Gênesis 13
Argumento
Neste capítulo temos mais um relato a respeito de Abrão:
I. Em geral, da sua condição e do seu comportamento na terra da promessa, que era agora a terra da sua peregrinação:
As suas mudanças de lugar, v. 1, 3, 4, 18.
As suas riquezas, v. 2.
A sua devoção, v. 4, 18.
II. Um relato particular de uma desavença que houve entre ele e Ló:
A ocasião infeliz da contenda deles, v. 5, 6.
As partes envolvidas na contenda, com o agravante dela, v. 7.
III. O acerto da desavença, pela prudência de Abrão, v. 8, 9.
IV. A partida de Ló de junto de Abrão para a planície de Sodoma, vv. 10-13.
V. A aparição de Deus a Abrão, para lhe confirmar a promessa da terra de Canaã, v. 14, etc.
Versículos 1 a 4
A Mudança de Abrão para Canaã. (a.C. 1918.)
I. Aqui está o retorno de Abrão do Egito, v. 1. Ele mesmo veio e trouxe consigo de volta para Canaã tudo o que era seu. Repare: ainda que às vezes possa haver ocasião de ir a lugares de tentação, temos de nos apressar em sair deles o quanto antes. Veja Rute 1:6.
II. A sua riqueza: ele era “muito rico”, v. 2. Ele era muito pesado, é o que a palavra hebraica significa; pois as riquezas são um fardo, e quem quer ficar rico não faz senão carregar-se de “barro espesso”, Habacuque 2:6.
Há um fardo de cuidado em consegui-las, de medo em guardá-las, de tentação em usá-las, de culpa em abusar delas, de tristeza em perdê-las, e, por fim, um fardo de contas a prestar a respeito delas. Grandes posses não fazem senão tornar os homens pesados e desajeitados.
Abrão não era rico apenas em fé e boas obras, e nas promessas, mas era rico em gado, e em prata e ouro. Repare:
Deus, na sua providência, às vezes faz dos homens bons homens ricos, e lhes ensina tanto a viver na abundância quanto a padecer falta.
As riquezas dos homens bons são fruto da bênção de Deus. Deus tinha dito a Abrão: “Eu te abençoarei”; e essa bênção o fez rico sem tristeza, Provérbios 10:22.
A verdadeira piedade pode muito bem coexistir com grande prosperidade. Ainda que seja difícil um rico chegar ao céu, não é impossível, Marcos 10:23, 24. Abrão era muito rico e, ainda assim, muito religioso.
Mais que isso: assim como a piedade é amiga da prosperidade exterior (1 Timóteo 4:8), também a prosperidade exterior, se bem administrada, é ornamento da piedade, e dá oportunidade de fazer muito mais bem.
III. A sua mudança para Betel, v. 3, 4. Para lá ele foi, não só porque ali antes tivera a sua tenda, e queria ir para junto dos seus antigos conhecidos, mas porque ali antes tivera o seu altar.
E, ainda que o altar não estivesse mais lá (provavelmente derrubado por ele mesmo ao deixar o lugar, para que não fosse profanado pelos cananeus idólatras), ele veio ao lugar do altar, ou para reavivar a lembrança da doce comunhão que tivera com Deus naquele lugar, ou talvez para pagar os votos que ali fizera a Deus quando empreendeu a sua viagem para o Egito.
Muito tempo depois Deus enviou Jacó a este mesmo lugar com esse encargo (Gênesis 35:1): suba a Betel, onde você fez o voto.
Precisamos que nos lembrem, e devemos aproveitar toda ocasião para lembrar a nós mesmos, dos nossos votos solenes. E talvez o lugar onde foram feitos ajude a trazê-los de novo à memória, e por isso pode nos fazer bem visitá-lo.
IV. A sua devoção ali. O seu altar não estava mais lá, de modo que não podia oferecer sacrifício; mas ele “invocou o nome do Senhor”, como já fizera, Gênesis 12:8. Repare:
Todo o povo de Deus é povo que ora. Você acharia antes um homem vivo sem respiração do que um cristão vivo sem oração.
