Matthew Henry

Filipenses 2

Argumento

O apóstolo prossegue com exortações ulteriores a diversos deveres: à unanimidade e à humildade de espírito, que ele insiste em recomendar a partir do exemplo de Cristo (vv. 1-11), à diligência e à seriedade no percurso cristão (v. 12, 13) e ao adorno da sua profissão cristã com diversas graças apropriadas, vv. 14-18.

Ele então conclui reparando particularmente em dois bons ministros e elogiando-os, Timóteo e Epafrodito, que ele tinha o desígnio de lhes enviar, vv. 19-30.

Versículos 1 a 11

O Amor Fraternal Recomendado; Glória e Condescendência de Cristo. (d.C. 62.)

O apóstolo prossegue neste capítulo de onde parou no anterior, com exortações ulteriores aos deveres cristãos. Ele insiste longamente com eles na unanimidade e na humildade de espírito, em conformidade com o exemplo do Senhor Jesus, o grande modelo de humildade e amor. Aqui podemos observar:

I. O grande preceito do evangelho imposto a nós, isto é, amar uns aos outros. Esta é a lei do reino de Cristo, a lição da sua escola, a libré da sua família. Ele o representa (v. 2) por serem unânimes, terem o mesmo amor, serem de comum acordo, de uma só mente.

Somos de uma mente semelhante quando temos o mesmo amor. Os cristãos devem ser um no afeto, quer possam ser um no entendimento, quer não. Isto está sempre ao seu alcance e é sempre seu dever, e é o caminho mais provável para aproximá-los na opinião.

Terem o mesmo amor. Observe: o mesmo amor que se exige que expressemos aos outros, os outros estão obrigados a expressar a nós. O amor cristão deve ser amor mútuo. Ame, e você será amado.

Serem de comum acordo e de uma só mente; sem se oporem e se contrariarem, ou levarem adiante interesses separados, mas concordando unanimemente nas grandes coisas de Deus e mantendo a unidade do Espírito nas outras diferenças. Observe aqui:

  1. A insistência comovente no dever. Ele é muito insistente com eles, sabendo que isso é uma evidência da nossa sinceridade e um meio de preservação e edificação do corpo de Cristo. Os incentivos ao amor fraternal são estes:

(1.) Se há alguma consolação em Cristo. Vocês experimentaram consolação em Cristo? Evidenciem essa experiência amando uns aos outros. A doçura que encontramos na doutrina de Cristo deve adoçar os nossos espíritos.

Esperamos consolação em Cristo? Se não quisermos ser decepcionados, precisamos amar uns aos outros. Se não temos consolação em Cristo, onde mais podemos esperá-la?

Os que têm participação em Cristo têm consolação nele, consolação forte e eterna (Hebreus 6:18; 2 Tessalonicenses 2:16), e por isso devem amar uns aos outros.

(2.) Conforto do amor. Se há algum conforto no amor cristão, no amor de Deus por vocês, no seu amor por Deus, ou no amor dos seus irmãos por nós, em consideração a tudo isto, sejam unânimes.

Se vocês alguma vez encontraram esse conforto, se quiserem encontrá-lo, se de fato creem que a graça do amor é uma graça confortadora, abundem nela.

(3.) Comunhão do Espírito. Se existe comunhão com Deus e Cristo pelo Espírito, se existe comunhão dos santos, em virtude de serem animados e movidos por um só e mesmo Espírito, sejam unânimes.

Pois o amor cristão e a unanimidade nos preservarão a nossa comunhão com Deus e uns com os outros.

(4.) Algum afeto íntimo e misericórdias, em Deus e Cristo, para com vocês. Se esperam para vocês mesmos o benefício das compaixões de Deus, sejam compassivos uns com os outros.

Se existe misericórdia a ser encontrada entre os seguidores de Cristo, se todos os que são santificados têm disposição para a santa piedade, façam-na aparecer desta maneira.

Como são convincentes estas razões! Seria de pensar que bastassem para domar o coração mais feroz e abrandar o mais duro.

(5.) Outra razão que ele insinua é o conforto que isto lhe daria: Completem a minha alegria. A alegria dos ministros é ver as pessoas unânimes e vivendo em amor. Ele tinha sido instrumento para levá-los à graça de Cristo e ao amor de Deus.

