Matthew Henry

Ezequiel 4

Argumento

Ezequiel estava agora entre os cativos na Babilônia, mas ali eles ainda traziam Jerusalém no coração. Os cativos piedosos olhavam para ela com os olhos da fé (como Daniel 6:10); os presunçosos olhavam para ela com orgulho e se iludiam com a ideia de que logo voltariam novamente para lá.

Os que permaneceram na cidade se correspondiam com os cativos e, provavelmente, os sustentavam com esperanças de que tudo ainda acabaria bem enquanto Jerusalém permanecesse em sua força. Talvez também repreendessem pela insensatez os que haviam se rendido logo de início.

Por isso, para derrubar essa presunção, Deus dá ao profeta, neste capítulo, uma antevisão muito clara e comovente do cerco de Jerusalém pelo exército caldeu e das calamidades que acompanhariam esse cerco. Duas coisas lhe são representadas em visão:

I. As fortificações que seriam erguidas contra a cidade. Isso é representado pelo profeta ao sitiar a imagem de Jerusalém (vv. 1-3) e deitar-se primeiro de um lado e depois do outro diante dela, vv. 4-8.

II. A fome que assolaria o interior da cidade. Isso é representado pelo fato de ele comer alimentos muito grosseiros e limitar-se a uma pequena porção deles durante todo o tempo em que durou essa representação simbólica, vv. 9-17.

Versículos 1 a 8

A Representação de um Cerco. (a.C. 595.)

O profeta recebe aqui a ordem de representar para si mesmo e para os outros, por meio de sinais próprios para impressionar vivamente a fantasia e comover a mente, o cerco de Jerusalém. Isso equivalia a uma predição.

I. Recebeu a ordem de gravar o desenho de Jerusalém num ladrilho, v. 1. Enquanto ela conservava sua integridade, era honra de Jerusalém que Deus a tivesse gravado nas palmas de suas mãos (Isaías 49:16), e os nomes das tribos eram gravados em pedras preciosas no peitoral do sumo sacerdote.

Mas, agora que a cidade fiel se tornou prostituta, um ladrilho ou tijolo sem valor e quebradiço é considerado suficiente para retratá-la. O profeta deve colocá-lo diante de si, para que os olhos comovam o coração.

II. Recebeu a ordem de construir pequenas fortificações contra essa representação da cidade, à semelhança das baterias erguidas pelos sitiantes, v. 2. Entre a cidade sitiada e ele mesmo, que fazia o papel de sitiante, devia colocar uma panela de ferro como um muro de ferro, v. 3.

Isso representava a determinação inflexível de ambos os lados: os caldeus estavam decididos, custasse o que custasse, a tomar a cidade e não a abandoná-la antes de conquistá-la; por outro lado, os judeus estavam decididos a nunca capitular, mas resistir até o último extremo.

III. Recebeu a ordem de deitar-se de lado diante dela, como se a cercasse, representando o exército caldeu acampado diante da cidade para bloqueá-la, impedindo a entrada de alimentos e a saída de bocas. Devia deitar-se sobre o lado esquerdo por 390 dias (v. 5), cerca de treze meses.

Calcula-se que o cerco de Jerusalém tenha durado dezoito meses (Jeremias 52:4-6). Mas, se deduzirmos desse período os cinco meses de intervalo em que os sitiantes se retiraram diante da aproximação do exército do faraó (Jeremias 37:5-8), o número de dias do cerco rigoroso será 390.

Contudo, isso também tinha outro significado. Os 390 dias, segundo a linguagem profética, significavam 390 anos.

Quando o profeta se deita por tantos dias de lado, carrega a culpa da iniquidade que a casa de Israel, as dez tribos, havia carregado por 390 anos, contando da primeira apostasia delas sob Jeroboão até a destruição de Jerusalém, que completou a ruína dos poucos remanescentes dessas tribos que se haviam incorporado a Judá.

