Matthew Henry

Êxodo 34

Argumento

Tendo Deus, no capítulo anterior, dado a entender a Moisés a sua reconciliação com Israel, aqui dá provas disso, passando a firmar a sua aliança e a sua comunhão com eles.

Temos neste capítulo quatro exemplos do retorno do seu favor:

I. As ordens que ele dá a Moisés para subir ao monte na manhã seguinte e levar consigo duas tábuas de pedra, vv. 1-4.

II. O encontro dele com Moisés ali, e a proclamação do seu nome, vv. 5-9.

III. As instruções que ele lhe deu ali, e o convívio que teve com ele por quarenta dias seguidos, sem interrupção, vv. 10-28.

IV. A honra que lhe conferiu quando o mandou descer com o rosto resplandecente, vv. 29-35.

Em tudo isso Deus tratou com Moisés como pessoa pública, e mediador entre ele e Israel, e tipo do grande Mediador.

Versículos 1 a 4

A Proclamação de Deus a Respeito de Si Mesmo. (a.C. 1491.)

Tendo o tratado que corria entre Deus e Israel sido rompido de repente pela adoração do bezerro de ouro, quando a paz foi feita tudo teve de ser começado de novo, não de onde tinham parado, mas do princípio.

Assim os que retrocedem devem arrepender-se e “fazer as suas primeiras obras”, Apocalipse 2:5.

I. Moisés tem de preparar-se para a renovação das tábuas, v. 1. Antes, o próprio Deus providenciou as tábuas e escreveu nelas; agora, Moisés tem de talhar as tábuas, e Deus apenas escreveria nelas.

Assim, na primeira escrita da lei sobre o coração do homem na inocência, tanto as tábuas quanto a escrita eram obra de Deus; mas quando estas foram quebradas e desfiguradas pelo pecado, e a lei divina devia ser preservada nas Escrituras, Deus se serviu nisso do ministério do homem, e de Moisés primeiro.

Mas os profetas e os apóstolos apenas talharam as tábuas, por assim dizer; a escrita continuava sendo de Deus, porque toda a Escritura é dada por inspiração de Deus.

Observe: quando Deus se reconciliou com eles, mandou que as tábuas fossem renovadas e escreveu nelas a sua lei, o que claramente nos dá a entender:

  1. Que, mesmo debaixo do evangelho da paz e da reconciliação por Cristo (do qual a intercessão de Moisés era figura), a lei moral continuaria a obrigar os crentes. Ainda que Cristo nos tenha redimido da maldição da lei, não nos redimiu do mandamento dela; mas continuamos debaixo da lei para com Cristo.

Quando o nosso Salvador, no seu sermão do monte, expôs a lei moral e a defendeu das glosas corrompidas com que os escribas e fariseus a haviam quebrado (Mateus 5:19), ele na prática renovou as tábuas e as fez semelhantes às primeiras, isto é, reduziu a lei ao seu sentido e à sua intenção primitivos.

  1. Que a melhor prova do perdão do pecado e da paz com Deus é a escrita da lei no coração.

O primeiro sinal que Deus deu da sua reconciliação com Israel foi a renovação das tábuas da lei; assim, o primeiro artigo da nova aliança é: “Escreverei a minha lei no coração deles” (Hebreus 8:10), e segue-se (Hebreus 8:12): “porque serei misericordioso para com as injustiças deles”.

  1. Que, se quisermos que Deus escreva a lei nos nossos corações, temos de preparar os nossos corações para recebê-la.

O coração de pedra tem de ser talhado pela convicção da culpa e pela humilhação por causa do pecado (Oseias 6:5), a “superfluidade da malícia” tem de ser removida (Tiago 1:21), o coração alisado e trabalhado, para que a palavra tenha lugar nele.

Moisés talhou, em conformidade, as tábuas de pedra, ou ardósia, porque eram tão leves e finas que ele carregava as duas na mão; e, quanto às dimensões, devem ter sido um pouco menores, e talvez não muito, que a arca em que foram depositadas, que tinha uma jarda e um quarto de comprimento e três quartos de largura.

Ao que parece, não houve nada de particularmente primoroso na feitura delas, porque não se tomou muito tempo; Moisés as teve prontas imediatamente, para levar consigo na manhã seguinte. Deviam receber a sua beleza não da arte do homem, mas do dedo de Deus.

II. Moisés tem de comparecer outra vez no alto do monte Sinai e apresentar-se ali a Deus, v. 2.

Ainda que a ausência de Moisés e a sua permanência tão longa no monte tivessem ocasionado havia pouco a fabricação do bezerro de ouro, nem por isso Deus alterou os seus planos: ele subirá e demorará tanto tempo quanto havia demorado, para provar se eles tinham aprendido a esperar.

