Matthew Henry

Ezequiel 10

Argumento

O profeta nos havia contado (Ezequiel 8:4) que, quando estava em visão em Jerusalém, viu ali a mesma manifestação da glória de Deus que vira junto ao rio Quebar.

Agora, neste capítulo, ele nos dá alguns detalhes dessa manifestação, na medida necessária para esclarecer mais dois sinais que anunciavam a destruição iminente de Jerusalém que Deus lhe mostrou:

I. A dispersão sobre a cidade das brasas tiradas do meio dos querubins, vv. 1-7.

II. A retirada da glória de Deus do templo, prestes a partir, vv. 8-22.

Quando Deus se retira de um povo, todos os juízos irrompem sobre ele.

Versículos 1 a 7

A Visão dos Querubins. (a.C. 593.)

Para nos inspirar santa reverência e temor de Deus, e encher-nos do temor a ele, podemos observar, nesta parte da visão que o profeta teve:

I. A manifestação gloriosa de sua majestade. Algo do mundo invisível aparece aqui no visível: algumas representações tênues de seu esplendor e beleza, algumas sombras, tão incomparáveis com a realidade e a substância quanto um retrato com uma pessoa viva.

Ainda assim, há aqui o bastante para nos obrigar à máxima reverência ao pensarmos em Deus e nos aproximarmos dele, se permitirmos que essa revelação nos impressione.

  1. Ele está aqui no firmamento acima da cabeça dos querubins, v. 1. Manifesta sua glória no mundo superior, onde a pureza e o esplendor são perfeitos. A vastidão do firmamento procura expressar a infinitude do Deus que ali habita. É o firmamento de seu poder e também de seu campo de visão, pois dali ele contempla todos os filhos dos homens.

A natureza divina transcende infinitamente a natureza dos anjos. Deus está acima da cabeça dos querubins não só por sua dignidade superior à deles, mas também por seu domínio sobre eles. Os querubins têm grande poder, sabedoria e influência, mas todos estão sujeitos a Deus e a Cristo.

  1. Ele está aqui sobre o trono, ou sobre aquilo que tinha a aparência da semelhança de um trono, pois a glória e o governo de Deus transcendem infinitamente todas as ideias mais brilhantes que nossa mente possa formar ou receber a respeito deles.

Era como uma pedra de safira, pura e resplandecente. Deus preparou semelhante trono nos céus, muito superior aos tronos de quaisquer governantes terrenos.

  1. Ele está aqui acompanhado de um glorioso séquito de santos anjos. Quando Deus entrou em seu templo, os querubins ficaram do lado direito da casa (v. 3), como a guarda pessoal de um príncipe diante da porta do palácio. Cristo tem anjos às suas ordens. A ordem dada a todos os anjos de Deus é que o adorem.

Alguns observam que eles ficaram do lado direito da casa, isto é, do lado sul, porque no lado norte estavam a imagem do ciúme e outras manifestações de idolatria, das quais desejavam manter a maior distância possível.

  1. A manifestação de sua glória está velada por uma nuvem, mas de dentro dela irrompe um esplendor deslumbrante. Na casa e no átrio interior havia nuvem e escuridão, que os enchiam; contudo, o átrio exterior, ou o mesmo átrio algum tempo depois, estava cheio do resplendor da glória do Senhor, v. 3, 4.

Houve uma irradiação de luz e esplendor; mas, se algum olhar demasiado curioso tentasse perscrutá-la, acabaria perdido numa nuvem. Sua justiça é visível como as grandes montanhas, e seu brilho enche o pátio; seus juízos, porém, são um grande abismo, que não podemos sondar, uma nuvem através da qual não podemos enxergar.

O esplendor revela o bastante para despertar reverência em nossa consciência e orientá-la, mas a nuvem nos impede de esperar que nossa curiosidade seja satisfeita, pois não podemos ordenar nossas palavras por causa da escuridão. Assim, em Habacuque 3:4, havia raios saindo de sua mão, e ali estava o esconderijo de seu poder.

Nada é mais claro do que a existência de Deus; nada é mais obscuro do que aquilo que ele é. Deus se cobre de luz e, no entanto, para nós, faz das trevas o seu pavilhão. Deus tomou posse do tabernáculo e do templo numa nuvem, que sempre foi o símbolo de sua presença. No templo celestial não haverá nuvem, mas veremos face a face.

  1. Os querubins produziam um som aterrador com as asas, v. 5. A vibração delas, como a das cordas dos instrumentos musicais, produzia uma melodia singular. Abelhas e outros insetos alados fazem ruído com as asas. É provável que isso indicasse que se preparavam para partir, estendendo e levantando as asas; esse som era como um aviso de sua partida.

