Ezequiel 28
Argumento
Neste capítulo temos: I. Uma predição da queda e ruína do rei de Tiro, que, na destruição daquela cidade, é particularmente posto como alvo para as flechas de Deus (vv. 1-10). II. Uma lamentação pelo rei de Tiro, quando assim tiver caído, embora caia por sua própria iniquidade (vv. 11-19).
III. Uma profecia da destruição de Sidom, que ficava na vizinhança de Tiro e dependia dela (vv. 20-23). IV. Uma promessa da restauração do Israel de Deus, embora no dia de sua calamidade fossem insultados por seus vizinhos (vv. 24-26).
Versículos 1 a 10
Queda do Príncipe de Tiro. (a.C. 588.)
Termináramos com Tiro no capítulo anterior, mas agora o príncipe de Tiro deve ser destacado dos demais. Aqui há algo a ser dito a ele separadamente, uma mensagem de Deus para ele que o profeta deve lhe enviar, quer ouça, quer se abstenha.
I. Deve lhe falar de seu orgulho. Seu povo é orgulhoso (Ezequiel 27:3), e assim é ele; e ambos serão levados a saber que Deus resiste aos orgulhosos. Veja:
- Quais eram as expressões de seu orgulho: seu coração estava elevado (v. 2). Tinha grande conceito de si mesmo, estava inchado com opinião de sua própria suficiência e olhava com desdém para todos ao redor.
Da abundância do orgulho de seu coração disse: “Sou um deus”; não apenas o disse em seu coração, mas teve o descaramento de falá-lo abertamente. Deus disse dos príncipes: eles são deuses (Salmos 82:6); mas não lhes convém dizer assim de si mesmos.
É alta afronta àquele que é o único Deus e não dará sua glória a outro. Julgava que a cidade de Tiro tinha dependência tão necessária dele como o mundo tem do Deus que o fez, e que ele próprio era independente como Deus e não prestava contas a ninguém.
Julgava ter tanta sabedoria e força quanto o próprio Deus e autoridade tão incontestável, e que suas prerrogativas eram tão absolutas e sua palavra tão lei quanto a palavra de Deus.
Reivindicava honras divinas e esperava ser louvado e admirado como deus, e não duvidava de que seria deificado, entre outros heróis, depois de sua morte como grande benfeitor do mundo. Assim o rei da Babilônia disse: “Serei como o Altíssimo” (Isaías 14:14), em vez de como o Santíssimo.
“Sou o Deus forte e, por isso, não serei contradito, porque não posso ser controlado. Assento-me no assento de Deus; assento-me tão alto quanto Deus, meu trono igual ao dele. Divisum imperium cum Jove Cæsar habet, César divide o domínio com Júpiter.”
“Assento-me tão seguramente quanto Deus, tão seguramente no coração dos mares e tão fora do alcance do perigo como ele na altura do céu.” Julga suas guardas de homens de guerra ao redor de seu trono tão pomposas e poderosas quanto as hostes de anjos ao redor do trono de Deus.
É lembrado de sua pequenez e mortalidade e, uma vez que precisa ser informado, será informado daquela verdade evidente por si mesma: “Tu és homem e não Deus”, criatura dependente; você é carne e não espírito (Isaías 31:3).
Repare: os homens devem ser levados a saber que são apenas homens (Salmos 9:20). Os maiores gênios, os maiores potentados, os maiores santos são homens, não deuses. Jesus Cristo era tanto Deus quanto homem.
O rei de Tiro, embora tenha tal poderosa influência sobre todos ao redor e com a ajuda de suas riquezas exerça poderoso domínio, embora sejam trazidos a sua corte tributos e presentes com tanta devoção como se fossem sacrifícios a seu altar, embora seja lisonjeado por seus cortesãos e feito deus por seus poetas, contudo, depois de tudo, é apenas homem; sabe disso; teme isso.
Mas põe seu coração como o coração de Deus: “Imaginaste ser um deus, comparaste-te com Deus, julgando-te tão sábio e forte e tão apto a governar o mundo quanto ele.”
Foi a ruína de nossos primeiros pais, e a nossa neles, quererem ser como deuses (Gênesis 3:5).
