Matthew Henry

Ezequiel 46

Argumento

Neste capítulo temos:

I. Algumas regras ulteriores dadas tanto aos sacerdotes quanto ao povo, relativas a seu culto (vv. 1-15).

II. Uma lei sobre a maneira de o príncipe dispor de sua herança (vv. 16-18).

III. Uma descrição dos lugares providenciados para cozer os sacrifícios e assar as ofertas de alimento (vv. 19-24).

Versículos 1 a 15

Regras Relativas ao Culto. (a.C. 574.)

Não é certo se as regras do culto público aqui estabelecidas foram concebidas para serem observadas, mesmo nos pontos em que diferiam da lei de Moisés, e se foram assim observadas sob o segundo templo.

Não encontramos na história dessa parte posterior da igreja judaica que se governassem em seu culto por essas ordenanças, como se pensaria que deveriam ter feito, mas apenas pela lei de Moisés, considerando isso, então, na época seguinte, como místico, não literal. Podemos observar nestes versículos:

I. Que o lugar do culto era fixo, e foram dadas regras a esse respeito, tanto ao príncipe quanto ao povo:

  1. O portão oriental, mantido fechado em outras ocasiões, devia ser aberto nos dias de sábado, nas luas novas (v. 1) e sempre que o príncipe oferecesse uma oferta voluntária (v. 12).

Lemos antes que esse portão era ordinariamente mantido fechado (Ezequiel 44:2); ao passo que os outros portões do pátio eram abertos todos os dias, este só era aberto em dias solenes e ocasiões especiais, quando era aberto para o príncipe, que devia entrar pelo caminho do pórtico desse portão (v. 2, 8).

Alguns pensam que ele entrava com os sacerdotes e levitas no pátio interior, pois esse portão era a entrada para aquele pátio, e observam que magistrados e ministros deveriam unir forças e seguir o mesmo caminho, de mãos dadas, na promoção do serviço de Deus.

Mas antes parece que ele não passava pelo portão, como fizera a glória do Senhor, embora estivesse aberto; entrava pelo caminho do pórtico do portão, ficava junto à ombreira do portão e cultuava no limiar do portão (v. 2), de onde tinha plena visão dos atos dos sacerdotes no altar.

E indicava sua concordância com os atos dos sacerdotes, em favor de si mesmo e em favor do povo da terra, que ficava atrás dele, à porta daquele portão (v. 3).

Todo príncipe deve assim mostrar que tem a disposição de Davi, que de muito boa vontade seria porteiro na casa de seu Deus e, como diz a palavra ali, “jazer no limiar” (Salmos 84:10).

Repare: os maiores dos homens são menores que a menor das ordenanças de Deus. Até os próprios príncipes, diante de Deus, devem cultuar com reverência e temor piedoso, reconhecendo-se indignos de aproximar-se dele. Mas Cristo é nosso príncipe, a quem Deus faz chegar perto e aproximar-se de si (Jeremias 30:21).

  1. Quanto ao portão norte e ao portão sul, pelos quais entravam no pátio do povo, não no pátio interior, foi dada esta regra: quem entrasse pelo portão norte deveria sair pelo portão sul, e quem entrasse pelo portão sul deveria sair pelo portão norte (v. 9).

Alguns pensam que isso era para evitar que se empurrassem e se acotovelassem mutuamente; pois Deus é Deus de ordem, e não de confusão. Podemos supor que entravam pelo portão mais próximo de suas próprias casas.

Ao partirem, porém, Deus queria que saíssem pelo portão que os levaria pelo caminho mais longo ao redor, para terem tempo de meditar; obrigados a dar uma grande volta pelo santuário, poderiam contemplar seus palácios e, se aproveitassem bem o tempo nesse percurso, o chamariam de caminho mais próximo para casa.

Alguns observam que isso pode nos lembrar, no serviço de Deus, de avançar continuamente (Filipenses 3:13) e não olhar para trás e, em nossa participação nas ordenanças, não voltar como chegamos, mas mais santos, celestiais e espirituais.

  1. É designado que o povo cultuará à porta do portão oriental, onde o príncipe cultua, ele à frente e eles acompanhando-o, tanto no sábado quanto nas luas novas (v. 3), e que, ao entrarem e saírem, o príncipe estará no meio deles (v. 10).

