Êxodo 4
Argumento
Este capítulo:
I. Continua e conclui o discurso de Deus com Moisés na sarça a respeito deste grande assunto de tirar Israel do Egito:
- Moisés objeta a incredulidade do povo (v. 1), e Deus responde a essa objeção dando-lhe poder para operar milagres:
(1.) Converter a sua vara em serpente, e depois em vara outra vez, vv. 2-5.
(2.) Tornar a sua mão leprosa, e depois sã outra vez, vv. 6-8.
(3.) Converter a água em sangue, v. 9.
- Moisés objeta a sua própria lentidão para falar (v. 10) e pede para ser escusado (v. 13); mas Deus responde a esta objeção:
(1.) Prometendo-lhe a sua presença, v. 11, 12.
(2.) Associando Arão a ele na comissão, vv. 14-16.
(3.) Pondo honra sobre o próprio bordão na sua mão, v. 17.
II. Começa a execução da comissão de Moisés:
Ele obtém licença do seu sogro para voltar ao Egito, v. 18.
Ele recebe de Deus mais instruções e encorajamentos, v. 19, 21-23.
Ele apressa a sua partida e leva a família consigo, v. 20.
Ele encontra alguma dificuldade no caminho, por causa da circuncisão do seu filho, vv. 24-26.
Ele tem a satisfação de encontrar o seu irmão Arão, v. 27, 28.
Ele apresenta a sua comissão diante dos anciãos de Israel, para grande alegria deles, vv. 29-31.
E assim as rodas foram postas em movimento rumo àquela grande libertação.
Versículos 1 a 8
As Objeções de Moisés Superadas. (a.C. 1491.)
Foi uma honra grandíssima aquela para a qual Moisés foi chamado quando Deus lhe deu a comissão de tirar Israel do Egito; e no entanto é com dificuldade que ele se deixa persuadir a aceitar a comissão, e o faz por fim muito a contragosto.
Isso devemos antes atribuir a uma humilde insegurança quanto a si mesmo e à sua própria suficiência do que a qualquer desconfiança incrédula de Deus, da sua palavra e do seu poder.
Repare: aqueles que Deus destina a cargos elevados ele reveste de humildade; os mais aptos para o serviço são os menos afoitos.
I. Moisés objeta que, com toda a probabilidade, o povo não daria ouvidos à sua voz (v. 1), isto é, não aceitaria a sua palavra sem provas, a não ser que lhes mostrasse algum sinal, coisa que ainda não fora instruído a fazer.
Esta objeção não se pode justificar, porque contradiz o que Deus dissera (Êxodo 3:18): “Eles darão ouvidos à tua voz”. Se Deus diz que darão, fica bem a Moisés dizer que não darão?
Sem dúvida ele quer dizer: “Talvez não deem ouvidos de início, ou alguns deles não deem”. Se houvesse entre eles alguns contraditores que pusessem em dúvida a sua comissão, como deveria tratar com eles? E que caminho deveria tomar para convencê-los?
Ele se lembrava de como uma vez o haviam repelido, e temia que assim fosse de novo. Repare:
Os desânimos presentes muitas vezes nascem de decepções anteriores.
Homens sábios e bons têm às vezes das pessoas uma opinião pior do que elas merecem.
Moisés disse (v. 1): “Eles não crerão em mim”; e no entanto felizmente se enganava, porque está dito (v. 31): “O povo creu”. Mas então os sinais que Deus determinou em resposta a esta objeção foram primeiro operados diante dos olhos deles.
II. Deus o habilita a operar milagres e o dirige a três em particular, dois dos quais foram agora mesmo operados para satisfação dele próprio.
Repare: os milagres verdadeiros são as provas externas mais convincentes de uma missão divina por eles atestada. Por isso o nosso Salvador muitas vezes apelou para as suas obras (como em João 5:36), e Nicodemos se reconhece convencido por elas, João 3:2.
