Gênesis 11
Argumento
A velha distinção entre os filhos de Deus e os filhos dos homens (os que professam a fé e os profanos) sobreviveu ao dilúvio, e agora apareceu de novo, quando os homens começaram a se multiplicar.
Segundo essa distinção, temos neste capítulo:
I. A dispersão dos filhos dos homens em Babel (vv. 1-9), onde temos:
O plano presunçoso e provocador deles, que era construir uma cidade e uma torre, vv. 1-4.
O justo juízo de Deus sobre eles, frustrando o plano deles ao confundir a língua deles, e assim dispersando-os, vv. 5-9.
II. A genealogia dos filhos de Deus até Abraão (vv. 10-26), com um relato geral da família dele e da saída dele da sua terra natal, a partir do v. 27.
Versículos 1 a 4
A Confusão das Línguas. (a.C. 2247.)
O fim do capítulo anterior nos diz que pelos filhos de Noé, ou entre os filhos de Noé, as nações foram divididas na terra depois do dilúvio, isto é, foram distinguidas em diversas tribos, ou colônias.
Como os lugares se tornaram estreitos demais para eles, Noé determinou, ou seus filhos combinaram entre si, que rumo cada tribo ou colônia deveria tomar, começando pelos países mais próximos.
A intenção era avançar cada vez mais e se afastar uns dos outros, conforme o aumento dos seus diversos grupos exigisse.
Assim a coisa ficou bem resolvida, cem anos depois do dilúvio, mais ou menos no tempo do nascimento de Pelegue.
Mas os filhos dos homens, ao que parece, relutavam em se dispersar por lugares distantes; achavam que quanto mais fossem, mais alegria e mais segurança haveria, e por isso tramaram ficar juntos.
E foram vagarosos em ir possuir a terra que o Senhor Deus de seus pais lhes tinha dado (Josué 18:3), julgando-se mais sábios do que Deus ou do que Noé. Ora, aqui temos:
I. As vantagens que favoreceram o plano deles de permanecerem juntos:
- Todos eram de uma só língua, v. 1. Se havia línguas diferentes antes do dilúvio, ainda assim só a de Noé, que provavelmente era a mesma de Adão, foi preservada através do dilúvio e continuou depois dele.
Ora, enquanto todos se entendiam uns aos outros, seria mais provável que se amassem uns aos outros, e seriam mais capazes de se ajudarem uns aos outros, e menos inclinados a se separarem uns dos outros.
- Encontraram um lugar muito conveniente e cômodo para se estabelecer (v. 2), uma planície na terra de Sinear, uma planície espaçosa, capaz de contê-los a todos, e uma planície fértil, capaz de sustentá-los a todos, conforme os seus números eram no presente.
Talvez não tivessem considerado, porém, que espaço haveria para eles quando os seus números aumentassem.
Note que acomodações convidativas, para o presente, muitas vezes se mostram tentações fortes demais, levando à negligência tanto do dever quanto do interesse, no que diz respeito ao futuro.
II. O método que tomaram para se ligarem uns aos outros e se estabelecerem juntos num só corpo:
Em vez de desejarem alargar as suas fronteiras por uma partida pacífica sob a proteção divina, trataram de fortificá-las e, como quem estava resolvido a guerrear com o Céu, puseram-se em posição de defesa. A resolução unânime deles é: “Edifiquemos para nós uma cidade e uma torre.”
É digno de nota que os primeiros construtores de cidades, tanto no mundo antigo (Gênesis 4:17) quanto no mundo novo aqui, não eram homens do melhor caráter e da melhor reputação.
Tendas serviam aos súditos de Deus para morar; as cidades foram construídas primeiro por aqueles que eram rebeldes contra ele e que dele se apartaram. Repare aqui:
- Como se animavam e encorajavam uns aos outros a empreender esta obra:
Diziam: “Eia, façamos tijolos” (v. 3), e outra vez (v. 4): “Eia, edifiquemos para nós uma cidade”; por meio de estímulos mútuos tornavam-se uns aos outros mais ousados e resolutos.