Para incutir temor reverente no povo, são instruídos a manter distância; ninguém deve subir com ele, v. 3. Eles tinham dito (Êxodo 32:1): “Não sabemos o que lhe aconteceu”, e Deus não quer deixá-los saber.

Moisés, em conformidade, levantou-se cedo (v. 4) para ir ao lugar designado, para mostrar quão pronto estava para apresentar-se diante de Deus e quão relutante em perder tempo.

É bom chegar cedo às nossas devoções. A manhã talvez seja tão boa amiga das graças quanto o é das musas.

Versículos 5 a 9

Mal Moisés chegou ao alto do monte, Deus veio ao seu encontro (v. 5): “O Senhor desceu”, por algum sinal perceptível da sua presença e manifestação da sua glória.

Sua descida revela sua condescendência; ele se humilha para dar atenção aos que se humilham para andar com ele (Salmos 113:6). Senhor, que é o homem para ser assim visitado?

Ele desceu na nuvem, provavelmente naquela coluna de nuvem que até ali tinha ido adiante de Israel, e que no dia anterior tinha encontrado Moisés à porta do tabernáculo.

Esta nuvem devia incutir temor reverente em Moisés, para que a familiaridade a que era admitido não gerasse desprezo. Os discípulos temeram ao entrar na nuvem.

Ao fazer da nuvem seu pavilhão, ele dava a entender que, embora revelasse muito de si, havia muito mais oculto. Agora observe:

I. Como Deus proclamou o seu nome (v. 6, 7): ele o fez in transitu — ao passar por ele. As visões permanentes de Deus estão reservadas para o estado futuro; as melhores que temos neste mundo são passageiras.

Deus estava agora cumprindo o que tinha prometido a Moisés no dia anterior: que a sua glória passaria, Êxodo 33:22.

Ele proclamou o nome do Senhor, pelo qual se daria a conhecer. Tinha-se dado a conhecer a Moisés na glória da sua existência por si mesmo e da sua autossuficiência, quando proclamou aquele nome: “Eu sou o que sou”.

Agora se dá a conhecer na glória da sua graça, da sua bondade e da sua toda-suficiência para nós.

Agora que Deus está prestes a publicar uma segunda edição da lei, ele a antecede com esta proclamação; porque é a graça, ou bondade, de Deus que dá a lei, especialmente a lei remediadora.

O perdão do pecado de Israel em adorar o bezerro estava agora para ser selado; e Deus, por esta declaração, queria dar-lhes a saber que ele perdoava ex mero motu — meramente por seu próprio beneplácito, não por causa dos méritos deles, mas por sua própria inclinação a perdoar.

O proclamá-lo denota a extensão universal da misericórdia de Deus. Ele não é bom apenas para Israel, mas bom para todos; que todos reparem nisso. Quem tem ouvido, ouça, e conheça, e creia:

  1. Que o Deus com quem temos de tratar é um grande Deus. Ele é Jeová, o Senhor, que tem o seu ser de si mesmo e é a fonte de todo ser; Jeová-El, o Senhor, o Deus forte, ele próprio onipotente e a origem de todo poder.

Isto vem posto antes da exibição da sua misericórdia, para nos ensinar a pensar e a falar até da graça e da bondade de Deus com grande seriedade e santo temor, e para nos encorajar a depender destas misericórdias.

Não são as misericórdias de um homem, que é frágil e débil, falso e volúvel, mas as misericórdias do Senhor, o Senhor Deus; portanto misericórdias seguras e soberanas, em que se pode confiar, mas das quais não se deve abusar.

  1. Que ele é um Deus bom. A sua grandeza e a sua bondade se iluminam e se realçam uma à outra. Para que o terror da sua grandeza não nos amedronte, é-nos dito quão bom ele é; e, para que não presumamos da sua bondade, é-nos dito quão grande ele é.

Muitas palavras se acumulam aqui, para nos dar a conhecer a bondade de Deus e nos convencer dela, e para mostrar o quanto a sua bondade é tanto a sua glória quanto o seu deleite, e ainda assim sem nenhuma tautologia.

(1.) Ele é misericordioso. Isto fala da sua terna compaixão, como a de um pai para com os filhos. Vem posto em primeiro lugar, porque é a primeira roda em todas as demonstrações da boa vontade de Deus para com o homem caído, cuja miséria faz dele objeto de compaixão, Juízes 10:16; Isaías 63:9.

Não tenhamos, então, nem pensamentos duros a respeito de Deus nem corações duros para com os nossos irmãos.

