Gênesis 14
Argumento
Temos quatro coisas na história deste capítulo:
I. Uma guerra com o rei de Sodoma e os seus aliados, vv. 1-11.
II. O cativeiro de Ló nessa guerra, v. 12.
III. O resgate de Ló desse cativeiro por Abrão, com a vitória que ele obteve sobre os conquistadores, vv. 13-16.
IV. A volta de Abrão da expedição (v. 17), com o relato do que se passou:
Entre ele e o rei de Salém, vv. 18-20.
Entre ele e o rei de Sodoma, vv. 21-24.
De modo que aqui temos em parte cumprida aquela promessa a Abrão, de que Deus faria grande o seu nome.
Versículos 1 a 12
Ló Levado Cativo. (a.C. 1913.)
Temos aqui o relato da primeira guerra de que lemos na Escritura, e cuja história não teríamos (ainda que as guerras das nações ocupem o maior lugar na história) se Abrão e Ló não estivessem envolvidos nela.
Ora, a respeito desta guerra, podemos observar:
I. As partes nela empenhadas. Os invasores eram quatro reis, dois deles nada menos que reis de Sinar e de Elão (isto é, da Caldeia e da Pérsia), contudo provavelmente não os príncipes soberanos daqueles grandes reinos em pessoa.
Mas eram ou oficiais subordinados a eles, ou antes os chefes e líderes de algumas colônias que saíram daquelas grandes nações e se estabeleceram perto de Sodoma, conservando porém os nomes dos países de onde tinham a sua origem.
Os invadidos eram os reis de cinco cidades que ficavam próximas umas das outras na planície do Jordão, a saber, Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar.
Quatro deles são nomeados, mas não o quinto, o rei de Zoar, ou Belá, ou porque era muito mais baixo e insignificante, ou porque era muito mais perverso e ignóbil que os outros, e digno de ser esquecido.
II. A ocasião desta guerra foi a revolta dos cinco reis contra o governo de Quedorlaomer. Doze anos o serviram. Pouca alegria tiveram da sua terra fértil, enquanto assim eram tributários de uma potência estrangeira e não podiam chamar de seu o que tinham.
Países ricos são presa desejável, e países ociosos e dados ao luxo são presa fácil, para uma grandeza em ascensão. Os sodomitas eram a posteridade de Canaã, a quem Noé havia declarado servo de Sem, de quem Elão descendia; tão cedo aquela profecia começou a cumprir-se.
No décimo terceiro ano, começando a cansar-se da sua sujeição, rebelaram-se, negaram o seu tributo e tentaram sacudir o jugo e reaver as suas antigas liberdades.
No décimo quarto ano, depois de alguma pausa e preparação, Quedorlaomer, junto com os seus aliados, dispôs-se a castigar e submeter os rebeldes e, já que não podia ser de outro modo, a buscar deles o seu tributo na ponta da sua espada.
Repare: o orgulho, a cobiça e a ambição são as concupiscências de que vêm as guerras e as pelejas. A esses ídolos insaciáveis foi sacrificado o sangue de milhares.
III. O progresso e o sucesso da guerra. Os quatro reis assolaram os países vizinhos e se enriqueceram com o despojo deles (vv. 5-7); diante desse alarme, teria sido sabedoria do rei de Sodoma submeter-se e pedir condições de paz, pois como poderia ele medir forças com um inimigo assim entusiasmado pela vitória?
Mas preferiu arriscar-se ao último extremo a ceder, e assim lhe sucedeu. Quos Deus destruet eos dementat — Aqueles a quem Deus tenciona destruir, ele entrega à insensatez.
As forças do rei de Sodoma e dos seus aliados foram derrotadas; e, ao que parece, muitos dos que tinham escapado da espada pereceram nos poços de betume, v. 10. Em todo lugar estamos cercados de mortes de vários tipos, especialmente no campo de batalha.
As cidades foram saqueadas, v. 11. Todos os bens de Sodoma, e em especial as suas reservas e provisões de mantimentos, foram levados pelos conquistadores.