Agora, diz ele, se vocês encontraram algum benefício na sua participação do evangelho de Cristo, se têm algum conforto nele, ou vantagem por ele, completem a alegria do seu pobre ministro, que lhes pregou o evangelho.

  1. Ele propõe alguns meios para promovê-lo:

(1.) Não façam nada por contenda e vanglória, v. 3. Não há maior inimigo do amor cristão do que o orgulho e a paixão.

Se fazemos coisas em contradição aos nossos irmãos, isto é fazê-las por contenda. Se as fazemos por ostentação de nós mesmos, isto é fazê-las por vanglória: ambos destroem o amor cristão e acendem ardores contrários ao cristianismo.

Cristo veio abater todas as inimizades; por isso, que não haja entre os cristãos um espírito de oposição. Cristo veio nos humilhar, e por isso que não haja entre nós um espírito de orgulho.

(2.) Devemos estimar os outros, em humildade de espírito, como melhores do que nós mesmos, ser severos com as nossas próprias falhas e caridosos nos nossos julgamentos dos outros.

Devemos ser rápidos em observar os nossos próprios defeitos e fraquezas, mas prontos a passar por cima dos defeitos dos outros e fazer-lhes concessões favoráveis.

Devemos estimar o bem que há nos outros acima do que há em nós mesmos; pois conhecemos melhor a nossa própria indignidade e as nossas imperfeições.

(3.) Devemos nos interessar pelas questões dos outros, sem curiosidade e espírito de censura, ou como intrometidos nos assuntos alheios, mas com amor cristão e simpatia: “Não olhe cada um para as suas próprias coisas, mas cada um também para as coisas dos outros”, v. 4.

Um espírito egoísta destrói o amor cristão. Devemos nos ocupar não apenas do nosso próprio crédito, sossego e segurança, mas também do crédito, sossego e segurança dos outros. E alegrar-nos com a prosperidade dos outros na verdade tanto quanto com a nossa própria. Devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos, e fazer do seu caso o nosso próprio.

II. Aqui está um modelo do evangelho proposto à nossa imitação, e é o exemplo do nosso Senhor Jesus Cristo: “Haja em vós esta mente, que estava também em Cristo Jesus”, v. 5. Observe: os cristãos precisam ter a mente de Cristo.

Precisamos trazer uma semelhança com a sua vida, se quisermos ter o benefício da sua morte. Se não temos o Espírito de Cristo, não somos dele, Romanos 8:9.

Ora, qual era a mente de Cristo? Ele era eminentemente humilde, e isto é o que devemos aprender dele de modo peculiar. “Aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração”, Mateus 11:29.

Se fôssemos humildes de espírito, seríamos unânimes; e, se fôssemos semelhantes a Cristo, seríamos humildes de espírito.

Precisamos andar no mesmo espírito e nos mesmos passos que o Senhor Jesus, que se humilhou aos sofrimentos e à morte em nosso favor. Não apenas para satisfazer a justiça de Deus e pagar o preço da nossa redenção, mas para nos dar um exemplo, e para que pudéssemos seguir os seus passos.

Ora, aqui temos as duas naturezas e os dois estados do nosso Senhor Jesus. É observável que o apóstolo, tendo ocasião de mencionar o Senhor Jesus e a mente que estava nele, aproveita a indicação para se alongar sobre a sua pessoa e dar uma descrição particular dele.

É um assunto agradável, e um ministro do evangelho não precisa pensar que está fora do caminho quando o trata; qualquer ocasião apropriada deve ser prontamente aproveitada.

  1. Aqui estão as duas naturezas de Cristo: a sua natureza divina e a sua natureza humana:

(1.) Aqui está a sua natureza divina: “O qual, estando na forma de Deus” (v. 6), participando da natureza divina, como o Filho eterno e unigênito de Deus.

Isto concorda com João 1:1: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus”. Tem o mesmo significado que ser “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15), e “o brilho da sua glória e a imagem expressa da sua pessoa”, Hebreus 1:3.

Ele não considerou roubo ser igual a Deus; não se considerou culpado de qualquer invasão do que não lhe pertencia, ou de assumir o direito de outro. Ele disse: “Eu e meu Pai somos um”, João 10:30.

É o mais alto grau de roubo qualquer mero homem ou mera criatura alegar ser igual a Deus, ou professar ser um com o Pai. Isto é um homem roubar a Deus, não nos dízimos e ofertas, mas nos direitos da sua Divindade, Malaquias 3:8.

