Matthew Henry

Gênesis 12

Argumento

Tivemos no capítulo anterior o relato da linhagem e da família de Abrão; aqui o Espírito Santo entra na história dele, e daqui em diante Abrão e a sua descendência são quase o único assunto da história sagrada.

Neste capítulo temos:

I. O chamado que Deus faz a Abrão para a terra de Canaã, vv. 1-3.

II. A obediência de Abrão a esse chamado, v. 4, 5.

III. A acolhida que ele teve na terra de Canaã, vv. 6-9.

IV. A viagem dele ao Egito, com o relato do que lá lhe aconteceu:

A fuga e a falta de Abrão, vv. 10-13.

O perigo de Sarai e o seu livramento, vv. 14-20.

Versículos 1 a 3

O Chamado de Abrão. (a.C. 1921.)

Temos aqui o chamado pelo qual Abrão foi retirado da terra do seu nascimento para a terra da promessa, destinado tanto a provar a sua fé e obediência quanto a separá-lo e reservá-lo para Deus, e para serviços e favores especiais que adiante estavam destinados.

Quanto às circunstâncias deste chamado, o discurso de Estêvão nos ajuda um pouco a conhecê-las, Atos 7:2, onde nos é dito:

  1. Que o Deus da glória lhe apareceu para lhe dar este chamado; apareceu em tais manifestações da sua glória que não deixaram a Abrão nenhuma margem para duvidar da autoridade divina deste chamado.

Depois Deus lhe falou de diversos modos; mas nesta primeira vez, quando o trato ia ser estabelecido, apareceu-lhe como o Deus da glória, e lhe falou.

  1. Que este chamado lhe foi dado na Mesopotâmia, antes que habitasse em Charrã. Por isso lemos com acerto: “O Senhor tinha dito a Abrão”, ou seja, em Ur dos caldeus.

E, em obediência a este chamado, como Estêvão prossegue narrando a história (Atos 7:4), ele saiu da terra dos caldeus e habitou em Charrã, ou Harã, cerca de cinco anos; e dali, morto o seu pai, por uma nova ordem, em seguimento à primeira, Deus o transferiu para a terra de Canaã.

Alguns pensam que Harã ficava na Caldeia, e portanto ainda era parte da terra de Abrão; ou que Abrão, tendo ficado ali cinco anos, começou a chamá-la de sua terra e a criar raízes ali, até que Deus lhe fez saber que não era este o lugar para o qual estava destinado.

Repare: se Deus nos ama e tem misericórdia guardada para nós, não permitirá que nos acomodemos em lugar nenhum aquém de Canaã, mas repetirá com graça os seus chamados, até que a boa obra começada seja cumprida e as nossas almas repousem somente em Deus.

No próprio chamado temos um preceito e uma promessa.

I. Um preceito que põe à prova — “Sai da tua terra”, v. 1. Ora:

  1. Por este preceito ele foi provado: se amava o solo natal e os amigos mais queridos, e se podia deixar tudo de boa vontade para ir com Deus.

A sua terra tinha se tornado idólatra; os seus parentes e a casa de seu pai eram para ele tentação constante, e não podia continuar com eles sem perigo de ser contaminado por eles.

Por isso: “Sai” — lk-lk, Vade tibi, vai-te embora, com toda a pressa, “escapa por tua vida, não olhes para trás”, Gênesis 19:17.

Repare: cabe a quem está num estado de pecado sair dele com toda a pressa possível.

“Sai para ti mesmo” (assim alguns leem), isto é, para o teu próprio bem.

Repare: quem deixa os seus pecados e se volta para Deus sairá ganhando de maneira indescritível com a mudança, Provérbios 9:12.

Esta ordem que Deus deu a Abrão é muito parecida com o chamado do evangelho pelo qual toda a descendência espiritual do fiel Abrão é trazida à aliança com Deus. Porque:

(1.) O afeto natural tem de ceder lugar à graça divina. A nossa terra nos é querida, os nossos parentes mais queridos, e a casa de nosso pai a mais querida de todas.

E, no entanto, todos eles têm de ser aborrecidos (Lucas 14:26), isto é, temos de amá-los menos que a Cristo, aborrecê-los em comparação com ele; e, sempre que algum deles entrar em competição com ele, têm de ser postergados, e a preferência dada à vontade e à honra do Senhor Jesus.

(2.) O pecado, e todas as ocasiões dele, têm de ser abandonados, e particularmente as más companhias.

