Êxodo 3
Argumento
Assim como a profecia cessara por muitas eras antes da vinda de Cristo, para que o reavivamento e a perfeição dela naquele grande profeta fossem tanto mais notáveis, assim a visão cessara (ao que parece) entre os patriarcas por algumas eras antes da vinda de Moisés, para que as aparições de Deus a ele para a salvação de Israel fossem tanto mais bem-vindas.
E neste capítulo temos a primeira aparição de Deus a ele na sarça e o colóquio entre Deus e Moisés naquela visão. Aqui está:
I. A revelação que Deus houve por bem fazer da sua glória a Moisés na sarça, da qual Moisés foi proibido de se aproximar demais, vv. 1-5.
II. Uma declaração geral da graça e da boa vontade de Deus para com o seu povo, que era amado por causa dos seus pais, v. 6.
III. Uma notificação particular do propósito de Deus a respeito da libertação de Israel do Egito:
Ele assegura a Moisés que agora seria feito, vv. 7-9.
Ele lhe dá uma comissão para atuar nisso como seu embaixador tanto diante de Faraó (v. 10) quanto diante de Israel, v. 16.
Ele responde à objeção que Moisés fez da sua própria indignidade, v. 11, 12.
Ele lhe dá instruções completas sobre o que dizer tanto a Faraó quanto a Israel, vv. 13-18.
Ele lhe diz de antemão qual seria o desfecho, v. 19, etc.
Versículo 1
A Sarça Ardente. (a.C. 1491.)
Os anos da vida de Moisés dividem-se de modo notável em três quarentenas: os primeiros quarenta ele passou como príncipe na corte de Faraó, os segundos como pastor em Midiã, os terceiros como rei em Jesurum; tão mutável é a vida dos homens, sobretudo a vida dos homens bons.
Ele acabara de completar a sua segunda quarentena quando recebeu a incumbência de tirar Israel do Egito.
Repare: às vezes demora muito até que Deus chame os seus servos para aquela obra à qual desde antes ele os destinou, e para a qual vinha graciosamente preparando-os.
Moisés nasceu para ser o libertador de Israel, e mesmo assim não se lhe diz uma palavra sobre isso até ele ter oitenta anos de idade. Agora observe:
I. Como esta aparição de Deus o encontrou ocupado. Ele estava guardando o rebanho (apascentando ovelhas) perto do monte Horebe, v. 1.
Era uma ocupação pobre para um homem dos seus talentos e da sua educação; ainda assim ele se dá por satisfeito com ela, e assim aprende mansidão e contentamento em alto grau, pelo que é mais celebrado na Escritura sagrada do que por toda a sua outra instrução. Repare:
Devemos permanecer na vocação para a qual fomos chamados, e não ser dados a mudanças.
Mesmo aqueles que estão qualificados para grandes empregos e serviços não devem estranhar se forem confinados à obscuridade; foi essa a sorte de Moisés antes deles, que nada previa em contrário senão que morreria, como havia vivido por muito tempo, pastor pobre e desprezível.
Que aqueles que se julgam enterrados vivos se contentem em brilhar como lâmpadas nos seus sepulcros, e esperem até que chegue o tempo de Deus para pô-los sobre um candeeiro.
Era assim que Moisés estava ocupado quando foi honrado com esta visão. Repare:
(1.) Deus animará a diligência no trabalho. Os pastores estavam guardando os seus rebanhos quando receberam a notícia do nascimento do nosso Salvador, Lucas 2:8. Satanás gosta de nos encontrar ociosos; Deus se agrada quando nos encontra ocupados.
(2.) O retiro é bom amigo da nossa comunhão com Deus. Quando estamos sozinhos, o Pai está conosco. Moisés viu mais de Deus num deserto do que jamais vira na corte de Faraó.
II. Qual foi a aparição. Para grande surpresa sua, ele viu uma sarça ardendo, sem perceber fogo algum vindo da terra ou do céu que a acendesse, e, o que era mais estranho, ela não se consumia, v. 2.