(2.) Ele é gracioso. Isto fala tanto de gratuidade quanto de bondade; dá a entender não só que ele tem compaixão das suas criaturas, mas comprazimento nelas e em fazer-lhes bem, e isto por sua própria boa vontade, e não por causa de coisa alguma que haja nelas.

A sua misericórdia é graça, graça gratuita; isto nos ensina a ser não só compassivos, mas corteses, 1 Pedro 3:8.

(3.) Ele é longânimo. Este é um ramo da bondade de Deus a que a maldade dos pecadores dá ocasião; a de Israel tinha dado: eles tinham posto à prova a paciência dele, e a tinham experimentado.

Ele é longânimo, isto é, é tardio em irar-se, e retarda a execução da sua justiça; espera para ser gracioso, e prolonga as ofertas da sua misericórdia.

(4.) Ele é abundante em bondade e verdade. Isto fala de bondade copiosa, que excede os nossos merecimentos e tudo o que podemos conceber ou expressar.

As fontes da misericórdia estão sempre cheias, as correntes da misericórdia sempre correndo; há misericórdia bastante em Deus, bastante para todos, bastante para cada um, bastante para sempre.

Fala de bondade prometida, de bondade e verdade juntas: bondade assegurada por promessa, com a fidelidade divina empenhada em garanti-la.

Ele não só faz o bem, mas, pela sua promessa, desperta em nós a expectativa de recebê-lo e até se obriga a mostrar misericórdia.

(5.) Ele guarda misericórdia para milhares. Isto denota:

[1.] Misericórdia estendida a milhares de pessoas. Quando dá a uns, continuamente guarda para outros, e nunca se esgota; ele tem misericórdia bastante para todos os milhares de Israel, quando eles se multiplicarem como a areia.

[2.] Misericórdia vinculada a milhares de gerações, até àquelas sobre as quais os fins do mundo chegaram; ou melhor, a linha dela é traçada paralela à da própria eternidade.

(6.) Ele perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado. A misericórdia que perdoa vem especificada, porque nela a graça divina é mais magnificada, e porque é ela que abre a porta a todos os outros dons da sua graça divina, e porque dela ele tinha dado havia pouco uma prova muito expressiva.

Ele perdoa ofensas de toda espécie — iniquidade, transgressão e pecado —, multiplica os seus perdões; e nele há copiosa redenção.

  1. Que ele é um Deus justo e santo. Porque:

(1.) Ele de maneira nenhuma absolverá o culpado. Alguns o leem de modo a exprimir uma mitigação da ira, mesmo quando ele castiga: “Quando esvazia, não faz de todo desolado”; isto é: “Ele não procede à maior extremidade, até que não haja remédio.”

Como nós o lemos, temos de expô-lo assim: que ele de maneira nenhuma será conivente com o culpado, como se não reparasse no pecado dele.

Ou então: ele não absolverá o culpado impenitente, que continuamente segue nas suas transgressões; não absolverá o culpado sem alguma satisfação à sua justiça e sem que seja vindicada a honra do seu governo.

(2.) Ele visita a iniquidade dos pais nos filhos. Ele pode justamente fazê-lo, porque todas as almas são dele, e há no pecado uma malignidade que contamina o sangue. Às vezes ele o fará, especialmente para o castigo dos idólatras.

Assim ele mostra o seu ódio ao pecado e o seu desagrado contra ele; contudo não guarda a sua ira para sempre, mas visita apenas até a terceira e a quarta geração, enquanto guarda a sua misericórdia para milhares.

Pois bem: este é o nome de Deus para sempre, e este é o seu memorial para todas as gerações.

II. Como Moisés recebeu esta declaração que Deus fez de si mesmo, e da sua graça e da sua misericórdia.

Parece que Moisés aceitou isto como resposta suficiente ao seu pedido de que Deus lhe mostrasse a sua glória; porque não lemos que ele tenha entrado na fenda da rocha para dali ver as costas de Deus.

Talvez isto o satisfizesse, e ele não desejou mais; assim como não lemos que Tomé tenha metido a mão no lado de Cristo, ainda que Cristo o convidasse a fazê-lo.

Tendo Deus proclamado assim o seu nome, Moisés diz: “Basta; não espero mais até chegar ao céu”; ao menos ele não achou conveniente relatar o que viu. Agora nos é dito aqui:

  1. Que impressão isso lhe causou: “Moisés se apressou e inclinou a cabeça”, v. 8. Com isso ele exprimiu:

(1.) A sua humilde reverência e adoração da glória de Deus, dando-lhe a honra devida ao nome que assim tinha proclamado. Até a bondade de Deus tem de ser olhada por nós com profunda veneração e santo temor.

