Gálatas 2
Argumento
O apóstolo, neste capítulo, continua o relato da sua vida e conduta passadas, que havia começado no anterior; e, por alguns exemplos ulteriores do que se passara entre ele e os outros apóstolos, mostra que não lhes devia nem o seu conhecimento do evangelho nem a sua autoridade como apóstolo, como os seus adversários insinuariam.
Mas, pelo contrário, que era reconhecido e aprovado até por eles, como tendo comissão igual à deles para esse ofício:
I. Ele os informa particularmente de outra jornada que fez a Jerusalém muitos anos depois da anterior e de como se comportou naquele tempo, vv. 1-10. E:
II. Dá-lhes um relato de outro encontro que teve com o apóstolo Pedro em Antioquia e de como foi obrigado a comportar-se para com ele ali.
Do assunto daquela conversa, prossegue discorrendo sobre a grande doutrina da justificação pela fé em Cristo, sem as obras da lei, que era o principal desígnio dessa epístola estabelecer, e sobre a qual se estende mais nos dois capítulos seguintes.
Versículos 1 a 10
A Jornada de Paulo a Jerusalém; A Decisão e Fidelidade de Paulo. (d.C. 56.)
Ao que parece, pelo relato que Paulo dá de si mesmo neste capítulo, desde a primeira pregação e estabelecimento do cristianismo havia diferença de compreensão entre aqueles cristãos que antes haviam sido judeus e os que antes haviam sido gentios.
Muitos dos que antes haviam sido judeus retinham consideração pela lei cerimonial e contendiam para manter a sua reputação; mas os que antes haviam sido gentios não tinham consideração pela lei de Moisés, mas tomavam o cristianismo puro como aperfeiçoamento da religião natural e resolviam aderir a ele.
Pedro era o apóstolo deles; e a lei cerimonial, embora morta com Cristo, contudo, não estando ainda sepultada, ele fazia vista grossa ao respeito mantido por ela. Mas Paulo era o apóstolo dos gentios; e, embora fosse hebreu dos hebreus, contudo, aderia ao cristianismo puro.
Agora, neste capítulo, nos diz o que se passou entre ele e os outros apóstolos, e particularmente entre ele e Pedro a esse respeito.
Nesses versículos, nos informa de outra jornada que fez a Jerusalém e do que se passou entre ele e os outros apóstolos ali, vv. 1-10. Aqui nos informa:
I. De algumas circunstâncias relativas a essa sua jornada até lá. Como particularmente:
- Do seu tempo: que não foi senão catorze anos depois da anterior (mencionada em Gálatas 1:18), ou, como outros preferem entendê-lo, desde a sua conversão ou desde a morte de Cristo. Era exemplo da grande bondade de Deus que pessoa tão útil fosse preservada por tantos anos na sua obra.
E era alguma evidência de que não dependia dos outros apóstolos, mas tinha autoridade igual à deles, estar por tanto tempo ausente deles e continuamente empregado em pregar e propagar o cristianismo puro, sem ser questionado por eles a esse respeito.
Podemos pensar que teria sido questionado se fosse inferior a eles e a sua doutrina desaprovada por eles.
- Dos seus companheiros nela: subiu com Barnabé e levou consigo Tito também. Se a jornada aqui mencionada era a mesma registrada em Atos 15 (como muitos pensam), então temos motivo claro por que Barnabé foi com ele; pois foi escolhido pelos cristãos em Antioquia para ser seu companheiro e associado na questão de que ia tratar.
Mas, assim como não parece que Tito fosse posto na mesma comissão com ele, assim o principal motivo de levá-lo consigo parece ter sido deixar os de Jerusalém ver que não estava nem envergonhado nem com medo de reconhecer a doutrina que havia pregado continuamente.
Pois, embora Tito houvesse agora se tornado não somente convertido à fé cristã, mas pregador dela também, contudo, era por nascimento gentio e incircunciso; e, por isso, fazendo dele seu companheiro, ficava claro que a doutrina e prática deles eram concordes.
E que, assim como pregara a não necessidade da circuncisão e de observar a lei de Moisés, assim estava pronto a reconhecer e ter comunhão com os incircuncisos.
- Do seu motivo, que era uma revelação divina que tivera acerca dela: subiu por revelação; não por conta própria, muito menos como convocado a comparecer ali, mas por ordem e orientação especiais do Céu.
Era privilégio com que esse apóstolo frequentemente era favorecido estar sob orientação divina especial nos seus movimentos e empreendimentos.