Depois, ele deve deitar-se quarenta dias sobre o lado direito e, durante esse tempo, carregar a iniquidade da casa de Judá, o reino das duas tribos.

Pois os pecados que completaram a medida daquele povo foram aqueles de que se tornaram culpados nos últimos quarenta anos antes de seu cativeiro, desde o décimo terceiro ano de Josias, quando Jeremias começou a profetizar (Jeremias 1:1, 2); ou, segundo alguns, desde o décimo oitavo ano, quando o livro da lei foi encontrado e o povo renovou sua aliança com Deus.

Quando persistiram em suas impiedades e idolatrias, apesar de terem tal profeta e tal príncipe e de terem sido trazidos para o vínculo de tal aliança, que se poderia esperar senão uma ruína sem remédio? Judá, que tinha tantos auxílios e vantagens para reformar-se, completa a medida de sua iniquidade em menos tempo que Israel.

Agora, não devemos pensar que o profeta ficasse deitado de lado constantemente, noite e dia. Antes, a cada dia, durante tantos dias seguidos, a certa hora, quando recebia visitas e as pessoas vinham vê-lo, era encontrado deitado diante de sua representação de Jerusalém: 390 dias sobre o lado esquerdo e quarenta sobre o direito.

Todos os que o viam podiam facilmente entender que isso representava o cerco rigoroso da cidade. As pessoas afluiriam diariamente, umas por curiosidade e outras por consciência, à hora marcada, para contemplá-lo e fazer seus diversos comentários.

O fato de ser encontrado continuamente sobre o mesmo lado, como se lhe tivessem posto amarras, como de fato acontecera por ordem divina, de modo que não pudesse virar-se de um lado para outro até terminarem os dias do cerco, representava claramente a presença cerrada e constante dos sitiantes ao redor da cidade durante aquele número de dias, até alcançarem seu objetivo.

IV. Recebeu a ordem de conduzir o cerco com vigor (v. 7): “Porás o teu rosto contra o cerco de Jerusalém”, inteiramente empenhado nele e decidido a levá-lo a cabo. Assim estariam os caldeus: nem suborno nem força os fariam retirar-se.

A indignação de Nabucodonosor com a traição de Zedequias, que rompeu seu pacto com ele, tornou-o muito furioso na execução desse cerco, para que castigasse a insolência daquele príncipe infiel e de seu povo. E seu exército esperava obter um rico despojo daquela cidade suntuosa. Assim, ambos voltaram o rosto contra ela, pois estavam muito resolutos.

Não foram menos ativos nem diligentes: empenharam-se ao máximo em todas as operações do cerco. O profeta devia representar isso descobrindo o braço ou, como alguns leem, estendendo-o, como quem desfere golpes por todos os lados sem misericórdia. Quando Deus está prestes a realizar uma grande obra, diz-se que desnuda o braço, Isaías 52:10.

Em suma, os caldeus se dedicarão à tarefa e persistirão nela como homens que a levam a sério e estão decididos a concluí-la. Agora, 1. Isso se destina a ser um sinal para a casa de Israel (v. 3), tanto para os que estavam na Babilônia, testemunhas oculares do que o profeta fazia, quanto para os que permaneceram em sua própria terra e ouviriam o relato.

O profeta estava mudo e não podia falar (Ezequiel 3:26). Mas, assim como seu silêncio tinha uma voz e repreendia o povo por sua surdez, Deus não se deixou sem testemunho nem mesmo então. Ordenou-lhe fazer sinais, como costumam fazer os mudos e como Zacarias fez quando estava mudo, e por meio deles comunicar ao povo seu pensamento, isto é, o pensamento de Deus.

Assim também o povo era repreendido por sua estupidez e insensibilidade: não era capaz de aprender, como as pessoas sensatas, por palavras, mas precisava ser ensinado como as crianças, por imagens, ou como os surdos, por sinais.