Temos de largar todos os ídolos da iniquidade que foram levantados no nosso coração e sair do caminho da tentação, arrancando até mesmo um olho direito que nos leve a pecar (Mateus 5:29), separando-nos de boa vontade daquilo que nos é mais caro, quando não podemos guardá-lo sem risco da nossa integridade.

Quem resolve guardar os mandamentos de Deus tem de deixar a sociedade dos malfeitores, Salmos 119:115; Atos 2:40.

(3.) O mundo, e tudo o que nele desfrutamos, tem de ser olhado com santa indiferença e desprezo.

Não devemos mais olhá-lo como a nossa terra, ou lar, mas como a nossa hospedaria; e, portanto, temos de nos prender pouco a ele e viver acima dele, afastando dele o coração.

  1. Por este preceito ele foi provado: se podia confiar em Deus além do que o via. Pois tinha de deixar a sua própria terra para ir a uma terra que Deus lhe mostraria.

Ele não diz: “É uma terra que eu te darei”, mas apenas: “uma terra que eu te mostrarei”.

Nem lhe diz que terra era, nem que espécie de terra. Mas tinha de seguir a Deus com fé implícita e aceitar a palavra de Deus, em geral, ainda que não lhe fossem dadas garantias particulares de que não sairia perdendo ao deixar a sua terra para seguir a Deus.

Repare: quem quer tratar com Deus tem de tratar com base na confiança.

Temos de largar as coisas que se veem pelas que não se veem, e nos submeter aos sofrimentos deste tempo presente na esperança de uma glória que ainda está para ser revelada (Romanos 8:18); porque “ainda não é manifesto o que havemos de ser” (1 João 3:2).

Tampouco era manifesto para Abrão, quando Deus o chamou para uma terra que lhe mostraria, ensinando-o assim a viver em dependência contínua da direção dele, e com o olho sempre voltado para ele.

II. Aqui está uma promessa que dá ânimo; ou melhor, é um entrelaçamento de promessas, muitas, e grandíssimas e preciosíssimas.

Repare: todos os preceitos de Deus vêm acompanhados de promessas aos obedientes. Quando ele se dá a conhecer a nós como aquele que ordena, dá-se a conhecer também como galardoador: se obedecemos à ordem, Deus não deixará de cumprir a promessa.

Aqui estão seis promessas:

  1. “Farei de ti uma grande nação.” Quando Deus o tirou do seu próprio povo, prometeu fazê-lo cabeça de outra; cortou-o de ser o ramo de uma oliveira brava, para fazê-lo a raiz de uma boa oliveira. Esta promessa foi:

(1.) Grande alívio para o peso de Abrão, porque não tinha, então, filho algum.

Repare: Deus sabe ajustar os seus favores às carências e necessidades dos seus filhos. Aquele que tem emplastro para toda ferida providenciará primeiro para a que mais dói.

(2.) Grande prova para a fé de Abrão, porque a sua mulher era estéril havia muito tempo; de modo que, se ele cresse, teria de ser contra a esperança, e a sua fé teria de assentar-se puramente naquele poder que pode das pedras suscitar filhos a Abraão, e fazer deles uma grande nação.

Repare: [1.] Deus faz as nações: por ele elas nascem de uma vez (Isaías 66:8), e ele fala, para edificá-las e plantá-las, Jeremias 18:9.

[2.] Se uma nação é feita grande em riqueza e poder, é Deus que a faz grande.

[3.] Deus pode levantar grandes nações de terreno seco, e pode fazer do pequeno mil.

  1. “Eu te abençoarei” — seja particularmente com a bênção da fecundidade e do crescimento, como abençoara Adão e Noé, seja, em geral: “Eu te abençoarei com toda sorte de bênçãos, tanto das fontes de cima quanto das de baixo. Deixa a casa de teu pai, e eu te darei uma bênção de pai, melhor que a dos teus progenitores.”

Repare: os crentes obedientes certamente herdarão a bênção.

  1. “Engrandecerei o teu nome.” Ao abandonar a sua terra, ele perdeu ali o seu nome.

“Não te importes com isso”, diz Deus, “mas confia em mim, e eu te farei um nome maior do que jamais poderias ter tido ali.”

Não tendo filho, temia que não tivesse nome; mas Deus o fará uma grande nação, e assim lhe fará um grande nome.

Repare: (1.) Deus é a fonte da honra, e dele vem a promoção, 1 Samuel 2:8.