(2.) A sua alegria nesta revelação que Deus tinha feito de si mesmo, e a sua gratidão por ela.

Temos razão para reconhecer com gratidão a bondade de Deus para conosco, não só nas manifestações concretas dela, mas nas declarações que ele fez dela pela sua palavra; não só que ele é, e será, gracioso para conosco, mas que se agrada de nos dar a conhecer isso.

(3.) A sua santa submissão à vontade de Deus, dada a conhecer nesta declaração, aceitando tanto a justiça dele quanto a misericórdia e pondo a si mesmo e ao seu povo Israel sob o governo e a direção de um Deus tal como Jeová agora se tinha proclamado ser. Seja este Deus o nosso Deus para todo o sempre.

  1. Que proveito ele tirou disso. Imediatamente fez disso a base de uma oração (v. 9); e é uma oração bem fervorosa e afetuosa:

(1.) Pela presença de Deus com o seu povo Israel no deserto: “Rogo-te que vás no meio de nós, porque a tua presença é tudo para a nossa segurança e o nosso êxito.”

(2.) Pelo perdão do pecado: “Ó, perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado; caso contrário, não podemos esperar que vás no meio de nós.”

E (3.) pelos privilégios de um povo peculiar: “Toma-nos por tua herança, pela qual terás atenção, cuidado e prazer especiais.”

Estas coisas Deus já tinha prometido, e delas tinha dado a Moisés garantias, e ainda assim ele ora por elas, não por duvidar da sinceridade das concessões de Deus, mas como quem está solícito pela ratificação delas. As promessas de Deus não se destinam a substituir a oração, mas a dirigi-la e encorajá-la.

Os que têm alguma boa esperança, pela graça, de que os seus pecados estão perdoados, têm contudo de continuar a orar por perdão, pela renovação desse perdão e para que ele se torne cada vez mais claro à sua alma.

Quanto mais vemos da bondade de Deus, mais envergonhados deveríamos estar dos nossos próprios pecados, e mais fervorosos por ter parte nela.

Deus tinha dito, no fecho da proclamação, que visitaria a iniquidade nos filhos; e Moisés aqui roga contra isso.

“Senhor, não a perdoes só a eles, mas também aos seus filhos, e que a nossa relação de aliança contigo seja vinculada à nossa posteridade, como herança.”

Assim Moisés, como homem de espírito verdadeiramente público, intercede até pelos filhos que nasceriam.

Mas é uma alegação estranha a que ele apresenta: “porque é um povo de dura cerviz”. Deus tinha dado isso como razão pela qual não queria ir com eles, Êxodo 33:3.

“Sim”, diz Moisés, “razão a mais para ires conosco; porque quanto piores eles são, mais precisam da tua presença e da tua graça para torná-los melhores.”

Moisés os vê tão obstinados que, de sua parte, não tem paciência nem poder bastante para lidar com eles.

“Portanto, Senhor, vai tu no meio de nós, senão nunca serão mantidos em temor. Tu pouparás e os suportarás, porque tu és Deus, e não homem”, Oseias 11:9.

Versículos 10 a 17

Uma Advertência Contra a Idolatria. (a.C. 1491.)

Feita a reconciliação, aqui é firmada uma aliança de amizade entre Deus e Israel. Os traidores não são apenas perdoados, mas promovidos e feitos favoritos outra vez.

Bem podem as garantias disso ser introduzidas por um eis, palavra que exige atenção e admiração: “Eis que faço uma aliança.”

Quando a aliança foi quebrada, foi Israel que a quebrou; agora que ela vem a ser renovada, é Deus que a faz.

Se há desavenças, nós temos de levar toda a culpa; se há paz, Deus tem de ter toda a glória. Aqui está:

I. A parte de Deus nesta aliança, o que ele faria por eles, v. 10, 11:

  1. Em geral: “Diante de todo o teu povo farei maravilhas.”

Repare: as bênçãos da aliança são coisas maravilhosas (Salmos 98:1), maravilhas no reino da graça; as mencionadas aqui eram maravilhas no reino da natureza, o secar do Jordão, o parar do sol, etc.

Maravilhas de fato, porque eram sem precedente, “tais como não se fizeram em toda a terra”.

Eram a alegria de Israel e a confirmação da fé deles: o povo de Israel veria e reconheceria a obra do Senhor. E eram o terror dos inimigos deles: “É coisa terrível o que eu farei.” Mais ainda: até o próprio povo de Deus as veria com espanto.

  1. Em particular: “Eu lanço fora de diante de ti o amorreu.”

Deus, como Rei das nações, arranca uns para plantar outros, conforme lhe agrada; como Rei dos santos, abriu lugar para a vide que tirou do Egito, Salmos 80:8, 9. Reinos são sacrificados aos interesses de Israel, Isaías 43:3, 4.

