Gênesis 16
Argumento
Agar é a pessoa mais envolvida na história deste capítulo, uma mulher egípcia obscura, de cujo nome e de cuja história nunca teríamos ouvido falar se a Providência não a tivesse trazido para a família de Abrão.
Provavelmente ela era uma daquelas servas que o rei do Egito, entre outros presentes, concedeu a Abrão, Gênesis 12:16.
A respeito dela, temos quatro coisas neste capítulo:
I. O seu casamento com Abrão, seu senhor, vv. 1-3.
II. O seu mau comportamento para com Sarai, sua senhora, vv. 4-6.
III. A sua conversa com um anjo que a encontrou na sua fuga, vv. 7-14.
IV. O nascimento de seu filho, v. 15, 16.
Versículos 1 a 3
Abrão, Sarai e Agar. (a.C. 1911.)
Temos aqui o casamento de Abrão com Agar, que era a sua esposa secundária. Nisso, embora se possa desculpá-lo em parte, não se pode justificá-lo, porque desde o princípio não foi assim.
E, quando foi assim, parece ter provindo de um desejo irregular de constituir famílias para o povoamento mais rápido do mundo e da igreja.
Certamente não deve ser assim agora. Cristo reconduziu esta questão à instituição primeira, e faz com que a união matrimonial seja entre um só homem e uma só mulher. Ora:
I. Quem arranjou este casamento (quem diria?) foi a própria Sarai: ela disse a Abrão: “Peço-te, entra à minha serva”, v. 2. Repare:
- É tática de Satanás nos tentar por meio dos nossos parentes mais chegados e queridos, ou daqueles amigos de quem temos boa opinião e por quem temos afeição.
A tentação é mais perigosa quando é enviada por uma mão que é a menos suspeitada: a nossa sabedoria, por isso, está em considerar não tanto quem fala, mas o que é falado.
- Os mandamentos de Deus zelam pelo nosso consolo e pela nossa honra muito melhor do que os nossos próprios arranjos.
Teria sido muito mais do interesse de Sarai que Abrão se mantivesse na regra da lei de Deus, em vez de se deixar guiar pelos projetos tolos dela; mas muitas vezes agimos mal para conosco.
II. O que induziu a isso foi a esterilidade de Sarai:
- Sarai não deu filhos a Abrão. Ela era muito formosa (Gênesis 12:14), era esposa muito agradável e cumpridora do seu dever, e participava com ele das suas grandes posses; e, ainda assim, foi registrada como alguém sem filhos.
Repare: (1.) Deus distribui os seus dons de modos diversos, carregando-nos de benefícios, mas sem nos sobrecarregar: alguma cruz é destinada a ser uma liga que diminui o brilho das grandes alegrias.
(2.) A bênção de ter filhos muitas vezes é dada aos pobres e negada aos ricos, dada aos ímpios e negada às pessoas boas, ainda que os ricos tenham mais para lhes deixar e as pessoas boas sejam as que mais cuidariam da educação deles. Deus faz nisto como lhe agrada.
- Ela reconheceu a providência de Deus nesta aflição: “O Senhor me tem impedido de dar à luz”.
Repare: (1.) Assim como, onde há filhos, é Deus quem os dá (Gênesis 33:5), assim também, onde eles faltam, é ele quem os retém, Gênesis 30:2. Este mal vem do Senhor.
(2.) Convém-nos reconhecer isto, para que o suportemos e o aproveitemos como uma aflição ordenada por ele para fins sábios e santos.
- Ela usou isto como argumento com Abrão para que ele se casasse com a sua serva; e ele foi levado por este argumento a fazê-lo.
Repare: (1.) Quando o nosso coração se apega demais a algum consolo vindo das criaturas, somos facilmente levados a usar métodos indiretos para obtê-lo. Desejos desmedidos comumente produzem esforços irregulares.
Se os nossos anseios não forem mantidos em submissão à providência de Deus, dificilmente as nossas buscas se manterão sob as restrições dos seus preceitos.