E, embora isso seja o que não temos motivo para esperar, contudo, deveria nos ensinar, em tudo de importância que empreendemos, a procurar, tanto quanto somos capazes, ver o nosso caminho tornado claro diante de nós e nos entregar à condução da Providência.
II. Ele nos dá um relato do seu comportamento enquanto esteve em Jerusalém, que era tal que mostrava não ser de modo algum inferior aos outros apóstolos, mas que tanto a sua autoridade quanto qualificações eram em todos os aspectos iguais às deles. Ele nos informa particularmente:
- Que ali lhes comunicou o evangelho que pregava entre os gentios, mas em particular, etc. Aqui podemos observar tanto a fidelidade quanto a prudência do nosso grande apóstolo:
(1.) A sua fidelidade em lhes dar um relato livre e justo da doutrina que continuamente havia pregado entre os gentios e continuava resolvido a pregar: a do cristianismo puro, livre de todas as misturas do judaísmo.
Sabia que essa era uma doutrina desagradável a muitos ali e, contudo, não tinha medo de reconhecê-la, mas de maneira livre e amigável a expõe diante deles e lhes deixa julgar se era ou não o verdadeiro evangelho de Cristo. E, contudo:
(2.) Usa prudência e cautela nisso, por medo de causar ofensa. Prefere fazê-lo de maneira mais particular do que pública, e aos que tinham reputação, isto é, aos próprios apóstolos ou aos principais entre os cristãos judeus, em vez de mais abertamente e indiscriminadamente a todos.
Porque, quando foi a Jerusalém, havia multidões que criam e, contudo, continuavam zelosas pela lei, Atos 21:20. E o motivo dessa sua cautela era para que não corresse ou tivesse corrido em vão, para que não suscitasse oposição contra si mesmo e assim ou diminuísse o êxito dos seus trabalhos passados ou obstruísse a sua utilidade futura.
Pois nada impede mais o progresso do evangelho do que diferenças de opinião acerca das suas doutrinas, especialmente quando ocasionam desavenças e disputas entre os que o professam, como fazem demasiado usualmente.
Bastava ao seu propósito ter a sua doutrina reconhecida pelos de maior autoridade, fosse ela aprovada pelos outros ou não. E, por isso, para evitar ofensa, julga mais seguro comunicá-la em particular a eles, e não em público à igreja inteira.
Essa conduta do apóstolo pode ensinar a todos, e especialmente aos ministros, quanta necessidade têm de prudência e quão cuidadosos deveriam ser em usá-la em todas as ocasiões, tanto quanto é compatível com a sua fidelidade.
- Que na sua prática aderiu firmemente à doutrina que havia pregado. Paulo era homem de resolução e aderiria aos seus princípios; e, por isso, embora tivesse Tito consigo, que era grego, contudo, não queria permitir que fosse circuncidado, porque não queria trair a doutrina de Cristo como a havia pregado aos gentios.
Não parece que os apóstolos de modo algum insistissem nisso; pois, embora fizessem vista grossa ao uso da circuncisão entre os convertidos judeus, contudo, não favoreciam impô-la aos gentios.
Mas havia outros que o faziam, a quem o apóstolo aqui chama falsos irmãos, e acerca dos quais nos informa que foram introduzidos sem que se percebesse, isto é, na igreja ou na companhia deles.
E que vieram somente espiar a liberdade deles que tinham em Cristo Jesus, ou ver se Paulo se levantaria em defesa daquela liberdade da lei cerimonial que ensinara como doutrina do evangelho e representara como privilégio dos que abraçaram a religião cristã.
O seu desígnio nisso era trazê-los à servidão, o que teriam realizado se pudessem ter conseguido o ponto que visavam; pois, se tivessem conseguido que Paulo e os outros apóstolos circuncidassem Tito, facilmente teriam imposto a circuncisão a outros gentios e assim os teriam trazido sob a servidão da lei de Moisés.
Mas Paulo, vendo o seu desígnio, de modo algum cederia a eles; não daria lugar por sujeição, não, nem mesmo por uma hora, não nesse único exemplo; e o motivo era que a verdade do evangelho continuasse com eles.
Que os cristãos gentios, e particularmente os gálatas, a tivessem preservada para eles pura e inteira, e não corrompida com as misturas do judaísmo, como teria sido se tivesse cedido nessa questão.
A circuncisão era naquele tempo coisa indiferente, e aquilo a que em alguns casos se podia conformar sem pecado; e, de acordo com isso, encontramos até o próprio Paulo às vezes cedendo a ela, como no caso de Timóteo, Atos 16:3.