II. A parte deles na aliança: “Observa o que eu te ordeno.” Não podemos esperar o benefício das promessas se não fizermos consciência dos preceitos.

  1. Os dois grandes preceitos são:

(1.) Não adorar outros deuses (v. 14), não dar honra divina a criatura alguma, nem a nenhum nome, seja ele qual for, criado pela imaginação.

A isso se acrescenta uma boa razão. Se você o fizer, será por sua conta e risco: “Porque o Senhor, cujo nome é Zeloso, é um Deus zeloso”, tão sensível nas matérias do seu culto quanto o marido o é na honra do leito conjugal.

O ciúme é chamado de “o furor de um homem” (Provérbios 6:34), mas em Deus é um desagrado santo e justo. Não podem adorar a Deus corretamente os que não o adoram somente a ele.

(2.) Não fazer para si nenhum deus de fundição (v. 17); não adorar o Deus verdadeiro por meio de imagens. Este era o pecado em que havia pouco tinham caído, e por isso são advertidos particularmente contra ele.

  1. Aqui são erguidas cercas em volta destes dois preceitos por meio de outros dois:

(1.) Para que não fossem tentados a adorar outros deuses, não deviam unir-se em parentesco, ou amizade, com os que o faziam (v. 12):

“Guarda-te a ti mesmo”, pois você está em prova quanto à sua conduta. É um pecado para o qual você tem inclinação e que facilmente o assediará; portanto, seja muito cauteloso e abstenha-se de tudo o que se parece com ele e de todo passo em sua direção. Não faça aliança com os habitantes da terra.

Se Deus, por bondade para com eles, lançou fora os cananeus, eles deviam, por dever para com Deus, não os acolher. Que se poderia exigir mais razoável do que isto?

Se Deus faz guerra aos cananeus, que Israel não faça paz com eles. Se Deus cuida de que os cananeus não sejam senhores deles, que eles cuidem de que estes não sejam laços para eles.

Era do interesse civil deles completar a conquista da terra; tanto Deus leva em conta o nosso bem nas leis que nos dá.

Deviam guardar-se particularmente de casar com eles, v. 15, 16. Se desposassem os filhos deles, correriam o perigo de desposar os deuses deles; tal é a corrupção da natureza que os maus têm muito mais probabilidade de corromper os bons do que os bons de reformar os maus.

O caminho do pecado é ladeira abaixo: os que estão em pacto com idólatras virão aos poucos a se enamorar da idolatria; e os que são levados a comer do sacrifício idólatra virão por fim a oferecê-lo. Obsta principiis — corte o mal ainda no broto.

(2.) Para que não fossem tentados a fazer deuses de fundição, deviam destruir totalmente os que encontrassem e tudo o que lhes pertencia, os altares e os bosques (v. 13), para que, se estes ficassem de pé, não fossem levados, com o correr do tempo, ou a usá-los, ou a tomá-los por modelo, ou a afrouxar na sua detestação e no seu pavor da idolatria.

Os vestígios da idolatria devem ser abolidos como afrontas ao Deus santo e grande vergonha para a natureza humana.

Que nunca se diga que homens que alegam usar a razão foram alguma vez culpados de absurdos tais como fazer deuses seus e adorá-los.

Versículos 18 a 27

Festas Solenes Determinadas. (a.C. 1491.)

Aqui está uma repetição de diversas determinações feitas antes, especialmente as que dizem respeito às suas festas solenes.

Quando fizeram o bezerro, proclamaram uma festa em honra dele; agora, para que nunca mais tornassem a fazer isso, são aqui encarregados de observar as festas que Deus tinha instituído.

Repare: os homens não precisam ser afastados da sua religião pela atração dos divertimentos, porque servimos a um Mestre que proveu com abundância para a alegria dos seus servos: a piedade séria é um banquete contínuo, e a alegria em Deus é permanente.

I. Uma vez por semana eles precisam descansar (v. 21), mesmo no tempo de arar e na colheita, as épocas mais atarefadas do ano.

Todos os negócios mundanos têm de ceder lugar a esse descanso santo; o trabalho da colheita prosperará melhor pela observância religiosa do dia de sábado no tempo da colheita.

Com isso devemos mostrar que preferimos a nossa comunhão com Deus, e o nosso dever para com ele, quer ao negócio, quer à alegria da colheita.

II. Três vezes por ano eles precisam celebrar festa (v. 23); então precisam comparecer diante do Senhor Deus, o Deus de Israel.