Diz-se que esse som era como a voz do Deus Todo-Poderoso quando fala, como o trovão, chamado voz do Senhor (Salmos 29:3), ou como a voz do Senhor quando falou a Israel no monte Sinai. Por isso ele deu a lei naquela ocasião com grande terror, para indicar com quanto terror cobraria a transgressão dela, como estava prestes a fazer.

O som das asas deles era ouvido até no átrio exterior, o átrio do povo, pois a voz do Senhor, em seus juízos, clama na cidade. Isso pode ser ouvido até pelos que, ao contrário de Ezequiel, não veem as visões desses juízos.

II. As terríveis ordens de sua ira. Esta visão tem um propósito que vai além de mostrar a grandeza divina: novas ordens serão dadas para a destruição de Jerusalém. As maiores devastações são causadas pelo fogo e pela espada.

No capítulo anterior foram dadas ordens para uma matança geral dos habitantes de Jerusalém. Agora temos a ordem de reduzir a cidade a cinzas, espalhando sobre ela brasas tiradas do meio dos querubins na visão.

  1. Para que fossem expedidas as ordens de fazer isso, a glória do Senhor se elevou de sobre o querubim, como no capítulo anterior, para que ali fossem dadas as ordens (v. 3), e parou no limiar da casa. Isso imitava os tribunais que eles mantinham às portas de suas cidades.

O povo não quis ouvir os oráculos que Deus lhe entregara de seu santo templo; por isso, dali será obrigado a ouvir sua sentença.

  1. O homem vestido de linho que marcara os que seriam preservados será empregado nesse serviço. Pois o mesmo Jesus que é protetor e Salvador dos que creem recebeu todo o juízo, tanto o de condenação quanto o de absolvição, e virá em chama de fogo para tomar vingança dos que não obedecem a seu evangelho.

Aquele que está sentado no trono chama o homem vestido de linho para entrar entre as rodas, encher a mão de brasas tiradas do meio dos querubins e espalhá-las pela cidade. Isso indica:

(1.) Que a queima da cidade e do templo pelos caldeus era uma destruição decretada e que, ao realizá-la, executaram o conselho de Deus e fizeram o que ele havia determinado de antemão.

(2.) Que o fogo da ira divina, que acende o juízo sobre um povo, é justo e santo, pois é tirado do meio dos querubins. O fogo do altar de Deus, onde se fazia a expiação, fora desprezado. Para vingá-lo, agora vem do céu um fogo semelhante ao que matou Nadabe e Abiú por oferecerem fogo estranho.

Se uma cidade, uma vila ou uma casa é queimada, de propósito ou por acidente, ao remontarmos à origem do ocorrido descobriremos que as brasas que acenderam o fogo vieram do meio das rodas. Pois não há mal desse tipo numa cidade que o Senhor não tenha feito.

(3.) Que Jesus Cristo age por comissão do Pai, pois dele recebe autoridade para executar o juízo, porque é o Filho do Homem. Cristo veio lançar fogo sobre a terra (Lucas 12:49) e, no grande dia, por sua palavra reduzirá este mundo a cinzas. Pelo fogo de sua mão, a terra e todas as obras que nela existem serão queimadas.

  1. Esse homem vestido de linho prontamente se apresentou para esse serviço. Embora, por estar vestido de linho, não fosse nada apropriado que entrasse entre brasas ardentes, quando foi chamado respondeu: “Eis que venho”. Recebera esse mandamento do Pai e o cumpriu; o profeta o viu entrar, v. 2.

Ele entrou e ficou junto às rodas, esperando receber ali as brasas que devia espalhar, pois tudo o que Cristo tinha a dar ele primeiro recebeu, fosse misericórdia ou juízo. Foi instruído a apanhar fogo, mas esperou até que este lhe fosse entregue, mostrando quão lento é para executar o juízo e quão paciente é para conosco.

  1. Um dos querubins lhe entregou uma mão cheia de fogo do meio dos seres viventes. Quando o profeta viu essa visão pela primeira vez, observou que havia brasas acesas e lâmpadas que se moviam entre os seres viventes (Ezequiel 1:13). Foi dali que se tirou o fogo, v. 7.

O espírito abrasador, o fogo do refinador, com o qual Cristo purifica sua igreja, tem origem divina. É por meio de um fogo celestial, tirado do meio dos querubins, que maravilhas são realizadas. Os querubins colocaram-no em sua mão, pois os anjos estão prontos a ser empregados pelo Senhor Jesus e a servir a todos os seus propósitos.

  1. Depois de receber o fogo, ele saiu, sem dúvida para espalhá-lo por toda a cidade, como lhe fora ordenado. E quem poderá suportar o dia de sua vinda? Quem poderá permanecer diante dele quando sair em sua ira?