Foi um anjo do Senhor que lhe apareceu; alguns pensam que um anjo criado, que fala na linguagem daquele que o enviou; outros, a segunda pessoa, o anjo da aliança, que é ele mesmo Jeová.
Foi uma manifestação extraordinária da presença e da glória divinas; o que era visível foi produzido pelo ministério de um anjo, mas ele ouviu Deus nela falando-lhe.
- Ele viu uma chama de fogo; porque “o nosso Deus é um fogo consumidor”. Quando a libertação de Israel do Egito foi prometida a Abraão, ele viu uma lâmpada ardente, que significava a luz de alegria que aquela libertação causaria (Gênesis 15:17).
Mas agora ela brilha mais forte, como uma chama de fogo, porque Deus, naquela libertação, trouxe terror e destruição aos seus inimigos, luz e calor ao seu povo, e exibiu a sua glória diante de todos. Veja Isaías 10:17.
Este fogo não estava num cedro alto e majestoso, mas numa sarça, uma sarça espinhosa, que é o que a palavra significa; porque Deus escolhe as coisas fracas e desprezadas do mundo (como Moisés, agora um pobre pastor), para com elas confundir os sábios; ele se compraz em embelezar e coroar os humildes.
A sarça ardia, e contudo não se consumia: um emblema da igreja, então em servidão no Egito, ardendo nos fornos de tijolos, e contudo não consumida; “perplexa, mas não desesperada; abatida, mas não destruída”.
III. A curiosidade que Moisés teve de indagar sobre esta visão extraordinária: “Vou desviar-me e ver”, v. 3.
Ele fala como quem é inquisitivo e ousado na sua indagação; fosse o que fosse, ele queria, se possível, saber o significado daquilo. Repare: as coisas reveladas nos pertencem, e devemos indagar sobre elas com diligência.
IV. O convite que ele teve para se aproximar, mas com a advertência de não chegar perto demais, nem de modo temerário:
- Deus lhe deu um chamado gracioso, ao qual ele devolveu uma resposta pronta, v. 4. Quando Deus viu que ele reparou na sarça ardente, e se desviou para vê-la, e deixou o seu trabalho para se dedicar a ela, então Deus o chamou.
Se ele a tivesse descuidadamente negligenciado como um ignis fatuus — um meteoro enganador, coisa em que não vale a pena reparar —, é provável que Deus tivesse se retirado e nada lhe tivesse dito; mas, quando ele se desviou, Deus o chamou.
Repare: aqueles que quiserem ter comunhão com Deus devem dedicar-se a ele e aproximar-se dele naquelas ordenanças em que ele se agrada de manifestar a si mesmo, e o seu poder e a sua glória, ainda que seja numa sarça; devem vir ao tesouro, ainda que em vaso de barro.
Aqueles que buscam a Deus com diligência o encontrarão, e o encontrarão como seu generoso galardoador. “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós.”
Deus o chamou pelo nome: “Moisés, Moisés”. Isto que ele ouviu não podia deixar de surpreendê-lo muito mais do que o que ele viu.
A palavra do Senhor sempre acompanhava a glória do Senhor, porque toda visão divina era destinada à revelação divina, Jó 4:16, etc.; Jó 33:14-15. Os chamados divinos são então eficazes:
(1.) Quando o Espírito de Deus os torna particulares, e nos chama pelo nome. A palavra chama: “Ó, todos vós!” O Espírito, pela aplicação dela, chama: “Ó, fulano!” “Eu te conheço pelo nome”, Êxodo 33:12.
(2.) Quando lhes devolvemos uma resposta obediente, como Moisés aqui: “Eis-me aqui; que diz o meu Senhor ao seu servo? Eis-me aqui, não só para ouvir o que é dito, mas para fazer o que me for ordenado.”
- Deus lhe deu uma advertência necessária contra a temeridade e a irreverência na sua aproximação:
(1.) Ele deve manter a sua distância; aproximar-se, mas não perto demais; perto o bastante para ouvir, mas não tão perto que possa bisbilhotar.