(2.) É por falta de uma dependência firme da promessa de Deus, e de uma espera paciente pelo tempo de Deus, que saímos do caminho do nosso dever para agarrar a misericórdia esperada. Aquele que crê não se apressa.
- A anuência de Abrão à proposta de Sarai, temos razão para pensar, veio de um desejo ardente da semente prometida, sobre quem a aliança seria vinculada.
Deus lhe dissera que o seu herdeiro seria um filho do seu corpo, mas ainda não lhe dissera que seria um filho por meio de Sarai; por isso ele pensou: “Por que não por Agar, já que a própria Sarai o propôs?”
Repare: (1.) Tentações torpes podem ter pretextos muito belos, e ser coloridas com aquilo que é muito plausível.
(2.) A sabedoria carnal, assim como antecipa o tempo da misericórdia de Deus, também nos tira do caminho de Deus.
(3.) Isto seria felizmente evitado se pedíssemos conselho a Deus pela palavra e pela oração, antes de tentar aquilo que é importante e suspeito.
Nisso Abrão deixou a desejar; ele se casou sem o consentimento de Deus. Esta persuasão não veio daquele que o chamou.
Versículos 4 a 6
Temos aqui as más consequências diretas do casamento infeliz de Abrão com Agar. Muito dano ele causou, e depressa.
Quando não fazemos o bem, tanto o pecado quanto a aflição estão à porta; e podemos agradecer a nós mesmos pela culpa e pela dor que nos seguem quando saímos do caminho do nosso dever. Veja isso nesta história.
I. Sarai é desprezada e, com isso, provocada e posta em cólera, v. 4.
Assim que Agar se percebe grávida do seu senhor, passa a olhar com desprezo para a sua senhora, talvez repreendendo-a pela esterilidade, insultando-a, “para fazê-la irritar-se” (como em 1 Samuel 1:6), e gabando-se da perspectiva que tinha de dar um herdeiro a Abrão, àquela boa terra e à promessa.
Agora ela se acha mulher melhor que Sarai, mais favorecida pelo Céu e provavelmente mais amada por Abrão; e por isso não quer se submeter como vinha fazendo.
Repare: 1. Espíritos baixos e servis, quando favorecidos e elevados ou por Deus ou pelo homem, tendem a se tornar altivos e insolentes, e a esquecer o seu lugar e a sua origem. Veja Provérbios 29:21; Provérbios 30:21-23. É coisa difícil suportar a honra do jeito certo.
- Com justiça sofremos por causa daqueles a quem pecaminosamente concedemos favor, e é coisa justa da parte de Deus fazer instrumentos da nossa aflição aqueles que fizemos instrumentos do nosso pecado, e enredar-nos nos nossos próprios maus conselhos: esta pedra voltará sobre aquele que a rola.
II. Abrão é alvo de clamores e não consegue ter sossego enquanto Sarai está de mau humor; ela o repreende com veemência e muito injustamente lhe imputa a injúria (v. 5): “Meu agravo seja sobre ti”, com um ciúme sem a menor razão, suspeitando que ele apoiava a insolência de Agar.
E, como quem não quer ouvir o que Abrão tinha a dizer para corrigir o engano e para se justificar, ela apela precipitadamente a Deus no caso: “O Senhor julgue entre mim e ti”, como se Abrão tivesse recusado fazer-lhe justiça. Assim Sarai, na sua cólera, fala como uma das mulheres insensatas.
Repare: 1. É um absurdo de que as pessoas coléricas muitas vezes são culpadas: entrar em desavença com os outros por aquilo de que elas mesmas têm de levar a culpa.
Sarai não podia deixar de reconhecer que tinha dado a sua serva a Abrão, e ainda assim grita: “Meu agravo seja sobre ti”, quando devia ter dito: “Que tola fui em fazer isso!”
Nunca se diz com sabedoria aquilo que o orgulho e a ira ditam; quando a cólera está no trono, a razão fica porta afora, e não é nem ouvida nem falada.
- Nem sempre estão com a razão os que são mais barulhentos e mais prontos em apelar para Deus. Imprecações precipitadas e ousadas são, comumente, provas de culpa e de má causa.