Ou talvez, com isso, seja repreendida sua malícia contra o profeta. Se ele tivesse dito por extenso, em palavras, o que aquelas figuras significavam, o teriam enredado no que dissesse e o teriam acusado de expressões traidoras. Pois sabiam como fazer de alguém um transgressor por uma palavra (Isaías 29:21). Para evitar isso, recebe a ordem de usar sinais.

Ou o profeta usou sinais pelo mesmo motivo pelo qual Cristo usou parábolas: para que, ouvindo, ouvissem sem entender e, vendo, vissem sem perceber, Mateus 13:14, 15. Não queriam entender o que era claro; por isso serão ensinados pelo que era difícil. Nisso, o Senhor era justo.

  1. Assim o profeta profetiza contra Jerusalém (v. 7). Havia pessoas que não só entendiam a representação desse modo, mas eram ainda mais comovidas por ela. Pois as imagens diante dos olhos costumam causar na mente impressões mais profundas que as palavras podem causar.

Por esse motivo foram instituídos os sacramentos para representar as coisas divinas: para que víssemos e crêssemos, víssemos e fôssemos comovidos por elas. Podemos esperar esse benefício e a bênção que o acompanha enquanto, como o profeta aqui, usarmos somente os sinais que o próprio Deus designou expressamente, pois devemos concluir que são os mais adequados.

Repare: o poder da imaginação, se for bem empregado e mantido sob a direção e a correção da razão e da fé, pode ser útil para acender e estimular afetos piedosos e devotos, como foi aqui para Ezequiel e os que o acompanhavam.

“Parece-me ver isto e aquilo: a mim mesmo morrendo, o tempo chegando ao fim, o mundo em chamas, os mortos ressuscitando, o grande tribunal instalado e coisas semelhantes. Isso pode exercer uma influência extraordinariamente boa sobre nós, pois a fantasia é como o fogo: um bom servo, mas um mau senhor.”

  1. Toda essa ação continha algo a que o profeta poderia, com boa aparência de razão, ter hesitado e apresentado objeção. Ainda assim, em obediência à ordem de Deus e no exercício de seu ofício, fez tudo conforme lhe fora ordenado.

(1.) Parecia infantil e ridículo, abaixo de sua dignidade, e havia quem o ridicularizasse por isso. Mas ele sabia que a ordem divina conferia honra suficiente ao que de outro modo pareceria desprezível, preservando sua reputação ao fazê-lo.

(2.) Era trabalhoso e cansativo fazer o que fez. Mas tanto nosso descanso quanto nosso crédito devem ser sacrificados ao nosso dever, e nunca devemos chamar de serviço árduo qualquer parte do serviço de Deus.

(3.) Certamente era muito contrário aos seus sentimentos aparecer dessa maneira contra Jerusalém, a cidade de Deus, a cidade santa, e agir como inimigo de um lugar do qual era tão bom amigo. Mas ele é profeta e deve seguir suas instruções, não seus afetos.

Deve pregar claramente a ruína de um lugar pecador, embora deseje ardentemente e peça com fervor seu bem-estar.

  1. Tudo o que o profeta apresenta aos filhos de seu povo a respeito da destruição de Jerusalém tem o desígnio de levá-los ao arrependimento, mostrando-lhes o pecado, a causa que provocou essa destruição: o pecado que arruinou aquela cidade antes florescente.

Certamente nada poderia ser mais eficaz para levá-los a odiar o pecado e afastar-se dele. Enquanto descreve a calamidade em cores vivas, com grande dor e desconforto para si mesmo, ele carrega a iniquidade de Israel e de Judá.

“Olhem aqui”, diz ele, “e vejam o que o pecado faz, como é mau e amargo afastar-se de Deus. Isso vem do pecado: dos seus pecados e dos pecados de seus pais. Que essa seja, portanto, a causa diária de sua tristeza e vergonha agora no cativeiro, para que vocês façam as pazes com Deus e ele volte a vocês com misericórdia.”