Repare: quando os homens abusam dos dons de uma providência generosa para a gula e o excesso, é justo da parte de Deus, e é o seu modo habitual, despojá-los, por um juízo ou outro, daquilo de que assim abusaram, Oseias 2:8, 9.
- Ló foi levado cativo, v. 12. Tomaram Ló entre os demais, e os bens dele. Ora, Ló pode ser considerado aqui:
(1.) Como quem partilha com os seus vizinhos desta calamidade comum. Embora ele mesmo fosse um homem justo e (o que aqui se nota expressamente) filho do irmão de Abrão, ainda assim foi envolvido com os demais em toda essa aflição.
Repare: “todas as coisas sucedem igualmente a todos”, Eclesiastes 9:2. Os melhores dos homens não podem prometer a si mesmos isenção das maiores aflições desta vida; nem a nossa própria piedade nem a nossa relação com os que são favoritos do céu serão a nossa segurança, quando os juízos de Deus andam pela terra.
Repare ainda: muito homem honesto se dá pior por causa dos seus vizinhos perversos. Por isso é sabedoria nossa separar-nos, ou ao menos distinguir-nos, deles (2 Coríntios 6:17), e assim livrar-nos, Apocalipse 18:4.
(2.) Como quem sofre pela escolha insensata que fez de se estabelecer aqui. Isso está claramente insinuado quando se diz: “Tomaram o filho do irmão de Abrão, que habitava em Sodoma.”
Um parente tão próximo de Abrão deveria ter sido companheiro e discípulo de Abrão, e deveria ter permanecido junto às tendas dele; mas, se escolhe habitar em Sodoma, só pode culpar a si mesmo se partilha das calamidades de Sodoma.
Repare: quando saímos do caminho do nosso dever, nós nos colocamos fora da proteção de Deus, e não podemos esperar que as escolhas feitas pelas nossas concupiscências resultem em nosso conforto.
Faz-se menção particular de terem eles tomado os bens de Ló, aqueles bens que tinham ocasionado a sua disputa com Abrão e a sua separação dele. Repare: é justo da parte de Deus privar-nos daqueles gozos pelos quais permitimos ser privados do gozo dele.
Versículos 13 a 16
Ló Levado Cativo e Resgatado. (a.C. 1913.)
Temos aqui o relato da única ação militar em que encontramos Abrão envolvido, e a ela ele foi movido não pela sua avareza nem pela sua ambição, mas puramente por um princípio de caridade; não era para enriquecer a si mesmo, mas para ajudar o seu amigo.
Nunca expedição militar alguma foi empreendida, conduzida e concluída mais honrosamente que esta de Abrão. Aqui temos:
I. As notícias que lhe foram trazidas da aflição do seu parente. A Providência dispôs as coisas de modo que ele peregrinava agora não muito longe, para que pudesse ser um socorro bem presente.
- Ele é chamado aqui de Abrão, o hebreu, isto é, o filho e seguidor de Héber, em cuja família a profissão da verdadeira religião se manteve naquela época degenerada.
Abrão agiu nisto como hebreu — de um modo não indigno do nome e do caráter de quem professa a religião.
- As notícias foram trazidas por um que havia escapado com a vida por despojo. Provavelmente era um sodomita, e tão mau quanto o pior deles; contudo, sabendo do parentesco de Abrão com Ló e do cuidado que tinha por ele, implora o seu auxílio e espera ser bem-sucedido por causa de Ló.
Repare: os piores dos homens, no dia da sua tribulação, ficarão contentes de alegar que conhecem os que são sábios e bons, e assim obter o apoio deles.
O rico no inferno chamou Abrão de Pai; e as virgens loucas cortejaram as prudentes por uma parte do azeite delas.
II. Os preparativos que ele fez para esta expedição. A causa era manifestamente boa, o seu chamado para entrar nela era claro e, por isso, com toda a pressa, armou os seus servos treinados, nascidos em sua casa, no número de trezentos e dezoito.
Família grande, mas exército pequeno, mais ou menos tantos quantos os de Gideão, que derrotaram os midianitas, Juízes 7:7.