III. Agar é afligida e expulsa de casa, v. 6.
Observe: 1. A mansidão de Abrão entrega a questão da serva a Sarai, a quem propriamente cabia governar aquela parte da família: “A tua serva está na tua mão”.
Embora ela fosse sua mulher, ele não quis apoiá-la nem protegê-la em nada que fosse desrespeitoso para com Sarai, por quem ele continuava a manter a mesma afeição que sempre tivera.
Repare: quem quer manter a paz e o amor tem de devolver respostas brandas a acusações duras. Maridos e mulheres, em especial, deveriam concordar e se esforçar para não ficarem os dois irados ao mesmo tempo. Ceder apazigua grandes ofensas. Veja Provérbios 15:1.
- A cólera de Sarai vai se vingar em Agar: “ela a tratou com dureza”, não só confinando-a ao seu lugar e ao seu trabalho de sempre como serva, mas provavelmente fazendo-a servir com rigor.
Repare: Deus repara nas agruras que senhores ásperos impõem sem razão aos seus servos, e se desagrada delas. Eles devem abster-se de ameaças, com o pensamento de Jó: “Não foi aquele que me fez que também o fez?” Jó 31:15.
- O orgulho de Agar não consegue suportar isso, tendo o seu ânimo altivo se tornado impaciente com a repreensão: “ela fugiu de sua face”.
Ela não só evitou a ira dela por ora, como Davi evitou a de Saul, mas abandonou de todo o serviço dela e fugiu de casa, esquecendo-se:
(1.) Do agravo que com isso fazia à sua senhora, de quem era serva, e ao seu senhor, de quem era mulher.
Repare: o orgulho dificilmente será contido por laço algum de dever, nem sequer por muitos.
(2.) De que ela mesma tinha dado primeiro a provocação, desprezando a sua senhora.
Repare: os que sofrem por suas faltas devem suportar os seus sofrimentos com paciência, 1 Pedro 2:20.
Versículos 7 a 9
Aqui está a primeira menção que temos na Escritura da aparição de um anjo. Agar era um tipo da lei, que foi dada por mediação de anjos; mas o mundo vindouro não está sujeito a eles, Hebreus 2:5. Observe:
I. Como o anjo a deteve na sua fuga, v. 7. Ao que parece, ela estava seguindo para o seu próprio país, pois estava a caminho de Sur, que ficava na direção do Egito.
Seria bom se as nossas aflições nos fizessem pensar no nosso lar, a pátria melhor. Mas Agar estava agora fora do seu lugar, e fora do caminho do seu dever, e se desviando ainda mais, quando o anjo a encontrou.
Repare: 1. É grande misericórdia ser parado num caminho pecaminoso, seja pela consciência, seja pela Providência.
- Deus permite que os que estão fora do caminho vagueiem por um tempo, para que, quando virem a sua loucura e quanta perda causaram a si mesmos, fiquem mais bem dispostos a voltar.
Agar não foi parada até estar no deserto, já sentada, bastante cansada e contente por ter água clara com que se refrescar. Deus nos traz a um deserto, e ali se encontra conosco, Oseias 2:14.
II. Como ele a interrogou, v. 8. Observe:
- Ele a chamou de Agar, serva de Sarai:
(1.) Como freio ao seu orgulho. Embora ela fosse esposa de Abrão e, como tal, estivesse obrigada a voltar, ele a chama de serva de Sarai, para humilhá-la.
Repare: embora a civilidade nos ensine a chamar os outros pelos seus títulos mais altos, a humildade e a sabedoria nos ensinam a chamar a nós mesmos pelos mais baixos.
(2.) Como repreensão à sua fuga. A serva de Sarai devia estar na tenda de Sarai, e não vagando pelo deserto e perambulando junto a uma fonte de água.
Repare: é bom para nós lembrar com frequência qual é o nosso lugar e a nossa relação. Veja Eclesiastes 10:4.
- As perguntas que o anjo lhe fez eram próprias e muito pertinentes:
(1.) “Donde vens? Considera que estás fugindo tanto do dever a que estavas obrigada quanto dos privilégios com que foste abençoada na tenda de Abrão.”