A sua consciência deve ser satisfeita, mas não a sua curiosidade; e é preciso cuidar para que a familiaridade não gere desprezo.
Repare: em todas as nossas aproximações a Deus, devemos ser profundamente tocados pela distância infinita que há entre nós e Deus, Eclesiastes 5:2.
Ou isto pode ser tomado como próprio da dispensação do Antigo Testamento, que era uma dispensação de trevas, servidão e terror, da qual o evangelho felizmente nos livra, dando-nos ousadia para entrar no santíssimo lugar, e convidando-nos a nos aproximar.
(2.) Ele deve expressar a sua reverência e a sua prontidão para obedecer: “Tira os teus sapatos dos teus pés”, como um servo. Tirar o sapato era então o que tirar o chapéu é hoje: um sinal de respeito e submissão.
“O chão, no presente, é chão santo, feito assim por esta manifestação especial da presença divina, e enquanto ela durar ele deve conservar este caráter; portanto não pise nesse chão com sapatos sujos.” “Guarda o teu pé”, Eclesiastes 5:1.
Repare: devemos aproximar-nos de Deus com uma pausa e uma preparação solenes.
E, ainda que o exercício corporal sozinho pouco aproveite, contudo devemos glorificar a Deus com os nossos corpos, e expressar a nossa reverência interior por um comportamento grave e reverente no culto a Deus, evitando com cuidado tudo o que pareça leviano, e grosseiro, e impróprio para a solenidade temível do serviço.
V. A declaração solene que Deus fez do seu nome, pelo qual seria conhecido de Moisés:
Ele lhe dá a saber que é Deus quem lhe fala: “Eu sou o Deus de teu pai”, v. 6. Isso suscita nele reverência e atenção, fé e obediência; pois a declaração basta para exigir tudo isso: “Eu sou o Senhor”. Ouçamos sempre a palavra como a palavra de Deus, 1 Tessalonicenses 2:13.
Ele será conhecido como o Deus de seu pai, o seu piedoso pai Anrão, e o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, os seus antepassados, e os antepassados de todo o Israel, por quem Deus estava agora a ponto de aparecer. Com isto Deus tinha por desígnio:
(1.) Instruir Moisés no conhecimento de outro mundo, e fortalecer a sua crença num estado futuro.
Assim é interpretado pelo nosso Senhor Jesus, o melhor expositor da Escritura, que disto prova, contra os saduceus, que os mortos ressuscitam.
Moisés, diz ele, mostrou-o na sarça (Lucas 20:37), isto é, Deus ali o mostrou a ele, e nele a nós, Mateus 22:31, etc.
Abraão estava morto, e contudo Deus é o Deus de Abraão; por isso a alma de Abraão vive, com a qual Deus está em relação; e, para tornar a sua alma completamente feliz, o seu corpo deve viver outra vez no devido tempo.
Esta promessa feita aos pais, de que Deus seria o seu Deus, deve incluir uma felicidade futura; porque ele nunca fez por eles neste mundo nada que bastasse para corresponder à vasta extensão e alcance daquela grande palavra.
Mas, tendo preparado para eles uma cidade, ele “não se envergonha de ser chamado o seu Deus”, Hebreus 11:16; e veja Atos 26:6, 7; Atos 24:15.
(2.) Assegurar a Moisés o cumprimento de todas aquelas promessas particulares feitas aos pais.
Ele pode esperar isso com confiança, porque por estas palavras parece que “Deus se lembrou da sua aliança”, Êxodo 2:24. Repare:
[1.] A relação de aliança de Deus conosco, como nosso Deus, é o melhor apoio nos piores tempos, e um grande ânimo para a nossa fé nas promessas particulares.
[2.] Quando temos consciência da nossa própria grande indignidade, podemos tirar consolo da relação de Deus com os nossos pais, 2 Crônicas 20:6.
VI. A impressão solene que isto fez sobre Moisés: ele escondeu o seu rosto, como quem está tanto envergonhado quanto temeroso de olhar para Deus.