Alguns entendem estar na forma de Deus, en morphe Theou hyparchon, como a sua aparição em uma glória divinamente majestosa aos patriarcas e aos judeus, sob o Antigo Testamento, que era frequentemente chamada de glória e de Shechiná.

A palavra é usada nesse sentido pela LXX e no Novo Testamento. Ele apareceu aos dois discípulos, en hetera morphe, “em outra forma”, Marcos 16:12. Metemorphothe, ele foi transfigurado diante deles, Mateus 17:2.

E ele não considerou roubo ser igual a Deus; não se apegou avidamente àquela glória, nem a cobiçou nem quis aparecer nela. Ele pôs de lado a majestade da sua aparição anterior enquanto estava aqui na terra, o que se supõe ser o sentido da expressão peculiar ouk harpagmon hegesato.

Veja a Def. do bispo Bull, cap. 2, seção 4 et alibi, e Whitby in loc.

(2.) A sua natureza humana: Ele foi feito à semelhança dos homens e encontrado em aspecto como um homem. Ele era realmente e na verdade homem, participou da nossa carne e sangue, apareceu na natureza e na aparência de homem.

E ele assumiu voluntariamente a natureza humana; foi seu próprio ato e por sua própria anuência. Não podemos dizer que a nossa participação na natureza humana seja assim.

Nisto ele se esvaziou, despojou-se das honras e glórias do mundo superior e da sua aparição anterior, para se vestir com os trapos da natureza humana. Ele foi em todas as coisas semelhante a nós, Hebreus 2:17.

  1. Aqui estão os seus dois estados, de humilhação e exaltação:

(1.) O seu estado de humilhação. Ele não apenas tomou sobre si a semelhança e o aspecto de um homem, mas a forma de um servo, isto é, um homem de condição modesta.

Ele não era apenas o servo de Deus que este tinha escolhido, mas veio servir aos homens, e estava entre eles como alguém que serve numa condição modesta e servil.

Seria de pensar que o Senhor Jesus, se quisesse ser um homem, deveria ter sido um príncipe e aparecido em esplendor. Mas foi bem o contrário: Ele tomou sobre si a forma de um servo. Foi criado modestamente, provavelmente trabalhando com seu suposto pai no ofício deste.

Toda a sua vida foi uma vida de humilhação, condição modesta, pobreza e desonra. Ele não tinha onde deitar a sua cabeça, vivia de esmolas, era um homem de tristezas e familiarizado com a dor, não apareceu com pompa exterior ou quaisquer sinais de distinção dos outros homens.

Esta foi a humilhação da sua vida. Mas o degrau mais baixo da sua humilhação foi morrer a morte da cruz. Ele se tornou obediente até a morte, até a morte da cruz.

Ele não apenas sofreu, mas foi efetiva e voluntariamente obediente; obedeceu à lei sob a qual se colocou como Mediador e pela qual estava obrigado a morrer.

Tenho poder para entregar a minha vida, e tenho poder para tomá-la novamente: este mandamento recebi do meu Pai, João 10:18. E ele foi feito sob a lei, Gálatas 4:4.

Dá-se ênfase ao modo da sua morte, que tinha em si todas as circunstâncias possíveis que humilham: até a morte da cruz, uma morte maldita, dolorosa e vergonhosa.

Uma morte amaldiçoada pela lei (Maldito aquele que é pendurado numa árvore), cheia de dor, o corpo pregado pelas partes ricas em nervos (as mãos e os pés) e pendurado com todo o seu peso na cruz.

E a morte de um malfeitor e de um escravo, não de um homem livre, exposto como um espetáculo público. Tal foi a condescendência do bendito Jesus.

(2.) A sua exaltação: “Por isso Deus também o exaltou grandemente”. A sua exaltação foi a recompensa da sua humilhação. Porque se humilhou, Deus o exaltou; e o exaltou grandemente, hyperypsose, elevou-o a uma altura extraordinária.

Ele exaltou a sua pessoa inteira, a natureza humana assim como a divina; pois se fala dele como estando na forma de Deus assim como no aspecto de homem.