(2.) O nome dos crentes obedientes será certamente celebrado e engrandecido. O melhor testemunho é aquele que os antigos alcançaram pela fé, Hebreus 11:2.

  1. “Serás uma bênção” — isto é:

(1.) “A tua felicidade será uma amostra de felicidade, de modo que os que quiserem abençoar os seus amigos só orarão para que Deus os faça como Abrão”; como em Rute 4:11.

Repare: o trato de Deus com os crentes obedientes é tão bondoso e cheio de graça que não precisamos desejar, para nós nem para os nossos amigos, ser tratados de modo melhor: ter a Deus por nosso amigo é bem-aventurança suficiente.

(2.) “A tua vida será uma bênção para os lugares onde peregrinares.”

Repare: os homens bons são as bênçãos da sua terra, e é honra e felicidade indizíveis para eles serem feitos assim.

  1. “Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei o que te amaldiçoar.” Isto fez disso uma espécie de pacto, ofensivo e defensivo, entre Deus e Abrão.

Abrão abraçou de coração a causa de Deus, e aqui Deus promete tomar para si a causa de Abrão.

(1.) Ele promete ser amigo dos amigos dele, tomar as gentilezas mostradas a ele como feitas a si mesmo, e recompensá-las conforme isso.

Deus cuidará de que ninguém saia perdendo, no longo prazo, por qualquer serviço prestado ao seu povo; até mesmo um copo de água fria será recompensado.

(2.) Ele promete levantar-se contra os inimigos dele. Havia quem odiasse e amaldiçoasse até mesmo o próprio Abrão; mas, enquanto as maldições sem causa deles não podiam ferir Abrão, a maldição justa de Deus certamente os alcançaria e arruinaria, Números 24:9.

Esta é boa razão para abençoarmos os que nos amaldiçoam: basta que Deus os amaldiçoe, Salmos 38:13-15.

  1. “Em ti serão benditas todas as famílias da terra.” Esta foi a promessa que coroou todas as demais, porque aponta para o Messias, em quem todas as promessas são sim e amém.

Repare: (1.) Jesus Cristo é a grande bênção do mundo, a maior com que o mundo jamais foi abençoado.

Ele é bênção de família; por ele a salvação é trazida à casa (Lucas 19:9). Quando fizermos a conta das nossas bênçãos de família, ponhamos Cristo no imprimis — o primeiro lugar, como a bênção das bênçãos.

Mas como são benditas em Cristo todas as famílias da terra, se tantas lhe são estranhas? Resposta:

[1.] Todos os que são benditos são benditos nele, Atos 4:12.

[2.] Todos os que creem, de qualquer família que sejam, serão benditos nele.

[3.] Alguns de todas as famílias da terra são benditos nele.

[4.] Há algumas bênçãos com que todas as famílias da terra são abençoadas em Cristo, porque a salvação do evangelho é uma salvação comum, Judas 3.

(2.) É grande honra ter parentesco com Cristo. Isto engrandeceu o nome de Abrão: que o Messias descenderia dos seus lombos, muito mais do que o vir a ser pai de muitas nações.

Foi honra de Abrão ser pai dele por natureza; será a nossa ser irmãos dele pela graça, Mateus 12:50.

Versículos 4 a 5

A Chegada de Abrão a Canaã. (a.C. 1920.)

Aqui está:

I. A saída de Abraão da sua terra, primeiro de Ur e depois de Harã, em conformidade com o chamado de Deus: “Assim partiu Abrão”. Ele não foi desobediente à visão celestial, mas fez como lhe foi ordenado, sem consultar a carne e o sangue, Gálatas 1:15, 16.

A obediência dele foi pronta e sem demora, submissa e sem discussão; porque “saiu, não sabendo para onde ia” (Hebreus 11:8), mas sabendo a quem seguia e sob a direção de quem ia. Assim Deus o “chamou ao seu pé”, Isaías 41:2.

II. A idade que ele tinha ao sair: tinha setenta e cinco anos, idade em que antes deveria ter descanso e estabilidade; mas, se Deus quer que ele recomece a vida agora, na velhice, ele se submeterá. Temos aqui um exemplo de convertido idoso.

III. A companhia e a carga que ele levou consigo:

  1. Levou consigo a mulher e o sobrinho Ló; não à força e contra a vontade deles, mas por persuasão. Sarai, sua mulher, com certeza iria com ele; Deus os havia unido, e nada os deveria separar.

