Ezequiel 30
Argumento
Neste capítulo temos: I. Uma continuação da profecia contra o Egito que tivemos na última parte do capítulo anterior, pouco antes de a desolação daquele reino antes florescente ser completada por Nabucodonosor.
Nela se predizem a destruição de todos os seus aliados e confederados, de todos os seus interesses e questões, e os diversos passos que o rei da Babilônia daria ao levar adiante esta destruição (vv. 1-19).
II. Uma repetição de profecia anterior contra o Egito, pouco antes de sua desolação começada por sua própria má conduta, que gradualmente os enfraquecia e preparava o caminho para o rei da Babilônia (vv. 20-26). Tudo tem muito o mesmo teor do que tivemos antes.
Versículos 1 a 19
Profecia contra o Egito; Destruição do Egito Predita. (a.C. 572.)
A profecia da destruição do Egito aqui é muito completa e detalhada, além de, no conjunto, muito assustadora. O que pode proteger um povo que provoca a Deus quando o Deus justo sai para contender com ele?
I. Será uma destruição muito lamentável, que causará grande tristeza (v. 2, 3): “Uivai; com razão podeis gritar agora que ela se aproxima, pois sereis levados a gritar e a soltar clamores horrendos quando chegar. Clamai: ai do dia! Ou: ah, o dia! Ai por causa do dia! O dia terrível! Ai e ah!”
“Pois o dia está próximo; o dia que há tanto tempo tememos e há tanto tempo merecemos. É o dia do Senhor, o dia em que ele se manifestará como Deus de vingança. Vós tendes agora o vosso dia, quando levais tudo de vencida e pisoteais todos ao redor.”
“Mas Deus terá o seu dia em breve, o dia da revelação de seu juízo justo” (Salmos 37:13). Será um dia nublado, isto é, escuro e sombrio, sem que brilhe consolo algum; e ameaçará uma tempestade: fogo, enxofre e um temporal horrível.
Será o tempo dos pagãos, de pedir contas aos pagãos por todas as suas práticas pagãs, aquele tempo de que Davi falou, quando Deus derramaria sua fúria sobre os pagãos (Salmos 79:6), quando afundariam (Salmos 9:15).
II. Será a destruição do Egito e de todos os estados e países em confederação com ele e em sua vizinhança:
- O próprio Egito cairá (v. 4): “A espada virá sobre o Egito”, a espada dos caldeus, e será espada vitoriosa, pois os abatidos cairão no Egito, cairão por ela, cairão diante dela. O país é populoso? Tirarão sua multidão.
É forte e bem estabelecido? Seus fundamentos serão derrubados, e então a estrutura, por mais esmerada e mais alta que seja construída, cairá naturalmente.
- Seus vizinhos e moradores cairão com ele. Quando os abatidos caírem tão densamente no Egito, grande dor haverá na Etiópia, tanto naquela na África, vizinha do Egito de um lado, quanto naquela na Ásia, perto dele do outro lado.
Quando a casa de seu vizinho estava em chamas, não podiam deixar de recear que sua própria casa estivesse em perigo; nem seus medos eram sem fundamento, pois todos cairão com eles pela espada (v. 5).
Etiópia e Líbia são Cuxe e Pute, como são os nomes hebraicos, dois dos filhos de Cam mencionados, e Mizraim, isto é, Egito, entre eles (Gênesis 10:6).
E os lídios, famosos arqueiros, mencionados como confederados do Egito (Jeremias 46:9), estes cairão com o Egito e Cúb, os caldeus, habitantes da Líbia interior; estes e outros eram o povo mesclado.
Havia os de todos estes e outros países que por algum motivo ou outro residiam no Egito, como também os homens da terra que está em pacto, alguns dos restantes do povo de Israel e Judá, filhos da aliança, ou pacto, como são chamados (Atos 3:25), filhos da promessa (Gálatas 4:28).
Estes peregrinavam no Egito contra a ordem de Deus e cairão com eles. Repare: os que escolherem compartilhar o destino dos inimigos de Deus terão a mesma sorte. Sim, e ainda: isso acontecerá mesmo que professem ser homens da terra que está em pacto com Deus.
III. Todos os que alegam sustentar os interesses do Egito que estão afundando cairão debaixo dele, cairão com ele (v. 6): “Os que sustentam o Egito cairão”, e então o Egito terá de cair, naturalmente.
Veja a justiça de Deus; o Egito alegava sustentar Jerusalém quando cambaleava, mas se mostrou cana enganosa; e agora os que alegavam sustentar o Egito não se mostrarão melhores. Os que enganam outros comumente são pagos na própria moeda; eles próprios são enganados.
O Egito se julga sustentado pela autoridade e domínio absolutos de seu rei? “O orgulho de seu poder cairá” (v. 6). O poder do rei do Egito era seu orgulho; mas será quebrado e humilhado.
