Êxodo 40
Argumento
Neste capítulo:
I. São dadas ordens para armar o tabernáculo e para fixar nos seus devidos lugares todos os pertences dele (vv. 1-8), para consagrá-lo (vv. 9-11) e para consagrar os sacerdotes, vv. 12-15.
II. Toma-se o cuidado de fazer tudo isso, e de fazê-lo conforme fora determinado, vv. 16-33.
III. Deus toma posse dele pela nuvem, v. 34, etc.
Versículos 1 a 15
O Levantamento do Tabernáculo. (a.C. 1491.)
Os materiais e a mobília do tabernáculo tinham sido examinados separadamente e aprovados, e agora têm de ser postos juntos.
- Deus aqui instrui Moisés a armar o tabernáculo e os utensílios dele nos seus lugares.
Embora a obra do tabernáculo estivesse terminada, e tudo pronto para o levantamento, e o povo, sem dúvida, estivesse muito desejoso de vê-lo de pé, ainda assim Moisés não o ergue enquanto não tem ordem expressa para fazê-lo. É bom ver Deus indo adiante de nós a cada passo, Salmos 37:23.
O tempo para fazer isso é fixado no primeiro dia do primeiro mês (v. 2), quando faltavam só catorze dias para completar um ano desde que saíram do Egito; e muito trabalho foi realizado nesse ano.
Provavelmente a obra só ficou pronta bem no fim do ano, de modo que a marcação desse dia não deu nenhum atraso, ou quase nenhum, a essa boa obra.
Não devemos adiar nenhum dever necessário sob o pretexto de esperar por algum dia notável; a ocasião presente é a mais conveniente.
Mas o fato de o tabernáculo vir a ser armado no primeiro dia do primeiro mês dá a entender que é bom começar o ano com alguma boa obra.
Aquele que é o primeiro tenha o primeiro; e que as coisas do reino dele sejam buscadas primeiro.
No tempo de Ezequias, encontramos que começaram a santificar o templo no primeiro dia do primeiro mês, 2 Crônicas 29:17.
A lua nova (que, pelo cálculo deles, era o primeiro dia de cada mês) era observada por eles com alguma solenidade; por isso esta primeira lua nova do ano foi assim tornada notável.
Repare: quando um ano novo começa, devemos pensar em servir a Deus mais e melhor do que servimos no ano anterior.
Moisés recebe ordem, em particular, de armar primeiro o próprio tabernáculo, no qual Deus habitaria e seria servido (v. 2); depois, de pôr a arca no seu lugar e correr o véu diante dela (v. 3); depois, de fixar a mesa, e o candelabro, e o altar do incenso, do lado de fora do véu (v. 4, 5), e de fixar o reposteiro da porta diante da porta.
Depois, no átrio, ele deve colocar o altar do holocausto e a pia (v. 6, 7); e, por último, deve armar as cortinas do átrio e um reposteiro para a porta do átrio.
E tudo isso seria feito facilmente em um dia, sendo empregadas nisso, sem dúvida, muitas mãos sob a direção de Moisés.
- Ele instrui Moisés a que, depois de armar o tabernáculo e toda a mobília dele, consagre o tabernáculo e a mobília, ungindo-os com o óleo que fora preparado para esse fim, Êxodo 30:25, etc. Lá foi ordenado que isso se fizesse; aqui foi ordenado que se fizesse agora, vv. 9-11.
Observe: cada coisa era santificada quando era posta no seu devido lugar, e não antes disso, porque até então não estava apta para o uso ao qual devia ser santificada. Assim como cada coisa é bela no seu tempo, assim também cada coisa é bela no seu lugar.
- Ele o instrui a consagrar Arão e os filhos dele.
Quando os bens eram trazidos para a casa de Deus, eram marcados primeiro, e então servos eram contratados para levar os vasos do Senhor; e tinham de ser limpos aqueles que eram postos nesse ofício, vv. 12-15. A lei que agora foi ordenado pôr em execução, nós a tivemos antes, Êxodo 29.
Assim, na igreja visível, que é o tabernáculo de Deus entre os homens, é necessário que haja ministros para guardar o encargo do santuário e que eles recebam a unção.
Versículos 16 a 33
Quando o tabernáculo e a mobília dele estavam prontos, eles não adiaram o levantamento até chegarem a Canaã, embora agora esperassem estar lá muito em breve; mas, em obediência à vontade de Deus, armaram-no no meio do seu arraial, enquanto estavam no deserto.
Quem está sem estabelecimento no mundo não deve pensar que isso o desculpará na sua contínua irreligião, como se bastasse começar a servir a Deus quando começar a estar estabelecido no mundo.
Não: um tabernáculo para Deus é companheiro muito necessário e proveitoso mesmo num deserto, sobretudo considerando que os nossos cadáveres podem cair naquele deserto, e que podemos nos estabelecer em outro mundo antes de nos estabelecermos neste.