Note que grandes coisas podem ser realizadas quando os que as empreendem são numerosos e unânimes, e se estimulam uns aos outros.
Aprendamos a provocar uns aos outros ao amor e às boas obras, como os pecadores se incitam e encorajam uns aos outros às obras más. Veja Salmos 122:1; Isaías 2:3, 5; Jeremias 50:5.
- Que materiais usaram na sua construção:
O país, sendo plano, não dava nem pedra nem argamassa; isso, porém, não os desanimou do seu empreendimento, mas fizeram tijolo para servir em lugar de pedra, e lodo, ou betume, em lugar de argamassa. Veja aqui:
(1.) Que expedientes arranjam os que estão resolutos nos seus propósitos: se fôssemos zelosamente afeiçoados ao que é bom, não pararíamos a nossa obra tantas vezes quanto paramos, alegando que nos faltam as comodidades para levá-la adiante.
(2.) Que diferença há entre o construir dos homens e o de Deus; quando os homens constroem a sua Babel, tijolo e lodo são os seus melhores materiais.
Mas, quando Deus edifica a sua Jerusalém, ele assenta até os fundamentos dela com safiras, e todos os seus limites com pedras aprazíveis, Isaías 54:11, 12; Apocalipse 21:19.
- Com que fins construíram:
Alguns pensam que pretendiam com isso se assegurar contra as águas de outro dilúvio. Deus lhes tinha dito, de fato, que não afogaria o mundo outra vez; mas eles confiariam antes numa torre feita por eles do que numa promessa feita por Deus, ou numa arca por ele determinada.
Se, porém, tivessem isso em vista, teriam escolhido construir a sua torre sobre um monte, e não sobre uma planície; mas três coisas, ao que parece, eles miravam ao construir esta torre:
(1.) Parece destinada a uma afronta ao próprio Deus; pois construiriam uma torre “cujo topo chegasse até o céu”, o que denota um desafio a Deus, ou pelo menos uma rivalidade com ele.
Queriam ser como o Altíssimo, ou chegar tão perto dele quanto pudessem, não em santidade, mas em altura.
Esqueceram-se do seu lugar e, desdenhando rastejar sobre a terra, resolveram subir ao céu, não pela porta nem pela escada, mas por algum outro caminho.
(2.) Esperavam com isso fazer para si um nome; queriam fazer algo de que se falasse então, e dar a conhecer à posteridade que houvera no mundo homens como eles.
Em vez de morrer e não deixar nenhum registro atrás de si, deixariam este monumento do seu orgulho, da sua ambição e da sua loucura.
Note: [1.] A busca afetada por honra e renome entre os homens costuma inspirar um estranho ardor por empreendimentos grandes e difíceis, e muitas vezes leva ao que é mau e ofensivo a Deus.
[2.] É justo da parte de Deus sepultar no pó os nomes que são levantados pelo pecado.
Estes construtores de Babel se puseram a grandes e tolos gastos para fazer para si um nome; mas não conseguiram alcançar nem mesmo este ponto, porque não encontramos em nenhuma história o nome de sequer um destes construtores de Babel.
Philo Judæus diz que cada um gravou o seu nome num tijolo, in perpetuam rei memoriam — como memorial perpétuo; contudo nem isso serviu ao propósito deles.
(3.) Fizeram-no para evitar a sua dispersão: “Para que não sejamos espalhados sobre a face da terra.”
“Foi feito” (diz Josephus) “em desobediência àquele mandamento (Gênesis 9:1): ‘Enchei a terra'.”
Deus lhes ordena que se dispersem. “Não”, dizem eles, “não faremos isso; viveremos e morreremos juntos.”