No que diz respeito à natureza divina, só poderia ser o reconhecimento dos seus direitos, ou a manifestação e a aparição da glória que ele tinha com o Pai antes que o mundo existisse (João 17:5), sem qualquer aquisição nova de glória. E assim se diz que o próprio Pai é exaltado.

Mas a exaltação propriamente dita foi da sua natureza humana, a única que parece ser capaz disto, embora em conjunção com a divina. Faz-se aqui a sua exaltação consistir em honra e poder.

Em honra; assim ele tinha um nome acima de todo nome, um título de dignidade acima de todas as criaturas, homens e anjos. E em poder: todo joelho precisa dobrar-se a ele.

Toda a criação precisa estar sujeita a ele: coisas no céu, coisas na terra e coisas debaixo da terra, os habitantes do céu e da terra, os vivos e os mortos.

Ao nome de Jesus; não ao som da palavra, mas à autoridade de Jesus; todos deveriam prestar uma homenagem solene.

E que toda língua confessasse que Jesus Cristo é Senhor: toda nação e língua deveria reconhecer publicamente o império universal do Redentor exaltado, e que todo poder no céu e na terra lhe é dado, Mateus 28:18.

Observe a vasta extensão do reino de Cristo; ele alcança o céu e a terra, e todas as criaturas em cada um, os anjos assim como os homens, e os mortos assim como os vivos. Para a glória de Deus Pai.

Observe: confessar que Jesus Cristo é Senhor é para a glória de Deus Pai; pois é a sua vontade que todos os homens honrem o Filho como honram o Pai, João 5:23. Qualquer respeito prestado a Cristo redunda na honra do Pai. “Quem me recebe recebe aquele que me enviou”, Mateus 10:40.

Versículos 12 a 13

Religião Prática. (d.C. 62.)

I. Ele os exorta à diligência e à seriedade no percurso cristão: “Realizai a vossa própria salvação”.

É a salvação das nossas almas (1 Pedro 1:9), e a nossa salvação eterna (Hebreus 5:9), e contém a libertação de todos os males que o pecado tinha trazido sobre nós e aos quais nos tinha exposto, e a posse de todo bem e de tudo o que é necessário à nossa felicidade completa e final.

Observe: importa-nos, acima de todas as coisas, assegurar o bem-estar das nossas almas. Aconteça o que acontecer às outras coisas, zelemos pelos nossos melhores interesses. É a nossa própria salvação, a salvação das nossas próprias almas.

Não nos cabe julgar as outras pessoas; temos bastante a fazer para olhar por nós mesmos. E, embora precisemos promover a salvação comum (Judas 1:3) tanto quanto pudermos, contudo não devemos em hipótese alguma negligenciar a nossa própria.

Exige-se que realizemos a nossa salvação, katergazesthe. A palavra significa trabalhar cabalmente numa coisa e empenhar esforços verdadeiros. Observe: precisamos ser diligentes no uso de todos os meios que conduzem à nossa salvação.

Não devemos apenas trabalhar na nossa salvação, fazendo algo a respeito dela de vez em quando. Mas precisamos realizar a nossa salvação, fazendo tudo o que deve ser feito e perseverando nisto até o fim.

A salvação é a grande coisa a que devemos atentar e na qual devemos pôr o nosso coração; e não podemos alcançar a salvação sem o máximo zelo e diligência.

Ele acrescenta: “Com temor e tremor”, isto é, com grande cuidado e circunspecção: tremendo de medo de fracassarem e ficarem aquém.

Sejam cuidadosos em fazer tudo na religião da melhor maneira, e temam que, sob todas as suas vantagens, vocês cheguem até mesmo a parecer ficar aquém, Hebreus 4:1. O temor é uma grande guarda e preservação contra o mal.

II. Ele insiste nisto pela consideração da sua prontidão em obedecer sempre ao evangelho: “Como sempre obedecestes, não somente na minha presença, mas agora muito mais na minha ausência”, v. 12.

Vocês sempre estiveram dispostos a cumprir cada revelação da vontade de Deus; e isto na minha ausência assim como na minha presença. Vocês fazem aparecer que a consideração por Cristo e o cuidado pelas suas almas têm mais influência sobre vocês do que qualquer modo de mostrar respeito, seja qual for.

Eles não eram meramente intimidados pela presença do apóstolo, mas o faziam até muito mais na sua ausência. E, porque é Deus quem opera em vocês, realizem a sua salvação. Trabalhem, pois ele opera.

