Matthew Henry

Êxodo 37

Argumento

Bezalel e os seus operários continuam ocupados, fazendo:

I. A arca com o propiciatório e os querubins, vv. 1-9.

II. A mesa com os seus utensílios, vv. 10-16.

III. O candelabro com os seus pertences, vv. 17-24.

IV. O altar de ouro para o incenso, vv. 25-28.

V. O óleo santo e o incenso, v. 29.

A determinação pormenorizada a respeito de cada um deles tivemos antes, em Êxodo 25 e Êxodo 30.

Versículos 1 a 9

O Tabernáculo e Seus Utensílios. (a.C. 1491.)

I. Pode parecer estranho que Moisés, tendo registrado tão amplamente as instruções que lhe foram dadas no monte para a feitura de todas estas coisas, registre aqui com igual pormenor a feitura delas, quando teria bastado apenas dizer, em poucas palavras, que cada uma destas coisas foi feita exatamente segundo as orientações antes recitadas.

Temos certeza de que Moisés, quando escreveu por inspiração divina, não usou vãs repetições; não há palavras ociosas na Escritura. Por que, então, tantos capítulos são ocupados com esta narrativa, que somos tentados a julgar desnecessária e enfadonha? Mas devemos considerar:

  1. Que Moisés escreveu primariamente para o povo de Israel, para quem seria de grande utilidade ler e ouvir falar muitas vezes destes tesouros divinos e sagrados que lhes foram confiados.

O povo não tinha permissão de ver os diversos ornamentos com que o tabernáculo foi equipado; só os sacerdotes os viam. Por isso era necessário descrevê-los ao povo com tanta amplitude e pormenor.

Aquilo que eles devem ler outra vez (para que não deixem de fazê-lo) é escrito outra e outra vez: assim, muitas das mesmas passagens da história de Cristo são no Novo Testamento relatadas por dois ou três, e algumas por quatro dos evangelistas, pela mesma razão.

As grandes coisas da lei e do evangelho de Deus precisamos que nos sejam inculcadas outra e outra vez. “Escrever as mesmas coisas” (diz São Paulo) “não me é penoso, mas para vós é seguro”, Filipenses 3:1.

  1. Moisés queria assim mostrar o grande cuidado que ele e os seus operários tiveram em fazer tudo exatamente segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte.

Tendo antes nos dado o original, ele aqui nos dá a cópia, para que as comparemos e observemos com que exatidão elas concordam.

Assim ele apela a cada leitor quanto à sua fidelidade para com aquele que o constituiu, em toda a sua casa e em todos os pormenores dela, Hebreus 3:5. E assim ele nos ensina a ter respeito a todos os mandamentos de Deus, até a cada iota e til deles.

  1. Fica insinuado com isto que Deus se deleita na obediência sincera do seu povo e mantém um registro exato dela, que será apresentado para honra deles na ressurreição dos justos.

Por mais pontual que alguém seja no seu dever, Deus será igualmente pontual em tomar nota dele. Ele “não é injusto para se esquecer da obra e do trabalho de amor”, em nenhum caso dele, Hebreus 6:10.

  1. As riquezas e belezas espirituais do tabernáculo evangélico são com isto recomendadas à nossa frequente e séria consideração.

Vá, rodeie esta Sião, veja-a e reveja-a: quanto mais você contemplar as glórias da igreja, mais as admirará e mais se apaixonará por elas.

A carta dos seus privilégios e o relato da sua constituição suportam muito bem uma segunda leitura.

II. Nestes versículos temos o relato da feitura da arca, com os seus pertences, gloriosos e cheios de significado: o propiciatório e os querubins.

Considere estas três coisas juntas, e elas representam a glória de um Deus santo, a sinceridade de um coração santo, e a comunhão que há entre eles, em um Mediador e por meio dele.

  1. É a glória de um Deus santo que ele habite entre os querubins; isto é, que seja continuamente acompanhado e adorado pelos anjos bem-aventurados, cuja rapidez foi significada por terem as suas faces voltadas uma para a outra.

  2. É o caráter de um coração reto que, como a arca do testemunho, ele tenha em si a lei de Deus escondida e guardada.