Ele fez sair os seus servos treinados, ou os seus servos catequizados, instruídos não só na arte da guerra, que estava então muito aquém da perfeição a que épocas posteriores e piores a levaram, mas também instruídos nos princípios da religião; porque Abrão ordenava à sua casa que guardasse o caminho do Senhor.
Isto mostra que Abrão era:
Um grande homem, que tinha tantos servos dependentes dele e empregados por ele, o que não era apenas a sua força e a sua honra, mas também lhe dava grande oportunidade de fazer o bem, que é tudo o que é, na verdade, valioso e desejável em grandes postos e grandes propriedades.
Um homem bom, que não só servia a Deus ele mesmo, mas também instruía todos ao seu redor no serviço de Deus.
Repare: os que têm famílias grandes têm não só muitos corpos, mas também muitas almas além da sua própria, de que cuidar e a que prover. Os que quiserem ser achados seguidores de Abrão devem cuidar para que os seus servos sejam servos catequizados.
- Um homem sábio; porque, embora fosse homem de paz, ainda assim disciplinou os seus servos para a guerra, sem saber que ocasião poderia ter, uma hora ou outra, de assim empregá-los.
Repare: embora a nossa santa religião nos ensine a ser pela paz, contudo ela não nos proíbe de prover para a guerra.
III. Os seus aliados e confederados nesta expedição. Ele persuadiu os seus vizinhos, Aner, Escol e Manre (com quem mantinha boa correspondência), a irem com ele.
Foi prudência sua fortalecer assim as suas próprias tropas com as forças auxiliares deles; e provavelmente eles se viam envolvidos, por interesse, em agir, como pudessem, contra este poder temível, para que a vez deles não fosse a seguinte. Repare:
É sabedoria e dever nosso portar-nos de modo tão respeitoso e atencioso para com todos os homens que, sempre que houver ocasião, eles estejam dispostos e prontos a nos fazer um favor.
Os que dependem do socorro de Deus, contudo, em tempos de aflição, devem valer-se do socorro dos homens, conforme a Providência o oferece; do contrário, tentam a Deus.
IV. A sua coragem e a sua conduta foram muito notáveis:
- Houve muita bravura no próprio empreendimento, considerando as desvantagens em que estava. Que poderia uma só família de lavradores e pastores fazer contra os exércitos de quatro príncipes, que agora vinham frescos do sangue e da vitória?
Não era um exército vencido, mas um exército vitorioso, que ele tinha de perseguir; nem foi constrangido pela necessidade a esta tentativa audaciosa, mas movido a ela pela generosidade.
De modo que, consideradas todas as coisas, foi, ao que me consta, um exemplo de verdadeira coragem tão grande quanto qualquer um pelo qual Alexandre ou César tenham sido celebrados.
Repare: a religião tende a tornar os homens não covardes, mas verdadeiramente valentes. O justo é ousado como um leão. O verdadeiro cristão é o verdadeiro herói.
- Houve muita sagacidade na condução dela. Abrão não era estranho aos estratagemas da guerra: dividiu-se a si mesmo, como Gideão dividiu o seu pequeno exército (Juízes 7:16), para cair sobre o inimigo de diversos lados ao mesmo tempo, e assim fazer com que os seus poucos parecessem muitos; fez o seu ataque de noite, para surpreendê-los.
Repare: a sagacidade honesta é boa amiga tanto da nossa segurança quanto da nossa utilidade.
A cabeça da serpente (contanto que nada tenha de parente da antiga serpente) pode muito bem assentar no corpo de um bom cristão, especialmente se tiver nela um olho de pomba, Mateus 10:16.
V. O seu êxito foi muito considerável, v. 15, 16. Ele derrotou os seus inimigos e resgatou os seus amigos; e não encontramos que tenha sofrido perda alguma.
Repare: os que se arriscam numa boa causa, com bom coração, estão sob a proteção especial de um bom Deus, e têm razão para esperar um bom desfecho.
