Matthew Henry

Ezequiel 19

Argumento

O alvo deste capítulo é muito semelhante ao do 17: predizer e lamentar a ruína da casa de Davi, a família real de Judá, no fim calamitoso dos quatro filhos e netos de Josias, Jeoacaz, Jeoaquim, Jeconias e Zedequias, nos quais foi cortada aquela ilustre linhagem de reis, que aqui se ordena ao profeta lamentar (v. 1).

E ele o faz por comparações. I. O reino de Judá e a casa de Davi são aqui comparados a uma leoa, e aqueles príncipes a leões que eram ferozes e vorazes, mas foram caçados e apanhados em redes (vv. 2-9).

II. Aquele reino e aquela casa são aqui comparados a uma videira, e estes príncipes a ramos que haviam sido fortes e florescentes, mas agora estavam quebrados e separados da videira, e queimados (vv. 10-14).

A ruína daquela monarquia já estava em curso, e a lamentação a seu respeito pretendia comover o povo diante dela, para que não se iludisse com esperanças vãs de que sua tranquilidade se prolongaria.

A Queda da Família Real; Queda de Jeoacaz e Jeoaquim. (a.C. 593.)

Versículos 1 a 9

Aqui estão:

I. Ordens dadas ao profeta para prantear a queda da família real, que havia muito tivera tão grande destaque em virtude de uma aliança de realeza feita com Davi e sua semente. Assim, seu eclipse e sua extinção são com justiça lamentados por todos os que sabem que valor dar à aliança de nosso Deus.

Como encontramos, depois de um relato muito extenso daquela aliança com Davi (Salmos 89:3, 20, etc.), uma triste lamentação pelas decadências e desolações de sua família (Salmos 89:38, 39): “Mas tu rejeitaste e aborreceste”, “anulaste a aliança de teu servo” e “profanaste sua coroa”, etc.

Os reis de Judá são aqui chamados príncipes de Israel, pois sua glória foi diminuída e se tornaram apenas como príncipes, e sua pureza foi perdida. Tornaram-se corruptos e idólatras como os reis de Israel, cujos caminhos haviam aprendido.

O profeta deve erguer uma lamentação por eles; isto é, deve descrever sua lamentável queda como quem a levou, ele próprio, ao coração e desejava que aqueles a quem pregava e escrevia também o fizessem.

E como podemos esperar que outros sejam tocados por aquilo que não toca a nós mesmos? Os ministros, quando predizem ousadamente, devem, contudo, lamentar amargamente a destruição dos pecadores, como os que não desejaram o dia calamitoso.

Não lhe é ordenado dar conselho aos príncipes de Israel, o que havia muito e muitas vezes fora feito em vão. Mas, tendo saído o decreto, deve erguer uma lamentação por eles.

II. Instruções dadas a ele sobre o que dizer:

  1. Deve comparar o reino de Judá a uma leoa, tão miseravelmente degenerado estava do que fora antes, quando se assentava como rainha entre as nações (v. 2). “Que é tua mãe?” A tua, ó rei?

Lemos da coroa de Salomão “com que sua mãe o coroou”, isto é, seu povo (Cantares de Salomão 3:11). A tua, ó Judá? A família real é como uma mãe para o reino, uma mãe que amamenta. Ela é uma leoa, feroz, cruel e voraz.

Quando deixaram sua religião, logo perderam também sua humanidade; e, quando não temiam a Deus, tampouco respeitavam o homem. “Deitou-se entre leões”. Deus dissera: “O povo habitará sozinho”, mas eles se misturaram com as nações e aprenderam suas obras.

“Nutriu seus filhotes entre leões jovens”, ensinou aos jovens príncipes o caminho dos tiranos, então usado pelos reis arbitrários do Oriente. Encheu desde cedo suas cabeças de noções de seu poder despótico absoluto e os imbuiu da crença de que tinham direito de escravizar seus súditos, de que a liberdade e a propriedade dos súditos estavam à mercê dos príncipes.