Mas, quando se insiste nela como necessária, e a sua anuência, embora somente num único exemplo, provavelmente será aproveitada como apoio a tal imposição, ele tem preocupação grande demais pela pureza e liberdade do evangelho para se submeter a ela.
Não cederia aos que favoreciam os ritos e cerimônias mosaicos, mas permaneceria firme na liberdade com que Cristo nos tornou livres.
Essa sua conduta pode nos dar ocasião de observar que aquilo a que, sob algumas circunstâncias, se pode conformar licitamente, contudo, quando não pode ser feito sem trair a verdade ou abandonar a liberdade do evangelho, deve ser recusado.
- Que, embora conversasse com os outros apóstolos, contudo, não recebeu deles nenhum acréscimo ao seu conhecimento ou autoridade, v. 6. Pelos que pareciam ser alguma coisa, quer dizer os outros apóstolos, particularmente Tiago, Pedro e João, que depois menciona pelo nome, v. 9.
E acerca desses concede que merecidamente eram tidos em reputação por todos, que eram considerados (e justamente também) pilares da igreja, postos não somente para o seu ornamento, mas para o seu apoio.
E que, por alguns motivos, podiam parecer ter vantagem sobre ele, por terem visto Cristo na carne, o que ele não vira, e serem apóstolos antes dele, sim, e ainda, mesmo enquanto continuava perseguidor.
Mas, contudo, fossem o que fossem, isso não lhe importava. Não prejudicava ser igualmente apóstolo com eles; pois Deus não aceita as pessoas dos homens por causa de quaisquer vantagens exteriores assim. Assim como os chamara a esse ofício, assim estava em liberdade de qualificar outros para ele e empregá-los nele.
E ficava evidente nesse caso que assim fizera; pois no colóquio nada lhe acrescentaram, nada lhe disseram senão o que antes sabia por revelação, nem podiam objetar contra a doutrina que lhes comunicava.
Daí parecia que de modo algum era inferior a eles, mas tão chamado e qualificado a ser apóstolo quanto eles próprios eram.
- Que o resultado dessa conversa foi que os outros apóstolos ficaram plenamente convencidos da sua missão e autoridade divinas e, de acordo com isso, o reconheceram como seu companheiro apóstolo, vv. 7-10.
Estavam não somente satisfeitos com a sua doutrina, mas viam poder divino acompanhando-o, tanto ao pregá-la quanto ao operar milagres para a sua confirmação: que aquele que operava eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão era o mesmo poderoso nele para com os gentios.
E daí justamente concluíram que o evangelho da incircuncisão fora confiado a Paulo, como o evangelho da circuncisão a Pedro.
E, por isso, percebendo a graça que lhe fora dada (que era destinado à honra e ofício de apóstolo assim como eles próprios), deram a ele e Barnabé a mão direita de comunhão, símbolo pelo qual reconheciam a igualdade deles com os outros apóstolos.
E concordaram que esses fossem aos pagãos, enquanto eles continuavam a pregar à circuncisão, julgando mais de acordo com a mente de Cristo e mais conducente ao interesse do cristianismo dividir assim a sua obra.
E assim esse encontro terminou em inteira harmonia e acordo; aprovaram tanto a doutrina quanto a conduta de Paulo, estavam plenamente satisfeitos nele, abraçaram-no de coração como apóstolo de Cristo e nada tinham de ulterior a acrescentar, somente que se lembrassem dos pobres, o que por sua própria vontade ele estava muito pronto a fazer.
Os cristãos da Judeia estavam naquele tempo sob grandes carências e dificuldades; e os apóstolos, por compaixão por eles e preocupação por eles, recomendam o seu caso a Paulo, para que usasse a sua influência com as igrejas gentias para obter suprimento para eles.
Era um pedido razoável; pois, se os gentios foram feitos participantes das suas coisas espirituais, era seu dever ministrar-lhes em coisas carnais, como em Romanos 15:27.
E muito prontamente concorda com ele, mostrando assim a sua disposição caridosa e universal: quão pronto estava a reconhecer os convertidos judeus como irmãos, embora muitos deles mal pudessem consentir favor semelhante aos gentios convertidos.
E que mera diferença de opinião não era motivo para ele deixar de procurar socorrê-los e ajudá-los. Nisso nos deu excelente modelo de caridade cristã e nos ensinou que de modo algum deveríamos confiná-la aos que têm exatamente os mesmos sentimentos que nós.