Mais uma vez: para o Senhor é tudo um “salvar com muitos ou com poucos”, 1 Samuel 14:6. Observe:
- Ele resgatou o seu parente; duas vezes aqui ele é chamado de seu irmão Ló. A lembrança do parentesco que havia entre eles, tanto por natureza quanto por graça, fê-lo esquecer a pequena desavença que houvera entre eles, na qual Ló de modo algum agira bem para com Abrão.
Com justiça poderia Abrão ter repreendido Ló pela sua loucura de se desavir com ele e de se afastar dele, e ter-lhe dito que estava bem feito, que ele bem poderia ter sabido quando estava em boa situação.
Mas, no peito caridoso do piedoso Abrão, está tudo perdoado e esquecido, e ele aproveita esta oportunidade para dar prova real da sinceridade da sua reconciliação. Repare:
(1.) Devemos estar prontos, sempre que estiver no poder das nossas mãos, para socorrer e aliviar os que estão em aflição, especialmente os nossos parentes e amigos.
“Um irmão nasce para a adversidade”, Provérbios 17:17. Amigo na necessidade é amigo de verdade.
(2.) Ainda que outros tenham faltado com o seu dever para conosco, contudo não devemos por isso negar o nosso dever para com eles.
Alguns disseram que podem perdoar os seus inimigos mais facilmente que os seus amigos; mas nos veremos obrigados a perdoar a ambos se considerarmos não só que o nosso Deus, quando éramos inimigos, nos reconciliou, mas também que ele “passa por cima da transgressão do restante da sua herança”, Miquéias 7:18.
- Ele resgatou o restante dos cativos, por causa de Ló, embora fossem estranhos para ele e tais para com quem não tinha obrigação nenhuma.
Ou melhor: embora fossem sodomitas, pecadores perante o Senhor em extremo, e embora, provavelmente, pudesse ter recobrado só a Ló mediante um resgate, ainda assim trouxe de volta todas as mulheres, e o povo, e os bens deles, v. 16.
Repare: conforme tivermos oportunidade, devemos fazer o bem a todos os homens. A nossa caridade deve ser ampla, conforme a oportunidade se oferece.
Onde quer que Deus dê vida, não devemos regatear a ajuda que podemos dar para sustentá-la. Deus faz o bem aos justos e aos injustos, e assim devemos fazer nós, Mateus 5:45.
A esta vitória que Abrão obteve sobre os reis o profeta parece referir-se, Isaías 41:2: “Quem levantou do oriente o homem justo, e o fez dominar sobre reis?” E alguns sugerem que, assim como antes ele tinha direito a esta terra por concessão, agora o tinha por conquista.
Versículos 17 a 20
O Encontro de Abrão com Melquisedeque. (a.C. 1913.)
Este parágrafo começa com a menção do respeito que o rei de Sodoma prestou a Abrão na sua volta da matança dos reis; mas, antes que seja dado um relato particular disso, a história de Melquisedeque é brevemente narrada. A respeito dele, observe:
I. Quem ele era. Ele era rei de Salém e sacerdote do Deus altíssimo; e outras coisas gloriosas são ditas dele, Hebreus 7:1, etc.
- Os rabinos, e a maior parte dos nossos escritores rabínicos, concluem que Melquisedeque era Sem, o filho de Noé, que era rei e sacerdote para os que dele descendiam, segundo o modelo patriarcal.
Mas isto não é nem um pouco provável; pois por que o seu nome seria mudado? E como veio ele a estabelecer-se em Canaã?
- Muitos escritores cristãos pensaram que esta foi uma aparição do próprio Filho de Deus, o nosso Senhor Jesus, conhecido de Abrão, nesta ocasião, por este nome, assim como, depois, Agar o chamou por outro nome, Gênesis 16:13. Ele lhe apareceu como rei justo, reconhecendo uma causa justa e dando paz.
É difícil imaginar que de qualquer mero homem se dissesse que era “sem pai, sem mãe, sem linhagem, não tendo princípio de dias nem fim de vida”, Hebreus 7:3.