Quem quiser mostrar-se reto diante do seu Deus tem de ser constante e perseverante nos serviços da religião. Abrão não deixou a sua religião para trás no Egito, como muitos fazem nas suas viagens.
Quando não podemos fazer o que gostaríamos, temos de considerar um dever de consciência fazer o que podemos nos atos de devoção. Quando nos falta um altar, que não nos falte a oração, mas, onde quer que estejamos, invoquemos o nome do Senhor.
Versículos 5 a 9
A Separação de Ló e Abrão. (a.C. 1917.)
Temos aqui um infeliz desentendimento entre Abrão e Ló, que até então tinham sido companheiros inseparáveis (veja v. 1, e Gênesis 12:4), mas que agora se separaram.
I. A ocasião da desavença deles foram as riquezas. Lemos (v. 2) quão rico era Abrão; e agora nos é dito aqui (v. 5) que Ló, que ia com Abrão, também era rico; e por isso Deus o abençoou com riquezas porque ia com Abrão. Repare:
É bom estar em boa companhia, e andar com aqueles com quem Deus está, Zacarias 8:23.
Os que são parceiros do povo de Deus na obediência e nos sofrimentos serão participantes com ele nas suas alegrias e nos seus consolos, Isaías 66:10.
Ora, sendo os dois muito ricos, a terra não podia sustentá-los, para que habitassem juntos com sossego e em paz. De modo que as riquezas deles podem ser consideradas:
(1.) Como o que os pôs à distância um do outro. Porque o lugar era estreito demais para eles, e não tinham espaço para os seus rebanhos, era necessário que vivessem separados.
Repare: todo consolo neste mundo traz consigo a sua cruz. O negócio é um consolo; mas tem este inconveniente, que não nos permite a companhia daqueles que amamos, nem com a frequência nem por tanto tempo quanto desejaríamos.
(2.) Como o que os pôs em desavença um com o outro.
Repare: as riquezas são muitas vezes ocasião de contenda e de disputa entre parentes e vizinhos. Esta é uma daquelas “concupiscências insensatas e nocivas” em que caem os que querem ficar ricos, 1 Timóteo 6:9.
As riquezas não só fornecem matéria para a disputa, e são aquilo por que mais comumente se disputa, como também despertam um espírito de disputa, tornando as pessoas soberbas e cobiçosas.
Meum e tuum — o meu e o teu — são os grandes fomentadores de discórdia do mundo. A pobreza e a labuta, as faltas e as andanças, não puderam separar Abrão de Ló; mas as riquezas separaram.
Os amigos se perdem depressa; mas Deus é um amigo de cujo amor nem a altura da prosperidade nem a profundeza da adversidade nos separarão.
II. Os instrumentos imediatos da desavença foram os servos deles. A contenda começou entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló, v. 7.
Disputavam, provavelmente, qual deles teria o melhor pasto ou a melhor água; e ambos envolveram os seus senhores na desavença.
Repare: os maus servos muitas vezes causam grande dano nas famílias, pela soberba e pela paixão, pela mentira, pela calúnia e pela intriga.
É coisa muito perversa que servos intervenham para prejudicar parentes e vizinhos, e semeiem discórdia; os que assim fazem são agentes do diabo e os piores inimigos dos seus senhores.
III. O agravante da desavença foi que “o cananeu e o ferezeu habitavam então na terra”. Isso tornou a desavença:
- Muito perigosa. Se Abrão e Ló não conseguem concordar em apascentar juntos os seus rebanhos, será bom se o inimigo comum não vier sobre eles e não saquear os dois.
Repare: a divisão das famílias e das igrejas muitas vezes vem a ser a ruína delas.
- Muito escandalosa. Sem dúvida os olhos de todos os vizinhos estavam sobre eles, sobretudo por causa da singularidade da religião deles e da santidade extraordinária que professavam.