Repare: é grande vantagem viver numa família religiosa, o que devem considerar aqueles que têm essa vantagem e que, contudo, ao menor incentivo, estão prontos a abandoná-la.
(2.) “Para onde irás? Estás te lançando no pecado, no Egito” (se ela voltar para aquele povo, voltará para os deuses deles), “e no perigo, no deserto”, pelo qual ela tem de viajar, Deuteronômio 8:15.
Repare: os que estão abandonando a Deus e o seu dever fariam bem em lembrar não só de onde caíram, mas para onde estão caindo. Veja Jeremias 2:18: que tinha Agar a fazer no caminho do Egito? Veja também João 6:68.
- A resposta dela foi honesta, e uma confissão franca: “Fujo da face da minha senhora”. Nisto:
(1.) Ela reconhece a sua falta em fugir da sua senhora.
(2.) E, contudo, procura justificar a fuga, alegando que foi do desagrado estampado no rosto da sua senhora que ela fugiu.
Repare: os filhos e os servos devem ser tratados com brandura e gentileza, para que não os provoquemos a tomar qualquer rumo irregular e assim nos tornemos cúmplices dos pecados deles, o que nos condenará, ainda que não os justifique a eles.
- Como ele a mandou de volta, com conselho adequado e compassivo: “Volta para a tua senhora, e sujeita-te debaixo da sua mão”, v. 9. “Vai para casa, e humilha-te pelo que fizeste de errado, e pede perdão, e resolve comportar-te melhor no futuro.”
Ele não põe em dúvida que ela seria bem recebida, embora não pareça que Abrão tenha mandado atrás dela.
Repare: os que se afastaram do seu lugar e do seu dever, quando são convencidos do seu erro, devem apressar o seu retorno e a sua reforma, por mais mortificante que isso possa ser.
Versículos 10 a 14
A Promessa a Respeito de Ismael. (a.C. 1911.)
Podemos supor que, tendo o anjo dado a Agar aquele bom conselho (v. 9) de voltar à sua senhora, ela logo prometeu fazê-lo e voltava o rosto para casa.
E então o anjo prosseguiu, para animá-la com a certeza da misericórdia que Deus tinha guardada para ela e para a sua semente; porque Deus vem ao encontro, com misericórdia, dos que estão voltando ao seu dever. “Eu disse: Confessarei; e tu perdoaste”, Salmos 32:5. Aqui está:
I. Uma predição a respeito da posteridade dela, dada para o seu consolo na angústia presente. Repara-se na condição dela: “Eis que estás grávida”; e por isso aquele não era lugar apropriado para ela.
Repare: é grande consolo para as mulheres grávidas pensar que estão sob o conhecimento e o cuidado particulares da divina Providência. Deus considera graciosamente o caso delas e ajusta os apoios a ele. Ora:
O anjo lhe assegura um parto seguro, e de um filho, que era o que Abrão desejava. Este susto e esta perambulação dela podiam ter destruído a sua esperança de descendência; mas Deus não a tratou segundo a sua loucura: “Terás um filho”. Ela foi salva no dar à luz, não só pela providência, mas pela promessa.
Ele dá nome ao filho dela, o que foi honra tanto para ela quanto para a criança: manda chamá-lo Ismael — Deus ouvirá; e a razão é que o Senhor a ouviu; ele ouviu, e por isso ouvirá.
Repare: a experiência que temos tido da bondade oportuna de Deus para conosco em tempo de angústia nos animaria a esperar ajuda semelhante em apuros semelhantes, Salmos 10:17.
O Senhor ouviu a aflição dela, v. 11. Repare: mesmo onde há pouco clamor de devoção, o Deus de compaixão às vezes ouve graciosamente o clamor da aflição. As lágrimas falam tanto quanto as orações.
Isto fala consolo aos aflitos: que Deus não só vê quais são as aflições deles, mas ouve o que dizem. Repare ainda: socorros oportunos, em dia de aflição, devem sempre ser lembrados com gratidão a Deus.