Testifica-se de Melquisedeque que “ele vive” e que “permanece sacerdote continuamente” (Hebreus 7:3, 8); ou melhor (Hebreus 7:13, 14), o apóstolo faz aquele de quem estas coisas são ditas ser o nosso Senhor, que “proveio de Judá”.
É igualmente difícil pensar que qualquer mero homem fosse, nesta ocasião, maior que Abrão nas coisas de Deus; que Cristo fosse sacerdote segundo a ordem de qualquer mero homem; e que algum sacerdócio humano superasse o de Arão tanto quanto é certo que o de Melquisedeque o superou.
- A opinião mais comumente recebida é que Melquisedeque era um príncipe cananeu, que reinava em Salém e mantinha ali a verdadeira religião; mas, se é assim, por que o seu nome ocorreria aqui apenas em toda a história de Abrão, e por que Abrão teria altares próprios e não frequentaria os altares do seu vizinho Melquisedeque, que era maior que ele, parecem coisas inexplicáveis.
O Sr. Gregory de Oxford nos diz que a Catena árabe, em cuja autoridade ele muito se apoia, dá este relato de Melquisedeque: que ele era filho de Heraclim, filho de Pelegue, filho de Héber, e que o nome de sua mãe era Salatiel, filha de Gomer, filho de Jafé, filho de Noé.
II. O que ele fez. 1. Ele trouxe pão e vinho, para o refrigério de Abrão e dos seus soldados, e em congratulação pela vitória deles.
Isto ele fez como rei, ensinando-nos a fazer o bem e a repartir, e a sermos dados à hospitalidade, segundo a nossa capacidade; e representando as provisões espirituais de força e conforto que Cristo depositou para nós na aliança da graça, para o nosso refrigério, quando estamos cansados dos nossos conflitos espirituais.
- Como sacerdote do Deus altíssimo, ele abençoou Abrão, o que, podemos supor, foi para Abrão um refrigério maior do que o seu pão e o seu vinho.
Assim Deus, tendo ressuscitado o seu Filho Jesus, o enviou para nos abençoar, como quem tem autoridade; e aqueles a quem ele abençoa são abençoados de fato. Cristo foi para o céu enquanto abençoava os seus discípulos (Lucas 24:51); porque é isto que ele vive sempre para fazer.
III. O que ele disse, v. 19, 20. Duas coisas foram ditas por ele:
- Ele abençoou Abrão da parte de Deus: “Bendito seja Abrão, bendito do Deus altíssimo”, v. 19. Observe os títulos que ele aqui dá a Deus, que são muito gloriosos:
(1.) “O Deus altíssimo”, o que declara as suas perfeições absolutas nele mesmo e o seu domínio soberano sobre todas as criaturas; ele é Rei dos reis. Repare: ajudará muito tanto a nossa fé quanto a nossa reverência na oração olhar para Deus como o Deus altíssimo e chamá-lo assim.
(2.) “Possuidor dos céus e da terra”, isto é, dono legítimo e Senhor soberano de todas as criaturas, porque ele as fez. Isto o declara um grande Deus, e muito digno de ser louvado (Salmos 24:1), e declara povo feliz aqueles que têm parte no seu favor e no seu amor.
- Ele bendisse a Deus por Abrão (v. 20): “e bendito seja o Deus altíssimo”. Repare:
(1.) Em todas as nossas orações devemos louvar a Deus e juntar aleluias a todas as nossas hosanas. Estes são os sacrifícios espirituais que devemos oferecer diariamente e em ocasiões particulares.
(2.) Deus, como o Deus altíssimo, deve ter a glória de todas as nossas vitórias, Êxodo 17:15; 1 Samuel 7:10, 12; Juízes 5:1, 2; 2 Crônicas 20:21. Nelas ele se mostra mais alto que os nossos inimigos (Êxodo 18:11) e mais alto que nós; porque sem ele nada poderíamos fazer.
(3.) Devemos dar graças pelas misericórdias dos outros como pelas nossas próprias, triunfando com os que triunfam.
