenanças sangrentas estão agora abolidas; por isso a circuncisão dá lugar ao batismo.

(2.) Era própria dos varões, ainda que as mulheres também estivessem incluídas na aliança, porque o homem é o cabeça da mulher. No nosso reino, o juramento de fidelidade só se exige dos homens.

Alguns pensam que na circuncisão só se derramava o sangue dos varões porque nela se tinha em vista Jesus Cristo e o seu sangue.

(3.) Era a carne do prepúcio que devia ser cortada, porque é pela geração ordinária que o pecado se propaga, e com os olhos postos na descendência prometida, que viria dos lombos de Abraão.

Não se tendo Cristo ainda oferecido a nós, Deus quis que o homem entrasse em aliança pelo oferecimento de alguma parte do seu próprio corpo, e nenhuma parte podia ser melhor dispensada.

É uma parte secreta do corpo; porque a verdadeira circuncisão é a do coração: esta honra Deus pôs sobre uma parte indecorosa, 1 Coríntios 12:23, 24.

(4.) A ordenança devia ser administrada às crianças quando tinham oito dias, e não antes, para que ganhassem alguma força e pudessem suportar a dor dela, e para que ao menos um sábado passasse sobre elas.

(5.) Os filhos dos estrangeiros, cujo verdadeiro dono, no âmbito da família, era o senhor da casa, deviam ser circuncidados (v. 12, 13), o que olhava com favor para os gentios, que no devido tempo seriam trazidos para a família de Abraão pela fé. Veja Gálatas 3:14.

(6.) A observância religiosa desta instituição era exigida sob pena muito severa, v. 14. O desprezo da circuncisão era desprezo da aliança; se os pais não circuncidassem os seus filhos, era por conta e risco deles, como no caso de Moisés, Êxodo 4:24, 25.

Quanto aos que não foram circuncidados na infância, se, ao crescerem, eles mesmos não se submetessem a esta ordenança, Deus certamente lhes pediria contas.

Se eles não cortassem fora a carne do seu prepúcio, Deus os cortaria fora do seu povo. É coisa perigosa fazer pouco caso das instituições divinas e viver na negligência delas.

Versículos 15 a 22

Aqui está: I. A promessa feita a Abraão de um filho de Sarai, aquele filho em quem se cumpriria a promessa que lhe fora feita, de que ele seria pai de muitas nações; pois ela também será mãe de nações, e reis de povos sairão dela, v. 16. Repare:

  1. Deus revela por graus ao seu povo os propósitos da sua boa vontade. Deus dissera a Abraão, muito antes, que ele teria um filho, mas nunca, até agora, que teria um filho de Sarai.

  2. A bênção do Senhor faz frutificar, e não acrescenta com ela tristeza alguma, nenhuma tristeza como a que houve no caso de Agar. “Eu a abençoarei com a bênção da fecundidade, e então terás dela um filho.”

  3. O governo civil e a ordem são grande bênção para a igreja. É prometido não só que povos, mas também que reis de povos sairiam dela; não uma turba sem cabeça, mas uma sociedade bem modelada e bem governada.

II. A ratificação desta promessa foi a mudança do nome de Sarai para Sara (v. 15), acrescentando-se ao nome dela a mesma letra que fora acrescentada ao de Abraão, e pelos mesmos motivos.

Sarai significa minha princesa, como se a sua honra estivesse confinada a uma só família. Sara significa princesa — a saber, de multidões —, ou significa que dela viria o Messias, o príncipe, o próprio príncipe dos reis da terra.

III. A recepção alegre e agradecida desta promessa graciosa por Abraão, v. 17. Nesta ocasião ele manifestou:

  1. Grande humildade: ele “caiu sobre o seu rosto”. Repare: quanto mais honras e favores Deus nos confere, tanto mais baixos devemos ser aos nossos próprios olhos, e tanto mais reverentes e submissos diante de Deus.

  2. Grande alegria: ele “se riu”. Foi um riso de deleite, não de desconfiança. Repare: até as promessas de um Deus santo, assim como os seus cumprimentos, são as alegrias das almas santas; há a alegria da fé, assim como há a alegria da fruição.

Foi então que Abraão se alegrou por ver o dia de Cristo. Então ele “o viu, e alegrou-se” (João 8:56); pois, assim como via o céu na promessa de Canaã, via Cristo na promessa de Isaque.

  1. Grande admiração: “Nascerá um filho a quem tem cem anos?” Ele não fala disso aqui como coisa de modo algum duvidosa (pois estamos certos de que “não vacilou diante da promessa”, Romanos 4:20), mas como coisa muito admirável, e que não poderia ser efetuada senão pelo poder onipotente de Deus, e como coisa muito bondosa.

Era um favor tanto mais comovente e capaz de despertar gratidão por isto: por ser extremamente surpreendente, Salmos 126:1, 2.

IV. A oração de Abraão por Ismael: “Oxalá que Ismael viva diante de ti!” v. 18. Ele diz isto não por desejar que Ismael fosse preferido ao filho que teria de Sara; mas, temendo que ele seja abandonado e desamparado de Deus, eleva esta petição em favor dele.

Agora que Deus está falando com ele, ele pensa que tem uma oportunidade muito propícia de dizer uma palavra a favor de Ismael, e não a deixará escapar. Repare:

  1. Ainda que não devamos prescrever a Deus, contudo ele nos permite, na oração, ser humildemente francos com ele, e particulares em dar a conhecer os nossos pedidos, Filipenses 4:6. Tudo o que for matéria do nosso cuidado e do nosso temor deve ser exposto diante de Deus em oração.

  2. É dever dos pais orar pelos seus filhos, por todos os seus filhos, como Jó, que oferecia holocaustos “segundo o número de todos eles”, Jó 1:5.