Versículos 8 a 22

A Visão da Glória Divina. (a.C. 593.)

Temos aqui uma descrição adicional da visão da glória de Deus que Ezequiel teve. Ela introduz o terrível presságio da partida dessa glória do meio deles, que abriria caminho para a chegada da ruína.

I. Ezequiel vê a glória de Deus resplandecendo no santuário, como a vira junto ao rio Quebar, e a descreve para que aqueles que, por sua perversidade, provocaram Deus a afastar-se deles soubessem o que perderam e passassem a lamentar sua ausência, gemendo seu Icabode: onde está a glória?

Ezequiel vê aqui as operações da Providência divina no governo do mundo inferior e de seus assuntos, representadas pelas quatro rodas. Vê também as perfeições dos santos anjos, habitantes do mundo superior, e os serviços que prestam, representados pelos quatro seres viventes, cada um dos quais tinha quatro rostos.

A atuação dos anjos na direção dos assuntos deste mundo é representada pela estreita ligação entre os seres viventes e as rodas: estas eram guiadas por eles em todos os seus movimentos, assim como um carro é guiado por quem o conduz.

Mas o fato de o mesmo Espírito estar tanto nos seres viventes quanto nas rodas indicava a sabedoria infinita que realiza seus propósitos por meio do serviço dos anjos e de todos os acontecimentos deste mundo inferior.

Assim, essa visão oferece à nossa fé uma imagem do trono que o Senhor preparou nos céus e do reino que domina sobre tudo, Salmos 103:19.

O profeta observa que esta era a mesma visão que tivera junto ao rio Quebar (v. 15, 22). Contudo, em um ponto parece haver uma diferença importante: o rosto que lá era de boi e ficava do lado esquerdo (Ezequiel 1:10) aqui é de querubim e aparece em primeiro lugar (v. 14).

Por isso alguns concluíram que o rosto próprio de um querubim era o de um boi, no qual os israelitas pensaram quando fizeram o bezerro de ouro.

Penso antes que, nesta visão posterior, o primeiro rosto tinha a aparência ou forma própria de um querubim. Ezequiel, por ser sacerdote, conhecia-a bem pelo que vira no templo do Senhor (1 Reis 6:29), mas nós hoje não temos certeza alguma de como era.

Por ela Ezequiel soube com segurança, enquanto antes apenas supunha, que todos eram querubins, embora assumissem rostos diferentes, v. 20. Esse primeiro aparecia na forma própria de um querubim. Ainda assim, como era adequado conservar o número de quatro, omite-se o rosto do boi, pois o rosto do querubim fora muito deturpado pelo culto a um boi.

Assim como Deus às vezes apareceu para livrar seu povo, agora, ao aparecer para afastar-se dele, montou num querubim e voou. Observe agora:

  1. Este mundo está sujeito a viradas, mudanças e diversas revoluções. O curso de seus acontecimentos é representado por rodas (v. 9): ora um raio está no alto, ora outro. Os acontecimentos estão sempre em fluxo e refluxo como o mar, crescem e minguam como a lua, 1 Samuel 2:4 e seguintes.

Mais que isso, sua aparência é como a de uma roda no meio de outra roda (v. 10). Isso indica as relações mútuas entre os atos da Providência, a dependência entre eles e a tendência conjunta de todos para um fim comum, embora para nós seus movimentos sejam complexos, desconcertantes e aparentemente contraditórios.

  1. Há admirável harmonia e uniformidade nos diversos acontecimentos da Providência (v. 13). Quanto às rodas, embora se movessem em várias direções, ouviu-se o chamado “Ó roda!” dirigido a elas. Todas formavam como que uma só, guiadas por um só Espírito para um só fim.

Pois Deus realiza tudo segundo o conselho de sua vontade, que é una, para sua glória, que é una. Isso torna a disposição dos acontecimentos pela Providência verdadeiramente admirável e digna de contemplação.

Assim como as obras de sua criação, consideradas separadamente, eram boas, mas todas juntas eram muito boas, também as rodas da Providência, consideradas isoladamente, são maravilhosas; reunidas, são maravilhosíssimas. “Ó roda!”

  1. Os movimentos da Providência são firmes e regulares, e o Senhor faz tudo o que lhe agrada sem jamais precisar formular novos planos. As rodas não se viravam ao andar (v. 11), e cada ser vivente seguia sempre em frente, v. 22.

Quaisquer que fossem as dificuldades em seu caminho, certamente as superariam, sem precisar parar, desviar-se ou voltar. Todas as obras de Deus são conhecidas por ele de forma tão perfeita que nunca precisa formular novos planos.