O levantamento do tabernáculo foi um bom dia de trabalho; a consagração dele e dos sacerdotes foi realizada alguns dias depois. Aqui temos o relato apenas do trabalho daquele dia de ano-novo.
Moisés não só fez tudo o que Deus lhe ordenou fazer, mas na ordem que Deus determinou; porque Deus quer ser buscado na devida ordem.
A cada particular vem acrescentada uma referência expressa à determinação divina, pela qual Moisés se regeu com tanto cuidado e escrúpulo quanto os operários; e por isso, como antes, também aqui se repete “como o Senhor ordenara a Moisés” sete vezes em menos de catorze versículos.
Moisés, por maior homem que fosse, não se arrogaria o direito de afastar-se da instituição, nem para acrescentar-lhe nem para diminuí-la, no mais mínimo pormenor. Quem manda em outros deve lembrar-se de que o seu Amo também está no céu, e que eles têm de fazer o que lhes é ordenado.
- O que devia ser velado, ele velou (v. 21), e o que devia ser usado, ele usou imediatamente, para instrução dos sacerdotes, para que, vendo-o fazer os diversos ofícios, aprendessem a fazê-los com mais destreza.
Embora Moisés não fosse propriamente sacerdote, ele é contado entre os sacerdotes (Salmos 99:6), e os escritores judeus o chamam de sacerdote dos sacerdotes; o que ele fez, fez por mandato e direção especial de Deus, antes como profeta, ou legislador, do que como sacerdote. Ele pôs as rodas a girar, e depois deixou a obra nas mãos do ministério determinado.
(1.) Quando colocou a mesa, pôs em ordem sobre ela os pães da proposição (v. 23); porque Deus nunca quer a sua mesa desguarnecida.
(2.) Assim que fixou o candelabro, acendeu as lâmpadas diante do Senhor, v. 25. Nem mesmo aquela dispensação obscura admitiria velas por acender.
(3.) Estando o altar de ouro posto no seu lugar, imediatamente ele queimou sobre ele incenso aromático (v. 27); porque o altar de Deus tem de ser um altar fumegante.
(4.) Mal o altar do holocausto foi armado no átrio do tabernáculo, ele já tinha um holocausto, e uma oferta de manjares, prontos para oferecer sobre ele, v. 29.
Alguns pensam que, embora isto seja mencionado aqui, só foi feito algum tempo depois; mas parece-me que ele começou imediatamente a cerimônia da consagração dele, embora ela não se completasse senão em sete dias.
(5.) Na pia, do mesmo modo, depois de fixá-la, o próprio Moisés lavou as mãos e os pés.
Assim, em todos estes casos, ele não só mostrou aos sacerdotes como cumprir o seu dever, mas nos ensinou que os dons de Deus se destinam ao uso, e não meramente à ostentação.
Embora os altares, e a mesa, e o candelabro estivessem recém-feitos e novos, ele não disse que era pena sujá-los; não: estreou-os imediatamente. Os talentos foram dados para serem empregados, não para serem enterrados.
Versículos 34 a 38
O Tabernáculo Cheio de Glória. (a.C. 1491.)
Assim como, na criação, tendo Deus acabado esta terra, que ele destinou para habitação do homem, fez o homem e o pôs de posse dela, assim, tendo Moisés acabado o tabernáculo, que fora destinado para morada de Deus entre os homens, Deus veio e tomou posse dele.
A shechinah, a Palavra divina e eterna, embora ainda não se tivesse feito carne, ainda assim veio, como prelúdio daquele acontecimento, e habitou entre eles, João 1:14.
Daí em diante este foi o lugar do seu trono e o lugar das plantas dos seus pés (Ezequiel 43:7); aqui ele residia, aqui ele governava.
Pelos sinais visíveis da vinda de Deus para o meio deles, para tomar posse do tabernáculo, ele testificou tanto o retorno do seu favor para com eles, que haviam perdido ao adorar o bezerro de ouro (Êxodo 33:7), quanto a sua graciosa aceitação de toda a despesa que tinham feito e de todo o cuidado e trabalho que tinham tido com o tabernáculo.
Assim Deus os reconheceu como seus, mostrou-se muito satisfeito com o que tinham feito e os recompensou abundantemente.
Repare: Deus habitará com aqueles que lhe preparam uma habitação. O coração quebrantado e contrito, o coração limpo e santo, que está guarnecido para o serviço dele e dedicado à honra dele, será o seu descanso para sempre; aqui Cristo habitará pela fé, Efésios 3:17.
Onde Deus tem um trono e um altar na alma, ali há um templo vivo. E Deus certamente reconhecerá e coroará as operações da sua própria graça e a observância das suas próprias determinações.
Assim como Deus se tinha manifestado no monte Sinai, assim fez agora neste tabernáculo recém-erguido.
Lemos (Êxodo 24:16) que a glória do Senhor pousava sobre o monte Sinai, da qual se diz que era como fogo devorador (Êxodo 24:17), e que a nuvem o cobria por fora, e a glória do Senhor o enchia por dentro.