E aqui Moisés, tendo-lhe sido dada uma comissão especial como juiz e legislador de Israel, tem este selo aposto à sua comissão, e vem apoiado nestas credenciais.
- A vara na sua mão é feita objeto de um milagre, de um milagre duplo: basta ser lançada da sua mão e vira serpente; ele a retoma e ela vira vara outra vez, vv. 2-4. Ora:
(1.) Aqui houve um poder divino manifestado na própria mudança: que um pau seco fosse convertido numa serpente viva, e vivaz, tão temível que o próprio Moisés, sobre quem, ao que parece, ela se voltou de modo ameaçador, fugiu de diante dela, ainda que possamos supor que, naquele deserto, serpentes não fossem para ele coisa estranha.
Mas o que era produzido milagrosamente era sempre o melhor e o mais forte da sua espécie, como a água convertida em vinho.
E, depois, que esta serpente viva fosse convertida de novo em pau seco: isto foi obra do Senhor.
(2.) Aqui houve uma honra conferida a Moisés: que esta mudança foi operada ao lançá-la ele ao chão e ao levantá-la, sem feitiço algum, nem sortilégio, nem encantamento.
O ser ele assim habilitado a agir sob Deus, fora do curso comum da natureza e da providência, era uma demonstração da sua autoridade, sob Deus, para estabelecer uma nova dispensação do reino da graça. Não podemos imaginar que o Deus da verdade delegasse um poder como este a um impostor.
(3.) Havia um significado no próprio milagre. Faraó tinha convertido a vara de Israel em serpente, representando-os como perigosos (Êxodo 1:10), fazendo o ventre deles colar-se ao pó e buscando a sua ruína; mas agora eles seriam convertidos em vara outra vez.
Ou então: Faraó tinha convertido a vara do governo na serpente da opressão, da qual o próprio Moisés fugira para Midiã; mas pela ação de Moisés a cena foi alterada outra vez.
(4.) Havia nele uma tendência direta a convencer os filhos de Israel de que Moisés era de fato enviado de Deus para fazer o que fazia, v. 5. Os milagres eram por sinais para os que não criam, 1 Coríntios 14:22.
- Em seguida, a sua própria mão é feita objeto de um milagre. Ele a mete uma vez no seio e a tira leprosa; mete-a de novo no mesmo lugar e a tira sã, v. 6, 7. Isto significava:
(1.) Que Moisés, pelo poder de Deus, traria doenças graves sobre o Egito, e que, à sua oração, elas seriam removidas.
(2.) Que, ao passo que os israelitas no Egito se tinham tornado leprosos, poluídos pelo pecado e quase consumidos pela opressão (um leproso é como um morto, Números 12:12), ao serem recolhidos ao seio de Moisés seriam limpos e curados, e teriam todos os seus agravos reparados.
(3.) Que Moisés não devia operar milagres pelo seu próprio poder, nem para o seu próprio louvor, mas pelo poder de Deus e para a glória dele; a mão leprosa de Moisés exclui para sempre qualquer vanglória. Ora, supunha-se que, se o primeiro sinal não convencesse, este segundo convenceria.
Repare: Deus está disposto a mostrar mais abundantemente a verdade da sua palavra, e não é avaro nas suas provas; a multidão e a variedade dos milagres corroboram a evidência.
- Ele é orientado, quando chegar ao Egito, a converter em sangue parte da água do rio, v. 9.
Isto foi feito, de início, como sinal; mas, não ganhando o devido crédito junto a Faraó, o rio inteiro foi depois convertido em sangue, e então isso se tornou uma praga. Ele recebe ordem de operar este milagre caso eles não se convencessem pelos outros dois.
Repare: a incredulidade será deixada sem desculpa, e convicta de uma obstinação voluntária.
Quanto ao povo de Israel, Deus tinha dito (Êxodo 3:18): “Eles darão ouvidos”; e no entanto ele determina que estes milagres sejam operados para convencê-los, porque aquele que ordenou o fim ordenou os meios.