Repare: os grandes homens deveriam, por sua presença constante e reverente diante de Deus no culto público, dar bom exemplo a seus inferiores, tanto levando-os a fazer o mesmo quanto animando-os a isso.

É muito elegante e apropriado que pessoas de posição vão à igreja com seus servos, arrendatários e vizinhos pobres ao redor e ali se comportem com ar de seriedade e devoção; e os que assim honram a Deus com sua honra, ele terá prazer em honrar.

II. Que as ordenanças do culto eram fixas.

Embora se suponha que o próprio príncipe seja amigo muito sincero e zeloso do santuário, ainda assim não lhe é deixado, não, nem mesmo em acordo com os sacerdotes, designar quais sacrifícios serão oferecidos; mas o próprio Deus os designa, pois é sua prerrogativa instituir os ritos e cerimônias do culto religioso:

  1. Toda manhã, tão regularmente quanto chegava a manhã, deviam oferecer um cordeiro em holocausto (v. 13).

É estranho que não se mencione o sacrifício da tarde; mas, tendo Cristo vindo e oferecido a si mesmo agora no fim do mundo (Hebreus 9:26), devemos considerá-lo o sacrifício da tarde, por volta de cuja oferta ele morreu.

  1. Nos dias de sábado, ao passo que pela lei de Moisés deviam ser oferecidos quatro cordeiros (Números 28:9), aqui é designado que, à custa do príncipe, serão oferecidos seis cordeiros e, além deles, um carneiro (v. 4), para indicar quanto deveríamos abundar na obra do sábado, agora nos tempos do evangelho.

Deveríamos oferecer a Deus naquele dia abundância de sacrifícios espirituais de oração e louvor; e, se Deus se agrada de tal sacrifício, certamente temos muito motivo para também nos agradarmos dele.

  1. Nas luas novas, no começo de seus meses, havia, acima e além dos sacrifícios habituais do sábado, a oferta adicional de um novilho (v. 6). Os que fazem muito em favor de Deus e de suas almas, de maneira regular e constante, devem ainda assim, em algumas ocasiões, fazer ainda mais.

  2. Todos os sacrifícios deviam ser sem defeito; assim era Cristo, o grande sacrifício (1 Pedro 1:19), e assim os cristãos, que devem apresentar-se a Deus como sacrifícios vivos, deveriam visar e esforçar-se por ser: sem culpa, inofensivos e sem repreensão.

  3. Todos os sacrifícios deviam ter anexadas suas ofertas de alimento, pois assim designara a lei de Moisés, para mostrar que boa mesa Deus mantém em sua casa e que devemos honrá-lo tanto com o fruto de nosso solo quanto com o fruto de nosso gado, porque em ambos nos abençoou (Deuteronômio 28:4).

No princípio, Caim ofereceu um e Abel o outro. Alguns observam que as ofertas de alimento aqui são, proporcionalmente, muito maiores que as prescritas na lei de Moisés.

Então a proporção era de três décimos para um novilho e dois para um carneiro, tantos décimos de um efa, e de meio him de óleo, no máximo (Números 15:6-9); mas aqui, para cada novilho e cada carneiro, um efa inteiro e um him inteiro de óleo (v. 7).

Isso indica que, sob o evangelho, tendo sido oferecido o grande sacrifício expiatório, haverá mais desses sacrifícios sem sangue; ou, em geral, indica que, como agora, sob o evangelho, Deus abunda nas dádivas de sua graça para nós, mais que sob a lei, devemos abundar nas retribuições de louvor e dever a ele.

Mas é digno de observação que, na oferta de alimento pelos cordeiros, ao príncipe é consentido oferecer “como puder dar” (v. 5, 7, 11), “como sua mão alcançar”. Repare: os próprios príncipes devem gastar conforme seus recursos.

Até no que é gasto em obras de piedade, Deus espera e exige apenas que façamos conforme nossa capacidade, cada um como Deus o preparou (1 Coríntios 16:2). Deus não nos fez servir com uma oferta (Isaías 43:23), mas considera nossa constituição e condição.

Contudo, isso não dará apoio aos que alegam uma incapacidade que não é real ou aos que, por suas extravagâncias em outras coisas, se incapacitam para fazer o bem que deveriam. Encontramos louvados os que, num caso extraordinário de caridade, foram não só até sua capacidade, mas além dela.