E continuamente aquela natureza corrupta que inclina os homens a se estabelecerem como seus próprios senhores, para fazer o que quiserem, e seus próprios repartidores, para ter o que quiserem, seu próprio fim, para viver para si mesmos, e sua própria felicidade, para desfrutar de si mesmos, põe seus corações como o coração de Deus, invade suas prerrogativas e agarra as flores de sua coroa.
É uma presunção que não pode ficar impune.
- Aqui nos é dito do que era orgulhoso:
(1.) Sua sabedoria. É provável que este príncipe de Tiro fosse homem de muito boas capacidades naturais, filósofo e bem lido em todas as partes do saber então em voga, ao menos político e alguém com grande destreza em administrar os negócios do estado.
E então se julgava mais sábio que Daniel (v. 3). Achamos antes que Daniel, embora agora fosse apenas jovem, era celebrado por conseguir o intento na oração (Ezequiel 14:14).
Aqui achamos que era famoso por sua prudência na administração dos negócios deste mundo, grande estudioso e estadista, e ao mesmo tempo grande santo, contudo não príncipe, mas pobre cativo. Era estranho que sob tais desvantagens externas seu lustre brilhasse, de modo que sua sabedoria se tornara proverbial.
Quando o rei de Tiro sonha que é deus, diz: sou mais sábio que Daniel. “Não há segredo que possam esconder de ti”. Provavelmente desafiava todos ao redor a prová-lo com perguntas, como Salomão foi provado, e havia decifrado todos os seus enigmas, resolvido todos os seus problemas, e nenhum de todos eles podia deixá-lo perplexo.
Talvez tivesse tido sucesso em descobrir tramas e mergulhar nos conselhos dos príncipes vizinhos e, por isso, se julgava onisciente, e que nenhum pensamento lhe podia ser retido; por isso dizia: “Sou um deus”.
Repare: o conhecimento incha; é árduo saber muito sem se dar conta em excesso do próprio saber e sem se exaltar por isso. Aquele que era mais sábio que Daniel era mais orgulhoso que Lúcifer. Por isso os que têm conhecimento devem empenhar-se em ser humildes e demonstrar que o são.
(2.) Sua riqueza. Sua sabedoria o levava por esse caminho; não se diz que por sua sabedoria explorava os arcanos ou da natureza ou do governo, modelava o estado melhor do que era, fazia leis melhores ou promovia os interesses da comunidade do saber.
Mas sua sabedoria e entendimento lhe eram úteis no negócio. Assim como alguns reis de Judá amavam a agricultura (2 Crônicas 26:10), assim o rei de Tiro amava o comércio, e por ele obteve riquezas, aumentou suas riquezas e encheu seus tesouros de ouro e prata (v. 4, 5).
Veja o que é a sabedoria deste mundo; são exaltados como os homens mais sábios os que sabem obter dinheiro e, por meios certos ou errados, aumentar fortunas. E, contudo, realmente “este seu caminho é sua insensatez” (Salmos 49:13). Era a insensatez do rei de Tiro:
[1.] Que atribuiu a si mesmo o aumento de sua riqueza, em vez de à providência de Deus, esquecendo aquele que lhe deu poder para obter riqueza (Deuteronômio 8:17, 18).
[2.] Que se julgava homem sábio porque era homem rico, ao passo que um insensato pode possuir fortuna (Eclesiastes 2:19). Sim, e ainda: um insensato pode adquirir fortuna, pois muitas vezes se observou que o mundo favorece tais, quando o pão não é dos sábios (Eclesiastes 9:11).
[3.] Que seu coração foi elevado por suas riquezas, pelo aumento de sua riqueza, que o tornava tão altivo e seguro de si, tão insolente e imperioso, e que punha seu coração como o coração de Deus.
O homem do pecado, quando tinha muita pompa e poder mundanos, se mostrou como deus (2 Tessalonicenses 2:4). Por isso os ricos neste mundo precisam impor a si mesmos aquilo que a palavra de Deus lhes impõe: “Que não sejam de mente altiva” (1 Timóteo 6:17).