Para esse fim, empenham a si mesmos e uns aos outros neste vasto empreendimento. Para se unirem num só império glorioso, resolvem construir esta cidade e esta torre, para ser a metrópole do seu reino e o centro da sua unidade.
É provável que o bando do ambicioso Nimrode estivesse metido em tudo isso. Ele não podia se contentar com o comando de uma colônia particular, mas mirava a monarquia universal.
Para isso, sob a alegação de se unirem para a segurança comum, ele trama mantê-los num só corpo, para que, tendo-os todos debaixo do seu olho, não deixe de tê-los debaixo do seu poder.
Veja a presunção ousada destes pecadores. Aqui está:
[1.] Uma oposição ousada a Deus: “Vocês serão espalhados”, diz Deus. “Mas não seremos”, dizem eles. Ai daquele que assim contende com o seu Criador.
[2.] Uma competição ousada com Deus. É prerrogativa de Deus ser monarca universal, Senhor de tudo e Rei dos reis; o homem que a isso aspira se atreve a subir ao trono de Deus, que não dará a sua glória a outro.
Versículos 5 a 9
Temos aqui o projeto dos construtores de Babel anulado, e o conselho daqueles homens perversos precipitado por terra, para que o conselho de Deus subsistisse a despeito deles. Eis o que temos:
I. O conhecimento que Deus tomou do plano que estava em andamento: “O Senhor desceu para ver a cidade”, v. 5. É uma expressão à maneira dos homens; ele o conhecia com a mesma clareza e plenitude com que os homens conhecem aquilo que vão até o lugar para ver. Repare:
Antes de dar sentença sobre a causa deles, ele a investigou; porque Deus é incontestavelmente justo e imparcial em todo o seu proceder contra o pecado e contra os pecadores, e não condena ninguém sem ouvi-lo.
Fala-se disso como um ato de condescendência da parte de Deus, reparar até mesmo neste edifício, de que os empreendedores tanto se orgulhavam; porque ele se humilha para observar os negócios, mesmo os mais importantes, deste mundo inferior, Salmos 113:6.
Diz-se que era “a torre que os filhos dos homens edificavam”, o que dá a entender:
(1.) A fraqueza e a fragilidade deles como homens. Foi coisa muito tola, para filhos dos homens, vermes da terra, desafiar o Céu e provocar o Senhor a ciúmes. Serão eles mais fortes do que ele?
(2.) A pecaminosidade deles e a sua exposição ao castigo. Eram os filhos de Adão, é assim que está no hebraico; mais que isso: daquele Adão, aquele Adão pecador e desobediente, cujos filhos são por natureza “filhos da desobediência”, “filhos corruptores”.
(3.) A diferença entre eles e os filhos de Deus, os que professam a religião, dos quais estes construtores atrevidos tinham se separado, edificando esta torre para sustentar e perpetuar a separação.
O piedoso Héber não se encontra nesta corja ímpia; porque ele e os seus são chamados de filhos de Deus, e por isso as suas almas não entram no conselho secreto, nem se unem à assembleia destes filhos dos homens.
II. Os conselhos e as resoluções do Deus Eterno acerca desta matéria. Ele não desceu apenas como espectador, mas como juiz, como príncipe, para olhar para estes homens soberbos e abatê-los, Jó 40:11-14. Repare:
- Ele permitiu que avançassem bastante no seu empreendimento antes de detê-lo, para que tivessem prazo para se arrepender e, se lhes restasse alguma reflexão, se envergonhassem da obra e se cansassem dela por conta própria.
E, se não fosse assim, para que a sua frustração fosse ainda mais vergonhosa, e todo o que passasse pudesse rir deles, dizendo: “Estes homens começaram a edificar e não foram capazes de acabar”.
Assim as obras das suas mãos, das quais prometiam a si mesmos honra imortal, se voltariam para a sua perpétua desonra.
Note: Deus tem fins sábios e santos ao permitir que os inimigos da sua glória levem os seus projetos ímpios bem longe, e prosperem por muito tempo nos seus empreendimentos.
