Matthew Henry

Êxodo 39

Argumento

Este capítulo nos dá o relato do acabamento da obra do tabernáculo.

I. As últimas coisas preparadas foram as vestes santas:

O éfode e o cinto primoroso dele, vv. 1-5. As pedras de ônix para os ombros, v. 6, 7. O peitoral com as pedras preciosas nele, vv. 8-21. O manto do éfode, vv. 22-26. As túnicas, os barretes e os calções, para os sacerdotes inferiores, vv. 27-29. E a lâmina da coroa santa, v. 30, 31.

II. Um relato resumido de toda a obra, como foi apresentada a Moisés quando estava tudo acabado, v. 32, etc.

Versículos 1 a 31

O Tabernáculo e Seus Utensílios. (a.C. 1491.)

Neste relato da confecção das vestes dos sacerdotes, segundo as instruções que haviam sido dadas (Êxodo 28), podemos observar:

  1. Que as vestes dos sacerdotes são chamadas aqui de “vestes do serviço”, v. 1.

Repare: quem usa mantos de honra deve olhá-los como vestes do serviço; porque daqueles sobre quem se põe honra se espera serviço.

Diz-se dos que estão vestidos de mantos brancos que “estão diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu templo”, Apocalipse 7:13, 15.

As vestes santas não foram feitas para os homens dormirem nelas, nem para se pavonearem com elas, mas para nelas prestarem serviço; e então elas são de fato para glória e beleza. O próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir.

  1. Que todos os seis parágrafos daqui, que dão relato distinto da confecção destas vestes santas, terminam com aquelas palavras: “como o Senhor ordenara a Moisés”, v. 5, 7, 21, 26, 29, 31.

Nada semelhante há em nenhum dos relatos anteriores, como se nestas, mais do que em qualquer outro dos utensílios do tabernáculo, houvesse um respeito particular à determinação divina, tanto para autorização quanto para orientação.

É um aviso a todos os ministros do Senhor para que façam da palavra de Deus a sua regra em todas as suas ministrações, e para que ajam em observância e obediência ao mandamento de Deus.

  1. Que estas vestes, em conformidade com o restante dos utensílios do tabernáculo, eram muito ricas e esplêndidas.

A igreja em sua infância era assim ensinada, assim agradada, com os rudimentos deste mundo.

Mas agora, sob o evangelho, que é a ministração do Espírito, adotar e impor trajes tão pomposos como faz a igreja de Roma, sob pretexto de decoro e instrução, é trair a liberdade com que Cristo nos libertou, e enredar de novo a igreja na servidão daquelas ordenanças carnais que foram impostas somente até o tempo da reforma.

  1. Que todas elas eram sombras dos bens vindouros, mas a substância é Cristo, e a graça do evangelho; quando, portanto, a substância já veio, é ridículo ter apreço pela sombra.

(1.) Cristo é o nosso grande sumo sacerdote. Quando ele tomou sobre si a obra da nossa redenção, vestiu as vestes do serviço: revestiu-se dos dons e das graças do Espírito, que ele não recebeu por medida; cingiu-se com o cinto primoroso da resolução, para levar até o fim o que empreendera.

Encarregou-se de todo o Israel espiritual de Deus, levou-os sobre os ombros, carregou-os no seio, pôs-os junto ao coração, gravou-os nas palmas das mãos e apresentou-os ao seu Pai no peitoral do juízo.

E (por último) coroou-se com a santidade ao Senhor, consagrando todo o seu empreendimento à honra da santidade do seu Pai: considere agora quão grande é este homem.

(2.) Os verdadeiros crentes são sacerdotes espirituais. O linho limpo de que devem ser feitas todas as suas vestes do serviço é “a justiça dos santos” (Apocalipse 19:8), e “Santidade ao Senhor” deve estar de tal modo escrito na testa deles que todos os que com eles convivem possam ver, e dizer, que eles trazem a imagem da santidade de Deus e estão dedicados ao louvor dela.

Versículos 32 a 43

O Tabernáculo Concluído. (a.C. 1491.)

Observe aqui: I. Os construtores do tabernáculo fizeram a obra com muita presteza. Não foi muito mais que cinco meses do começo ao acabamento dela.

Ainda que houvesse nela muita obra esmerada, do tipo que costuma ser trabalho de tempo — bordar e gravar, não só em ouro, mas em pedras preciosas —, contudo eles a levaram até o fim em pouco tempo.

Obra de igreja costuma ser obra lenta, mas eles fizeram esta depressa, e ainda assim com a maior exatidão imaginável. Porque:

  1. Muitas mãos foram empregadas, todas unânimes, e não contendendo umas com as outras. Isso apressou o negócio e o tornou fácil.

  2. Os operários eram ensinados por Deus, e assim foram guardados de cometer erros grosseiros, que os teriam atrasado.

  3. O povo era sincero e zeloso na obra, e impaciente até que ela ficasse acabada. Deus tinha preparado o coração deles, e então a coisa foi feita de repente, 2 Crônicas 29:36.