Versículos 10 a 17
Moisés continua relutante diante do serviço para o qual Deus o havia destinado, e a ponto de ser falta; porque agora já não podemos atribuir isso à sua humildade e à sua modéstia, mas temos de reconhecer que havia aqui covardia, preguiça e incredulidade demais. Observe aqui:
I. Como Moisés se esforça por escusar-se da obra.
- Ele alega que não era bom porta-voz: “Ó meu Senhor! não sou eloquente”, v. 10.
Ele era um grande filósofo, estadista e teólogo, e ainda assim não era orador; homem de cabeça clara, de grande pensamento e de juízo sólido, mas não tinha língua fluente, ou expressão pronta.
Por isso se julgava inapto para falar diante de grandes homens sobre grandes assuntos, e em perigo de ser atropelado pelos egípcios. Observe:
(1.) Não devemos julgar os homens pela prontidão e pela fluência do seu discurso.
Moisés era “poderoso em palavra” (Atos 7:22), e ainda assim não era eloquente: o que ele dizia era forte e vigoroso, e ia ao ponto, e “destilava como o orvalho” (Deuteronômio 32:2), ainda que não se exprimisse com aquela prontidão, facilidade e elegância que alguns têm, os quais não possuem a décima parte do seu bom senso.
A fala de São Paulo era “desprezível”, 2 Coríntios 10:10. Muita sabedoria e muito valor verdadeiro ficam escondidos atrás de uma língua lenta.
(2.) Deus se agrada, às vezes, de escolher como seus mensageiros os que menos têm das vantagens da arte ou da natureza, para que a sua graça neles apareça tanto mais gloriosa. Os discípulos de Cristo não eram oradores, até que o Espírito os fez tais.
- Quando esta alegação foi rejeitada, e todas as suas escusas foram respondidas, ele pediu que Deus enviasse outra pessoa com esse encargo e o deixasse guardando ovelhas em Midiã (v. 13): “Envia por qualquer mão, menos pela minha; certamente podes achar alguém muito mais apto.”
Repare: uma mente sem disposição se contenta com uma escusa reles em vez de nenhuma, e está disposta a transferir a outros aqueles serviços que tenham em si alguma coisa de dificuldade ou de perigo.
II. Como Deus condescende em responder a todas as suas escusas.
Ainda que “a ira do Senhor se acendesse contra ele” (v. 14), contudo ele continuou a arrazoar com ele, até tê-lo vencido.
Repare: até a desconfiança de si mesmo, quando cresce ao extremo — quando ou nos impede de cumprir o dever ou nos embaraça no dever, ou quando desanima a nossa dependência da graça de Deus —, é muito desagradável a ele.
Deus desaprova com justiça a nossa relutância em servi-lo, e tem razão para levá-la a mal; porque ele é um benfeitor que se adianta a nós, e um remunerador que não ficará atrás de nós.
Repare ainda: Deus se desagrada com justiça daqueles a quem, contudo, não repele; ele se digna a arrazoar a causa até com os seus filhos rebeldes, e os vence, como venceu Moisés aqui, com graça e bondade.
- Para contrabalançar a fraqueza de Moisés, ele aqui o lembra do seu próprio poder, v. 11.
(1.) O seu poder naquilo a respeito do que Moisés fez a objeção: “Quem fez a boca do homem? Não fui eu, o Senhor?”
Moisés sabia que Deus fez o homem, mas precisava ser lembrado agora de que Deus fez a boca do homem. Um olhar para Deus como Criador nos ajudaria a passar por cima de muitíssimas das dificuldades que estão no caminho do nosso dever, Salmos 124:8.
Deus, como autor da natureza, nos deu o poder e a faculdade de falar; e dele, como fonte de dons e graças, vem a faculdade de falar bem, “a boca e a sabedoria” (Lucas 21:15), “a língua dos doutos” (Isaías 50:4); ele “derrama graça nos lábios”, Salmos 45:2.