II. Uma vez que o orgulho precede a destruição e o espírito altivo precede a queda, deve lhe falar daquela destruição, daquela queda que agora se apressava como justo castigo de sua presunção em se estabelecer rival de Deus. Porque você alegou ser um deus (v. 6), por isso não será homem por muito tempo (v. 7). Observe aqui:
- Os instrumentos de sua destruição: “Trarei estrangeiros sobre ti”, os caldeus, que não achamos mencionados entre as muitas nações e países que negociavam com Tiro (Ezequiel 27).
Se alguma daquelas nações tivesse sido trazida contra ela, teria tido alguma compaixão dela por serem velhos conhecidos; mas estes estrangeiros não terão nenhuma. São povo de língua estranha, que o próprio rei de Tiro, sábio como é, talvez não entenda.
São os terríveis das nações; era exército formado de muitas nações e naquele tempo o mais temível tanto por força quanto por fúria. Estes Deus tem sob comando, e estes trará sobre o rei de Tiro.
- O extremo da destruição: “Desembainharão suas espadas contra a beleza de tua sabedoria” (v. 7), contra todas aquelas coisas em que você se gloria como sua beleza e produção de sua sabedoria. Repare: é justo da parte de Deus que nossos inimigos façam sua presa daquilo que fizemos nosso orgulho.
O palácio do rei de Tiro, seu tesouro, sua cidade, sua frota, seu exército, nestes se gloria como seu brilho; estes, julga, o tornavam ilustre e glorioso como deus na terra. Mas todos estes o inimigo vitorioso maculará, desfigurará, deformará.
Julgava-os sagrados, coisas que ninguém ousava tocar; mas os conquistadores os apreenderão como coisas comuns e estragarão seu brilho. Mas, seja o que for que aconteça ao que tem, certamente sua pessoa é sagrada.
Não: (v. 8) “Te farão descer à cova”, à sepultura; você morrerá a morte. E:
(1.) Não será morte honrosa, mas ignominiosa. Será tão aviltado em sua morte que poderá desesperar de ser deificado depois de sua morte. Morrerá as mortes dos que são abatidos no meio dos mares, que não recebem honra alguma em sua morte.
Mas seus cadáveres são imediatamente lançados ao mar, sem cerimônia alguma ou marca de distinção, para serem banquete para os peixes. Tiro provavelmente será destruída no meio do mar (Ezequiel 27:32), e o príncipe de Tiro não se sairá melhor que o povo.
(2.) Não será morte feliz, mas miserável. Morrerá as mortes dos incircuncisos (v. 10), dos que são estranhos a Deus e não estão em aliança com ele e, por isso, morrem sob sua cólera e maldição. São mortes, morte dupla, temporal e eterna, a morte tanto do corpo quanto da alma.
Morrerá a segunda morte; isso é morrer miseravelmente de fato. A sentença de morte aqui proferida contra o rei de Tiro é ratificada por autoridade divina: “Eu o disse, diz o Senhor Deus”. E o que disse fará. Ninguém pode contestar sua palavra, e Deus não a retirará.
- A refutação eficaz que isto será de todas as suas alegações à divindade (v. 9): “Quando o conquistador puser sua espada contra teu peito e não vires caminho de escape, dirás então: Sou Deus? Terás então de ti mesmo o conceito que agora tens?”
“Não: ser subjugado pela morte e pelo medo dela te forçará a reconhecer que não és deus, mas homem fraco, temeroso, trêmulo, que morre. Na mão de quem te abate (na mão de Deus e dos instrumentos que ele empregou), serás homem e não Deus, completamente incapaz de resistir e ajudar a ti mesmo.”
“Eu disse: sois deuses”; “mas morrereis como homens” (Salmos 82:6, 7). Repare: os que alegam ser rivais de Deus serão forçados de uma maneira ou outra a abandonar suas reivindicações. A morte, o mais tardar, quando caímos em suas mãos, nos fará saber que somos homens.
Versículos 11 a 19
Queda do Príncipe de Tiro. (a.C. 588.)
Assim como depois da predição da ruína de Tiro (Ezequiel 26) seguiu uma lamentação comovente por ela (Ezequiel 27), assim, depois de predita a ruína do rei de Tiro, ela é lamentada.