Resolução e diligência, e uma aplicação alegre da mente, pela graça de Deus, levarão a bom termo muita obra boa em pouco tempo, em menos do que se esperaria.

II. Eles observaram pontualmente as ordens que tinham, e não se afastaram delas nem um pouco. Fizeram “conforme tudo o que o Senhor ordenou a Moisés”, v. 32, 42.

Repare: a obra de Deus tem de ser feita, em tudo, segundo a vontade dele. As instituições dele não precisam nem admitem invenções humanas que as tornem ou mais belas ou mais aptas a corresponder à intenção que têm.

“Não acrescentes às suas palavras.” Deus se agrada do culto prestado de boa vontade, mas não do culto inventado pela vontade humana.

III. Eles trouxeram toda a sua obra a Moisés, e a submeteram à inspeção e à avaliação dele, v. 33. Ele sabia o que lhes tinha mandado fazer.

E agora os itens foram chamados um a um, e tudo foi apresentado, para que Moisés pudesse ver tanto que eles tinham feito tudo, sem omitir nada, quanto que tinham feito tudo segundo as instruções que lhes foram dadas, e para que, se tivessem errado em alguma coisa, o erro fosse retificado imediatamente.

Assim eles mostraram respeito a Moisés, que estava posto sobre eles no Senhor, sem objetar que Moisés não entendia daquele tipo de obra e que, por isso, não havia razão para submetê-la ao juízo dele.

Não: aquele Deus que lhes deu conhecimento bastante para fazer a obra deu-lhes também humildade bastante para estarem dispostos a que ela fosse examinada e comparada com o modelo.

Moisés tinha autoridade, e eles queriam prestar deferência ao lugar dele. “O espírito dos profetas está sujeito aos profetas.”

E além disso, ainda que soubessem fazer a obra melhor que Moisés, Moisés tinha uma ideia melhor e mais exata do modelo do que eles, e por isso não podiam ficar satisfeitos com a própria obra sem a aprovação dele.

Assim, em todos os serviços da religião devemos trabalhar para sermos aceitos pelo Senhor.

IV. Moisés, ao examinar, achou tudo feito segundo a regra, v. 43.

Moisés, tanto para a satisfação deles quanto para a sua própria, olhou toda a obra, peça por peça, e eis que a tinham feito segundo o padrão que lhe fora mostrado, porque o mesmo Ser que lhe mostrou o padrão guiou a mão deles na obra.

Todas as cópias da graça de Deus concordam exatamente com o original dos conselhos dele: o que Deus opera em nós, e por nós, é o cumprimento do beneplácito da bondade dele.

E quando o mistério de Deus estiver consumado, e todas as suas realizações vierem a ser comparadas com os seus propósitos, aparecerá que eis que tudo está feito segundo o conselho da sua própria vontade, da qual nem um jota ou til cairá por terra nem será alterado.

V. Moisés os abençoou.

  1. Ele os elogiou, e manifestou a sua aprovação de tudo o que tinham feito. Não achou defeito onde não havia, como fazem alguns, que julgam rebaixar o próprio juízo se não encontram algo errado no melhor e mais perfeito desempenho.

Em toda esta obra é provável que se pudesse ter encontrado aqui e ali um ponto fora do lugar e um traço torto, que serviriam a um crítico excessivamente minucioso e censório para fazer reparos; mas Moisés era benévolo demais para reparar em faltas pequenas onde não havia grandes.

Repare: todos os governantes devem ser louvor para os que fazem o bem, assim como terror para os malfeitores. Por que alguém se orgulharia de ser difícil de contentar?

  1. Ele não só os louvou, mas orou por eles. Ele os abençoou como quem tem autoridade, porque o menor é abençoado pelo maior.

Não lemos de nenhum pagamento que Moisés lhes desse pela obra, mas esta bênção ele lhes deu. Porque, ainda que de ordinário o trabalhador seja digno do seu salário, contudo neste caso:

  1. Eles trabalhavam para si mesmos. A honra e o consolo do tabernáculo de Deus no meio deles seriam recompensa bastante. “Se fores sábio, sábio serás para ti mesmo.”

  2. Tinham o seu alimento vindo do céu sem custo, para si e para as suas famílias, e a sua roupa não envelhecia sobre eles; de modo que não precisavam de pagamento nem tinham razão para esperar algum.

“De graça recebestes, de graça dai.” As obrigações que temos, tanto por dever quanto por interesse, de servir a Deus deveriam bastar para nos animar ao nosso trabalho, ainda que não tivéssemos recompensa à vista.

Mas, 3. Esta bênção, em nome do Senhor, era pagamento bastante para toda a obra deles. Aqueles a quem Deus emprega ele abençoará, e aqueles a quem ele abençoa são abençoados de fato. A bênção que ele ordena é vida para sempre.


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