- Quando eles, com muito cuidado e muito trabalho, tinham feito progresso considerável na sua construção, então Deus determinou desfazer os seus planos e dispersá-los. Repare:
(1.) A justiça de Deus, que aparece nas considerações sobre as quais ele procedeu nesta resolução, v. 6. Duas coisas ele considerou:
[1.] A unidade deles, como razão pela qual tinham de ser espalhados: “Eis que o povo é um só, e todos têm uma só língua.”
“Se continuarem sendo um só, grande parte da terra ficará desabitada; o poder do seu príncipe logo se tornará exorbitante; a maldade e a profanidade grassarão de modo insuportável, porque uns fortalecerão nisso as mãos dos outros.”
“E, o que é pior de tudo, haverá um desequilíbrio em prejuízo da igreja, e estes filhos dos homens, se assim incorporados, engolirão o pequeno remanescente dos filhos de Deus.” Por isso está decretado que eles não devem ser um só.
Note: a unidade é medida de prudência, mas não é a marca infalível de uma igreja verdadeira.
Mas, enquanto os construtores de Babel, de famílias, temperamentos e interesses diferentes, eram unânimes em se opor a Deus, que pena e vergonha ver os construtores de Sião, unidos numa mesma cabeça e num mesmo Espírito, divididos, como estão, no serviço de Deus! Mas não se admire com isso. Cristo não veio trazer paz.
[2.] A obstinação deles: “Agora nada lhes será refreado”; e esta é a razão pela qual tinham de ser contrariados e frustrados no seu intento.
Deus tinha tentado, com os seus mandamentos e as suas advertências, afastá-los deste projeto, mas em vão; por isso teve de tomar outro caminho com eles. Veja aqui:
Primeiro, a pecaminosidade do pecado e a teimosia dos pecadores. Desde que Adão não quis ser refreado da árvore proibida, a sua descendência não santificada tem sido impaciente com todo freio e pronta a se rebelar contra ele.
Segundo, veja a necessidade dos juízos de Deus sobre a terra, para manter o mundo em alguma ordem e para atar as mãos dos que não se deixam conter pela lei.
(2.) A sabedoria e a misericórdia de Deus nos métodos adotados para derrotar este empreendimento (v. 7): “Eia, desçamos, e confundamos ali a sua língua”.
Isto não foi dito aos anjos, como se Deus precisasse do conselho ou do auxílio deles, mas Deus o diz a si mesmo, ou o Pai ao Filho e ao Espírito Santo.
Eles disseram: “Eia, façamos tijolos”, e “Eia, edifiquemos uma torre”, animando-se uns aos outros para a tentativa; e agora Deus diz: “Eia, confundamos a sua língua”; porque, se os homens se incitam ao pecado, Deus se incitará a tomar vingança, Isaías 59:17, 18. Repare aqui:
[1.] A misericórdia de Deus, em moderar a pena e não a fazer proporcional à ofensa; porque ele não nos trata segundo os nossos pecados.
Ele não diz: “Desçamos agora com trovões e relâmpagos, e consumamos esses rebeldes num momento”; ou: “Abra-se a terra e engula a eles e à sua construção, e desçam depressa ao inferno os que sobem ao céu pelo caminho errado”.
Não; apenas: “Desçamos e espalhemo-los”. Mereciam a morte, mas são apenas banidos, ou degredados; porque a paciência de Deus é grandíssima para com um mundo provocador.
Os castigos estão reservados sobretudo para o estado futuro. Os juízos de Deus sobre os pecadores nesta vida, comparados com os que estão reservados, pouco mais são do que freios.
[2.] A sabedoria de Deus, em escolher um expediente eficaz para deter o andamento da obra, que foi confundir a língua deles, “para que não entendam a fala um do outro”; nem podiam bem dar-se as mãos, estando as suas línguas divididas.