Em todas as nossas aproximações religiosas a Deus, devemos vê-lo como o Senhor Deus, infinitamente bendito, grande e glorioso, para que o adoremos com reverência e temor piedoso, como o Deus de Israel, Deus em aliança conosco, para que tenhamos ânimo para confiar nele e servi-lo com alegria.

Estamos sempre diante de Deus; mas, nos deveres santos, nós nos apresentamos diante dele, como servos para receber ordens, como suplicantes para pedir favores, e temos razão para fazer as duas coisas com alegria.

Mas poderia ser sugerido que, quando todos os varões de cada parte do país tivessem subido para adorar no lugar que Deus escolhesse, o país ficaria exposto aos ataques dos seus vizinhos; e o que seria das pobres mulheres e crianças, e dos doentes e idosos, que ficavam em casa?

Confie-os a Deus (v. 24): “Nem homem algum desejará a tua terra”; não só não a invadirão, mas nem sequer pensarão em invadi-la. Repare:

  1. Todos os corações estão nas mãos de Deus e sob o seu freio; ele pode pôr restrição não só às ações dos homens, mas aos seus desejos.

Canaã era uma terra desejável, e as nações vizinhas eram bastante gananciosas; e no entanto Deus diz: “Eles não a desejarão.”

Refreemos no nosso próprio coração todos os desejos pecaminosos contra Deus e a sua glória, e então confiemos que ele refreie todos os desejos pecaminosos no coração dos outros contra nós e contra o nosso interesse.

  1. O caminho do dever é o caminho da segurança. Se servirmos a Deus, ele nos preservará; e os que se arriscam por ele nunca perderão por causa dele.

Enquanto estamos empregados na obra de Deus e nos dedicamos a ele, somos tomados sob proteção especial, como os nobres e os membros do parlamento são isentos de prisão.

III. As três festas são aqui mencionadas, com os seus apêndices:

  1. A páscoa, e a festa dos pães asmos, em memória do seu livramento do Egito; e a isso se anexa a lei da redenção dos primogênitos, vv. 18-20. Esta festa foi instituída em Êxodo 12:13, e reforçada outra vez em Êxodo 23:15.

  2. A festa das semanas, isto é, a de pentecostes, sete semanas depois da páscoa; e a isso se anexa a lei das primícias.

  3. A festa da recolha no fim do ano, que era a festa dos tabernáculos (v. 22): dessas também ele tinha falado antes, Êxodo 23:16.

Quanto às leis aqui repetidas (v. 25, 26), a que é contra o fermento se refere à páscoa, a das primícias à festa de pentecostes, e por isso a que é contra cozer o cabrito no leite da sua mãe muito provavelmente se refere à festa da recolha.

Nela Deus não queria que usassem aquela cerimônia supersticiosa, com a qual provavelmente tinham visto os egípcios, ou alguma outra das nações vizinhas, abençoar as suas colheitas.

IV. Com essas leis, aqui repetidas, é provável que tudo o que lhe foi dito quando esteve antes sobre o monte fosse igualmente repetido, e o modelo do tabernáculo lhe fosse mostrado de novo, para que o abalo e o desconcerto em que o bezerro de ouro o tinha posto não o tivessem privado das ideias que tinha na mente do que vira e ouvira.

Também em sinal de uma reconciliação completa, e para mostrar que “nem um jota nem um til” da lei passaria, mas que tudo seria cuidadosamente preservado pelo grande Mediador, que “não veio para destruir, mas para cumprir”, Mateus 5:17, 18. E no fecho:

  1. Moisés recebe ordem de escrever estas palavras (v. 27), para que o povo pudesse conhecê-las melhor por uma leitura frequente, e para que fossem transmitidas às gerações vindouras.

Nunca poderemos ser suficientemente gratos a Deus pela palavra escrita.

  1. É-lhe dito que, segundo o teor destas palavras, Deus faria uma aliança com Moisés e com Israel; não com Israel sem mediação, mas com eles em Moisés, mediador.

Assim a aliança da graça é feita com os crentes por meio de Cristo, que é “dado por aliança ao povo”, Isaías 49:8.

E, assim como aqui a aliança foi feita segundo o teor do mandamento, assim ainda é; porque pelo batismo somos trazidos para dentro da aliança, para que sejamos ensinados a “observar todas as coisas que Cristo nos tem ordenado”, Mateus 28:19, 20.

Versículos 28 a 35

O Véu de Moisés. (a.C. 1491.)

Aqui está:

I. A permanência de Moisés no monte, onde foi milagrosamente sustentado, v. 28.

Ele esteve ali em comunhão muito íntima com Deus, sem interrupção, quarenta dias e quarenta noites, e não achou o tempo longo.