Assim, “nutriu seus filhotes entre leões jovens”. 2. Deve comparar os reis de Judá a filhotes de leão (v. 3). Jacó comparara Judá, especialmente a casa de Davi, a um filhote de leão, por ser forte e temível aos seus inimigos no exterior (Gênesis 49:9; ele é um leão velho; quem o despertará?).

E, se tivessem aderido à lei e à promessa divinas, Deus lhes teria preservado a força, a majestade e o domínio de um leão, e o faz em Cristo, o Leão da tribo de Judá.

Mas esses filhotes de leão eram assim para seus próprios súditos, eram cruéis e opressivos com eles, saqueavam seus bens e liberdades. E, quando assim se tornaram, por sua tirania, terror para os que deveriam proteger, era justo que Deus lhes tornasse temíveis aqueles que, de outro modo, poderiam ter subjugado. Aqui é lamentado:

(1.) O pecado e a queda de Jeoacaz, um dos filhotes desta leoa. Tornou-se leão jovem (v. 3); foi feito rei e pensou ter sido feito para fazer o que lhe agradasse e satisfazer sua própria ambição, cobiça e vingança, como quisesse. E assim logo dominou todas as artes da tirania; “aprendeu a apanhar a presa” e “devorou homens”.

Quando obteve poder em sua mão, todos os que antes, em qualquer coisa, o haviam contrariado foram levados a sentir seus ressentimentos e a se tornar sacrifício para sua fúria. Mas que resultou disso?

Não prosperou por muito tempo em sua tirania: “As nações ouviram a respeito dele” (v. 4), ouviram quão furiosamente agiu ao subir ao trono, como pisou tudo o que é justo e sagrado e violou todos os seus compromissos. Assim, o consideraram vizinho perigoso e procederam contra ele em conformidade.

Como uma multidão de pastores é convocada contra um leão rugindo sobre sua presa (Isaías 31:4). E ele foi apanhado, como animal de rapina, na cova deles. Seus próprios súditos não ousavam se levantar em defesa de suas liberdades.

Mas Deus suscitou uma potência estrangeira que logo pôs fim à sua tirania e o trouxe acorrentado à terra do Egito. Para lá Jeoacaz foi levado cativo e nunca mais se ouviu falar dele.

(2.) O pecado e a queda semelhantes de seu sucessor Jeoaquim. O reino de Judá por algum tempo esperou a volta de Jeoacaz do Egito, mas por fim perdeu a esperança dela e então tomou outro dos filhotes da leoa e o fez leão jovem (v. 5).

E ele, em vez de aceitar o aviso do destino de seu irmão para usar seu poder com equidade e moderação e buscar o bem de seu povo, andou nos passos de seu irmão: “Andou de um lado para o outro entre os leões” (v. 6).

Aconselhou-se e conviveu com os que eram ferozes e furiosos como ele próprio e tomou deles suas medidas, como Roboão seguiu o conselho dos jovens precipitados e de cabeça quente.

E logo “aprendeu a apanhar a presa” e “devorou homens” (v. 6). Tomou os bens de seus súditos, multou-os e os encarcerou, encheu seu tesouro por rapina e injustiça, sequestros e confiscos, multas e perdas de bens, e engoliu todos os que estavam em seu caminho.

Adquirira a arte de descobrir que bens os homens tinham escondidos e onde estavam os tesouros que haviam acumulado. Conhecia seus lugares desolados (v. 7), onde escondiam seu dinheiro e às vezes se escondiam. Sabia onde encontrar tanto um quanto os outros.

E por sua opressão devastou suas cidades, despovoou-as ao forçar os habitantes a remover suas famílias para algum lugar seguro. A terra estava desolada, e as aldeias do campo estavam desertas.

E, embora houvesse grande abundância e plenitude de todas as coisas boas, contudo o povo abandonava tudo por medo do barulho de seu rugido. Tinha orgulho de fazer todos os seus súditos terem medo dele, como o leão faz todos os animais da floresta tremerem (Amós 3:8).