Mas observe: é um dia de castigo por um ano de pecado: “Designei-te cada dia por um ano”. O cerco é uma calamidade de 390 dias, na qual Deus pede contas da iniquidade de 390 anos. Por isso reconhecem com justiça que Deus os castigou menos do que suas iniquidades mereciam, Esdras 9:13.

Saibam, porém, os pecadores impenitentes que, embora Deus agora seja paciente com eles, no outro mundo há um castigo eterno.

Quando Deus pôs amarras no profeta, foi para mostrar-lhes como estavam presos pelas cordas de suas próprias transgressões (Lamentações 1:14) e, por isso, agora estavam presos pelas cordas da aflição.

Mas podemos considerar o caso do profeta com compaixão quando Deus lhe impôs as amarras do dever, como faz com todos os seus ministros (1 Coríntios 9:16: a necessidade me é imposta, e ai de mim se não pregar o evangelho), e contudo os homens lhe impuseram amarras de restrição (Ezequiel 3:25).

Sob ambos, porém, basta-lhes a satisfação de estarem servindo aos interesses do reino de Deus entre os homens.

Versículos 9 a 17

A Representação de uma Fome. (a.C. 595.)

A melhor explicação dessa parte da predição de Ezequiel sobre a desolação de Jerusalém é a lamentação de Jeremias a respeito dela, Lamentações 4:3, 4, etc., e 5:10, onde ele descreve de modo comovente a terrível fome que houve em Jerusalém durante o cerco e seus tristes efeitos.

I. Para impressionar o povo com a antevisão da fome, o profeta deve limitar-se por 390 dias a alimentos grosseiros e porções escassas, mal preparados, pois lhes faltariam tanto alimentos quanto combustível.

  1. Quanto à qualidade, seu alimento devia ser o pior tipo de pão, feito com apenas pouco trigo e cevada, sendo o restante composto de feijões, lentilhas, milheto e ervilhaca, com que alimentamos cavalos ou porcos de engorda.

Tudo isso seria misturado, como o grão para moer, ou como o conteúdo da bolsa do mendigo, que recebe numa casa uma tigela cheia de um cereal e, noutra, de outro. Desse cereal devia ser feito o pão do profeta enquanto suportava o cansaço de deitar-se de lado e precisava de algo melhor para sustentá-lo, v. 9.

Repare: é sábio não nos apegarmos demais a iguarias e a pão agradável, pois não sabemos que alimento duro talvez sejamos obrigados a comer, ou melhor, que talvez até recebamos com alegria, antes de morrer. A comida mais simples é melhor do que merecemos; por isso, não deve ser desprezada nem desperdiçada.

Também não devemos olhar com desdém para os que a comem, pois não sabemos qual poderá ser nossa própria condição.

  1. Quanto à quantidade, devia ser o mínimo com que alguém pudesse manter-se vivo. Isso significava que os sitiados seriam reduzidos a pequenas rações e resistiriam até que todo o pão da cidade se esgotasse, Jeremias 37:21.

O profeta devia comer por dia apenas vinte siclos de pão em peso (v. 10), cerca de dez onças. Também devia beber apenas a sexta parte de um him de água, ou seja, meia pinta, cerca de oito onças, v. 11. A restrição da dieta de Lessio é de catorze onças de alimento e dezesseis de bebida.

O profeta na Babilônia tinha pão suficiente e de sobra e vivia à margem de um rio, onde havia água em abundância. Ainda assim, para confirmar sua própria predição e servir de sinal aos filhos de Israel, Deus o obriga a viver com tão pouco, e ele se submete.

Repare: os servos de Deus devem aprender a suportar agruras e a renunciar ao uso de prazeres lícitos quando assim podem servir à glória de Deus, demonstrar a sinceridade de sua fé e expressar sua compaixão pelos irmãos aflitos. O corpo deve ser dominado e submetido.

A natureza se contenta com pouco; a graça, com menos; mas a cobiça não se contenta com nada. É bom limitarmo-nos por escolha própria, para que possamos suportar melhor a limitação se algum dia ela vier por necessidade.