A multidão de seu povo é seu sustento? Estes cairão pela espada, até da torre de Siene, no canto extremo da terra, do lado por onde o inimigo entrará.
Tanto os países quanto as cidades, os lavradores e os mercadores, serão desolados (v. 7), como antes (Ezequiel 29:12). Até a multidão do Egito deixará de existir (v. 10). Aquele país populoso será despovoado. A terra ficará até cheia dos que foram abatidos (v. 11).
O rio Nilo é seu sustento, e seus diversos canais lhe são defesa? “Farei secar os rios” (v. 12), de modo que aquelas fortificações naturais consideradas inexpugnáveis, porque intransponíveis, de nada lhes servirão.
Seus ídolos lhe são sustento? Serão destruídos; aqueles sustentadores imaginários aparecerão mais imaginários que nunca, pois assim são imagens quando alegam ser libertadores e fortalezas (v. 13): “Farei desaparecer de Nofe as suas imagens”.
Sua família real é seu sustento? Não haverá mais príncipe na terra do Egito; a família real, que havia durado tanto tempo, será extirpada e extinta.
Sua coragem é seu sustento, e julga se sustentar pela bravura de seus homens de guerra, ultimamente habituados ao serviço? Ela falhará: “Porei medo na terra do Egito”.
A geração que surge é seu sustento? O Egito é sustentado por seus filhos e se julga feliz porque tem a aljava cheia deles? Ai! “Os jovens cairão pela espada” (v. 17), e as filhas irão ao cativeiro (v. 18); assim, o Egito será despojado de todas as suas esperanças.
IV. Deus infligirá estes juízos desoladores ao Egito (v. 8): saberão que eu sou o Senhor e que sou maior que todos os deuses, maior que todos os seus deuses, quando eu tiver ateado fogo no Egito.
O fogo que consome nações é aceso por Deus; e, quando põe fogo num povo, todos os seus ajudadores serão destruídos. Os que procuram apagar o fogo serão eles próprios devorados por ele; pois quem pode resistir diante dele quando está irado?
Quando derrama sua fúria sobre um lugar, quando lhe põe fogo (v. 15, 16), nem sua força nem sua multidão lhe servirão de nada.
V. O rei da Babilônia e seu exército serão empregados como instrumentos desta destruição: a multidão do Egito será feita cessar e completamente eliminada pela mão do rei da Babilônia (v. 10).
Os que se propuseram proteger Israel do rei da Babilônia não serão capazes de proteger a si mesmos. Diz-se dos caldeus, que destruiriam o Egito:
Que são estrangeiros (v. 12), que por isso não mostrarão compaixão por causa da antiga familiaridade, mas se comportarão como estrangeiros para com eles.
Que são os terríveis das nações (v. 11), tanto no que diz respeito à força quanto à ferocidade; e, sendo terríveis, farão obra terrível.
(3.) Que são os ímpios, que não serão restringidos pela razão e consciência, pelas leis da natureza ou das nações, pois são sem lei: “Venderei a terra na mão dos ímpios”. Fazem violência injustamente, como ímpios.
Contudo, na medida em que são instrumentos na mão de Deus para executar seus juízos, o que Deus faz é justo. Repare: Deus muitas vezes faz de um ímpio um açoite para outro; e até os ímpios adquirem direito à presa, jure belli, pelas leis da guerra, pois Deus a vende em suas mãos.
VI. Nenhum lugar na terra do Egito será isento da fúria do exército caldeu, nem o mais forte, nem o mais remoto: a espada atravessará a terra. Aqui são nomeados diversos lugares: Patros, Zoã e Nô (v. 14), Sim e Nofe (v. 15, 16), Áven e Pi-Besete (v. 17), e Tafnes (v. 18).
Estes serão desolados, serão incendiados, e os juízos de Deus serão executados sobre eles, e sua fúria derramada sobre eles. Sua força e multidão serão eliminadas; terão grande dor, serão rasgados pelo medo e terão angústias diariamente.
Seu dia será escurecido; suas honras, consolos e esperanças serão extinguidos. Seus jugos serão quebrados, de modo que não oprimirão nem tiranizarão mais como fizeram.
A pompa de sua força cessará, e nuvem os cobrirá, nuvem tão espessa que através dela não verão esperança alguma, nem sua glória será vista ou continuará a brilhar.
E, por último, os etíopes, distantes deles, assim como os mesclados com eles, compartilharão sua dor e terror. Deus, por sua providência, espalhará a notícia, e os etíopes despreocupados ficarão assustados (v. 9).
Repare: Deus pode golpear com terror os mais confiantes; o temor, quando lhe agrada, surpreenderá os hipócritas mais presunçosos.