De modo que este seria um método muito próprio tanto para afastá-los da sua construção — pois, se não podiam entender-se uns aos outros, não podiam ajudar-se uns aos outros — quanto para dispô-los a se espalhar; porque, quando não podiam entender-se uns aos outros, não podiam ter prazer uns nos outros.
Note: Deus tem meios diversos, e eficazes, para frustrar e derrotar os projetos dos homens soberbos que se levantam contra ele, e em especial para dividi-los entre si, quer dividindo os seus ânimos (Juízes 9:23), quer dividindo as suas línguas, como Davi ora, Salmos 55:9.
III. A execução destes conselhos de Deus, para malograr e derrotar os conselhos dos homens, v. 8, 9. Deus lhes fez saber qual palavra subsistiria, a dele ou a deles, como diz a expressão, Jeremias 44:28.
Apesar da sua unidade e da sua obstinação, Deus foi forte demais para eles, e “naquilo em que agiram com soberba, ele foi superior a eles”; porque quem jamais endureceu o coração contra ele e prosperou? Três coisas foram feitas:
- A língua deles foi confundida. Deus, que, quando fez o homem, ensinou-o a falar e pôs na sua boca palavras próprias para exprimir as concepções da sua mente, agora fez estes construtores esquecer a língua anterior e falar e entender uma nova.
Ela era, no entanto, comum aos da mesma tribo ou família, mas não aos demais: os de uma colônia podiam se comunicar entre si, mas não com os de outra.
(1.) Ora, isto foi um grande milagre, e uma prova do poder que Deus tem sobre as mentes e as línguas dos homens, que ele volta como os ribeiros de águas.
(2.) Isto foi um grande juízo sobre estes construtores; porque, ficando assim privados do conhecimento da língua antiga e santa, tornaram-se incapazes de se comunicar com a verdadeira igreja, na qual ela se conservava, e provavelmente isso contribuiu muito para que perdessem o conhecimento do verdadeiro Deus.
(3.) Todos nós sofremos com isso, até hoje. Em todos os incômodos que suportamos pela diversidade de línguas, e em todo o esforço e o trabalho que nos custa aprender as línguas de que precisamos, pagamos caro pela rebelião dos nossos antepassados em Babel.
Mais que isso: aquelas controvérsias infelizes que são contendas de palavras, e nascem de entendermos mal a língua uns dos outros, pelo que sei se devem a esta confusão de línguas.
(4.) O projeto de alguns de formar um sistema universal de caracteres, com vistas a uma língua universal, por mais desejável que pareça, é, penso eu, coisa vã de se tentar; porque é lutar contra uma sentença divina, pela qual as línguas das nações estarão divididas enquanto o mundo durar.
(5.) Podemos lamentar aqui a perda do uso universal da língua hebraica, que, deste tempo em diante, foi a língua comum apenas dos hebreus, e assim continuou até o cativeiro na Babilônia, onde, mesmo entre eles, foi trocada pelo siríaco.
(6.) Assim como a confusão das línguas dividiu os filhos dos homens e os espalhou, também o dom de línguas, concedido aos apóstolos (Atos 2), contribuiu grandemente para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos, e para uni-los em Cristo, para que com um só ânimo e uma só boca glorifiquem a Deus, Romanos 15:6.
- A construção deles foi interrompida: “cessaram de edificar a cidade”. A confusão das línguas teve esse efeito: não só os incapacitou de se ajudarem, como provavelmente abateu tanto o ânimo deles que não puderam prosseguir, pois viam nisso a mão do Senhor levantada contra eles. Note:
(1.) É sabedoria abandonar aquilo que vemos que Deus combate.
(2.) Deus é capaz de malograr e reduzir a nada todas as invenções e os planos dos construtores de Babel. Ele se assenta nos céus e ri dos conselhos dos reis da terra contra ele e contra o seu ungido, e há de forçá-los a confessar que “não há sabedoria nem conselho contra o Senhor”, Provérbios 21:30; Isaías 8:9, 10.