E em tempos de angústia e calamidade públicas, não nos convém tratar-nos com luxo como aqueles que bebiam vinho em grandes taças e não sentiam dor pela aflição de José, Amós 6:4-6.

  1. Quanto ao preparo, devia assá-lo com fezes humanas (v. 12), que seriam secas e serviriam de combustível para aquecer seu forno. Só de pensar nisso, alguém quase sentiria náuseas. Ainda assim, devia comer livremente o pão grosseiro assim assado, como bolos de cevada, como se fosse o mesmo pão a que estava acostumado.

Devia praticar publicamente essa repulsiva maneira de cozinhar diante dos olhos deles. Assim seriam mais comovidos pela calamidade próxima que ela representava: no extremo da fome, não só não teriam nada saboroso ao redor de si, mas também nada limpo. Teriam de se contentar com o que pudessem obter. Para a alma faminta, toda coisa amarga é doce.

O profeta pediu humildemente e com submissão que fosse dispensado dessa circunstância do sinal, assar o pão com fezes humanas (v. 14). Parecia haver nela algo de impureza cerimonial, pois existia uma lei segundo a qual as fezes humanas deviam ser cobertas com terra, para que Deus não visse coisa impura no acampamento, Deuteronômio 23:13, 14.

Deveria ele recolher algo tão repugnante e usá-lo no preparo de seu alimento diante do povo? “Ah! Senhor Deus”, diz ele, “eis que minha alma não foi contaminada, e temo que assim venha a ser contaminada”.

Repare: a contaminação da alma pelo pecado é o que as pessoas piedosas mais temem. Contudo, às vezes consciências sensíveis a temem sem motivo e se atormentam com escrúpulos a respeito de coisas lícitas, como fez aqui o profeta. Ele ainda não havia aprendido que não é aquilo que entra pela boca que macula o homem, Mateus 15:11.

Observe, porém, que ele não alega: “Senhor, desde a juventude fui criado com delicadeza e nunca me acostumei a nada que não fosse limpo e agradável”. Havia pessoas criadas assim que, no cerco de Jerusalém, chegaram a abraçar monturos, Lamentações 4:5.

Ele alega, isto sim, ter sido criado de modo consciencioso e nunca ter comido nada proibido pela lei, que tivesse morrido por si mesmo ou sido despedaçado. Por isso pede: “Senhor, não me imponhas isso agora”. Pedro alegou algo semelhante (Atos 10:14): “Senhor, nunca comi coisa alguma comum ou impura”.

Repare: quando nos virmos reduzidos a agruras, será consolador que nosso coração possa testemunhar que sempre zelamos por nos abster do pecado, até de pequenos pecados e de tudo o que tem aparência de mal.

Podemos ter certeza de que tudo o que Deus nos ordena é bom. Mas, se nos for exigido algo que consideramos mau, devemos argumentar contra isso com base na consideração de que até aqui preservamos nossa pureza. Deveríamos perdê-la agora?

Como Ezequiel apresentou esse escrúpulo com manifesta sensibilidade de consciência, Deus o dispensou nessa questão. Repare: os que têm poder em suas mãos não devem ser rigorosos em impor suas ordens àqueles que têm dúvidas a respeito delas.

Mesmo que as dúvidas não tenham fundamento ou resultem da educação e de um costume antigo, devem antes ceder que entristecer ou ofender os fracos ou pôr diante deles uma pedra de tropeço. Assim seguirão o exemplo da condescendência de Deus para com Ezequiel, embora saibamos que sua autoridade é incontestável e todas as suas ordens são sábias e boas.

Deus consentiu que Ezequiel usasse esterco de vaca em lugar de fezes humanas, v. 15. Isso é uma crítica tácita ao ser humano: indica que, por estar contaminado pelo pecado, sua imundície é mais repulsiva e odiosa que a de qualquer outra criatura. “Quanto mais abominável e imundo é o homem!” Jó 15:16.