Abraão não queria que se pensasse que, quando Deus lhe prometeu um filho de Sara, o que ele tanto desejava, então o seu filho de Agar ficava esquecido; não, ele continuamente o traz sobre o coração, e mostra cuidado por ele.

A perspectiva de favores ulteriores não deve nos tornar esquecidos dos favores anteriores.

  1. A grande coisa que devemos desejar de Deus para os nossos filhos é que eles vivam diante dele, isto é, que sejam conservados em aliança com ele, e tenham graça para andar diante dele na sua integridade.

As bênçãos espirituais são as melhores bênçãos, e aquelas pelas quais devemos ser mais insistentes com Deus, tanto por nós mesmos quanto pelos outros. Vivem bem os que vivem diante de Deus.

V. A resposta de Deus à sua oração; e é resposta de paz. Abraão não podia dizer que buscou a face de Deus em vão.

  1. As bênçãos comuns são asseguradas a Ismael (v. 20): “Quanto a Ismael, por quem tanto te preocupas, eu te ouvi; ele achará favor por tua causa; eu o abençoei”, isto é, “tenho muitas bênçãos guardadas para ele”.

(1.) A sua posteridade será numerosa: “eu o multiplicarei grandissimamente”, mais que os seus vizinhos. Este é o fruto da bênção, como aquela de Gênesis 1:28.

(2.) Eles serão de importância: “doze príncipes gerará”. Podemos esperar, caridosamente, que também bênçãos espirituais lhe tenham sido concedidas, ainda que a igreja visível não tenha saído dos seus lombos e a aliança não tenha ficado alojada na sua família.

Repare: grande abundância de bens exteriores é muitas vezes dada àqueles filhos de pais piedosos que nascem segundo a carne, por causa dos seus pais.

  1. As bênçãos da aliança são reservadas para Isaque, e a ele destinadas, v. 19, 21. Se Abraão, na sua oração por Ismael, queria dizer que desejava que a aliança fosse feita com ele, e que a descendência prometida viesse dele, então Deus não lhe respondeu na letra, mas naquilo que era equivalente; ou melhor, naquilo que era em todos os sentidos melhor.

(1.) Deus lhe repete a promessa de um filho de Sara: “ela te dará um filho de fato”. Repare: até os verdadeiros crentes precisam que as promessas de Deus lhes sejam duplicadas e repetidas, para que tenham “forte consolação”, Hebreus 6:18. E ainda: os filhos da promessa são filhos de fato.

(2.) Ele dá nome a essa criança — chama-a de Isaque, riso, porque Abraão se alegrou em espírito quando este filho lhe foi prometido. Repare: se as promessas de Deus são a nossa alegria, as misericórdias prometidas serão, no devido tempo, a nossa imensa alegria.

Cristo será riso para os que o esperam; os que agora se alegram na esperança em breve se alegrarão por ter aquilo que esperam: este é riso que não é loucura.

(3.) Ele vincula a aliança a essa criança: “estabelecerei a minha aliança com ele”. Repare: Deus toma em aliança consigo a quem lhe apraz, segundo o beneplácito da sua vontade. Veja Romanos 9:8, 18.

Assim foi assentada a aliança entre Deus e Abraão, com as suas diversas limitações e direitos sucessórios, e então o colóquio terminou: Deus acabou de falar com ele, e a visão desapareceu, “Deus subiu de junto de Abraão”.

Repare: a nossa comunhão com Deus aqui é quebrada e interrompida; no céu será um banquete contínuo e eterno.

Versículos 23 a 27

A Circuncisão de Abraão, etc. (a.C. 1898.)

Temos aqui a obediência de Abraão à lei da circuncisão. Ele mesmo e toda a sua família foram circuncidados, recebendo assim o sinal da aliança e distinguindo-se das outras famílias, que não tinham parte nem sorte nesse assunto.

  1. Foi uma obediência sem reservas: ele fez como Deus lhe tinha dito, e não perguntou por que nem para quê. A vontade de Deus não era só lei para ele, mas também uma razão; ele o fez porque Deus lhe disse.

  2. Foi uma obediência pronta: “naquele mesmo dia”, v. 23, 26. A obediência sincera não é tardia, Salmos 119:60.

Enquanto o mandamento ainda soa nos nossos ouvidos, e o senso do dever está fresco, é bom nos aplicarmos a ele de imediato, para que não nos enganemos adiando-o para uma ocasião mais conveniente.

  1. Foi uma obediência universal: ele não circuncidou a sua família e se dispensou, mas lhes deu o exemplo; nem tomou o consolo do selo da aliança só para si, mas desejou que todos os seus o partilhassem com ele.

Este é um bom exemplo para os chefes de família; eles e as suas casas devem servir ao Senhor.

Ainda que a aliança de Deus não tivesse sido estabelecida com Ismael, contudo ele foi circuncidado; porque os filhos de pais crentes, como tais, têm direito aos privilégios da igreja visível e aos selos da aliança, seja o que for que venham a revelar-se depois. Ismael é abençoado, e por isso circuncidado.

  1. Abraão fez isto ainda que muita coisa se pudesse objetar contra isso:

A circuncisão era dolorosa; para homens feitos, era vergonhosa; enquanto estavam doloridos e incapazes de agir, os seus inimigos podiam levar vantagem contra eles, como Simeão e Levi fizeram contra os siquemitas.

Abraão tinha noventa e nove anos e há muito tempo fora justificado e aceito por Deus; coisa tão estranha, feita por religião, podia ser tornada motivo de descrédito contra ele pelo cananeu e pelo ferezeu que então habitavam na terra.

Contudo o mandamento de Deus bastava para responder a estas e a mil objeções semelhantes: o que Deus exige nós devemos fazer, sem consultar a carne e o sangue.


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