  1. Deus utiliza o serviço dos anjos no governo deste mundo inferior mais do que percebemos. As quatro rodas estavam junto dos querubins, uma roda junto de um querubim e outra junto de outro, v. 9.

Alguns imaginaram, a respeito das esferas superiores, que cada orbe tem uma inteligência para guiá-lo. Aqui se indica algo semelhante a respeito das rodas inferiores: cada roda tem um querubim que a conduz.

Seria motivo de satisfação saber que, sob o Deus sábio, homens sábios são empregados na administração dos assuntos dos reinos e das igrejas. Quer haja homens assim, quer não, esta visão mostra que anjos sábios são empregados: um querubim para cada roda.

  1. Todos os movimentos da Providência e todos os serviços dos anjos estão sob o governo do grande Deus. Todos estão cheios de olhos, aqueles olhos do Senhor que percorrem toda a terra e para os quais os anjos sempre olham, v. 12.

Os seres viventes e as rodas movem-se e param em conjunto (v. 17), pois o Espírito da vida, como também se pode ler, ou o espírito dos seres viventes, está nas rodas. O Espírito de Deus dirige todas as criaturas, superiores e inferiores, para que sirvam ao propósito divino.

Os acontecimentos não são determinados pela roda da fortuna, que é cega, mas pelas rodas da Providência, cheias de olhos.

II. Ezequiel vê a glória de Deus sair do santuário, lugar onde a honra divina habitara por muito tempo. Essa visão é tão triste quanto a outra era agradável. Era agradável ver que Deus não abandonara a terra, como alegavam os idólatras (Ezequiel 9:9), mas triste ver que estava abandonando seu santuário.

A glória do Senhor esteve sobre o limiar, de onde dera as ordens necessárias para a destruição da cidade, e depois esteve sobre os querubins: não aqueles do lugar santíssimo, mas os que Ezequiel via agora em visão, v. 18.

Ela subiu àquele carro majestoso, assim como um juiz, ao deixar o tribunal, entra em seu carro e parte. Imediatamente os querubins levantaram as asas (v. 19), como lhes fora ordenado, e se elevaram da terra como aves que alçam voo.

Quando partiram, as rodas desse carro não foram puxadas, mas se moveram por impulso próprio ao lado deles, o que mostrava que o espírito dos seres viventes estava nas rodas.

Assim, quando Deus abandona um povo por estar descontente com ele, os anjos no alto e todos os acontecimentos aqui embaixo colaborarão para essa partida.

Observe, porém: nos átrios do templo onde o povo de Israel desonrara seu Deus, rejeitara seu jugo e se recusara a carregá-lo, os anjos benditos mostram-se prontos a servi-lo, a puxar seu carro e a subir com ele.

Deus mostrou ao profeta como os homens na terra desobedeceram à sua vontade (Ezequiel 8). Aqui mostra como os anjos e as criaturas inferiores lhe obedecem prontamente.

Quando lamentamos a perversidade dos perversos, é consolo pensar que seus anjos cumprem suas ordens e atendem à voz de sua palavra, Salmos 103:20. Consideremos agora:

  1. Esse carro em que a glória do Deus de Israel avança triunfante. Aquele que é o Deus de Israel é o Deus do céu e da terra e comanda todas as forças de ambos.

Que os israelitas fiéis se consolem com o fato de que seu Deus está acima dos querubins. Seu Redentor também está (1 Pedro 3:22) e dispõe sozinho, com autoridade suprema, de todos os acontecimentos. Os seres viventes e as rodas concordam em servi-lo, de modo que ele é cabeça sobre todas as coisas para a igreja.

Os rabinos chamam essa visão de Ezequiel de Mercabah, a visão do carro. Por isso chamam a parte mais profunda da teologia, que trata de Deus e dos espíritos, de Opus currus, a obra do carro, assim como chamam a outra parte, mais simples e familiar, de Opus bereshith, a obra da criação.

  1. Acompanhemos os movimentos desse carro: os querubins, com a glória de Deus acima deles, pararam à entrada da porta oriental da casa do Senhor, v. 19.

Observe, porém, quantas vezes Deus para e hesita antes de partir, como se relutasse em ir embora, como se procurasse alguém que intercedesse para que ele voltasse.

Nenhum dos sacerdotes no átrio interior, entre o templo e o altar, pediu que ficasse. Por isso, ele deixa o átrio deles e para na porta oriental, que dava para o átrio do povo, para ver se enfim algum deles se colocaria na brecha.

Repare: Deus se afasta aos poucos de um povo que o provoca e, quando está prestes a partir contrariado, voltaria em misericórdia se esse povo se arrependesse e orasse.


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