I. Isto comumente se entende do príncipe que então reinava sobre Tiro, a quem se fala (v. 2). Seu nome era Etbaal, ou Itóbalo, como Diodoro Sículo chama aquele que era rei de Tiro quando Nabucodonosor a destruiu.
Era, ao que parece, em todos os aspectos externos homem de qualidades, muito grande e famoso; mas sua iniquidade foi sua ruína.
Muitos expositores sugeriram que além do sentido literal desta lamentação há nela alegoria e que é alusão à queda dos anjos que pecaram, que se perderam por seu orgulho.
E, como é usual em textos de significado místico, algumas passagens aqui se referem primariamente ao rei de Tiro, como a de suas mercadorias, outras aos anjos, como a de estar no santo monte de Deus.
Mas, se houver algo místico nela, como talvez haja, antes a referirei à queda de Adão, à qual parece aludir (v. 13): “Estiveste no Éden, o jardim de Deus”, e isso no dia em que você foi criado.
II. Alguns julgam que pelo rei de Tiro se significa toda a família real, incluindo também os reis anteriores e olhando para trás até Hirão, rei de Tiro. O governante de então é chamado príncipe (v. 2), mas aquele que aqui é lamentado é chamado rei.
A corte de Tiro com seus reis fora famosa por muitas eras; mas o pecado a arruína. Agora podemos observar duas coisas aqui:
- Qual era o renome do rei de Tiro. Aqui se fala dele como tendo vivido em grande esplendor (vv. 12-15). Era homem, mas aqui se reconhece que era homem muito considerável e que tinha poderoso destaque em seu dia:
(1.) Excedia muito outros homens. Hirão e outros reis de Tiro o haviam feito em seu tempo; e o rei reinante talvez não ficasse aquém de nenhum deles: “Tu selas a soma, cheio de sabedoria e perfeito em beleza”.
Mas os poderes da natureza humana e a prosperidade da vida humana nele pareciam estar na maior altura. Era considerado tão sábio quanto a razão dos homens o pudesse fazer e tão feliz quanto a riqueza deste mundo e seu desfrute o pudessem fazer.
Nele você poderia ver o máximo que ambos podiam fazer; e, por isso, sele a soma, pois nada pode ser acrescentado; é homem completo, perfeito in suo genere, em sua espécie.
(2.) Parecia ser tão sábio e feliz quanto Adão na inocência (v. 13): “Estiveste no Éden”, até mesmo no jardim de Deus; você viveu como em paraíso todos os seus dias, desfrutou plenamente de tudo o que é bom para alimento ou agradável aos olhos e teve domínio incontestado sobre todos ao redor, como Adão teve.
Um exemplo da magnificência do rei de Tiro é que superava todos os outros príncipes em joias, das quais têm maior abundância os que mais negociam no estrangeiro, como fazia: toda pedra preciosa era sua cobertura.
Há grande variedade de pedras preciosas, mas tinha de toda espécie e em tal abundância que, além das guardadas em seu gabinete e que eram os ornamentos de sua coroa, tinha suas roupas adornadas com elas; eram sua cobertura.
Ou melhor: (v. 14) ele andava para cima e para baixo no meio das pedras de fogo, isto é, estas pedras preciosas que reluziam e faiscavam como fogo. Seus quartos eram de certo modo rodeados de joias, de modo que andava no meio delas.
E então se imaginava tão glorioso como se, como Deus, tivesse sido cercado por tantos anjos, que são comparados a chama de fogo. E, se é tal admirador de pedras preciosas que as julga tão brilhantes quanto anjos, não admira ser tal admirador de si mesmo que se julga tão grande quanto Deus.
Nove espécies diversas de pedras preciosas aqui são nomeadas, todas no éfode do sumo sacerdote.
Talvez sejam particularmente nomeadas porque ele, em seu orgulho, costumava falar particularmente delas e dizer aos que o rodeavam, com muito prazer insensato: “Esta é tal pedra preciosa, de tal valor, e tais e tais são suas virtudes”.
Assim é repreendido por sua vaidade. O ouro é mencionado por último, como muito inferior em valor àquelas pedras preciosas; e costumava falar dele assim. Outra coisa que o fazia julgar seu palácio paraíso era a música primorosa que tinha, os tamboris e flautas, instrumentos de mão e instrumentos de sopro.