E por seu terrível rugido os deixou tão atônitos que caíam de medo e, não tendo ânimo para escapar, se tornavam presa fácil para ele, como dizem que os leões fazem. Gritava arrogantemente, ameaçava, falava com ostentação e intimidava o povo até que abandonassem o que possuíam.

Assim pensava estabelecer seu próprio poder, mas teve efeito contrário; apenas apressou sua própria ruína (v. 8): “As nações se puseram contra ele de todos os lados” para restringir e reduzir seu poder exorbitante, o que se uniram em confederação para fazer em favor de sua segurança comum.

E estenderam sua rede sobre ele, formaram desígnios contra ele. Deus trouxe contra Jeoaquim tropas dos sírios, moabitas e amonitas, com os caldeus (2 Reis 24:2), e ele foi apanhado na cova deles. Nabucodonosor o prendeu com algemas para levá-lo à Babilônia (2 Crônicas 36:6).

Puseram este leão atrás de grades, o prenderam com correntes e o trouxeram ao rei da Babilônia (v. 9). O que aconteceu com ele não sabemos; mas sua voz não foi ouvida em parte alguma rugindo sobre os montes de Israel.

Houve fim de sua tirania: foi sepultado com sepultura de jumento (Jeremias 22:19), embora tivesse sido como leão, terror dos poderosos na terra dos vivos. Repare: a retidão de Deus deve ser reconhecida quando os que aterrorizaram e escravizaram outros são, eles próprios, aterrorizados e escravizados.

Quando os que, pelo abuso de seu poder para destruição, que lhes fora dado para edificação, se fazem como animais selvagens, como leões que rugem e ursos que percorrem a terra, pois assim, diz Salomão, são os governantes ímpios sobre o povo pobre (Provérbios 28:15), são tratados como tais.

Quando os que, como Ismael, têm sua mão contra todo homem, chegam por fim a ter a mão de todo homem contra eles. Há muito se observou que tiranos sanguinários raramente morrem em paz, mas recebem sangue para beber, pois são dignos disso.

Ad generum Cereris sine cæde et sanguine pauci

Descendunt reges et sicca morte tyranni

Quão poucos de todos os homens presunçosos que reinam

Descem em paz ao escuro domínio de Plutão!

Juvenal.

Versículos 10 a 14

A Queda da Família Real. (a.C. 593.)

Jerusalém, a cidade-mãe, é aqui representada por outra comparação. Ela é uma videira, e os príncipes são seus ramos. Tivemos essa comparação antes (Ezequiel 15).

  1. Jerusalém é como uma videira; a nação judaica também: “Como uma videira em teu sangue” (v. 10), o sangue real, como uma videira plantada em sangue e regada com sangue, que contribui muito para o florescimento e a frutificação das videiras.

Como se o sangue derramado tivesse sido destinado a adubar e melhorar o solo, em tamanha abundância foi derramado. E por algum tempo pareceu ter esse efeito, pois ela era frutífera e cheia de ramos por causa das águas, das muitas águas perto das quais fora plantada.

Lugares de grande impiedade podem prosperar por algum tempo; e uma videira plantada em sangue pode ser cheia de ramos. Jerusalém estava cheia de magistrados capazes, homens de discernimento, homens de instrução e experiência.

Eram varas fortes, ramos dessa videira de volume e força incomuns, ou estacas para sustentar essa videira, pois assim são esses magistrados. Os galhos dessa videira haviam chegado a tal maturidade que eram apropriados para deles fazer bastões brancos para os cetros dos que governavam (v. 11).

E são varas fortes as apropriadas para cetros, homens de discernimento sólido e resoluções firmes, aptos para ser magistrados. Quando a família real de Judá era numerosa e os tribunais de justiça estavam cheios de homens de discernimento e probidade, então a estatura de Jerusalém era elevada entre ramos espessos.