Quando nos cansamos de uma ou duas horas passadas em dedicação a Deus e na adoração dele, devíamos pensar em quantos dias e noites Moisés passou com ele, e no dia eterno que esperamos passar louvando-o.

Durante todo esse tempo Moisés não comeu nem bebeu. Embora já antes tivesse sido mantido tanto tempo em jejum, desta segunda vez ele não levou consigo provisão para tantos dias, mas creu que o homem não vive só de pão, e se animou com a experiência que tinha da verdade disso.

Tanto tempo ele continuou sem alimento e sem bebida (e provavelmente sem sono também), porque:

  1. O poder de Deus o sustentava, de modo que ele não precisava disso. Aquele que fez o corpo pode alimentá-lo sem os meios ordinários, que ele usa, mas aos quais não está preso. A vida é mais que o alimento.

  2. A sua comunhão com Deus o entretinha, de modo que ele não desejava isso. Ele tinha alimento para comer que o mundo não conhecia, porque era o seu alimento e a sua bebida ouvir a palavra de Deus e orar.

A satisfação abundante que a sua alma tinha na palavra de Deus e nas visões do Todo-Poderoso o fazia esquecer o corpo e os prazeres dele.

Quando Deus queria regalar o seu favorito Moisés, não era com alimento e bebida, mas com a sua luz, a sua lei e o seu amor, com o conhecimento de si mesmo e da sua vontade; então o homem comia de fato a comida dos anjos.

Veja o que devemos valorizar como o mais verdadeiro prazer. O reino de Deus não é alimento e bebida, nem a abundância nem o requinte da comida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

Como Moisés, também Elias e Cristo jejuaram quarenta dias e quarenta noites. Quanto mais mortos estamos para os deleites dos sentidos, mais bem preparados estamos para os prazeres do céu.

II. A descida de Moisés do monte, grandemente enriquecido e milagrosamente adornado:

  1. Ele desceu enriquecido com o melhor tesouro, porque trazia nas mãos as duas tábuas da lei, escritas com o dedo de Deus, v. 28, 29.

É grande favor ter-nos sido dada a lei; esse favor foi mostrado a Israel, Salmos 147:19, 20. É grande honra ser empregado em expor a lei de Deus a outros; essa honra foi feita a Moisés.

  1. Ele desceu adornado com a melhor beleza, porque a pele do seu rosto resplandecia, v. 29.

Desta vez em que esteve no monte ele ouviu apenas o que já ouvira antes, mas viu mais da glória de Deus; e, tendo-a contemplado a rosto descoberto, foi em alguma medida “transformado na mesma imagem, de glória em glória”, 2 Coríntios 3:18.

Da última vez ele desceu do monte com a glória de magistrado, para franzir o cenho contra a idolatria de Israel e castigá-la; agora, com a glória de anjo, com novas de paz e reconciliação.

Então veio com vara, agora com espírito de mansidão. Ora:

(1.) Isto pode ser visto:

[1.] Como grande honra feita a Moisés, para que o povo nunca mais questionasse a sua missão nem pensasse ou falasse levianamente dele.

Ele trazia as suas credenciais no próprio semblante, que, alguns pensam, conservou, enquanto ele viveu, alguns restos dessa glória; o que talvez tenha contribuído para o vigor da sua velhice.

Não podia embaciar-se aquele olho que havia visto a Deus, nem enrugar-se aquele rosto que resplandecera com a glória dele.

Os israelitas não podiam olhá-lo no rosto sem que tivessem de ler ali a sua comissão. Assim se fez ao homem a quem o Rei dos reis se agradou de honrar.

Contudo, depois disso, murmuraram contra ele; porque as provas mais perceptíveis não vencem por si mesmas uma incredulidade obstinada.

O resplendor do rosto de Moisés foi grande honra para ele; contudo aquilo não era glória, em comparação com a glória que a excedia.

Lemos do nosso Senhor Jesus não só que o seu rosto resplandeceu como o sol, mas também todo o seu corpo, porque “a sua veste era branca e reluzente”, Lucas 9:29.

Mas, quando ele desceu do monte, deixou inteiramente de lado essa glória, sendo vontade dele que andássemos por fé, e não por vista.

[2.] Foi também grande favor para o povo, e lhes deu ânimo, que Deus pusesse essa glória sobre ele, que era o intercessor deles, dando-lhes com isso a garantia de que ele era aceito, e eles através dele.

Assim a exaltação de Cristo, o nosso advogado junto ao Pai, é o grande apoio da nossa fé.