E logo se repararia nesta desavença, e os cananeus e ferezeus a explorariam para desacreditá-los.
Repare: as desavenças dos que professam a religião trazem descrédito à profissão de fé, e dão ocasião, tanto quanto qualquer outra coisa, a que os inimigos do Senhor blasfemem.
IV. O acerto desta desavença foi muito feliz. O melhor é preservar a paz, para que não se rompa; mas o segundo melhor é, se as diferenças de fato acontecem, acomodá-las com toda a pressa e apagar o fogo que se ateou.
A proposta de deter esta contenda partiu de Abrão, ainda que ele fosse o parente mais velho e o superior, v. 8.
- O pedido dele por paz foi muito afetuoso: “Não haja contenda, peço-te.” Abrão mostra-se aqui homem:
(1.) De espírito sereno, que tinha domínio sobre a sua paixão e sabia como desviar a cólera com uma resposta branda. Os que querem guardar a paz nunca devem devolver injúria por injúria.
(2.) De espírito condescendente; ele estava disposto a rogar até ao seu inferior que houvesse paz, e fez o primeiro gesto de reconciliação.
Os conquistadores têm por glória sua dar a paz pelo poder; e não é menos glória dar a paz pela mansidão da sabedoria.
Repare: o povo de Deus deve sempre mostrar-se povo pacífico; sejam os outros a favor do que forem, eles devem ser a favor da paz.
- A alegação dele pela paz foi muito convincente:
(1.) “Não haja contenda entre mim e ti. Que os cananeus e os ferezeus contendam por ninharias; mas que tu e eu não briguemos, nós que conhecemos coisas melhores e buscamos uma pátria melhor.”
Repare: os que professam a religião devem, mais que todos os outros, ter cuidado em evitar a disputa. “Vós não sereis assim”, Lucas 22:26. “Não temos tal costume”, 1 Coríntios 11:16.
“Não haja contenda entre mim e ti, que temos vivido juntos e nos amado um ao outro por tanto tempo.”
Repare: a lembrança de velhas amizades deve pôr fim depressa às novas desavenças que porventura aconteçam.
(2.) Que se lembre que somos irmãos; no hebraico, “somos homens irmãos” — um duplo argumento:
[1.] Somos homens; e, como homens, somos criaturas mortais — podemos morrer amanhã, e nos importa ser achados em paz. Somos criaturas racionais, e devemos ser governados pela razão.
Somos homens, e não brutos; homens, e não crianças; somos criaturas sociáveis, sejamo-lo ao máximo.
[2.] Somos irmãos. Homens da mesma natureza, do mesmo parentesco e da mesma família, da mesma religião, companheiros na obediência, companheiros na paciência.
Repare: a consideração da nossa relação de uns com os outros, como irmãos, deve sempre prevalecer para moderar as nossas paixões, e para evitar ou pôr fim às nossas disputas. Os irmãos devem amar como irmãos.
- A proposta dele pela paz foi muito justa. Muitos que professam ser a favor da paz, contudo, nada fazem por ela.
Mas Abrão mostrou-se com isto verdadeiro amigo da paz, ao propor um meio irrepreensível de preservá-la: “Não está toda a terra diante de ti?”, v. 9. Como se dissesse: “Por que brigar por espaço, se há espaço bastante para nós dois?”
(1.) Ele conclui que precisam se separar, e deseja muito que se separem como amigos: “Aparta-te, peço-te, de mim.” O que poderia ser dito com mais afeto?
Ele não o expulsa nem o afasta à força, mas aconselha que ele mesmo se aparte. Nem lhe ordena que parta, mas humildemente lhe pede que se retire.
Repare: os que têm poder para mandar devem, ainda assim, às vezes, por amor e por causa da paz, antes rogar, como Paulo rogou a Filemom (Filemom 1:8, 9).
Quando o grande Deus se digna a rogar-nos, bem podemos rogar uns aos outros que nos reconciliemos, 2 Coríntios 5:20.