O encerramento desta predição deixa:
A terra do Egito mortificada: assim executarei juízos sobre o Egito (v. 19). A destruição do Egito é a execução de juízos, o que indica não apenas que ela ocorre justamente, por seus pecados, mas que se dá de modo regular e legal, por sentença judicial. Todas as execuções de Deus se dão conforme seus juízos.
O Deus de Israel glorificado nisto: “Saberão que eu sou o Senhor”. Os egípcios serão levados a sabê-lo, e o povo de Deus será levado a sabê-lo melhor. O Senhor é conhecido pelos juízos que executa.
Versículos 20 a 26
Destruição do Egito Predita. (a.C. 572.)
Esta curta profecia do enfraquecimento do poder do Egito foi exposta por volta do tempo em que o exército egípcio, que tentou levantar o cerco de Jerusalém, foi frustrado em seus empreendimentos e voltou re infectâ, sem cumprir seu propósito; pelo que o rei da Babilônia renovou o cerco e conseguiu seu intento.
O reino do Egito era muito antigo e fora considerável por muitas eras. O da Babilônia só ultimamente chegara à sua grande pompa e poder, sendo construído sobre as ruínas do reino da Assíria.
Agora é com eles como com famílias e estados: alguns crescem, outros declinam e voltam para trás; um deve aumentar, e os outros naturalmente devem diminuir.
I. Aqui é predito que o rei do Egito ficará cada vez mais fraco. A extensão de seus territórios será encurtada, sua riqueza e poder diminuídos, e se tornará menos capaz que nunca de ajudar ou a si mesmo ou a seu amigo.
- Isto já fora feito em parte (v. 21): “Quebrei o braço de Faraó”, algum tempo atrás. Um braço daquele reino bem poderia ser considerado quebrado quando o rei da Babilônia derrotou as forças de Faraó Neco em Carquemis (Jeremias 46:2) e se tornou senhor de tudo o que pertencia ao Egito, do rio do Egito ao Eufrates (2 Reis 24:7).
O Egito levara muito tempo reunindo força e estendendo seus domínios e, por isso, para que se observe proporção na providência, perde sua força lentamente e por graus.
Foi logo depois de o rei do Egito abater o bom rei Josias, e no mesmo reinado, que o braço do Egito foi assim quebrado, e o Egito recebeu aquele golpe fatal do qual nunca se recuperou. Antes de serem quebrados o coração e o pescoço do Egito, seu braço o foi.
Os juízos de Deus vêm sobre um povo por passos, para que possam encontrá-lo arrependendo-se. Quando o braço do Egito é quebrado, não será atado para ser curado, pois ninguém pode curar as feridas que Deus dá senão ele próprio. Os que desarma, os que incapacita, não podem novamente segurar a espada.
- Isto seria feito novamente. Um braço fora quebrado antes, e algo fora feito para pô-lo no lugar, para curar a ferida mortal dada à besta. Mas agora (v. 22): sou contra Faraó e quebrarei ambos os seus braços, tanto o forte quanto o quebrado e novamente posto no lugar.
Repare: se juízos menores não conseguem o intento de humilhar e reformar pecadores, Deus enviará maiores. Agora Deus fará cair da mão de Faraó a espada que este agarrara julgando-se forte o bastante para segurá-la. É repetido (v. 24): “Quebrarei os braços de Faraó”.
Antes fora cruel opressor do povo de Deus e ultimamente o bastão de uma vara quebrada para eles; e agora Deus, quebrando os braços de Faraó, lhe pede contas por ambos. Deus justamente quebra aquele poder abusado ou para impor injustiças às pessoas ou para lhes pregar embustes. Mas isto não é tudo:
(1.) O rei do Egito será desalentado quando se achar em perigo pelas forças do rei da Babilônia: gemerá diante dele com o gemer de homem mortalmente ferido. Repare: é comum os mais exaltados em sua prosperidade serem os mais deprimidos e desencorajados em sua adversidade.
Faraó, até antes de a espada tocá-lo, gemerá como se tivesse recebido sua ferida de morte.
(2.) O povo do Egito será disperso (v. 23 e novamente v. 26): os espalharei entre as nações. Outras nações haviam sido mescladas com eles (v. 5); agora serão mesclados com outras nações e procurarão abrigo nelas, e assim serão levados a saber que o Senhor é justo.
II. Aqui é predito que o rei da Babilônia ficará cada vez mais forte (v. 24, 25):
Que Deus porá força nos braços do rei da Babilônia, para que possa cumprir o serviço para o qual foi destinado.
Que porá uma espada, sua espada, na mão do rei da Babilônia, o que significava lhe dar comissão e provê-lo de armas para levar adiante uma guerra, particularmente contra o Egito. Repare: assim como juízes no tribunal, como Pilatos (João 19:11), assim generais no campo, como Nabucodonosor, não têm poder senão o que lhes é dado de cima.