A confecção desses instrumentos era extraordinária, e foram preparados para ele de propósito; preparados em você, o pronome é feminino, em você, ó Tiro! Ou denota que o rei era efeminado ao se apaixonar por tais coisas.
Foram preparados no dia em que foi criado, isto é, ou nasceu ou foi constituído rei; foram feitos de propósito para celebrar as alegrias ou de seu dia de nascimento ou de seu dia de coroação. Neles muito se orgulhava e queria que todos os que viessem ver seu palácio reparassem neles.
(3.) Parecia anjo encarnado (v. 14): “Tu és o querubim ungido que cobre”, ou protege; isto é, considerava-se anjo guardião para seu povo, tão brilhante, tão forte, tão fiel, designado para este ofício e qualificado para ele.
Reis ungidos deveriam ser para seus súditos como querubins ungidos, que os cobrem com as asas de seu poder; e, quando são tais, Deus os reconhecerá. A elevação desses reis vinha de Deus: “Assim te pus”.
Alguns julgam, porque se mencionou o Éden, que se refere ao querubim posto a leste do Éden para cobri-lo (Gênesis 3:24). Julgava-se tão capaz de guardar sua cidade de todos os invasores quanto aquele anjo era capaz de cumprir o encargo recebido.
Ou pode se referir aos querubins no lugar santíssimo, cujas asas cobriam a arca; julgava-se tão brilhante quanto um deles.
(4.) Aparecia em tanto esplendor quanto o sumo sacerdote quando vestido com suas roupas para glória e beleza: “Estiveste sobre o santo monte de Deus”, como presidente do templo construído naquele santo monte.
Parecia tão grande e com tanta majestade e autoridade quanto o sumo sacerdote alguma vez pareceu quando andava no templo, que era adornado com pedras preciosas (2 Crônicas 3:6), e vestia seu traje, que tinha pedras preciosas tanto no peito quanto nos ombros; nele parecia andar no meio das pedras de fogo. Assim glorioso é o rei de Tiro; ao menos se julga assim.
- Vejamos agora qual era a ruína do rei de Tiro, o que manchou sua glória e pôs toda esta honra no pó (v. 15): “Eras perfeito em teus caminhos”; prosperava em todos os seus negócios, e tudo ia bem com você.
Tinha reputação não apenas limpa, mas brilhante desde o dia em que você foi criado, o dia de sua ascensão ao trono, até que se achou iniquidade em você; e isto estragou tudo.
Isto talvez aluda ao caso deplorável dos anjos que caíram e de nossos primeiros pais, ambos perfeitos em seus caminhos até se achar iniquidade neles.
E, quando uma vez se achou iniquidade nele, ela aumentou; ficou pior e pior, como aparece (v. 18): “Tu maculaste teus santuários”; perdeu o benefício de tudo o que julgava sagrado e em que, como em santuário, julgava se refugiar; essas coisas você maculou e assim se expôs pela multidão de suas iniquidades. Agora observe:
(1.) Qual era a iniquidade que foi a ruína do rei de Tiro:
[1.] A iniquidade de seu comércio, como é chamada (v. 18), tanto sua quanto de seu povo, pois o pecado do povo é imputado ao rei porque este foi conivente com ele e lhes deu mau exemplo (v. 16): “Pela multidão de tuas mercadorias, encheram teu interior de violência”, e assim você pecou.
O rei tinha tanto a fazer com seu comércio e estava tão inteiramente voltado para os ganhos dele que não tinha zelo por fazer justiça, dar reparação aos que sofriam injustiça e protegê-los da violência.
Ou melhor: na multiplicidade de negócios, se fazia injustiça a muitos por descuido; e em seus tratos usava seu poder para invadir os direitos dos que com ele tratavam. Repare:
Os que têm muito a fazer no mundo estão em grande perigo de fazer muito de errado; e é árduo tratar com muitos sem violência a alguns. Ofícios são chamados mistérios, mas gente demais faz deles mistérios de iniquidade.