Agora que sabia que era uma luz divina, os seus olhos ficaram ofuscados por ela; ele não teve medo de uma sarça ardente até perceber que Deus estava nela.
Sim, e ainda: embora Deus se chamasse o Deus de seu pai, e um Deus em aliança com ele, contudo ele teve medo. Repare:
Quanto mais vemos de Deus, mais motivo veremos para adorá-lo com reverência e temor piedoso.
Até mesmo as manifestações da graça de Deus e do seu amor de aliança devem aumentar a nossa humilde reverência para com ele.
Versículo 7
A Compaixão de Deus pelos Israelitas. (a.C. 1491.)
Agora que Moisés tinha tirado as sandálias (pois, sem dúvida, ele observou as ordens que lhe foram dadas, v. 5) e coberto o rosto, Deus passa ao assunto específico que agora devia ser acertado: a saída de Israel do Egito.
Agora, depois de quarenta anos da servidão de Israel e do desterro de Moisés, quando podemos supor que tanto ele quanto eles começavam a desesperar — eles de serem libertados e ele de libertá-los —, enfim chegou o tempo, o próprio ano dos remidos.
Repare: Deus muitas vezes vem para a salvação do seu povo quando eles já deixaram de esperar por ele. “Achará ele fé?” Lucas 18:8. Aqui está:
I. A atenção que Deus dá às aflições de Israel (v. 7, 9): vendo, vi — não apenas “certamente vi”, mas observei e considerei o assunto com rigor. Deus tomou conhecimento de três coisas:
As suas dores, v. 7. É provável que não lhes fosse permitido apresentar um protesto das suas queixas a Faraó, nem buscar alívio contra os seus feitores em nenhum dos tribunais dele, nem mal ousassem queixar-se uns aos outros; mas Deus observou as lágrimas deles. Repare: até as dores secretas do povo de Deus são conhecidas dele.
O seu clamor: “Ouvi o seu clamor” (v. 7), “chegou até mim”, v. 9. Repare: Deus não é surdo aos clamores do seu povo aflito.
A tirania dos seus perseguidores: “Tenho visto a opressão”, v. 9. Repare: assim como os mais pobres dos oprimidos não estão abaixo do conhecimento de Deus, assim os mais altos e maiores dos seus opressores não estão acima do freio dele, mas ele certamente visitará por estas coisas.
II. A promessa que Deus faz da sua rápida libertação e da liberdade que ela lhes traria: ele desceu para libertá-los, v. 8:
Isso denota a resolução dele de libertá-los, e que o seu coração estava nisso, de modo que seria feito com rapidez e eficácia, e por métodos fora do caminho comum da providência. Quando Deus faz algo muito extraordinário, diz-se que ele desce para fazê-lo, como Isaías 64:1.
Esta libertação era figura da nossa redenção por Cristo, na qual a Palavra eterna de fato desceu do céu para nos libertar: era esse o seu encargo no mundo.
Ele promete também o feliz estabelecimento deles na terra de Canaã, que trocariam a servidão pela liberdade, a pobreza pela abundância, o trabalho pelo descanso, e a condição precária de arrendatários a bel-prazer alheio pela tranquilidade e honra de senhores proprietários.
Repare: aquele a quem Deus liberta, pela sua graça, de um Egito espiritual, ele levará a um Canaã celestial.
III. A comissão que ele dá a Moisés com vistas a isso, v. 10.
Ele não é enviado apenas como profeta a Israel, para lhes assegurar que seriam rapidamente libertados (mesmo isso teria sido um grande favor), mas é enviado como embaixador a Faraó, para tratar com ele, ou antes como arauto de armas, para exigir a libertação deles e para declarar guerra em caso de recusa; e é enviado como príncipe a Israel, para conduzi-los e comandá-los.
Assim ele é tirado de seguir “as ovelhas prenhes” para um ofício pastoral muito mais nobre, como Davi, Salmos 78:71.