- Os construtores foram espalhados sobre a face de toda a terra, v. 8, 9. Partiram em grupos, “segundo as suas famílias e segundo as suas línguas” (Gênesis 10:5, 20, 31), para os diversos países e lugares que lhes tinham sido destinados na divisão já feita.
Eles já conheciam essa divisão, mas não quiseram ir tomar posse dela até agora, que foram forçados a isso. Repare aqui:
(1.) Justamente aquilo que temiam veio sobre eles. A dispersão que procuraram evitar por um ato de rebelião foi a que trouxeram sobre si por esse mesmo ato; porque é justamente na dificuldade que procuramos evitar por meios tortuosos e pecaminosos que mais facilmente caímos.
(2.) Era obra de Deus: “o Senhor os espalhou”. A mão de Deus deve ser reconhecida em todas as providências que espalham; se a família é espalhada, se os parentes são espalhados, se as igrejas são espalhadas, é obra do Senhor.
(3.) Ainda que estivessem tão firmemente ligados uns aos outros quanto era possível, o Senhor os espalhou; porque ninguém pode manter unido o que Deus quer separar.
(4.) Assim Deus justamente tomou vingança deles pela sua unidade naquela tentativa presunçosa de construir a torre. Dispersões vergonhosas são o justo castigo de uniões pecaminosas. Simeão e Levi, que tinham sido irmãos na iniquidade, foram divididos em Jacó, Gênesis 49:5, 7; Salmos 83:3-13.
(5.) Deixaram atrás de si um memorial perpétuo da sua desonra, no nome dado ao lugar. Foi chamado de Babel, confusão. Os que visam a um grande nome comumente saem com um nome ruim.
(6.) Os filhos dos homens foram então finalmente espalhados, e nunca mais se reuniram todos, nem jamais se reunirão, até o grande dia, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória e todas as nações forem reunidas diante dele, Mateus 25:31, 32.
Versículos 10 a 26
Temos aqui uma genealogia, não uma genealogia interminável, porque aqui ela termina em Abrão, o amigo de Deus, e leva adiante a Cristo, a semente prometida, que foi o filho de Abrão; e é de Abrão que se conta a genealogia de Cristo (Mateus 1:1, etc.).
De modo que, juntando Gênesis 5, Gênesis 11 e Mateus 1, você tem uma genealogia de Jesus Cristo tão completa como não se pode apresentar, que eu saiba, a respeito de nenhuma pessoa no mundo fora da linhagem dele, e a tamanha distância da nascente.
E, pondo estas três genealogias lado a lado, encontraremos que duas vezes dez, e três vezes catorze, gerações, ou descendências, se passaram entre o primeiro e o segundo Adão, deixando claro a respeito de Cristo que ele não era só o Filho de Abraão, mas o Filho do homem, e a semente da mulher. Repare aqui:
- Nada ficou registrado a respeito dos que estão nesta linhagem senão os nomes e as idades deles; o Espírito Santo parece apressar-se por entre eles até a história de Abrão.
Como sabemos pouco daqueles que nos precederam neste mundo, até mesmo dos que viveram nos mesmos lugares em que vivemos, assim como também sabemos pouco dos que são nossos contemporâneos em lugares distantes!
Temos bastante que fazer em cuidar da obra do nosso próprio dia, e deixar a cargo de Deus requerer aquilo que já passou, Eclesiastes 3:15.
- Houve uma diminuição gradual perceptível nos anos de vida deles.
Sem chegou aos 600 anos, o que ainda assim ficava aquém da idade dos patriarcas antes do dilúvio; os três seguintes não chegaram a 500; os três seguintes não alcançaram 300; depois deles não lemos de nenhum que tenha atingido 200, exceto Terá.