(2.) Ele lhe oferece uma parte suficiente da terra em que estavam. Ainda que Deus tivesse prometido a Abrão dar esta terra à sua descendência (Gênesis 12:7), e não pareça que jamais se tenha feito tal promessa a Ló, no que Abrão poderia ter insistido, para a exclusão total de Ló, ainda assim ele lhe permite entrar como sócio.
Ele oferece parte igual a quem não tinha direito igual, e não quer fazer da promessa de Deus o patrocínio da sua desavença, nem, sob a proteção dela, impor qualquer dureza ao seu parente.
(3.) Ele lhe dá a escolha, e se oferece para ficar com o que sobrar: “Se tomares a mão esquerda, irei para a direita.” Havia toda a razão do mundo para que Abrão escolhesse primeiro; contudo ele abre mão do seu direito.
Repare: é nobre conquista estar disposto a ceder por causa da paz; é a conquista de nós mesmos, e da nossa própria soberba e paixão, Mateus 5:39, 40.
Não são só os melindres da honra, mas até o próprio interesse, que em muitos casos deve ser sacrificado à paz.
Versículos 10 a 13
A Mudança de Ló para Sodoma. (a.C. 1917.)
Temos aqui a escolha que Ló fez quando se separou de Abrão. Nessa ocasião, seria de esperar:
Que ele mostrasse falta de vontade de se separar de Abrão, e que ao menos o fizesse a contragosto.
Que fosse cortês o bastante para devolver a escolha a Abrão.
Mas não encontramos, em toda a condução do caso, um só exemplo de deferência ou de respeito ao tio. Tendo Abrão lhe oferecido a escolha, ele a aceitou sem cerimônia e fez a sua eleição. A paixão e o egoísmo tornam os homens grosseiros.
Ora, na escolha que Ló fez, podemos observar:
I. Quanto ele teve em vista a bondade da terra. Ele contemplou toda a planície do Jordão, a região plana em que ficava Sodoma, e viu que era admiravelmente bem regada por toda parte (e talvez a contenda tivesse sido por água, o que o tornava particularmente afeiçoado a essa comodidade); e assim Ló escolheu toda aquela planície, v. 10, 11.
Aquele vale, que era como o próprio jardim do Éden, oferecia-lhe agora uma vista das mais agradáveis.
Aos olhos dele era formoso de situação, a alegria de toda a terra; e por isso não duvidava de que lhe ofereceria um estabelecimento cômodo, e que em solo tão fértil certamente prosperaria e ficaria muito rico; e isso era tudo o que ele olhava.
Mas o que resultou disso? Ora, a notícia seguinte que temos dele é que está metido entre os espinhos, ele e os seus levados cativos.
Enquanto viveu entre eles, atormentava a sua alma justa com a conduta deles, e nunca teve um bom dia em companhia deles, até que por fim Deus incendiou a cidade sobre a cabeça dele e o forçou a ir ao monte para se salvar, ele que escolhera a planície por riqueza e prazer.
Repare: escolhas sensuais são escolhas pecaminosas, e raramente dão certo.
Quem, ao escolher relações, ocupações, moradias ou estabelecimentos, é guiado e governado pelos desejos da carne, pelos desejos dos olhos ou pela soberba da vida, e não consulta os interesses da própria alma e da própria religião, não pode esperar a presença de Deus consigo nem a bênção dele sobre si.
Ao contrário, comumente se decepciona até naquilo que principalmente visava, e não alcança aquilo em que prometia a si mesmo satisfação.
Em todas as nossas escolhas este princípio deve prevalecer sobre nós: que é melhor para nós aquilo que é melhor para as nossas almas.
II. Quão pouco ele considerou a maldade dos habitantes: “Mas os homens de Sodoma eram maus”, v. 13. Repare:
- Ainda que todos sejam pecadores, alguns são pecadores maiores que outros. Os homens de Sodoma eram pecadores de primeira grandeza, “pecadores perante o Senhor”, isto é, pecadores descarados e atrevidos; eram-no a ponto de virar provérbio.
