Gênesis 10
Argumento
Este capítulo mostra mais em particular o que foi dito de modo geral (Gênesis 9:19) a respeito dos três filhos de Noé, que “deles foi toda a terra povoada”; e o fruto daquela bênção (Gênesis 9:1, 7): “enchei a terra”.
É o único relato seguro que existe sobre a origem das nações; e, no entanto, talvez não haja nação alguma, a não ser a dos judeus, que possa ter certeza de qual destas setenta fontes (pois são tantas as que aqui aparecem) tira as suas correntes.
Pela falta de registros antigos, pelas misturas de povos, pelas revoluções das nações e pela distância do tempo, perdeu-se o conhecimento da descendência linear dos atuais habitantes da terra.
Nem se preservou genealogia alguma senão a dos judeus, por causa do Messias. Contudo, neste capítulo temos um breve relato:
I. Da posteridade de Jafé, vv. 2-5.
II. Da posteridade de Cam (vv. 6-20), com atenção especial a Nimrode, vv. 8-10.
III. Da posteridade de Sem, a partir do v. 21.
Versículos 1 a 5
As Gerações de Noé. (a.C. 2347.)
Moisés começa pela família de Jafé, ou porque ele era o mais velho, ou porque a família dele era a mais distante de Israel e a que menos tinha a ver com eles na época em que Moisés escreveu.
Por isso menciona aquela raça muito brevemente, apressando-se em dar o relato da posteridade de Cam, que eram inimigos de Israel, e da de Sem, que eram antepassados de Israel.
Pois a Escritura foi feita para narrar a história da igreja; das nações do mundo, trata apenas na medida em que, de um modo ou de outro, se relacionavam com Israel e tinham parte nos assuntos dele. Repare:
Nota-se que os filhos de Noé tiveram filhos depois do dilúvio, para reparar e reconstruir o mundo dos homens que o dilúvio arruinara. Aquele que havia matado agora vivifica.
À posteridade de Jafé coube por quinhão “as ilhas dos gentios” (v. 5), que lhes foram repartidas solenemente, por sorte, depois de um levantamento, e provavelmente esta nossa ilha entre as demais.
Todos os lugares que ficam além do mar, a partir da Judeia, são chamados ilhas (Jeremias 25:22), e isto nos orienta a entender aquela promessa (Isaías 42:4), “as ilhas aguardarão a sua lei”, como referida à conversão dos gentios à fé de Cristo.
Versículos 6 a 14
O que nestes versículos se pode observar e aproveitar é o relato que aqui é dado de Nimrode, vv. 8-10. Ele é apresentado aqui como um grande homem no seu tempo: “Ele começou a ser poderoso na terra”.
Isto é: os que vieram antes dele se contentavam em ficar no mesmo nível dos vizinhos e, embora cada um governasse na própria casa, ninguém pretendia governar além dela.
A mente ambiciosa de Nimrode não podia parar aí. Ele estava resolvido a se elevar acima dos vizinhos, não só a ser eminente entre eles, mas a dominá-los.
O mesmo espírito que movia os gigantes de antes do dilúvio (que se tornaram “poderosos, homens de renome”, Gênesis 6:4) reviveu agora nele. Tão depressa se esqueceu aquele juízo tremendo que o orgulho e a tirania daqueles poderosos trouxeram sobre o mundo.
Note que há alguns em quem a ambição e a pretensão ao domínio parecem estar entranhadas nos ossos. Sempre houve e sempre haverá gente assim, apesar da ira de Deus muitas vezes revelada do céu contra eles.
Nada aquém do inferno humilhará e quebrará o espírito soberbo de certos homens, nisto semelhantes a Lúcifer, Isaías 14:14, 15. Pois bem:
I. Nimrode foi um grande caçador. Com isso começou, e por isso ficou famoso a ponto de virar provérbio. Todo grande caçador, em lembrança dele, é chamado de Nimrode.
Alguns pensam que ele fez bem com a sua caça: serviu ao seu país livrando-o das feras que o infestavam, e assim se insinuou no afeto dos vizinhos e chegou a ser príncipe deles. Os que exercem autoridade ou são, ou ao menos querem ser chamados, benfeitores, Lucas 22:25.
Outros pensam que, sob o pretexto de caçar, ele reunia homens sob o seu comando, em perseguição de outra caça que tinha em vista: fazer-se senhor do país e trazê-los à sujeição.
Ele foi um poderoso caçador, isto é, foi um invasor violento dos direitos e das propriedades dos vizinhos, e um perseguidor de homens inocentes, arrastando tudo diante de si e procurando fazer tudo seu pela força e pela violência.