A isso provavelmente há uma alusão em Zacarias 2:5, onde Deus promete ser um muro de fogo ao redor de Jerusalém (e a coluna de nuvem era de noite uma coluna de fogo) e a glória no meio dela.
I. A nuvem cobriu a tenda.
Aquela mesma nuvem que, como o carro, ou pavilhão, da shechinah, tinha subido diante deles do Egito e os conduzira até ali, agora se assentou sobre o tabernáculo e pairava sobre ele, mesmo no dia mais quente e mais claro; porque não era nenhuma daquelas nuvens que o sol dispersa.
Esta nuvem era destinada a ser:
- Um sinal da presença de Deus, constantemente visível de dia e de noite (v. 38) a todo o Israel, até àqueles que ficavam nos cantos mais distantes do arraial, para que nunca mais pusessem isso em questão: “Está o Senhor entre nós, ou não está?”
Aquela mesma nuvem, que já tinha sido tão carregada de maravilhas no mar Vermelho e no monte Sinai, o bastante para provar que Deus estava nela de verdade, esteve continuamente à vista de toda a casa de Israel em todas as suas jornadas; de modo que eram indesculpáveis se não cressem nos próprios olhos.
- Um ocultamento do tabernáculo e da glória de Deus nele. Deus de fato habitava entre eles, mas habitava numa nuvem: “Verdadeiramente tu és um Deus que te ocultas.”
Bendito seja Deus pelo evangelho de Cristo, no qual todos nós, com o rosto descoberto, contemplamos como num espelho, e não numa nuvem, a glória do Senhor.
- Uma proteção do tabernáculo. Eles o tinham abrigado com uma cobertura sobre outra, mas, afinal, a nuvem que o cobria era a sua melhor guarda.
Aqueles que habitam na casa do Senhor estão ali escondidos, e estão seguros sob a proteção divina, Salmos 27:4, 5. Contudo isto, que era então um favor particular ao tabernáculo, é prometido a toda morada do monte Sião (Isaías 4:5); porque “sobre toda a glória haverá uma defesa”.
- Um guia para o arraial de Israel na sua marcha pelo deserto, v. 36, 37.
Enquanto a nuvem permanecia sobre o tabernáculo, eles descansavam; quando ela se levantava, eles partiam e a seguiam, estando inteiramente sob direção divina. Disto se fala mais amplamente, Números 9:19; Salmos 78:14; 105:39.
Assim como, antes de o tabernáculo ser armado, os israelitas tinham a nuvem por seu guia, a qual aparecia ora num lugar, ora noutro, mas daí em diante repousou sobre o tabernáculo e só ali devia ser encontrada, assim a igreja teve a revelação divina por seu guia desde o princípio, antes de as Escrituras serem escritas.
Mas desde a composição daquele cânon ela repousa nele como no seu tabernáculo, e só ali deve ser encontrada, assim como na criação a luz que foi feita no primeiro dia se concentrou no sol no quarto dia.
Bendito seja Deus pela lei e pelo testemunho!
II. A glória do Senhor encheu o tabernáculo, v. 34, 35.
A shechinah fez agora uma entrada temível e majestosa no tabernáculo, e pela parte exterior dele passou ao lugar santíssimo, como à câmara da presença, e ali se assentou entre os querubins.
Foi em luz e fogo, e (pelo que sabemos) de nenhum outro modo, que a shechinah se fazia visível; porque Deus é luz; o nosso Deus é um fogo consumidor.
Com estes o tabernáculo estava agora cheio; contudo, assim como antes a sarça não foi consumida, assim agora as cortinas não foram sequer chamuscadas por este fogo; porque para aqueles que receberam a unção a terrível majestade de Deus não é destruidora.
Contudo, tão deslumbrante era a luz e tão terrível era o fogo, que Moisés não pôde entrar na tenda da congregação, à porta da qual ele esperava, até que o esplendor tivesse diminuído um pouco e a glória do Senhor se tivesse recolhido para dentro do véu, v. 35.
Isto mostra quão terríveis são a glória e a majestade de Deus, e quão incapazes são os maiores e os melhores dos homens de se manterem diante dele. A luz e o fogo divinos, manifestados em toda a sua força, dominarão as cabeças mais fortes e os corações mais puros.
Mas o que Moisés não pôde fazer, por causa da fraqueza da carne, foi feito pelo nosso Senhor Jesus, a quem Deus fez chegar-se e aproximar-se, e que, como precursor, entrou por nós e nos convidou a chegar com ousadia até o propiciatório.
Ele pôde entrar no lugar santo não feito por mãos (Hebreus 9:24); mais ainda, ele mesmo é o verdadeiro tabernáculo, cheio da glória de Deus (João 1:14), com a própria graça e verdade divinas prefiguradas por este fogo e por esta luz.
Nele a shechinah tomou o seu descanso para sempre, porque nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente.
Bendito seja Deus por Jesus Cristo!