Mas estar prontos a estendê-la a todos que temos motivo para considerar discípulos de Cristo.
Versículos 11 a 21
Pedro Censurado por Paulo. (d.C. 56.)
I. Pelo relato que Paulo dá do que se passou entre ele e os outros apóstolos em Jerusalém, os gálatas podiam facilmente discernir tanto a falsidade do que os seus inimigos haviam insinuado contra ele quanto a sua própria insensatez e fraqueza em se afastarem daquele evangelho que lhes havia pregado.
Mas, para dar maior peso ao que já havia dito e mais plenamente fortalecê-los contra as insinuações dos mestres judaizantes, informa-os de outro encontro que teve com o apóstolo Pedro em Antioquia e do que se passou entre eles ali, vv. 11-14.
Antioquia era uma das principais igrejas dos cristãos gentios, como Jerusalém era daqueles cristãos que passaram do judaísmo à fé de Cristo. Não há aparência de motivo para a suposição de que Pedro fosse bispo de Antioquia.
Se tivesse sido, certamente Paulo não lhe teria resistido na sua própria igreja, como aqui encontramos que fez; mas, pelo contrário, aqui se fala de uma visita ocasional que fez até lá.
No seu outro encontro, houvera boa harmonia e acordo. Pedro e os outros apóstolos haviam tanto reconhecido a comissão de Paulo quanto aprovado a sua doutrina, e se separaram muito bons amigos.
Mas neste Paulo se vê obrigado a opor-se a Pedro, pois era culpável, evidência clara de que não era inferior a ele e, por consequência, da fraqueza da alegação do papa à supremacia e infalibilidade como sucessor de Pedro. Aqui podemos observar:
- A falta de Pedro. Quando foi para junto das igrejas gentias, conformou-se a elas e comeu com elas, embora não fossem circuncidadas, de acordo com as instruções que lhe foram dadas particularmente (Atos 10), quando foi avisado pela visão celestial a não chamar nada comum ou impuro.
Mas, quando vieram alguns cristãos judeus de Jerusalém, tornou-se mais esquivo dos gentios, somente para satisfazer o capricho dos da circuncisão e por medo de lhes causar ofensa, o que sem dúvida foi para grande dor e desânimo das igrejas gentias. Então se retirou e se separou.
A sua falta nisso teve má influência sobre outros, pois os outros judeus também dissimularam com ele; embora antes pudessem estar mais bem dispostos, contudo, agora, pelo seu exemplo, assumiram escrúpulos de comer com os gentios e alegaram não poder fazê-lo em consciência, porque os gentios não eram circuncidados.
E (vocês acreditariam?) o próprio Barnabé, um dos apóstolos dos gentios e alguém que fora instrumento em plantar e regar as igrejas dos gentios, foi levado pela dissimulação deles. Aqui repare:
(1.) A fraqueza e inconstância dos melhores homens, quando deixados a si mesmos, e quão aptos são a vacilar no seu dever para com Deus por indevida consideração em agradar aos homens. E:
(2.) A grande força dos maus exemplos, especialmente os exemplos de grandes homens e homens bons, tais que têm reputação de sabedoria e honra.
- A repreensão que Paulo lhe deu pela sua falta. Apesar do caráter de Pedro, contudo, quando o observa assim se comportando para grande prejuízo tanto da verdade do evangelho quanto da paz da igreja, não teme censurá-lo por isso.
Paulo aderia resolutamente aos seus princípios quando outros vacilavam nos seus; era tão bom judeu quanto qualquer um deles (pois era hebreu dos hebreus), mas engrandeceria o seu ofício como apóstolo dos gentios e, por isso, não queria vê-los desanimados e pisados.
Quando viu que não andavam retamente, segundo a verdade do evangelho, que não viviam à altura daquele princípio que o evangelho ensinava e que haviam professado reconhecer e abraçar, a saber, que pela morte de Cristo o muro divisório entre judeu e gentio fora derrubado e a observância da lei de Moisés não mais estava em vigor:
Quando observou isso, assim como a ofensa de Pedro era pública, assim publicamente o censurou por ela. Disse-lhe diante de todos eles: “Se tu, sendo judeu, vives à maneira dos gentios, e não como os judeus, por que obrigas os gentios a viver como os judeus?”
Nisso uma parte da sua conduta era contradição à outra; pois, se ele, que era judeu, podia ele próprio às vezes dispensar o uso da lei cerimonial e viver à maneira dos gentios, isso mostrava que não considerava a sua observância continuamente necessária, até para os próprios judeus.