[2.] Seu orgulho e vanglória (v. 17): “Teu coração se elevou por tua beleza”; você se apaixonara por si mesmo e por sua própria sombra. E assim corrompeu sua sabedoria por causa do brilho, da pompa e esplendor em que vivia.
Contemplava tanto isto que lhe ofuscava os olhos e o impedia de ver seu caminho. Parecia tão inchado de sua grandeza que seu orgulho o privou tanto de sua sabedoria quanto da reputação dela. Realmente se tornou insensato ao se gloriar.
Os que abrem mão de sua sabedoria para satisfazer seu gosto pela ostentação fazem mau negócio para si mesmos e, para agradar um capricho vão, perdem uma excelência verdadeira.
(2.) Qual era a ruína à qual esta iniquidade o levou:
[1.] Foi lançado fora de sua dignidade e desalojado de seu palácio, que considerava seu paraíso e templo (v. 16): “Eu te lançarei como profano para fora do monte de Deus”. Seu poder real era alto como monte, pondo-o acima de outros.
Era monte de Deus, pois os poderes existentes são ordenados por Deus e têm neles algo sagrado; mas, tendo abusado de seu poder, é considerado profano e, por isso, deposto e expulso.
Desonra a coroa que usa e assim perdeu seu direito a ela, e será destruído do meio das pedras de fogo, as pedras preciosas com que seu palácio era adornado, como o templo; e elas não lhe serão proteção.
[2.] Foi exposto ao desprezo e desgraça e pisoteado por seus vizinhos: “Eu te lançarei ao chão” (v. 17), o lançarei entre as pedras do pavimento, do meio das pedras preciosas, e o porei como espetáculo lastimoso diante de reis, para que o contemplem e nele encontrem um aviso para não serem orgulhosos nem opressores.
[3.] Foi completamente consumido, sua cidade e ele nela: “Farei sair um fogo do meio de ti”. Os conquistadores, quando tiverem saqueado a cidade, acenderão no coração dela um fogo que a reduzirá a cinzas, especialmente o palácio.
Ou pode ser tomado mais geralmente pelo fogo dos juízos de Deus, que devorará tanto príncipe quanto povo e trará toda a glória de ambos a cinzas sobre a terra; e este fogo será feito sair do meio de você.
Todos os juízos de Deus sobre pecadores se originam deles mesmos; são devorados pelo fogo que eles próprios acenderam.
[4.] Por isto foi feito exemplo terrível de vingança divina. Assim é reduzido a cinzas à vista de todos os que o contemplam (v. 18): os que o conhecem se espantarão com ele e se perguntarão como quem estava tão alto pôde ser trazido tão baixo.
O palácio do rei de Tiro, como o templo em Jerusalém, quando destruído, será espanto e assobio (2 Crônicas 7:20, 21). Assim caiu o rei de Tiro.
Versículos 20 a 26
A Queda de Sidom. (a.C. 588.)
A glória de Deus é seu grande fim, tanto em todo o bem quanto em todo o mal que procedem da boca do Altíssimo; assim achamos nestes versículos:
- Deus será glorificado na destruição de Sidom, cidade que ficava perto de Tiro, era mais antiga, mas não tão considerável, dependia dela e com ela ficava de pé e caía. Deus diz aqui: “Sou contra ti, ó Sidom! E serei glorificado no meio de ti” (v. 22).
E novamente: “Os que não quiseram conhecer por métodos mais brandos serão levados a saber que eu sou o Senhor, e somente eu, e que sou um Deus justo e zeloso, quando tiver executado juízos nela, juízos destruidores, quando tiver feito a execução segundo a justiça e segundo a sentença proferida, e assim serei santificado nela.”
Os sidônios, ao que parece, eram mais dados à idolatria que os tírios, que, sendo homens de negócios e de amplas relações, estavam menos sob o poder do fanatismo e da superstição.
Os sidônios eram conhecidos pelo culto de Astarote; Salomão o introduziu (1 Reis 11:5). Jezabel era filha do rei de Sidom e introduziu o culto de Baal em Israel (1 Reis 16:31); de modo que Deus fora muito desonrado pelos sidônios.