(2.) O seu poder em geral sobre as outras faculdades. Quem senão Deus faz o mudo e o surdo, o que vê e o cego?
[1.] As perfeições das nossas faculdades são obra dele; ele faz o que vê; ele “formou o olho” (Salmos 94:9); ele abre o entendimento, o olho da mente, Lucas 24:45.
[2.] As imperfeições delas também vêm dele; ele faz o mudo, e o surdo, e o cego. Haverá algum mal desta espécie, e o Senhor não o terá feito? Sem dúvida fez, e sempre em sabedoria e justiça, e para a sua própria glória, João 9:3.
Faraó e os egípcios foram feitos surdos e cegos espiritualmente, como em Isaías 6:9, 10. Mas Deus sabia como conduzi-los e obter honra sobre eles.
- Para encorajá-lo neste grande empreendimento, ele repete a promessa da sua presença, não só em geral, “Eu serei contigo” (Êxodo 3:12), mas em particular: “Eu serei com a tua boca, de modo que a imperfeição da tua fala não será prejuízo nenhum para a tua mensagem.”
Não parece que Deus tenha removido diretamente a enfermidade, qualquer que fosse ela; mas fez o que era equivalente: ensinou-lhe o que dizer, e depois deixou que a coisa se recomendasse por si mesma; se outros falavam com mais graça, nenhum falava com mais poder.
Repare: aqueles a quem Deus emprega para falar por ele devem depender dele quanto às instruções, e “lhes será dado o que hão de falar”, Mateus 10:19.
- Ele associa Arão a ele na comissão. Ele promete que Arão o encontrará em boa hora, e que se alegrará de vê-lo, não se tendo os dois visto (é provável) por muitos anos, v. 14.
Ele o instrui a servir-se de Arão como seu porta-voz, v. 16. Deus poderia ter posto Moisés inteiramente de lado, pela sua relutância em ser empregado; mas considerou a sua constituição e lhe destinou um auxiliar. Observe:
(1.) “Dois são melhores do que um”, Eclesiastes 4:9. Deus terá as suas “duas testemunhas” (Apocalipse 11:3), para que da boca deles toda palavra seja estabelecida.
(2.) Arão era irmão de Moisés, tendo a sabedoria divina assim ordenado, para que o afeto natural de um pelo outro fortalecesse a sua união na execução conjunta da comissão deles. Cristo enviou os seus discípulos de dois em dois, e alguns dos pares eram irmãos.
(3.) Arão era o irmão mais velho, e ainda assim estava disposto a ser empregado sob Moisés neste assunto, porque Deus assim o queria.
(4.) Arão sabia falar bem, e ainda assim era muito inferior a Moisés em sabedoria. Deus dispensa os seus dons de modos diversos aos filhos dos homens, para que vejamos a nossa necessidade uns dos outros, e cada um contribua com algo para o bem do corpo, 1 Coríntios 12:21.
A língua de Arão, com a cabeça e o coração de Moisés, faria alguém completamente apto para esta embaixada.
(5.) Deus promete: “Eu serei com a tua boca, e com a boca dele.”
Até Arão, que sabia falar bem, não podia contudo falar a propósito se Deus não estivesse com a sua boca; sem os auxílios constantes da graça divina, os melhores dons falharão.
- Ele lhe manda tomar a vara consigo na mão (v. 17), para dar a entender que devia levar a cabo o seu empreendimento antes agindo do que falando.
Os sinais que operaria com esta vara poderiam suprir abundantemente a falta de eloquência; um só milagre lhe prestaria melhor serviço do que toda a retórica do mundo.
“Toma esta vara”: a vara que ele carregava como pastor, para que não se envergonhasse daquela condição humilde da qual Deus o chamou.
Esta vara devia ser o seu bordão de autoridade, e devia servir-lhe em lugar tanto de espada quanto de cetro.