(4.) Jesus Cristo, o nosso grande sumo sacerdote, é o Mediador tanto das nossas orações quanto dos nossos louvores, e não só oferece os nossos, mas também os seus próprios em nosso favor. Veja Lucas 10:21.
IV. O que lhe foi feito: Abrão “lhe deu os dízimos de tudo”, isto é, dos despojos, Hebreus 7:4. Isto pode ser encarado:
Como uma gratificação apresentada a Melquisedeque, em retribuição pelas suas demonstrações de respeito. Repare: os que recebem bondade devem mostrar bondade. A gratidão é uma das leis da natureza.
Como uma oferta votada e dedicada ao Deus altíssimo, e por isso posta nas mãos de Melquisedeque, seu sacerdote. Repare:
(1.) Quando recebemos alguma misericórdia notável de Deus, é muito conveniente que expressemos a nossa gratidão por algum ato especial de caridade piedosa. Deus deve sempre ter o que lhe é devido dos nossos bens, especialmente quando, por alguma providência particular, ele ou os preservou ou os aumentou para nós.
(2.) Que a décima parte do nosso aumento é uma proporção muito conveniente para ser separada para a honra de Deus e o serviço do seu santuário.
(3.) Que Jesus Cristo, o nosso grande Melquisedeque, deve receber homenagem e ser humildemente reconhecido por cada um de nós como o nosso rei e sacerdote; e não só o dízimo de tudo, mas também tudo o que temos, deve ser rendido e entregue a ele.
Versículos 21 a 24
O Desprendimento de Abrão. (a.C. 1913.)
Temos aqui o relato do que se passou entre Abrão e o rei de Sodoma, que sucedeu àquele que caiu na batalha (v. 10) e se julgou obrigado a prestar esta honra a Abrão, em retribuição pelos bons serviços que ele lhe havia feito. Aqui está:
I. A oferta agradecida do rei de Sodoma a Abrão (v. 21): “Dá-me a alma, e toma tu a fazenda”; assim se lê no hebraico.
Aqui ele pede honestamente as pessoas, mas com a mesma liberalidade concede os bens a Abrão. Repare:
- Onde um direito é duvidoso e dividido, é sabedoria compor a questão por concessões mútuas, em vez de contender.
O rei de Sodoma tinha direito originário tanto sobre as pessoas quanto sobre os bens, e caberia debate se o direito adquirido por Abrão mediante o resgate suplantaria o título dele e o extinguiria; mas, para evitar toda desavença, o rei de Sodoma faz esta proposta justa.
- A gratidão nos ensina a recompensar, até o máximo do nosso poder, os que passaram por fadigas, correram riscos e tiveram despesas para o nosso serviço e benefício. “Quem vai à guerra à sua própria custa?” 1 Coríntios 9:7.
Os soldados compram o seu soldo mais caro que qualquer trabalhador, e são bem dignos dele, porque expõem a própria vida.
II. A recusa generosa de Abrão a esta oferta. Ele não só lhe entregou as pessoas, que, tendo sido livradas da mão dos seus inimigos, deviam ter servido a Abrão, mas restituiu também todos os bens.
Ele não quis tomar “desde um fio até uma correia de sapato”, nem a menor coisa que jamais houvesse pertencido ao rei de Sodoma ou a algum dos seus.
Repare: uma fé viva capacita o homem a olhar para a riqueza deste mundo com santo desprezo, 1 João 5:4. Que são todos os ornamentos e deleites dos sentidos para quem tem Deus e o céu sempre diante dos olhos?
Ele se resolve até quanto a um fio e a uma correia de sapato; porque uma consciência tenra teme ofender numa coisa pequena. Ora:
- Abrão ratifica esta resolução com um juramento solene: “Levantei a minha mão ao Senhor, que não tomarei coisa alguma”, v. 22. Observe aqui:
(1.) Os títulos que ele dá a Deus: “o Deus altíssimo, o possuidor dos céus e da terra”, os mesmos que Melquisedeque acabara de usar, v. 19.
Repare: é bom aprender com os outros como ordenar a nossa fala a respeito de Deus, e imitar os que falam bem nas coisas divinas.