  3. Por Jesus Cristo, a grande propiciação, é feita a reconciliação e é firmada a comunhão entre nós e Deus: ele se interpõe entre nós e o desagrado de Deus; e não só isso, mas por meio dele passamos a ter direito ao favor de Deus.

Se ele escrever a sua lei no nosso coração, ele nos será por Deus e nós lhe seremos por povo.

Do propiciatório ele nos ensinará, ali ele nos aceitará e se mostrará misericordioso para com as nossas iniquidades; e à sombra das suas asas estaremos seguros e tranquilos.

Versículos 10 a 24

Aqui está:

  1. A feitura da mesa sobre a qual os pães da proposição deviam ser continuamente postos. Deus é bom dono de casa, que mantém sempre a mesa farta.

O mundo é o tabernáculo dele? A sua providência nele estende uma mesa para todas as criaturas: ele provê alimento para toda carne.

A igreja é o tabernáculo dele? A sua graça nela estende uma mesa para todos os crentes, guarnecida com o pão da vida. Mas observe quanto a dispensação do evangelho excede a da lei.

Ainda que aqui houvesse uma mesa guarnecida, era só com os pães da proposição, pão para ser olhado, não para ser comido, enquanto estava sobre esta mesa, e depois só pelos sacerdotes; mas à mesa que Cristo estendeu na nova aliança todos os cristãos verdadeiros são convidados; e a eles se diz: “Comei, ó amigos; vinde, comei do meu pão”.

Daquilo que a lei dava apenas uma vista de longe, o evangelho dá o desfrute, e uma acolhida cordial.

  1. A feitura do candelabro, que não era de madeira revestida de ouro, mas obra toda batida, só de ouro puro, v. 17, 22.

Isto significava aquela luz da revelação divina com que a igreja de Deus sobre a terra (que é o tabernáculo dele entre os homens) sempre foi iluminada, sendo sempre suprida de óleo fresco vindo de Cristo, a boa Oliveira, Zacarias 4:2, 3.

As manifestações que Deus faz de si mesmo neste mundo são apenas luz de vela, comparadas com a luz do dia do estado futuro.

A Bíblia é candelabro de ouro; é de ouro puro, Salmos 19:10. Dele a luz se difunde para cada parte do tabernáculo de Deus, para que por ela os seus sacerdotes espirituais possam ver para ministrar ao Senhor e para fazer o serviço do seu santuário.

Este candelabro tem não só as suas taças para o uso necessário, mas também os seus botões e as suas flores para ornamento; há muitas coisas com que Deus achou conveniente embelezar a sua palavra, das quais não podemos dar mais razão do que destes botões e flores, e ainda assim estamos certos de que foram acrescentadas com bom propósito.

Bendigamos a Deus por este candelabro, tenhamos os olhos nele continuamente, e temamos que ele seja removido do seu lugar.

Versículos 25 a 29

Aqui está:

  1. A feitura do altar de ouro, sobre o qual o incenso devia ser queimado diariamente, o que significava tanto as orações dos santos quanto a intercessão de Cristo, à qual se devem a aceitação e o êxito dessas orações.

As argolas e os varais, e todos os pertences deste altar, eram revestidos de ouro, assim como todos os utensílios da mesa e do candelabro eram de ouro, porque estes eram usados no lugar santo.

Deus é o melhor, e devemos servi-lo com o melhor que temos; mas o melhor com que podemos servi-lo nos seus átrios na terra não passa de bronze, comparado com o ouro, a perfeição sem pecado e sem mancha, com que os seus santos o servirão no seu lugar santo lá em cima.

  1. A preparação do incenso que devia ser queimado sobre este altar, e com ele o óleo santo da unção (v. 29), segundo o receituário, Êxodo 30:22, etc.

Deus ensinou a Bezalel também esta arte; de modo que, ainda que não a conhecesse antes, compôs estas coisas segundo a obra do perfumista, com tanta destreza e exatidão como se tivesse sido treinado naquele ofício.

Onde Deus dá sabedoria e graça, isso fará o homem de Deus perfeito, plenamente preparado para toda boa obra.


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