Isto deveria nos animar a fazer o máximo, porque o nosso trabalho não será em vão. Deus está pronto a juntar-se com a sua graça e auxiliar os nossos esforços fiéis.

Observe: embora precisemos empregar os nossos máximos esforços para realizar a nossa salvação, contudo precisamos continuamente sair e prosseguir em dependência da graça de Deus.

A sua graça opera em nós de maneira apropriada às nossas naturezas, e em conjunto com os nossos esforços. E as operações da graça de Deus em nós estão tão longe de dispensar os nossos esforços que têm por intenção avivá-los e empenhá-los.

E realizem a nossa salvação com temor e tremor, pois ele opera em vocês. Todo o nosso operar depende do seu operar em nós.

Não brinquem com Deus por negligências e demoras, para que não o provoquem a retirar o seu auxílio, e todos os seus esforços se mostrem em vão. Trabalhem com temor, pois ele opera segundo a sua boa vontade.

Querer e fazer: ele dá toda a capacidade. A graça de Deus inclina a vontade para o que é bom. E então nos capacita a executá-lo e a agir segundo os nossos princípios. “Tu operaste todas as nossas obras em nós”, Isaías 26:12.

Segundo a sua boa vontade. Assim como não há força em nós, assim não há mérito em nós. Assim como não podemos agir sem a graça de Deus, assim não podemos reivindicá-la, nem alegar merecê-la.

A boa vontade de Deus para conosco é a causa da sua boa obra em nós; e ele não tem compromissos com as suas criaturas, exceto os da sua promessa graciosa.

Versículos 14 a 18

Religião Prática. (d.C. 62.)

O apóstolo os exorta nestes versículos a adornar a sua profissão cristã com um temperamento e comportamento apropriados, em diversos casos:

  1. Pela obediência alegre aos mandamentos de Deus (v. 14): façam todas as coisas, cumpram o seu dever em cada um dos seus ramos, sem murmurações. Cumpram-no, e não o critiquem. Atentem para o seu trabalho, e não se desavenham com ele.

Os mandamentos de Deus foram dados para serem obedecidos, não para serem contestados. Isto adorna grandemente a nossa profissão e mostra que servimos a um bom Mestre, cujo serviço é liberdade e cujo trabalho é sua própria recompensa.

  1. Pela disposição pacífica e pelo amor uns aos outros. Façam todas as coisas sem discutir, brigar e debater uns com os outros. Porque a luz da verdade e a vida da religião se perdem frequentemente nos ardores e nas névoas da discussão.

  2. Pela conduta irrepreensível para com todos os homens (v. 15): “Para que sejais irrepreensíveis e inofensivos, os filhos de Deus, sem repreensão”. Para que vocês não sejam injuriosos a ninguém em palavra ou ação, e não deem ocasião justa de ofensa.

Devemos nos esforçar não apenas para ser inofensivos, mas para ser irrepreensíveis; não apenas para não causar prejuízo, mas para não cair sob a suspeita justa disto. Irrepreensíveis e sinceros; assim alguns leem. Irrepreensíveis diante dos homens, sinceros para com Deus.

Os filhos de Deus. Convém serem irrepreensíveis e inofensivos aos que se encontram em tal relação e são favorecidos com tal privilégio. Os filhos de Deus devem diferir dos filhos dos homens.

Sem repreensão, amometa. Momo era uma divindade crítica entre os gregos, mencionada por Hesíodo e Luciano, que nada fazia ele mesmo e criticava todas as pessoas e todas as coisas.

Dele, todos os que criticavam os outros homens, e os censores rígidos das suas obras, eram chamados de Momi. O sentido da expressão é: “Andem tão circunspectamente que o próprio Momo não tenha ocasião de encontrar defeitos em vocês, que o censor mais severo não encontre falha em vocês”.

Devemos almejar e nos esforçar, não apenas para chegar ao céu, mas para chegar lá sem uma mancha; e, como Demétrio, ter um bom testemunho de todos os homens e da verdade, 3 João 1:12.

No meio de uma geração tortuosa e perversa; isto é, entre os pagãos e os que estão de fora. Observe: onde não há verdadeira religião, pouco se deve esperar além de tortuosidade e perversidade.