Ele se julgava um príncipe poderoso, mas diante do Senhor (isto é, na conta de Deus) não passava de um poderoso caçador. Note que os grandes conquistadores não passam de grandes caçadores.
Alexandre e César não fariam na história da Escritura a figura que fazem na história comum; o primeiro é representado na profecia apenas como um bode que investe, Daniel 8:5.
Nimrode foi um poderoso caçador contra o Senhor, como diz a LXX, isto é:
(1.) Ele estabeleceu a idolatria, como Jeroboão fez, para confirmar o domínio que havia usurpado. Para instalar um novo governo, instalou uma nova religião sobre as ruínas da constituição primitiva de ambos. Babel foi a mãe das prostitutas.
Ou, (2.) Ele levou adiante a sua opressão e a sua violência em desafio ao próprio Deus, afrontando o céu com as suas impiedades.
Era como se ele e os seus caçadores pudessem desafiar o Todo-Poderoso com bravata e fossem páreo para o Senhor dos exércitos e para todos os exércitos dele. Como se fosse coisa pequena cansar os homens, ele pensa em cansar também o meu Deus, Isaías 7:13.
II. Nimrode foi um grande governante: “O princípio do seu reino foi Babel”, v. 10. De um modo ou de outro, por artes ou por armas, ele chegou ao poder, ou por ter sido escolhido para ele, ou por abrir caminho à força.
E assim lançou os fundamentos de uma monarquia que depois foi cabeça de ouro e terror dos poderosos, e que prometia tornar-se universal.
Não parece que ele tivesse qualquer direito de governar por nascimento; mas ou a sua aptidão para governar o recomendou, como alguns pensam, a uma eleição, ou por poder e astúcia ele subiu gradualmente, e talvez imperceptivelmente, ao trono.
Veja a antiguidade do governo civil, e em particular daquela forma dele que deposita a soberania numa só pessoa.
Se Nimrode e os seus vizinhos deram início a isso, outras nações logo aprenderam a se reunir sob uma só cabeça para a segurança e o bem-estar comuns; e isso, seja lá como tenha começado, foi bênção tão grande para o mundo que se tinha por muito mau estado de coisas quando não havia rei em Israel.
III. Nimrode foi um grande construtor. Provavelmente foi ele o arquiteto na construção de Babel, e ali começou o seu reino.
Mas quando o seu projeto de governar todos os filhos de Noé foi frustrado pela confusão das línguas, “daquela terra saiu para a Assíria” (assim lê a margem, v. 11) e edificou Nínive, etc., para que, tendo construído essas cidades, pudesse comandá-las e dominá-las.
Repare, em Nimrode, na natureza da ambição:
Ela não tem limites. Quem tem muito quer mais, e clama continuamente: “Dá, dá.”
Ela é inquieta. Nimrode, quando tinha quatro cidades sob o seu comando, não conseguiu se contentar enquanto não tivesse mais quatro.
Ela é dispendiosa. Nimrode prefere arcar com o custo de erguer cidades a não ter a honra de governá-las. O ímpeto de construir é o efeito comum de um espírito de orgulho.
Ela é ousada e não recua diante de nada. O nome de Nimrode significa rebelião, o que (se de fato ele abusou do seu poder para oprimir os vizinhos) nos ensina que os tiranos para com os homens são rebeldes para com Deus, e a rebelião deles é “como o pecado de feitiçaria”.
Versículos 15 a 20
Observe aqui:
- O relato da posteridade de Canaã, das famílias e das nações que dele descenderam e da terra que possuíram, é mais detalhado do que o de qualquer outro neste capítulo, porque estas eram as nações que deviam ser subjugadas diante de Israel, e a terra delas viria a ser, com o tempo, a terra santa, a terra de Emanuel.
E foi nisso que Deus pôs os olhos quando, nesse meio-tempo, lançou a sorte daquela raça maldita e votada à destruição naquele pedaço de chão que ele havia selecionado para o seu próprio povo.
Moisés chama atenção para isso, Deuteronômio 32:8: “Quando o Altíssimo dividiu às nações a sua herança, fixou os limites dos povos segundo o número dos filhos de Israel.”
- Por este relato parece que a posteridade de Canaã era numerosa, rica e situada de modo muito agradável; e no entanto Canaã estava debaixo de uma maldição, uma maldição divina, e não uma maldição sem causa.
Repare: aqueles que estão debaixo da maldição de Deus talvez possam, ainda assim, prosperar e crescer muito neste mundo; porque não podemos conhecer o amor ou o ódio, a bênção ou a maldição, pelo que está diante de nós, mas pelo que está dentro de nós, Eclesiastes 9:1.