Repare: Deus é a fonte do poder, e as autoridades que existem são ordenadas por ele como ele quer.
A mesma mão que agora foi buscar um pastor num deserto, para ser o plantador de uma igreja judaica, depois foi buscar pescadores dos seus barcos, para serem os plantadores da igreja cristã, para que a excelência do poder fosse de Deus.
Versículo 11
Instruções Dadas a Moisés. (a.C. 1491.)
Deus, tendo falado a Moisés, permite-lhe também uma liberdade de fala, que ele aqui aproveita; e:
I. Ele objeta a sua própria insuficiência para o serviço a que foi chamado (v. 11): “Quem sou eu?” Ele se julga indigno da honra, e não par negotio — não à altura da tarefa.
Ele acha que lhe falta coragem, e por isso não pode ir a Faraó fazer uma exigência que poderia custar a cabeça de quem a fazia; acha que lhe falta habilidade, e por isso não pode tirar os filhos de Israel do Egito.
Eles estão desarmados, sem disciplina, completamente desanimados, totalmente incapazes de se ajudar; é moralmente impossível tirá-los de lá.
- Moisés era, sem comparação, o mais apto de todos os homens vivos para esta obra, eminente em saber, sabedoria, experiência, valor, fé e santidade; e mesmo assim ele diz: “Quem sou eu?”
Repare: quanto mais apta uma pessoa é para o serviço, comumente menor é a opinião que tem de si mesma; veja Juízes 9:8, etc.
- As dificuldades da obra eram de fato muito grandes, bastantes para assustar a coragem e abalar a fé do próprio Moisés.
Repare: até instrumentos sábios e fiéis podem ficar muito desanimados diante das dificuldades que estão no caminho da salvação da igreja.
Moisés tinha sido antes muito corajoso, quando matou o egípcio, mas agora o coração lhe faltou; pois os homens bons nem sempre são igualmente ousados e zelosos.
Contudo, Moisés é o homem que ao fim o faz; pois Deus dá graça aos humildes. Começos modestos são presságios muito bons.
II. Deus responde a esta objeção, v. 12:
- Ele lhe promete a sua presença: “Certamente eu serei contigo”, e isso basta. Repare: os que são fracos em si mesmos podem, contudo, fazer maravilhas, sendo fortes no Senhor e na força do seu poder; e os que mais desconfiam de si mesmos podem ser os que mais confiam em Deus.
A presença de Deus põe honra sobre os que nada valem, sabedoria e força nos fracos e insensatos, faz as maiores dificuldades minguarem até o nada, e basta para responder a todas as objeções.
- Ele lhe assegura o sucesso, e que os israelitas serviriam a Deus neste monte. Repare:
(1.) As libertações mais valiosas são as que nos abrem uma porta de liberdade para servir a Deus.
(2.) Se Deus nos dá oportunidade e um coração para servi-lo, isso é um penhor feliz e animador de favores ulteriores que nos são destinados.
III. Ele pede instruções para a execução da sua comissão, e as recebe, para equipá-lo por inteiro. Ele deseja saber por que nome Deus se daria a conhecer neste momento, v. 13.
- Ele supõe que os filhos de Israel lhe perguntariam: “Qual é o nome dele?” Eles perguntariam isso, ou:
(1.) Para embaraçar Moisés: ele previa dificuldade, não só em lidar com Faraó, para torná-lo disposto a separar-se deles, mas em lidar com eles, para torná-los dispostos a mudar-se.
Eles seriam escrupulosos e propensos a contestar, mandariam que ele apresentasse a sua comissão, e provavelmente esta seria a prova: “Ele sabe o nome de Deus? Ele tem a senha?”
Uma vez lhe perguntaram: “Quem te fez juiz?” Naquela ocasião ele não tinha a resposta pronta, e não queria ficar sem saída assim outra vez, mas seria capaz de dizer em nome de quem vinha.