E quanto mais tortuosos e perversos forem os outros entre os quais vivemos, e quanto mais inclinados a encontrar defeitos, mais cuidadosos devemos ser em nos manter irrepreensíveis e inofensivos.

Abraão e Ló não devem contender, porque o cananeu e o ferezeu habitavam na terra, Gênesis 13:7. “Entre os quais vós brilhais como luzes no mundo.”

Cristo é a luz do mundo, e os bons cristãos são luzes no mundo. Quando Deus suscita um homem bom em qualquer lugar, estabelece uma luz naquele lugar.

Ou pode ser lido no imperativo: entre os quais brilhem vocês como luzes. Compare Mateus 5:16: “Brilhe assim a vossa luz diante dos homens”.

Os cristãos devem se esforçar não apenas para se mostrar aprovados a Deus, mas para se recomendar aos outros, para que estes também possam glorificar a Deus. Precisam brilhar assim como ser sinceros. “Expondo a palavra da vida”, v. 16.

O evangelho é chamado de palavra da vida porque nos revela e propõe a vida eterna por meio de Jesus Cristo. A vida e a imortalidade são trazidas à luz pelo evangelho, 2 Timóteo 1:10.

É nosso dever não apenas reter firmemente, mas expor a palavra da vida; não apenas retê-la firmemente para o nosso próprio benefício, mas expô-la para o benefício dos outros.

Expô-la como o castiçal expõe a vela, que a faz aparecer vantajosamente em toda a volta, ou como os luminares dos céus, que espalham a sua influência por toda parte.

Paulo lhes diz que isto seria a sua alegria: “Para que eu possa alegrar-me no dia de Cristo”. Não apenas alegrar-me com a sua firmeza, mas com a sua utilidade. Ele queria que eles considerassem os esforços de Paulo bem empregados, e que ele não tinha corrido em vão, nem trabalhado em vão. Observe:

(1.) A obra do ministério exige o empenho do homem inteiro: tudo o que há dentro de nós mal basta para ser empregado nela; como no correr e no trabalhar. Correr denota veemência e vigor, e o avançar continuamente insistente; trabalho denota constância e aplicação estreita.

(2.) É uma grande alegria para os ministros quando percebem que não correram em vão, nem trabalharam em vão. E será o seu regozijo no dia de Cristo, quando os seus convertidos serão a sua coroa.

“Qual é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de regozijo? Não sois até mesmo vós na presença do nosso Senhor Jesus Cristo na sua vinda? Pois vós sois a nossa glória e alegria”, 1 Tessalonicenses 2:19, 20.

O apóstolo não apenas correu e trabalhou em favor deles com satisfação, mas mostra que estava pronto a sofrer para o bem deles (v. 17): “Sim, e ainda, se eu for oferecido sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e regozijo-me com todos vós”.

Ele poderia considerar-se feliz se pudesse promover a honra de Cristo, a edificação da igreja e o bem-estar das almas dos homens. Ainda que isso não fosse apenas arriscar a vida, mas entregá-la, ele poderia de boa vontade ser um sacrifício nos altares deles, para servir à fé dos eleitos de Deus.

Paulo poderia pensar que valia a pena derramar o seu sangue pelo serviço da igreja, e nós consideraremos demais empenhar um pouco de esforço? Não vale o nosso trabalho aquilo que ele considerou valer a sua vida?

Se eu for oferecido, ou derramado como o vinho das ofertas de bebida, spendomai. 2 Timóteo 4:6: “Agora estou pronto a ser oferecido”.

Ele poderia alegrar-se em selar a sua doutrina com o seu sangue (v. 18): “Pela mesma causa também vos alegrai e regozijai comigo”.

É a vontade de Deus que os bons cristãos se dediquem muito ao regozijo; e os que são felizes em bons ministros têm muitíssimo motivo para se alegrar e regozijar com eles.

Se o ministro ama as pessoas e está disposto a gastar e ser gasto pelo bem-estar delas, as pessoas têm motivo para amar o ministro e se alegrar e regozijar com ele.

Versículos 19 a 30

Elogio de Timóteo e Epafrodito. (d.C. 62.)

Paulo repara particularmente em dois bons ministros; pois, embora ele mesmo fosse um grande apóstolo e trabalhasse mais abundantemente do que todos eles, contudo aproveitava todas as ocasiões para falar com respeito dos que eram muito inferiores a ele.