Quando o governo está em mãos boas e capazes, uma nação por isso se torna importante. Então ela não era tida como videira fraca e baixa, mas aparecia em sua altura, cidade distinta, com a multidão de seus ramos.

Tanquam lenta solent inter viburna cupressi, entre humildes vimes assim se eleva o cipreste. Em sua tranquilidade, como alguns leem no v. 10 aquilo que traduzimos “em teu sangue”, você era uma videira como esta. Quando Zedequias estava tranquilo e confortável sob o jugo do rei da Babilônia, seu reino assim florescia.

Veja como Deus é lento para a ira, como adia seus juízos e espera para mostrar graça.

  1. Essa videira agora está completamente destruída. Nabucodonosor, altamente provocado pela traição de Zedequias, a arrancou com fúria (v. 12), arruinou a cidade e o reino e cortou todos os ramos da família real que encontrou em seu caminho. A videira foi cortada rente ao chão, embora não tivesse sido arrancada pelas raízes.

O vento leste secou o fruto que fora crestado. Os jovens caíram pela espada ou foram levados ao cativeiro. Seu aspecto não tinha nada agradável; a perspectiva, nada promissora. Suas varas fortes foram quebradas e secaram; seus grandes homens foram cortados, juízes e magistrados depostos.

A própria videira está plantada no deserto (v. 13). A Babilônia era como deserto para os que do povo foram levados cativos para lá. A terra de Judá era como deserto para Jerusalém, agora que todo o país fora devastado e arrasado pelo exército caldeu: uma terra frutífera transformada em esterilidade.

“É queimada com fogo (Salmos 80:16), e esse fogo saiu de uma vara de seus ramos (v. 14). O próprio rei, ao se rebelar contra o rei da Babilônia, deu ocasião a todo esse dano. Ela pode agradecer a si mesma pelo fogo que a consome.”

“Por sua impiedade, se fez como mecha para as faíscas da cólera de Deus, de modo que seus próprios ramos servem de combustível para seu próprio consumo. Neles se acendeu o fogo que devorou o fruto, sendo os pecados dos mais velhos os juízos que destroem os mais jovens.”

“Seu fruto é queimado com seus próprios ramos, de modo que ela não tem vara forte para ser cetro para governar. Ninguém se encontra agora que seja apropriado para o governo ou ouse tomar sob sua responsabilidade esse estado em ruínas, como é a queixa (Isaías 3:6, 7).”

“Ninguém da casa de Davi resta que tenha direito de governar, nenhum homem sábio ou de discernimento que seja capaz de governar.” Vai mal a qualquer estado, e provavelmente irá pior, quando assim é privado das bênçãos do governo e não tem varas fortes para cetros.

Ai de você, ó terra, quando seu rei é uma criança! Pois é tão bom não ter vara quanto não ter uma vara forte. Aquelas varas fortes, temos motivo para temer, haviam sido instrumentos de opressão, auxiliares do rei em apanhar a presa e devorar homens, e agora são destruídas com ele.

A tirania é a entrada para a anarquia. E, quando a vara do governo é transformada na serpente da opressão, é justo que Deus diga: “Não haverá vara forte para ser cetro para governar; mas sejam os homens como os peixes do mar, onde os maiores devoram os menores”.

Repare: “Esta é uma lamentação e será para lamentação”. O profeta foi ordenado (v. 1) a erguer uma lamentação. E, tendo-o feito, a deixa para ser usada por outros.

“É uma lamentação para nós desta época e, continuando por muito tempo as desolações, será para lamentação dos que virão depois de nós. A criança ainda não nascida deplorará a destruição feita de Judá e Jerusalém pelos presentes juízos.”

“Demoraram muito a chegar; o arco levou muito tempo sendo retesado. Mas, agora que chegaram, continuarão, e seus tristes efeitos serão vinculados por herança à posteridade.”

Repare: os que completam a medida dos pecados de seus pais estão acumulando dores para seus filhos e lhes fornecendo assunto para lamentação. E nada lhes dá mais motivo para lamentar do que a derrubada do governo.


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