Versículos 18 a 23
Moisés Volta ao Egito. (a.C. 1491.)
Aqui:
I. Moisés obtém licença do sogro para voltar ao Egito, v. 18.
O sogro tinha sido bondoso com ele quando era estrangeiro, e por isso ele não seria tão sem consideração a ponto de deixar a família dele, nem tão injusto a ponto de deixar o serviço dele, sem avisá-lo.
Repare: a honra de ser admitido à comunhão com Deus, e de ser empregado por ele, não nos isenta dos deveres das nossas relações e dos nossos chamados neste mundo.
Moisés nada disse ao sogro (pelo que se pode ver) da gloriosa manifestação de Deus a ele; por tais favores devemos ser gratos a Deus, mas não nos gabar deles diante dos homens.
II. Ele recebe de Deus mais encorajamentos e mais orientações na sua obra.
Depois que Deus lhe apareceu na sarça para estabelecer uma relação contínua, ao que parece, falava-lhe muitas vezes, conforme houvesse ocasião, com solenidade menos avassaladora. E:
- Ele assegura a Moisés que o campo estava livre.
Quaisquer inimigos novos que ele viesse a fazer com o seu empreendimento, os seus inimigos antigos estavam todos mortos, todos os que buscavam a sua vida, v. 19.
Talvez algum temor secreto de cair nas mãos deles estivesse no fundo da relutância de Moisés em ir ao Egito, embora ele não quisesse admiti-lo, mas alegasse indignidade, insuficiência, falta de eloquência, etc.
Repare: Deus conhece todas as tentações a que o seu povo está sujeito, e como armá-lo contra os seus temores secretos, Salmos 142:3.
- Ele lhe ordena que faça os milagres não só diante dos anciãos de Israel, mas diante de Faraó, v. 21.
Talvez houvesse alguns vivos na corte de Faraó que se lembravam de Moisés quando ele era filho da filha de Faraó, e que muitas vezes o tinham chamado de tolo por abandonar as honras daquela relação.
Mas ele é agora enviado de volta à corte, revestido de poderes maiores do que aqueles a que a filha de Faraó poderia tê-lo elevado, de modo que pudesse parecer que ele nada perdeu com a sua escolha: esta vara operadora de maravilhas adornou mais a mão de Moisés do que o cetro do Egito poderia ter feito.
Repare: aqueles que olham com desprezo para as honras mundanas serão recompensados com a honra que vem de Deus, que é a verdadeira honra.
- Para que a obstinação de Faraó não seja surpresa nem desânimo para ele, Deus lhe diz de antemão que endureceria o coração dele.
Faraó tinha endurecido o próprio coração contra os gemidos e os clamores dos israelitas oprimidos, e fechara para eles as entranhas da sua compaixão. E agora Deus, por via de juízo justo, endurece o coração dele contra a convicção dos milagres e o terror das pragas.
Repare: os ministros devem esperar trabalhar em vão com muitos: não devemos achar estranho se encontrarmos aqueles que não se deixam mover pelos argumentos mais fortes nem pelos raciocínios mais justos; contudo o nosso juízo está com o Senhor.
- São postas palavras na sua boca com que dirigir-se a Faraó, v. 22, 23.
Deus lhe tinha prometido (v. 12): “Eu te ensinarei o que hás de dizer”; e aqui ele de fato o ensina.
(1.) Ele deve proferir a sua mensagem em nome do grande Jeová: “Assim diz o Senhor”.
Esta é a primeira vez que esse prefácio é usado por um homem, prefácio que depois é usado com tanta frequência por todos os profetas: quer Faraó ouça, quer deixe de ouvir, Moisés deve dizer-lhe: “Assim diz o Senhor”.
(2.) Ele deve dar a conhecer a Faraó a relação de Israel com Deus, e o cuidado de Deus por Israel.