II. Aqui esse sinal é explicado em particular; significava:

  1. Que os que permanecessem em Jerusalém seriam levados à extrema miséria por falta de alimento necessário. Cortados todos os suprimentos pelos sitiantes, a cidade logo sentiria a falta do campo, pois até o rei é servido pelo campo. Assim, o bordão do pão seria quebrado em Jerusalém, v. 16.

Deus não tiraria apenas do pão seu poder de nutrir, de modo que comessem sem se fartar (Levítico 26:26). Tiraria o próprio pão (Isaías 3:1), de modo que o pouco restante seria comido por peso: tanto por dia, tanto por pessoa. Assim todos receberiam uma parte igual e ela duraria tanto quanto possível.

Mas com que proveito, se não poderiam fazê-la durar para sempre e os sitiados tinham de esgotar-se antes dos sitiantes? Comeriam e beberiam com cuidado, para que as provisões durassem o máximo possível, e com espanto, quando as vissem quase acabadas e não soubessem onde buscar mais.

Ficariam espantados uns com os outros. Em geral, partilhar uma calamidade com outras pessoas traz algum alívio, Solamen miseris socios habuisse doloris, e queixar-se do fardo dá algum descanso ao espírito. Mas o fato de a miséria ser universal a agravaria; suas queixas mútuas só os deixariam mais aflitos e aumentariam seu espanto.

O desfecho será tão ruim quanto seus temores. Não podem torná-lo pior do que é, pois definharão por sua iniquidade. Multidões morrerão de fome, uma morte lenta, pior que a morte à espada (Lamentações 4:9); morrerão sentindo a própria morte.

É o pecado que lhes traz toda essa miséria: definharão em sua iniquidade, como também se pode ler. Permanecerão endurecidos e impenitentes e morrerão em seus pecados, o que é mais miserável que morrer num monturo.

Agora, (1.) vejamos aqui a obra lastimável que o pecado faz entre um povo e reconheçamos nisso a justiça de Deus. Houve um tempo em que Jerusalém era cheia do melhor do trigo (Salmos 147:14); agora se contentaria com o mais grosseiro, mas não conseguiria obtê-lo.

Assim como a fartura de pão era uma das misericórdias concedidas a Jerusalém, assim se tornara um de seus pecados, Ezequiel 16:49. A abundância havia sido empregada no luxo e no excesso; por isso, essas coisas eram justamente castigadas com fome. É justo que Deus nos prive dos prazeres que fizemos alimento e combustível de nossas cobiças.

(2.) Vejamos os motivos que temos para bendizer a Deus pela abundância, não só pelos frutos da terra, mas também pela liberdade do comércio: o lavrador consegue dinheiro por seu pão, e o comerciante, pão por seu dinheiro. Há abundância não só no campo, mas também no mercado.

Os que vivem em cidades e grandes povoados, embora não semeiem nem colham, são alimentados dia após dia com o alimento de que precisam.

  1. O sinal significava que os levados ao cativeiro seriam obrigados a comer seu pão maculado entre os gentios (v. 13): alimentos preparados por mãos gentias de maneira diferente do que prescrevia a lei da igreja judaica.

Sempre lhes haviam ensinado a chamar esse alimento de maculado, e teriam por ele tanta aversão quanto um homem teria por pão preparado com esterco, isto é, como talvez se possa entender, amassado e moldado com esterco.

Daniel e seus companheiros limitaram-se a leguminosas e água, em vez de comerem a porção de alimento do rei que lhes fora designada, porque julgavam que ela os macularia, Daniel 1:8.

Ou seriam obrigados a comer alimento deteriorado, como o que seus opressores lhes concederiam durante a escravidão e que antes teriam desdenhado tocar. Porque não serviram a Deus com alegria na abundância de tudo, Deus os fará servir aos seus inimigos na falta de tudo.


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