I. Ele fala de Timóteo, que pretendia enviar aos filipenses para que pudesse ter um relato do estado deles. Veja o zelo de Paulo pelas igrejas, e o conforto que tinha no bom proceder delas.

Ele sentia sofrimento quando não tinha ouvido notícias deles por um bom tempo, e por isso enviaria Timóteo para perguntar e lhe trazer um relato: “Pois não tenho homem algum unânime, que naturalmente zele pelo vosso estado”.

Timóteo era sem igual. Havia, sem dúvida, muitos bons ministros que tinham zelo pelas almas daqueles aos quais pregavam; mas nenhum comparável a Timóteo, um homem de excelente espírito e coração terno.

“Que naturalmente zele pelo vosso estado”. Observe: estamos melhor quando o nosso dever se torna de certa maneira natural para nós. Timóteo era um filho genuíno do bendito Paulo, e andava no mesmo espírito e nos mesmos passos.

Naturalmente, isto é, sinceramente, e não apenas de fachada: com um coração disposto e uma intenção reta, assim de acordo com a constituição da sua mente. Repare:

  1. É dever dos ministros zelar pelo estado do seu povo e se ocupar do seu bem-estar: “Não busco o que é vosso, mas a vós”, 2 Coríntios 12:14.

  2. É raro encontrar alguém que o faça naturalmente; tal pessoa é notável e distinta entre os seus irmãos. “Todos buscam o seu próprio, não as coisas que são de Jesus Cristo”, v. 21.

Paulo disse isto precipitadamente, como Davi disse: “Todos os homens são mentirosos”? Salmos 116:11. Havia uma corrupção tão geral entre os ministros tão cedo, que não havia um entre eles que zelasse pelo estado do seu povo?

Não devemos entendê-lo assim: ele quer dizer a generalidade; todos, isto é, ou a maioria, ou todos em comparação com Timóteo. Repare: buscar o nosso próprio interesse negligenciando Jesus Cristo é um pecado muito grande, e muito comum entre cristãos e ministros.

Muitos preferem o seu próprio crédito, sossego e segurança à verdade, santidade e dever, as coisas do seu próprio prazer e reputação às coisas do reino de Cristo e da sua honra e interesse no mundo. Mas Timóteo não era um destes. “Conheceis a prova dele”, v. 22.

Timóteo era um homem que tinha sido provado, e tinha dado plena prova do seu ministério (2 Timóteo 4:5), e era fiel em tudo o que lhe acontecia. Todas as igrejas com as quais ele tinha contato conheciam a prova dele.

Era um homem tão bom quanto parecia ser; e servia a Cristo de modo a ser aceitável a Deus e aprovado pelos homens, Romanos 14:18.

Vocês não apenas conhecem o nome dele e o rosto dele, mas a prova dele, e experimentaram o seu afeto e fidelidade no seu serviço, “que, como um filho com um pai, ele serviu comigo no evangelho”.

Era o auxiliar de Paulo em muitos lugares onde este pregava, e servia com ele no evangelho com todo o respeito obediente que um filho presta a um pai, e com todo o amor e disposição alegre com que um filho serve ao seu pai.

Os seus ministérios juntos eram com grande respeito de um lado e grande ternura e bondade do outro, um exemplo admirável para ministros mais velhos e mais jovens unidos no mesmo serviço.

Paulo tinha o desígnio de enviá-lo em breve: “A ele, por isso, espero enviar imediatamente, tão logo eu veja como irá comigo”, v. 23. Ele era agora um prisioneiro, e não sabia qual seria o resultado; mas, conforme o desenrolar, disporia de Timóteo.

Ou melhor: esperava vir ele mesmo (v. 24): “Mas confio no Senhor que eu também virei pessoalmente em breve”. Esperava ser logo posto em liberdade e poder fazer-lhes uma visita. Paulo desejava a sua liberdade para que pudesse fazer o bem, não para que pudesse desfrutar o seu prazer.

Confio no Senhor. Ele expressa a sua esperança e confiança de vê-los, com uma humilde dependência e submissão à vontade divina. Veja Atos 18:21; 1 Coríntios 4:19; Tiago 4:15; Hebreus 6:3.

II. A respeito de Epafrodito, que ele chama de seu irmão, companheiro no trabalho e companheiro de armas, seu irmão cristão, por quem tinha um afeto terno.