[3.] Foi o efeito da sua visão de Deus. A comunhão com Deus:

Primeiro, faz o rosto resplandecer em honra verdadeira. A piedade séria põe um brilho no semblante do homem, tal que impõe estima e afeição.

Segundo, deve fazer o rosto resplandecer em santidade universal. Quando estivemos no monte com Deus, devemos deixar a nossa luz brilhar diante dos homens, em humildade, mansidão e em todas as expressões de uma conduta celestial.

Assim deve estar sobre nós a beleza do Senhor nosso Deus, sim, a beleza da santidade, para que todos com quem convivemos reconheçam “que estivemos com Jesus”, Atos 4:13.

(2.) Quanto ao resplendor do rosto de Moisés, observe aqui:

[1.] Moisés não estava ciente disso: “ele não sabia que a pele do seu rosto resplandecia”, v. 29. Assim:

Primeiro, é a infelicidade de alguns que, embora o seu rosto resplandeça em graça verdadeira, eles não o saibam, para tomar o consolo disso. Os seus amigos veem muito de Deus neles, mas eles mesmos estão prontos a pensar que não têm graça nenhuma.

Segundo, é a humildade de outros que, embora o seu rosto resplandeça em dons eminentes e em utilidade, eles não o saibam, para se envaidecerem com isso.

Qualquer beleza que Deus ponha sobre nós, devemos estar continuamente cheios de um humilde senso da nossa própria indignidade e das nossas múltiplas fraquezas, o que nos fará até ignorar e esquecer aquilo que faz o nosso rosto resplandecer.

[2.] Arão e os filhos de Israel viram-no, e tiveram medo, v. 30.

A verdade disso foi atestada por uma multidão de testemunhas, que também estavam conscientes do terror disso.

Não só lhes ofuscou os olhos, como lhes incutiu tal temor reverente que os obrigou a recuar.

Provavelmente duvidavam se aquilo era sinal do favor de Deus ou do seu desagrado; e, embora parecesse mais provável ser bom presságio, estando conscientes da culpa, temeram o pior, especialmente lembrando a postura em que Moisés os encontrou quando desceu do monte da vez anterior.

A santidade impõe reverência; mas o senso do pecado faz os homens terem medo dos seus amigos, e até daquilo que realmente é um favor para eles.

[3.] Moisés pôs um véu sobre o rosto, quando percebeu que ele resplandecia, v. 33, 35.

Primeiro, isto nos ensina a todos uma lição de modéstia e humildade. Devemos contentar-nos com que as nossas excelências fiquem obscurecidas, e com que se corra um véu sobre elas, não cobiçando fazer boa figura na carne.

Os que desejam de verdade ser reconhecidos e aceitos por Deus desejarão igualmente que os homens não reparem neles nem os aplaudam. Qui bene latuit, bene vixit — há um ocultamento louvável.

Segundo, ensina aos ministros que se acomodem à capacidade do povo, e que lhe preguem conforme ele é capaz de suportar.

Que se vele toda arte e todo saber que tendam mais ao deslumbramento do que à edificação, e que o forte condescenda com as fraquezas do fraco.

Terceiro, este véu significava a escuridão daquela dispensação. As instituições cerimoniais tinham em si muito de Cristo, muito da graça do evangelho, mas um véu foi corrido sobre isso, de modo que os filhos de Israel não podiam ver distinta e firmemente aqueles bens vindouros dos quais a lei tinha a sombra.

Era beleza velada, ouro na mina, pérola na concha; mas, graças a Deus, pelo evangelho a vida e a imortalidade são trazidas à luz, e o véu é tirado de sobre o Antigo Testamento.

Contudo ele ainda permanece sobre o coração daqueles que fecham os olhos contra a luz. Assim o apóstolo expõe esta passagem, 2 Coríntios 3:13-15.

[4.] Quando Moisés entrava diante do Senhor, para falar com ele no tabernáculo da reunião, tirava o véu, v. 34.

Então não havia ocasião para ele; e, diante de Deus, todo homem aparece e tem de aparecer sem véu, porque todas as coisas estão nuas e descobertas aos olhos daquele com quem temos de tratar, e é loucura da nossa parte pensar em ocultar ou disfarçar qualquer coisa.

Todo véu tem de ser posto de lado quando vimos apresentar-nos ao Senhor.

Isto significava também, como se explica (2 Coríntios 3:16), que quando uma alma se converte ao Senhor o véu é tirado, e a rosto descoberto ela pode contemplar a glória dele.

E quando chegarmos diante do Senhor no céu, para estar ali falando com ele para sempre, o véu não será tirado só da glória divina, mas do nosso coração e dos nossos olhos, para que vejamos como somos vistos, e conheçamos como somos conhecidos.


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