Se Abrão deixa tudo para seguir a Deus, Sarai deixará tudo para seguir Abrão, ainda que nenhum dos dois soubesse para onde.

E foi misericórdia para Abrão ter na viagem uma companheira assim, uma ajuda adequada para ele. Repare: é muito reconfortante quando marido e mulher concordam em caminhar juntos no caminho para o céu.

Ló, seu parente, também foi influenciado pelo bom exemplo de Abrão, que talvez fosse seu tutor depois da morte do pai, e ele também estava disposto a ir junto.

Repare: quem vai para Canaã não precisa ir sozinho; porque, embora poucos encontrem a porta estreita, bendito seja Deus, alguns a encontram; e é sabedoria nossa ir com aqueles com quem Deus está (Zacarias 8:23), para onde quer que vão.

  1. Levaram consigo tudo o que possuíam — todo o patrimônio e os bens móveis que haviam ajuntado. Porque:

(1.) Junto consigo mesmos entregariam tudo o que tinham, para ficar à disposição de Deus; não reteriam parte alguma do preço, mas arriscariam tudo num só navio, sabendo que era um bom navio.

(2.) Eles se abasteceriam do que era necessário, tanto para o serviço de Deus quanto para o sustento da sua família, na terra para onde iam. Ter jogado fora o seu patrimônio, porque Deus havia prometido abençoá-lo, teria sido tentar a Deus, não confiar nele.

(3.) Eles não ficariam sob nenhuma tentação de voltar; por isso não deixam para trás nem um casco, para que isso não os faça lembrar da terra de onde tinham saído.

  1. Levaram consigo “as almas que haviam adquirido”, isto é:

(1.) Os servos que haviam comprado, que eram parte do seu patrimônio, mas são chamados de almas, para lembrar aos senhores que os seus pobres servos têm almas, almas preciosas, das quais devem cuidar e para as quais devem prover o alimento conveniente.

(2.) Os prosélitos que haviam feito, e persuadido a assistir ao culto do Deus verdadeiro e a ir com eles para Canaã: as almas que (como diz um dos rabinos) haviam ajuntado debaixo das asas da Majestade divina.

Repare: quem, de sua parte, serve e segue a Deus deve fazer tudo o que pode para levar outros a servi-lo e segui-lo também.

Diz-se que essas almas eles as ganharam. Devemos nos ter por verdadeiros ganhadores se ao menos conseguirmos ganhar almas para Cristo.

IV. Aqui está a feliz chegada deles ao fim da viagem: “saíram para ir à terra de Canaã”. Assim já tinham feito antes (Gênesis 11:31), e então pararam no meio do caminho; mas agora seguiram o seu caminho e, pela boa mão do seu Deus sobre eles, “à terra de Canaã chegaram”.

Ali, por uma nova revelação, foi-lhes dito que esta era a terra que Deus prometera mostrar-lhes. Não se desanimaram com as dificuldades que encontraram no caminho, nem se desviaram pelos prazeres que encontraram, mas avançaram.

Repare: 1. Quem parte para o céu deve perseverar até o fim, estendendo-se continuamente para as coisas que estão adiante.

  1. Aquilo que empreendemos em obediência ao mandamento de Deus, e em humilde atenção à sua providência, certamente terá bom êxito, e afinal acabará em consolo.

Versículos 6 a 9

A Devoção de Abrão. (a.C. 1921.)

Era de esperar que, tendo Abrão recebido um chamado tão extraordinário para Canaã, algum grande acontecimento se seguisse à sua chegada ali; que ele fosse apresentado com todas as marcas possíveis de honra e respeito, e que os reis de Canaã lhe entregassem de imediato as suas coroas e lhe prestassem homenagem.

Mas não. Ele chega sem alarde, e pouco se repara nele, pois Deus continua querendo que ele viva pela fé e que olhe para Canaã, mesmo estando dentro dela, como uma terra de promessa. Portanto, observe aqui:

I. Quão pouco consolo ele teve na terra a que chegou. Porque:

  1. Ele não a tinha só para si: “o cananeu estava então na terra”.

Ele encontrou o país povoado e possuído por cananeus, que provavelmente seriam maus vizinhos e donos da terra ainda piores. E, ao que parece, ele não podia ter chão onde armar a sua tenda a não ser com a permissão deles.