Seu companheiro na obra e nos sofrimentos do evangelho, que se submeteu aos mesmos trabalhos e agruras que ele próprio.

E o mensageiro deles, alguém que tinha sido enviado por eles a ele, provavelmente para consultá-lo sobre alguns assuntos relacionados à igreja deles, ou para trazer um presente deles para o seu alívio. Pois ele acrescenta: E que ministrou às minhas carências.

Ele parece ser o mesmo que é chamado Epafras, Colossenses 4:12. Tinha um desejo ardente de vir até eles, e Paulo estava disposto a que viesse. Parece:

  1. Epafrodito tinha estado doente: Tinham ouvido que ele tinha estado doente, v. 26. E de fato estava doente, próximo da morte, v. 27. A doença é uma calamidade comum aos homens, aos homens bons e aos ministros.

Mas por que o apóstolo não o curou, sendo dotado de poder para curar doenças, assim como para ressuscitar os mortos? Atos 20:10.

Provavelmente porque aquilo se destinava a ser um sinal aos outros e a confirmar a verdade do evangelho, e por isso não precisava ser exercido entre eles.

“Estes sinais seguirão os que creem, porão as mãos sobre os doentes, e eles se recuperarão”, Marcos 16:17, 18.

E talvez não tivessem aquele poder em todos os momentos e a seu próprio critério, mas apenas quando algum grande fim devia ser atendido por ele, e quando Deus julgava apropriado. Era próprio de Cristo, que tinha o Espírito acima de medida.

  1. Os filipenses ficaram extremamente entristecidos ao ouvir da sua doença. Ficaram cheios de pesar, assim como ele, com a notícia dela. Pois ele era alguém, parece, por quem tinham um respeito e afeto particulares e que julgaram apropriado escolher para enviar ao apóstolo.

  2. Deus teve por bem recuperá-lo e poupá-lo: “Mas Deus teve misericórdia dele”, v. 27. O apóstolo reconhece que é uma grande misericórdia para ele mesmo, assim como para Epafrodito e outros.

Embora a igreja fosse abençoada naquele tempo com dons extraordinários, mesmo então dificilmente podiam dispensar um bom ministro.

Ele foi sensivelmente tocado pelos pensamentos de tão grande perda: “Para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza”; isto é, “Para que, além da tristeza da minha própria prisão, eu não tivesse a tristeza da morte dele”.

Ou talvez alguns outros bons ministros tivessem morrido recentemente, o que tinha sido uma grande aflição para ele. E, se este tivesse morrido agora, teria sido uma nova dor para ele, e tristeza acrescentada à tristeza.

  1. Epafrodito estava disposto a fazer uma visita aos filipenses, para que pudesse ser confortado com os que tinham se entristecido por ele quando estava doente: para que, quando vocês o virem novamente, possam se alegrar (v. 28).

Para que vocês mesmos possam ver quão bem ele se recuperou e que motivo têm para a gratidão e a alegria por causa dele. Ele se deu o prazer de confortá-los com a visão de um amigo tão querido.

  1. Paulo o recomenda à estima e ao afeto deles: “Recebei-o, por isso, no Senhor com toda alegria, e tende tais pessoas em reputação”.

Considerem valiosos tais homens, que são zelosos e fiéis, e que sejam muito amados e considerados. Mostrem a sua alegria e respeito por todas as expressões de afeto sincero e boa opinião.

Parece que ele tinha contraído a sua doença na obra de Deus: foi pela obra de Cristo que ele esteve próximo da morte, para suprir a falta do serviço deles para com Paulo.

O apóstolo não o culpa pela sua imprudência em arriscar a sua vida, mas considera que eles devem amá-lo tanto mais por causa disto. Observe:

(1.) Os que na verdade amam a Cristo e se empenham de coração nos interesses do seu reino pensarão que vale muito bem a pena arriscar a sua saúde e vida para servi-lo e promover a edificação da sua igreja.

(2.) Eles deviam recebê-lo com alegria, como recém-recuperado da doença. É uma consideração que desperta afeto termos as nossas misericórdias restauradas a nós depois do perigo de remoção, e deve fazê-las ser mais valorizadas e aproveitadas.

O que nos é dado em resposta à oração deve ser recebido com grande gratidão e alegria.


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