Em tal momento, em tal aperto, o Senhor ouviu a voz da minha aflição e me ajudou. Veja Deuteronômio 26:7; Salmos 31:22.
- Ele lhe promete descendência numerosa (v. 10): “Multiplicarei grandemente a tua semente”; no hebraico, “multiplicando, eu a multiplicarei”, isto é, multiplicá-la em cada era, de modo a perpetuá-la.
Supõe-se que os turcos, no dia de hoje, descendem de Ismael; e são um grande povo. Isto foi em cumprimento da promessa feita a Abrão: “Farei a tua semente como o pó da terra”, Gênesis 13:16.
Repare: muitos que são filhos de pais piedosos têm, por causa deles, uma porção muito grande das bênçãos exteriores e comuns, ainda que, como Ismael, não sejam recebidos na aliança: muitos são multiplicados que não são santificados.
- Ele traça o caráter do filho que ela teria, o qual, seja lá o que nos pareça, talvez não fosse muito desagradável para ela (v. 12):
“Ele será um homem selvagem”; um jumento selvagem de homem (é o que a palavra diz), rude, ousado e sem temer homem algum — indomado, intratável, vivendo à solta e impaciente com o serviço e com a sujeição.
Repare: os filhos da escrava, que estão fora da aliança com Deus, são, tal como nasceram, como o filho do jumento selvagem; é a graça que domestica os homens, os civiliza e os faz sábios e bons para alguma coisa. É predito:
(1.) Que ele viveria em contenda e em estado de guerra: a sua mão contra todos os homens — este é o seu pecado; e a mão de todos os homens contra ele — este é o seu castigo.
Repare: os que têm espíritos turbulentos comumente têm vidas atribuladas; os que são provocadores, importunos e injuriosos para com os outros devem esperar ser pagos na mesma moeda. Quem tem a mão e a língua contra todos terá a mão e a língua de todos contra si, e não tem razão para se queixar disso.
E, contudo, (2.) Que ele viveria em segurança e sustentaria a sua posição contra o mundo inteiro: “Ele habitará na presença de todos os seus irmãos”; embora ameaçado e insultado por todos os vizinhos, ele manterá o seu terreno e, por amor de Abrão mais que por amor de si mesmo, poderá defender sua posição diante deles.
Em conformidade com isso, lemos (Gênesis 25:18) que ele morreu, como viveu, “na presença de todos os seus irmãos”.
Repare: muitos que ficam muito expostos pela própria imprudência são, ainda assim, estranhamente preservados pela divina Providência; tão melhor é Deus para com eles do que merecem, quando não só incorrem na perda da vida pelo pecado, mas ainda a arriscam.
II. A reflexão piedosa de Agar sobre esta graciosa aparição de Deus a ela, v. 13, 14. Observe no que ela disse:
- A sua adoração reverente da onisciência e da providência de Deus, com aplicação disso a si mesma: “Ela chamou o nome do Senhor que lhe falava”, isto é, assim ela fez confissão do nome dele, isto ela disse para louvor dele: “Tu, Deus, me vês”.
Este seria, para ela, o nome dele para sempre, e este o seu memorial, pelo qual ela o conhecerá e se lembrará dele enquanto viver: “Tu, Deus, me vês”.
Repare: (1.) O Deus com quem temos que tratar é Deus que vê, e Deus que tudo vê. Deus é (como o exprimem os antigos) todo olho.
(2.) Devemos reconhecer isto com aplicação a nós mesmos. Aquele que tudo vê me vê, como Davi (Salmos 139:1): “Ó Senhor, tu me sondaste e me conheceste”.
(3.) Um olhar de fé para Deus, como Deus que nos vê, será de grande utilidade para nós nos nossos retornos a ele. É palavra própria para um penitente:
[1.] “Tu vês o meu pecado e a minha loucura”. “Pequei diante de ti”, diz o pródigo; “à tua vista”, diz Davi.
[2.] “Tu vês a minha tristeza e a minha aflição”; é a isto que Agar especialmente se refere. Quando nos metemos em angústia por nossa própria loucura, ainda assim Deus não nos desamparou.