E, poucas eras depois disso, Moisés contava setenta, ou oitenta, como o máximo a que os homens ordinariamente chegam.
Quando a terra começou a ser repovoada, a vida dos homens começou a encurtar; de modo que a diminuição deve ser atribuída à sábia disposição da Providência, e não a alguma decadência da natureza.
Por causa dos eleitos, os dias dos homens são encurtados; e, sendo maus, é bom que sejam poucos e não alcancem os anos das vidas dos nossos pais, Gênesis 47:9.
- Héber, de quem os hebreus receberam o nome, foi o que mais viveu entre todos os que nasceram depois do dilúvio, o que talvez tenha sido a recompensa da sua piedade singular e da sua estrita adesão aos caminhos de Deus.
Versículos 27 a 32
As Gerações de Terá. (a.C. 1921.)
Aqui começa a história de Abrão, cujo nome é famoso, daqui em diante, em ambos os Testamentos. Temos aqui:
I. A terra dele: Ur dos caldeus. Esta era a terra do seu nascimento, uma terra idólatra, onde até os próprios filhos de Héber tinham degenerado.
Repare: aqueles que são, pela graça, herdeiros da terra da promessa devem lembrar qual era a terra do seu nascimento, qual era o seu estado corrupto e pecaminoso por natureza, a rocha de que foram cortados.
II. Os parentes dele, mencionados por causa dele e pela parte que têm na história que segue:
- O pai dele era Terá, de quem se diz (Josué 24:2) que serviu a outros deuses, do outro lado do rio; tão cedo a idolatria ganhou pé no mundo, e tão difícil é, mesmo para os que têm alguns bons princípios, nadar contra a corrente.
Diz-se (v. 26) que, quando Terá tinha setenta anos, gerou Abrão, Naor e Harã, o que parece nos dizer que Abrão foi o filho mais velho de Terá e nasceu no septuagésimo ano dele.
Ainda assim, comparando o v. 32 (Terá morreu aos 205 anos) com Atos 7:4 (a partida ocorreu depois da morte de Terá) e Gênesis 12:4 (Abrão tinha 75 anos ao sair de Harã), parece que Abrão nasceu no ano 130 de Terá e provavelmente era o filho mais novo; pois, nas escolhas de Deus, os últimos muitas vezes são os primeiros, e os primeiros, os últimos.
- Temos algum relato dos irmãos dele:
(1.) Naor, de cuja família tanto Isaque quanto Jacó tiraram as suas esposas.
(2.) Harã, o pai de Ló, de quem aqui se diz (v. 28) que morreu antes de seu pai Terá.
Repare: os filhos não podem ter certeza de que sobreviverão aos seus pais; porque a morte não vai por antiguidade, levando primeiro o mais velho. A sombra da morte é sem nenhuma ordem, Jó 10:22.
Também se diz que ele morreu em Ur dos caldeus, antes da feliz saída da família daquela terra idólatra.
Repare: importa que nos apressemos a sair do nosso estado natural, para que a morte não nos surpreenda nele.
- A esposa dele era Sarai, que alguns pensam ser a mesma que Iscá, a filha de Harã. O próprio Abrão diz dela que era filha de seu pai, mas não filha de sua mãe, Gênesis 20:12. Ela era dez anos mais nova que Abrão.
III. A saída dele de Ur dos caldeus, com seu pai Terá, seu sobrinho Ló e o restante da sua família, em obediência ao chamado de Deus, do qual leremos mais a partir de Gênesis 12:1.
Este capítulo os deixa em Harã, ou Charrã, um lugar mais ou menos a meio caminho entre Ur e Canaã, onde habitaram até que Terá fosse posto na sepultura, provavelmente porque o velho não podia, pelas enfermidades da idade, prosseguir na sua viagem.
Muitos chegam a Charrã e mesmo assim ficam aquém de Canaã; não estão longe do reino de Deus e, mesmo assim, nunca chegam lá.