Ou, (2.) Para a sua própria informação. É de temer que tivessem se tornado muito ignorantes no Egito, por causa da sua dura servidão, da falta de mestres e da perda do sábado, de modo que precisavam que lhes fossem ditos os primeiros princípios dos oráculos de Deus.
Ou esta pergunta, “Qual é o nome dele?”, equivalia a uma indagação sobre a natureza da dispensação que agora deviam esperar: “Como Deus nela se dará a conhecer a nós, e com o que podemos contar da parte dele?”
- Ele deseja instruções sobre que resposta lhes dar: “Que lhes direi? Que nome lhes apresentarei como prova da minha autoridade? Preciso ter algo grande e extraordinário para lhes dizer; que deve ser? Se devo ir, que eu tenha instruções completas, para não correr em vão.” Repare:
(1.) Interessa muito aos que falam ao povo em nome de Deus estarem bem preparados de antemão.
(2.) Os que quiserem saber o que dizer devem ir a Deus, à palavra da sua graça e ao trono da sua graça, em busca de instruções, Ezequiel 2:7; 3:4, 10, 17.
(3.) Sempre que temos algo a tratar com Deus, é desejável saber, e é nosso dever considerar, qual é o seu nome.
IV. Deus prontamente lhe dá instruções completas neste assunto. Dois nomes pelos quais Deus agora se daria a conhecer:
- Um nome que denota o que ele é em si mesmo (v. 14): “Eu sou o que sou”. Isto explica o seu nome Jeová, e significa:
(1.) Que ele existe por si mesmo; tem o seu ser de si mesmo, e não depende de nenhum outro: o maior e melhor homem do mundo tem de dizer: “Pela graça de Deus sou o que sou”; mas Deus diz de modo absoluto — e é mais do que qualquer criatura, homem ou anjo, pode dizer —: “Eu sou o que sou”.
Existindo por si mesmo, ele não pode deixar de ser suficiente por si, e por isso todo-suficiente, e a fonte inesgotável do ser e da bem-aventurança.
(2.) Que ele é eterno e imutável, e sempre o mesmo, ontem, hoje e para sempre; ele será o que será e o que é; veja Apocalipse 1:8.
(3.) Que não podemos, por mais que busquemos, descobri-lo. Este é um nome que refreia todas as indagações ousadas e indiscretas a respeito de Deus e que, na prática, nos diz que não perguntemos pelo seu nome, “visto que é secreto”, Juízes 13:18; Provérbios 30:4.
Perguntamos o que é Deus? Baste-nos saber que ele é o que é, o que sempre foi e sempre será. “Que pequena porção se ouve dele!”, Jó 26:14.
(4.) Que ele é fiel e verdadeiro em todas as suas promessas, imutável tanto na sua palavra quanto na sua natureza, e não é homem para que minta. Saiba Israel isto: “EU SOU me enviou a vós”.
- Um nome que denota o que ele é para o seu povo. Para que aquele nome EU SOU não os desnorteie e confunda, ele é ainda instruído a usar outro nome de Deus, mais familiar e inteligível: “O Senhor Deus dos vossos pais me enviou a vós” (v. 15).
Foi assim que Deus se dera a conhecer a ele (v. 6), e assim ele deve dá-lo a conhecer a eles:
(1.) Para que reavive entre eles a religião dos seus pais, que, é de temer, estava muito decaída e quase perdida. Isso era necessário para prepará-los para a libertação, Salmos 80:19.
(2.) Para que levante neles a expectativa do rápido cumprimento das promessas feitas aos seus pais.
Abraão, Isaque e Jacó são nomeados particularmente, porque com Abraão a aliança foi feita primeiro, e com Isaque e Jacó muitas vezes expressamente renovada; e estes três foram distinguidos dos seus irmãos, e escolhidos para serem os depositários da aliança, quando os seus irmãos foram rejeitados.
Deus quer que este seja o seu nome para sempre, e tem sido, é e será o seu nome, pelo qual os seus adoradores o conhecem, e o distinguem de todos os falsos deuses; veja 1 Reis 18:36.