Daí lermos daqueles que “declaram o seu pecado como Sodoma, não o escondem”, Isaías 3:9.
- Que alguns pecadores ficam piores por viver numa boa terra. Assim foi com os sodomitas: pois esta era a iniquidade de Sodoma, “soberba, fartura de pão e abundância de ociosidade”; e tudo isso era sustentado pela grande abundância que o país deles proporcionava, Ezequiel 16:49.
Assim a prosperidade dos tolos os destrói.
Que Deus muitas vezes dá grande abundância a grandes pecadores. Sodomitas imundos moram numa cidade, numa planície fértil, enquanto o fiel Abrão e a sua família piedosa moram em tendas sobre montes estéreis.
Quando a maldade chega ao auge, a ruína não está longe. Pecados que abundam são presságios certos de juízos que se aproximam.
Ora, a vinda de Ló para morar entre os sodomitas pode ser considerada:
(1.) Como grande misericórdia para eles, e meio provável de levá-los ao arrependimento; pois agora tinham um profeta no meio deles e um pregador da justiça, e, se lhe tivessem dado ouvidos, poderiam ter sido reformados, e a ruína, evitada.
Repare: Deus envia pregadores antes de enviar destruidores, porque não quer que nenhum pereça.
(2.) Como grande aflição para Ló, que não só se entristecia ao ver a maldade deles (2 Pedro 2:7, 8), mas era molestado e perseguido por eles, porque não queria fazer o que eles faziam.
Repare: muitas vezes tem sido a sorte penosa dos homens bons viver entre vizinhos ímpios, “peregrinar em Meseque” (Salmos 120:5); e não pode deixar de ser mais doloroso ainda se, como Ló aqui, eles mesmos trouxeram isso sobre si por uma escolha imprudente.
Versículos 14 a 18
Deus Confirma a Sua Promessa a Abrão. (a.C. 1917.)
Temos aqui o relato de uma visita graciosa que Deus fez a Abrão, para confirmar a promessa a ele e aos seus. Observe:
I. Quando foi que Deus renovou e ratificou a promessa: depois que Ló se separou dele, isto é:
Depois que a desavença passou; porque os mais bem preparados para as visitas da graça divina são aqueles cujo espírito está calmo e sereno, e não agitado por nenhuma paixão.
Depois das condescendências humildes e abnegadas de Abrão para com Ló, para preservar a paz. Foi então que Deus veio a ele com esse sinal do seu favor.
Repare: Deus há de compensar abundantemente em paz espiritual o que perdemos para preservar a paz com o próximo. Quando Abrão de bom grado ofereceu a Ló metade do seu direito, Deus veio e confirmou o todo a ele.
- Depois que ele perdeu a consoladora companhia do seu parente, com cuja partida as suas mãos se enfraqueceram e o seu coração se entristeceu; foi então que Deus veio a ele com estas palavras boas e consoladoras.
Repare: a comunhão com Deus pode, a qualquer tempo, suprir a falta do convívio com os nossos amigos; quando os nossos parentes se separam de nós, Deus, contudo, não se separa.
- Depois que Ló escolheu aquele vale aprazível e fértil e foi tomar posse dele, para que Abrão não seja tentado a invejá-lo e a se arrepender de lhe ter dado a escolha, Deus vem a ele e lhe assegura que o que tinha permaneceria dele e dos seus herdeiros para sempre.
De modo que, embora Ló talvez tivesse a terra melhor, Abrão tinha o direito de posse mais seguro. Ló ficou com o paraíso, tal como era, mas Abrão ficou com a promessa.
E o desfecho logo deixou ver que, por mais que agora parecesse de outro modo, Abrão tinha de fato a melhor parte. Veja Jó 22:20.
Deus reconheceu Abrão depois da sua contenda com Ló, como as igrejas reconheceram Paulo depois da sua contenda com Barnabé, Atos 15:39, 40.