Versículos 16 a 18

Leis Relativas à Herança do Príncipe. (a.C. 574.)

Temos aqui uma lei para limitar o poder do príncipe no dispor das terras da coroa:

  1. Se tiver um filho favorito, ou que tenha feito por merecer, poderá, se quiser, como sinal de seu favor e em recompensa pelos serviços desse filho, conceder algumas partes de suas terras a ele e a seus herdeiros para sempre (v. 16), desde que não saiam da família.

Pode haver motivo para os pais, quando seus filhos tiverem crescido, serem mais bondosos com um que com outro, assim como Jacó deu a José uma porção a mais que a seus irmãos (Gênesis 48:22).

  1. Contudo, se tiver um servo favorito, não poderá da mesma maneira conceder-lhe terras (v. 17). O servo poderia ter os aluguéis, rendimentos e lucros por determinado prazo, mas a herança, o jus proprietarium, o direito de propriedade, permanecerá com o príncipe e seus herdeiros.

Era adequado que se fizesse diferença entre um filho e um servo, como a de João 8:35: “O servo não permanece na casa para sempre”, como permanece o filho.

  1. As propriedades que der a seus filhos devem ser suas próprias (v. 18): não tomará da herança do povo, sob a alegação de ter muitos filhos para sustentar; não encontrará maneiras de fazê-los perder suas propriedades, ou forçá-los a vendê-las e assim expulsar seus súditos de sua posse; mas que ele e seus filhos se contentem com o que é deles próprios.

Longe está de ser honra para um príncipe aumentar a riqueza de sua família e coroa usurpando os direitos e propriedades de seus súditos; nem ele próprio sairá ganhando com isso no fim.

Pois será apenas um príncipe pobre quando as pessoas forem dispersas, cada uma para longe de sua propriedade, quando deixarem seu país natal, sendo forçadas a sair dele pela opressão, escolhendo antes viver entre estrangeiros que são pessoas livres e onde podem chamar de seu o que possuem, por pouco que seja.

É do interesse dos príncipes governar no coração de seus súditos; então tudo o que os súditos têm está, da melhor maneira, a serviço dos príncipes. É melhor para eles mesmos ganhar os afetos de seus súditos protegendo-lhes os direitos que ganhar as propriedades desses súditos invadindo-as.

Versículos 19 a 24

Edifícios ao Redor do Templo. (a.C. 574.)

Temos aqui uma descoberta ulterior de edifícios ao redor do templo que não havíamos observado antes; eram lugares para cozer a carne das ofertas (v. 20). Aquele que mantinha mesa tão abundante em seu altar precisava de grandes cozinhas; um edificador sábio providenciará comodidades dessa espécie. Observe:

  1. Onde se situavam esses lugares de cozimento. Alguns ficavam na entrada do pátio interior (v. 19) e outros debaixo das fileiras, nos quatro cantos do pátio exterior (vv. 21-23).

Esses eram os lugares onde, provavelmente, havia mais espaço de sobra para esse propósito; e se encontrou essa finalidade para o espaço de sobra, para que nenhum se perdesse. É pena que terreno santo seja terreno desperdiçado.

  1. Para que eram usados. Nesses lugares deviam cozer a oferta pela transgressão e a oferta pelo pecado, aquelas partes delas que eram destinadas aos sacerdotes e que eram mais sagradas que a carne das ofertas pacíficas, da qual o ofertante também tinha uma parte.

Ali também deviam assar a oferta de alimento, sua parte dela, que recebiam do altar para suas próprias mesas (v. 20). Teve-se zelo para que não as levassem para o pátio exterior com o propósito de santificar o povo.

Não aleguem santificar o povo com essa carne santa e assim iludi-lo; ou não imaginem as pessoas que, ao tocarem nessas coisas sagradas, eram santificadas e feitas ao menos um pouco melhores ou mais aceitáveis a Deus.

Parece, por Ageu 2:12, que havia os que tinham tal noção; por isso, os sacerdotes não devem levar consigo nenhuma carne santa, para que não deem ânimo a essa noção. Os ministros devem tomar cuidado para não fazer nada que sustente as pessoas ignorantes em suas vaidades supersticiosas.


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