Assim os cananeus malditos pareciam estar em melhores condições do que o bendito Abrão. Repare: os filhos deste mundo comumente têm mais dele do que os filhos de Deus.

  1. Ele não tinha morada fixa nela. Passou pela terra, v. 6. Mudou-se para um monte, v. 8. Viajou, seguindo continuamente adiante, v. 9. Observe aqui:

(1.) Às vezes é a sorte dos homens bons ficarem sem morada fixa e serem obrigados a mudar de habitação com frequência. O santo Davi teve as suas andanças, as suas mudanças de morada, Salmos 56:8.

(2.) As nossas mudanças neste mundo são muitas vezes para condições diversas. Abrão peregrinou primeiro numa planície, v. 6, depois num monte, v. 8. Deus pôs uma coisa diante da outra.

(3.) Todas as pessoas boas devem se ver como estrangeiras e peregrinas neste mundo, e pela fé se manter desapegadas dele como de um país estranho. Foi o que Abrão fez, Hebreus 11:8-14.

(4.) Enquanto estamos aqui neste estado presente, devemos estar viajando e seguindo continuamente de força em força, como quem ainda não alcançou.

II. Quanto consolo ele teve no Deus que seguia. Quando podia ter pouca satisfação no convívio com os cananeus que ali encontrou, teve prazer em abundância na comunhão com aquele Deus que o trouxe até lá e não o deixou.

A comunhão com Deus se mantém pela palavra e pela oração; e por elas, segundo os métodos daquela dispensação, a comunhão de Abrão com Deus se manteve na terra da sua peregrinação.

  1. Deus apareceu a Abrão, provavelmente numa visão, e lhe falou palavras boas e palavras consoladoras: “À tua semente darei esta terra.” Repare:

(1.) Nenhum lugar nem condição de vida pode nos excluir do consolo das visitas graciosas de Deus. Abrão é um peregrino, sem morada fixa entre cananeus; e ainda assim também aqui ele se encontra com aquele que vive e o vê.

Inimigos podem nos separar das nossas tendas e dos nossos altares, mas não do nosso Deus.

Mais que isso, (2.) No que diz respeito aos que seguem a Deus fielmente num caminho de dever, ainda que ele os leve para longe dos seus amigos, ele mesmo compensará essa perda com as suas aparições graciosas a eles.

(3.) As promessas de Deus são seguras e satisfatórias para todos os que observam e obedecem conscienciosamente aos seus preceitos.

E os que, atendendo ao chamado de Deus, deixam ou perdem alguma coisa que lhes é cara terão a certeza de outra coisa abundantemente melhor em lugar dela.

Abrão tinha deixado a terra do seu nascimento; Deus, então, lhe diz que lhe dará esta terra, Mateus 19:29.

(4.) Deus revela a si mesmo e os seus favores ao seu povo por graus. Antes ele tinha prometido mostrar-lhe esta terra, agora dá-la a ele: assim como a graça vai crescendo, também vai o consolo.

(5.) É consolador ter terra dada por Deus, não só pela providência, mas pela promessa.

(6.) Misericórdias para os filhos são misericórdias para os pais. Deus a daria, não a Abrão, mas à descendência dele.

É uma concessão futura à sua descendência, que, contudo, ao que parece, Abrão entendeu também como uma concessão futura a si mesmo de uma terra melhor, da qual esta era um tipo; porque ele esperava uma pátria celestial, Hebreus 11:16.

  1. Abrão serviu a Deus nas ordenanças por ele instituídas. Ele “edificou um altar ao Senhor, que lhe apareceu”, e “invocou o nome do Senhor”, v. 7, 8. Agora considere isto:

(1.) Como algo feito numa ocasião especial. Quando Deus lhe apareceu, ali mesmo e naquele momento ele edificou um altar, com os olhos postos no Deus que lhe apareceu.

Assim ele retribuiu a visita de Deus e manteve a sua correspondência com o céu, como quem decidiu que ela não falharia do seu lado.

Assim ele reconheceu, com gratidão, a bondade de Deus para com ele ao lhe fazer aquela visita e aquela promessa graciosas. E assim ele testemunhou a sua confiança na palavra que Deus falara, e a sua dependência dela.

Repare: um crente ativo pode bendizer a Deus de coração por uma promessa cujo cumprimento ele ainda não vê, e edificar um altar em honra do Deus que lhe aparece, ainda que ele ainda não apareça por ele.