A maldição de Deus sempre age de fato e sempre age de modo terrível; mas talvez seja uma maldição secreta, uma maldição para a alma, que não age de modo visível, ou uma maldição lenta, que não age de imediato; mas os pecadores ficam por ela reservados e obrigados a comparecer a um dia de ira.
Canaã tem aqui uma terra melhor do que a de Sem ou a de Jafé, mas estes receberam quinhão melhor, pois herdam a bênção.
Versículos 21 a 32
Duas coisas em especial são observáveis neste relato da posteridade de Sem:
I. A descrição de Sem, v. 21. Temos não só o seu nome, Sem, que significa um nome, mas dois títulos que o distinguem:
- Ele era “o pai de todos os filhos de Héber”. Héber era seu bisneto; mas por que haveria de ser chamado o pai de todos os filhos dele, e não dos de Arfaxade, ou dos de Salá, etc.?
Provavelmente porque Abraão e a sua semente, o povo da aliança de Deus, não só descenderam de Héber, mas dele foram chamados hebreus; Gênesis 14:13, “Abrão, o hebreu”. Paulo considerava privilégio seu ser “hebreu de hebreus”, Filipenses 3:5.
O próprio Héber, podemos supor, foi um homem eminente na religião num tempo de apostasia geral, e um grande exemplo de piedade para a sua família.
E, sendo a língua santa comumente chamada de hebraica por causa dele, é provável que ele a tenha conservado na sua família, na confusão de Babel, como sinal especial do favor de Deus para com ele; e dele os que professavam a religião foram chamados os filhos de Héber.
Ora, quando o escritor inspirado quer dar a Sem um título honroso, chama-o o pai dos hebreus. Ainda que, quando Moisés escreveu isto, eles fossem um povo pobre e desprezado, escravos no Egito, mesmo assim, sendo o povo de Deus, era honra para um homem ser aparentado com eles.
Assim como Cam, embora tivesse muitos filhos, é renegado ao ser chamado o pai de Canaã, sobre cuja semente ficou vinculada a maldição (Gênesis 9:22), também Sem, embora tivesse muitos filhos, é dignificado com o título de pai de Héber, sobre cuja semente ficou vinculada a bênção.
Repare: uma família de santos é mais verdadeiramente honrosa que uma família de nobres; a semente santa de Sem, mais que a semente real de Cam; os doze patriarcas de Jacó, mais que os doze príncipes de Ismael, Gênesis 17:20. A bondade é a verdadeira grandeza.
- Ele era “o irmão de Jafé, o mais velho”. Por aí parece que, embora Sem seja comumente posto em primeiro lugar, não era ele o primogênito de Noé, mas Jafé era o mais velho.
Mas por que isto também haveria de entrar como parte do título e da descrição de Sem, que ele era o irmão de Jafé, se, na prática, já se tinha dito isso muitas vezes antes? E não era ele igualmente irmão de Cam?
Provavelmente a intenção era assinalar a união dos gentios com os judeus na igreja. O historiador sagrado tinha mencionado como honra de Sem o fato de ser ele o pai dos hebreus.
Mas, para que a semente de Jafé não fosse por isso tida como excluída para sempre da igreja, ele nos lembra aqui que Sem era irmão de Jafé, não só no nascimento, mas na bênção; porque Jafé havia de habitar nas tendas de Sem. Repare:
(1.) São irmãos da melhor maneira aqueles que o são pela graça, e que se encontram na aliança de Deus e na comunhão dos santos.
(2.) Deus, ao dispensar a sua graça, não se guia pela ordem de nascimento, mas o mais novo às vezes toma a dianteira do mais velho na entrada para a igreja; assim “os últimos serão os primeiros, e os primeiros os últimos”.
II. A razão do nome de Pelegue (v. 25): “porque nos seus dias” (isto é, por volta do tempo do seu nascimento, quando lhe foi dado o nome) “foi a terra dividida” entre os filhos dos homens que haviam de habitá-la:
Ou quando Noé a dividiu por uma distribuição ordenada dela, como Josué dividiu a terra de Canaã por sorte; ou quando, diante da recusa deles em acatar essa divisão, Deus, com justiça, os dividiu pela confusão das línguas.
Qualquer que tenha sido a ocasião, o piedoso Héber viu motivo para perpetuar a lembrança disso no nome do seu filho. E com justiça podem os nossos filhos ser chamados pelo mesmo nome, porque nos nossos dias, em outro sentido, está a terra, a igreja, dividida da maneira mais lamentável.