Este é o proveito que devemos tirar das conversas dos homens bons e devotos: devemos aprender a falar como eles.
(2.) A cerimônia usada neste juramento: “Levantei a minha mão”. No juramento religioso apelamos para o conhecimento que Deus tem da nossa verdade e sinceridade, e invocamos a cólera dele se jurarmos falsamente; e o levantar da mão é muito significativo e expressivo de ambas as coisas.
(3.) A matéria do juramento, a saber, que não tomaria recompensa alguma do rei de Sodoma, era lícita, mas era coisa a que ele não estava obrigado de antemão.
[1.] Provavelmente Abrão fez voto, antes de ir à batalha, de que, se Deus lhe desse êxito, ele, para a glória de Deus e o crédito da sua profissão, negaria a si mesmo e ao seu próprio direito a ponto de não tomar nada do despojo para si.
Repare: os votos que fizemos quando estamos em busca de uma misericórdia devem ser guardados com cuidado e consciência quando tivermos obtido a misericórdia, ainda que tenham sido feitos contra o nosso interesse.
O cidadão de Sião, se jurou, seja a Deus, seja ao homem, ainda que resulte em seu próprio prejuízo, contudo não muda, Salmos 15:4.
Ou, [2.] Talvez Abrão, agora que viu motivo para recusar a oferta que lhe faziam, ao mesmo tempo confirmou a sua recusa com este juramento, para evitar mais importunação. Repare:
Primeiro, pode haver às vezes bom motivo para nos privarmos daquilo que é o nosso direito indubitável, como São Paulo, 1 Coríntios 8:13; 9:12.
Segundo, que resoluções firmes são de bom uso para afastar a força das tentações.
- Ele apoia a sua recusa com uma boa razão: “Para que não digas: Eu enriqueci a Abrão”, o que lançaria descrédito:
(1.) Sobre a promessa e a aliança de Deus, como se elas não fossem enriquecer Abrão sem o despojo de Sodoma.
(2.) E sobre a piedade e a caridade de Abrão, como se tudo o que ele tinha em vista, quando empreendeu aquela expedição arriscada, fosse enriquecer a si mesmo. Repare:
[1.] Devemos ter muito cuidado para não dar ocasião a que outros digam coisas que não deveriam.
[2.] O povo de Deus deve, pelo bem do seu crédito, tomar cuidado para não fazer qualquer coisa que pareça mesquinha ou mercenária, ou que tenha sabor de cobiça e de busca de si mesmo.
Provavelmente Abrão sabia que o rei de Sodoma era homem soberbo e escarnecedor, e que estaria propenso a converter depois uma coisa destas em descrédito contra ele, ainda que de modo bem desarrazoado.
Quando temos de tratar com tais homens, precisamos agir com cautela particular.
- Ele limita a sua recusa com uma dupla ressalva, v. 24. Ao fazer votos, devemos inserir com cuidado as exceções necessárias, para que não venhamos depois a dizer diante do anjo: “Foi um erro”, Eclesiastes 5:6. Abrão excetua aqui:
(1.) A comida dos seus soldados; eram dignos do seu alimento enquanto trilhavam o grão. Isto não daria ao rei de Sodoma nenhum pretexto para dizer que havia enriquecido a Abrão.
(2.) As partes dos seus aliados e confederados: “Tomem eles a sua porção”.
Repare: os que são estritos em restringir a sua própria liberdade, contudo, não devem impor essas restrições às liberdades dos outros, nem julgá-los por elas. Não devemos fazer de nós mesmos a régua por que medimos os outros.
O homem bom negará a si mesmo aquela liberdade que não negará a outro, ao contrário da prática dos fariseus, Mateus 23:4.
Não havia o mesmo motivo para que Aner, Escol e Manre abrissem mão do seu direito que havia para que Abrão o fizesse. Eles não faziam a profissão que ele fazia, nem estavam, como ele, sob a obrigação de um voto.
Não tinham as esperanças que Abrão tinha de uma porção no outro mundo; por isso, de toda maneira, tomem eles a sua porção deste.