(2.) Como a sua prática constante, para onde quer que se mudasse. Assim que Abrão chegou a Canaã, ainda que ali não fosse mais que estrangeiro e peregrino, estabeleceu e manteve o culto de Deus na sua família.

E onde quer que ele tivesse uma tenda, Deus tinha um altar, e um altar santificado pela oração.

Porque ele não cuidava apenas da parte cerimonial da religião, a oferta do sacrifício, mas fazia questão de consciência do dever natural de buscar o seu Deus e invocar o seu nome, aquele sacrifício espiritual com que Deus muito se agrada.

Ele pregou a respeito do nome do Senhor, isto é, instruiu a sua família e os seus vizinhos no conhecimento do Deus verdadeiro e da sua santa religião. As almas que ele tinha adquirido em Harã, uma vez feitas discípulas, deviam ser ainda mais ensinadas.

Repare: os que quiserem se mostrar filhos do fiel Abrão e herdar a bênção de Abrão devem fazer questão de consciência de manter o culto solene de Deus, particularmente nas suas famílias, segundo o exemplo de Abrão.

O caminho do culto familiar é um bom caminho antigo; não é invenção nova, mas o uso antigo de todos os santos.

Abrão era muito rico e tinha uma família numerosa, estava agora sem morada fixa e no meio de inimigos, e ainda assim, onde quer que armasse a sua tenda, edificava um altar.

Para onde quer que formos, não deixemos de levar a nossa religião conosco.

Versículos 10 a 13

A Mudança de Abrão para o Egito. (a.C. 1920.)

Aqui está:

I. Uma fome na terra de Canaã, uma fome terrível. Aquela terra fértil foi transformada em esterilidade, não só para punir a iniquidade dos cananeus que nela habitavam, mas para exercitar a fé de Abrão que nela peregrinava; e foi uma prova muito dura. Ela pôs à prova o que ele pensaria:

  1. De Deus, que o levou para lá: se não estaria pronto a dizer, com a sua descendência murmuradora, que fora trazido para ser morto de fome, Êxodo 16:3. Nada menos que uma fé forte poderia manter bons pensamentos a respeito de Deus debaixo de uma providência dessas.

  2. Da terra da promessa: se julgaria que a concessão dela valia a pena aceitar, e que era compensação valiosa por deixar o seu próprio país, quando, pelo que agora parecia, era uma terra que devorava os seus habitantes.

Agora ele era provado: se conseguiria conservar uma confiança inabalável de que o Deus que o trouxe a Canaã o sustentaria ali, e se conseguiria alegrar-se nele como o Deus da sua salvação quando a figueira não florescesse, Habacuque 3:17, 18. Repare:

(1.) A fé forte comumente é exercitada com diversas tentações, para que seja achada para louvor, honra e glória, 1 Pedro 1:6, 7.

(2.) Apraz a Deus às vezes provar com grandes aflições aqueles que são apenas jovens principiantes na religião.

(3.) É possível que um homem esteja no caminho do dever, e no caminho para a felicidade, e ainda assim encontre grandes dificuldades e decepções.

II. A mudança de Abrão para o Egito, por ocasião desta fome. Veja com que sabedoria Deus provê que haja abundância num lugar quando há escassez em outro, para que, como membros do grande corpo, não digamos uns aos outros: “Não tenho necessidade de ti”.

A providência de Deus cuidou de que houvesse suprimento no Egito, e a prudência de Abrão aproveitou a oportunidade; porque tentamos a Deus, e não confiamos nele, se, no tempo da angústia, não usamos os meios que ele graciosamente proveu para a nossa preservação. Não devemos esperar milagres desnecessários.

Mas o que é especialmente digno de nota aqui, para louvor de Abrão, é que ele não se propôs a voltar, nesta ocasião, ao país de onde saíra, nem sequer na direção dele.

A terra do seu nascimento ficava a nordeste de Canaã; e por isso, quando tem de deixar Canaã por um tempo, ele escolhe ir para o Egito, que ficava a sudoeste, no sentido contrário, para que nem sequer pareça olhar para trás. Veja Hebreus 11:15, 16.

Observe ainda: quando desceu ao Egito, foi para peregrinar ali, não para habitar ali. Repare:

  1. Ainda que a Providência, por um tempo, possa nos lançar em maus lugares, não devemos demorar ali mais do que o necessário; podemos peregrinar onde não podemos nos estabelecer.