“É Israel servo? É ele escravo nascido em casa?” Jeremias 2:14. “Não: Israel é meu filho, meu primogênito, precioso aos meus olhos, honrado e caro a mim, para não ser assim insultado e maltratado.”
(3.) Ele deve exigir a soltura deles: “Deixa ir o meu filho; não apenas o meu servo, que tu não tens direito de reter, mas o meu filho, por cuja liberdade e honra sou muito zeloso.
É meu filho, o meu filho que me serve, e por isso deve ser poupado, deve ter quem por ele alegue”, Malaquias 3:17.
(4.) Ele deve ameaçar Faraó com a morte do primogênito do Egito, em caso de recusa: “Matarei o teu filho, sim, o teu primogênito”.
Assim como os homens tratam o povo de Deus, que esperem ser eles mesmos tratados; com o perverso ele lutará.
III. Moisés se põe a esta expedição.
Quando Deus lhe tinha assegurado (v. 19) que estavam mortos os homens que buscavam a sua vida, imediatamente se segue (v. 20) que ele tomou a sua mulher e os seus filhos e partiu para o Egito.
Repare: embora a corrupção possa objetar muito contra os serviços a que Deus nos chama, contudo a graça levará a melhor e será obediente à visão celestial.
Versículos 24 a 31
A Circuncisão do Filho de Moisés. (a.C. 1491.)
Moisés está aqui de partida para o Egito, e nos é dito:
I. Como Deus o encontrou em ira, vv. 24-26. Esta é uma passagem muito difícil da narrativa; muito se escreveu, e com excelência, para torná-la inteligível; nós tentaremos torná-la proveitosa. Aqui está:
- O pecado de Moisés, que foi negligenciar a circuncisão do seu filho. Isso provavelmente foi efeito de estar em jugo desigual com uma midianita, que era indulgente demais com o filho, enquanto Moisés era indulgente demais com ela. Repare:
(1.) Precisamos vigiar com cuidado sobre o nosso próprio coração, para que a afeição por algum parente não prevaleça acima do nosso amor a Deus e não nos afaste do nosso dever para com ele. É imputado a Eli que honrou os seus filhos mais do que a Deus (1 Samuel 2:29); e veja Mateus 10:37.
(2.) Até os homens bons são propensos a esfriar no seu zelo por Deus e pelo dever quando ficam por muito tempo privados da sociedade dos fiéis: a solidão tem as suas vantagens, mas elas raramente compensam a perda da comunhão cristã.
- O desagrado de Deus para com ele. Ele o encontrou e, provavelmente por meio de uma espada na mão de um anjo, procurou matá-lo.
Essa foi uma grande mudança; ainda há pouco Deus estava em comunhão com ele e depositando nele uma confiança, como a um amigo; e agora vem contra ele como um inimigo. Repare:
(1.) As omissões são pecados e têm de vir a juízo, e em particular o desprezo e a negligência dos selos da aliança; porque é sinal de que subestimamos as promessas da aliança e estamos descontentes com as condições dela.
De quem fez um trato e não está disposto a selá-lo e ratificá-lo, pode-se justamente suspeitar que nem gosta dele nem tenciona mantê-lo.
(2.) Deus repara nos pecados do seu próprio povo e muito se desagrada com eles. Se eles negligenciam o seu dever, que esperem ouvir a respeito disso pela consciência, e talvez sentir por providências adversas: por esta causa muitos estão doentes e fracos, como alguns pensam que Moisés estava aqui.
- O pronto cumprimento do dever por cuja negligência Deus tinha agora uma contenda com ele.
O seu filho tem de ser circuncidado; Moisés não pode circuncidá-lo; por isso, neste caso de necessidade, Zípora o faz. Talvez suas palavras fossem inflamadas, exprimindo aversão à própria ordenança, ou ao menos à aplicação dela a uma criança tão nova durante a viagem; esta me parece a leitura mais provável.