II. As próprias promessas com que Deus agora consolou e enriqueceu Abrão. Duas coisas ele lhe assegura: uma boa terra e uma prole numerosa para desfrutá-la.
- Aqui está a concessão de uma boa terra, terra famosa acima de todas as terras, porque seria a terra santa, e a terra de Emanuel; é esta a terra de que se fala aqui.
(1.) Deus aqui mostra a Abrão a terra, como havia prometido (Gênesis 12:1), e depois a mostrou a Moisés do alto do Pisga.
Ló tinha levantado os olhos e contemplado a planície do Jordão (v. 10), e tinha ido desfrutar o que viu: “Vem”, diz Deus a Abrão, “levanta agora os teus olhos, e olha, e vê o que é teu.”
Repare: aquilo que Deus tem para nos mostrar é infinitamente melhor e mais desejável do que qualquer coisa que o mundo tenha a oferecer à nossa vista.
As vistas de um olho de fé são muito mais ricas e belas do que as de um olho dos sentidos.
Aqueles para quem a Canaã celestial está destinada no outro mundo têm às vezes, pela fé, uma vista consoladora dela no seu estado presente; porque olhamos as coisas que não se veem como reais, ainda que distantes.
(2.) Ele garante esta terra a ele e à sua semente para sempre (v. 15): “A ti a darei”; e outra vez (v. 17): “Eu a darei a ti”; cada repetição da promessa é uma ratificação dela.
“A ti e à tua semente”, não a Ló e à semente dele; eles não teriam a sua herança nesta terra, e por isso a Providência dispôs que Ló fosse separado de Abrão primeiro, e então a concessão fosse confirmada a ele e à sua semente.
Assim Deus muitas vezes tira o bem do mal, e faz os pecados e as loucuras dos homens servirem aos seus próprios conselhos sábios e santos.
“A ti e à tua semente” — “a ti”, para nela peregrinar como estrangeiro; “à tua semente”, para nela habitar e governar como proprietários. “A ti”, isto é, “à tua semente”.
A concessão dela a ele e aos seus para sempre dá a entender que era figura da Canaã celestial, que é dada à semente espiritual de Abrão para sempre, Hebreus 11:14.
(3.) Ele lhe dá a investidura e a posse dela, ainda que fosse uma herança futura: “Levanta-te, percorre a terra”, v. 17. “Entra e toma posse, vistoria as parcelas, e ela parecerá melhor do que numa vista de longe.”
Repare: Deus está disposto a mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade da sua aliança e o valor inestimável das bênçãos da aliança. Vão, andem ao redor de Sião, Salmos 48:12.
- Aqui está a promessa de uma prole numerosa para repovoar esta boa terra, de modo que ela nunca se perdesse por falta de herdeiros (v. 16): “Farei a tua semente como o pó da terra”.
Isto é: “Eles se multiplicarão de modo incrível, e, tomados todos juntos, serão uma multidão tão grande que ninguém pode contar.”
Assim foram nos dias de Salomão, 1 Reis 4:20: “Judá e Israel eram muitos, como a areia que está junto ao mar em multidão.” É disto que Deus aqui lhe dá a promessa.
Repare: o mesmo Deus que provê a herança provê os herdeiros. Aquele que preparou a terra santa prepara a semente santa; aquele que dá a glória dá a graça que torna apto para a glória.
Por fim, é-nos dito o que Abrão fez quando Deus assim lhe confirmou a promessa, v. 18.
- Ele mudou a sua tenda. Deus lhe ordenou percorrer a terra, isto é: “Não penses em te fixar nela, mas espera estar sempre sem estabilidade, percorrendo-a rumo a uma Canaã melhor.”
Em conformidade com a vontade de Deus nisto, ele muda a sua tenda, conformando-se à condição de peregrino.
- Ele edificou ali um altar, em sinal da sua gratidão a Deus pela visita bondosa que lhe fizera.
Repare: quando Deus vem ao nosso encontro com promessas graciosas, ele espera que lhe respondamos com os nossos humildes louvores.