  2. Um homem bom, enquanto está deste lado do céu, onde quer que esteja, não é senão um peregrino.

III. Uma grande falta de que Abrão foi culpado, ao negar a sua mulher e alegar que ela era sua irmã. A Escritura é imparcial ao relatar as más ações dos santos mais celebrados, que estão registradas não para a nossa imitação, mas para a nossa advertência, para que aquele que pensa estar em pé tenha cuidado para não cair.

  1. A falta dele foi dissimular a sua relação com Sarai, usar de ambiguidade a respeito dela, e ensinar a sua mulher, e provavelmente todos os seus criados, a fazer o mesmo.

O que ele disse era, em certo sentido, verdade (Gênesis 20:12), mas com o propósito de enganar; ele ocultou de tal modo uma verdade mais ampla que na prática a negou, e com isso expôs ao pecado tanto a sua mulher quanto os egípcios.

  1. O que estava no fundo disso era uma imaginação ciumenta e temerosa que ele tinha: que alguns dos egípcios ficariam de tal modo encantados com a beleza de Sarai (produzindo o Egito poucas belezas assim) que, se viessem a saber que ele era o marido dela, achariam um jeito ou outro de eliminá-lo, para que pudessem se casar com ela.

Ele presume que eles preferiam ser culpados de assassinato a sê-lo de adultério, de tão hediondo que era então considerado esse crime e de tão sagrado o respeito que se prestava ao vínculo do matrimônio; daí ele infere, sem nenhuma boa razão: “Eles me matarão”.

Repare: o temor do homem traz um laço, e muitos são levados ao pecado pelo pavor da morte, Lucas 12:4, 5.

A graça pela qual Abrão mais se distinguia era a fé; e mesmo assim ele caiu desse modo por incredulidade e desconfiança da divina Providência, mesmo depois de Deus lhe ter aparecido duas vezes. Ai! Que será dos salgueiros, quando os cedros são assim sacudidos?

Versículos 14 a 20

Abrão Nega a Sua Mulher. (a.C. 1920.)

Aqui está: I. O perigo em que Sarai esteve de ter a sua castidade violada pelo rei do Egito; e sem dúvida o risco do pecado é o maior risco em que podemos incorrer.

Os príncipes de Faraó (ou melhor, os seus alcoviteiros) a viram e, reparando em como era mulher formosa, a elogiaram diante de Faraó.

Não pelo que era realmente o seu louvor — a sua virtude e o seu recato, a sua fé e a sua piedade (aos olhos deles isso não era excelência alguma) —, mas pela sua beleza, que julgaram boa demais para os abraços de um súdito.

Eles a recomendaram ao rei, e ela foi imediatamente levada para a casa de Faraó, como Ester para o serralho de Assuero (Ester 2:8), a fim de ser levada ao leito dele.

Não devemos olhar para Sarai como quem tem boas chances de obter um cargo elevado, mas como quem entra em tentação. As ocasiões disso foram a sua própria beleza (que é laço para muitos) e a ambiguidade de Abrão, pecado que comumente é porta de entrada para muito pecado.

Enquanto Sarai estava neste perigo, Abrão se saiu melhor por causa dela. Faraó lhe deu ovelhas, bois etc. (v. 16), para obter o consentimento dele e assim persuadir mais prontamente aquela que supunha ser sua irmã.

Não podemos pensar que Abrão esperasse isso quando desceu ao Egito, muito menos que tivesse isso em vista quando negou a sua mulher. Mas Deus tirou bem do mal.

E assim a riqueza do pecador se mostra, de um jeito ou de outro, guardada para o justo.

II. O livramento de Sarai desse perigo. Porque, se Deus não nos livrasse muitas vezes, por prerrogativa, daqueles apertos e aflições em que nós mesmos nos metemos pelo nosso pecado e pela nossa insensatez, e dos quais, portanto, não poderíamos esperar livramento algum por promessa, logo estaríamos arruinados.

Mais que isso: já estaríamos arruinados havia muito tempo. Ele não nos trata segundo o que merecemos.

  1. Deus castigou Faraó e assim impediu o progresso do seu pecado.

Repare: felizes são os castigos que nos estorvam num caminho pecaminoso e que eficazmente nos trazem ao nosso dever, e particularmente ao dever de restituir aquilo que tomamos e retivemos indevidamente.

Observe: não só Faraó, mas a sua casa foi ferida com pragas, provavelmente sobretudo aqueles príncipes que tinham elogiado Sarai a Faraó.