Ou talvez fossem palavras apropriadas, exprimindo solenemente a dedicação da criança a Deus pela aliança da circuncisão, como alguns entendem. Outros veem nelas a gratidão de Zípora por Deus ter poupado seu marido, dando-lhe nova vida e dando a ela, por assim dizer, um novo casamento com ele após a circuncisão do filho. Não posso decidir; mas aprendemos:
(1.) Que, quando Deus nos revela o que está errado na nossa vida, temos de dar toda a diligência para emendá-lo prontamente, e em particular voltar aos deveres que negligenciamos.
(2.) O afastamento dos nossos pecados é indispensavelmente necessário para a remoção dos juízos de Deus. Esta é a voz de toda vara: ela nos chama a voltar para aquele que nos fere.
- A libertação de Moisés em consequência disso: “Assim ele o deixou ir”; o mal passou, o anjo destruidor se retirou, e tudo ficou bem.
Só que Zípora não consegue esquecer o susto em que esteve, e sem razão chama Moisés de “marido de sangue”, porque ele a obrigou a circuncidar a criança; e, nesta ocasião (é provável), ele os mandou de volta ao sogro, para que não lhe criassem mais nenhum incômodo. Repare:
(1.) Quando voltamos a Deus por caminho de dever, ele voltará a nós por caminho de misericórdia; tire a causa, e o efeito cessará.
(2.) Temos de resolver suportá-lo com paciência, se o nosso zelo por Deus e pelas suas instituições for mal interpretado e desanimado por alguns que deveriam entender melhor a si mesmos, a nós e ao dever deles, como o zelo de Davi foi mal interpretado por Mical; mas se isto é ser vil, se isto é ser sanguinário, temos de ser ainda mais.
(3.) Quando temos algum serviço especial a fazer para Deus, devemos afastar de nós o mais longe que pudermos aquilo que provavelmente será o nosso estorvo. “Deixa os mortos sepultar os seus mortos, mas segue-me tu.”
II. Como Arão o encontrou em amor, v. 27, 28:
Deus enviou Arão ao seu encontro e o dirigiu onde encontrá-lo, no deserto que ficava para o lado de Midiã. Repare: a providência de Deus deve ser reconhecida no encontro reconfortante de parentes e amigos.
Arão se apressou tanto, em obediência ao seu Deus e em amor ao seu irmão, que o encontrou no monte de Deus, o lugar onde Deus se encontrara com ele.
Eles se abraçaram com carinhos mútuos. Quanto mais viam da direção direta de Deus em reuni-los, mais agradável era o encontro deles: eles se beijaram, não só em sinal de afeto fraternal e em lembrança da antiga convivência, mas como penhor da sua concordância cordial na obra para a qual foram chamados juntos.
Moisés informou o seu irmão da comissão que tinha recebido, com todas as instruções e credenciais anexadas a ela, v. 28.
Repare: o que sabemos de Deus devemos comunicar para o benefício de outros; e os que são conservos de Deus na mesma obra devem usar de mútua liberdade e empenhar-se em entender um ao outro certa e plenamente.
III. Como os anciãos de Israel o encontraram em fé e obediência. Quando Moisés e Arão abriram pela primeira vez a sua comissão no Egito, disseram o que lhes fora ordenado dizer e, para confirmá-lo, fizeram o que lhes fora ordenado fazer, tiveram uma recepção melhor do que a que prometiam a si mesmos, vv. 29-31.
- Os israelitas lhes deram crédito: “O povo creu”, como Deus tinha predito (Êxodo 3:18), sabendo que homem nenhum poderia fazer aquelas obras que eles faziam, se Deus não estivesse com ele.
Eles deram glória a Deus: “inclinaram as suas cabeças e adoraram”, exprimindo nisso não só a sua humilde gratidão a Deus, que os tinha levantado e lhes enviara um libertador, mas também a sua alegre prontidão para observar as ordens e seguir os métodos da sua libertação.