[3.] “Tu vês a sinceridade e a seriedade do meu retorno e do meu arrependimento. Tu vês os meus prantos secretos pelo pecado e os meus movimentos secretos em direção a ti”.
[4.] “Tu me vês, se em algum caso eu me afasto de ti”, Salmos 44:20, 21. Este pensamento deveria sempre nos refrear do pecado e nos incitar ao dever: “Tu, Deus, me vês”.
- A sua humilde admiração do favor de Deus para com ela: “Também aqui olhei para aquele que me vê? Também aqui vi as costas daquele que me vê?” — assim poderia ser lido, pois a palavra é quase a mesma de Êxodo 33:23. Ela não viu face a face, mas como através de um espelho, obscuramente, 1 Coríntios 13:12.
Provavelmente ela não sabia quem era que falava com ela até ele estar partindo (como em Juízes 6:21, 22; Juízes 13:21), e então ela olhou para ele, com uma reflexão como a dos dois discípulos, Lucas 24:31, 32. Ou: “Também aqui vi aquele que me vê?”
Repare: (1.) A comunhão que as almas santas têm com Deus consiste em terem elas um olho de fé voltado para ele, como Deus que tem um olho de favor voltado para elas. O trato se mantém pelo olho.
(2.) O privilégio da nossa comunhão com Deus deve ser contemplado com espanto e admiração:
[1.] Considerando o que somos nós, que somos admitidos a este favor. “Eu? Eu, que sou tão insignificante; eu, que sou tão vil?” 2 Samuel 7:18.
[2.] Considerando o lugar onde somos assim favorecidos: “também aqui? Não só na tenda de Abrão e junto ao seu altar, mas também aqui, neste deserto? Aqui, onde eu nunca esperei isso, onde eu estava fora do caminho do meu dever? Senhor, como é isso?” João 14:22.
Alguns tomam a resposta a esta pergunta como negativa, e assim a encaram como reflexão de penitente:
“Também aqui, na minha angústia e aflição, olhei para Deus? Não; fui tão descuidada e esquecida dele como sempre costumava ser; e, ainda assim, ele assim me visitou e me considerou” — porque Deus muitas vezes se antecipa a nós com os seus favores, e é achado pelos que não o buscam, Isaías 65:1.
III. O nome que isto deu ao lugar: Beer-Laai-Roi, o poço daquele que vive e me vê, v. 14. É provável que Agar lhe tenha posto este nome, e ele foi conservado por muito tempo depois, in perpetuam rei memoriam — memorial duradouro deste acontecimento.
Este foi um lugar onde o Deus da glória manifestou o conhecimento e o cuidado especiais que ele tinha por uma pobre mulher em angústia.
Repare: 1. Aquele que tudo vê é aquele que sempre vive; ele vive e nos vê.
Os que são graciosamente admitidos à comunhão com Deus e recebem dele consolos oportunos deveriam contar aos outros o que ele fez pela alma deles, para que também eles sejam animados a buscá-lo e a confiar nele.
As manifestações graciosas que Deus faz de si mesmo a nós devem ser tidas por nós em lembrança eterna, e nunca deveriam ser esquecidas.
Versículos 15 a 16
O Nascimento de Ismael. (a.C. 1911.)
Toma-se aqui por certo, embora não esteja expressamente registrado, que Agar fez como o anjo lhe ordenou, voltando para a sua senhora e sujeitando-se; e então, na plenitude do tempo, ela deu à luz o seu filho.
Repare: os que obedecem aos preceitos divinos terão o consolo das promessas divinas.
Este era o filho da escrava, aquele que “nasceu segundo a carne” (Gálatas 4:23), representando os judeus incrédulos, Gálatas 4:25.
Repare: 1. Muitos que podem chamar Abraão de pai são, contudo, nascidos segundo a carne, Mateus 3:9.
- A semente carnal na igreja é dada à luz mais cedo que a espiritual. É coisa mais fácil persuadir os homens a assumir a forma da piedade do que a submeter-se ao poder da piedade.