Repare: os parceiros no pecado são justamente feitos parceiros no castigo. Os que servem às paixões dos outros devem esperar participar das pragas deles.

Não nos é dito em particular quais foram essas pragas. Mas sem dúvida havia algo nas próprias pragas, ou alguma explicação acrescentada a elas, suficiente para convencê-los de que era por causa de Sarai que estavam sendo assim feridos.

  1. Faraó censurou Abrão e depois o despediu com respeito.

(1.) A censura foi calma, mas muito justa: “Que é isto que fizeste?” Que coisa imprópria! Quão pouco condizente com um homem sábio e bom!

Repare: se os que professam religião fazem o que é injusto e dissimulado, especialmente se dizem o que beira a mentira, devem esperar ouvir a respeito disso, e têm razão em agradecer aos que lhes falarem do assunto.

Encontramos um profeta do Senhor justamente censurado e repreendido por um mestre de navio pagão, Jonas 1:6.

Faraó argumenta com ele: “Por que não me disseste que ela era tua mulher?” — dando a entender que, se tivesse sabido disso, não a teria levado para a sua casa.

Repare: é falta comum demais entre as pessoas boas alimentar suspeitas a respeito dos outros além do que há motivo para isso.

Muitas vezes encontramos em algumas pessoas mais virtude, mais honra e mais consciência do que pensávamos que tinham. E deve ser um prazer para nós ser assim desmentidos, como Abrão foi aqui, que achou em Faraó um homem melhor do que esperava. A caridade nos ensina a esperar o melhor.

(2.) A despedida foi bondosa e muito generosa. Ele lhe restituiu a mulher sem fazer nenhuma ofensa à honra dela: “Eis aqui tua mulher; toma-a”, v. 19.

Repare: os que quiserem impedir o pecado devem remover a tentação, ou sair do caminho dela.

Ele também o mandou embora em paz e estava tão longe de qualquer intenção de matá-lo, como Abrão receava, que teve cuidado especial com ele.

Repare: muitas vezes nos confundimos e nos enredamos com medos que logo parecem ter sido totalmente sem fundamento.

Muitas vezes tememos onde não há o que temer. Tememos o furor do opressor, como se ele estivesse pronto para destruir, quando realmente não há perigo, Isaías 51:13.

Teria sido melhor para a reputação e o consolo de Abrão ter dito a verdade desde o princípio; porque, afinal, a honestidade é a melhor política.

Mais que isso: é dito (v. 20) que “Faraó deu ordem aos seus homens a respeito dele”, isto é:

[1.] Ele lhes ordenou que não o prejudicassem em coisa alguma.

Repare: não basta que os que estão em autoridade não façam mal eles mesmos; eles devem impedir que os seus servos, e os que os cercam, façam mal.

Ou, [2.] Ele os incumbiu de, quando Abrão estivesse disposto a voltar para casa depois da fome, conduzi-lo em segurança para fora do país, como sua escolta.

Provavelmente ele se alarmou com as pragas (v. 17) e concluiu delas que Abrão era um favorecido particular do Céu; e por isso, com medo de que elas voltassem, teve cuidado especial para que ele não sofresse dano algum no seu país.

Repare: Deus muitas vezes levantou amigos para o seu povo, fazendo os homens saberem que, se o ferirem, será por sua própria conta e risco.

É coisa perigosa ofender os pequeninos de Cristo, Mateus 18:6.

A esta passagem, entre outras, se refere o salmista, Salmos 105:13-15: “Repreendeu reis por causa deles, dizendo: Não toqueis nos meus ungidos.”

Talvez, se Faraó não o tivesse mandado embora, ele teria sido tentado a ficar no Egito e a esquecer a terra da promessa.

Repare: às vezes Deus se serve dos inimigos do seu povo para convencê-lo, e para lembrá-lo, de que este mundo não é o seu descanso, mas que ele deve pensar em partir.

Por fim, observe uma semelhança entre este livramento de Abrão do Egito e o livramento da sua semente de lá:

Quatrocentos e trinta anos depois de Abrão ter descido ao Egito por ocasião de uma fome, também eles para lá foram por ocasião de uma fome. Ele foi tirado de lá com grandes pragas sobre Faraó, e eles também.

Assim como Abrão foi despedido por Faraó e enriquecido com o despojo dos egípcios, eles também o foram. Porque o cuidado de Deus com o seu povo é o mesmo ontem, hoje e para sempre.


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