E, por isso, que não podia, de acordo com a sua própria prática, impô-la aos cristãos gentios. E, contudo, Paulo o acusa disso; sim, e ainda, o representa como obrigando os gentios a viver como os judeus.
Não por força e violência declaradas, mas essa era a tendência do que fazia; pois era, na prática, significar isto: que os gentios deviam conformar-se aos judeus, ou então não serem admitidos à comunhão cristã.
II. Paulo, tendo assim estabelecido o seu caráter e ofício e suficientemente mostrado que não era inferior a nenhum dos apóstolos, não, nem mesmo ao próprio Pedro, pelo relato da censura que lhe deu aproveita a ocasião para falar daquela grande doutrina fundamental do evangelho.
Que a justificação é somente pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei (embora alguns pensem que tudo que diz até o fim do capítulo é o que disse a Pedro em Antioquia); doutrina que condenava Pedro por se conformar aos judeus.
Pois, se era princípio da sua religião que o evangelho é instrumento da nossa justificação, e não a lei, então agia muito mal ao favorecer os que mantinham a lei e favoreciam misturá-la com a fé na questão da nossa justificação.
Essa era a doutrina que Paulo havia pregado entre os gálatas, à qual continuamente aderia e que é a sua grande ocupação nesta epístola mencionar e confirmar. Agora, acerca disso Paulo nos informa:
- Da prática dos próprios cristãos judeus: “Nós”, diz ele, “que somos judeus por natureza, e não pecadores dos gentios” (até nós, que nascemos e fomos criados na religião judaica, e não entre os gentios impuros).
Sabendo que um homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé de Jesus Cristo, até nós próprios cremos em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei.
“E, se julgamos necessário buscar justificação pela fé de Cristo, por que então nos embaraçaríamos com a lei? Para que cremos em Cristo? Não foi para sermos justificados pela fé de Cristo?”
“E, se assim é, não é insensatez voltar à lei e esperar ser justificados ou pelo mérito das obras morais ou pela influência de quaisquer sacrifícios ou purificações cerimoniais?”
“E, se seria errado em nós, judeus por natureza, retornar à lei e esperar justificação por ela, não seria muito mais exigir isso dos gentios, que nunca foram sujeitos a ela, visto que pelas obras da lei nenhuma carne será justificada?”
Para dar maior peso a isso, acrescenta (v. 17): “Mas, se, enquanto buscamos ser justificados por Cristo, nós próprios também somos encontrados pecadores, é Cristo ministro do pecado?”
“Se, enquanto buscamos justificação somente por Cristo e ensinamos outros a fazê-lo, nós próprios somos encontrados favorecendo ou consentindo o pecado, ou antes somos considerados pecadores dos gentios e tais que não é apropriado ter comunhão com eles a menos que também observemos a lei de Moisés, é Cristo ministro do pecado?”
“Não decorrerá que o é, se nos envolver em receber uma doutrina que dá liberdade ao pecado, ou pela qual estamos tão longe de ser justificados que permanecemos pecadores impuros e impróprios para se ter comunhão conosco?”
Isso, indica, seria a consequência, mas o rejeita com horror: “Deus não permita”, diz ele, “que nutramos tal pensamento de Cristo ou da sua doutrina: que assim nos dirija a um caminho de justificação defeituoso e ineficaz.”
“E deixe os que o abraçam continuamente injustificados, ou que dê o menor ânimo ao pecado e aos pecadores.” Isso seria muito desonroso a Cristo e muito injurioso a eles também.
“Pois”, diz ele (v. 18), “se edifico novamente as coisas que destruí”; se eu (ou qualquer outro), que ensinei que a observância da lei mosaica não é necessária à justificação, agora por palavra ou prática ensinasse ou indicasse que é necessária: “Faço de mim mesmo transgressor”.
“Reconheço ser continuamente pecador impuro e permanecer sob a culpa do pecado apesar da minha fé em Cristo; ou estarei sujeito a ser acusado de engano e prevaricação, e de agir inconsistentemente comigo mesmo.”
Assim o apóstolo argumenta pela grande doutrina da justificação pela fé sem as obras da lei a partir dos princípios e prática dos próprios cristãos judeus e das consequências que acompanhariam o seu afastamento dela.
Daí parecia que Pedro e os outros judeus estavam muito errados em recusar-se a compartilhar com os cristãos gentios e procurar trazê-los sob a servidão da lei.