Repare: a relação de aliança de Deus com o seu povo é aquilo de que ele sempre se lembrará, aquilo em que ele se gloria, e aquilo que ele quer que nunca esqueçamos, mas de que lhe demos a glória.
Se ele quer que este seja o seu memorial para todas as gerações, temos toda a razão do mundo para fazer que assim seja conosco, porque é um memorial precioso.
Versículo 16
Aqui Moisés é instruído mais particularmente na sua obra e informado de antemão do seu êxito.
- Ele deve tratar com os anciãos de Israel e levantar neles a expectativa de uma rápida mudança para Canaã, v. 16, 17. Deve repetir a eles o que Deus lhe tinha dito, como embaixador fiel.
Repare: o que os ministros receberam do Senhor eles devem proferir ao povo dele, e não reter nada que seja proveitoso.
Ponha ênfase nisto, v. 17: “Eu disse: Eu vos farei subir”; isso basta para satisfazê-los: ele o disse. Ele falou, e não o cumprirá?
Entre nós, dizer e fazer são duas coisas, mas não é assim com Deus, porque ele está num só propósito, e quem pode desviá-lo? “Eu o disse, e o mundo inteiro não pode contradizê-lo. O meu conselho subsistirá.”
O êxito dele com os anciãos de Israel seria bom; é o que lhe é dito (v. 18): “Eles ouvirão a tua voz”, e não o repelirão como fizeram há quarenta anos.
Aquele que, pela sua graça, inclina o coração e abre o ouvido podia dizer de antemão: “Eles ouvirão a tua voz”, tendo determinado torná-los voluntários neste dia de poder.
- Ele deve tratar com o rei do Egito (v. 18), ele e os anciãos de Israel; e nisto não devem começar com uma exigência, mas com uma humilde petição.
Esse método brando e submisso deve ser tentado primeiro, mesmo com alguém que, era certo, não se deixaria mover por ele: eles lhe rogariam que os deixasse ir.
Além disso, devem apenas pedir licença a Faraó para ir até o monte Sinai adorar a Deus, e não lhe dizer nada de partir de vez para Canaã.
O segundo teria sido rejeitado de imediato, mas o primeiro era um pedido muito modesto e razoável, e negá-lo era inteiramente indesculpável e os justificava no abandono total do reino dele.
Se ele não lhes desse licença para ir sacrificar no Sinai, com justiça iriam eles sem licença estabelecer-se em Canaã.
Repare: os chamados e as ordens que Deus envia aos pecadores são tão altamente razoáveis em si mesmos, e lhes são proferidos de modo tão brando e cativante, que a boca dos desobedientes tem necessariamente de ficar calada para sempre.
Quanto ao seu êxito com Faraó, aqui é dito a Moisés:
(1.) Que petições, persuasões e humildes protestos não o levariam a ceder; não, nem mesmo uma mão poderosa estendida em sinais e prodígios: Deus sabe que Faraó não os deixará ir, v. 19.
Repare: Deus envia os seus mensageiros àqueles cuja dureza e obstinação ele certamente conhece e prevê, para que se veja que ele quer que se convertam e vivam.
(2.) Que as pragas o obrigariam a isso: Deus ferirá o Egito, e então Faraó os deixará ir, v. 20.
Repare: serão certamente quebrados pelo poder da mão de Deus aqueles que não se curvarem ao poder da sua palavra; podemos estar certos de que, quando Deus julga, ele vencerá.
(3.) Que o povo dele seria mais bondoso com eles e os proveria, na sua partida, de abundância de baixelas e joias, para grande enriquecimento deles: “Darei a este povo favor aos olhos dos egípcios”, v. 21, 22. Repare:
[1.] Deus às vezes faz os inimigos do seu povo não só estarem em paz com eles, mas serem bondosos com eles.
[2.] Deus tem muitos modos de acertar as contas entre o injustiçado e o injusto, de fazer justiça ao oprimido e de obrigar os que cometeram o mal a fazer restituição; porque ele se assenta no trono, julgando com retidão.