Agora, diz ele: “Serei glorificado, serei santificado.” Os sidônios eram vizinhos da terra de Israel, onde Deus era conhecido e onde poderiam ter adquirido conhecimento dele e aprendido a glorificá-lo; mas, em vez disso, seduziram Israel ao culto de seus ídolos.
Repare: quando Deus é santificado, é glorificado, pois sua santidade é sua glória. E aqueles pelos quais não é santificado e glorificado, sobre eles será santificado e glorificado, executando-lhes juízos que o declaram justo vingador de sua própria honra e da de seu povo, injuriadas.
Os juízos que serão executados sobre Sidom são guerra e pestilência, dois juízos devastadores e despovoadores (v. 23). São mensageiros de Deus, que envia em suas incumbências, e cumprirão aquilo para o que os envia.
Pestilência e sangue serão enviados a suas ruas; ali jazerão os cadáveres dos que pereceram, uns pela praga, ocasionada talvez por má alimentação quando a cidade era sitiada, e outros pela espada do inimigo, muito provavelmente os exércitos caldeus, quando a cidade foi tomada e todos foram postos à espada.
Assim os feridos serão julgados; quando estiverem morrendo de suas feridas, julgarão a si mesmos, e outros dirão: “Caem justamente.” Ou, como alguns o leem: “Serão castigados pela espada”, aquela espada que tem comissão para destruir de todos os lados. Deus é quem julga, e vencerá.
Nem é só em Tiro e Sidom que Deus executaria juízos, mas em todos os que desprezaram seu povo Israel e triunfaram em suas calamidades. Pois agora esta era a controvérsia de Deus com as nações ao redor deles (v. 26).
Repare: quando o povo de Deus está sob sua mão corretiva por suas faltas, ele tem zelo, como fez quanto aos malfeitores açoitados, para que não pareçam vis aos que estão ao redor. Por isso, se ressente dos que os desprezam e assim contribuem para agravar a aflição quando está só um pouco descontente (Zacarias 1:15).
Deus os considera até em seu estado baixo; e, por isso, não os desprezem os homens.
- Deus será glorificado na restauração de seu povo à sua antiga segurança e prosperidade. Deus fora desonrado pelos pecados de seu povo, e seus sofrimentos também deram ocasião para o inimigo blasfemar (Isaías 52:5).
Mas Deus agora tanto os curará de seus pecados quanto os aliviará de suas perturbações, e assim será santificado neles à vista dos pagãos, recuperará a honra de sua santidade, para satisfação de todo o mundo (v. 25). Pois:
(1.) Voltarão novamente à posse de sua própria terra: reunirei a casa de Israel de suas dispersões, em resposta àquela oração (Salmos 106:47): “Salva-nos, ó Senhor nosso Deus! E reúne-nos dentre os pagãos.”
E em cumprimento daquela promessa (Deuteronômio 30:4): “Dali o Senhor teu Deus te reunirá.” Sendo reunidos, serão trazidos em um corpo para habitar na terra “que dei a meu servo Jacó”.
Deus olhava para a antiga concessão ao trazê-los de volta, pois permanecia em vigor, e a descontinuação da posse não era anulação do direito. Aquele que a deu novamente a dará.
(2.) Desfrutarão de grande tranquilidade ali. Quando os que lhes foram incômodos forem tirados, viverão em quietude; não haverá mais espinheiro que pique nem espinho que cause dor (v. 24).
Terão estabilidade feliz, pois construirão casas e plantarão vinhas; e desfrutarão de feliz segurança e serenidade ali. Habitarão seguramente, habitarão com confiança, e não haverá quem os inquiete ou os faça temer (v. 26).
Isto nunca teve pleno cumprimento no corpo daquele povo, pois depois de voltarem do cativeiro eram de vez em quando molestados por algum vizinho mau ou outro. Nem a igreja do evangelho jamais esteve completamente livre de espinheiros que piquem e espinhos que causem dor.
Contudo, às vezes a igreja tem descanso, e os crentes sempre habitam seguramente sob a proteção divina e podem ficar tranquilos sem medo do mal. Mas o pleno cumprimento desta promessa é reservado para a Canaã celestial, quando todos os santos serão reunidos, e tudo o que ofende será removido, e todas as dores e medos para sempre banidos.