- Ele nos informa quais eram o seu próprio parecer e prática:
(1.) Que estava morto para a lei. Fosse qual fosse a consideração que outros tivessem por ela, contudo, da sua parte estava morto para ela. Sabia que a lei moral denunciava uma maldição contra todos que não continuam em todas as coisas escritas nela para fazê-las.
E, por isso, estava morto para ela quanto a toda esperança de justificação e salvação por esse caminho. E, quanto à lei cerimonial, também sabia que estava agora antiquada e substituída pela vinda de Cristo; e, por isso, tendo vindo a substância, não tinha mais nenhuma consideração pela sombra.
Estava assim morto para a lei pela própria lei; ela se revelava estar no fim. Considerando a própria lei, via que não se devia esperar justificação pelas suas obras (visto que ninguém podia cumprir perfeita obediência a ela).
E que não havia agora necessidade ulterior dos seus sacrifícios e purificações, visto que foram eliminados em Cristo e um fim lhes foi posto por ele oferecer a si mesmo como sacrifício em nosso favor.
E, por isso, quanto mais a examinava, mais via que não havia ocasião para manter aquela consideração por ela que os judeus defendiam. Mas, embora estivesse assim morto para a lei, contudo, não se considerava sem lei.
Renunciara a todas as esperanças de justificação pelas suas obras e não estava disposto a continuar mais sob a sua servidão; mas estava longe de pensar-se dispensado do seu dever para com Deus; pelo contrário, estava morto para a lei para viver para Deus.
A doutrina do evangelho, que abraçara, em vez de enfraquecer o vínculo do dever sobre ele, somente o fortalecia e confirmava mais; e, por isso, embora estivesse morto para a lei, contudo, era somente para viver uma vida nova e melhor para Deus (como em Romanos 7:4, 6).
Uma vida que fosse mais de acordo e aceitável a Deus do que a sua observância da lei mosaica podia ser agora, isto é, vida de fé em Cristo e, sob a sua influência, de santidade e justiça para com Deus. De acordo com isso, ele nos informa:
(2.) Que, assim como estava morto para a lei, assim estava vivo para Deus por Jesus Cristo (v. 20): “Estou crucificado com Cristo”, etc. E aqui na sua própria pessoa nos dá excelente descrição da vida misteriosa de um crente:
[1.] Está crucificado e, contudo, vive; o velho homem está crucificado (Romanos 6:6), mas o novo homem está vivendo; está morto para o mundo e morto para a lei e, contudo, vivo para Deus e Cristo; o pecado é mortificado e a graça vivificada.
[2.] Vive e, contudo, não ele. Isso é estranho: Vivo e, contudo, não eu; vive no exercício da graça; tem os confortos e os triunfos da graça; e, contudo, essa graça não vem dele próprio, mas de outro. Os crentes se veem vivendo em estado de dependência.
[3.] Está crucificado com Cristo e, contudo, Cristo vive nele; isso resulta da sua união mística com Cristo, pela qual participa da morte de Cristo, para, por virtude dela, morrer para o pecado; e, contudo, participa da vida de Cristo, para, por virtude dela, viver para Deus.
[4.] Vive na carne e, contudo, vive pela fé; na aparência exterior vive como outras pessoas, a sua vida natural é sustentada como a dos outros; contudo, tem princípio mais elevado e nobre que o sustenta e move: o da fé em Cristo, e especialmente olhando as maravilhas do seu amor ao se dar em favor dele.
Daí vem que, embora viva na carne, contudo, não vive segundo a carne. Repare: Os que têm verdadeira fé vivem por essa fé; e a grande coisa a que a fé se prende é Cristo nos amar e se dar em nosso favor.
A grande evidência de Cristo nos amar é se dar em nosso favor; e é com isso que principalmente nos preocupamos em misturar a fé para vivermos para ele.
Por último, o apóstolo encerra esse discurso informando-nos que, pela doutrina da justificação pela fé em Cristo sem as obras da lei (que afirmava e outros contrariavam), evitava duas grandes dificuldades de que a opinião contrária estava carregada:
Que não frustrava a graça de Deus, o que a doutrina da justificação pelas obras da lei fazia; pois, como argumenta (Romanos 11:6), “Se é de obras, não é mais de graça”.
Que não frustrava a morte de Cristo; ao passo que, se a justiça vem pela lei, então deve decorrer que Cristo morreu em vão; pois, se buscamos salvação pela lei de Moisés, então tornamos desnecessária a morte de Cristo.
Pois para que propósito seria designado a morrer, se pudéssemos ter sido salvos sem ela?